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Santa Cruz Das Almas

 Das margens arenosas do Rio São Gonçalo até os manguezais do Rio Gonçalinho. Das ondas calmas da Praia das Amendoeiras aos pés da Serra das Almas, todo habitante Santa Cruzalmense tinha algumas certezas incontestáveis. Duas delas eram: quando as moscas se amontoam dentro de casa é sinal de chuva forte vindo. E que, quando se tem um problema de saúde inexplicável, somente Vó Zezinha dava jeito.  
 Naquela manhã quente, começo de outono, as moscas faziam reunião na casa de Bento. Mas, os insetos batendo no rosto e fazendo zoada pela cozinha eram problema pequeno. Tão pequeno que passava despercebido por entre a angústia daquela família.
 Bento casou pra mais de ano. Teve festa. Muita gente. Um boi e três cabritos, cortesia do pai de Marluce. A moça pegou barriga pouco depois e foi uma felicidade só. "Mais um Bento no mundo", dizia Luiz. Mas, a alegria se transformou em estranheza lá pelo décimo mês de gravidez.
 Talvez tivessem errado as contas, pensavam. A parteira disse que todos os sinais eram de que ainda não estava na hora, o médico da cidade, também.
 Marluce nada sentiu até chegar ao 12º mês.
 Era dia de São José. Estavam na festa da Capelinha quando Marluce deu um grito tão alto que fez a música e o rastapé pararem, de solavanco e todos correrem ao socorro dela. Daí pra lá, alternava entre o desespero da dor e momentos de um sono tão pesado que parecia que não iria acordar mais.
 Luiz tentou o médico, mas, o doutor estava fora. Queria levar a esposa até outra cidade, mas, qualquer tentativa causava tanta dor e desconforto que fazia qualquer um desistir.
 Só restava uma alternativa: trazer Vó Zezinha até Marluce.
 Bento saiu de casa apressado. Documento e algum dinheiro no bolso da frente da camisa.
 – Leva uma sombrinha, Luiz! Vai cair um pé d'água!
 – Deixa quieto, mãe. Carece não. Chuva é só água do céu. Volto logo. Volto com a Vó!
 – Vai com Deus e Nossa Senhora, meu filho! Deixa que eu cuido de Marluce.
 A luz do sol ainda nascia tímida quando Ziza entrou na cozinha.
 O cheiro de café fresco, o rádio ligado tocando baixinho um louvor evangélico. Vó Zezinha estava sentada na mesma cadeira de sempre. Cabeça baixa, terço na mão, rezando baixinho.
 – Bom dia, Ziza. Dormiu bem? – Disse Vó em tom de sarcasmo. Ziza nunca acordava tão cedo.
 – Dormi não, vó. Tive um sonho estranho. Sonhei com um homem alto e bonito. Homem não, rapaz. Novo, mas com barba e cabelo tudo branco.
 Tava rondando a casa em silêncio. Acordei e não consegui dormir mais.
 Será que é coisa boa ou coisa ruim?
 – Ô, Ziza! Se é coisa boa ou ruim a gente só vai saber quando, e se, acontecer. Agora, eu te pergunto: o que é velho e novo ao mesmo tempo? Que tá sempre por aí rondando a gente, mas, se a gente não prestar atenção, passa silencioso, sem se perceber? É o tempo, Ziza. O tempo. Ele tá sempre acabando e começando. Pode significar tanta coisa. Não tem como saber de véspera. Toma um café e vem rezar comigo.
 – Ah, vó! Vou aproveitar que acordei cedo e vou lavar roupa. Adiantar as tarefas e ficar com o dia livre.
 – Se eu fosse você, Ziza, nem começava. Tenho certeza que vai chover. Meu joelho tá doendo que só. Senta aqui comigo.
 Ziza limpou os olhos com as costas das mãos. Tomou um cafezinho e engrossou a ladainha do terço, sentada ao lado de Vó Zezinha.
 Vó Zezinha figurava entre os cidadãos notórios de Santa Cruz das Almas há algumas gerações.
 Ninguém sabia ao certo sua idade.
 Ziza, uma de suas dezenas de filhas, filhos, netos e netas de afeto e que cuidava de vó e da casa fazia um tempo, tinha encontrado uma vez um documento com o nome de Vó, Maria José do Espírito Santo, que pelos cálculos, dava pra Zezinha uns 80 anos. Mas, pouco tempo depois, encontrou uma certidão de batismo que contava 96. Era uma daquelas questões que todos querem a resposta, mas, ninguém tem coragem de perguntar. Além disso, qualquer tentativa de se chegar à resposta por meios não diretos recebia de Vó uma única e insatisfatória informação: "chega um ponto na vida em que idade é bobagem. Não define o que a gente é e nem define o que a gente faz." E realmente, no caso de Vó a idade só reforçava a imagem de sabedoria e em nada atrapalhava.
 Sempre foi benzedeira de mão boa e reza forte. Desde a adolescência, quando desenvolveu o dom, ajudou muitos dos cidadãos de Santa Cruz das Almas. Difícil encontrar uma família que não tivesse, pelo menos, um membro que tenha passado pelas rezas e curas de Vó.
 Mau-olhado, quebranto, espinhela caída, bucho virado, cobreiro, unha encravada, dor de dente etc. Para todos estes males, e alguns outros mais, Vó tinha jeito.
 Em uma comunidade carente de médicos, benzedeiras como Vó são quase um tesouro. Todos sabiam disso e todos a tratavam muito bem em círculos sociais, independendo de religião ou status social.
 O próprio Padre Antônio a convidava para as missas e, sempre que podia, passava pela casa de Vó para ver como ela estava.
 Ela também chegou a curar a erisipela da filha de um prefeito benzendo a menina com folhas de mangueira. "só não pode comer manga", recomendou. Mas a menina comeu e Vó teve de rezar de novo. Curada, a garota, hoje grande, levou o filho em Vó para tratar das bronquites.
 Todos estes males, até os mais inexplicáveis, eram coisa simples para Vó Zezinha. Mas, estava para encarar algo verdadeiramente inexplicável. Fora de sua longa experiência.
 Bento seguia pela estradinha que cortava a fazenda de Seu Nelson. Ainda não sabia como iria atravessar a cidade até a casa de Vó, no pé da serra, e voltar até sua casa acompanhado da rezadeira. Não sabia se Marluce aguentaria. Não sabia o que estava acontecendo. Mas, sabia que Vó Zezinha conseguiria ajudar. Sentia isso em algum lugar do seu corpo.
 Não sabia a hora. Seu relógio havia, misteriosamente, parado de funcionar.
 Olhou para o sol que lutava para aparecer por entre as nuvens engrossadas. Deviam ser umas 9h.  
 Continuou pela estrada observando o céu. Os pássaros estavam voando da costa para dentro. Segundo seu conhecimento, mais um sinal de chuva chegando. Preocupado com o tempo, apertou o passo.
 A poeira subia pela estrada de chão conforme a velha caminhonete se aproximava.
 Nelsinho, filho de Seu Nelson parou próximo à Bento e indagou o amigo:
 – Ô, Luiz! Tá indo aonde, irmãozinho? Vai chover! Tô vindo da praia. Fui levar um motor pra Zeca de Ana, meu cunhado. Os pescadores voltaram todos. Disseram que o mar tá batendo muito.
 – Nelsinho, Marluce tá mal. Preciso levar Vó Zezinha até lá. É minha última esperança.
 – E tá doido de ir de pés? Sobe logo, homem! Eu vou te levar lá!
 Ziza arrumava com calma o quartinho de trabalho de Vó. Na parede, um relógio do Sagrado Coração de Jesus parado dividia o espaço com imagens de santos, pinturas indígenas, esculturas afros, ervas e afins.
 – Mas, eu troquei as pilhas faz pouco tempo. Que diabo é isso desse relógio parar?
 – Para de ficar chamando coisa ruim pra dentro de casa, Adalgisa! – disse Vó, entrando pelo quartinho. – junta umas coisas pra mim. A gente vai ter que sair daqui a pouco. Tem gente vindo aqui atrás de ajuda.
 Ziza não sabia como Vó ficava sabendo dessas coisas antes de acontecerem, mas, ela sempre acertava. Juntou, como Vó Zezinha pediu, as coisas numa bolsa de pano: ervas, o crucifixo, barbante, cachimbo, tudo.
 Com tudo pronto, Vó sentou e esperou.
 As primeiras gotas de chuva começaram a cair quando Nelsinho e Luiz Bento atravessavam a praça da cidade. Dali pra casa de Vó dava ainda meia hora.
 A chuva apertou chegando no pé da serra. A pequena subida enlameada que levava até a casa de Vó foi um grande obstáculo superado só Deus sabe como.
 Chegaram ao portão e, ao ouvir o motor do carro, Ziza foi correndo. Chave na mão, guarda-chuva na outra.
 – Não desliga o carro! Vó já está vindo! – gritou tentando superar o barulho da chuva e do motor.
 Vó desceu o caminhozinho até o portão bem devagar. Passos firmes e cuidadosos.
 Entrou no carro quase sem ajuda. Sentou no banco da frente. Ziza e Luiz foram atrás.
 O caminho era longo e Luiz contou tudo para Vó Zezinha, que ficou em silêncio, pensativa, boa parte do caminho. Em certo ponto, todos ficaram em silêncio. Bento, impaciente.
 A chuva aumentava.
 Nelson ligou o rádio para tentar distrair Luiz, mas, não ajudou. O radialista anunciava que o nível do Rio São Gonçalo havia subido além da conta e que a ponte da estrada velha estava interditada. Teriam que pegar o caminho mais longo.
 Na casa dos Bento, Mariana, mãe de Luiz, estava ao lado da cama da nora, velando seu sono.
 Marluce dormia inquieta, balbuciando gemidos de dor. Tinha febre, mas era baixa. Era a primeira vez que dormia em muito tempo.
 Dona Mariana, que antes tinha uma preocupação, agora tinha duas. Não sabia onde andava o filho. Não lembrava nem a que horas ele havia saído. Só escutava o mundo lá fora desabando em água e rezava baixinho, com o coração apertado.
 A chuva continuava e a água subia, em algumas casas ribeirinhas, chegava ao batente da porta. A enchente já era certeza.
 – Que chuva é essa? Misericórdia, Senhor! Parece chuva de Verão!
 – É chuva de Outono, Adalgisa. Tão perigosa quanto. – retrucou Vó. – Todo ano tem, pelo menos, uma dessas. Só muda a data. O povo sofre, perde tudo, mas, depois dá seu jeito, se ajuda e reconstrói o que perdeu. É assim desde antes do meu tempo. Alguns vivem na certeza de passar por isso de ano em ano. Nos resta fazer o que a gente puder pra ajudar, e rezar por eles.
 – Rezar por nós também, Vó. – Acrescentou Nelsinho. – do jeito que a chuva tá, a Estradinha da Capela deve estar um atoleiro só.
 Ele estava certo. O carro atolou três vezes. Luiz desceu sozinho pra empurrar em duas. Na terceira, Ziza ajudou. Com muito esforço, ainda embaixo da chuva pesada, chegaram à casa dos Bento.
 Ninguém percebeu, nem mesmo Ziza, mas Vó Zezinha olhou para trás quando passaram pela porteira aberta. Somente visível aos olhos dela, lá estava, embaixo da chuva forte, o homem jovem de barba e cabelos brancos. O homem do sonho de Ziza. O Tempo.
 Entraram rapidamente, se protegendo como podiam da chuva pesada e do terreno parcialmente inundado.
 Ziza e Nelsinho ajudaram Vó a entrar na casa e ela, assim que estava dentro, foi orquestrando os passos de todos com clareza e urgência.
 Para Dona Mariana, Pediu que esquentasse água. O quanto pudesse. Pediu também panos limpos. Toalhas, de preferência.
 Para Ziza, foi ditando uma lista de ervas, as quais a ajudante foi tirando da bolsa que trouxeram. Pediu que ela fizesse um chá.
 – Luiz, você vem comigo até a moça.
 – Eu também quero ajudar, Vó. – falou Nelsinho, bem alto, tentando vencer o som da chuva.
 Vó caminhou até o rapaz e o tocou no rosto.
 – Sei que você sabe rezar, e muito bem, meu anjo. É o melhor que você pode fazer agora. E não menos importante que as outras tarefas. Já, já, os outros vão se juntar a você. Vamos precisar da ajuda de todos nisso.
 Marluce estava deitada, imóvel. Porém, assim que Vó Zezinha cruzou o portal do quarto, a jovem arqueou o corpo e soltou um grito, que foi acompanhado, em uníssono, por um trovão que estremeceu toda a casa.
 Vó rezava em voz alta, pedindo pela criança e pela mãe, enquanto tateava em exame a barriga esticada de Marluce. Foram precisos dois ou três toques para saber. O corpo da mãe estava quase pronto para o parto, porém, a criança estava virada.
  Pediu que Bento desse a volta, que levantasse o corpo da esposa, sentasse atrás dela e a segurasse em seu colo. Com força.
 Sacou um rolo de barbante e, recomeçando as rezas, trançou três fios longos, o suficiente para laçar toda a barriga da moça. Amarrou na parte alta do ventre, com sete nós. Olhou para Luiz, que entendeu o recado e apertou o corpo da esposa contra o seu. Então, com movimentos firmes, apertou com vontade alguns pontos da barriga, fazendo movimentos como quem direciona algo que não vê, mas pode sentir.
 Marluce gritava e se retorcia no colo de Luiz, até que parou de se mexer. Ele olhou assustado para Vó Zezinha.
 – Ela vai ficar bem. Só não deixa ela dormir. Não é hora ainda. Ela ainda tem muito trabalho.
 Adalgisa entrou correndo, acompanhada por Dona Mariana e Nelsinho. Trazendo panos, água quente e o chá.
 – Você fica, Ziza. Os outros já sabem o que fazer. – Vó olhou para Nelsinho, que fez que sim com a cabeça.
 A ajudante levou o copo até Vó, que sentiu a temperatura e o entregou a Luiz.
 – Acorda a moça e faz ela beber o quanto Aconseguir.
 Bento fez o que ela pediu e, segundos depois, as contrações começaram.
 A chuva, como se fosse possível, aumentou ainda mais.
 A água batia com violência na janela do quarto e o vento forte fazia tremer todas as telhas. Ziza e Vó já se preparavam para o parto quando uma rajada Violenta de chuva abriu a janela, o vento inundando o quarto e apagando todas as velas, deixando todos no escuro. Vó fechou os olhos por um momento para se proteger dos respingos e, quando abriu, não via mais Adalgisa, Luiz Bento ou Marluce, não ouvia mais o barulho da chuva. Apenas via ele. O homem que estava na porteira. O homem do sonho de Ziza. O tempo.
 A voz grave ecoou como um trovão.
 – Temos que conversar, Dona Maria José. Não acho que exista a necessidade de que me apresente. A senhora pode me chamar como quiser, mas, tenho a certeza de que sabe quem eu sou. Não estou feliz com o que tenho a dizer, mas, tenho o dever de dizê-lo: Seu tempo acabou.
 Fez uma pausa como quem estira as costas após se livrar de um fardo pesado.
 – Nós estendemos sua estadia aqui. Sabíamos que ajudaria a muita gente. Porém, algumas pessoas não podem coexistir neste plano. A criança que vem tem os mesmos dons que a senhora. Ajudará a muitos, assim como fez. Estou aqui para levar a senhora assim que ela vier ao mundo.
 Vó Zezinha respirou fundo. Mesmo admirada com o encontro e com as condições de sua partida, sabia que ela aconteceria em breve. Vinha sentindo isso nos últimos meses. Sentindo como um aviso silencioso. Como uma falta que se sente sem saber de que. Aceitava a partida sem problemas, "a vida é uma estrada de um sentido só", costumava dizer. Porém, o fato de deixar sua comunidade desamparada era o que a preocupava e tirava a paz deste momento.
 – A criança não vai estar pronta assim que nascer – retrucou. – Quem vai ensinar as coisas? Quem vai cuidar dela até que possa fazer tudo sozinha?
 A voz de trovoada se fez presente novamente, tão grave que dava coceira nos ouvidos.
 – Não podemos nos ater a estes detalhes, Dona Maria José. As coisas são como são. São como devem ser. Além disso, a senhora sabe bem como funciona o dom. Muitas das coisas a senhora aprendeu sozinha. Ou, até mesmo, já sabia.
 – Mas é justo deixá-la sem amparo quando as obrigações vierem? – mais uma vez Vó retrucou. – sabendo ou não sabendo, quando tudo começar, vai ser ainda uma criança. Os pais não vão saber lidar.
 – Isto não é mais sua responsabilidade! – a voz não apenas soou como um trovão, mas, foi acompanhada pelo estrondo de um. – Seu tempo acabou! Não estamos aqui para falar sobre o que é justo, ou não. Estamos aqui para falar sobre o certo! Para fazer o que é certo!
 – Pois eu não acho certo abandonar a coitada da criança com uma responsabilidade deste tamanho. Eu mesma passei por isto. Sei bem como é. Não vai fazer diferença se eu ficar mais uns anos.
 – Não! – voz de trovoada. – Não é assim que funciona!
 Vó Zezinha não se intimidou.
 – Vocês têm o poder para mudar se quiserem. Somente alguns anos, para eu preparar a criança e para que eu possa continuar ajudando.
 A voz acalmou um pouco, como uma tempestade perdendo a força.
 – Não podemos, Dona Maria José. Na verdade, não devemos. Sabemos que pensa no bem da criança e das pessoas deste local, mas, repetimos, as coisas devem ser como devem ser. Já foi decidido: uma chega, a outra parte comigo. Não se preocupe com a criança. Estaremos aqui para ela, assim como sempre estivemos para você – Ainda mais calmo – A senhora pode partir com orgulho. Trabalhou muito. Trabalhou pelo bem de muitos. Pode partir com a certeza de que cumpriu seu papel neste mundo.
 Vó então, sentiu paz. Sabia que não poderia fazer mais nada. Mas, isto deixou de ser um problema. Se sentiu feliz por saber que uma criança tão abençoada viria ao mundo por suas mãos. Mesmo que fosse a última coisa que faria em vida, se bem com isto.
 – Então, meu Senhor. Como será? Terei tempo de me despedir?
 – Sim. Seja breve. – e a voz desapareceu, engolida pelo barulho da chuva, ao mesmo tempo em que Vó Zezinha sentia os respingos na cara e que Ziza corria para a janela aberta, para fechá-la.
 Ziza reacendeu as velas apagadas pelo vento.
 Vó chegou até os ouvidos de Marluce, que recobrava a consciência.
 – Nós precisamos de sua ajuda aqui, minha querida – disse afagando os cabelos da moça com suavidade. – Sei que está fraca, mas, precisa ajudar seu bebê. Não será fácil. Mas, o resultado será bonito. Nada do que é bonito, é fácil, mas, você nunca se arrependerá deste esforço.
 Voltou então para a posição em que estava. Ziza, que já sabia o que fazer, trouxe as toalhas e se posicionou próxima à barriga da jovem. Um olhar de   Vó Zezinha foi o suficiente para que ela começasse a apertar com jeitinho, enquanto Marluce fazia força e Luiz a segurava firme, de olhos cerrados e em oração constante.
 – Está apontando! – gritou Vó. – continua a empurrar, querida. Continua!
 Marluce gritava e Luiz agora rezava em voz alta.
 O rapaz se desesperou ao ouvir a esposa parar de gritar e senti-la amolecendo em seus braços. Abriu os olhos e começou a sacudi-la suavemente, chamando por ela. Porém, sua voz foi interrompida pelo choro alto de um bebê.
 Marluce, ainda fraca, estendeu a mão até a cabeça do marido e fez meio cafuné, o que suas forças permitiam.
 – É uma menina! – revelou Ziza. Que pegou a criança dia braços de Vó Zezinha, limpou e levou ao colo da mãe, amparada pelo pai.
 Dona Mariana entrou correndo, louca para conhecer a criança. Nelsinho esperou na porta. Demoraram a perceber, mas, a chuva havia parado.
 Enquanto todos ocupavam sua atenção com a recém-nascida, Vó chamou Ziza para um canto.
 – Adalgisa, minha querida. Preciso que você ajude a cuidar desta criança. Preciso que você ajude a cuidar de todos. Sei que você pode.
 – Pode deixar, Vó. Eu vou ajudar – Ziza respondeu de imediato enquanto arrumava a bagunça do parto, sem perceber que o pedido era muito maior do que pensava.
 – Eu estou cansada, Ziza. Preciso sentar um pouco.
 Vó Zezinha então, alheia à atenção de todos, foi até uma cadeira, se sentou e deu seu último suspiro, em paz e sem que ninguém percebesse.
 Uma semana depois, Ziza estava na igreja, triste e feliz ao mesmo tempo. No mesmo dia, uma missa de sétimo dia e um batizado.
 Caia uma chuva fina, suave, mesmo com o sol aparecendo brilhante.
 – Sinal de boa sorte, Ziza. – disse remendando a voz de Vó Zezinha. Se viu rindo sozinha, Nelsinho ao seu lado, sem entender nada.
 Ele e ela foram convidados para serem os padrinhos da criança.
 Quando o Padre perguntou qual seria no nome, Luiz olhou para Marluce, que acenou com a cabeça em aprovação, e disse, sem dúvida alguma:
 – Maria. Maria José Bento.
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Atualizado em: Qua 5 Maio 2021

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