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  • ‘EU’, ‘ELES’ e ‘NÓS’

    Sabíamos que estávamos sendo vigiados por ‘ELES’. Muitos relatos de abduções, fotografias e filmagens de suas naves e tecnologias não paravam de ser publicados nas redes sociais. Porém, por esforços dos governos mundiais que negavam e ocultavam os fatos, e também, por uma certa mescla de realidade e fantasia nos filmes e seriados hollywoodianos, e, provedoras globais de fluxos de mídias via streaming, além da ignorância que era pregada nas diversas religiões de sermos o centro do universo, ignoramos os sinais por ‘ELES’ transmitidos.

    ‘ELES’ até que apelaram a partir da década de 1970, quando começaram a desenhar os agroglifos nas culturas de certas gramíneas, por meio do achatamento de culturas como: cereais, colza, cana, milho, trigo, cevada e capim. E era obvio que não tínhamos ainda tecnologias para realizar o feito desses complexos e grandes desenhos em apenas algumas horas. Mas, mesmo assim, ignoramos. E, criamos soluções para explicar o inexplicável, e tudo foi abordado como um feito fictício. Então, pagamos o preço por mesclar a realidade e a fantasia, não sabendo mais diferenciar uma da outra. Assim, preferimos viver o engodo, e fomos enganados por nós mesmos.

    Entretanto, ‘Nós’ criamos a S.U.P.E.R (Superintendência Universal Para Extraterrestres Relações), em que na verdade era uma organização oculta e privada, que se fantasiava de uma Ecovila Sustentável criada por uma rede mundial de cientistas alternativos ufólogos, e pequenos empreendedores startup nos ramos da cyber tecnologia e biogenética (biohacking).

    Éramos perfeitos na arte do engodo, pois utilizamos as técnicas alienantes do sistema contra ele mesmo, ao fundarmos nossa Ecovila na Patagônia, que cobria uma área como mais de 239 km², banhada pelos paramos das geleiras andinas, com terras hiper férteis. Abrigando uma população de mais ou menos cinquenta e cinco mil habitantes de várias nacionalidades do mundo. Em que nosso maior foco agrícola e produção eram cânhamo, cannabis medicinal, morangos, uvas, cerejas, cevada e lúpulo, além de muitas criações de animais. E assim, fabricávamos os melhores vinhos, cervejas de cannabis e espumante de morango do mundo. Tudo de origem orgânica e primeira qualidade, e sem a necessidade de máquinas elétricas, ou movidas a combustíveis fosseis, tudo manufaturado a moda antiga, em que o trabalho humano e animal era o nosso maior forte.

    Vivíamos como antigos povos, antes da revolução industrial, nossas roupas, casas e utensílios eram manufaturados naturalmente, e nossas tecnologias eram 100% artesanais, permanentes e renováveis. Também, focávamos em energias sustentáveis como eólicas e fotovoltaicas, em que criamos a maior usina sustentável do mundo, que fornecia energia para todas as vilas da Patagônia por um custo acessível e barato, além de doar energia de graça para todas as dependências e prédios governamentais dessas vilas. Estratégia nossa, para implementar esse projeto com apoio intergovernamental, tanto da Argentina como do Chile.

    Porém, tudo isso não passava de uma capa que cobria o livro. Pois, subterraneamente éramos outra coisa.

    A S.U.P.E.R era um segredo de um punhado de famílias dentro da Ecovila, punhado esse, que era formado pelas pessoas menos relevantes da nossa comunidade eco agrícola. Na verdade, ‘NÓS’ éramos os fundadores dessa comunidade, mas passamos o nosso poder para os antigos moradores da região, transformando-os de simples camponeses em grandes empreendedores. Alguns ganhadores de prêmios Nobel e outras condecorações internacionais. Porquanto, eles eram nossas máscaras, e nem eles, como também, os outros moradores da Ecovila sabiam disso. ‘NÓS’ éramos um mistério… um segredo bem guardado por pactos de vida e morte, em meio ao paraíso andino.

    No submundo dos nossos quartéis subterrâneos, situava o centro tecnológico e informativo de nossa inteligência. Tínhamos uma empresa operadora de satélites, a StarSky Corporation, que atuava em 52 países com sedes em Israel e na China, além de 32 empresas subsidiarias de telecomunicações espalhadas pelo mundo. O que facilitava nossa rede de comunicações e informação, dessa forma, tínhamos olhos e ouvidos em todo lugar.

    Contudo, estávamos também sendo vigiados, e de início não sabíamos. Aquele fato da coisa observada, observar o observador. Pois nossos servidores se utilizavam da surface web, ou deep web como era mais conhecida. E, ‘ELES’ é que eram os verdadeiros donos do iceberg como todo. E, assim, os nossos olhos e ouvidos eram, também, os olhos e ouvidos deles. Seus motores de busca construíram um banco de dados, pelos seus spiders, e através de hiperligações indexaram nossas informações aos seus servidores na deepnet. Quando descobrimos que estávamos sendo escaneados, toda nossa informação já eram deles.

    Quando nossos hackers investigaram quem são ‘ELES’, se depararam com uma parede de proteção inacessível, em uma (darknet) parte do espaço IP alocado e roteado que não está executando nenhum serviço. Até para as inteligências dos governos mais poderosos o acesso era fechado, pois se utilizavam da Dark Internet, a internet obscura. E de cara percebemos que ‘ELES’, os não-humanos, eram quem estavam nos vigiando.

    Contudo, resolvemos abrir o jogo e mandar mensagens para ‘ELES’, em um projeto apelidado como: חנוך (Chanoch). Durante meses enviamos várias mensagens, então, de repente, nossos servidores detectou uma mensagem oculta que dizia: “E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.”.

    Ao receber aquele texto, ficamos perplexos. De início, achamos ser uma brincadeira. Até recebermos outra mensagem, que dizia: “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Então, depois de longas horas de reflexão, intentamos que as mensagens vêm a nós na forma e maneira que podemos perceber. Sendo, que eles queriam escolher alguém entre nós para uma viagem. Não sabíamos como responder a tal pedido, e mandamos uma mensagem correspondente do que temos de fazer para realizar tal acontecimento. E, eles nos responderam com três sequencias binárias: 101.

    No dia seguinte a essa misteriosa resposta, para o nosso espanto, fomos notificados por um de nossos agricultores que se encontrava no campo de cevada, se deparando com um símbolo gigante desenhado ‘IOI’. Então, rapidamente percebemos que aquele campo seria o local de contato. E, ‘EU’ fui escolhido para a tal viagem com ‘ELES’. Então, todas as noites acampei no local marcado.

    Acho que propositalmente, na noite 101 em que me encontrava sozinho em minha barraca, e já desesperançado de algum contato, ‘ELES’ vieram! E de súbito só me lembro de ver uma forte luz branca.

    Quando acordei, me deparei em uma maca feita de uma solução gelosa, de um verde fosforecente, algo como se estivesse deitado sobre água, mas, era firme, e amaciava com o peso do meu corpo. Não tinha temperatura, nem frio e nem quente, e o mais louco é que meu corpo não sentia esse material, era como se eu estivesse deitado sobre o ar. O ambiente era de uma luz violeta neon, muito calmo aos olhos, e não tinha paredes, teto ou solo. O silencio era profundo, irritante e assustador. Para todo o lado que eu me voltava, via apenas um horizonte infinito, tanto para cima como para baixo. E tive medo de sair da maca, pensando cair nesse infinito abismo. E a sensação era por demais desconfortante, achei que estava morto.

    Nisso, me senti sendo vigiado, algo ou alguém me observava, e vi alguma espécie de vulto transparente se locomover ao meu redor. Então, pela primeira vez senti algo que me tocou!

    — Uai!

    — Calma!

    — Quem é você?

    — Então, provou.

    — Provei o quê?

    — A sensação de sentir nada.

    Ao ouvir isso, perplexo me calei. E pasmei! Vendo uma espécie humanoide alta e magra a minha frente. Com olhos extremamente azuis e findados como os asiáticos, cabelos brancos longos, e pele extremante branca, fria como a de um cadáver. E, diante do meu silêncio e espanto, ela continuou a dizer, falando sem mexer a boca, que mais parecia uma fenda em seu rosto magro:

    — Assim, somos ‘NÓS’. Não temos a capacidade de sentir como vocês, e os invejamos por isso. Essa forma que você vê a sua frente, não é nosso corpo. É apenas um traje, pois vocês não têm a capacidade de nos ver sem ele. Somos seres pertencentes a outra dimensão, que vai muito mais além de sua física e compreensão.

    — De onde são vocês?

    — Somos seres da Quarta-Vertical, um mundo mais além do que a matéria física. E, nesse momento você está diante de uma plateia de nós. Não pode vê-los, pois, estão sem seus trajes físicos. Porém, saiba que também você usa um traje, e ele que te faz sentir. Mas, nós, mesmo com nossos trajes, não podemos sentir como você sente, e perceber como você percebe. Apenas percebemos as coisas físicas, através de alguns impulsos elétricos de contato nos transmitidos por nossos trajes, que são mínimos, sem sentimentos e emoções.

    — Onde fica fisicamente a Quarta-Vertical?

    — No plano físico, conhecido por vocês como seu sistema solar. Em que nossa Morada é o Sol.

    — Então, estou no Sol?

    — Claro que não! Seu corpo físico não aguentaria.

    — Onde estou?

    — Em nosso ponto de contato. Na parte oculta da Lua. É daqui que o observamos, desde sua criação como seres existenciais. E, temos alguns de vocês aqui conosco. Na verdade, somos seus guardiões, mensageiros e protetores.

    — Protetores! Contra quem nos protegem?

    — ‘DELES’ e de vocês mesmos. Pois, se assim não fosse, vocês não mais existiriam como espécie.

    — ‘DELES’ quem?

    — Aqueles a quem vocês chamam de seres infernais. No início, ‘ELES’ eram como ‘NÓS’, e vieram de ‘NÓS’. Mas, se corromperam. Pois, desejaram sentir a emoção que vocês sentem. Por isso, eles lhes causam dores e prazeres, para sugar as energias de seus sentimentos. E, fazem isso agora, através da internet. Por isso, lhes deram esses pequenos dispositivos que vocês carregam em suas mãos. O próximo passo deles, é implementar esses dispositivos aos seus corpos físicos. Aí, então, drenarão suas energias vitais, como um canudo drena o líquido numa garrafa de refrigerante.

    — Onde eles vivem?

    — Antes viviam aqui na Lua, depois os expulsamos para Saturno e Plutão. Mas, quando fizeram o pacto com os muitos chefes e governantes de sua sociedade, precipitaram-se na terra. Quando teve uma grande chuva de meteoros. Então, agora vivem entre vocês.

    — E, como podemos reconhecê-los, se vivem entre nós?

    — São os seres lagartos, mas se disfarçam com trajes humanos. Por tanto, seus trajes se alimentam de sangue, e são sensíveis a luz do sol. Por isso, procuram andar mais a noite, e poucas vezes a luz do dia. E, para resistir a luz diurna, precisam beber inúmeros litros de sangue humano fresco e vital. Só assim, os trajes resistem por mais tempo. Porém, alguns deles se tornaram híbridos, cruzando com a sua espécie. E são metades humanos e ‘reptilianos’ como alguns de vocês qualificam. Mas, mesmo assim, precisam de sangue humano para viver. E, como vampiros modernos, eles criaram os bancos de sangue, espalhados por todo mundo. Onde vocês creem estar doando sangue para pacientes hospitalizados, mas apenas 2% desse sangue vai para esses pacientes que necessitam, o resto é comercializado entre eles.

    — E por que vocês não nos alertam sobre isso?

    — Não podemos interferir. Foram vocês que atraíram eles. Suas escolhas. Seus livres-arbítrios.

    — Como assim, nossas escolhas?

    — Por acaso, você não leu a parábola de Adão e Eva?

    — Mas, isso é apenas um mito!

    — Não é apenas um mito. É uma metáfora da realidade, representado em sua espécie dividida entre macho e fêmea. Um código, para os sábios decifrarem.

    — E, por que não nos contam a verdade diretamente, e só nos dão metáforas?

    — Veja o que vocês fizeram com a verdade… ridicularizaram. Enviamos muitos para lhes dizer a verdade. Muitos de nós nascemos como avatares para lhes falarem, e veja o que nos fizeram? Nos mataram, assassinaram, minimizaram. E, mesmo nascendo entre vocês como humanos, ao longo do tempo nos transformaram em engodo e mito.

    — Mas, isso foi em tempos de muita ignorância. Hoje temos tecnologias para registrar e comprovar.

    — Tempos de muita ignorância… saiba que não existe tempo onde a ignorância é mais forte e abrangente do que esse em que vocês vivem. Suas redes de informação, academias e filosofias são lotadas de teorias e não de práticas. Vocês não experimentam mais. Não observam mais… só emulam. E agora que mesclaram a realidade e a fantasia, você acha que nos ouviram? Seremos ridicularizados e banalizados mais uma vez… por isso, agora agimos em oculto sigilo. E falamos na linguagem que vocês não podem deturpar, que são as parábolas e metáforas. Poesias de mistérios místicos e ocultos, que lhes encantam, e fazem pensar. Até serem assimiladas por corações puros, lapidados e lavados que nascem entre vocês.

    Ao ouvir aquelas palavras, o mundo parou em mim. E, lágrimas rolaram do meu rosto.

    — Ernesto! Ernesto! ¡Despierta hombre!

    — Ahh! ¿Qué?

    — ¿Qué haces aquí acampado en el campo de cebada güevón?

    — No lo sé … De repente tuve un sueño confuso. No me acuerdo.

    — ¡Vamos! Es tiempo de cosecha. Creo que perdimos una buena cantidad de grano. Bueno, creo que hubo un torbellino esa noche que aplastó los tallos fértiles.­
  • A Anti-Musa

    A válvula da panela girava, a cozinha suava vapor de sopa quente. Cheiro de temperos no ar. O sol lá fora mal entrava pelas janelas veladas com cortinas grossas. O resultado era um cômodo abafado e entregue à penumbra. Uma mulher estava sentada à mesa, diante de um rádio antiquado que ressoava um samba triste. No entanto, não parecia estar atenta aos apelos do sambista, tão pouco à panela ao fogo. Na verdade, ela parecia nem estar presente mentalmente. Em uma espécie de despersonalização, seu olhos arregalados encaravam o azulejo encardido das paredes, mas seu espirito poderia muito bem estar vagando pelo plano astral.
                    “Catatonia: Perturbação do comportamento motor. Geralmente envolve uma posição rígida e imóvel que pode durar horas, dias ou semanas. (E...) A história nos conta que, nesses casos, um doente poderia ser enterrado ainda vivo (!), tamanho seu estado de inércia. (...xaus…) Dentre as condições médicas que podem causar o estado catatônico estão:  esquizofrenia; depressão; derrame cerebral; entre outras condições neurológicas e psiquiátricas. (...ta.)”
                    Alguns minutos ou algumas décadas se passaram...
                                                                                                              *****
    ...e então, subitamente, a mulher deu um pulo na cadeira em que estava. O acontecido pareceu ter impressionado a ela própria, piscou rapidamente repetidas vezes e olhou em volta, como para desvendar em que lugar se encontrava. Seus olhos vagavam pela cozinha, viu a janela encoberta; um armário empoeirado, com portas escancaradas; louças usadas, empilhadas sobre uma pia de mármore; seu velho rádio que ainda tocava alguma música qualquer; uma geladeira pequena, azul turquesa e na porta da geladeira estavam imãs em formato de frutas e legumes. Dois desses imãs mantinham presa uma fotografia, quando os olhos da mulher finalmente se encontraram com os olhos desta foto, o olhar se alterou – passou de apático à revoltado.
                    “(Eu sou um monstro!) Transtorno dismórfico corporal, historicamente conhecido pelo termo dismorfofobia. (Minha pele é seca, meu cabelo é crespo, meu nariz é comprido, meus lábios são muito finos...) Trata-se de um transtorno psicológico caracterizado pela preocupação obsessiva com defeitos mínimos ou imaginários na aparência física. (Eu devia ser colocada em uma jaula...)”
                    O surto perdurou por horas ou séculos.
                                                                                                              *****
    A mulher agora estava sorrindo. No chão, uma fotografia despedaçada coberta de cacos de vidro. Na porta da geladeira, uma mesma imagem encontrava-se intacta, presa pelos mesmos dois imãs. A mulher caminhou até o fogão, a panela chiava incansavelmente.
                    “(O trem! Por Deus, vou perder o trem....) Alucinações auditivas, sinal de esquizofrenia. (Tenho que apanhar o trem!)”
                    A mulher, de maneira impulsiva, agarrou a panela fervente, suas mãos arderam no mesmo instante e vacilaram. A panela despencou no fogão aceso.
                    “(Ai... Como está gelado...) Alucinações sinestésicas, sinal de esquizofrenia.”
                    O rádio sobre a mesa iniciou uma canção que pareceu alegrar a mulher. Uma bossa nova lenta a fez arriscar pequenos passos de uma dança confusa. Enquanto dançava, alguém tocou seu ombro.
                    - Oh, Tom! Como é bom te ver.
                    - Me concede a honra desta dança, madame?
                    Agora ela dançava abraçada com seu par.
                    “Alucinações visuais... Um sério sintoma de pessoas esquizofrênicas. (Sabe, algumas informações você deveria guardar para você...) Na verdade, não acho que seja possível. Quando eu penso você pensa. (Transtorno dissociativo de identidade: conhecido popularmente como dupla personalidade) é uma condição mental em que um único indivíduo demonstra características de duas ou mais identidades distintas, (cada uma com sua maneira de perceber e interagir com o meio.)”
                    A música terminou e levou consigo o lapso de felicidade. A canção que iniciou era alegre, porém a mulher não teve vontade de dançar. Ela se atentou a letra, o cantor falava de sua amada, sua musa. Após alguns instantes, a mulher desabou no chão e começou a chorar escandalosamente.
                    “(Eu nunca serei a musa de alguém. Nunca alguém irá se inspirar em mim.) Ao menos não de maneira positiva... Mas quem sabe quando forem falar sobre sociopatia. (Ah, mas é claro! Que agradável tema...) Bom, talvez você possa convencer alguém a escrever algo para você. (E eu lá tenho cara de Annie Wilkes?!) Na verdade... Tem sim.
                    A lamúria pareceu durar uma eternidade.
                                                                                                              *****
    A cozinha ainda suava vapor de sopa quente. O cheiro, porém, não era nem um pouco agradável. O válvula do bujão borbulhava espuma. O sol estava se pondo lá fora, mas a majestosa luz do crepúsculo mal entrava pelas janelas fechadas e veladas com cortinas grossas, impedindo que os malditos vizinhos xeretassem. “Transtorno de personalidade antissocial...” A mulher sabia que era alvo de comentários maliciosos e não demoraria muito para a vizinhança se reunir para atear fogo a sua casa. “Transtorno de personalidade paranoide...” Ela estava sentada à mesa, diante de um rádio antiquado que ressoava um chiado de estática. Um Marlboro ainda não aceso rolava entre seus dentes, ela refletia:
                    “(Não sou musa-inspiradora de ninguém...) Não é musa inspiradora de ninguém... (...Mas depois disso talvez eu seja.) ...Talvez seja. (Minha cabeça dói...) Tontura... (...Mas a dor vai passar.) A voz irá embora... (Tudo terá fim...) Tem certeza? (Você sabe o quanto é difícil danificar uma válvula de gás?) Você sabe que eu sei. (Sei...) Ideação suicida... (Fim.) ...Fim.
                    A mulher acendeu o cigarro e o cantor pensou nela finalmente.
                                                                                                              *****
    [Inspirado na canção A Anti-Musa de Romulo Fróes e Clima.]
  • A Carta Gelada

    Às oito e meia da noite, em um sábado, eu estava sentado no sofá, assistindo a um filme, e com um tigela de cereal ao leite sobreposta ao meu colo. O estado de profunda concentração me pungia naquele momento, e meus olhos acompanhava inflexivelmente os movimentos surreais de um serial killer prestes a desligar mais uma vida. Nesse momento, eu ouço um batuque que não fora oriundo da TV, e que aos poucos se repetia ritmadamente. Após alguns segundos guiando a minha audição, percebo que era alguém batendo na minha porta. Confesso que senti um arrepio nas espinhas, e que quando percebi do que se tratava, acabei derrubando a tigela e molhando o tapete. Desdenhei o meu deslize e fui apressadamente até a porta. Receoso em falar algo, olhei pelo olho-mágico, só que esse estava quebrado. Não encontrei palavras no momento, e minha tensão estava aumentando feneticamente. O batuque não parava de se repetir. E eu resolvi interrogar: 
    —Quem é ? 
    O barulho cessou, e o silêncio reinou. Senti um choque profundo, um sensação de taquicardia apertada, um gosto de sangue. Era a sensação de temor misturada com perplexidade. Eu resolvi, perguntar novamente: 
    — Quem é que está aí? 
    E nada a não ser o grito melancólico do silêncio, um som abafado e chiado ao meu ouvi. Neste momento, inquirições estavam se chocando contra minha pisque. Quem será que está uma hora dessa batucando a minha porta? Se fosse algum conhecido, certamente, me ligaria ou então, falaria. Posto isso, resolvi dar de ombros, aliviando a minha mente com a ideia de alguém ter errado de localidade devido à embriaguez ou algo do tipo. 
    Fui até a geladeira, pensei em pegar um suco, mas achei melhor uma cerveja para aliviar a tensão. O chão da sala estava todo lambuzado, e minha janta já não me pertencia mais. Perdi a fome, por mais que o fastidioso despejamento de adrenalina no meu sangue tivesse gastado energia, o medo incutido momentaneamente perfez-me a omitir o desejo por comida. Eu não tive a menor intensão de limpar a sujeira. Perdi a vontade de terminar o filme. Na verdade, não perdi a vontade, apenas, cenas de suspense e insanidades são iriam acalmar meus ânimos. 
    Liguei o toca disco, coloquei uma música animada, repousei meus ossos sobre o sofá e, assim, resolvi abrir a cerveja. 
    —TOC. TOC. TOC... 
    O batuque voltou e desta vez mais agressivo. Nem sequer abri a cerveja. Tive um susto mais avassalador do que antes. E desta vez, senti que algo ruim iria acontecer. Preconizei-me a ligar para polícia. Pedi urgência na ocorrência, e fui aconselhado de evitar ficar perto da porta. Subi apressadamente às escadas e, assim sendo, resolvi me trancar no quarto, e ocupar-me a atentar aos batuques. Cada batuque, cada segundo, estava exaurindo a minha sanidade. Eu não estava aguentando mais. Era uma pressão aterradoramente cruel. Estava com a visão vertiginosa, e uma tontura me eivou. Senti calafrios. Não era mais nervosismo, era o medo que me possuíra. Eu escutei um estrondo, e ademais, seguiu-se apenas o som da música de vinil que tocava lá em baixo. Presumi que entraram na casa. Não sabia o que fazer. Pensei que era melhor pular da janela. Forcejei sem resultados, a embotada ferragem, que impedia a minha fuga. Maldita hora em que troquei o ar fresco pelo ar condicionado. 
    Passei um tempo, procurando algo para quebrar a janela. Nada. Essa palavra resumiu meus esforços. Peguei meu sapato, e agredi impiedosamente a janela, e essa parecia rir da minha cara. Nem um arranhão. Foi quando eu tomei a decisão mais tresloucada da minha vida: choquei-me com toda a angústia e frustração do momento contra a estorva. Uma certeza eu tinha: ou eu acabo com ela, ou ela me acaba. Contudo, sai vitorioso entre aspas, pois, embora eu tivesse fragmentado o vidro em imensuráveis cacos, os cacos dilaceram-me em cortes excruciantes. E ainda, uma queda do primeiro andar me fez sentir como a gravidade me ama. 
    Quando eu caí lá fora, me escondi em umas árvores. A penumbra dava arrepios. A única luz que tinha era a luz de um poste próximo a minha casa. Eu estava às espreitas tentando vislumbrar quem batia na minha porta. Ninguém? fiquei sem entender. Ninguém estava batendo na minha porta. Eu me levantei e fiquei surpreso. Circundei a minha visão em trezentos e sessenta graus e não avistei nada. Apenas uma coruja crocitava em um rododendro ao lado da minha casa. Senti uma gélida friagem acariciando a minha face. Resolvi sair dos arbustos e encaminhar até minha casa. Por garantia resolvi caminhar em derredor a casa para se certificar de que ninguém além de mim estava ali. Quando fui até a porta, eu me perguntei: cadê a chave? Realmente me lasquei. Pensei em forcejar a porta. E nada. A porta por mais velha que fosse, era bastante resistente. Tentei subir pela fachada na frente. Só que não obtive sucesso. Quando retornei a pontapear a porta, a polícia acaba de chegar. Eu pensei, até que fim. A polícia mandou eu colocar a mão na cabeça. Eu clamei dizendo eu sou o dono da casa. Não sou criminoso! Os agentes insistiram com a arma apontada. Eu disse eu me recuso a ser preso. Levei um choque e acabei sendo prezo. 
    No caminho até a delegacia, eu expliquei todo o ocorrido e eles não comentaram nada. Na delegacia, fui questionado várias vezes. Estava exausto, abatido, machucado e, dessa vez, faminto. Contei até onde pude. Disse que foi um tremendo engano. E no dia seguinte fui liberado, realmente constava no sistema o meu nome como proprietário. 
    Caminhei desconsoladamente, fixando meu olhar no chão. Mergulhei num estado de profunda introspecção. Estava com raiva e deveras frustrado. Pensei, será que sou doido? Será que estou vendo coisas? Essas reflexões infindáveis foram vertidas em remorso ao ver a porta da minha casa aberta. Roubaram minha televisão, meu toca disco, minhas cervejas, vários pertences. E eu estava fumegando de raiva. Não só tinha perdido a noite, como também várias coisas; até a minha dignidade. 
    Tentei acalmar meus ânimos. Esforço em vão. Então achei melhor arrumar a bagunça, pois só o tempo iria mudar meu humor. Vasculhei na geladeira algo para comer e, misteriosamente, encontrei uma carta dentro do congelador. Estava petrificada, parecia que estava ali a muito tempo. Caramba, que maneira fria de me entregar uma carta. Abri a carta, e tive a maior surpresa da minha vida: 
    "Feliz aniversário." 
    Era o que estava escrito. Foi quando eu me dei conta de que era o dia do meu aniversário. Um dia que começava bastante angustiante. E essa carta só me trouxe raiva. Que se dane o aniversário. Estava muito mais preocupado com minhas coisas perdidas do que com essa carta infame. 
    À tarde, comemorei meu aniversário comendo um sanduíche com suco, e depois, fiquei sem fazer nada. Sem TV, sem música, sem cerveja, e, acima de tudo, com as feridas latejando. Sem dúvidas, o pior aniversário da minha vida. Às seis horas da noite, estava quase dormindo, quando alguém bate em minha porta. Eu me levantei exasperado e fui até a cozinha, peguei uma faca e um bastão de massas, e resolvi abrir a porta sem delongas. Tive um grande choque. Quem batia na minha porta não era criminoso, nem era ladrão. Era simplesmente um bêbado que errou de casa e me pediu desculpas. Não sabia se ria ou se chorava. 
    No dia seguinte, às noves da manhã, decidi ir ao mercado. Quando abri a porta para sair, e ia saindo, acabei pisando em alguma coisa. Foi então que vi que era uma flor, só que abaixo dela tinha uma carta. Olhei de um lado para o outro, não avistei ninguém. Peguei a flor e a cheirei. Que aroma inigualável. Olhei a carta, muito velha a princípio, e a abri. Li recitando-a em voz alta. 
    Meu Deus! Comecei a chorar e não acreditei no que via e no que escutava. Senti um arrepio profundo. A carta datava 4 anos atrás e dizia: 
    " Hoje, meu filho, é o dia em que você completa mais um ano de vida e eu quero lhe dizer que mesmo antes de você nascer eu já o amava. Quando você nasceu foi uma alegria imensa, tanto para mim como para todos os que o rodeavam. Você cresceu, e se tornou este grande homem que és. Nunca deixe que os problemas da vida afetem seu vigor. Viva a vida. Seja feliz! E nunca se esqueça da sua mãe. Venha me visitar quando puder. Eu estou com saudades. 
    Te amo filho. 
    Da sua Mãe, Regina! 
    09/11/1984 " 
    Eu fiquei muito perplexo. Minha mãe morreu exatamente a quatro anos atrás. E esta carta estava datada no dia do meu aniversário. Quem será que me enviou esta carta? Pensei que foi o correio que tinha enviado em virtude de atrasos. Mas que atraso! 
    Fui até o correio procurar saber se entregaram algum lote de cartas extraviadas ou algo do tipo. A minha busca confirmou a minha hipótese. Realmente teve um lote fora extraviado a muito tempo. Depois de anos de investigação e processos judiciais, o correio teve que reentregar o máximo possível do lote. Eu fiquei extasiado. Quanta consciência! Ainda estava com dúvidas, se realmente foi o correio que me enviou ou foi outra pessoa que me enviara. Talvez alguém da família. Mas que família? Não tive contato a anos, embora soubesse algumas localidades. Eu acho que ninguém iria ligar para o meu aniversário. Mas e a flor? como foi parar lá? 
    Alguns questionamentos foram levados fixamente durante o percurso de volta a casa. Quando eu cheguei, pela primeira vez, vi uma coisa tão obvia, que de tão obvia acabava não sendo vista. Ao lado da porta tinha uma roseira florida e que nunca me dei conta de apreciar a sua beleza. E assim deduzi que provavelmente a carta, pelo fato de não ter caixa de correio, até porque nunca precisei, fora colocada por baixo da minha porta, e logo, o vento poderia ter puxado a carta para baixo e, inusitadamente, derrubado uma flor da roseira. Que vento! Uma explicação racional mas com pitadas surreais. Ironia do destino ou obra do acaso? Fiquei muito intrigado, até porque, quem colocara aquela outra carta no congelador. Talvez em um aniversário atrás, eu estivesse recebido uma carta e em virtude de embriaguez ou cansaço, acabei fazendo algo sem consciência do ato. Mas tudo como se desmembrou foi algo inacreditável para mim. E, portanto, pesou profundamente nos conselhos que minha mãe me deu. Decidi reavaliar meus atos. Prestar mais atenção nas coisas simples. 
    Eu vivia uma ironia curiosa, quanto mais detestava a vida, mais temia a morte. Desde que eu perdi minha mãe, solidão foi sempre companheira. Eu estava em uma ilusão profunda. Eu via o dia e não a luz sol. Eu via a noite e não o luar. Eu via a terra, mas não via as flores. Eu via os frutos, mas não via os sabores. 
    Pode não ter sido o melhor aniversário que tive, mas sem dúvidas será o aniversário mais inescurecível. Eu sempre fui medíocre, conformista e sem virtudes. Sempre receei a loucura. Mas estava muito enganado, ser louco é uma virtude que poucos alcançam e muitos temem. Decidi então, viver como ninguém viveu, sonhar como ninguém sonhou, ser o que ninguém foi: simplesmente, ser alguém original.
  • A gênese do caos

    Um livro de ficção científica me atraí por diversos motivos, dentre eles: os personagens singulares, a trama que me provoca um sentimento de encantamento e a verossimilhança com a nossa realidade. O livro Manjedoura tem tudo isso, sendo uma grata surpresa para um primeiro título publicado pelo autor Sandro J. A. Saint, jovem autor araçaense. Seu romance é um prato cheio para amantes da ficção científica.
                Um tipo de obra que sempre estará em voga é a distopia. Essa narrativa que vislumbra um mundo onde a sociedade está colapsada devido a fatores socioeconômicos, políticos e/ou culturais, lembra o quanto a humanidade é sobrecarregada de contradições. Com certa dose de pessimismo e fatalismo, a modernidade e o progresso se tornam fatores de diluição da sociedade. O livro se torna um alerta, ou seria uma profecia?
                Manjedoura como um primeiro livro de Sandro J. A. Saint apresenta uma narrativa coerente e original, pois consegue sintetizar muito bem os elementos narrativos desse tipo de história. Unindo pós-apocalipse e cyberpunk numa trama distópica, o romance nos traz uma realidade árida, pouco convidativa. Um ambiente carnívoro com relações sociais predatórias. Os protagonistas revelam bem os sentimentos em relação a esse mundo intoxicado de poluição e violência. Como não poderia faltar num livro como este, a temporalidade é desconhecida. Não sabemos se estamos em um futuro ou em uma realidade paralela.
                O livro começa com uma inserção objetiva nesse mundo, um modo de acautelar o leitor e fazê-lo entender que a narrativa terá um cenário diferenciado. É nesse mesmo prólogo que ficamos sabendo que a população mundial cresceu de tal forma que as guerras e o baixo número de recursos naturais diminuíram o número populacional a menos de 30% do total. As elites, sob as suas variadas vertentes, políticos, militares, cientistas e artistas, se unem e formam um único órgão chamado de Cúpula. Seu objetivo é conduzir os resquícios da humanidade.
                Para resolver o problema da superpopulação, eles criam o Projeto Manjedoura, humanos não nascem, são produzidos em escala industrial em laboratórios, chipados e depois dispersados pela cidadela. Mesmo nesse cenário repressor, há revoltas. Grupos rebeldes se organizam e formam os White Mouses, indo viver na clandestinidade fora da Cúpula, ondes serão perseguidos pelas sentinelas.
                Os protagonistas que conduzem a trama são Hanss Nagaf, o emocionante mensageiro-chefe; Jason Cry, o pupilo falastrão de Hanss; e por fim, Handra, a belicosa guerreira do frio. A personalidade desses personagens é única. Com certeza você vai se identificar com todos ou um deles. Mesmo outros personagens que aparecem na trama têm sua personalidade bem definida e atuante na história. Nenhum personagem aqui foi desperdiçado e agrega a narrativa.
                Hanss é um personagem que soa familiar, conduz a trama com bom humor e se mostra um personagem sentimental, a todo momento tenta empreender uma visão mais espiritualizada da vida. Handra é o tipo de protagonista feminista que falta a muitas obras, forte, sem com isso perder a feminilidade. Jason representa o olhar do leitor, sua impulsividade judiciosa e olhar cético vão trazer os conflitos necessários ao trio, bem como divertir o leitor, se tornando um alívio cômico numa sociedade tão agressiva.
                Minha recomendação é: leia esse livro! O livro está com uma edição impecável feita pela Editora Lexia, custa apenas R$ 21,90 mais o frete. Tem orelhas, miolo em papel offset, capa e contracapa feita pelo próprio autor, reforçando o caráter autoral da obra. Se o leitor busca uma ficção científica distópica com pitadas de fim do mundo, Manjedoura é a pedida.
  • A morte do eu

    “After a year in therapy, my psychiatrist said to me: ‘maybe life isn’t for everyone’.” 
    O inferno está vazio e todos os demônios estão na minha cabeça. Conjecturo vozes que, no desabrochar da vigília, anunciam-me um transtorno psicótico. Hoje eu tranco o curso, tranco a vida. Cheguei a vasculhar, um dia, a possibilidade do suicídio ser apenas o enterro, mas não a morte em si; todavia, certifico-me, nessa náusea amorfa, que a angústia se infiltra na teia neurossucumbidora antes de incinerarmos a nós mesmos. Conto os dias, odiando o teísmo onipotente, para encontrar o que acredito ser minha alforria: o psiquiatra. Há de ser minha muleta metafísica. Dispneia. Se enlouquecer-me novamente, tenho clonazepam. Vinte gotas; vinte e sete, se precisar. Alivio-me com esse meu novo deus volátil. 
    Sento-me à beira da cama; meus pés desmaiam sobre o chão. Penumbra. Nada me daria mais prazer do que nunca ter de acordar novamente. Sinto na alma a enfadonha arte de vestir-se. Fico apreensivo com minha sanidade dúbia diante das aulas anavalhadas que vagarei hoje. Degusto o Escitalopram com um café áspero. Lembro – fitando um eterno nada – a face sem sentença da minha psicanalista, e esbravejo-me; quero que suba no telhado e grite quem sou eu, pois já me foge essa concepção. Deposito o frasco de benzodiazepínico no bolso; esqueço o celular em casa. 
    Ao longo dos sertões da manhã, o medo do pânico se empodera como um fascista. Claustrofobia. Perscruto que na selva da minha psique não reino como Zumbi Dandara, mas apenas sou uma marionete do caos. Convenço-me da morte iminente: seja por um edema de glote, seja por um cataclismo pneumológico. Vendaval de sinapses. Minha mitral esperneia-se, regurgita-se, fibrila-se; almejo fugir-me; visto a entropia desajustada; balbucio uma filosofia sórdida. Subunidade beta da Proteína G, Guanosina Difosfato Inativa, Adenilato Ciclase: importantíssimo para vocês, futuros médicos. Cronograma de Caim. Quinquilharia. Pandemônio.
    Comprei uma aliança para essa miséria de vida, mas não prometo a monogamia – resmungo ao asilo que concerne minha consciência. Permuto as desvantagens e vantagens de ser um amontoado de átomos; aquelas me logram. Perambulariam como os nômades que nutrem sentimentos por mim? Por mais que sejam escassos, não me ousa denegrir a árvore-mãe que doou suas raízes à fruta empobrecida de alma. Aproveito o anticlímax dessa patologia arruaceira para ler o DSM: tenho todas as anarquias possíveis: transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão, desconexão com o divino, apatriotismo sem-terra. 
    Como um cadáver maquiado, encargo-me da polidez pós-morte: metáfora para os primórdios da tarde. Sobre o alcoolismo: eternizara – não que deguste a ideia, porém era a morfina que varria minhas esquinas neurais; era, senão, o hospício que tratava meu cansaço insuportável de gente. Olho-me: identifico em cada dobramento da minha organogênese os assassinos da minha jornada. A tarde, porém, caminha de forma taciturna; enrosca nos galhos, tropeça nas ironias machadianas, vivencia a chaga de Édipo, mas caminha. Adentro um elevador eremita: coercitivamente controlo a respiração: minhas cavernas pulmonares ecoam desespero.
    Palmilhando os arredores do abismo, pondero em relação ao futuro notívago: ou a insônia reluzirá novamente ou uma bala perfundirá meu encéfalo – entrará por um ouvido e sairá no outro, nada menos. Sinto meus passos derradeiros nesse morro cascalhado. Cairá sequer uma lágrima desse meu rosto surrado diante da morte de meu pai? Meu recinto ainda tem o cheiro de vazio. Insisto em deleitar-me na água que escorre do chuveiro, mas em vão. Pressuponho que dentro da gaiola do meu peito habite um pássaro que almeja voar, todavia se debate nas grades costais, depena-se e desiste da vida. Perfumo o ar com sobriedade: irrita-me o anseio acalentador das pessoas. Recebo, ainda que caquético, no toante dessa noite, uma visita: meu humor sacoleja como um cão solto na praia. Lê-me: você parece ótimo. Não se esqueça, minha cara, que os buquês, por mais que sejam sorridentes e carinhosos, são feitos de flores mortas. 
  • A mulher do metrô

    Voltando do seu trabalho, onde é um simples funcionário de uma empresa de comunicações, Lenny passa pela padaria do seu bairro, compra seu jantar, e volta para casa. Solteiro, ele vive em um pequeno apartamento compacto, com apenas uma cama, uma escrivaninha velha de madeira com um laptop em cima, sua cozinha e um banheiro. Lenny janta e, como ainda é cedo, vai para seu laptop passar o tempo.
    No dia seguinte, seguindo sua rotina matinal, ele toma o café da manha e sai de casa às 5 da manha para não arriscar chegar atrasado, já que usa o transporte público. No metrô, ele tem uma sensação estranha de que estava sendo vigiado, mas apenas ignora, julgando ser algo normal já que estava em meio a uma multidão, qualquer uma poderia estar o encarando. Se passa mais um dia comum de trabalho, ele vai para casa, faz o que tem que fazer, e vai dormir.
    Dessa vez, no metrô, no meio de um monte de pessoas, ele vê uma mulher de cabelos pretos e longos o encarando, mas ela rapidamente some em meio a muvuca. Com isso ele começa a ficar preocupado.
    Passam-se dias e nada de parecido acontece novamente, mas mesmo assim ele não tira isso da cabeça. Aquela mulher havia deixado uma marca na mente dele que ele não conseguia tirar. Ele chegou ao ponto de ficar paranoico no metrô, sempre de olho ao seu redor sem conseguir relaxar. Lenny falou sobre isso com alguns amigos mas todos disseram que ele estava sendo exagerado, e ele concordava, mas por algum motivo não conseguia ficar calmo quando ia ao metrô.
    Então finalmente chega o dia em que acontece o que ele temia, ele está esperando seu metrô bem na beira dos trilhos, como sempre uma multidão em volta, e ,de repente, ele sente uma mão em seu ombro, ele se vira e vê que é a mulher que tem o “assombrado”. Com o susto dessa situação ele simplesmente recua rapidamente, mas como ele estava na borda plataforma acima do trilho, ele simplesmente pisa no ar e começa a cair. Enquanto ele cai, a cena vai acontecendo em câmera lenta pela perspectiva dele, e ele tem uma visão clara da mulher, que está com uma expressão de espanto. Ela estava com uma jaqueta na mão, que ele reconheceu como a jaqueta que ele havia perdido em um bar recentemente.
    Ela estava lá para simplesmente devolvê-la, todas as vezes que se sentiu vigiado foi por causa do caos da estação que não a deixava chegar até ele, e agora tudo que ele conseguia raciocinar era o som do metrô chegando, cada vez mais alto, metal raspando em metal.
  • A mulher dos sonhos

    Vejo uma mulher de costas, cabelos longos, até a altura de sua cintura, e negros, como a própria escuridão que lhe cerca neste sótão úmido e fétido, cheio de teias de aranha, que preserva apenas lembranças há muito esquecidas por todos. Sua pele branca se confundia com seu vestido, a tonalidade era quase a mesma, mas o mórbido tom de seus braços expostos tinha algum realce em detrimento do vestido limpo e brilhante.  

    Todos os homens que ali entram, a veem e se apaixonam. Vejo suas expressões de contentamento ao decorrer dos dias, semanas, meses, todos são felizes por alguns instantes e, eventualmente, vão embora. Contei quatro até então. Seria esta mulher um anjo que conforta os mal afortunados?

    Gostaria de vê-la melhor, enxergar sua face, contudo, não consigo mudar de posição para enxergá-la de frente e ela não se vira para mim. Não consigo observar o motivo de tal fascínio, apenas vejo aquelas costas delicadas tão expostas por seu longo vestido e escondidas por seus cabelos que as vezes se mexem com uma pequena brisa gélida

    (de onde vem essa brisa?),

    tenho uma ligeira ideia do tempo que se passou, pois aquele vestido branco e limpo já está um pouco desbotado, com algumas manchas e marcas de poeira.

    (aquilo parece uma gota vermelha...)

    Aguardo ansiosamente pelo próximo visitante, talvez traga algo que reflita a parte oculta desta figura à minha frente, não entendo porque não consigo vê-la

    (por que não se vira? Porque não consigo ir até ela?),

    e agora fazem anos que ninguém a visita, durante todo esse tempo ela se manteve inerte. Seu vestido está imundo. Vejo algumas traças passeando, alegremente, pelo pano que cobre suas pernas

    (tenho quase certeza de que são gotas vermelhas).

    Agora que me recordo bem, não lembro de algum dia tê-la visto se mexer, não lembro de ver os homens indo embora, eles apenas sumiram. Suas expressões eram mesmo de felicidade? Não tenho mais certeza.

    Meus olhos estão cansados, não lembro da última vez que pisquei. Afinal, sou prisioneiro aqui? Não me recordo. Quando este pensamento atinge minha mente, vejo seu rosto virando vagarosamente em minha direção.

    Não sei se durante todos esses anos ela esteve ciente de minha presença, se eu estava esquecido no fundo de um sótão imundo, ou se fora tudo um espetáculo mórbido para mim. Por que não me recordava? Por que era tão difícil me concentrar? Aos poucos, todo aquele mistério acabaria, poderia ver o rosto que tantos homens se apaixonaram ou se perderam, eu não sei mais.

    Gradualmente e morosamente sua face volta-se para mim, observo a carne do fronte de sua cabeça comida e esburacada, a maçã de seu rosto esquerda fora arrancada, parece que a mordidas. Sua testa tem cortes profundos o suficiente para se ver o branco do crânio, sua orelha direita era inexistente, com pequenos vermes entrando e saindo de seus orifícios. Seus olhos brancos como a neve não têm palpebras, mas eram enfeitado por pequenos riscos vermelhos, que se destacavam daquela pele morta. Seus dentes são todos pontiagudos e longos, seu pescoço tem marcas de violência, traumas, cortes superficiais e um profundo, acho que na iluminação certa seria possível ver sua coluna por aquele buraco. Seus braços finos e mal tratados, parecem tão frágeis, terminam em mãos delicadas, incrivelmente singelas. Apenas dois detalhes diferentes, suas unhas enormes e o dedo anelar faltando em sua mão esquerda, imagino se fora arrancado a mordidas,

    (sim mordidas, pois pela deformidade daquele ferimento, me parece algo feito por uma mente doentia)

     diria ainda que por ela mesma. Seu corpo é magro, o vestido é justo e revela apenas um seio, onde o outro deveria estar há apenas uma marca vermelha. Seu vestido não pode mais ser identificado como branco, é uma mistura de cores miseráveis contando a história de dor daquele ser.

    Ela se vira completamente e me encara, naquele cômodo sombrio, esquecido por Deus, onde as trevas reinam, como se dissesse “sim, eu lembro de você” e dá seu primeiro passo rumo a mim.

    Ela caminha lentamente até me alcançar, naqueles instantes que pareceram uma eternidade. Ao se aproximar, sua mão direita, com aquelas garras enormes, se estica em minha direção, minha noção de tempo se perde, não sei se tudo aquilo ocorreu em segundos ou horas, mas ela me alcança e aperta minha cintura perto da virilha.

    Não abro os olhos, mas acordo...

    Sinto o suor frio escorrendo de minha testa...

    Minhas costas estão encharcadas...

    Tenho a sensação de dormência em minha perna esquerda. Sinto o toque daquela mulher perfurando minha carne, não sei se foi o poder de minha mente transtornada que deu realidade àquele sonho ou se escapei da morte por pouco. Então passo a mão em minha cintura e virilha para ter certeza de que não há sangue. Não há. Lógico que não há, nada daquilo fora real, apenas fruto de uma imaginação perturbada.

    Viro na cama, puxo o cobertor até cobrir a cabeça, descubro meus pés. Estou vestindo meias grossas que sobem até metade de minha panturrilha, mesmo assim sinto frio. Não me atrevo a abrir os olhos, tenho medo do que possa ver, apenas tento dormir de novo. Sem sucesso.

    Rolo na cama por horas até criar um pouco de coragem e espio, com os olhos semi-cerrados, o que está ao meu lado. Suspiro aliviado ao ver que não há nada ali, apenas um armário e escuridão, além de uns poucos ruidos dos desbravadores da madrugada. Aqueles seres que passeam embreagados com seus carros ou taxis ou ubers ou qualquer outra forma que consigam usar para chegarem a seus destinos. Ouço um grupo de amigos conversando alto, bebendo, dando risada, até que um deles joga uma garrafa de vidro contra a parede e ri sozinho. O barulho incomoda os outros que o repreendem, ele pede desculpas e todos seguem seu caminho.

     Sinto um conforto instantâneo...

    Fecho os olhos, tento dormir de novo, sem sucesso,

    (maldita insônia)

    rolo na cama por mais alguns minutos

    (ou serão horas?).

    Bom, melhor desistir, não conseguirei pegar no sono. Esse frio nos meus pés incomoda mais do que posso suportar. O cobertor é pequeno e entre cobrir os pés e a cabeça, ainda prefiro cobrir a cabeça. Tenho certeza de que essa coberta tem super poderes e irá me proteger de qualquer mal. Desde que esteja cobrindo essa parte de meu corpo.

    Abandono a ideia de pregar os olhos, mas não tem problema, quanto tempo deve faltar até a hora de acordar? Com certeza, logo os outros quartos da casa se abrirão, o trânsito da rua voltará, o comércio abrirá as portas, levantarei para meu trabalho e tudo estará bem, tudo tem que ficar bem. Não consigo impedir um risinho nervoso ao pensar isso.

    Descubro meu rosto...

    Melhor cobrir os pés antes que eu pegue um resfriado.

    Abro os olhos...

    Aos pés de minha cama vejo aquela criatura de vestido branco, rosto destroçado, com seus vermes passeando por ali, e sorriso diabólico. Não consigo mais me mexer, sinto uma onde de choque que começa em meu peito e se espalha por todo meu corpo, deixando-me gelado e sem forças para qualquer movimento. Acho que é o pavor tomando conta de meu corpo. A respiração fica rápida e superficial, um ataque de pânico? Não sei, eu só quero acordar.

    (ou não estarei mais sonhando?)

    Aquele vulto se aproxima, um pequeno passo de cada vez, sinto seus pés encostando no meu leito, parece um movimento simples e frágil, mas sinto a cama tremer, talvez esteja tão assustada quanto eu.

    O ser estica seu braço e sinto sua mão gélida em meu tornozelo direito, a sensação de seu toque aumenta o horror em mim. Sinto sua força esmagando meus ligamentos. Ela aperta bem devagar, sorrindo e olhando para mim, parece ser divertido.

    A dor é insuportável, mas não consigo gritar nem me mexer, consigo apenas sentir. Ela me puxa alguns centímetros em sua direção, o suficiente para metade de minha canela ficar para fora da cama.

    Desvio meu olhar daquele rosto maligno e observo meu pé que agora está solto, não existem mais ossos ligando-o até o resto de minha perna,  virou uma massa molenga presa a mim por alguns pedaços de pele.

    Sua outra mão sobe por minha perna deixando listras de sangue em minha pele, até encontra minha coxa, próximo a virilha. Ouço passos fora do quarto, uma tosse seca que me dá um pouco de esperança. Ela não se importa, suas unhas encravam em meu corpo. Em sua eximia habilidade de tortura, tomou cuidado para não encontrar nenhuma artéria, sim, ela quer que eu sofra, contudo, devo durar bastante. Ela deve se alimentar disso, ou do medo ou do sofrimento. Por fim encontra meu fêmur e o perfura com a facilidade de alguém que atravessa manteiga com uma faca quente.

    (por que não posso desmaiar de dor e apenas acabar com isso tudo?)

    Lágrimas escorrem pelo meu rosto, lágrimas de dor e desespero. Aquele sorriso infernal não desaparece, o que é mais perturbador, ela também não emite nenhum som, penso em tentar agredi-la para me defender, só que meus braços estão imóveis, recusam-se a me obedecer, não os sinto e não os movimento. Já ouvi falar dessa sensação de paralisia de sono, algumas pessoas podem até alucinar e não conseguem se mexer ou falar, talvez esteja apenas passando por isso

    (certo? Por favor!),

    olho para meus membros superiores, para ter certeza de que estão lá, estão.

    Ainda...

    A mulher observa a direção de meu olhar, agarra meu pulso esquerdo, sempre com aquele sorriso,

    (oh... aquele sorriso, existe algo mais apavorante?),

    sinto a pressão que ela faz, suas unhas encravam em meu pulso e o sangue morno escorre, consigo senti-lo bem, isso e o cheiro de ferro. A roupa de cama, azul claro, fica com uma mancha escura avermelhada

    (isso é real? É apenas outro sonho? Por que não consigo gritar? Por que não consigo mexer meu corpo?).

    Uma nova tosse, próxima à minha porta

    (Por favor, abra a porta! Estou implorando!)

    mas está trancada, mesmo que tentassem, deveriam derrubá-la. E por que o fariam? Todos pensam que estou dormindo e não ouviram nada de errado. Provavelmente é só alguém para uma mijada noturna

    (Eu não ligo! Arromba essa maldita porta!)

    minhas preces não são atendidas, a próxima tossida já está distante, seguida de uma porta se fechando e uma chave para trancá-la.

    O demônio aproveita seu tempo, sabe que ninguém vira, sabe que não posso fazer nada, meu corpo está em frangalhos e estou entregue, então seu rosto de aproxima do meu...

    Seu sorriso finalmente cessa, olha fixamente em meus olhos, aquilo é mais aterrorizante

    (por favor, traga de volta aquele sorriso),

    se ela se alimenta de medo, sou o banquete perfeito. Se ela se alimenta de sofrimento, não há muito mais o que sofrer. E, então, aquele sorriso retorna, seus lábios encontram meu pescoço e sinto as perfurações excruciantes. Meu sangue escorre em grande quantidade, desta vez ela não teve cuidado para me preservar.

    Agora estou em paz, fecho os olhos e o mundo se apaga.

    Sempre me disseram que ao morrer em um sonhos você acorda. Por que não acordei?

  • A mulher dos sonhos - parte 2

    1

    Era uma bela quinta feira, embora a chuva e o frio tenham castigado a maior parte da manhã. Gosto desse clima, ainda mais porque posso pagar um uber para casa e não preciso me molhar demais. Afinal, passei o dia inteiro, em minha sala, rodeado de incompetentes. Enfim, parece que tudo vai melhorar daqui para frente, sem preocupações na empresa. Amanhã é feriado, acho que vou passar o dia na piscina. Talvez ligue para Derek me buscar para bebermos algo antes de ir.

    Chego em casa depois das nove da noite, foi um dia pesado de trabalho, relatórios atrasados, prazos perdidos, auditoria no meu pé, prefiro não lembrar disso agora. Jantei uma lasanha congelada, sem paciência para cozinhar nada. Apenas fiz questão de me servir uma taça de vinho tinto e liguei a televisão. Passava “Os Simpsons”, aquele pessoal amarelo sempre me faz rir. Uma das melhores formas de se encerrar uma noite depois de um dia estressante.

    Depois disso, vou para meu banheiro, é pequeno mas agradável, o piso de azulejo preto dá um belo realce com as paredes brancas. A privada é preta, também, acho que dá um visual moderno, e fica ao lado do boxe com o chuveiro. Em frente a tudo isso está a pia que é de vidro transparente. As gavetas e armários são brancos e pretos, mas isso não importa, foi um arquiteto que projetou tudo, não perdi meu tempo com aquilo, apenas exigi a pia transparente com a mesa e tudo. Queria uma daquelas torneiras que acendem luz, só que meu orçamento da época era apertado e, com o passar do tempo, essa vontade diminuiu, embora não tenha sumido.

    Finalmente tiro o terno, jogo-o no chão do banheiro mesmo (semana que vem levo ao tintureiro, não me importo) e tomo uma ducha quente. Deve ter durado uns 40 minutos, precisava muito relaxar. Escovo os dentes, pego o terno do chão e o levo até a área de serviço para deixar em cima da máquina de lavar.

    Estou exausto, então é melhor dormir logo, checo se as portas estão trancadas, afinal, um apartamento pode ser seguro, mas “é melhor prevenir do que remediar”, já dizia meu avô. Entro em meu quarto, aquela cama é meu orgulho, uma king size com um cobertor preto de um lado e branco do outro, com pêlo de ovelha na lado branco e aveludado do outro. Tenho quatro travesseiros ali, mas três sempre acabam no chão. Penduro minha toalha e pego um moletom velho que sempre uso para dormir, é hora de fechar os olhos e encerrar o dia, finalmente. Boa noite a todos e não me esperem cedo amanhã.

    2

    Acordo e olho para o relógio e vejo que já são três da manhã. É uma madrugada fria e silenciosa, sem nenhuma alma na rua, tenho certeza de que é possível ouvir grilos. Essa é a vantagem de um bairro afastado e sem muitos vizinhos, o silêncio cai muito bem. Uma ou outra moto passam na rua, sempre tem um imbecil que estoura o escapamento, apenas para fazer barulho, de resto provavelmente são esses entregadores atendendo aos pedidos dos bêbados e drogados da madrugada, voltando de suas baladas ou o inferno que seja, bancados por papai e mamãe, provavelmente nem trabalham os filhos da puta.

    Maldita insônia!

    Tudo bem, não tem problema, amanhã é feriado e posso dormir até mais tarde, na pior das hipóteses, cancelo a piscina e apenas bebo algumas cervejas com Derek.

    Levanto de minha cama, o lado direito se mantém vazio há muito tempo, desde que Stephanie pegou suas coisas e foi embora, deve ter me achado insuportável, mas não sinto falta dela, do sexo todo dia sim (então por que ainda tenho a foto dela no nosso quarto? Digo, no MEU quarto).

    O laptop está desligado, não estou com paciência de ligar e a escrivaninha é longe da cama (dois passos é muito longe no meu estado), a sonolência me domina por completo (mesmo sem conseguir dormir), deixa a sensação de que o mundo ao meu redor se move mais devagar. Melhor ir para sala assistir alguma besteira até pegar no sono. O caminho é curto, apenas um pequeno corredor, de alguma maneira parece menor do que o trajeto até a escrivaninha (assuma que se ligar o laptop irá atrás de Stephanie).

    Sento na minha poltrona, estico meus pés e puxo uma pequena manta, que sempre mantenho no sofá (mesmo no verão podemos ter noites frias, certo?). A tv de 58 polegadas acoplada à parede é outro orgulho que comprei com meu dinheiro. Sem Stephanie aqui, agora é tudo meu nessa casa, apenas a tv a cabo que não é.

    Neste horário passam apenas reprises, nem o canal pornô está interessante. Porra, quero apenas pegar no sono. Mudando de canais acho a gravação de algum talk show. É a entrevista de um jogador de futebol qualquer que me arranca algumas risadas com algumas histórias bestas. Que vida fácil esses caras têm, ganham em dez anos mais do que ganharei em 5 vidas e mesmo assim sempre querem mais em seus contratos.

    Dou duas piscadas, bem demoradas. Passei o dia todo trabalhando naquela merda de empresa, só queria que meu chefe morresse, aquele gordo, careca, filho de uma puta, ou eu poderia comer a mulher dele, tenho certeza que metade da empresa já passou por ali. É...uma... bela... esposa... trofé....

    Na terceira piscada meus olhos não abrem.

    Fui dominado pelo cansaço, senti o relaxamento por todo o corpo, a sensação era boa demais, aquela manta que peguei no voo de volta de Paris era muito confortável e aconchegante. Esses pequenos cobertores de avião são sempre muito bons. Mas se vou dormir é melhor voltar para cama.

    Abro os olhos e vejo que as paredes sangram ao meu redor, o chão está coberto de carne decomposta, com vermes se mexendo e moscas voando, além de ossos quebrados espalhados por toda a parte. A cena me causa um frio no estômago, meus olhos estão arregalados, o coração pulsando acelerado e o frio domina meus músculos.

    Um pequeno vulto branco escorregou da janela para o além, mas era possível ver algo escrito no orvalho, “estou chegando...”. O horror daquela imagem me fez cair da cadeira, fecho os olhos com a dor do impacto. Quando os abro, o cômodo está intocado, não havia nem orvalho na janela. Devo ter sonhado e não me dei conta.

    (Deus, que sonho horrível.)

    Essa fresta na janela tira todo o ar quente da sala. Porcaria de brisa fria vai acabar com a minha saúde. Aos poucos vou me aproximando da janela, para fechá-la, ainda enrolado em minha manta. Quando o faço, reparo em um pequeno rastro, quase imperceptível, de suor formando a frase “estou chegando...”.

    Que porra é essa? Quem escreveu isso aí? Devo ter visto acordado e acabei sonhando, sim, faz sentido. Mas quem conseguiria escrever isso na janela do nono andar? Estico meu braço, com a manta, e esfrego ali até a frase sumir. Bosta, perdi o sono agora. Vou dar uma mijada.

    O alívio no banheiro é muito bom, deve ter saído uns dois litros de mim, como pode ser? Acho que não bebi dois litros de água o dia todo. É um bom ponto, preciso me hidratar mais, só que no frio é difícil. Não sinto tanta sede. Acho que é mais uma daquelas promessas, que farei no amanhã que nunca chega.

    Lavo as mãos com água quente, chega a sair fumaça da torneira, cara como eu amo essa pia transparente, olha ela toda embaçada. Foi muito cara, mas valeu cada centavo e ela ainda acende umas luzes psicodélicas.

    Fecho a torneira e enxugo a mão, é quando sinto uma sensação estranha no fundo da garganta, começou como uma tosse leve e, logo, parecia que um pequeno grão de arroz entrou no buraco errado. Continuo tossindo e a sensação não passa, tusso mais alto e mais forte. Tento escarrar o que está em minha garganta e vou perdendo o fôlego aos poucos, arranho minha garganta forte ao ponto de minhas unhas ficarem vermelhas.

    Caio no chão e bato minha cabeça na parede de azulejo, o barulho é oco, não me importo, forço todo o meu pulmão naquela maldita tosse e é quando finalmente sai, aquela coisinha branca...

    Isso é um dente?

    Passo a língua dentro de minha boca para ver se não tenho nenhum faltando. Não tenho. Como isso foi parar dentro de mim?

    Olho para a pia e na condensação no vidro está escrito “estou chegando...”.

    A crise de tosse me ataca de novo, e mais forte, sinto vontade de vomitar, foi quando as primeiras gotas de sangue saíram de minha boca. O pânico me domina

    (o que diabos está acontecendo comigo?),

    a tosse segue incessante e não consigo me levantar. Com esforço fico de joelhos sinto como se todo o meu estômago estivesse prestes a vir para fora. Faço uma concha com as duas mãos. Então, de minha boca saem inúmeros dentes, sangue e pedras de gelo.

    (Incrivelmente, o que mais me chocou foram as pedras de gelo.)

    Contudo, sinto-me melhor e consigo me levantar, aquilo que não escorreu por entre meus dedos, joguei na privada e dei descarga. Fui até a pia novamente, apaguei aquela mensagem, lavei as mãos e molhei o rosto.

    O que está acontecendo comigo? Será que ainda estou sonhando? Vou acordar na sala de novo?

    Foi então que olhei no espelho e, atrás de mim, através da porta, consegui um vislumbre do corredor e aquele mesmo vulto branco apareceu. Virei-me no susto.

    BLAM!

    A porta bateu.

    (Mas que porra foi essa?)

    Meu coração parou por um segundo, senti o forro da minha calça esquentar e umedecer. Em meu desespero agarrei a maçaneta, estava gelada, como nada que já havia sentido antes. Minha mão queimou e a retirei rapidamente, apenas para ver que um pedaço de pele que ficou para trás, naquele metal.

    Senti um ardor onde a pele se desprendeu, olhei para minha mão e vi a ponta do anelar escurecer, até a primeira dobra.

    Então começou a sensação de dor...

    A pior dor que já senti na vida...

    Aquela dor acompanhava o rastro negro e era excruciante. Se alastrava rapidamente e, em instantes, chegou na segunda dobra. Procurei alguma tesoura ou algo do tipo. Não achei nada que pudesse me ajudar.

    (Meu Deus não acredito que vou fazer isso.)

    Coloquei o anelar inteiro na boca, fechei os dentes em volta dele e apertei com força. Soltei um grito abafado, a dor aumentava. Em meu desespero comecei a abrir e fechar a boca mais rápido e mais forte, os gritos de horror consumiam minha alma e usavam todo o meu pulmão. A dor intensificava cada vez mais, foi quando senti um pequeno peso em minha língua e reparei no sangue morno escorrendo pelo meu queijo.

    As lágrimas escorriam e encontravam o catarro que saia de seu nariz. Cuspi aquele dedo preto no chão e vi o líquido nefasto sair dele. Não tive tempo de ir até a privada, não consegui nem me levantar, apenas vomitei no chão a minha frente. Foi quando apaguei.

    Ao recobrar a consciência, por um breve momento,  imaginei ter sonhado tudo aquilo. Foquei meus olhos e reconheci aquele maldito dedo preto no chão. O odor parecia pior do que todo o sofrimento que senti até então. Com cuidado peguei aquela membro macabro, joguei na privada e dei descarga. Foi quando fechei os olhos e não contive as lágrimas incessantes.

    O vidro do boxe estourou e me arremessou contra a parede. Bati meu rosto e vi o sangue escorrendo por meu olho direito. Senti diversos cortes e tive medo de olhar, para saber minha condição de fato. Tudo que queria era sair dali, nada mais. Nunca fiz coisa nenhuma para merecer isso. Retirei minha pantufa e bati com ela na maçaneta até a porta abrir. Fiquei com medo de mais dor.

    Cada passo era difícil, o rastro de sangue escorrendo de meus cortes e, principalmente, de meu dedo decepado, diziam para eu desistir. O esforço que fiz era tremendo, contudo, consegui chegar à porta do quarto, onde poderia pegar meu celular para ligar para alguém. Sei que ninguém usa o anelar como impressão digital para desbloqueio, mas o pensamento me fez cair sentado gargalhando. Acho que minha sanidade se esvaia.

    Fiquei de pé novamente e entrei no quarto, quando olhei para minha cama, vi diversas marcas de mãos em sangue ali, estavam espalhadas no cobertor, nas paredes, na escrivaninha, nas cortinas, no armário e todas tinham o anelar faltando.

    (Eu fiz isso? É impossível, acabei de sair da merda do banheiro.)

    Não precisei me preocupar em procurar o celular, ele estava no chão, todo despedaçado.

    Foi então que olhei para o teto e vi aquela mensagem escrita em sangue “ESTOU CHEGANDO...”

    Foda-se essa merda, eu vou embora daqui...

    A dor me consumia e mal conseguia andar. Consegui passar pelo corredor, a custo de muito empenho, e fui até a porta de saída de meu apartamento. Estiquei minha mão, com todas as minhas forças, e abaixei a maçaneta. Já conseguia sentir o ar frio da rua e um breve sorriso invadiu meu rosto.

    Quando puxei a porta, ela não veio.

    Claro, está trancada, eu chequei isso antes de dormir. Peguei a chave que deixo pendurada por ali. Minha mão tremia de desespero e pavor. Tive que usar as duas para enfiar aquela porcaria no buraco, mas consegui.

    Giro a chave e ouço o click da liberdade.

    Puxei a porta.

    É então que vejo...

    Ali parada...

    Aquela mulher de branco com seus dentes pontiagudos em um sorriso maléfico.

  • A passagem Negra

    Capitulo I: A Montanha da Insanidade
    Possuía 30 anos na fatídica ocasião, disso lembrava-se bem por alguma razão, anos bem vividos na opinião de uns. Desperdiçado na visão de outros. A verdade é que nem ele mesmo se importava com isso àquela altura, só o que importava era chegar a seu destino, porém, estranhamente não se recordava de onde estava vindo e para onde estava indo.
    – Estranho. Pensou estupefato, se dando conta de que não fazia a menor ideia de onde estava.
    Tudo era escuridão, estava nu, mas não sentia frio, fome, ou pensando bem, não sentia coisa alguma. Como havia chegado até aquele lugar? Que lugar era aquele?
    Perguntas e perguntas sem fim bombardeavam sua cabeça. – Vamos tente se lembrar de qualquer coisa, vamos…
    Aos poucos pequenos flashes começaram a retornar do fundo de sua consciência.
    – Eu precisava chegar a algum lugar, me lembro ao menos disso. Espere, meu nome, qual era meu nome? – Sem se preocupar com as trevas que o engoliam naquele lugar. E onde era esse lugar. Pensou em seu celular, mas lembrou-se que estava completamente despido e desprovido de qualquer coisa.
    O medo começou a se apossar dele ao passo que escaneava o lugar, ou ao menos tentava. Ficou em pé com dificuldade, como se mal pudesse se manter ereto. Seu senso de equilíbrio estava deturpado, assim como seus outros sentidos percebeu, deixando escapar um guincho de terror.
    Resolveu sentar-se novamente, ou foi forçado? Suas pernas não se sentiam cansadas, porem ficar em pé ali parecia um esforço titânico. Sentou então e tentou se concentrar em sua audição, já que naquela complete escuridão mal podia ver alguns palmos a frente de seu rosto.
    Ele ainda arfava e tentava recuperar a compostura sentado ali, naquele interminável breu. – Ora recomponha-se homem, há uma explicação coerente para isto tudo. Vamos acalme-se. Repetia a si mesmo.
    Então notou também o terrível silencio que o cercava, era capaz de ouvir os batimentos de seu coração de forma muito nítida, parecia também ser capaz de ouvir seu próprio sangue correndo em suas veias. - Bom, ao menos isso significava que ainda estava vivo? - Não sabia dizer, não sabia também se realmente ouvia isso ou se imaginava tudo.
    Não havia cheiro, nem sons que não fossem seus próprios, não podia enxergar muito além de onde estava, não havia brisa ou vento ali, poderia ele estar em algum calabouço ou caverna? Olhou para cima e o negrume de um céu que parecia subir infinitamente, que o oprimiu e o fez sentir pequeno. Percebeu que parecia estar ao ar livre - Mas onde diabos estou? Pensou novamente. - Tentava mais uma vez lembrar-se de alguma coisa.
    Lembrou-se que estava voando em sua moto, o vento em seu rosto. Uma corrente de pavor correu todo seu corpo, sim lembrava-se disso agora, a sinuosa estrada que se abria a sua frente, a luz da lua alta e prateada no céu escuro com poucas estrelas e a fatídica curva. Mas o que tinha acontecido após a curva, não tinha certeza, embora tivesse de alguma maneira a certeza de que agora estava morto.
    -  Não isso é impossível, dizia a si próprio. Tentou com mais afinco lembrar-se de mais alguma coisa e então como uma torrente as coisas começaram a voltar.
    Lembrava-se de seu nome: “Ronald William Bock”, lembrava-se de que havia comemorado o trigésimo ano terreno pouco tempo atrás. Lembrava-se de uma festa com pouco conhecidos, com os quais mal se importava. Não era alguém popular, era um lobo solitário na maior parte do tempo como gostava de pensar a seu respeito.
    Alguma comida, cerveja, um bolo e logo todos haviam ido da mesma maneira que chegaram. E ele estava livre com seus pensamentos novamente.
    Lhe veio à mente a imagem de sua mãe e pai, não possuía irmãos, lembrava-se disso agora. Então uma luz forte e um barulho ensurdecedor vieram à tona, sim, estava morto, podia ver o carro descontrolado vindo em sua direção. No momento uma fração de segundos, agora podia testemunhar como se estivesse fora do espaço e tempo tudo o que aconteceu.
    Esforçou-se um pouco mais e então viu seu corpo sendo lançado ao ar, seu capacete de desmanchando contra o concreto da via. Nesse momento tudo havia ficado escuro e ele acordara aqui.
    - Bom pensou, é isso, estou morto, será esse lugar a vida após a morte? Será que estou no Inferno? Isso não me parece o Céu, se é que há um Céu e um Inferno? Então subitamente ouviu um chamado, não uma voz, uma sensação de que deveria seguir em frente até alguém ou algo que o aguardava.
    Sentiu um súbito frio na espinha, que terrores inimagináveis podiam estar espreitando nessa escuridão infindável. Teve a impressão de ver olhos iridescentes o encarando ao longe. - Estou louco. Pensou. - Até agora mal podia enxergar.
    Tentou levantar-se mais uma vez, cambaleou um pouco mais conseguiu se pôr em pé. Olhou a sua volta com os sentidos turvos e viu que se encontrava sobre algo como a beira de um precipício. Virou-se e olhou para trás e constatou que de fato não podia voltar por aquele caminho. A escuridão não possuía começo nos céus acima de sua cabeça e nem um fundo abaixo de seus pés ao que parecia. Não haviam pedras ou objetos soltos que pudesse jogar para tentar testar o quão fundo era a queda.
    Só Havia um caminho a seguir, pensou, para frente. Começou então a lenta caminhada em direção a frente sem saber para onde estava indo. No caminho teve a sensação de passar por outras almas, as quais mal se moviam e percebeu que elas o encaravam de volta como se olhassem através dele com seus olhares vazios e sem esperança. - A quanto tempo estariam ali paradas, contemplando o caos ou ordem? Não sabia dizer qual dos dois definiria melhor tal local. O que aconteceu a essas criaturas pensava consigo mesmo enquanto ainda caminhava. O tempo passaria ali onde se encontrava? Não sabia dizer, não sabia a quanto tempo estava parado sentado até então.
    Decidiu que tentaria falar com alguma dessas figuras etéreas se tivesse a oportunidade. O que seria essa oportunidade nem mesmo ele sabia. Seguiu seu caminho negro até chegar ao que lhe parecia um aclive com escadas que pareciam feitas da própria noite. Novamente o medo tomou conta de si, e se conteve ao pé das escadas, olhou novamente para trás e percebeu que não fossem pelas escadas, não teria a menor noção de onde era para frente, para trás ou para os lados. Era tudo de um puro breu a não ser pelos espectros que as vezes podia notar lá parados. Absortos vislumbrando o infinito.
    Havia um bem próximo a ele agora, assim como os outros, era impossível dizer se havia sido um homem ou mulher. Pensou em toca-lo, tentou toca-lo, mas como se já soubesse se deu conta de que tal espectro não possuía uma forma solida e suas mão passaram diretamente por ele e uma fria sensação correu por todo seu corpo. Sim já havia sentido esse frio esmagador, mas quando fora... - Quando morri! Pensou. Mas havia mais, era como se estivesse se perdendo dentro da angustia daquela pobre alma.
    Não conseguiu distinguir muito, apenas a tristeza abissal que afligia a aparição. Por que se sentia assim? Por que estava ali parada? Tantas perguntas sem respostas. E em um momento de quase loucura tentou gritar o mais alto que pode: - Não era pra que tudo fosse claro agora?! Ahhhh!
    Pareceu poder ver sua exclamação voar pelo nada e se distanciar cada vez mais. Para nunca cair nos ouvidos de alguém.
    Tentou comunicar-se com ele, mas percebeu que era inútil, a figura pelo que sentiu não possuía qualquer senso de consciência, de eu próprio a não ser por uma vaga ideia de nome que não pôde decifrar, talvez fosse essa a causa da angustia. Será que assim como ele tal criatura havia chegado até lá e não foi capaz de se lembrar de como tinha sido sua vida e sua morte?
    Ou ainda não pudesse aceitar que morrera? Talvez por isso ficasse imóvel ali, contemplando o nada, tentando entender tudo que ocorrera e onde estava. Sentiu-se de certa forma triunfante de que era melhor que esses pobres diabos, havia tido força suficiente para domar o vácuo etéreo que o oprimia e trazer de volta a si suas lembranças. Ainda era Ronald, ainda era um ser pensante e consciente, não se daria por vencido como outros antes dele. Regozijou e não escondeu seu desdém por aqueles que agora considerava fracos. Mais de sua personalidade voltava agora, mais de suas lembranças e experiencias.
    Tinha a natureza desconfiada, sempre fora cheio de si e orgulhoso daquilo que acreditava representar. Amava suas posses terrenas quase ao ponto da avareza. E estava nu agora. Isso o enfureceu. E então o fez rir. - Ora para que de fato iria precisar de coisa alguma aqui de qualquer modo. Disse, e então voltou a sentar-se para tentar lembrar de algo mais. Não admitiria agora estar assustado com o desconhecido. Concentrou-se em seu nome e em aspectos de sua vida que ele acreditava estimar, tentou focar-se agora em pessoas que conhecia. Sim, talvez aqueles que estiveram com ele em seus últimos dias terrenos. E aos poucos mais imagens e sons chegavam até ele e de forma sinistra pode olhar para si mesmo. Estava largado ensanguentado no canto da pista, sua moto uma Kawasaki Ninja verde que amara tanto jazia despedaça a alguns metros de seu corpo moribundo. Seu primeiro pensamento foi em ver quem o havia tomado a vida, se sentia escarnecido por ele, algo que ele compreendia bem quando vivo. - Quero ter um vislumbre ao menos de seu maldito rosto. Pensou em seu íntimo, enquanto era engolido por um ódio que o queimava por dentro.
    Antes porem que fosse capaz de distinguir qualquer coisa se viu novamente envolto pelo breu indiferente e pelo céu opressivo e podia ver agora claramente as escadas e o chão por onde havia caminhado. Pareciam feitos de ônix liso e brilhante, embora não houvesse luz alguma ali.
    Decidiu continuar caminhando pelo tortuoso caminho, sem saber exatamente para onde estava sendo levado. Caminhou pelo que lhe pareceu horas por um caminho que serpenteava o que parecia a encosta de uma imensa montando feita de noite e pedra.
    Menos e menos espectros habitavam os lugares mais altos ao ponto de que ele agora os via muito pouco. Um deles parecia lhe bloquear o caminho, encarando-o com suas orbitas inflamadas parecendo eviscerar lhe o fundo da alma.
    Esse parecia ter sido velho ao chegar aqui, não sabia como podia ter certeza daquilo, ambos ficaram lá imóveis. Ronald perscrutava cada centímetro desse ser em busca de algo que pudesse lhe dar qualquer indicação ou qualquer pista do que o esperava no cume, do que ele agora passara a chamar em seus pensamentos de montanha de Sísifo, aquele velho mito grego do rei que devia galgar a montanha mais alta de Hades enquanto levava uma gigante pedra a seu topo.
    Tentou toca-lo se aproximando, quando o espectro o rechaçou com uma onda tenebrosa cheia de fúria e pesar, fazendo cambalear vários degraus para baixo. Não sentia dor, a não ser o pesar de Moneta... - Espere um pouco. Como sei esse nome. E claro como o dia via também a forma como Moneta havia chegado a seu fim. Como ela era obcecada por esses derradeiros momentos.
    Esfaqueada e estuprada por soldados. Meu Deus pensou, ela está aqui desde os tempos romanos... Nesse momento também lembrou de Deus e do bem e do mal e começou a sentir temor novamente. Seria ele julgado? Ou já teria passado pelo julgamento e não se lembrava? Seria essa a punição pensou horrorizado, cair no esquecimento de tudo e todos que faziam dele quem ele era?
    Não podia se dar ao luxo de entrar em pânico agora pensou: - Não é quente aqui, não acho que estou no Inferno, nem no Céu... Será que... Sim. Devo estar no Limbo entre ambos.
    Fazia todo sentido para si que se encontrava em uma espécie de Limbo, sentia medo, tentou concentrar-se novamente de forma introspectiva para refletir sobre sua vida até aquele momento. Não havia sido uma pessoa bondosa, porem também não havia feito mal demasiado a ninguém, até onde podia se lembrar. Lembrou-se de brigas, discussões, das ocasiões em que ajudou ao próximo. E sentiu que aos poucos sua consciência o levava para outro lugar, como se fosse levado por uma leve correnteza.
    -  Um velório! Exclamou com surpresa, embora já soubesse que seria seu próprio enterro. Viu ali algumas pessoas que conhecera durante sua curta vida, não muitos, tinha a impressão de que alguns lá estavam para simplesmente vê-lo morto. - Já não importa mais, não posso alcançá-los e eles com toda certeza jamais poderão me ver novamente.
    Viu sua mãe junto de seu pai ao lado do caixão, que estava lacrado devido a seu estado. A expressão triste e cansada dominava o rosto de sua mãe. Expressão de alguém que chorara muito. Não podia mais suportar aquilo, tentou concentrar-se e voltar a Sísifo. Antes de obter sucesso pode ouvir sua mãe lhe dizer: - Vá em paz meu filho, você viveu e amou enquanto esteve conosco. Sentirei muito sua falta. Esteja em paz.
    Mal conseguia controlar suas emoções nesse ponto, o pesar, o amor, a raiva e revolta por tudo borbulhavam dentro dele, até que de volta ao negrume da montanha todas elas começavam a dissipar como se se misturando as trevas que o rodeavam. - Parece que aos poucos todos os sentimentos, bons e ruins estão deixando meu ser.
    Como se fosse purificado pela negridão ao seu redor. - Afinal não era isso que as trevas representavam? Indagou a si mesmo. A completa ausência de tudo, de onde nada podia escapar? Continuou:
    -  Não posso deixar que leve meu eu, do contrário ficarei como esses desgraçados perdidos nessa vastidão abissal. Preciso seguir caminhando antes que isso aconteça.
    O caminho como ele próprio esperava foi tortuoso e cheio de obstáculos, com a eventual visão de um ou mais espectros parados olhando através dele. Não sabia dizer por mais quanto tempo estava andando e não pretendia parar até chegar ao cume, afinal ele percebeu que de fato não ficara cansando por andar, porem achava difícil manter-se concentrado na tarefa herculana que possuía diante de si.
    Enfim, após o que considerava dias em sua percepção mortal das coisas, chegou ao fim do último lance de escadas incrustradas na rocha. E então quando pensava que não poderia se surpreender com mais nada que o universo pudesse jogar contra ele, descobriu para seu espanto estar muito enganado.
    Capitulo II: Os Obeliscos e as Estrelas Celestes
    Ali no centro da montanha de trevas e desilusão haviam duas gigantescas colunas como obeliscos paralelas, que assim como o céu pareciam não ter fim, rasgando a abóboda astral e subindo de forma titânica e imponente, prostrando a todos os que punham seus olhos nela.
    Ao centro de cada uma havia uma pequena passagem de mais ou menos duas vezes a altura de um homem alto e delas brotavam luzes de cores que ele jamais vira ou imaginara. Cores que até então eram invisíveis aos olhos humanos, luzes fantasmagóricas mais opressivas que os próprios obeliscos que ali descansavam provavelmente desde o início dos tempos, porém, por alguma sinistra razão se sentia atraído por elas como uma mariposa e atraída até uma lâmpada incandescente na mais densa das noites, inimagináveis para mortais.
    Ao centro entre os dois obeliscos havia uma plataforma circular, onde para seu espanto jazia um monstro humanoide disforme de proporções cinco ou seis vezes o tamanho de um homem adulto. Sentando em um trono de marfim mastodôntico. - Isto é uma estátua? Disse boquiaberto encarando aquela visão nefasta.
    Possuía 3 cabeças conjuntas, uma voltada para direita, outra para esquerda e uma para frente. A cabeça da frente era completamente negra, parecia feita do mesmo material da montanha. Não possuía olhos em suas orbitas, nem nariz, embora houvessem fendas que se pareciam com o nariz de um crânio.
    Sua boca, ou a fenda que se assemelhava a uma boca era aterrorizante, seus dentes, ou se e que eram dentes, lembravam estalactites e estalagmites. O rosto em si era liso como um espelho, já a face da esquerda se assemelhava mais a um animal do que há algo humano, embora não possuísse olhos que ele pudesse distinguir, essa por sua vez era de um branco tão pálido que assim como o magnifico trono se destacava e reluzia em contraste com a eterna noite onde se encerravam seus domínios. A qual animal ou fera mítica aquela coisa se parecia não sabia dizer, mas lhe causava extremo pavor.
    A terceira face possuía enormes chifres que se lançavam do topo de sua testa e se curvavam levemente para baixo para depois alçarem os céus. Esta porem parecia áspera e rustica em sua formação, com protuberâncias em forma de espinhos se pronunciando a partir de seu terrível queixo, sua enorme boca parecia ter sido lacrada. Era uma figura Dantesca, como se fosse um demônio saído do Cócito no nono círculo Infernal.
    O titã possuía um corpo humanoide, todo feito de pedra, com seis longos braços com três articulações cada, com mãos longas com seis dedos pontiagudos cada, seu quadril todo esparramado em seu trono e duas longas pernas que mais se pareciam raízes de arvores retorcidas que se fundiam com o solo pedregoso. - Essa coisa e definitivamente uma estátua. Proclamou em voz alta tentando esconder o temor e se convencer de que aquilo não poderia lhe fazer mal.
    Se aproximou mais, tentando inspecionar o que eram aquelas entradas em cada extremidade no centro dos obeliscos, julgava haver ao menos um quilômetro entre uma outra com a poderosa figura no centro e a encosta montanhosa atrás entre os três.
    Ao tentar se aproximar da entrada a direita, para sua surpresa a enorme figura quimérica pareceu ganhar vida e onde antes haviam apenas orbitas vazias agora se incandesciam com um brilho etéreo e espectral de cores fluorescentes. Então com um ranger ensurdecedor a figura recostou no trono e um barulho ensurdecer saiu da fenda que era a horrenda boca do meio.
    Não era capaz de discernir nenhuma palavra daquele turbilhão de sons, seus ouvidos prestes a estourar, podia sentir a montanha tremer e gemer, como se a própria noite estivesse acordando. Os espectros pelo quais passara agora pareciam em pânico absoluto com o que acontecia.
    Em meio a insanidade do momento, Ronald caiu em si e tentou se concentrar nas vibrações, afinal estava morto, duvidava que seus tímpanos pudessem romper-se. Para sua surpresa imaginava estar agora entendendo o que lhe estava sendo dito: - Somos as estrelas do agora, do que foi e também do que será. Estivemos aqui no início e estaremos também no final, quando Deus e o Vazio tiverem seu último confronto. Nossos nomes para aqueles que aqui chegam são: Minos a Estrela Celeste da Nobreza, Radamanto a Estrela Celeste da Fúria e Eaco a Estrela Celeste do heroísmo.
    Nós somos aqueles responsáveis por encaminhar os mortais que aqui se aventuram para o próximo estágio... Ronald sentia-se tonto, perdido em meio àquela presença colossal. Antes que pudesse dizer ou até mesmo formular uma pergunta racional a voz profunda de Eaco continuava a retumbar: - Abandone sua vida mortal, purifique-se e siga pela passagem. Ao tempo que terminava de falar as coisas voltavam ao seu estado natural ou antinatural como pensava Ronald.
    Enquanto recuperava sua compostura Ronald por alguma razão se enchia de revolta, talvez tenha sido a ordem para abandonar sua vida mortal, não se sentia preparado para abandonar seu eu. E o que isso se quer significava, ele era Ronald, ninguém mais, não podia deixar de ser, nem queria. Não, jamais abandonaria o que lhe tornava ele, único.
    Com a ira crescente dentro de si, imaginou ter visto quem considerava ser Radamanto virar a imensa cabeça em sua direção e subitamente sentiu como se estivesse sendo sugado pela criatura, mas não estava, seu ódio porem diminuía e veio a compreender o que acontecera, aqueles seres tirariam dele tudo o que lhe fazia ele próprio. Em um ímpeto de coragem conseguiu indagar a massiva estatua: - Eu mereço explicações, sempre acreditamos que a morte seria o lugar de verdades e não mais dúvidas. Eu demando saber o que fará comigo, o que são essas almas penadas pelo caminho, e por que devo abandonar o meu eu?
    De repente a cabeça que julgava ser Minos começava a mover-se em sua direção e as outras pareciam deliciadas com a audácia daquele minúsculo e ignóbil mortal.
    - Algo passageiro e ínfimo como você ousa questionar as leis da existência?
    - Sim. Disse ele de forma tímida. - Acho que todos que chegam aqui merecem algumas respostas antes de cruzarem seja lá o que for que se esconde após essa passagem.
    Então a cabeça central voltou-se para ele novamente. E disse: - Você não é digno de saber os mistérios da existência em sua totalidade, mas posso lhe sanar algumas dúvidas antes que faça a passagem.
    Seus pensamentos iam e vinham de forma assustadora, tentou concentrar-se e afastar o medo a opressão que os seres forçavam sobre ele. E então imaginou o que perguntar primeiro. Mas antes que pudesse dizer algo a voz ressoou novamente: - Lhe responderei três perguntas, faça as com cuidado mortal.
    Ronald respirara fundo, engolira a seco e tentara formular a primeira de suas três perguntas que seriam respondidas, mas o que deveria perguntar... Foi então que a primeira delas se materializou em sua mente: - O que são todas essas almas espalhadas por esse local? Refiro-me as que ficam apenas paradas olhando para mim enquanto me dirigia para cá? Suponho que não seja o único a chegar até aqui, porém não via mais ninguém tentando chegar ao cume. O que aconteceu a elas? O que são elas? Repetiu. Ao que Eacos quem supunha ser a cabeça do meio deixou que sua voz gutural se propaga-se pela escuridão daquele abismo sem vida.
    - São mortais, tal como você, que chegaram até aqui após o fim de sua jornada terrena, que assim como você se esforçaram para lembrar quem foram, o que fizeram, a quem amaram, odiaram. Alguns habitam essa montanha estéril a milênios em anos que mortais compreendem. Outros simplesmente não possuem a força ou a vontade para chegarem até aqui, pois ainda se sentem vivos e não conseguem entender que já não vivem mais. Eles ainda se apegam ao seu ego e a sua vida terrena e são incapazes de deixar ir, logo não podem entrar pela passagem e se recusam a desistir de quem foram. E assim presos estão. Esperando um doce esquecimento que jamais virá. Sofrerão para sempre na montanha, incapazes de continuar. Perdendo aos poucos o restante de sua humanidade, até não se lembrarem mais do que não queriam perder. Ficando assim para sempre enclausurados na negridão da montanha.
    Sentiu um nó em seu estomago, estaria ele preso a essa mesmo destino? Não tinha intenções de se separar de quem foi, de quem era. Não entendi a razão para isso, porem também não iria ficar e se entregar a sombria montanha.
    O colosso de pedra novamente recostava em seu trono, seus olhos como sempre penetrando o âmago de Ronald como a luz penetra as sombras. Nesse instante Ronald começou novamente a sentir-se tonto e de repente foi novamente puxado para o dia de sua partida terrena. Estava novamente contemplando o local onde acontecera seu fatal acidente. Dessa vez parecia estar posicionado da perspectiva de seu assassino.
    Uma onda fúria tomou conta de si, enquanto novamente podia observar as coisas em seu próprio tempo, vira que o motorista corria de forma insana pelas sinuosas curvas daquela maldita via. Desta vez pode dar uma boa olhada em no homem que colocou um ponto final em sua jornada.
    O motorista era homem de cabelos cacheados muito pretos, nariz de batata, a pele bronzeada e dentes muito brancos. Possuía um olhar de extremo desespero em seu rosto. - Estranho, ele só vai colidir comigo em duas curvas, mas já parece assustado. Indagou em seus pensamentos. Sentia-se puxado de volta, tentou resistir a força magnética que o chamava, ainda tinha muito o que ver desse sujeito assassino.
    Deu por si novamente de fronte para o monstro abissal. Dessa vez a imensa cabeça branca como perola se voltava para ele. Sabia que devia fazer sua próxima pergunta mesmo antes de que começassem a falar. De fato, não sabia se queria ouvi-los mais uma vez.
    Minos aguardava pacientemente.
    - O que são esses portais que você guarda? O que há após atravessa-los? Por que existem dois deles? Antes que pudesse continuar Minos rugiu com sua voz bestial em resposta. Ronald sentiu como se milhares de raios trovejassem ao mesmo tempo.
    E de novo precisou concentrar-se para que pudesse compreender o que estava sendo dito. Um fluxo de informações se desenrolou em seu cérebro e então era capaz de entender o que lhe era dito mais uma vez.
    -  Essas são as passagens para o próximo passo da jornada mortal, todas as almas devem cruzar essa fronteira no limiar do desconhecido. O que há após a passagem negra você saberá quando as cruzar. Se as cruzar.
    A besta continuou a vociferar:
    - Os obeliscos são portentos que já existiam aqui antes mesmo de toda a criação mortal, são fontes inesgotáveis de poder e transmutações, de criação e de destruição, representam a dualidade da existência, a ordem e ao mesmo tempo o caos. O tudo e o nada, vida e morte.
    Ronald ainda aguardava a resposta para a última parte de sua pergunta, quando novamente teve a sensação de correnteza. Sabia que estava sendo novamente levado a algum lugar. Sabia que as Estrelas Celestes eram as responsáveis por isso. Tentou lutar contra a atração, Minos ainda lhe devia a resposta. Então pouco antes de tudo ficar enegrecido e sombrio novamente exclamou: -Por que são dois?!
    Imaginou ter ouvido ou mentalizado a palavra “Escolha”.
    Estava novamente observando o passado. Dessa vez, não estava na via e nem podia ver seu nêmesis por ali. Mas onde era ali? Quando era ali? Tantas perguntas e tão poucas respostas. Era um quarto branco e iluminado, encostado no fundo da sala havia uma daquelas camas medonhas de hospital. Com uma mulher que não devia ter mais do que trinta e cinco ou quarenta anos. Ela chorava copiosamente.
    Sem entender o que havia se passado ali, Ronald ficou confuso. Seria ele puxado de volta agora, sem nem ao menos entender por que estava vendo isso?
    Então sentiu o tempo dilatar-se e então contrair-se e quando deu por si um médico contava a mulher que assim como as tentativas passadas, essa gravidez lhe trazia perigo. E que não seria aconselhável tentar novamente caso o pior ocorresse. - Quem seria essa mulher? Indagou a si mesmo.
    La estavam novamente um encarando o outro, porem somente um deles lidava com emoções desconcertantes. Ele sabia que a cada viagem dessas, mas de si próprio era drenado pela estatua, sabia disso, sentia isso, mas nem ao menos entendia o motivo de sua última visão.
    Radamanto o observava. Agora podia ver aquela face demoníaca repleta de olhos, algo que ele não pudera perceber antes. Já sabia o que perguntaria desta vez.
    - Por que devemos ser purificados, ahn? Por que devemos abandonar tudo aquilo que somos e fomos? Quando você se diz estar aqui desde o início, deve apreciar lembrar-se de quem é. O que me diz a respeito dos espectros, não são importantes o bastante para serem purificados? Não...
    Antes que pudesse terminar a pergunta sentiu a mão monstruosa do titã agarra-lo e traze-lo bem perto da temível boca que parecia ter sido costurada e aqueles diversos olhos fumegantes focados nele.
    Não ouve estardalhaço desta vez, e sim imagens e sons dentro de sua cabeça. - Para que quando deem o próximo passo, estejam livres do apego de uma aventura passageira e possam seguir em frente. Começou a responder a cabeça da direita. A mais monstruosa delas pareciam ser a mais cordial, pensou Ronald.
    A voz continuou: - De uma forma ou de outra todas as almas são e serão purificadas, o quando e a forma são as únicas coisas que diferem. Aqueles que fazem a passagem são purificados e continuam sua jornada, enquanto os que se recusam e aqui residem também acabam esquecendo tudo que são eventualmente. Porém sem lembrança alguma ou vontade, são incapazes de seguir em frente, pois já não desejam mais nada, já não são mais capazes de escolher.
    Sentiu a mão apertar-se mais em torno de si, e novamente sentia que seria arrastado para algum outro lugar. Lutou violentamente com sua mente contra essa incursão, voltava a via, não precisava mais ver isso pensou e mentalizou, já aceitava estar morto. Concentrou-se o máximo que pode e viu que o cenário mudou drasticamente, assim como o tempo em que se encontrava pareceu mudar. Viu sua mãe, sentada no canto de seu jazigo. O olhar perdido a frente, passando por ele, afinal ele não era corpóreo.
    Não queria mais nada daquilo e em um último ato desafiador ordenou ser trazido de volta, ao que para sua surpresa foi atendido. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Eacos novamente fez a montanha tremer, ao dizer ao mortal que passado, presente e futuro acontecem simultaneamente e que muitos mortais são incapazes de entender o significado dos avisos que recebem. E continuou a falar:
    - Você deve agora abandonar seu passado e passar pelo portal que se encontra a minha direita. Dizia Eacos enquanto três de seus braços apontavam para a passagem, ao mesmo tempo que a outra mão soltava Ronald ao chão.
    - Va agora mortal, ou ficara aqui para sempre.
    A cabeça de Ronald voava com toda a informação que havia recebido. Já não sentia mais medo, talvez por terem tomado isso dele. Em um ímpeto de loucura e insanidade que o tomava agora, sua velha natureza desconfiada passava a frente, então ergue-se desafiador e bradou: - Por que deveria confiar em uma coisa feito você? Por que deveria ir pela porta da esquerda, porque não ir pela porta a minha direita? Quer me mandar para o abismo desgraçado!
    A estátua jazia imóvel sem parecer se importar com a crise de histeria que se desenrolava a sua frente. E então de súbito suas mãos tentaram alcançar Ronald, que novamente ouviu Radamanto em sua cabeça lhe dizendo que era indiferente quais das passagens ele tomasse, mas que iria ser purificado e tomaria uma delas. De uma forma ou de outra.
    Em seu estado de pânico e pura insanidade Ronald conseguiu passar por entre os gigantescos dedos pontudos e chegara até a borda do precipício que daria diretamente de fronte para onde ele acreditava ter acordado no início de toda essa loucura.
    Os três observavam.
    Quando Ronald respirou fundo e disse suas últimas palavras para o colosso: - Você mencionou escolhas certo? Eis aqui a minha escolha sua aberração monstruosa e disforme. Não serei purificado, não abandonarei quem sou jamais e caso não seja capaz de cruzar a passagem mesmo assim me recuso a encontrar um fim tão patético e débil como desses fracos diabos a sua volta.
    - Sou dono de meu próprio destino! Disse isso pouco antes de se jogar do topo de Sísifo.
    Capitulo III: O Ciclo Interminável
    A lua cheia estava alta no céu com sua suave luz prateada iluminando todos os cantos daquela cidade. Não havia muitas estrelas no céu naquele dia e nem muitas pessoas nas ruas. É o que geralmente acontece em feriados naquela pacata cidade. As pessoas costumavam deixar suas casas e irem viajar na véspera, para somente voltarem no dia após a data comemorativa.
    Ronald adorava esses dias, não gostava muito das pessoas preferia ser sua própria companhia principalmente quando decidia voar baixo com sua potente moto, pelas sinuosas e lindas estradas que cortavam os campos verdejantes e imensas arvores que ficavam tão linda ao luar.
    Ronald era um homem alto com mais de um metro e oitenta, de compleição forte, mandíbula quadrada, nariz de tamanho médio e fino. Seus olhos eram de um azul profundo e frio, muitos diziam que não havia vida por trás de seus olhos. Seus cabelos eram castanhos e cortados curtos em estilo militar. Possuía uma personalidade forte, o que na maior parte do tempo fazia com que as pessoas se afastassem dele. - Os fracos temem os fortes. Repetia para todos que quisessem ouvir.
    - Jamais serei um fraco, nem mesmo na morte. Expurgarei o véu da incerteza e olharei Deus em sua face e direi a ele que poderia ter feito melhor, haha haha! Disse a sua mãe certa vez em tom zombeteiro e desafiador. Se dizia um homem único, o qual o molde fora quebrado logo após sua fabricação. Dizia também que o mundo jamais poderia existir sem ele, embora não acreditasse de verdade nisso.
    Ronald sentia-se solitário em feriados porem especialmente triste naquele dia. Já não falava com seus pais havia algum tempo, nem se lembrava da razão pela qual havia se desentendido. Não importava. Decidira sair de casa, olhar para o teto o estava deixando maluco, e uma noite assim não podia ser desperdiçada, as estradas estariam tranquilas, o tempo estava propicio e logo poderia estar voando baixo pelas estradas da mãe Terra. Não sabia por que, porem sabia que seu destino o estava chamando para encontra-lo. Rira sozinho. Acreditava mesmo em destino? - Veremos onde a noite me leva.
    Ao sair para rua uivou para lua, para divertimento de algumas poucas pessoas nas janelas de suas casas. Ainda era cedo, cerca de sete horas da noite. - Uma lua assim nos faz entrar em contato com nosso lado bestial. Dissera sozinho para quem quisesse ouvir.
    Após uns trinta minutos queimando asfalto decidiu parar para beber alguma coisa em uma boate de quinta que ficava ao lado da rodovia e se divertir com as garotas que lhe diriam qualquer coisa por dinheiro.
    Linda Tessario Almeida era uma mulher em seus trinta anos de vida, era baixa e magra, com espessos cabelos castanhos que lhe caiam até a cintura que era fina e bem formada. Seus grandes olhos castanhos passavam a sensação de carinho e bondade a todos a quem ela olhava. Seus lábios eram carnudos e sua boca sempre vermelha sua cor favorita dizia ela.
    Havia se casado há algum tempo atrás com um homem chamado Derick Almeida, ambos se amavam muito e haviam passado juntos por momentos muito difíceis em suas vidas, tanto separados quanto unidos.
    Quando pequena Linda foi uma criança doente que vivia de medico em medico, hospital a hospital. Passou por muitos procedimentos que envolviam radiação e outras coisas que prejudicavam seu diminuto corpo, embora tenha vencido a doença que lhe afligia algumas sequelas a acompanharam por toda sua vida.
    Devido a isso não era uma mulher particularmente forte, mas estava sempre bem-disposta a aproveitar a vida e as pessoas. Seu único pesar era a incapacidade de gerar uma vida, algo com o que sonhava desde que podia se lembrar. Ser mãe, cuidar de outro ser como sua mãe cuidara dela até chegar ao fim de seus dias.
    Havia esperado o filho de Derick por três vezes e em todas as três, sua vida estava em risco por complicações. O primeiro era natimorto e teve que ser removido, no segundo um aborto terrível no sexto mês de gestação e no terceiro não havia passado do terceiro mês e lhe causara uma hemorragia que quase a levara para o outro mundo.
    Essa era sua última chance e o médico lhe advertira no hospital aquele dia, que não seria aconselhável tentar novamente caso o pior ocorresse. Seu marido e ela estavam apreensivos, porém Derick sofria com a possibilidade de desta vez perder tanto seu filho quanto sua esposa.
    O relógio marcava oito e meia da noite, Ronald deixava o inferninho para trás para voltar para sua casa. Quando sentado em sua moto refletia sobre sua vida. Sentiu pesar por ter deixado as coisas com seus pais chegarem aquele ponto, entendia que eles só queriam o melhor, mas ele como sempre era esquentado. Nada como álcool e mulheres com pouca roupa para fazê-lo refletir sobre seus erros.
    Decidira que iria para a casa de seus pais agora na cidade vizinha, afinal era só continuar seguindo essa pista calma e deserta por mais 20 quilômetros e logo estarei lá pensou. E assim começara sua última viagem.
    Derick voltava mais cedo de suas férias com sua esposa mais cedo, algo não estava bem, podia dizer, sua esposa não costuma reclamar ou se queixar das coisas, logo sabia que quando ela o fazia a situação era séria.
    Ronald deitava sua moto em cada curva, cada vez aumentando mais a velocidade e zunindo pelo asfalto. Derick pisava no acelerador, sua esposa agora gritava de dor e começara a sangrar, essa era sua quarta gravidez, já estava no oitavo mês, segundo o médico essa deveria ser sua última chance, do contrário deveriam tentar adotar uma criança dissera ele. Linda não sabia, mas nunca seria mãe.
    Ronald fez uma curva e então na próxima viu aquela luz desgovernada em sua direção, então nunca mais viu coisa alguma. Derick dobrou a via, Linda gritou de dor, Derick olhara para ela, não usava cinto de segurança. Derick deve ser torso destruído pelo volante do carro. Derick jamais foi pai.
    O carro capotou diversas vezes e ficou la parado no canto da estrada. O ceifeiro estava ocupado naquele dia, Ronald jazia destruído a esquerda, Derrick morrera no impacto, seu corpo fora partido em dois. Linda ainda presa ao assento do carro desfalecia de forma rápida, somente capaz de balbuciar algo: - Por favor você precisa sobreviver, mamãe não será capaz de estar com você, mas você precisa viver. O Resgate levaria 10 minutos para chegar até ali.
    Capitulo IV: Vitória
    Ele caia pelas sombras intermináveis daqueles domínios, imaginava que bateria em algo durante a queda, porem ele só caia e caia na penumbra que o consumia. Parecia estar caindo a eras em sua percepção, novamente não saberia dizer.
    Sentia-se triunfante, ainda era Ronald e sempre seria Ronald. Sim jamais passaria pela passagem negra agora, nunca conheceria o próximo estágio, mas ao menos ainda era Ronald e jamais se tornaria um espectro sem vontade. Sentia frio pela primeira vez desde que chegara aquela montanha, não sabia o motivo. Agora se entregara ao êxtase não vazio sobrenatural e escuro, já não pensava em mais nada, somente na paz que experienciava agora., não havia mais ódio, insegurança, amor, só aquela sensação de frio e calmaria enquanto caia para as profundezas abismais do desconhecido.
    Presa ainda no carro Linda agonizava, quando foi capaz de ver um rosto amigo, um enorme homem negro, não um gigante de ébano, lhe tranquilizava com sua voz doce e seus cuidados. Um gigante gentil. - Me chamo Malloy. Vamos ajudar você, estamos preocupados com o bebe, não temos certeza de que irá sobreviver. Mas você precisa ser forte.
    - Corte meu ventre e tire o dali com vida por favor esse é o último pedido que tenho em vida. Disse linda poucos minutos antes de ser abraçada pelo vazio e pela noite. O ceifeiro ali aguardava. Levaria mais uma ou duas almas para o nada?
    Ronald continuava a cair de forma vertiginosa, teve a impressão de ver um minúsculo ponto azul bem lá embaixo que parecia aumentar e aumentar de tamanho. Logo lhe ocorreu que aquela era a Terra. Divertiu-se momentaneamente com isso quando pensou que se tornaria uma alma penada lá. Quantas histórias loucas ouvira durante sua vida e que nunca acreditara e despachara como maluquice?
    Divertir-se-ia mais se não tivesse percebido que já não se lembrava mais de seu nome, nem de quem era e se não houvesse aquela sensação agonizante de estar sendo carbonizado. O fogo brotava de seu corpo como fogo fátuo, e suas memorias queimavam e eram despedaçadas ao mesmo tempo em que continuava a cair e a Terra continuava a se aproximar mais e mais. Sua essência estava sendo reciclada sua forma mudava para algo menor, e não havia nada que pudesse fazer para impedir o que acontecia. Já nem mais se lembrava da montanha ou das criaturas que lá habitavam. E em uma explosão de chamas não havia mais nada.
    De volta ao hospital médicos e enfermeiros corriam de um lado para o outro em um frenesi assustador, a pequena menina foi salva as outras três pessoas envolvidas no acidente brutal da via 666 haviam morrido no local.
    Malloy segurava a pequena criança em seus enormes braços contente de pelo menos terem salvado uma vida. Ele abriu os olhos via tudo branco, seus olhos doíam, a claridade lhe machucava como se nunca tivesse enxergado antes. Não se lembrava de muitas coisas mais sabia que se fechasse os olhos jamais seria o mesmo de novo. O que acontecera, ele não se lembrava, lembrava-se de que possuía um nome, sim, meu nome era Ronal... E então a pequena caiu no sono. - Pequenina você teve uma Vitória hoje. Disse Malloy, veremos se pode conseguir mais uma e ter uma família.
    Quatro anos haviam se passado desde então, e naquela sepultura para qual Malloy olhava jaziam Linda e Derick. -Esses eram meus pais disse Vitoria confusa? - Sim. Replicou O gigante gentil. Agora vamos sua mãe está esperando e logo tenho que voltar para meu plantão.
    - O que ela está fazendo ali? Perguntou de forma inocente a menina.
    - Isso ela deve te contar pequenina. Respondeu.
    E se aproximando de forma acanhada daquele único tumulo no canto da ala, indagou a senhora sentada a beira do tumulo. - Quem é esse homem mamãe?
    - Esse Vitória é seu irmão que morreu no mesmo dia em que seus pais se foram. Se chamava Ronald. Como seu nome do meio. E a senhora sorria de forma doce e gentil para a pequena Vitória Ronald Bock.
  • A praça dos suicidas

    A praça era movimentada. Transpirava alegria. Nunca tristeza, exceto pelas madrugadas, onde algumas pessoas estranhas e maltrapilhas passavam constantemente por lá. Mexiam no lixo que tínhamos acabado de ajeitar. Mas não faziam mal a ninguém. Só nos assustavam. Pedrinho e eu resolvemos nos estabelecer ali. Fazer morada.
    Sentia-me feliz, apesar das circunstâncias. Havia um campo de futebol onde brincávamos com os garotos da vizinhança. As mulheres da barraca nos davam comida à vontade. Éramos seus garotos de recado. Limpávamos a praça todos os finais de noite. Ajudávamos o pessoal do parque e em troca ganhávamos cortesia. Contribuíamos com tudo e todos. Não nos faltava nada, só uma casa e uma família . A Alimentação era farta. Ali era o point do bairro. Namoros, paqueras, afetos e desafetos começavam ali. As escolas públicas e particulares circundavam a praça. Os alunos matavam aula namorando nos bancos . Às vezes víamos os pais indo buscar seus filhos(as) pelos cabelos por não estarem na escola. Festas de São João, Carnaval e diversas apresentações culturais aconteciam na quadra da praça.. Tudo acontecia ali, ou ao seu redor. Era um lugar tipicamente de família, mesmo com alguns garotos, eventualmente, usando drogas. À noite, a criançada invadia o local. Pedrinho e eu adorávamos a noite. Brincávamos no parque com as outras crianças. Depois íamos ler os gibis na banca de Jornal. O seu Furtado, senhor idoso, cuidava da banca. Em troca de favores, eles nos deixava ler. Em frente à Praça havia uma Igreja  evangélica que mensalmente distribuía sopões e trazia filmes para a comunidade. Os obreiros e os pastores também gostavam da gente. Nós dormíamos dentro da igreja, exceto nas vigílias, quando varavam a noite rezando.
       A partir das 4h da manhã, a Praça já começava a lotar. Trabalhadores dos diversos lugares vão para suas respectivas paradas de ônibus, de um lado a outro da praça. Outros iniciavam sua caminhada matinal. Muitos transeuntes iam em direção ao Metrô, cuja estação ficava a alguns metros. Até uma academia ao ar livre havia. Assaltos e sinais de violência eram raros. Pedrinho, ao dormir, costumava falar. Não sei como os especialistas chamam isso. Ele sempre falava da nossa irmã, do pai, da mãe e de nossa tia, que nos paparicava. Ele acordava chorando. Aquilo me machucava tão profundamente que eu entrava numa profunda prostração por alguns minutos.
    - Pesadelos de novo, Pedrinho? acho que a gente precisa de um médico.
    - Sonhei com nossa família. Sonhei que eles nos resgatavam daqui.
    - A ficha não caiu, Pedrinho? nossos pais morreram junto com nossa irmã, e a tia fugiu e nos deixou nesta praça. E nos ensinou como se comportar. Temos roupas e o que precisamos para viver.
    - Foi só um sonho.
    - Vamos, o seu Furtado quer os jornais dele antes da banca abrir.
    Eles saem da Igreja e esperam o entregador dos jornais chegar, que passava na praça antes do seu Furtado abrir sua banca. Eles pegam o material e voltam.
    - Estão com fome, garotos? pergunta seu Furtado.
    - Já merendamos na igreja com o vigia, mas obrigado.
    - Se quiserem ler as revistinhas infantis podem ficar à vontade, não podem pegar aquelas, que aparecem as mulheres do carnaval.
    Cinco anos se passaram desde que apareceram na praça. São gêmeos, mas bem diferentes um do outro: Um branco, outro negro.
    Pedrinho, por que a tia não nos levou com ela e nos abandonou neste lugar?
    - Depois de tanto tempo, você não entendeu aquilo, e morando praticamente nas ruas?
    - Não.
    - Ela fez isso porque nos amava
    - Não sei se você lembra, mas nossos pais foram assassinados e a tia estava sendo perseguida aquela noite. Conseguiu desviar a atenção do carro que a procurava. Ela arranjou um tempo para nos colocar abaixo do palco desta praça.  Depois voltou para o carro. Mas ainda ouvi os tiros de longe. Ela está morta, Pedrinho. Se não tivesse desviado seu caminho para nos esconder, certamente estaria viva. Mas seu carinho por nós era tão grande que se sacrificou por nós.
    - Por que?
    - Ela disse que nós recomeçássemos a vida. Que não fôssemos como a esposa de Ló, que olhou para trás. Caso contrário, morreríamos. Jamais olhe para trás. Vai enfraquecê-lo. Vai o prostrar. Isso vai jogá-lo nas drogas ou na depressão. Depois de tudo que passamos ainda vai querer passar pela cadeia ou o manicômio? E então? não vai honrar a memória dela?
    - Quem os matou?
    - Não ouviu o conselho da tia?
    - Esquece! são apenas curiosidades.
    Dois dias depois...
    _ Que pena , Pedrinho.  Vamos ter que sair daqui. Gosto tanto dessa Praça.
    _  De onde tirou isso?
    - Uma mulher veio nos avisar ontem que deveríamos partir  hoje.
    - E quem é ela? era daqui?
    -  Não sei. Era um  tipo engraçada. Parecia uma alma. Brilhava e falava como se eu  fosse uma criança.  Disse que nossa partida se daria à noite. Ela me disse que  esta praça vai ser transferida. O parque, as traves do campo, a banca e as barracas. As igrejas também passarão a funcionar em outro local. E todos que moram e trabalham aqui virão conosco.
    - E o que farão com a praça?
    - Também não sei. Vão destruí-la, talvez para construir grandes prédios. Aqueles que a gente via na TV.  Ela só me disse que o ciclo da comunidade  neste espaço expirou.  Segundo ela, era o momento de sairmos daqui. Acrescentou também que não deveríamos estar juntos. Só estivemos juntos durante esse tempo por concessão temporária de Deus. Nossos destinos não mais se cruzarão, depois da mudança. As crianças, segundo elas,  tem esse direito, mas logo se separam em decorrência de nossa raiz desencarnatória.
    - Raiz  desencarnatória? nunca ouvi essa palavra. Acho que nem existe. É gente maluca. Não ligue.
    - Fico triste. Toda vez  que parte de uma cidade ou bairro morre, aqueles que viveram ali morrem um pouquinho também. Os objetos, as paredes e os concretos guardam um pouco da nossa vida e história. Tantas amizades, tantos sorrisos, tantos namoros. A buzina do metrô que  passa. O homem do peixe com seu assobio. As mulheres das barracas mandando recadinhos para seus amantes. Os jogos de futebol. A praça é quase um organismo vivo.
    -  Eu prefiro morrer a viver fora dessa Praça. Aqui é o meu mundo.
    -  O mundo muda, nada permanece. Agora a praça pertence a outras pessoas. Deixe-as viver seus momentos como nós vivemos os nossos. São seres humanos. Um dia também estarão conversando sobre essa praça. Suas aventuras. As mortes, o lixo e tudo que ainda tem por aqui. Cada tempo carrega sua glória e cruz. É o momento para outros.
       Anoiteceu na praça. Os garotos veem as barracas sendo desarmadas. O parque também é desmontado. Duas mulheres aparecem:
    - Olha Pedrinho, é a mulher de quem eu falava.
    - Olá, Crianças.
    - Crianças? nós? indaga Pedrinho.
    - Sim, meus amores É hora de partir. Vocês também precisam partir ou ficarão presas aqui, para sempre.
    - Por que não nos deixa em paz?  por que estão retirando tudo?
    - Porque  outras pessoas precisam do lugar, meus anjinhos,
    - E quem é a senhora?
    - Sou a tutora espiritual deste local. Mas não se preocupem. Aonde vamos viverão da mesma maneira.
    - Ficaremos. E a  senhora é uma louca com essa roupa de bruxa boazinha.
    - Vocês que sabem.
       Todos partem, exceto os gêmeos. Aos poucos os objetos e as casas começam a sumir. E tudo se transforma num completo deserto. Não há nada nem ninguém. Só um forte vento sobre a areia. E um penhasco enorme à frente deles.
    - Pedrinho, não me sinto bem.
    - O que tem?
    - Uma angústia, um vazio, uma vontade de chorar. Faz tempo que venho sentindo isso.
    - Eu também. Não vejo mais sentido em viver.
    - Não temos pai, mãe e nossa tia. Tantas saudades.
    - Eu também.
    - Quero ir para onde eles estão. Quero visitar minha irmãzinha!
    - Pedrinho, deixa eu escrever uma mensagem à tia caso não as encontremos:
    -  Não temos mais canetas. Não temos mais nada. Só um ao outro neste imenso deserto.
    - Vou orar a Deus para que ele nos leve:
    "Deus,estamos sem força. a praça e seus moradores foram embora. Estamos sozinho, igualmente quando chegamos. A vida sem ela não tem sentido,  é um fardo que não aguentamos carregar. Suportamos por cinco anos enquanto essa praça tinha vida. Agora tudo acabou. Tenho saudades dos bons tempos em que me diverti aqui. Porém, a saudade éda minha família é maior, que aqui nos deixou aos seus cuidados. Tenho saudades das brincadeiras da minha tia , de seus mimos, da voz da minha irmãzinha e de seu sorriso, dos beijos da minha mãe quando ela nos deixava na escola, das nossas conversas no campo quando todos se reuniam nos finais de semana. Daquela bagunça, daquele falatório onde todos atrapalhavam a fala um do outro. Saudades do papai e de sua mansidão ao nos ensinar a tarefa de casa. Saudades do meu quarto, do meu notebook e dos meus pais  brigando comigo. Não quero ficar mais aqui. Quero ficar com eles. Por favor, Deus, coloque-nos perto de nossa irmãzinha e de nossa querida tia. O aperto no coração é forte."
       Os gêmeos estão desesperados. Choram. Mas só há deserto, areia e vento. Sobem num grande penhasco e de lá se jogam.  Eles caem  e desaparecem com o impacto. .
    - Acorda, Pedrinho!!!!
    - onde estou?
    - está no parque para onde iríamos transferi-lo.
    - E o meu irmão?
    - Ele está bem, não se preocupe, porém bem distante. Ele não pode ficar entre nós, infelizmente. Mas tenho uma surpresa para você. Olhe:
    - Mamãe , papai, titia, diz pedrinho chorando!
    - Cadê minha irmãzinha, mãe?
    - Está aqui, meu amor.
    - Mas ela não cresceu?
    - Meu lindo filho, aqui ninguém cresce ou envelhece.
       Algum tempo depois....
    - Marcão, o que são essas duas cruzes abaixo do parque dessa praça?
    - Colocaram aí por causa das duas crianças encontradas mortas, perfuradas de bala. Eram gêmeos.
    - E por que fizeram isso com elas?
    - Os pais eram envolvidos com drogas. E tudo indica que a facção inimiga, essa que domina a atualmente nossa área, invadiu a casa do casal. Mas antes, o casal se matou junto com a filha pequena. A tia das crianças tomou um troço para se matar, mas  que demorava a fazer efeito. Fugiu com os meninos.  Eles tinham dez anos. A tia deles morreu dirigindo. Já estava morta quando bateu no poste, bem ali, perto do viaduto. Mesmo assim, deram trinta disparos nela. As crianças ficaram aqui sob aviso: se escutassem disparos de longe tomassem as pílulas que ela os deu. Deu um comprimido a cada garoto.  A perícia constatou que uma das crianças já estava morta quando recebeu os tiros. A outra estava dormindo.  Encontraram na roupa de um deles uma pílula, geralmente usada por suicidas.
    - Que loucura. Eu conhecia esse casal, mas pareciam tão normais. Cada coisa. E como sabe desses detalhes?
    - As Câmeras da praça. Veja. Gravaram tudo.
    - Que bizarro.
    - Pois é. E tem mais: uma médium inglesa me disse que essa história de reencarnação é mentira. Na verdade,  os espíritos ficam dispersos por vários mundos, espaços e colônias espirituais, de acordo com o que fizeram na vida encarnada.  Alguns estão condenados a vagarem eternamente pela terra, sem rumo. Ninguém os ouve nem os vê. Nem os outros espíritos. Ela também me afirmou que os suicidas estão condenados a vagarem por praças,  bem parecidas com esta aqui. Ela até me mostrou uma miniatura. Era uma especialista nessas coisas de espíritos, céu, inferno etc..
    -  E os bebês, o que ocorre com eles?
    - Ficam as mães, para sempre.
    - Você  acredita nisso, Marcão?
    - Não, sou um  curioso, apenas. Mas gosto do assunto, confesso.
    - Vai uma cervejinha depois do expediente?
    - combinado
  • A última ceia

    Ele olha as nuvens passarem, uma a uma, enquanto pensa na sua aguardada viagem. Afinal, deu muito duro e economizou bastante ao longo do ano para que seu destino se cumprisse: Natal. Depois de muita dedicação e esforço, eis que seu sonho está prestes a se realizar, pois segundo suas contas, em poucos minutos o avião deve pousar. Quanta exultação!
    O toque do piloto ressoa e nosso protagonista já se empertiga alvoroçado em seu assento, mal contendo sua felicidade diante da descida iminente.

    - "Senhores passageiros, apertem os cintos que estamos realizando uma manobra de descida ao nosso destino."

    Ao ouvir estas palavras, lágrimas escorrem no rosto de nosso protagonista, claramente emocionado com aquele momento, em que um curta-metragem da sua vida se desenrola subitamente à sua vista. Assim, ele narra a si como chegou até ali, evidenciando pessoas e situações marcantes em sua, oras penosa, oras honrosa, trajetória, ao passo que o avião desce em espiral e aciona os freios, tocando, finalmente, o chão.

    Ironia do destino: seria melhor ter continuado no céu.

    Os freios não funcionam, o avião corre frenético pela pista, os passageiros, inclusive nosso protagonista, ficam aturdidos, já que as luzes se apagam e de repente um clarão consome tudo. Fim da linha.

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    Naquela noite, todos os jornais foram inundados por imagens e vídeos das chamas que dilaceraram os tripulantes do voo do nosso protagonista. A colisão com a torre de comando foi fatal, não deixando ninguém para contar história. Viagem inesquecível, ficará na memória de todos aqueles que acompanharam esta tragédia.

    Quanto ao nosso protagonista, cremado sumariamente, o sonho se tornou pesadelo. Se bem que horrendo mesmo foi ver sua esposa, grávida, cedendo, e ao seu recuperar, cair em prantos junto à família enlutada. Tamanho estrago não podia resultar noutra coisa: naquele ano não houve Natal para eles.
  • Alvorecer

     Naquela noite em meio ao meu ser desprovido de qualquer sono, retirei-me de meus aposentos e fui em direção ao verde gramado em meu quintal. O céu estrelado parecia não se importar com a presença de alguém indesejado lhe observando daquela maneira tola e desprovida de qualquer motivação além do puro tédio de um mero cotidiano mórbido.
     A Lua devorava a imensidão em plena noite, e a aurora formada diante de meus olhos era capaz de cativar qualquer outro observador que ali estivesse. Mas algo não parecia certo; um estrondo longínquo chegou em meus ouvidos e despertou a atenção de meus olhos que já estavam direcionados para o que viria a seguir. Três estrelas se alinharam de forma vertical logo após o estrondo ter cessado. As estrelas das extremidades se apagaram em conjunto e a intermediária começou a crescer em tamanho e luminosidade.
    Minhas pálpebras não conseguiam se fechar diante daquela cena única. A estrela estava vindo em direção ao planeta Terra... não, não... em direção a mim...
     Um fogo azulado cercou totalmente a luz outrora branca; estava entrando em órbita. Meus olhos se fecharam involuntariamente por um milésimo de segundo, tempo este, suficiente para que a luz duplicasse de tamanho. Com o dilatar de minhas pupilas que estavam diante de tal cena incompreensível, a grande luz se apagou e junto dela meus olhos se fecharam. Meu pavor teve início quando meus olhos se abriram e perceberam... aquilo não era uma estrela...
  • Amor de Quarentena

    ***
    - Só que eu te amo.
    - Mas EU... – (não acredito que ela usou uma pausa dramática) -  não te amo. – ela disse colocando a mão em seu ombro – Adeus Kevin.
    Essas palavras soaram como uma chave de fenda enferrujada penetrando profundamente no coração de Kevin. Ele e Vanessa namoraram por dois anos. Foi algo completamente inesperado, mas talvez, se Kevin prestasse mais atenção aos sinais, não fosse tão inesperado assim. A verdade é que, no final, ambos tinham se acomodado com a presença um do outro. Não faziam muito além de transar e ficar no quarto o dia todo pensando em quando transariam de novo, não tinham nada para conversar ou se preocupar um com o outro. Ela não fazia questão de sair com ele, ele não fazia questão de ter ela por perto. Kevin imagina que a amava, no fundo, talvez acreditasse que isso já não era mais verdade. Ela já não demonstrava sentimentos há meses, e ele achava que demonstrava, mas a verdade estava longe disso.
    Kevin, um rapaz de 20 anos recém completos, era magrelo e tinha cabelos negros até os ombros e belos olhos azuis. Foram esses olhos que atraíram Vanessa, não tinha dúvida. E naquela tarde após a escola, estavam no último ano quando finalmente se beijaram. Havia meses que flertavam, ele começava a duvidar que algo iria acontecer. Foi a segunda garota que beijou e foi com quem perdeu a virgindade.
    Ainda morava com os pais. Eles eram jovens, seu pai tinha apenas 39 anos e sua mãe 36, sempre soube que fora uma gravidez acidental de uma noite bêbada com dois namorados apaixonados e não ligava (não existe uma história de amor muito melhor do que essa, certo? Eles estão juntos e apaixonados até hoje). Seus pais foram expulsos de casa por conta disso, também não se importaram, decidiram que todo o amor que não tiveram em casa dariam para aquela criança e que trabalhariam duro para tudo dar certo. Ele trabalhou em bar por muitos anos até virar o dono e ela trabalhava em lojas de departamento, mesmo sem estudos subiu bem na carreira. Nunca tiveram luxos, só que nada lhes faltou.
    E todo o amor que Kevin recebia de seus pais era o mais importante, principalmente nesses momentos de tristeza. Foi com eles que fumou maconha pela primeira vez. Diziam “melhor fumar aqui do que em um beco sujo qualquer, com todas aquelas porcarias que colocam no meio”. Ele fumou e não gostou, nunca mais encostou naquilo. Mas gostava de beber, geralmente não muito, só quando se sentia para baixo ou quando saia com os amigos, ou em festas em casa (na verdade, quando sozinho ele só bebia se estivesse triste).
    Gostava de tocar sua guitarra, pensava em fazer uma tatuagem, queria um dragão no braços inteiro, só que nunca venceu seu medo de agulhas. Era um guitarrista medíocre, contudo, ganhava alguns trocados tocando na noite. Foi convidado para uma banda e entrou no cenários dos pubs, tocava de quarta a sábado e a grana ficou melhor. Ajudava nas contas de casa e grande parte do que sobrava ele guardava para seu futuro.
    Uma vez por mês jogava na loteria com seus pais, cada um escolhia um terço dos números. Davam risada e nunca acompanhavam os sorteios, apenas viam os número dias depois. Nunca ganharam nada, mas o valor era baixo e o pequeno evento em família era prazeroso.
    Eles moravam no sétimo andar e Kevin, sem querer, viu alguém se mudando para o prédio da frente, apenas uma janela abaixo. Depois ele iria descobrir que ali não era o sexto andar como em seu prédio, na verdade era o terceiro, já que os três primeiros andares dali eram comerciais e por ter uma entrada diferente, tinham os três andares ignorados.
    Entre os novos vizinhos, reparou que havia uma garota que parecia ter sua idade. O que lhe chamou atenção nela, a princípio, foram aqueles longos cabelos loiros que brilhavam intensamente, poderiam ser vistos de longe. Parecia ser filha única, assim como ele. Contudo, seus pais já eram grisalhos. Ela não reparou nele e ele não quis ser o sujeitinho estranho que fica observando as outras pessoas por ai.
    Foi então que o mundo inteiro mudou...
    ***
    Não havia informações precisas de como tudo começou ou de onde surgiu. Diversos lugares no mundo indicavam casos ao mesmo tempo e fronteiras começaram ser fechadas.
    Tarde demais, infelizmente...
    A princípio era apenas uma tosse mais resistente, alguns espirros, nada que não se curasse com o tempo (acreditavam) e provavelmente deve ser uma gripe mais forte. Quando as pessoas começaram a espirar sangue, que escorria incontrolavelmente de suas narinas, a preocupação surgiu. Logo, milhares morreram e o mundo entrou em quarentena. Ainda era possível ir ao mercado e alguns outros serviços essenciais que ainda funcionavam.
    - Filho, não sabemos como será essa pandemia por aqui. Então, vamos ao mercado para estocar aquilo que realmente importa.
    - Cerveja?
    - Eu criei esse filho tão bem – diz seu pai rindo – muita cerveja, mas um pouco de comida faz bem também.
    Os dois riram e saíram juntos.
    Os pais de Kevin se cuidavam bem, faziam exercícios regularmente e visitas periódicas ao médico para seus respectivos check ups. Em geral eles que faziam as compras nos mercados só os dois e, aos poucos, estocavam tudo que precisavam.
    Ninguém sabia explicar como se dava o contágio, a televisão informava que era por espirros ou tosse e recomendava cobrir com o braço para não infectar outros e a limpar as mãos constantemente. O tempo de incubação era de 7 dias e era extremamente contagioso. Também, nesse período, não era possível detectar os doentes. Após isso, os sintomas se confundiam com o  de uma gripe simples, durava de 7 dias a 15 dias com tosse e espirro, daí a confusão com uma simples gripe. Depois variava, algumas pessoas tinham pouco sangramento, similar ao rompimento de uma veia, como acontecem em temperaturas muito elevadas ou algo do tipo. Em outros casos, ocorriam jorros de sangue pelo nariz e pela boca, com pedaços mais densos. Cientistas trabalhavam incessantemente ao redor do mundo procurando uma cura.
    Logo, as ruas ficaram desertas. Embora o número de vítimas fatais fosse baixo, muitos já estavam em estado grave sucateando os hospitais e acomodações temporárias. Foi quando o primeiro grito veio pela janela.
    - Ei! Vizinho de cabelo cumprido! Sempre gostei de um roqueirinho! – A frase é seguida de risadas divertidas.
    Kevin estava na janela contemplando o vazio da rua e perdido em seus pensamentos. Seus cabelos soltos brincavam na frente de sua face. Quando olhou para frente, viu sua vizinha loira, com um belo sorriso, acenando para ele. Ele vestia uma regata do Iron Maiden. Seus braços eram definidos, provavelmente por tentar tocar bateria, nunca fora muito fã de exercícios.
    - Oi! Vizinha de cabelo amarelo!
    - Preciso conversar com alguém para não ficar louca! Já que não tem ninguém na rua e meu prédio parece vazio, fala comigo!
    - Claro! Qual seu nome?
    - Ariel e o seu?
    - Sou Kevin, muito prazer! Mas acho melhor falar por telefone, minhas cordas vocais não vão aguentar muito! Passa o seu número!?
    - Como você é adiantado. Deveria me pagar um jantar ou uma bebida antes de pedir isso! Mas tudo bem, anota ai!
    Ela passou o número e começaram a conversar. Logo, todos os dias saiam na janela para ver o pôr do Sol juntos. Kevin, apesar de novo, não enxergava muito bem de longe. Só tinha certeza de que a garota era loira, até ver sua foto no celular. Seu coração se apaixonou instantaneamente. Acreditou piamente que era a coisa mais linda que já vira na vida (e isso incluía o por do Sol e a aurora boreal que vira com seus pais no inverno rigoroso da Noruega, mas nessa época ainda namorava Vanessa. Preferia não lembrar)
    ***
    Os amigos de Kevin pararam de lhe responder. Rumores de mortes eram frenéticos e ninguém sabia o que de fato acontecia. Foi quando os doentes começavam a chorar sangue e a morte parecia certa.
    Naquela quarta feira as televisões ainda funcionavam e era possível comprar bilhetes da loteria pela internet. A família de Kevin se reuniu, mesmo sem a energia de sempre, e comprou um bilhete. Foi a primeira vez que viram o sorteio ao vivo.
    Em meio a toda aquela loucura, eles ganharam 46 milhões na loteria daquele dia, que seriam muito bem vindos. Dois dias depois um anúncio informou que a premiação seria suspensa até o final da pandemia. Depois de 4 dias surgiu a notícia de que um cura chegaria até setembro, apenas 5 meses dali. Um fio de esperança, embora não se soubesse toda a extensão daquela doença, sabia que ela começara a matar rápido.
    Muito fugiram das grandes cidades, entretanto a maioria ficou. Mortos surgiram jogados nas ruas e ninguém saia de casa para retirá-los. A calamidade era total. Os mercados foram fechados e começaram a ser saqueados. A família de Kevin conseguiu visitar alguns pela região e estocaram comida para pelo menos 7 meses, então, pararam de sair. Todos pararam de sair de suas casas, era perigoso demais.
    A última notícia que a televisão transmitiu era de que já havia mais de 5 milhões de mortos ao redor do mundo e 10 milhões de infectados confirmados. Não tinham ideia da dimensão de doentes com sintomas iniciais, aqueles parecidos com uma gripe comum.
    Ariel estava preocupada. Seu pai jazia doente e se trancara no quarto, não queria contato com ninguém, e sua mãe lhe levava comida receosa com o que poderia ver lá dentro. Ambas sabiam que ele não duraria até uma cura aparecer e que seu estoque de mantimentos não era tão grande.
    Mesmo de longe Kevin sentia a tristeza de seu novo amor. E tentava consolá-la por telefone sempre que podia. Até as linhas serem cortadas. A internet não existia mais, a telecomunicação não existia mais. O cenário era cada vez mais nebuloso, contudo, faltava pouco para a cura chegar e tudo ficaria bem. Kevin tinha comida o suficiente e, assim que possível, pediria para Ariel ir para sua casa com seus pais (provavelmente só com a mãe).
    ***
    Sem telefone, os gritos pela janela voltaram. Era a única forma que tinham para se comunicar.
    - Como você está amor?
    - Estou bem. Acho que meu pai não vai sobreviver muito mais tempo. – falar aquilo gritando causou um peso maior do que Ariel poderia suportar. Começou a chorar. – Eu não quero perder meu pai!
    - Queria poder ir ai te abraçar querida. Sinto muito por tudo o que está acontecendo, queria que tudo fosse diferente... mas... - esse “mas” saiu baixo, Ariel não ouviu, contudo viu a expressão de tristeza no rosto de seu amor.
    - O que aconteceu?
    - Meu pai também está doente. E acho que minha mãe está da mesma forma. Eles estão comendo bem menos e não saem do quarto. Pedem para não entrar, só que preciso levar comida para eles. Eles vão morrer logo, eu sei disso.
    - Sinto muito. Nada disso deveria acontecer.
    - Sim. E sabe o mais incrível? Somos milionários, mas o dinheiro não virá nunca. Acho que mesmo se tivéssemos ganho antes não teríamos muito o que fazer com ele. E talvez eu não tivesse te conhecido... – Ele parou um pouco refletindo, então respirou fundo e preparou o próximo grito - Você valeu muito mais do que aqueles 46 milhões.
    - Eu te amo, Kevin – ela gritou a plenos pulmões com o rosto brilhando por suas lágrimas refletindo a luz do Sol.
    - Também te amo, Ariel. Não existe outra pessoa que eu gostaria de passar esses momentos que não fosse você.
    No fundo, eles sabiam que não sobrara ninguém para ouvir sua conversa. Ninguém mais saia nas janelas. As tosses que Kevin ouvia nos corredores de seu prédio cessaram. As pessoas morreram trancadas em casa. Ele não sabia como não havia sido infectado, muito embora seus pais que saíssem na rua, nunca deixou de abraça-los. E, em breve, estariam mortos.
    ***
    - Estou com fome Kevin... A comida acabou aqui tem 4 dias. Meus pais morreram, tive que coloca-los no quarto e cobri-los. Sinto-me horrível.
    - Queria que tivesse alguma forma de lhe mandar comida. Ainda tenho bastante. E sem meus pais, tenho muito mais do que preciso, pelo menos até a cura. Os cientistas disseram que chegaria em setembro, falta apenas um mês! Temos que aguentar e poderei finalmente te abraçar, meu amor.
    - Você é a coisa mais perfeita que encontrei na minha vida – diz Ariel enxugando as lágrimas. – Vamos tentar sim.
    - Vamos conseguir!
    Em seu apartamento, Kevin procurou alguma linha, corda ou qualquer coisa que pudesse jogar até a janela de Ariel para lhe dar comida. Nada tinha a distância certa. Pensou em amarrar roupas, mas não teria força o suficiente para lançar até lá. Conseguiu um fio frágil de nylon, achou que não aguentaria o peso da comida. Decidiu arriscar. Amarrou o fio em um avião de papel e arremessou em direção à janela de Ariel. Treinou a infância inteira aquele arremesso e acertou de primeira.
    - Eu não acredito! Vai dar certo! – Exclamou Ariel pulando e sorrindo. – Vou amarrar aqui.
    Com muito cuidado, Kevin colocou um pacote de macarrão instantâneo no fio e fez deslizar até Ariel. Ela conseguiu pegar. Quase não se controlou, abriu o pacote e já ia dar uma bocada, quando olhou para Kevin rindo.
    - Esquenta isso ai, sua louca! – Kevin não conseguiu segurar a gargalhada.
    Ela riu, mandou um beijinho para ele, agradeceu a comida e sumiu da janela.
    Quase uma semana se passou e Kevin não arriscava enviar nada mais pesado do que um pacote de macarrão instantâneo para Ariel, mas era visível sua condição física debilitada. Ela estava subnutrida e não viveria muito comendo apenas aquela porcaria. Então ele conseguiu colocar um cabide no fio de náilon e grudou uma lata de atum com fita crepe na base do cabide. Era a esperança que tinha para ajudá-la.
    O cabide deslizou vagarosamente. O peso fez com que parasse na metade do caminho. Kevin colocou os pés no parapeito e ficou de pé para dar uma altura maior à sua ponta do fio. A lata começou a se mover, alguns centímetros vagarosos, então o fio não aguentou e se desfez.
    Foi possível ouvir o coração de Ariel partindo da janela de Kevin. Sua expressão de felicidade mudou rapidamente para tristeza e logo desespero. Ela colocou as mãos no rosto, se apoiou no parapeito e chorou.
    - Calma amor, por favor. Vou conseguiu outra coisa. Vou arrumar outra solução.
    - Tudo bem, amor. – disse Ariel sem emoção alguma.
    Então sumiu na janela. Kevin não a viu por dois dias.
    Nesse meio tempo procurou outras alternativas. Não encontrou nenhuma, nada que alcançasse a janela do outro lado da rua. 50 metros para salvar a vida daquela garota, que significava todo o seu mundo e ele não conseguia. Foi então, que Ariel apareceu na janela novamente.
    - Eu te amo, Kevin, nunca esqueça disso. Mesmo sem nunca termos diminuído a distância entre nós, nunca termos nos tocado, nunca termos nos beijado, eu te amo! Você é a pessoa mais incrível que já conheci em toda a minha vida e de todo o meu coração eu queria ter te conhecido em outras circunstâncias. – Ela chorava copiosamente – Mas... eu.... – a voz falhou. Ela não conseguia tirar do peito o que precisava dizer – eu... não... EU NÃO AGUENTO MAIS!! DESCULPE!!
    Ela levantou o braço, ele viu uma pequena marca e em sua mão havia uma pistola negra.
    - Não! PELO AMOR DE DEUS NÃO!
    Era tarde demais. Ele viu um clarão, aquele barulho alto e, então, o corpo de Ariel pendeu para a esquerda e sumiu da visão que Kevin tinha por aquela janela.
    ***
    Um Mês se passara desde a morte dela. Era setembro e nenhum sinal de cura. Mais um mês se passou e outro, logo, era perto do natal. Pensou na família que se fora. Pensou no amor que se fora. Ela não vai voltar. Seus pais não vão voltar. Ninguém vai voltar, estão todos mortos.
    Foi ao quarto dos pais. Com muito cuidado para não perturbar os mortos que ele carinhosamente havia postado na cama de casal, juntos, embaixo do cobertor para não ver mais aquela cena hedionda de como morreram. Abriu o cofre escondido no armário, sabia a combinação de cor, afinal, ele que escolheu, e pegou a arma que os pais deixavam ali dentro. Guardou-a na parte da frente da calça.
    Saiu do apartamento e desceu pelas escadas. O silêncio daquelas escadarias era ensurdecedor, sentiu vontade de chorar, mas não o fez. Que bem lhe faria chorar sozinho em uma escadaria escura? Seguiu seu caminho até chegar ao térreo.
    (Todos mortos. O que posso fazer?)
    Ali tinha uma cadeira onde sentou. Pôde ver, através das duas portas: a primeira era uma estrutura de metal resistente, mas os vidros foram quebrados; a segunda era um portão de aço, que foram barradas com tudo que pudesse fazer peso, como geladeiras, freezers, sofás, tudo que conseguiram usar para que a porta não cedesse com aqueles mortos que andavam lá fora. Ele nunca soube quando essas pessoas voltariam da cova e havia mais de um milhão naquela rua, essa era sua estimativa desde que o fio de esperança de Ariel arrebentou derrubando sua lata de atum. Porém, havia meses que eles estavam ali e não iam embora.
    (Todos estão mortos. E os mortos estão vivos..)
    Aquela rua completamente tomada por aqueles que voltaram de suas tumbas. Imaginou que fossem partir dali antes de sua comida acabar ou que alguém viria ajudar. Ninguém veio ajudar e sua comida acabou, mesmo assim eles estão lá, balançando lentamente de um lado para o outro sem se mover e com aquele gemido baixo.
    Devem estar todos assim, todos mortos, pelo mundo inteiro. Lembrou do dia que seu pai voltou com uma mordida no braço, como ele devorou o pescoço de sua mãe e como teve que abater os dois com um pedaço de pau. Nunca imaginou que fosse capaz de fazer aquilo.
    Lembrou do amor da janela da frente, o amor que nunca beijou, que nunca tocou, da marca em seu braço com a pistola, provavelmente uma mordida que recebeu de seu pai voltando dos mortos. Ele tinha lhe dito para esmagar a cabeça deles antes que voltassem à vida. Ela provavelmente achou que a porta do quarto iria segurá-los. Lembrou do clarão do tiro que lhe atravessou a cabeça e daqueles dois cadáveres grisalhos que invadiram seu quarto e a devoraram. Então abaixou a cabeça e chorou, em silêncio, no meio do som do murmúrio dos mortos.
    Não sabia quando ou como os mortos voltaram. Mas tinha certeza de que agora o mundo era deles.
    Pegou a arma e encostou em sua têmpora direita. Respirou fundo (adeus) e atirou.
  • As crônicas do Inferno I

    As crônicas do Inferno
    Sociedade Atemporal 
    Por Srta Oliveira 
                      &
          Carry Manson
    Os primordiais
    No início havia apenas sombras e o
    vazio.
     O multiverso era cheio de potencial para a vida, mas permanecia
    deserto.
     Até que um dia uma destas forças
    evoluiu, e então ele nasceu com todo o
    esplendor de um titã. 
    Caos o primeiro ser a existir.
    Ele não era personificado, 
    não era fogo, nem água,
    era apenas uma força magnífica.
    E como para cada força há um
    oposto complementar, quando menos esperou não estava mais sozinho.
    Logo de cada ruína que gerava,
    nascia uma flor.
    Para cada vida destruída, nascia
    um novo ser.
    Era ela que estava ali. A doce e
    perfeita Harmonia.
    No início ele a detestava, 
    pois suas obras eram constantemente embelezadas.
    E ela o odiava, pois sempre tinha que
    consertar as suas falhas universais.
    Por isso certo dia fizeram um acordo:
    “Destruirei o quê quiser naquela direção, e você criará o quê desejar
    naquele espaço.”
    E naturalmente tudo seria perfeito para
    os dois, estavam livres para criar e destruir sem parar.
    No entanto Caos percebeu com o tempo, que logo não haveria mais 
    nada para transformar em pó 
    ou ruína.
    E Harmonia notou que sua criatividade
    diminuíra,  de acordo com o quê criava
    sem razão alguma.
    Eles precisavam um do outro para existir, e quando deram por si estavam
    apaixonados.
    Havia algo encantador nas flores que
    nasciam no deserto.
    E incrivelmente motivador quando toda
    a criação perecia, e tinha de se fazer 
    de novo.
    Por isso logo se tornaram um só, e deste delicioso amor nasceram 7 deuses, que
    deram origem as dimensões conhecidas.
    O Deus Solitário e a Deusa prometida.
    7 Deuses caminhavam pelo multiverso,
    cada um com seu poder, e sua dimensão. 
    Todos estavam felizes, pois de acordo com que cresciam, descobriam também o amor que os gerou. 
    Assim desta união, nasceram os 4 elementos principais. 
    Espírito foi o primeiro que
    surgiu.
    Fogo foi o segundo.
    Ar o terceiro.
    E por fim a Água.
    Sim a Terra, era algo que não existia até
    o momento, e por isso restou um Deus.
    Ao contrário dos outros, este era especial.
    Todos os opostos masculinos eram
    semelhantes ao Caos.
    E os complementares femininos a
    Harmonia.
    O quê gerava um equilíbrio perfeito.
    Mas este Deus solitário não estava feliz,
    e como Caos e Harmonia não tinham
    novos filhos, jamais teria um 
    par.
    Por isso se tornou a força do conhecimento, e seguiu tentando
    criar a parceira perfeita, com
    os remanescentes de seus
    pais.
    Certo dia Harmonia encontrou o filho
    desesperado tentando criar um par,
    e ao ver suas lágrimas negras, levou
    aquele corpo frágil e vazio para
    Caos.
    Ele logo se apaixonou pela criação do
    filho. Ela era como uma parte sua que até então desconhecia, e por isso ele
    e sua amada, derramaram seu poder
    orgástico, sob aquele material 
    estranho.
    Foi então que ela nasceu, 
    a Grande e Majestosa Deusa Terra.
    Ela era diferente dos outros.
    Não era apenas uma energia, tinha um 
    corpo, mas era tão poderosa quanto
    os outros.
    O Deus solitário se apaixonou a primeira vista, mas como tinha passado
    muito tempo no escuro, não demonstrou.
    Harmonia e Caos concordavam com tudo, porém a chegada de Cerridwen mudou isso. Ela era como Caos e por isso ele sempre a protegia.
    Ele a ensinou a caçar, guerrear, a ensinou tudo o que ele sabia e ela se tornou sua melhor guerreira. 
    Nos duelos de treinamento que havia ela sempre ganhava principalmente 
    de seu irmão mais velho Yaweh.
    “Você é mesmo um chorão Yaweh, não aceita perder.”
    “Lógico você é mulher, é uma lástima. Papai não deveria te ensinar a guerrear.”
    “Você esta é com inveja. Você é o protegido da mamãe. O que vai fazer? Vai chorar pra mamãe vai??? ‘
    Toda vez que ela fazia isso, Yaweh
     ardia de raiva por dentro, ele odiava ser desprezado por ela e odiava mais ainda a forma como ela zombava
    dele.
    “Você deveria parar com isso Cerridwen, uma dama não se comporta assim” Disse Harmonia séria, mas serena.
    “Sim mamãe, me desculpe.”
    “ Deixa a menina Harmonia, ela só esta se divertindo. E damas devem sim lutar e não ficar como sonsas em casa.” 
    Disse Caos abraçando a filha.
    O tempo foi passando Cerridwen se tornava mais bela e mais forte, guerreava em nome do pai dela e Yaweh sempre a vigiava de longe. 
    A olhava quando ela tomava banho no riacho, ficava escondido a admirando. Ele a amava, mas odiava este sentimento.
    Até que um dia o inesperado aconteceu durante uma batalha Cerridwen, foi ferida gravemente e Yahwen a salvou, com isso ela passou a ter uma gratidão por ele, mas ele viu uma ótima oportunidade para concretizar seus planos.
    A escuridão e a luz
    O dia do casamento chegou, todos estavam contentes menos a noiva, em seu quarto Cerridwen se preparava, fazia hora, enrolava. Só queria que alguém a matasse, mas infelizmente ninguém fez isso. Ate que ouviu passos atrás de dela era Karlandisht um dos seus irmãos mais velhos, e  mais apegado a ela.” Você parece tão triste!?” “Não quero me casar com ele, tenho nojo dele, a presença dele me da nos nervos. Tento gostar dele, mas não dá. Sinto que nunca irei gostar dele. Sinto que jamais irei amá-lo.”
    “Não pensei assim, um dia vai sentir o amor. Tenha calma.” O casamento parecia uma tortura. Cerridwen mal podia visitar os pais, sempre isolada em seu jardim. Se ele quisesse vê lá ele ia, se não quisesse não ia. Se ele queria beija lá, ela o beijava. Durante muito tempo ela se entristeceu, vivia chorando. Fez de tudo para amá-lo, mas não conseguiu. Até que um certo dia viu um ser no seu jardim. ”O que faz aqui?”
    “Sou Sammael, meu senhor pediu para que lhe trouxesse algo.” 
    “Seu senhor, diga a ele que não quero nada. Diga a ele para me deixar em paz.”
    “Senhora melhor aceitar. Ele é benevolente, misericordioso.” Disse-lhe de maneira automática, pois assim foi treinado.
    “Ele é o que? Nunca foi. Ele é um monstro. Um torturador que sempre quer que acatemos as ordens dele” Disse-lhe furiosa. 
    Os dias foram passando e a amizade entre os dois se fortalecia o anjo estava amando aquele ser, sua amiga de todas as horas como ele dizia. Passou a ir vê-la escondido, já que seu pai não permitia mais. 
    “ Você deve sempre estar equilibrado, sempre de olho no seu adversário.” Disse Cerridwen segurando uma espada. Por um momento só ouviam os barulhos das espadas, Cerridwen estava se divertindo depois de tanto tempo. Adorava a companhia de Sammael, amava tudo nele. Até que em um movimento ele a desarma e a segura  quando seus olhos se encontraram.
    “Você é linda!” Disse-lhe encantado “Ah...Obrigada...” ela tentou dizer, mas sua fala foi interrompida por um beijo de seu amado.
    Naquele instante tudo aconteceu.
    Os dois se amaram, e descobriram ali, que o amor deles era invencível.
    Tempos depois Cerridwen foi se 
    refugiar no reino de sua mãe a 
    procura de abrigo. 
    Estava grávida e não sabia o quê fazer.
    “Essa criança é a marca de seu pecado.”
    “Mas por que mamãe? Porque eu amei outro?” “Este outro é seu filho. Ele nunca te contou? Yahwen não deveria ter esconder assim. Olhe a tragédia que isso gerou.” “Vai ficar aqui, ate o nascimento dessa criança, depois veremos o que fazemos.”
    Naquele momento Cerridwen havia se preparado para dar a luz.
    Estava preocupada, principalmente com seu amado. Não sabia o que fazer.
    Quando a criança nasceu, ela sentiu algo, que nunca havia sentido. A menina era alva, de cabelos ruivos e olhos violetas. Era linda, naquele instante ela sabia que possuía um pequeno ser que precisava dela.
    “mamãe ela é linda!” “Sim querida, ela e igualzinha a você. Ela te puxou Cerridwen”.
    Do lado de fora escutam-se gritos, Yaweh estava furioso. 
    Rapidamente Harmonia entrega a neta a um emissário de Sammael, e Yaweh
     se encontra com Cerridwen.
    “ Aí esta você. Vagabunda. Achou mesmo que eu nunca iria descobrir? Achou mesmo que eu não saberia o que você fez?” “Yaweh calma, por favor, não faça nada com eles, por favor.”
    “Onde esta a criança?” “Não vou te contar. Não vai tocar na minha filha.”
    Ele a agrediu diversas vezes. Harmonia teve medo do filho pela primeira vez, por isso deixou que ele fizesse o que fez. Cerridwen ficou trancada em uma cela na torre norte do céu, sofrendo torturas, abusos. Totalmente sem esperanças.
    O bebê iluminado
    Ela era um bebê quando tudo aconteceu.
    Foi uma surpresa para os pais, e
    para o seu tio.
    “Você precisa protegê-la Miguel.”
    Disse-lhe Samael, e o arcanjo 
    detestou a ideia.
    “Ela é o fruto do pecado de vocês.
    Ela merece o destino que a aguarda.”
    Respondeu-lhe sem pensar duas
    vezes.
    “Ela é muito pequena e inocente.
    Como os querubins. Não pode lhe
    dá as costas assim.” Retrucou, ao
    segurar aquela criaturinha ruiva
    de olhos violetas.
    “Por quê não a escondem no jardim?
    Nosso pai nem vem por aqui mais.” 
    Perguntou o arcanjo, até que o irmão
    lhe deu a menina alada, e ele a
    segurou.
    “Ela é linda.” Disse para o mesmo, ao segurar a criaturinha, que ficou a brincar com o seu cabelo.
    “Exatamente como a mãe dela. Miguel por favor, me ajude a cuidar dela, o jardim não é seguro.” Suplicou
    quase desesperado.
    “Está bem. Está bem. Vou levá-la a minha estufa. Lá é meu canto particular, e ninguém ousaria entrar
    ali.” Disse embrulhando o rostinho
    da pequena. “É um ótimo lugar.
    Assim Yaweh não irá achá-la.” 
    Concordou.
    Infelizmente houve um traidor que descobriu sobre a pequena, e 
    contou ao criador.
    “Uma criança? Que não nasceu adulta?! Como isso é possível!?” Yaweh bradou
    furioso.
    “A culpa é minha senhor.” Samael ergueu a mão, e assumiu a responsabilidade.
    “Samael?! Como ousou ir contra a regra?!” Ele ficou surpreso com a descoberta.
    “Eu me envolvi com um anjo chamado Layla, e ela faleceu no parto.” O pobre
    pai, mentiu para salvar a amada.
    “Não existe nenhuma Layla. Acha que não sei de toda a verdade?! Não me
    subestime.” Disse com raiva o
    criador.
    “Por favor não a machuque. A culpa é
    minha! Fui eu que a procurei!” Berrou
    o pobre brigadeiro, com lágrimas
    na face.
    “Os dois são culpados. E já que gostam tanto daquele mundo sombrio, viverão
    lá para sempre!” O criador retrucou.
    Nenhum dos outros anjos na 
    reunião sabia do quê exatamente 
    se tratava.
    Ninguém tinha coragem de perguntar,
    e por esta razão permaneceram em
    silêncio.
    “A partir de hoje Samael está 
    morto, e agora você será conhecido como Lúcifer a estrela da manhã!” Disse-lhe totalmente transtornado 
    com a traição, e então quebrou
    11 dos seus 12 pares de
    asas.
    “Pois tal como a estrela de dia, você não será visto no mundo celestial.”
    Esclareceu, dando-lhe a 
    sentença.
    “E você Miguel. Meu bravo e poderoso filho. Irá com este traidor, para vigiá-lo e impedi-lo de cometer outra grande
    falha!” Deu a missão para o arcanjo
    , e assim os dois partiram.
    Muitos anjos ficaram insatisfeitos com
     a decisão do criador, estava claro que Lúcifer só tinha cometido o pecado de
    amar, e por isso o seguiram.
    Esta foi a primeira e grande revolução Luciferiana.
    E o nome que deveria ser um sinônimo de vergonha, se tornou motivo de
    orgulho para o caído.
    Outro amor proibido
    O bebê alado levou muitos anos para crescer.
    Mas ao atingir 1500 anos, se tornou uma linda adolescente, que vivia no laboratório do arcanjo.
    “Quando vou poder ir para superfície?” 
    Perguntava animada para o protetor.
    “Nunca e meio.” Respondia-lhe com
    frieza.
    “Mas eu quero muito conhecer este tal céu.” Retrucou fazendo manha.
    “É perigoso. Aqui embaixo, com seus familiares é mais seguro Luciféria.”
    Disse ao continuar a estudar os seus experimentos.
    “Não acho. Para mim, o perigo está em toda parte.” Disse sentando-se a 
    mesa.
    Com o seu vestido branco e curto, 
    bem na frente dele, deixando-o envergonhado.
    “Modos fazem uma dama.” Disse com 
    a face corada, coçando os cabelos
    louros e escuros.
    “Azazel diz que o importante é ser livre.” Rebateu como quem tem 
    razão.
    “Azazel só pode mesmo ser filho de Lúcifer.” Resmungou revirando os
    olhos, com um sorriso.
    Miguel era focado no trabalho, e 
    por mais atraente que Luciféria fosse, ele evitava vê-la com outros olhos,
    pois considerava um pecado
    mortal.
    Luciféria era livre como a mãe, e não
    conhecia termos como “moral” e “bons
    costumes.”
     Miguel tentou fazer dela uma dama,
    mas por mais educada que fosse, ela
    permanecia sendo um espírito
    rebelde.
    “Segure a taça desta forma.” O arcanjo disse, ensinando-a a ter boas maneiras, e como uma jovem deve se portar.
    “Que tal me ensinar como segura uma espada?” Perguntou entediada, imitando-o com exatidão.
    “Damas devem ser inteligentes, e não podem participar de batalhas.” Disse-lhe cortando a carne em seu prato.
    “Damas são chatas. Prefiro ser como a minha mãe.” Retrucou tomando os utensílios da mão dele.
    Miguel nem sequer imaginava, no começo. Mas quando ia para a batalha, o irmão mais velho dela Azazel, a levava para floresta, e tentava lhe ensinar a
    se defender.
    “Lucy. Não é uma dança é uma luta!” 
    Azazel ria, atacando-a com investidas bem violentas. 
    “Eu sei. Deixa de ser trouxa!” Rebatia toda desengonçada.
    Ao vê-la tão imponente, ele movimenta-se rapidamente, e a derruba. 
    Mas quando está para chegar no chão,
    a pega nos braços, e por pouco não
    a beija.
    “Respeite-a garoto. Ela é sua irmã.”
    Diz o arcanjo claramente descontente com aquele gesto carinhoso.
    “Pare de olhar para ela desse jeito querido tio. Ela é sua sobrinha.”
    Diz o anjo rebelde, parado na frente 
    do rival, com um sorriso malicioso, colocando a espada nas costas,
    e partindo.
    “Não tem jeito não é?” o anjo passa 
    a mão nos cabelos, totalmente desconcertado.
    “Eu quero muito lutar. Como a minha mãe. Ela é um exemplo para mim.” A
    jovem se explica, e o anjo cede.
    “Certo. Azazel não conseguirá usar  as suas qualidades.” Diz revirando os olhos.
    Ele não consegue se conter, por mais que tente, o seu ciúme ultrapassa o nível aceitável para um 
    familiar.
    “ A luta dele é selvagem, e você foi educada para ter graça e delicadeza.”  Diz o seu responsável, tentando colocar defeito no método do inimigo.
    “Eu sou frágil, intocável, e toda essa balela. Já vi que não vai me ensinar nada.” A bela lhe dá as costas, furiosa pois por mais que tenha sido cúmplice do seu nascimento, era tão machista
    quanto o pai.
    “Lucy.” Ele agarra seu pulso, e ela o olha com indiferença. 
    “Vou te mostrar que toda a sua graça e delicadeza podem ser mortais.” Sorri, deixando-a bastante animada.
    Miguel era um grande soldado. Esteve nas maiores batalhas, e era uma honra ser treinada por ele.
    Como ele sabia que ela queria muito lutar, a desafiou bastante, e testou
    as suas habilidades, para focarem
    em seus pontos fortes.
    Quanto mais tempo passava com ela, mais percebia seus sentimentos, por isso decidiu deixá-la sob os cuidados
    do irmão.
    “Você está certo” Assume o crime de imediato.
    “Eu sei. Só espero que não a machuque por isso, caso não sinta o mesmo.” Responde Azazel ajeitando
    a besta.
    “Ela sente. Mas isso não importa. É contra minha conduta, e não quero ser castigado por meu pai.” Diz entregando
    algumas coisas afiadas para o seu
    irmão.
    “Sempre o filho de seu pai. Não sei como é meu oponente.” 
    Azazel fala baixo, por mais que goste de Luciféria, é outro que não quer assumir.
    Mas neste caso é porquê não se acha bom o suficiente, para competir o 
    “fabuloso Miguel.”
    “Eu vou embora. Então como sei que você é um dos melhores alunos do meu irmão, quero que prossiga com o treinamento dela” Diz estranhando a reação do seu oponente, e colocando 
    o capuz azul marinho.
    “Ok. Mas isso vai magoá-la bastante.” Tenta ser altruísta, pois só deseja a felicidade de sua amada.
    “É para o bem dela.” O arcanjo se prepara para voar. “O dela ou o seu?”
    Azazel lhe pergunta, e o anjo olha
    para trás, com certo pesar.
    “É, acho que lutar com aquele maricas te fez bem. Uma mulher sabe como ensinar outra!” Diz Azazel percebendo uma melhora nas investidas da 
    ruiva.
    “Você odeia mesmo o Miguel não é?” Diz bloqueando os ataques com a
    sua espada de treinamento.
    “Não. Só acho ele extremamente covarde, e pouco confiável.” Azazel
    responde girando a lâmina, e a
    desarmando.
    “Ele só não faz o meu tipo.” Brinca e 
    lhe entrega a arma, para mais
    uma rodada.
    “Vocês passaram tempo demais juntos.” Diz atacando com ferocidade, mas a bela desvia de cada ataque.
    “Seus golpes são tão previsíveis quanto os dele!” Termina tirando a espada da sua mão, e segurando as duas.
    “Foi um bom treino. Amanhã nos vemos.” A abraça e recolhe o todo o equipamento. A bela continua parada, olhando para a mata e o rio.
    O jovem vai embora. Sentindo-se feliz, pois com a partida do seu rival, teria
    uma chance de se tornar o seu
    pretendente.
    No céu se vê a silhueta de um ser alado, e este desce até a jovem. Ao vê-lo seus
    olhos se iluminam.
    “Luci...Precisamos conversar.” Aquelas palavras a assombram, pois teme o
    pior, já que não tinha o visto o
    dia todo.
    “Azazel acha que temos passado tempo demais juntos.” Ela lhe disse. “Ele acha
    que tenho...sentimentos...Por você”
    Ele respondeu.
    “E você tem?” Ela perguntou. “Isso não importa.” Rebateu em defesa.
    “É seria errado.” Ela retrucou triste, e ele não resistiu e a beijou.
    O primeiro beijo de um amor esperado,
    é inesquecível, e aquele tinha sido o
    melhor beijo de todos.
    Mas ele não quis ir adiante, e preferiu não se comprometer.
    No lugar disso, partiu do jardim sombrio, e evitou vê-la.
    “É errado. Deus não vai me perdoar.”
    Era o quê pensava sempre que se
    pegava a pensar nela.
    Até que um dia não resistiu...
    Na tarde em que voltou ela ficou tão
    feliz, que o desejou por inteiro.
    Entre as folhas secas e a água, ele a
    fez mulher, e com ela conheceu o
    pior e mais delicioso pecado.
    “Eu te amo.” Foi a primeira vez que ele contou a ela, e ela não teve resposta,
    pois tinha realizado o seu sonho.
    Infelizmente nem tudo foram flores,
    e logo deste criminoso amor vieram 
    os derradeiros terremotos.
    O casamento e a queda
    Azazel foi quem os encontrou na floresta.
    Este ficou furioso, pois todas as suas
    esperanças, tinham virado cinzas.
    Miguel não só tinha retornado do nada,
    como agora parecia disposto a ficar
    com a sua amada.
    Sendo assim tudo o quê imaginava para eles, não passava de uma cruel ilusão
    de um apaixonado.
    “Mas no fim de tudo isso filho. Ela será sua. Apenas sua, e ninguém mais irá
    separá-los.” Era o quê se lembrava, ao vê-la adormecida e nua nos braços 
    do maldito soldado.
    O pobre ser de coração partido, não perdeu tempo, e contou tudo a Lúcifer 
    e Cerridwen.
    Ambos ficaram pasmos com a descoberta, e o pai da anjinha foi
    para cima do arcanjo.
    “Era para protegê-la! E não se 
    aproveitar de sua inocência!” Disse
    ao acertar-lhe socos contínuos na
    face.
    “Eu a amo Lúcifer! Não é o quê
    parece!” Berrou ao receber os golpes sem revidar, pois se sentia culpado.
    “Isso não pode ser verdade. Você nunca amou ninguém, a não ser a si mesmo.”
    Disse-lhe entredentes, pois não se esqueceu, que ele contou para o pai, sobre o nascimento da sua filha, e para proteger a si mesmo, fingiu não ter envolvimento algum com o
    caso.
    “Case-se com ela, assuma um compromisso, indo contra o seu pai então.” Disse Cerridwen utilizando 
    uma estratégia que sabia que iria funcionar.
    “Se é o quê é preciso. Tudo bem.” O
    arcanjo respondeu limpando o sangue
    do canto do lábio.
    Mesmo sob as piores condições, Luciféria ficou feliz com a
    união.
    Logo a notícia de um noivado tinha saído do jardim sombrio, e chegado aos
    ouvidos do impiedoso Yaweh.
    “Você foi enviado para conter Lúcifer e
    a filha!” Yaweh urrou em cima do seu
    jovem filho.
    “Eu a amo pai.” Disse com uma voz
    baixa, temendo a represália.
    “Amor? Foi o amor que a trouxe a vida,
    e me fez perder meu trunfo!” Gritou
    ainda mais alto.
    “Esta menina, é uma qualquer como a
    mãe dela. Nunca será ideal para você!
    Só irá machucá-lo!” Falou despertando
     a dúvida no arcanjo.
    “Não importa. É com ela que quero, e
    vou ficar.” Respondeu recuperado
    das incertezas.
    O céu não era o único infeliz com a notícia. No Inferno os pais de Luciféria
    temiam por sua infelicidade.
    “Lúcifer. Eu não pensei que ele aceitaria 
    , me perdoe.” Dizia Cerridwen entre
    lágrimas.
    “Não se preocupe Cerridwen. Eu sei que
    esse casamento não chegará nem no
    Eu aceito.” Respondeu-lhe o amado
    abraçando-a.
    “Papai e mamãe estão chorando por sua causa.” Disse Azazel para a mocinha.
    “Eles não entendem o quê é esse amor...Miguel não vai me machucar, 
    ele me ama.” Disse Luciféria, ainda saltitante pelo futuro.
    “Deixa de ser tonta. Se ele te amasse
    , não esperaria um ultimato para 
    se casar.” Retrucou Azazel.
    “E importa ter esperado tal condição?
    Eu a amo Azazel, e você não é capaz de entender tal sentimento.” Respondeu 
    o arcanjo, abraçando a noiva.
     Azazel não era o único fulo da vida,
    com o relacionamento de Luciféria e Miguel.
    A prima dela Eke, também não tinha 
    muito o quê comemorar.
    Era apaixonada por Miguel desde 
    muito jovem, e saber que ele seria para sempre de Lucy, lhe deixava furiosa.
    Todos estavam contra eles. 
    Mas ainda sim o casal permanecia 
    feliz, e seguiam adiante com o seu
    compromisso.
    A perdição de um caído por nascença.
    Mesmo contra a união, Lúcifer e Cerridwen foram ao templo.
    Lá encontraram Azazel, que após descobrir que era filho de Yaweh
    , tinha partido de casa.
    Foi um belo reencontro, ele parecia ter aceito que Luciféria seria do seu rival,
    e pediu para vê-la.
    “Ela é minha irmã, e já foi minha
    melhor amiga. Preciso mostrar que
    a apoio.” Pediu para Cerridwen,
    e esta lhe concedeu a entrada.
    Luciféria estava mais linda e radiante
    do quê nunca. Azazel ficou encantado
    com aquela visão, mas tentou apagar
    as segundas intenções.
    “O quê faz aqui? Veio dizer mais uma vez, que meu noivo não me ama?!” 
    Perguntou com raiva, colocando o
    véu vermelho.
    “Não. Vim te mostrar que não é com
    Ele, que deve ficar.” Respondeu o
    anjo, e ela gargalhou.
    “Como?” Perguntou com sarcasmo.
    “Vai se arrepender disso. Olhe nos
    meus olhos.” Disse encostando-a
    na parede.
    Ela o olhou, sem realmente vê-lo.
    “Olhe de verdade. Fixe em mim.”
    Disse-lhe com certa força, e 
    ela o fez.
    Ele se aproximou, e a imprensou ali.
    “Se você acha que é contigo que vou ficar, está muito enganado.” Ela se
    defendeu, e ele a beijou.
    No começo aquele toque de lábios
    , a deixou sem reação.
    “O quê está fazendo? Eu sou sua irmã.” Respondeu de olhos fechados, como
    se esperasse por mais.
    “E vai se casar com o nosso tio.” Ele
    rebateu sorridente, e a beijou uma
    segunda vez.
    Deste segundo beijo, veio a retribuição,
    e de tal gesto as coisas foram esquentando.
    O tempo foi passando, e nada da noiva chegar.
    Miguel ficou estarrecido, e Eke se dispôs a consolá-lo.
    A noite...Luciféria o procurou, queria muito lhe explicar porquê não podiam
    ficar juntos.
    “Cometi o adultério.” Disse-lhe sem
    pestanejar. “Azazel apareceu, eu não
    consegui resistir.” Continuou a tagarelar.
    “Miguel...” Ela tentou tocar em seu ombro, mas este se foi sem dizer uma palavra sequer, deixando-a sozinha
    na floresta.
    No dia seguinte...Procurou por Azazel,
    este podia entendê-la neste momento
    tão sombrio, e foi quando descobriu.
    Assim como Yekun, Azazel tinha sido contratado para levá-la a perdição,
    e destruir o coração do arcanjo.
    Amor? Não. Era apenas uma vingança pela constante rejeição, e isso a deixou desolada.
    Outra vez foi atrás de Miguel. Este agora não saia do laboratório.
    “Miguel...” Ao ouvir aquela voz, a imagem dela e Azazel se formou
    na sua mente.
    “Saia daqui.” Disse seco, e voltou
    ao trabalho.
    Ela insistiu, e ele então fechou a 
    porta.
    Por quê Luciféria não foi embora?!
    Por quê continuou ali?!
    No escuro ele a tomou para si,
    Não como sua amada, mas
    sim um objeto.
    Arrancou-lhe o vestido branco,
    e a penetrou como um animal.
    Sua mão cobria a dela.
    Ela chorava sem parar, estava
    sangrando, mas ele continuava
    , saindo e invadindo seu
    corpo.
    Dele nenhuma lágrima caia, as 
    chamas laranjas brilhavam em
    seus olhos.
    Ele não parecia mais um arcanjo,
    mas sim um monstro.
    Uma das bestas que vivera no universo
    , muito antes da existência dos 7 deuses.
    Ela não suportou e desmaiou, mas nem
    por isso ele parou.
    Até que percebeu que ela estava imóvel,
    e caiu no choro, desejando nunca tê-la conhecido.
    Seus olhos violetas se abriram, e ela se arrastou para a saída.
    Com todas as forças que lhe restava,
    correu pela lama, pois não conseguia voar.
    Caiu assim que alcançou um metro de distancia.
    E ele correu para ajudá-la.
    Ela estava tão destruída, 
    Que não tinha vida em seus olhos.
    “Me leva pra casa.” Disse com os
    lábios sujos de sangue escuro.
    Ele acatou seu desejo.
    A destruição de um anjo
    Ao entrar na sala azul, sua mãe estava
    sentada no sofá, inconsolável. 
    “Mamãe se acalme estou bem” Disse
    sentando ao seu lado.
    “Eu preferia que estivesse morta!” A
    linda deusa ruiva berrou.
    “O quê?!” A pobre dama ficou sem
    entender.
    “Eu vi! Eu vi você com meu Leviatã!”
    Cerridwen disse claramente perturbada.
    “Eu não...” Luciféria tentou se defender.
    “Estavam na cama. Aos beijos, sem
    qualquer pudor!” A acusou mais uma
    vez.
    “Eu não estava aqui.” Luciféria continuou a lutar para se provar
    inocente.
    “Não se faça de sonsa. Todo mundo sabe a piranha que é. Traiu seu noivo,
    e dormiu com o próprio irmão!”
    Continuou a atacá-la.
    “Pelo menos nenhum deles era meu filho!” Gritou a dama com desgosto.
    “Eu não sabia que Lúcifer era meu filho quando me apaixonei. Mas você jovem meretriz, tinha noção disso.” Rebateu.
    “Disso e de que Samael é seu pai.” Continuou a tentar lhe ferir.
    “É uma qualquer como Hécate! Dorme
    com todo mundo! E se faz de inocente!”
    Permaneceu a insultá-la.
    “É um erro. Um erro grotesco. Tire-a daqui imediatamente!” Ordenou a
    Miguel, que se sentindo culpado
    tentou intervir.
    “Cerridwen devia ouvi-la. Ela não é culpada. Estava comigo!” Disse escondendo parte dos 
    fatos.
    “Como se eu pudesse acreditar, no 
    anjo que foi traído, e continua com a vagabunda!” Respondeu com total
    frieza.
    “Vem Luciféria. Ela não vai te ouvir.
    Esta entorpecida pelo ódio.” 
    A esta altura a jovem não tinha mais voz, e ao ir embora com o seu agressor
    torceu para aquela ser a única vez.
    “O paraíso” é mesmo o Paraíso?
    “É minha culpa. Fui eu quem armou para você.” Disse Miguel entre lágrimas 
    na carruagem, e a jovem o encarou
    incrédula.
    “O quê mais você fez?” Perguntou com
    total falta de emoção.
    “Eu tinha que te segurar lá. Para Eke ir
    e seduzir o seu pai na sua forma.” Soltou a língua.
    “Então o abuso não fazia parte do plano.” Pressupõe ainda 
    mórbida.
    “Meu pai jamais trairia minha mãe comigo. Nos respeitamos demais para
    Isso.” Resmunga olhando para o céu
    azul marinho.
    “Por isso criamos uma confusão em Aldarin, e o substituímos por um sósia.”
    Continua a confessar, entre lágrimas.
    Se sente pior agora.
    “Se sente culpado por acabar com a minha vida? É tarde.” Diz em tom
    de ironia.
    “Não foi apenas uma traição Miguel.
    Eu realmente sinto algo por Azazel.”
    Diz sem pensar duas vezes.
    “Você deixou de me amar?” Pergunta
    assustado com aquela resposta.
    “Depois do quê fez comigo, não consigo
    te perdoar. Então acho que nunca te
    amei.”
    As últimas três palavras ecoam na cabeça do arcanjo.
    E logo toda a compaixão que tinha tido até ali, se transforma em ódio.
    “Não me ama? Tudo bem. Se achou ruim o quê eu fiz...Imagina o quê
    vai achar quando eles fizerem.”
    Disse jogando-a numa cela suja, cheia de jovens bestas, sedentas por 
    sexo.
    “Nunca te amei.” É a única frase que fica na sua cabeça, ao deixá-la para
    trás.
    Com o olhar sem qualquer sinal de vida, ela encarou o seu destino.
    Nada poderia ser pior que destruir o coração da sua mãe.
    A cada passo deles em sua direção, 
    o calafrio subia a espinha, mas
    estava pronta.
    “Eu vou ser o primeiro, afinal ela está aqui por minha causa!” Disse Azazel, 
    se aproximando da moça.
    “Por favor confie em mim. Tudo o quê farei é para te proteger.” Sussurrou em seu ouvido, e então tirou as suas roupas.
    Ele a olhou preocupado, pedindo permissão para ir adiante, mas para 
    ela nada tinha significado.
    Ele a possuiu na frente de todos, 
     e declarou que seria o seu torturador,
    desta forma nenhum outro anjo veio
    a se aproximar dela.
    “Deve está feliz.” Foram as primeiras palavras após dias de silêncio.
    “Não estou. O quê houve para vim acabar aqui?”  Perguntou assim
    ficaram a sós.
    “Fui expulsa de casa. Porquê minha mãe acha que dormi com meu pai.” Resume com sorriso de tristeza.
    “O quê?!” Azazel fica surpreso. “E no momento em que estava supostamente sendo uma puta, eu estava na verdade sofrendo abusos de Miguel.” Continua
    como se aquilo fosse normal.
    “Miguel fez o quê?!” O anjo ferreiro fica irado com aquela alegação. 
    “Me estuprou.” Responde com um sorriso ainda sem graça.
    “Eu vou matá-lo.” Conclui, e ela gargalha. 
    “Ele é Miguel. Se matá-lo, teu pai 
    acaba contigo. Não seja tolo, eu não valho nada mesmo.” Diz sem se importar com a justiça, ou a falta 
    dela.
    “Ele tem que pagar Lucy!” Diz incrédulo.
    “Ele não tem que pagar nada. Você que causou tudo isso, com a sua vingança infantil!” Rebate, tirando-lhe o manto de herói.
    “Você ainda o defende?” Diz Azazel
    totalmente exasperado. “Devia mesmo ter casado com ele. Pois nasceu para ser submissa.” É o último insulto antes de partir.
    A última batalha antes do Fim. Parte I
    Luciféria e Azazel viviam juntos, 
    desde crianças.
    Eram os melhores amigos, e os
    que guiavam os irmãozinhos
    na traquinagem.
    Foi na adolescência, quando Lucy
    descobriu o amor por Miguel, que
    eles se separaram.
    Pois Azazel detestava o arcanjo,
    por saber que era seu rival.
    Então quando ele cuidou dela na cela,
    esta reviveu os momentos de infância, quando ele cuidava de seus machucados.
    E se perguntou “Quando foi que a nossa amizade se destruiu?” 
    Eles tinham nascido um para o outro,
    tal como Harmonia para o Caos, e por
    isso nem a traição os separou.
    Logo tinham se tornado amigos outra vez, e desta amizade veio o sentimento,
    que sempre esteve ali, mas foi ocultado
    por uma paixão juvenil.
    Ele sempre a amou e tinha consciência
    disso, ela sempre o amou, mas não se
    deixava ver, para não perdê-lo.
    E Miguel soube.
    Furioso por saber que Azazel tomava conta da cela dela, decidiu libertá-la
    e levá-la consigo, para garantir 
    sua infelicidade.
    Mas ela preferiu ficar acorrentada e numa cela, sendo feliz. 
    Do quê partir com o arcanjo, e ser
    destratada para o resto da 
    vida.
    “Você ficou louca? Se ele te amasse.
    Teria te libertado, e levado para longe daqui!” Disse-lhe na porta da cela.
    “Me levaria para onde? Se graças a você e seu pai não tenho um lar!”
    Ela berrou.
    “Ele destruiu sua vida. Se não tivesse dormido com você, hoje tudo seria
    diferente.” Diz com certo pesar.
    “Você também me destruiu, e nem por isso deixei de sentir algo por ti.” São as palavras, que jamais deveriam ser 
    ditas, mas foram.
    O eco da porcelana quebrada, se fez no lugar, e ela viu Azazel partindo para longe.
    Seus passos tentaram alcançá-lo, e o
    arcanjo a seguiu.
    Ao vê-la junto do seu maior inimigo,
    pegou uma prisioneira em seus braços,
    e a beijou do mesmo jeito que beijava
    a anjo, que transtornada com aquilo
    , aceitou a carcerária liberdade.
    Luciféria optou por trair o seu povo, 
    pois queria morrer, e esta era a única forma.
    Azazel era sua última gota de felicidade,
    e tinha sido arrancada dela.
    Miguel detestou mais ainda o ferreiro, e odiou não ser a razão da morte de
    sua única amada.
    Ela fez um acordo com Deus para ser destruída, e mostrando a famosa 
    misericórdia, ele limpou seu
    nome.
    Disse-lhe que Luciféria não existiria mais, e agora seria Nahemah.
    Ela aceitou.
    Todos no céu, achavam que Miguel a tinha perdoado, e a detestavam por
    isso.
    Mas ele na frente dos outros, lhe defendia.
    Quando estavam a sós, ele a humilhava de todas as formas.
    Foi então que aconteceu...Lúcifer soube
    que a filha estava querendo cometer
    suicídio, e preparou as tropas para
    ir resgatá-la.
    Ele e o filho adotivo Azazel discutiram.
    “Acha mesmo que Deus lhe dará algo? Eu era o maior dos anjos, e nem a
    mim, ele poupou! Cresce garoto!” 
    Disse-lhe o caído.
    A dama estava pronta para morrer,
    mas quando o pelotão de Miguel veio até ela, para exterminá-la, esta se
    defendeu, e os matou.
    Miguel ficou furioso com a afronta.
    Achou que a morte dela, era um plano para atrair seus protegidos, e matar
    cada anjo no céu.
    Por isso ele a atacou, e os dois lutaram
    com espadas de luz.
    Ele era um esgrimista nato, e ela uma desastrada, por isso perdeu.
    No entanto quando veio o golpe de misericórdia, uma espada a 
    protegeu.
    Era Azazel, com uma armadura de metal, pronto para acertar as
    contas.
    Miguel sorriu. Estava louco por uma oportunidade de destruir o irmão.
    E o tilintar das espadas se encontrando,
    ecoou por entre as nuvens. Porém não
    foi o suficiente para abafar os gritos
    de dor de Nahemah.
    Ao ouvi-la Azazel e Miguel imediatamente pararam.
    O arcanjo queria vê-la sofrer, e o
    anjo a pegou nos braços.
    Ele a salvou. 
    Ao chegar no Inferno, ele a levou a sagrada fonte de cura, que ficava
    perto do penhasco das almas.
    Ela agradeceu, mas eles discutiram,
    e este foi embora com o rosto vermelho por causa de um tapa.
    Um fiel servo de Cerridwen a viu, e sem saber da verdade, fez o quê achou melhor para a sua senhora.
    A jogou no mundo dos humanos, e esta caiu.
    Aquele mundo, não lhe era tão estranho, já havia o visto antes, em suas viagens dimensionais.
    “Este aqui. Pode ser meu novo lar...
    Mas a verdade é que não quero
    existir.” Disse ao se jogar dentro do
    mar, afundando o punhal de Miguel
    contra o coração, e enfim
    morrendo.
    A tristeza de Cerridwen era grande,
    por saber que a filha tinha feito o quê
    fez, mas foi ainda maior quando 
    o seu irmão lhe contou a 
    verdade.
    Eke tinha ido longe demais, por seu amor doentio.
    Yaweh tinha ultrapassado os limites, 
    por falta de maturidade.
    Miguel já nem devia ser chamado de celestial, diante das atrocidades que cometera.
    Mas Cerridwen só conseguia culpar a si mesma, pela desgraça da filha.
    Onde estaria o pequeno fruto de amor, agora que tinha se tornado parte do
    multiverso?
    O espírito dela estava com Harmonia,
    adormecido, pois a titã não queria 
    acordá-la.
    “Ela não lhe pertence!” Cerridwen dizia
    para a mãe, com raiva e imponência.
    “Do momento em que retornou para mim, sim, ela é minha.” Respondeu-lhe
    a velha e sabia Harmonia.
    “Ela é minha filha! Você não tem direito algum sobre ela!” Continuou a brigar.
    “Ela é essência da minha essência, como você.” Disse ainda segurando o espírito da pequena.
    “Volte, e sirva a Yaweh de acordo para
    o quê foi feita. Sacrifique-se, e sua filha será libertada.” Cerridwen engoliu seco aquelas palavras, mas aceitou a
    condição.
    Como castigo, Yaweh que a criou 
    com a energia dos deuses, lhe tirou todos os poderes.
    “Você não tem serventia para mim.
    Mas terá para a minha criação.” Disse
    ao destruir seu corpo de deusa, e roubar-lhe a chama encantada.
    Assim fez Adão, e para ele deu sua esposa.
    Agora sem poder algum, totalmente regenerada, sem memória, e a
    batizou de Heva-Lilith.
    No início Heva e Adão eram felizes,
    de acordo com a vontade do criador.
    Mas dentro daquela deusa agora
    humana, ainda havia rastros
    de sua vida anterior.
    Por isso na hora das relações sexuais,
    Lilith não se sentia confortável, em
    ficar abaixo de Adão.
    Afinal de contas, de alguma forma
    isso lhe trazia a sensação, de que era
    errado, e que chegava a ser abusivo.
    Mal sabia a bela ruiva, que isto já havia acontecido antes, e pior sem o seu
    consentimento.
    Chorosa ela se sentia confusa, e por isso procurou um canto apenas seu.
    Foi lá que ela o conheceu, ou melhor o
    reencontrou. O seu amante, 
    amado.
    Logo de cara, ficou claro que eles se conheciam de algum lugar.
    O fogo e o desejo os consumiam, e por
    isso se entregaram um ao outro.
    Lilith não sabia quem era, mas Lúcifer
    sabia, e queria resgatá-la, para irem
    salvar também a pequena.
    Ele tentou não parecer um lunático,
    por isso pouco a pouco foi fazendo-a se recordar.
    Mas apenas no momento em que disse o seu nome, é que a bela se recordou
    de todo passado.
    Na sua forma humana, ela era ainda mais rebelde.
    Por isso espantou os 3 anjos com facilidade, e seguiu com seu amado Samael, em busca do espírito de
    Luciféria.
    Com o tempo, embora Harmonia discordasse, Cerridwen tinha feito a sua
    parte, e por isso esta permitiu que a
    bela Luciféria renascesse.
    Infelizmente outra Deusa veio, e desposou Adão.
    Os humanos a conhecem como Eva, ou Heca, ou Aisha.
    Nós a conhecemos como Eke.
    Eke não perdeu a memória quando entrou no plano humano.
    Ela se sujeitou a Adão apenas porquê queria causar ciúmes em Miguel, que
    continuava devastado com a perda
    de Nahemah.
    Notando que este nem sequer a olhava, esta fez uma manobra ousada, e pegou
    o sêmen de Lúcifer, e o colocou no
    próprio útero.
    Se Lilith desconfiasse de outra traição,
    ela ficaria infeliz, e se destruiria.
    Eke só desejava ver o circo pegando fogo, e que a família perfeita de
    Nahemah se desfizesse.
    Tudo o quê era bom e importante para Nahemah, tinha que ser destruído.
    Assim como seu coração foi, por Miguel por causa dela.
    Para a infelicidade de Eke, Lilith a reconheceu, e soube na hora que o filho que carregava na barriga, era um artificio.
    Eke furiosa, teve o pequeno Caim, e o
    jogou para morrer no rio.
    Ele não tinha nenhuma utilidade para o seu plano perverso, por isso podia ser
    descartado.
    Lilith salvou o bebê, e o criou como seu, junto do pequeno Asmodeus.
    Como tinha acabado de tê-lo, havia leite para os dois.
    Lúcifer e ela aguardavam pela volta da filha, acreditavam até que viria outra vez do útero de Lilith.
    Mas a pequena Nahemah, nasceu da descendência Luciferiana de Caim.
    Em homenagem ao seu nome celestial,
    eles a batizaram de Namah. 
    Ao ouvir que sua amada tinha renascido, Miguel e Azazel vieram 
    para a Terra.
    Ambos estavam preparados para lutar pelo coração da jovem outra vez.
    A novidade logo chegou aos céus escuros, e todos os seres da Sirius B, desceram também.
    Dando início ao evento conhecido como a queda dos anjos. 
    Os anjos ficaram encantados com 
    as humanas, e por estas se apaixonaram.
    Diz a lenda que Azazel desceu para ter relações com várias mulheres.
    Mas é uma mentira, ele só queria uma,
    a sua doce e indomável Luciféria.
    Miguel não é citado como um caído, pois este veio para supervisionar a
    baderna.
    Assim dizem. 
    Ele só queria vê-la outra vez.
    Desta vez Azazel foi o primeiro amor de Namah.
    “Você é um anjo?” Perguntou no primeiro encontro.
    “Sim, mas cometi um grande pecado.”
    Respondeu-lhe misterioso e com
    charme.
    “Qual” Perguntou-lhe curiosa.
    “Ter te amado acima de Deus.” 
    Respondeu, deixando-a 
    corada.
    O amor é o motivo de toda perdição.
    Foi por amor que caiu uma nação.
    O amor é perigoso, é saboroso
    Não é algo que te dá paz, mas te
    faz se sentir vivo e seguro.
    Todos os anjos da Sirius B, seguiam
    este lema, por isso não se preocuparam,
    e se envolveram com as filhas dos
    homens.
    Destes amores hediondos, nasceram
    os nephilins. 
    Miguel, Gabriel, e Rafael ficaram assustados com a quantidade de novos humanos, e denunciaram para Yaweh.
    Este com ódio da felicidade dos 
    anjos, então decidiu lavar a 
    terra.
    Para proteger Namah, Miguel a colocou na arca, e roubou a mente de Noé.
    “Você não tem culpa dos pecados de Azazel minha querida.” Disse-lhe ao
    empurrá-la para o barco.
    Namah não entendeu nada. Não tinha lembranças de Miguel, mas sentiu um belo calafrio percorrendo a 
    espinha.
    A última batalha antes do fim. Parte II
    A Terra agora era um campo de batalha, após a última investida de Yaweh. Todos os anjos estavam furiosos pela perda de seus filhos e amadas, e
    por isso declararam guerra ao
    céu.
    Azazel não sabia do paradeiro de Namah, por isso acreditou que esta teria falecido com sua filha dentro
    da barriga, e entrou na guerra.
    Yaweh foi atacado com lanças e luz,
    seus anjos lutaram contra os anjos
    de Lúcifer.
    Sangue inocente tinha sido derramado,
    os filhos não tinham culpa do pecado
    dos pais!
    Caos estava agindo como nunca, pois achava que o filho estava fora de
    controle.
    Sem mais o quê fazer ele o trouxe.
    O irmão gêmeo de Samael. 
    Bael o senhor dos raios.
    O implacável, o destruidor, o mentiroso, o ilusório.
    Era a sua última saída para acabar com a guerra, que estava favorecendo o
    seu inimigo.
    Por isso lhe deu a chama de Zebub.
    Um poder que nem ele podia conter, pois esta pequena chama, era uma importante parte de Caos.
    Era a sua última alternativa, e Bael abraçou aquele poder com todo
    o seu coração.
    Bael desceu então a Terra, e enviou as 7 pragas do Egito, para desmoralizar os
    templos dos anjos.
    Tamanho poder era maior até mesmo que o de Lilith e Lúcifer juntos!
    Por isso as tropas dos caídos foram recuando.
    Yaweh comemorou com gosto, estava feliz com a gloriosa vitória.
    Porém quando resolveu tirar a chama de Zebub, Bael se revoltou, e o subjugou.
    Bael não precisava mais de Yaweh, era mais forte que ele, por isso decidiu que seria o novo Deus.
    Mas como quase ninguém sabia da sua existência, ele precisou de um bom peão.
    “Ficarei por trás de você. Te comandarei. Mas o novo Deus sou
    Eu.” Disse para um famoso arcanjo.
    “Eu jamais...” Miguel se recusou de imediato, nunca quis o trono do
    pai.
    “Vi como olha para a humana. Sei do seu passado vergonhoso com ela. Se não o fizer, eu vou destruí-la para
    sempre!” Disse Bael para lhe
    convencer.
    “Eu tenho o poder primordial Mikael.
    Um estalar de dedos, e sua humana, deixa de existir.” Ameaçou-lhe, e o
    Arcanjo aceitou, fingir que seria
    o novo Deus.
    “Meu filho...Seus irmãos te odiarão.”
    Chorou o Deus criador, ao ver o jovem sentando-se ali no trono, e fingindo ter tomado o poder para proteger a sua eterna amada.
    Luciféria agora se chamava Isis, em homenagem a deusa.
    E pouco ou nada se lembrava, caminhava ao lado de Toth, sem saber que eram amantes divinos em outra vida.
    Ele fazia por ela, o mesmo que Lúcifer fez por Lilith. Tentava lhe devolver sua memória, e reascender sua chama 
    genômica.
    Ela pouco entendia, mas era fascinada pelos ensinamentos de Toth-Azazel.
    Até que certo dia despertou, e lembrou-se de tudo, incluindo dos filhos que tivera com Noé, que na verdade eram de Azazel.
    “Eles nasceram, cresceram, e se reproduziram meu amado, antes de voltar para os braços de Harmonia.”
    Disse-lhe com um sorriso, e isto
    trouxe paz ao demônio.
    “O importante é que vocês 3 estavam bem.” Disse-lhe caminhando ao lado
    dela.
    “Infelizmente esta é a nossa última notícia boa. Deus agora é implacável com seu guerreiro Bael, não temos
    chance de vencer.” Disse com
    pesar.
    “Sempre há chance para a justiça, por mais escuro ou claro que pareça.” Lhe respondeu olhando para o céu.
    “Nahemah.” Disse-lhe o sopro no ouvido, e então Miguel apareceu para ela, acima das montanhas, usando a coroa de um Deus.
    “É Isis na verdade.” Respondeu com
    indiferença. “Pra mim sempre será Nahemah ou Luciféria.” Disse sorrindo sem  jeito.
    “O quê queres anjo ?” Disse com certo desprezo.  “Meu pai é culpado por muitas tragédias, mas não é ele quem está causando estas.” Disse sem
    pensar duas vezes.
    “São semelhantes.” Retrucou com total indiferença.
    “Não são. Ele ama os humanos, não mataria crianças pequenas, apenas porquê um servo pediu.” Respondeu-lhe tentando defender o todo poderoso.
    “Ele matou milhares de nephilins.” Rebate sem acreditar na salvação.
    “Não eram puros.”  Miguel continua
    apreensivo. “Eram bebês!” Ela grita.
    “O sangue estava manchado. Não
    eram humanos, nem demônios eram
    aberrações!” Outra  justificativa 
    barata. “Já chega! Não importa quem está no poder agora! É tão injusto quanto seu pai!” Urra horrorizada com a forma como ele trata os demônios
    mirins. “Nahemah...” Ele tenta falar.
    “É Isis. Como a Deusa.” O corrige friamente.
    “Isis. Não se trata do meu pai mais.
    Bael quer mais poder, ele quer está acima do bem e do mal.” Conta-lhe
    com certo medo.
    “Precisamos unir forças.” Implora segurando-lhe as mãos delicadas. “Nunca me uniria você.” Responde
    deixando-o para trás. 
    “Mas a informação foi útil. Obrigado
    querido tio.”  Diz ao se retirar, e o deixa exasperado. Detestava ser chamado de tio por ela, porquê isso lhe trazia culpa,
    e demonstrava que ela não o queria
    mais.
    “Grande deusa Nuit.” A chamou. “Sabes que é minha filha. Não deve se ajoelhar para mim” Disse-lhe a deusa.
    “Prefiro desta forma ó grande Nuit, deusa soturna.” Responde com sarcasmo.
    “O quê deseja?” Lilith revira os olhos.
    “Um anjo veio até mim, e me contou que o tal Bael agora reina no céu.” Disse evitando o contato.
    “E o quê isso tem a ver conosco?!”
    Lilith exclamou sem entender.
    “Bael está sedento por poder, e segundo o anjo, ele quer o Inferno
    também.” Respondeu-lhe com 
    um pouco de indiferença.
    “Isso não é possível. Bael e seu pai tem caminhado juntos, são grandes amigos, e odeiam Yaweh, até fundaram a ordem de BAAL com seus filhos.” Lilith parece desacreditar da informação.
    “Qual foi o anjo?” Lilith pergunta desconfiada.
    “Miguel. Meu anjo da guarda.” Isis gargalha, e Lilith permanece 
    séria.
    “Miguel não mentiria para você. O passado tem um peso grande entre vocês. Vou averiguar isso” A deusa
    desapareceu do templo, e a jovem
    fez um sinal de reverência.
    “Então Miguel continua a te procurar...” Toth brinca realizando um feitiço. 
    “É...Mas é estranho. Não é como você,
    é como se nunca o tivesse o conhecido, e o odiasse mais que tudo.” Responde
    sentando-se a mesa.
    “Ainda tem sentimentos por ele. Sempre vai ter. Resta saber se o quê sente por mim é maior” Diz com total serenidade. Azazel era maduro, apesar de ser seus surtos de juventude, ainda era mais
    confiável que Miguel.
    “É claro que é. Já disse nem conheço aquele anjo.” Isis responde de imediato, e Toth ri. “Será mesmo?” É o quê pensa
    ao analisar o seu invento, uma esfera
    negra móvel, com anéis envolta.
    Lilith entra na sala em forma de coruja, e caminha até os dois jovens. 
    “Atrapalho?” Disse com um sorriso, e eles disseram que não.
    “Miguel estava certo. Notei nas conversas de Bael, insinuações de que anseia roubar o Inferno.” Lilith dá as notícias.
    “E o quê podemos fazer para impedir?”
    Azazel prontamente se mostrou para a batalha. 
    “Devemos reunir o conselho secreto.”
    Lilith fala porém nenhum dos 2 anjos entende o código.
    “O conselho secreto, é uma reunião entre deuses celestiais e infernais, com os titãs primordiais, para impedir uma catástrofe universal.” Explica-lhes e
    ambos esperam por mais informações.
    “Lúcifer e eu, não podemos presidir o conselho, pois somos oficialmente os aliados de  Bael. Mas você e Azazel
    podem, pois ambos renunciaram
    a coroa.” Lilith lhes dá uma luz, e os dois rapidamente recusam a proposta, porém a 00:00 do mundo humano, eles atravessam o portal, e vão para o Conselho Secreto.
    “Todos que estão aqui, se encontram sob o regimento do Conselho. Portanto as brigas de Luz e Trevas devem ser esquecidas, por um único objetivo,
    a nossa preservação.” Diz Harmonia sentando-se entre as árvores que parecem um trono.
    Para surpresa do jovem casal infernal,
    Miguel é quem fica no lugar do pai, e este evita encará-los, pois não deseja brigar, nem trocar farpas.
    “Existe um terrível rumor de que Deus foi destronado.” Inicia Harmonia.
    “Não é rumor, vovó Harmonia. Estou aqui para provar que é verdade.” Miguel então retira uma esfera do bolso, e dela saem imagens holográficas , na qual Bael lhe diz algo, e este se vê
    obrigado a fazer o quê ele quer.
    “Meu filho. Suas provas o incriminam.”
    Harmonia diz assistindo as imagens. “Não! Ele me obrigou!”  Miguel se defende, e Isis ri.
    “O quê ele lhe disse? Que Apep ia te pegar?!” Isis diz em tom infantilizado.
    “Não. Que ele te mataria se eu não o  fizesse.” Miguel fica cabisbaixo, pois sabe que não receberá gratidão.
    “Você não é meu marido. Se eu tiver de morrer por esta causa, eu vou. Não preciso de sua proteção.” Retruca com total ingratidão, e Miguel sorri com
    raiva.
    “Já chega vocês dois. Briga de casal não tem espaço nesta reunião. O problema aqui é maior que um romance que não
    deu certo.” A velha Harmonia, caracterizada com anos humanos diz.
    “Prossiga Miguel.” A anciã passa a palavra para o arcanjo, que olha com mágoa para a amada.
    “Bael não quer ser o Deus do Céu. Ele quer a Terra. O Inferno. Tudo!” Chega ao ponto principal.
    “Isso é muito grave! Bael está com a chama de Caos! Ele tem poder para ter esse tudo!” Harmonia entre em 
    pânico.
    “Sim, por isso sugiro uma união de forças opostas.” Miguel põe as cartas na mesa, e Azazel e Isis trocam 
    olhares.
    “Se for pela preservação de nosso povo.
    Nós aceitamos. Nos unir. A eles.” Isis responde de má vontade.
    “Eu irei conversar com a alta hierarquia infernal, e descobrirei quem serão os
    nossos aliados.” Azazel com sua mente estrategista, logo percebe que haverão
    traidores, por isso se dispõe a tirar isso
    a limpo.
    “Vou usar meu poder de Deus para conseguir mais aliados.” Miguel diz para os outros.
    “Eu vou ficar calada e observar.” Isis brinca, e Miguel sorri mas é o único.
    “Vou convocar meus melhores dragões, e irei até o reino da minha mãe, para conseguir bestas celestiais.” Revira os olhos, e assume um posto.
    “Ótimo. Estamos todos entendidos.
    Mas para evitar problemas diplomáticos, preparem suas armas
    silenciosamente.” Harmonia termina a reunião e os tronos somem.
    Findado o encontro, Miguel e Isis discutem, e Azazel se retira alegando
    que eles tem muito o quê conversar.
    Ao amanhecer Isis convoca sua mãe para uma reunião, e pede-lhe para entrar nos mundos de Tiamat.
    Azazel inicia um evento entre os demônios da mais alta patente do
    Inferno, e os analisa friamente.
    Miguel tenta evitar Bael, e o engana com visões falsas do futuro, onde ele é o Deus vencedor, e todos caem em ruínas.
    Naquela noite houve uma reunião...
    Bael estava com um enorme sorriso, e
    Lilith o observava com cautela, enquanto Lúcifer aparentava está
    despreocupado.
    “É claro que o Inferno é imbatível. Fez um excelente trabalho aqui irmão.” Disse Bael extremamente maravilhado
    com as terras sombrias.
    “Há regras que servem para sobreviver,
    e não são abusivas como as de Yaweh. É
    um sistema realmente perfeito.” Disse
    elogiando a gestão do reino.
    “Nossos filhos, e irmãos de guerra fazem sua parte direito. Por isso Bael que estas terras são tão perfeitas.”
    Lilith disse com um sorriso, mas Bael a ignorou, pois para ele as mulheres não podiam ter voz.
    “Estou vendo.” Disse-lhe com indiferença, e notando o incômodo da
    esposa, Lúcifer a encarou, e os dois
    inventaram uma desculpa para
    ficarem a sós.
    “Não se sente nada confortável com Bael não é?” Perguntou-lhe ao abraça-la por trás, sentindo o calor do seu 
    corpo quente e nu, sob o veludo
    vermelho.
    “Fora o fato de ser tão idiota quanto o seu pai. As crianças me contaram que ele quer o inferno.” Responde-lhe com
    um sorriso de prazer, e depois a sua
    expressão muda.
    “E como Luciféria saberia, se só conseguiu recuperar as memórias?” 
    Lúcifer logo percebe a fonte da informação, e a acaricia.
    “Como sabe que...?” Lilith nem termina, e seu amado lhe dá um beijo no pescoço.
    “Ela é a sua favorita, e também é a minha. Sempre será a primeira que nós
    vamos ouvir.” Respondeu, e a demônia
    girou, e o jogou nas almofadas, o
    fazendo sorrir.
    “Eu amo todos os meus filhos Lúcifer.” Lhe disse arrancando-lhe suspiros intensos.
    “Mas a Luciféria é a sua especial.” Lhe respondeu tentando respirar, pois a
    Rainha do Inferno, sabia bem 
    o quê fazia.
    “Calado.” Ordena pressionando-se contra o corpo dele, e deixando-o
    mais alegre.
    “Quem disse esta sandice do meu
     irmão para a Luciféria ?” Pergunta-lhe agarrando-a, e jogando-a nas almofadas.
    “O anjo da guarda dela.” Lilith também brincou, e ele a puxou, sentando-a entre as suas pernas.
    “Miguel é um traidor. Por causa dele, ela quase morreu quando era um bebê, e se matou na adolescência.” Diz sério,
    abraçando-a, e beijando-lhe o pescoço.
    Não é a toa que eram conhecidos 
    como o casal da luxúria, até para conversar sobre os assuntos sérios, 
    eles ficavam na “cama”.
    “Eu sei. Mas é inegável que a ama.
    Ele mudou bastante depois que a viu morrer.” Lilith tenta convencer ao marido. 
    “Miguel não ama ninguém. Só ao meu pai. Deve ter sofrido abusos na infância para ser tão apegado ao tirano.” Lúcifer se mostra descontente, e ignora o
    aviso.
    Infelizmente para o imperador, o aviso do celestial era real, e num dia qualquer
    houve o desastre.
    49 dos 72 demônios mais poderosos, 
    se voltaram contra Lúcifer e seus aliados.
    “Regras. Quem precisa delas?” 
    Diziam em coro, ao amarrar e amordaçar os demônios
    machos.
    Como acreditavam que as fêmeas 
    não representavam perigo algum, 
    as deixaram livres.
    Lilith correu para fora do inferno, levando suas 2 outras irmãs, e
    alguns sobreviventes.
    “Me diz que fez algo Luciféria!”
    Lilith berra em desespero, e a moça abre um portal para Tiamat.
    “Eu chamei eles para nos ajudar.”
    Luciféria chama os seus amigos gigantescos, 
    e as bestas caminham lentamente 
    para fora.
    “Se nem eles tiverem forças para derrotar Bael estamos perdidos.” 
    Lilith diz, e saca a espada para lutar contra os 49 traidores da causa.
    Luciféria monta em seu dragão azul acinzentado Graham, e parte  para a batalha, pronta para resgatar os
    irmãos e os menores.
    Após algumas horas...A princesa demônio, volta na sua forma humana,
    está exausta depois de prestar os
    primeiros socorros.
    “Nahemah.” Diz o arcanjo Miguel com
    tristeza, e se aproxima dela.
    Más notícias estavam a caminho, e ela sabia, por isso desceu do seu animal, 
    e correu até ele.
    Este tentou segurar sua mão, lhe dá
    apoio. No entanto quando ela viu o seu
    amado jogado numa maca, correu 
    para os seus braços.
    “Azazel!” Berrou ao ver as profundas 
    marcas no corpo do seu anjo demoníaco.
    “O quê você fez?!” Ela salta no pescoço
    do anjo, tentando enforcá-lo como
    se fosse mortal.
    “Se acalma.” O arcanjo disse com frieza, tentando não sentir a palma quente 
    dela em seu corpo.
    “Você o deixou a beira da morte!” Urra com lágrimas descendo pela face.
    “Eu não fiz nada. Esse idiota quis enfrentar Bael, e se não chego a tempo não estaria aqui.” Responde com 
    total compostura.
    “Luciféria...” Sussurrou o demônio ferido, e a bela se soltou dos braços do ser angelical, para se ajoelhar ao 
    lado dele.
    “Achou que apenas esse babaca faria de tudo para te proteger?” Riu e tossiu logo em seguida.
    “Isso foi idiota Azazel. Eu não quero que ninguém me proteja!” Diz chorando e
    beijando a mão do primeiro 
    sátiro.
    “Mas eu sempre vou. Não importa 
    se está comigo ou com ele. Você sempre
    será minha protegida.” Diz com uma
    voz rouca.
    “Faça ela feliz...Tem 500 anos antes 
    de voltar.” São suas últimas palavras
    antes de partir. 
    Ao ouvir aquilo a moça fica em pânico, e o anjo sem palavras. 
    Lilith observa tudo, e acata a vontade do filho. Colocando as mãos nas
    costas do casal.
    “Nahemah você está bem?” O anjo diz mais preocupado com o estado dela,
    do quê com a oportunidade.
    “Não.” É a única coisa que sai da sua boca, antes de voltar para o campo
    de batalha.
    Agora era como não ter nada a perder,
    por isso montou em Graham, e foi
    para o centro da luta.
    “Bael!” Gritou com fúria, erguendo a sua espada, enquanto o dragão seguia até ele. 
    Ao ver que ela estava prestes a cometer suicídio, o arcanjo entrou em pânico,
    e voou tirando-a dali.
    “Você enlouqueceu?!” O arcanjo 
    berra, ao chegar no deserto.
    “Responde!” Diz chacoalhando-a
    , mas ela está sem reação.
    “Ele vai voltar daqui há 500 anos. Não é para sempre!” Grita-lhe, tentando lhe
    fazer agir, mas esta fica a 
    chorar.
    “Por favor. Eu não quero te perder de novo. Não me importo se não ficarmos
    juntos, só não quero, não ter a chance
    de pelo menos tentar.” Diz entre 
    lágrimas, segurando as 
    suas mãos.
    Ao ver o desespero do arcanjo, 
    Lúcifer percebe que há sentimento
    da parte dele pela pequena.
    “Lilith não cansa de está certa?” Ele 
    ri seguindo na forma de um gigantesco dragão ocidental, tentando se libertar
    da prisão em que Bael lhe colocou.
    A última batalha antes do fim. Parte III
    As tropas de Lilith e Nahemah 
    seguem adiante.
    Sangue cai na areia, e o som do encontro dos metais ecoa.
    A princesa demônio está montada
    no seu dragão, acompanhada por
    Cérberos, e sua hidra de 
    estimação.
    A imperatriz infernal, está na 
    forma de uma gigantesca besta draconiana.
    De tortuoso corpo ocidental, com espinhos saindo de sua
    face.
    Ela é bela, porém por ser uma 
    deusa, pode tomar qualquer forma
    , incluindo a dos maiores pesadelos
    do inimigo.
    “Vamos para o norte.” Diz Lilith  
    com toda a grandeza de Tiamat, indo em direção ao abismo, junto das demônias guerreiras.
    “Está bem.” Nahemah aceita a ordem,
    e da a direção para as feras.
    Elas encontram uma gigantesca esfera,
    que parece um globo de vidro.
    Lilith vê Lúcifer preso no fundo, e logo
    ataca a barreira, cuspindo bolas 
    de energia.
    Ela precisa tirá-lo dali.
    Ele é o seu amado, sua vida, sua paixão.
    Percebendo que sua consorte quer libertá-lo.
    Lúcifer também tenta destruir aquele
    bloqueio.
    No entanto sozinhos não são páreos para tal força.
    Notando que seus pais precisavam de
    ajuda. Nahemah ordena que os dragões
    , ataquem a barreira em sincronia com
    a sua mãe.
    Ao ver todas as feras, as guerreiras 
    Infernais, usam os seus dons. Unindo
    as forças, elas criam uma rachadura
    , e eles usam todo o vigor para 
    quebrá-la.
    Ao destruir aquele muro mágico, os demônios correm para as suas amadas, e ficam felizes, pela regra de Lilith existir.
    Já que sem ela, as moças nem 
    sequer saberiam como usar suas habilidades.
    “Vocês foram brilhantes.” Diz 
    Lúcifer enrolando seu pescoço ao da 
    sua amada, enquanto ficam acima 
    da bela Nahemah.
    Todos os demônios fiéis a Lúcifer 
    e Lilith, se curvam em respeito a eles.
    E os dois se abraçam, pousando em
    cima de Graham.
    Logo Mammon, Caim, Asmodeus, e Solomon, se juntam a família, e
    eles ficam em Graham.
    “Este foi o primeiro passo. Onde está o meu guerreiro equivalente? Onde está Azazel?”Diz Lúcifer notando que o 
    ferreiro não está ali.
    Nahemah não tem palavras, apenas sinaliza em silêncio, negando com lágrimas descendo pela face.
    Lúcifer se enfurece. Embora fosse o 
    Filho de Cerridwen e Yaweh, ele o tinha criado e educado. Foi o primeiro filho
    que conheceu, antes de Lucy.
    Lilith também não estava feliz com a perda, queria assassinar Bael a sangue quente. Mesmo sabendo que não tinha chance, contra aquele que tinha parte
    do poder do seu pai.
    “Vamos destruir Bael.” Lúcifer disse com voz feroz, e Lilith concordou.
    “Nahemah.” Ouviu-se a voz do arcanjo, e a jovem virou-se para trás. Apesar da narrativa, Miguel era o único que lhe chamava por este nome.
    “Eu devo ir. Ele tentou salvar Azazel.”
    Diz caminhando pela fera, e Lúcifer fica de queixo caído. Jamais pensou que o
    arcanjo, pudesse fazer algo que não 
    lhe fosse conveniente.
    “Talvez se o seu pai e o meu se unirem,
    eles podem ter uma chance.” Diz Miguel
    , e a jovem apenas balança a cabeça.
    “Eu irei ajudá-los. Mas não posso entrar diretamente. Bael me destruíria.” Diz
    Harmonia, voando como um 
    fantasma.
    “Então o quê pretende fazer?” Pergunta a garota, sentindo o vento em seus
    cabelos.
    “Te dá a minha chama sagrada.” Diz a grande titã primordial, e o anjo fica
    com os olhos arregalados.
    “Nem pensar! Isso vai matá-la!” o 
    anjo grita, e a dama o encara com indiferença.
    “Não vai. Ela já é quase uma deusa, tal como a mãe. Só precisa deste poder.”
    Diz a velha Harmonia, sorrindo 
    para o jovem.
    “Ela é humana com a descendência de Caim. Ela tem o sangue de Lúcifer, que é filho de Cerridwen, portanto o poder do
    gene, se encontra adormecido nela.”
    Esclarece mas o arcanjo não se
    mostra convencido.
    “Além do mais, se ela não concordar com os meus termos, nunca mais verá o seu amado Azazel. Pois reencarnar ou não, depende apenas de mim.” A sábia anciã ameaça a moça, e seus olhos se
    arregalam.
    “É bem simples. Um favor por outro.
    Vire uma deusa, e escolha o próximo destino do seu parceiro, ou deixe-me escolher, e o mando para o portal.”
    A velha ri com maldade, e a dama congela. O portal era o pior lugar para onde Azazel poderia ser enviado, pois
    lá, tinham diversas criaturas nocivas, até mesmo para os deuses.
    “Aceito.” Nahemah concorda, e o arcanjo fica sem reação.
    “Como sempre fazem tudo pelos seus demônios. É melhor assim Miguel, esta menina tal como a mãe, jamais deve se unir a um celestial.” Harmonia julga
    a atitude da neta.
    “Então aceita o amor dos meus 
    pais?” Nahemah a provoca com sarcasmo.
    “É preferível que anjos e demônios são
    misturem mais.” Harmonia responde.
    O amor de Cerridwen e Lúcifer muito 
     a desagrada.
    Porém nada mais faz para impedi-los, apenas preserva seu querido 
    Yaweh. 
    “Eu não sou meu pai.” Miguel decide
    falar, em vez de apenas acatar a
    vontade da avó.
    Esta o reprimi imediatamente, mas
    ele não reage.
    Isto era preocupante, pois significava que a cópia perfeita de Yaweh, estava 
    a apresentar o defeito da falta de 
    disciplina.
    “Ela não vale a sua queda.” Diz a titã,
    e a jovem desvia o olhar. Já fazia um tempo que o evitava, e  não era 
    agora que iria parar.
    “Vamos ao que importa. Por favor. Como fará de mim uma deusa?” 
    a dama pergunta, desviando o assunto desagradável. 
    “Desta forma.” A criatura enfia um raio no coração da dama. 
    Fazendo seu corpo estourar por dentro, com tanta força que o sangue voa.
    Ela berra desesperada, e Miguel fica pasmo com a atitude da anciã.
    Suas mãos apertam os braços dele, 
    mas ele não a deixa cair no ar.
    “Eu não vou suportar!” Grita ao 
    sentir seu corpo se transformar 
    em energia.
    “Miguel!” É o seu último grito antes de
    explodir, nos braços do príncipe do
    mundo celestial.
    Mas assim como explode se refaz, tal como um Deus, agora é imbatível
    equivalendo-se a  Bael.
    “Agora eu vou matar Bael!” Ruge flutuando no ar, com asas de
    energia.
    “Não. Você vai libertar Yaweh, para que ele e o seu pai o derrotem. Tem apenas a minha chama, e o poder de Caos é
    muito mais destrutivo.” A velha a
    desanima.
    “Está bem. O quê faço?” Questiona, 
    e Harmonia lhe responde “Use sua criatividade. É uma deusa criadora agora”.
    A jovem então imagina o multiverso com milhões de cordas, e que pode manipulá-las.
    Sendo assim todas estas cordas, destinos, devem lhe obedecer, e por 
    isso não demora para achar 
    Yaweh.
    Ao entrar na prisão do avô, este fica surpreso com quem veio resgatá-lo, e não consegue deixar de se sentir mal, por tanto tê-la atormentado.
    “Não vim por você. Nós não somos 
    uma família. Apenas devia um favor a Miguel, ele tentou salvar meu amado.” Diz antes que venha o agradecimento
    do Deus caído, e Miguel dá razão a 
    nova deusa.
    “Preciso conversar com Cerridwen.” É
    a primeira coisa que diz. 
    “Terá tempo para isso. Vamos.” Diz 
    a bela, levando o criador para a liberdade.
    “Você não conseguiu não é?” Deus
    pergunta para o filho, e este ri
    baixinho.
    “Ainda não.” Diz olhando para 
    a criatura voadora, que o observa
    sem entender nada, e segue em
    frente.
    Yaweh e Cerridwen fazem um acordo 
    de ajuda mútua. Ao ouvir que o velho estava de volta, muitos anjos correm
    para servi-lo.
    Como diz o velho ditado. “Um rei nunca perde a sua  majestade.” Haviam os que estranhamente lhe eram gratos, os que gostavam do seu sadismo, e aqueles
    que o amavam acima de tudo.
    O exército de Bael reduziu rapidamente com a chegada de Yaweh, e ao ouvir que a filha o tinha libertado, Lúcifer
    ficou furioso.
    “Você enlouqueceu?! Só porquê o arcanjo mudou pelo que o fez sentir,
    não significa que Yaweh merece uma segunda chance!” Berrou para a
    jovem, que ficou em silêncio.
    “Ele torturou a sua mãe, quase te matou, e ainda destruiu nossa família por séculos. Como pode nos trair desta forma?!” O imperador do Inferno, disse batendo contra a mesa de pedra.
    “Papai eu não tive escolha.” É a sua primeira defesa, antes de pensar em
    outra resposta.
    “O quê? A velha Harmonia te ofereceu a oportunidade, de ser uma semelhante a sua mãe por completo, e você não a
    agarrou? Difícil de acreditar Luciféria Lilith II!” Responde-lhe com sarcasmo.
    “A vovó ameaçou jogar Azazel no portal, se ela não fizesse.” Diz Miguel invadindo o recinto com indiferença, e a bela por mais raiva que sinta deste, lhe agradece em silêncio, arrancando-lhe
    um sorriso.
    “Harmonia fez o quê?! Esta mulher já está passando dos limites!” Lúcifer fica exasperado, e os jovens se encolhem.
    “Oras Lúcifer sua filha é muito fácil de enganar. Jamais atiraria o moleque no portal, ele é o quê mantém ela longe
    do meu neto.” Diz o espectro de 
    uma idosa.
    Ao ouvir aquelas palavras, Luci se sente intrigada, e se retira daquele local. Indo
    para o meio da cidadela, onde observa
    as estrelas, e outra vez manipula as
    cordas do destino.
    “Miguel vai se apaixonar por esta criatura insignificante! Isto não pode acontecer! Ele deve protegê-la,
    e amar a criatura mais perfeita que
    criei para ele, a doce imitação de
    minha amada filha Hécate! ”
    É a mensagem que lhe vem a mente, 
    e então esta induz mais um dos cruéis ataques de Yaweh a Cerridwen, e este a engravida de um bebê, que no futuro se chamaria Azazel, mas nem a primeira sabia a razão disso.
    “ A chegada deste filho, criará um empecilho para o anjo apaixonado. Por ser mais jovem, e ser educado pela  Cerridwen, crescerá um rebelde, e fará
    um par perfeito para esta coisa de
    cabelos vermelhos.” 
    E assim vê-se o início da infância de Nahemah, onde ela e o irmão estavam sempre juntos nas maiores enrascadas, e Miguel apenas os supervisionava.
    Pois para Harmonia, o fato de seu 
    neto conviver com a sua perdição desde cedo, lhe faria vê-la com indiferença.  O quê ela não esperava, era que a moça é que iria despertar o amor pelo arcanjo,
    e não desistiria até conquistá-lo.
    “Nahemah” Ouve a voz do seu primeiro
    amor, vindo por trás dela, e uma lágrima cai.
    “Vá embora.” Diz de imediato, e seus pés que não tocavam o chão, afundam na areia fofa. Todavia o alado não só não parte, como fica a esperar uma resposta.
    “Não é hora, nem o momento.” Diz se preparando para ir, mas o arcanjo pega seu pulso, e nota que sua face está rubra.
    “O quê houve desta vez?” Pergunta-lhe secando suas lágrimas. 
    “Não importa. Apenas fique longe de mim.” Retruca e se afasta tomada pelas sombras da dúvida. Todo o sofrimento não só estava previsto, como foi escrito,
    para favorecer o príncipe sombrio, e
    agora ela se perguntava se o quê sentia
    era real, ou outra obra egoísta de sua
    avó manipuladora.
    “Nah...” Mas antes que prossiga, a bela o silencia com o indicador, o deixando
    confuso.
    “Sei que me chama assim, porquê significa Agradável, e poucas coisas são 
    na sua vida. Mas acho que Eke merece
    este nome mais que eu.” É tudo o quê
    diz antes de partir.
    Miguel fica sem entender nada do quê se passa. Nunca se interessou por Eke, na verdade a achava insuportável, por ser tão submissa, e sem vontade 
    própria.
    Se aquilo era ciúme. Era um ciúme infundado, por isso queria resolver logo
    , já que indicava que a bela ainda tinha sentimentos por ele. Pobre iludido.
    “Nah...Luciféria. Eu não sinto nada por Eke!” Disse o arcanjo, quando a viu atravessando a porta. Por ouvir isso, a jovem não se contém, e esmurra a
    mesa de pedra.
    “Diga para ele querida vovó.” A nova deusa encara a primordial, e esta foge do seu olhar, contudo usando o seu poder, a garota vira-lhe o rosto, forçando-a a olha-la.
    “Diga.” Soa como uma ordem, e os dois anjos mais bravos do céu e do inferno, ficam apreensivos por tamanha
    ousadia.
    “Você e Luciféria não estão juntos por minha causa.” Confessa a anciã, e aquilo não surpreende a ninguém, todos sabiam da sua onipotência gigantesca, e por isso a deusa menor, lhe joga um
    olhar para continuar.
    “Quando soube que Cerridwen tinha se apaixonado por seu próprio filho, temi o quê estava por vim, e quando vi que você se apaixonou pela filha dela, tive de tomar providências.” Prossegue deixando a todos de queixo
    caído.
    “Você não sabia do romance do meu pai com a minha mãe!” Grita-lhe com impetuosidade, e notando o seu grau de estresse, o anjo afasta-se do irmão, para lhe dá algum apoio.
    “Não? Ah deve ter visitado a linha do tempo errada, quando soube que um anjo o levaria a perdição, e mais tarde vi que era ruiva.” A velha ri da ingenuidade da pequena.
    “Eu sabia que ela iria machucá-lo.
    Você nasceu de um casal do perfeito matrimônio, e ela de uma abominação.” Responde olhando 
    para o rapaz, que se mostra também furioso agora.
    “Por isso antes que ela viesse, lhe dei o par ideal, para que vocês não ficassem juntos. Meu filho, Eke é o seu par, não
    Luciféria” Segura as mãos de Miguel
    , e este se solta com repulsa.
    “E o quê nós queríamos? Os sentimentos de cada um? Isso não
    valia de nada?!” Miguel é o segundo a gritar com a sogra do imperador, e este observa este momento, saboreando 
    a revolta contra ela.
    “Azazel realmente me ama? Eu o amo? Ou isto foi só parte do seu plano estúpido?!” A dama diz tremendo-se por completo, tomada pelas 
    lágrimas.
    “Já chega.” Diz Lúcifer silenciando a todos na sala. “Não importa se esta senhora lhe empurrou Azazel. Ele pode ter nascido para atrapalhá-los, mas não
    é obrigado a amar ninguém. Até porquê
    se tem algo que os primordiais não
    conhecem é o amor.” Prossegue tentando acalmar a filha.
    “Você! É tudo sua culpa! Se tivesse aceitado seu posto de soldado, e não se apossasse da coroa de Yaweh, nenhuma
    destas aberrações estariam aqui!” A
    primordial o acusa, e o demônio ri
    de tamanha hipocrisia.
    “É? Então para você o certo, seria deixar Cerridwen nas mãos de Yaweh, ou como Lilith nas mãos de Adão? Sendo humilhada por ambos, sem saber do próprio potencial?!” Urra como um
    leão, e a velha o ignora.
    “Se este é o correto, por quê não?” 
    A velha retruca, e o rei demoníaco ri de novo, claramente ensandecido. No entanto a mão delicada em seu ombro o silencia, é Lilith que se mostra bem
    calma, perante as sandices da
    mãe.
    “Não adianta discutir. Ao menos Yaweh parece entender, então em vez de perder tempo com essa senil, por quê não nos preparamos para deter Bael?”
    Diz com tanta classe e imponência, que todos se curvam perante a ela, menos
    a sua genitora. Sem dizer mais uma palavra, Lúcifer segue sua rainha, e a primordial se vai, deixando apenas o
    casal mal resolvido para trás.
    “Eu tenho que ir.” Luciféria se prepara para partir, porém o arcanjo não a deixa sair.
    “Não me importo com a vontade de Harmonia. Eu amo, e sempre vou amar você, somente você.” Diz em seu ouvido, e aquilo mexe com a sua cabeça, porém antes que aconteça algo, ela se lembra de Azazel, e se esforça para seguir
    para longe.
    “Meu marido acabou de morrer. Seria desrespeitoso.” Diz com a voz fraca, lutando para se soltar, e um sorriso bem saliente, se forma no rosto do arcanjo. “Mais desrespeitoso que ter relações com ele no dia do nosso casamento? Eu acho que não.” Rebate, beijando-a de surpresa, ela tenta resistir, só que não consegue. Seu coração ainda pulsava por ele, mesmo que agora fosse uma pequena parte, e por isso aqueles
    segundos se prolongaram.
    “Chega.” Tem força para empurrá-lo, e este passa a mão nos cabelos sedosos. “Só foi capaz de dizer isso agora?” Brinca fazendo referência ao tempo que passaram, sentindo seus lábios se tocarem.
    “Isso não vai acontecer novamente.” Sai um pouco envergonhada, ajeitando os seus cabelos ruivos, e para o seu azar a prima vê tudo.
    “Beijando a esposa do seu irmão? Nossa Miguel, você já foi mais certinho.” Diz a moça de cabelos negros, exibindo os seus seios enormes para o anjo.
    “Ela teria sido minha esposa, se você não contasse a Azazel onde ela estava no dia do casamento. O quê quer Eke?” 
    O soldado volta para o seu estado natural de desprezo e indiferença.
    “Eu quero você meu doce de abóbora.” Diz ela com voz infantilizada subindo de quatro na mesa de rocha, e o ser alado a ignora. Uma coisa era sensualizar, outra era o baixo nível de Eke.
    “Até mais, e se cobrir um pouco mais não vai te matar.” Diz se retirando do local, e a jovem sopra o cabelo no
    rosto.
    “Ela dorme com o seu irmão no dia do casamento, e fica com você no dia que ele morre, e eu que sou a meretriz?!” A morena provoca, e isto irrita bastante
    o ser celestial.
    “Não ouse sujar o nome dela. As coisas que Nahemah faz, são porquê ela ainda não se decidiu sobre nós 2. Mas assim como eu a beijei, tenho certeza que o idiota do Azazel a seduziu! Ela não
    é como você!” Discursa defendendo a sua amada, e sai do lugar, deixando vilã jovem enraivecida, pois sempre Luciféria, se livra da culpa, e não só é dona de um coração, como de 2 seres bem poderosos. O quê significa que tem chance de reinar no céu, ou no inferno, enquanto ela está fadada aos nobres, que considera os restos da hierarquia satânica.
    “Nahemah é? O quê diria se ela virasse uma prostituta na boca dos homens?” Diz Eke passando a língua entre os dentes, e então toma a forma de Isis, e resolve dormir com os 10 primeiros que encontra no oriente. 
    Fazendo-os espalhar a fama de que Isis da Suméria, era uma vagabunda, que não prestava, e aceitava qualquer coisa por umas moedas de ouro. 
    No entanto quando isto chega aos ouvidos de Miguel, este gargalha, pois agora que Luciféria tinha o dom da manipulação da realidade, podia não só vigiar a inimiga, como também provar suas artimanhas.
    “Vai deixar isto barato?” Diz Miguel ao mergulhar nas linhas do destino, e Luciféria cai no escárnio. 
    “É claro que vou. Meu nome de batismo é Luciféria. Se ela quer sujar Nahemah que vá em frente, mas aguente as consequências mais tarde.” Responde entre risos com o olhar diabólico.
    “Pra mim você sempre vai ser a Nahemah verdadeira.” Diz-lhe meio sem jeito, e a jovem se afasta dele. Tinha lhe dito que o fato não se repetiria, e se dependesse dela, não iria mesmo. 
    Só estavam juntos neste momento, porquê Luciféria e ele ficaram de vigiar as entradas do refúgio.Já que ninguém do inferno quis fazer par com a deusa
    angelical, por ter libertado Yaweh.
    “Foco na missão soldado.” Diz com a voz falha, e este ri da péssima 
    atuação.
    Após alguns anos...Luciféria e o 
    arcanjo, desenvolveram certa amizade, 
    o quê deixava os deuses apreensivos.
    “Seu filho não cansa de avançar em
    uma jovem viúva, não é Yaweh?” 
    Lilith culpa o arcanjo, cruzando os
    braços.
    “Sua filha é que não para de tentar encantar o pobre menino!” Yaweh
    rebate, observando os dois 
    rindo.
    Depois daquele estranho momento 
    na sala, o anjo lhe prometeu que esqueceria o romance, mas não iria
    deixá-la se sentir solitária. Algo que
    veio a calhar, pois depois de “trair
    o Inferno.” Amizade estava fora
    de cogitação.
    “Princesa Luciféria.” Disse-lhe uma 
    das criaturas infernais, e esta lhe deu atenção. “Eu sempre a admirei, mas não acredito que libertou Yaweh, não depois de tudo o quê ele fez.” Falou
    sem pensar duas vezes.
    “Foi por causa do arcanjo?” Pergunta sendo intrometida, e a bela levanta as mãos, pedindo uma pausa. “Não fiz isso por Miguel. Fiz por Azazel, ele é o meu par, e apenas por ele me sacrificaria”
    Respondeu-lhe com um sorriso. Sem saber que aquelas palavras, entravam como uma lança no peito do alado, 
    que apenas se distanciou, evitando por 
    hora aquele pequeno conflito.
    “Não espero que entendam. Mas que no mínimo compreendam, Harmonia faria pior, se eu não o libertasse.” Diz e a tal criatura se transforma na jovem e sedutora Éke Hécate II.
    “Não me importo com os seus atos. Faça o quê quiser, mas alguém que se importa, acabou de ser ferido, e eu estou pronta para consolá-lo” Diz 
    Indo atrás do anjo. 
    De certa forma aquilo lhe preocupa, contudo não considera uma má notícia,
    e por isso em vez de impedir Éke, de ir atrás do seu grande amor, apenas volta a caminhar e supervisionar as tropas
    dos demônios.
    As fofocas voam como moscas, e chegam aos ouvidos de Luciféria, que fica furiosa. “Eu não acredito que de fato chegou a este ponto.” Pensa
    ao ouvir o falatório dos
    guerreiros.
    Como de costume vai para um 
    canto deserto, longe de tudo e de 
    todos. 
    Só que desta vez, arranja companhia, sem sequer desconfiar que está 
    sendo seguida.
    Um ser que segue aos outros, a agarra por trás, e coloca uma lâmina na sua garganta.
    “Quieta princesa, sem nobreza 
    alguma. Primeiro veio o boato de que dormiu com o seu irmão, depois com o próprio pai, e agora beijou seu antigo noivo, no enterro do atual marido” 
    Disse-lhe o ser embrulhado em roupas típicas do calor.
    “É óbvio que gosta muito de coisas carnais, e eu estou louco para lhe dar uma.” Prosseguiu retirando o seu membro, e a jovem gritou sem pensar duas vezes, estava tão assustada com atual situação que se esquecia dos
    poderes.
    “Afaste-se dela.” Disse uma voz no 
    meio da areia, e o arcanjo pousou atrás do demônio abusado.
    “Ela gosta destas coisas.” Mas a criatura repugnante prosseguiu, e 
    ainda passou a mão na pele da 
    garota.
    “Todos sabem o quê você fez com ela, e ainda sim ela caiu nos seus braços.” O provocou. O arcanjo não se conteve, e
    o partiu no meio, derramando sangue
    sobre a princesa que estava em 
    silêncio.
    Após salvar a sua vida, e depois do tempo que passaram juntos, ele achou que poderia acalmá-la, mas quando colocou a mão em seu ombro, ela
    saltou para longe.
    “Eu não vou te machucar.” Disse ao guardar a espada, tentando se aproximar.
    “Fique longe.” Foi o quê conseguiu sussurrar, só que ele não cedeu, e lhe puxou pelo pulso para o seu peito.
    “Você, você não é o herói. É por sua causa, que não, não pude me defender” 
    Disse com os olhos grandes de medo,
    mantendo-se firme para não surtar.
    “Nem eu me perdoo por aquilo Nahemah.” Respondeu-lhe ainda mantendo-a no calor dos seus
    braços.
    Ao vê tal cena Éke surtou, e saiu berrando aos 4 ventos que Miguel tinha matado um demônio inocente, porquê a prima tinha tentado dormir com este, e o pobre agricultor a rejeitou.
    Percebendo o alvoroço, Lilith logo notou que havia algo errado, e abandonou a aula que estava dando, para ir atrás 
    da filha.
    “Luciféria está tudo bem?” Lilith 
    pegou no rosto da jovem, e esta continuava num estado de 
    catatonia.
    Como só encontrou ela e Miguel, logo
    quis acusá-lo de abuso, só que ao ver que a menina não largava a mão dele, e estava coberta de sangue roxo, soube
    que desta vez ele não era o 
    culpado.
    “O quê aconteceu?” Perguntou limpando a face da rebenta, sabendo que algo muito ruim havia acontecido.
    “É minha culpa. Eu a desrespeitei, e agora muitos outros pensam que podem fazer o mesmo, por sermos amigos.” Responde sentindo-se o 
    maior causador dos problemas, e 
    ele era mesmo.
    “Amigos? Você a beijou no mesmo 
    dia que o marido dela morreu!” Gritou Eke, e Lilith lançou um olhar de incredulidade para o rapaz.
    “Como eu disse, eu sou o culpado.” 
    Sorriu sem vontade alguma, apenas pela vergonha de encarar a rainha demônio.
    “Cuide dela. Não a deixe sozinha
    .Eu vou resolver essa situação.” Disse para os dois, e partiu até o marido.
    Eke detestou o fato, de Lilith dá a benção para Miguel resguardar a filha, e por isso foi até a sua avó, e lhe contou tudo, sobre o quanto Luciféria estava atrapalhando o destino, e que não
    abria mão do anjo.
    Para dar-lhe uma lição, e satisfazer o desejo da sua neta favorita, Harmonia então jogou a alma de Azazel no portal,
    e jurou que se Luciféria continuasse a interferir, iria destruí-la também.
    Luciféria após se recuperar do choque, sentiu-se ultrajada com tal afronta. Não foi ela que beijou Miguel, nem era ela que o procurava, porquê tinha que
    pagar e levar Azazel junto?
    Graças a Eke parte das tropas celestiais e infernais que tinham aprendido a conviver, agora lutavam entre si.
    De um lado os demônios acusavam Miguel de assassinato, e do outro os anjos diziam que foi para proteger a garota.
    E isso trazia velhas memórias, do porquê tinham batalhado uns contra 
    os outros anos antes do conflito.
    Tudo estava tomado pelas desavenças,
    como se o inimigo tivesse se infiltrado 
    dentro das colônias, para 
    separá-los.
    “Papai não é justo!” Grita a primeira filha do imperador infernal. “Eu sei minha pequena, mas ainda sim voltou
    a se relacionar com Miguel? Mesmo
    sabendo como terminou?” Diz um
    pouco surpreso com a notícia.
    “Foi apenas um beijo, e nem fui eu que o dei.” Retruca envergonhada, mexendo uma das pernas. “Mas você retribuiu. Senão Éke não contaria a ninguém.” 
    O pai rebate.
    “Filha eu amo você, e quero a sua felicidade. Sua avó é louca, só que sobre você e Miguel, eu concordo com ela, não é para acontecer de novo.” O rei
    lhe dá um sermão, e ouvir aquela frase
    sobre ser melhor evitar, lhe deixa um
    pouco triste.
    “Eu não o beijei. Nem o quero de volta.
    Miguel é só um amigo agora.” Tenta responder. “E será que ele sabe disso?”
    Diz Lilith interrompendo a conversa,
    e pede para o amado se retirar.
    “Luciféria desde que nasceu, sempre fiz o possível e o impossível para que não se magoasse.” Diz Lilith, acariciando a bochecha da filha, como se fosse uma criança.
    “Eu não me importo com Miguel! 
    Aquilo foi um erro! Eu só queria que Azazel estivesse bem, e não naquele portal, cheio de criaturas bizarras, de 
    onde só meu pai voltou!” Berra antes que venha outra lição, sobre a impossibilidade de se relacionar com um celestial. 
    Todavia a rainha que é bastante perceptiva, nota uma certa irritação quando lhe é negada a oportunidade de ter algo com o arcanjo. “Ela ainda não o esqueceu também.” Pensa com os seus sábios olhos de coruja. “Luciféria Lilith II.” Chama-lhe a atenção antes de 
    sair.
    “Você não pode mentir para nós. Nem para si mesma.” Diz encarando-a com calma, porém com seriedade, e a moça passa pela porta da frente. 
    “Você? Não morres cedo.” Diz ao ver
    o arcanjo encostado na porta, mas este não ri da piada, ao contrário dos outros, acha mesmo que Luciféria, só o vê como
    um bom amigo, e apesar de relevar isto
    , não gosta nem um pouco da ideia.
    “Não me afastarei de ti. Sabe-se lá, quantos mais poderão vim.” Responde com frieza, e a bela só o olha sem muito interesse. É quando um belo pardo vem
    ao seu encontro, e a cumprimenta.
    “Olá irmãzinha. Vou ser seu novo guarda. Papai não quer que ande com
    esse cara.” Asmodeus olha com raiva para o arcanjo, pois Azazel era mais
    que seu irmão, era seu melhor
    amigo.
    “Eu tomo minhas próprias decisões.
    Lúcifer não pode me impedir de ficar perto dela.” O arcanjo dá um passo
    a frente, com o peito estufado.
    “Ah posso sim. Ela é minha filha, e 
    eu não a quero com um psicopata como você.” Responde o rei, e os mais novos
    silenciam-se, assustados com esta
    intervenção direta.
    “Eu a salvei, de um dos seus babilônicos.” O arcanjo rebate com um sorriso de vitória. “É, depois de ter feito pior, e ter lhe levado a tirar a própria 
    vida!” O pai diz sem paciência, e notando o conflito, a jovem fica no
    meio dos dois. 
    “Por favor parem. Papai está certo, é melhor ir com Asmodeus, pelo menos desta forma, ninguém pensa coisa
    errada.” Diz indo embora com o irmão, e o arcanjo fica incrédulo, enquanto
    Lúcifer sorri com satisfação.
    A última batalha antes do fim. Parte IV
    Em meio há tantas desavenças, Lilith 
    se posicionou para defender a filha.
    “Eke foi a responsável por tal conflito.
    O demônio Arctus, não é inocente, e todas que o conhecem sabem 
    disso.” Anunciou para a multidão que
    lhe observava atentamente.
    “O único erro de Miguel, foi tê-lo matado tão rápido.” Disse 
    gargalhando.
    “Sabemos que nós somos diferentes.
    Porém são estas diferenças que nos farão vitoriosos na próxima batalha.
    Por isso guardemos as raivas que temos uns dos outro para o inimigo!” Exclamou com ferocidade e todos lhe aplaudiram, contentes por tê-la como
    líder.
    No entanto havia alguém não muito contente em meio a multidão.
    Embora discursasse como a deusa guerreira, a bela não despertava muita confiança em Lúcifer, por isso ele 
    saiu.
    Ao vê-lo partir Luciféria ficou desconfiada, e deixou Asmodeus no canto com uma linda alada, que estava interessada nele. Indo atrás do seu 
    pai de imediato.
    Notando que estava se colocando 
    em risco, o arcanjo foi atrás dos dois, para garantir que ninguém fosse atrás da garota outra vez, sumindo do meio da multidão, sem ser notado até por
    Eke.
    Quando chegou no fundo do deserto, onde não havia mais ninguém, Lúcifer virou furioso pegando-a pelo pescoço, 
    e atirando um raio em Miguel, achando que estavam tentando matá-lo.
    Contudo ao ver que era sua filha e 
    o irmão, baixou a guarda, e os soltou . 
    “Me perdoe Luci. Você não, você mereceu.” Disse para o arcanjo que
    apenas revirou os olhos.
    “O quê está acontecendo?” A dama lhe perguntou, e o pai ficou de cabeça baixa , não sabia como lhe contar, estava se sentindo envergonhado demais para
    falar.
    “Vamos papai diga!” Disse-lhe temerosa sobre o quê estava vindo a acontecer. “É sua mãe. Desde que o Inferno foi invadido, ela não é a mesma.” Responde com 
    tristeza.
    “Estes ataques mexem com a nossa cabeça mesmo. Não deve ser nada.” A jovem tenta acalmá-lo, e este fica um pouco chateado. “Ela tem sido infiel a mim!” Grita para a pequena, e os
    seus olhos crescem.
    “Como assim?” Miguel pergunta desconfiado, entrando na conversa sem ser chamado, mas Lúcifer está tão triste que resolve desabafar. “Oras ela tem se deitado com nossos servos, todas as noites, pelas minhas costas!” Berra
    em tom de fúria, e os dois se entreolham.
    “Não me importo com isso em si. A infidelidade aqui, a traição, é porquê 
    ela não me contou nada, eu tive que descobrir!” Diz com lágrimas douradas descendo pela face, e a filha o 
    abraça.
     “Eu que a fiz minha melhor amiga, 
    e agora ela vem e me apunhala  pelas costas!” Ele retribui o abraço, e a moça olha para Miguel, que fica apenas a
    analisar os fatos.
    “Apesar de achar que traição é comum na sua família, não acho que Lilith está fazendo tal coisa.” Responde o anjo, 
    e a princesa o fulmina com o 
    olhar.
    “Elas não cometem traição, sem haver sentimentos, e não creio que Lilith ame a todos os servos.” Conclui olhando nos
    olhos da dama, que fica desconcertada 
    com tais palavras, mas não desvia
    dele.
    “Há algo errado, e precisamos averiguar sem chamar a atenção.” É
    o quê fala para os infernais. “Então a minha Lilith, não é...?” Lúcifer pergunta voltando a razão, e Miguel ergue uma sobrancelha, indicando um talvez.
    “Deixem comigo. Eu tenho acesso 
    as cordas do destino, posso descobrir o quê está acontecendo.” Luciféria se 
    dispõe a ajudar, e os irmãos 
    concordam.
    A bela se afasta de seus familiares, 
    e vai para um canto silencioso, onde fecha os olhos, e se concentra nas
    linhas do destino de sua 
    mãe.
    Está tudo escuro, uma gosma de 
    plasma pinga no piso. Tudo o quê se houve, é o gotejar da água, que parece ecoar como se fosse dentro de uma 
    caverna.
    Lilith está colada a uma teia de 
    aranha, enrolada como se fosse um casulo, e sempre que as linhas brilham, esta agoniza, e cospe sangue. Há uma
    aranha gigante ali, pronta para lhe
    devorar, mas está a aguardar o
    momento certo.
    “Lúcifer por favor não acredite nela.” É o quê sussurra, como se estivesse num terrível pesadelo, e Luciféria volta a si,
    num suspiro profundo, caindo na 
    areia.
    “Nahemah! Tudo bem?” O arcanjo corre para ajudá-la a se levantar, e a moça o olha com indiferença. “Já disse que é Isis.” O corrige. “Já disse que é Nahemah.” Ele rebate.
    “O quê viu?” Lúcifer aguarda ansiosamente pela resposta. “Mamãe está em apuros.” A menina responde 
    se levantando, e quase desmaia pois
    o lugar, lhe sugou muita energia.
    “Cuidado.” O arcanjo a pega nos braços antes que caia, e esta fica vermelha de vergonha. “Estou bem, não preciso de...” Seus olhos se fecham outra vez, e ela vai para uma outra dimensão, onde se encontra em meio ao deserto, sentindo
    o vento árido em seu rosto.
    “Onde estou?” Pergunta erguendo o
    pulso contra a testa, para se defender
    do ataque do Sahara.
    “E importa?” Responde-lhe uma voz familiar, e ela reconhece como seu pai,
    mas basta ver os olhos negros para
    saber que não se trata dele.
    “Socorro!” Berra desesperada, e acorda no mundo das aranhas. “Luci está tudo bem?” O arcanjo lhe pergunta, e ela
    se solta, afastando-se de todos.
    O sol está raiando, o calor se faz presente, mas a princesa do inferno
    sente muito frio. Com as mãos na cabeça, ela cai no chão arenoso.
    E então uma mulher de cabelos negros,
    e olhos verdes como neon, vem ao seu
    encontro para socorrê-la. 
    “Você está bem?” Perguntou-lhe a moça. “Sim” Respondeu, mas quando sua palma entrou em contato com
    ela, a moça soube quem 
    era.
    “Você é a filha de minha irmã Lilith!
    Como está grande!” Cumprimentou-lhe
    , e a dama ficou confusa, e sem dizer
    nada, a mulher lhe roubou um
    beijo.
    Em vez da saliva comum, saiu um espírito verde da sua boca, que veio a entrar na garganta da jovem, como
    se fosse uma fumaça viva e
    brilhante.
    Após a menina engolir até a última
    molécula da energia, as estranhas veias
    secam, e a mulher vira pó. Ao sentir isso
    na pele, a dama não suporta a força
    em sua carne, e desmaia.
    “O quê é você?” Pergunta-lhe dentro
    da própria mente. “Eu sou você agora, e juntas formamos uma. Mas no futuro só uma restará, com poderes duplicados.”
    Responde-lhe a forma estranha.
    “Não, eu não quero lutar pelo  
    domínio do meu corpo.” Retruca. “Devia ter pensado nisso, antes de se matar.” É o quê rebate, em meio a gargalhadas
    de escárnio.
    “Aaaaah!” Ela grita em desespero, 
    e ao voltar a consciência, procura algo 
    para se cortar. “Não vai funcionar.” Lhe
    diz com confiança, e ela se força a
    vomitar.
    “Não.” Nega com alegria. Ao vê-la 
    se contorcendo, o arcanjo corre para lhe ajudar. “Saia daqui!” Ruge como um leão, e tal como o felino, salta
    para trás.
    “Nahemah? ” Ele pergunta assombrado com a voz demoníaca saiu da garota. A pobre, corre por entre o deserto, em completo desespero.
    “Socorro!” Grita aterrorizada, no 
    meio do nada, e ninguém vem para resgatá-la, pois estava longe, até 
     do quê até os deuses podiam
    alcançar.
    Ao adquirir tamanho poder, ficou
     tão veloz, que ao correr, pulou por
    mais de 5 das 9 dimensões 
    divinas.
    “Pequena criança, você precisa 
    de  ajuda não é?” Disse-lhe um ser, passando a mão em sua cabeça,
    enquanto ela ficava de 
    joelhos.
    “Papai?” Levanta o olhar, e se
    depara com o senhor supremo. “Não,
    é o titio Bael.” Respondeu-lhe com um sorriso, e esta se afastou indo para 
    trás.
    “Fique longe de mim!” Grita como 
    um humano, após ver o demônio. “Seu
    pai, e eu compartilhamos a mesma forma. Não há o quê temer.” Ele
     tenta lhe ajudar, mas ela 
    recusa.
    “Aceite. Tudo ficará bem.” Diz ao
    erguer a mão, e esta se levanta sem
    lhe dá outra oportunidade. “O quê
    queres de mim?” Inquire de
    imediato.
    “Tirar toda esta dor e sofrimento 
    minha pequena.” Responde, e ela ri
    “Em troca de quê?” Questiona de
    imediato, sendo sarcástica.
    “Você receberá fama, glória, e 
    fortuna.” Responde criando a maior
    ilusão de poder. “É tudo o quê sempre quis não é? Isis.” Alega colocando
    um colar de ouro em seu 
    pescoço.
    “Isis, o nome de uma deusa. Mas olhe para você, já foi uma princesa, adorada, respeitada, e amada, e no planeta em que vive agora, não passa de uma
    serva.” O diabo toca na sua
    ferida.
    “Eu sei o quê tem no seu coração. 
    Apesar de aparentemente ser feliz por
    servir os deuses, na verdade gostaria de voltar a ser um deles.” Passa a mão
    em seu ombro, rondando-a como
    uma serpente.
    “Isis. Você pode ter tudo isso 
    outra  vez, basta me entregar a chama da velha. Este poder, só te trará dor, e
    sofrimento, mas em mim será a
    razão do futuro.” Persiste em
    seduzi-la.
    “Um futuro onde todos curvam-se 
    para você? A onde minha posição irá se encaixar?” Pergunta-lhe com ironia. “
    Na imaginação deles, e todas as vezes
    que ouvirem o teu nome e te adorarem
    , você ficará mais forte.” Responde.
    “Sendo real e irreal?” O olha com dúvidas. “Exatamente. Querida aos meus aliados, tudo será permitido. Não
    Importam as regras, pois sou a favor da total liberdade.” Sorri, imaginando todas as atrocidades que irão
    permear o mundo.
    “E os outros?” Pergunta-lhe com 
    total ceticismo. “Eles não merecem esta honra.” É claro e objetivo. “Tem que me prometer, que não os machucará.” 
    Lhe impõe.
    “Suas mortes serão rápidas e silenciosas.” Promete-lhe, e a pega
    nos braços. “O quê está fazendo?” Ela
    pergunta. “Da mesma forma que o
    recebeu, deve transmitir.” Lhe
    esclarece.
    “Certo. Mas se a sua boca encostar
    na minha, eu enlouquecerei de tanto nojo.” Responde. “Eu sou tão belo quanto Lúcifer.” Retruca, sentindo-se
    insultado.
    “Será como beijar o meu pai. Tu Enlouqueceste?!” Grita, e ele tenta abocanhar o ser primordial. Ela lhe
    transmite, evitando o contato bucal, 
    até olhar para a mão deste, e notar 
    que os dedos estão cruzados.
    Sabendo que será enganada, em 
    vez de lhe transmitir o espírito, usa o
    magnetismo, e puxa a essência dele
    para si. Suas veias pulsam sem
    parar, seu corpo parece
    não suportar.
    A regra para receber a chama de Harmonia era clara, ela tinha que ser dada ao próximo, mas a de Caos só
    podia ser tomada, por aqueles que conseguissem dominá-la.
    “O quê está fazendo?!” O demônio
    grita com ela, mas esta continua a se
    manter com os pés firmes, e tenta em
    segundos dominar o Caos, com o
    poder de Harmonia.
    Notando que está sendo roubado, o
    diabo acovardado corre, e a moça cai de joelhos no piso. Ao ver que as suas
    células, estão se desfazendo sem 
    voltar ao normal, ela se
    assusta.
    “Socorro!” Berra ao voltar para 
    frente de Miguel, que a pega em seus braços, com estranheza. Para os seres
    carnais, só haviam se passado alguns segundos, como se ela tivesse se
    telestransportado.
    “Temos que salvar Lilith agora!” Grita
    em desespero, e seus cabelos começam a enegrecer, enquanto a pele empalidece.
    “Luciféria o quê fez?” Lhe pergunta 
    seu pai, e ao ver que o olho da menina está colorido com um violeta quase branco, descobre.
    “Você se encontrou com Bael!” Urra
    claramente furioso com o fato. “Ele, me procurou, mas, eu, disse, não.” Ela tenta responder. “Não, há, tempo.” Segura a mão de seu pai, e do seu tio, e os leva
    para o mundo obscuro.
    Ao chegar lá, se deparam com a 
    pobre rainha aprisionada num casulo, 
    e sem perder tempo, correm para lhe
    tirar dali. Contudo ao dar o próximo
    passo, Luciféria não suporta, e
    desmaia.
    “Vá resgatá-la, eu cuido da Lucy.” 
    Responde o arcanjo, quando o rei dos demônios, vira-se para ver se a filha está bem. O alado pega a jovem no
    colo, e tira seu cabelo do rosto, 
    para ver se está bem.
    “O quê houve Lucy?” Pergunta-lhe o 
    Jovem homem. “Preciso, salvar, todos.”
    Responde, e o agarra pela roupa, lhe beijando de surpresa. Mas não se
    trata de um beijo sentimental, 
    pois o faz de maneira 
    agressiva.
    “O quê foi isso?” O anjo lhe pergunta,
    sem entender porquê a dama o atacou, e antes que diga algo mais, ela o beija
    outra vez. “Retribua” Tenta lhe pedir,
    e este o faz, ainda desconfiado.
    “Nota-se que não está com Azazel 
    não é Luciféria Lilith II?” Diz-lhe sua mãe, saindo de trás de Lúcifer, que
    também não fica feliz com a cena
    , que está vendo.
    “Eu precisava descarregar a energia,
    e a melhor forma foi esta.” Responde e
    o anjo fica espantado. “Eu fui usado?
    Sem piedade?” Diz com o olhar 
    cheio de dor.
    “Não é hora para chorar. Eu estou 
    com a chama do Caos, e a de minha avó Harmonia, acho que não passo de hoje
    .” Mostra os braços, e olha para as
    veias radioativas no seu 
    corpo.
    “Como isso é possível?!” Lilith a questiona, sem entender o quê está havendo. “Bael tentou me seduzir com promessas falsas, e eu arranquei esse poder dele, fingindo ceder a chama.”
    Responde lembrando daquela
    estranha dimensão.
    “Como você tem a chama de Harmonia?” Inquire ainda abalada 
    Pelas revelações do dia. “Há quanto tempo roubaram a sua forma?” Ela
    Fica incrédula.
    “Desde que Belzebu invadiu o 
    Inferno.” Responde de má vontade.
    “E quem descobriu a verdade?” Ela
    pergunta, curiosa para saber a
    quem agradecer.
    “Fui eu.” Miguel dá um passo
    a frente. “Ah ninguém importante.”
    Passa pelo arcanjo, e abraça a
    sua filha.
    “Mamãe adoraria ver a reunião
    entre o filho renegado e a mãe que
    o despreza. Mas não há tempo.” É
    o quê diz, destruindo o clima de
    tensão.
    “O quê quer fazer  agora que tem 
    tais poderes ?” Pergunta desconfiada, e a dama desmaia em seus braços. “Lucy”
    Miguel é o primeiro a reagir com
    preocupação. 
    “Onde estou?” Se pergunta deitada no quê parece ser uma tela vazia, e então se levanta, observando ao redor. 
    Uma silhueta familiar vem ao seu encontro, parece ser o seu pai na forma demoníaca. O quê lhe trás apreensão, 
    pois acredita que é Bael.
    “Papai?” Pergunta desconfiada, 
    então ouve risos piedosos, mas a voz não pertence ao imperador, ou ao inimigo, o quê lhe intriga.
    “Não, mas ficará igualmente feliz ao
    saber” Responde, e o olhar dela brilha.
    Seus passos se tornam velozes, e ela
    se atira nos braços da criatura.
    “Azazel!” Dá um grito jubiloso, e 
    ele a carrega sem problema algum, 
    sentindo-se feliz pela recepção
    tão calorosa.
    “Como isso é possível?! Eu vi a 
    anciã jogar seu períspirito no portal!” Ela pega no rosto do amado. “Sim, 
    e ela o fez.” Esclarece, ainda a
    abraçando.
    “Então?” Questiona mostrando-se confusa. “Lúcifer e eu, já estávamos prontos, para tal eventualidade. Nós
    Já havíamos atravessado a barreira”
    Enfim revela. “Por quê?” Inquire em tom imperativo. 
    “Fora o fato de que era divertido, 
    nós acreditávamos, que nas outras dimensões, haviam materiais para 
    deter Yaweh, de uma vez por 
    todas.” Responde.
    “E para deter Bael?” Pergunta de imediato, e o charmoso demônio só abaixa a cabeça. “Yaweh era só mais 
    um Deus, mas Bael tem o poder do
    nosso avô.” Mostra-se um pouco decepcionado.
    “Então estamos fadados a nos 
    Render a ele?” Volta a interrogá-lo. “Não, se nós separarmos a chama
    de Zebub dele” Lhe dá uma 
    saída.
    “Que bom. Porquê eu consegui.” Ela o surpreende, e o faz sorrir. “Isso explica a aparência nova e soturna. Mas como?” Não consegue deixar de sentir 
    curiosidade.
    “Longa história. Só que em resumo: Ele me fez receber um poder, que acreditou que eu lhe entregaria, para voltar a ser
    reconhecida.” Conta-lhe com
    tristeza.
    “Tocou na sua maior ferida, e você quase lhe entregou, mas no fim se virou contra ele, e conseguiu roubar o poder do seu avô de volta.” Conclui, e ela
    se envergonha por quase 
    cair.
    “Exatamente, e estou amando cada segundo que desfruto com você, mas eu preciso voltar pro outro lado, antes que os poderes extremos do universo, me 
    despedacem, e gerem mais uma dimensão.” Responde se 
    afastando.
    “O quê vai fazer?” Lhe pergunta com
    certa preocupação, pois tal poder iria de fato matá-la para sempre. “Eu não sei,
    só sei que preciso consertar o mundo
    antes que seja tarde demais” Lhe
    diz, e ele a pega pelo 
    pulso.
    “Luciféria, tome cuidado.” Pede-lhe 
    com medo, e esta sorri sem vontade, se
    distanciando dele, até acordar num
    suspiro profundo.
    “Nahemah.” É a primeira palavra 
    que ouve, e já se irrita. “Já disse que é Isis.” Diz acordando num tapete, e olha para os seus pais, que estavam lhe
    esperando aflitos.
    “Precisamos fazer alguma coisa logo.”
    É o quê diz ao acordar, e então a mãe se ajoelha ao seu lado, empurrando o arcanjo para longe.
    “A sua avó deve saber o quê é melhor”
    Responde-lhe, e então a menina grita em desespero, sentindo o raio de Caos saindo do seu corpo. “Idiota. Achou
    mesmo que tinha domado o Caos
    por completo” Ouve-se na
    escuridão.
    E todos se preparam para lutar, mas
    o demônio gargalha, e rouba a menina diante dos seus olhos, tornando-a sua refém ao prendê-la contra o
    peito.
    “Se machucar a minha garotinha, 
    vai se arrepender do dia que saiu da prisão!” É o quê Lúcifer brada, com a saliva de ódio, escorrendo pelos
    lábios.
    “Ora irmãozinho, por quê eu destruiria alguém tão preciosa?” Pergunta-lhe ao tocar no rosto assustado da dama, que não consegue reagir, porquê ele está
    sufocando seu poder, tornando-o
    nulo.
    “Achou que meu propósito era 
    oferecer um pacto?” Pergunta para a jovem, e esta é libertada somente para falar. “Na, não era?” Responde ainda em pânico. “Não, eu queria que me
    sugasse a energia, para ter o total
    controle de você.” Revela.
    “Por, por quê?” Sussurra com a voz fraca, mostrando-se debilitada. “Oras por quê Harmonia fez o quê eu queria, te deu o poder da filha morta, para
    libertar Yaweh.” Continua  a
    falar.
    “O único poder que poderia atravessar o tempo, e tirar toda a minha capacidade.” Sorri, pegando no cabelo da jovem, que era estava ondulado, progredindo para o liso.
    “Mas... você, você disse que a vovó só me entregou a essência, não, não a  chama.”  O contesta, e este 
    gargalha.
    “E você é tão tola que acreditou.” A insulta, ainda atento ao possível ataque 
    que Lilith, Lúcifer, e Miguel planejavam com o olhar. “A mulher que vi...?” Se
    pergunta.
    “Era a Deusa que se foi. Ilusionismo necromântico, seu pai e eu fazíamos na infância, antes de Yaweh me prender, e o torná-lo o favorito.” Se interpõe, e
    a dama olha para o pai.
    “Isso é entre nós dois Bael. Sempre foi
    , achei que o tempo o faria amadurecer, 
    mas vejo que apenas apodreceu.” O 
    ofende, e este ri com escárnio.
    “Que seja. Mas vamos ver como a
     sua amada filha vai se sair no meu lugar!” Responde, e aperta a cabeça
    da menina, gerando uma corrente
    elétrica, que afeta os seus 
    nervos.
    A dama grita desesperada, e quando
    está livre para usar os seus poderes, ele volta a anulá-los. “Solte-a agora!” Grita
    o imperador dos demônios, e o arcanjo
    assisti aquilo, pronto para reagir.
    Só que Lilith pela primeira vez, em 
    um gesto de compaixão, segura no seu
    ombro, impedindo-o de se arriscar. Ele
    é o único dentre os três, que poderia
    servir de agente duplo.
    Já tinha provado que faria qualquer
    coisa por sua filha, e por isso embora ele tenha tentado proteger Azazel, o
    grande traidor, certamente iria 
    lhe chamar de volta.
    Só que se atacasse neste momento,
    iria colocar tudo a perder, e Luciféria não teria nenhum amigo, para lhe
    ajudar a escapar.
    A menina urra e seus olhos sangram
    com tanta intensidade, que o sangue se
    parece com tinta negra. Ela vai para o
    seu próprio inferno, no qual volta
    a reviver o dia que traiu
    Miguel.
    A cada segundo o impacto dele 
    contra o seu corpo, se repete, se iniciando apenas na hora que
    lhe causa dor.
    E desta vez é pior, pois ela sente algo
    dentro do seu corpo, mas vê o arcanjo ao longe, apenas observando tudo
    sem mover um dedo para 
    ajudar.
    Ao olhar para cima, descobre que 
    quem está montado sob as suas costas
    é o próprio Bael, e que seus olhos estão brancos como a luz solar. “Faça o quê
    lhe ordeno” Diz como se comandasse
    alguém.
    Num outro quarto escuro, há uma cortina caída sob a cama, e uma moça
    ruiva como Luciféria, sobe nos lençóis.
    Ela tira as roupas do pai, e se deleita
    em seus braços, fazendo-o lhe
    penetrar.
    “O quê?” Luciféria se  pergunta,
    vendo tal cena, não era sua mãe ali, não chegava nem perto disso. Era uma menininha de 1700 anos, só que ao
    vê-la, sua mãe lhe chamava de
    “Luciféria”.
    “Não! Não sou eu!” Ela esbraveja, horrorizada, tentando escapar do seu torturador, e este sorri deixando-a ali
    estirada, enquanto chama o arcanjo
    , para tomar o seu lugar.
    “Está feito. O coração de Cerridwen
    não será o mesmo, e logo Luciféria será
    destruída meu pai.” Diz o anjo com tanta felicidade, que assusta.
    “Você não falou que a destruíria!”
    Miguel se impõe entre Bael e Yaweh, e o executor se retira, deixando o pai e
    o filho discutirem.
    “Pai por quê fez isso comigo?” 
    A ruiva sussurra, e Yaweh e Miguel correm ao seu encontro, e ambos lhe
    fazem esquecer o ocorrido, dando-lhe
    novas memórias, aquelas que ela
    se lembrava antes.
    “Luciféria nunca mais pisará no meu
    castelo.” Diz uma voz familiar, e agora
    a jovem vê a floresta negra, na qual 
    ocorre um encontro.
    É a sua irmã mais nova, Lilá que está
    conspirando com Bael. E isto faz com a jovem grite, porquê a menina além de
    ter o seu sangue, era a sua melhor
    amiga, e tinha lhe traído.
    “Por quê ela fez isso?! Logo eu que sempre a protegi das represálias de nossa mamãe, e os castigos de
    papai!” Isso lhe atordoa.
    “Por quê!?” Ruge e os fatos se 
    repetem outra vez. Voltando sempre para a traição e o estupro, até que
    ela não suporta. “Por favor!” 
    Ela implora.
    “Por favor Bael faz isso parar!”
     As lágrimas vermelhas escorrem pelo seu rosto, e o deus sorri. “Como desejar.” Diz ele.
    Então todo o pesadelo se desfaz, 
    e se transforma num paraíso perfeito,
    no qual ela e Azazel estão felizes, e
    há um novo deus, o seu pai que
    trás felicidade a todos.
    Os gritos cessam, e ela fica em silêncio.
    Lúcifer observa aquilo com cautela. “O quê fez a Ela?” Pergunta entre dentes.
    “Apenas a mandei para um mundo
    maravilhoso.” Responde, e seus
    olhos ficam sombrios.
    “Luciféria, ataque-os!” Ordena, e os
    olhos da jovem brilham como neon, até carregar duas esferas de energia violeta nas palmas. “Nahemah..Não...” Miguel
    implora, lutando para não reagir, e
    a bela voa na sua direção.
    “Você não vai destruir os meus 
    pais!” Grita enquanto o ataca, mostrando que claramente não está naquela dimensão.
    O soldado, segura seus punhos, mas
     a dama lhe acerta o chute. “Vocês são
    Monstros! Devem ser exterminados!”
    Continua a atacá-lo violentamente,
    com voz de trovão.
    Lilith e Lúcifer se entreolham, e 
    ambos unem forças para atacar Bael. Eles voam na direção do senhor dos
    raios, e aterrissam transformados
    em dragões , só que o ser ri, e
    também muda de
    forma.
    Na forma de um ser com patas de elefante, e o corpo gigantesco, com vários tentáculos do rosto, e asas de morcego. Ao vê-lo, os dragões 
    arrancam-lhe a cabeça.
    Porém este gargalha, e o crânio 
    se refaz. A criatura solta um rugido forte, e os atordoa ao ponto dos 
    seres voltarem a forma 
    humana.
    “Behemoth.” Diz Lúcifer, e o Demônio 
    ri daquilo. “Com todo o poder de Caos e o universo, e você ainda lembra deste nome ridículo.” A criatura caminha,
    cercando-o.
    “Foi como nosso pai o chamou, quando atingiu a sua verdadeira forma irmão.” O eterno rei responde. “De fato, mas
    não altera a questão.” Retruca, e
    o ataca.
    Porém Lilith cria um escudo, e o impede de ser atingido. “Deixará sua mulher, te salvar mesmo?” O provoca, e este ri. “De forma alguma.” Olha para a
    bela, e esta entende o 
    recado.
    “Iremos resolver este problema 
    juntos!” Grita e os dois atacam em
    sincronia, atirando-lhe um raio, no
    meio de um dos 5 corações, que
    rapidamente se regenera.
    “Nahemah.” O arcanjo segura o punho
    da princesa, e bloqueia suas pernas. Ela podia ter grande energia, mas ele foi
    o seu mestre, e sabia como
    pará-la.
    “Vocês são monstros!” Esbraveja, sentindo-se vulnerável. “Acorda...Lucy.”
    O anjo segura-lhe o rosto, enquanto
    prende seus finos pulsos, com 
    a outra mão.
    “Como sabe o meu nome criatura?” 
    Pergunta-lhe claramente assombrada
    com a descoberta. “Porquê não sou um
    demônio.” A imagem do ser horrendo
    desvanece, e ela volta para o tempo
    atual.
    “Para onde me trouxe demônio?!”
    Ela grita, se afastando dele. “Lucy.” O
    ser a agarra. “Este é o mundo real. Não
    o outro.” Ele tenta fazê-la perceber que
    era tudo ilusão. “Do quê está falando?
    Num momento estou em casa, e no
    outro aqui não faz sentido.” É o
    quê lhe fala com desagrado.
    “Aquele lugar não é a sua casa.” Ele lhe responde. “É claro que é. É o lugar que o meu avô cedeu ao meu pai, depois de o perdoar por seus pecados.” Ela mostra
    está distante da realidade.
    “O quê? Não! Yaweh nunca perdoo
    Lúcifer! E por isso você sofreu, e eu tive
    parte no seu sofrimento.” O pobre se
    esforça para fazê-la lembrar, mas
    está evidente que não irá
    conseguir.
    “Yaweh perdoo meu pai sim! E ele e
    a minha mãe foram felizes! Assim como
    sou com o meu único amado Azazel.” A
    última frase, é como uma flecha 
    que o dilacera.
    “Você nunca se apaixonou por 
    mim, digo por Miguel?” Ele pergunta preocupado com o quê iria ouvir. 
    “Está louco? Miguel é meu tio, e 
    O marido da minha querida prima, a 
    quem eu nunca trairia.” Responde, 
    certamente o vendo como um
    ser das sombras.
    “Então no seu mundo perfeito, 
    nós nunca tivemos nada.” Aquelas
    palavras trazem dor ao arcanjo, e
    este se torna sombrio.
    “Com você nada mesmo demônio.”
    Ela responde sem pensar duas vezes,
    e ele abre as asas, levando-a para fora com o brilho no olhar, que lhe era bem conhecido. Era raiva, raiva provocada
    pela rejeição, pela dor, e o medo.
    “Tio o quê planeja?!” Ela grita, ao
    sentir os braços dele entorno dela, e vê que estava com Miguel, e não uma criatura grotesca.
     “Eu não sou um demônio. Demônios não tem asas de penas.” Responde, 
    e seus olhos se encontram.
    “Certo, tem anjos maus no reino do terrível Ismael, isso faz de você um demônio.” Ela o corrige, e este 
    sorri com furor. 
    “Não é o caso.” Levanta voo, em rumo
    a lua, que estava cheia.
    “Então o quê quer?! Yaweh não 
    gostará desta brincadeira.” Ela fica assustada ao ver o quanto estão
    distantes do chão.
    “Não me importo.” Retruca, e a
    moça fica incrédula. “Só quero que
    se lembre de mim outra vez.” É o quê diz, e a larga entre as nuvens. “Louco!
    O quê está fazendo?!” Berra, ao ser
    jogada há 50 mil pés do solo.
    “Eu não sou o marido de Eke!” Ele a
    pega nos braços. “O quê? É claro que é! Harmonia os uniu! Eu vi o casamento!” 
    Ela responde, se debatendo em seus
    braços, e este a solta outra vez.
    “Socorro!” Ela urra temendo a distância entre a areia e o seu corpo. “Eu fui o Seu noivo!” Ele conta. “Não foi nada! Só tive Azazel na minha vida!” Ela grita, e de
    novo, ele a deixa cair.
    “Você foi minha, e eu te amei, como você me amou!” Ele revela, e isso faz com ela sinta uma pontada no peito.
    “Eu não...Por favor para!” Ela lhe
    implora, antes que ele volte
    a arremessá-la.
    “Não sei que poção te deram. Mas 
    você está confundindo toda a história. Eke é a sua paixão, e a única que você ama!” Ela o pega pela gola da camisa, que fica embaixo da armadura, ele
    em desespero, olha-lhe com
    medo.
    Seus antebraços se enrijecem, e as
    mãos a puxam para o peito, enquanto
    os lábios dele, mergulham nos seus
    em um beijo roubado.
    “Como pode achar que eu amo Eke?
    Se você foi, e sempre será a mulher da minha existência.” Ele sussurra, e ela lhe dá um tapa. “Bem que Eke me
    falou que era cafajeste!” diz
    ao limpar os lábios.
    “Lucy não...” Ele diz com aqueles 
    olhos azuis de gato assustado, mas ela nem se esforça para lembrar, pois tem certeza de quê está certa. “Eu não 
    sou nada do quê pensa.” Se
    defende.
    “Eu te defendi pra Ela. Disse minha prima Ele só tem olhos para Você, e é assim que me retribui? Fazendo com que seja uma das suas conquistas?!” A dama rebate, demonstrando sua
    raiva.
    “Eu e você somos amigos?” Ele lhe pergunta. “Sim, éramos. Azazel não irá gostar disso, nem Eke, e eu não posso seguir sabendo de suas intenções 
    insidiosas.” Ela responde, e isso 
    de certa forma o entristece. 
    No mundo real eles eram um par, e 
    se amavam intensamente. No perfeito 
    nunca deram sequer um beijo. Porquê
    se juntaram a outros pares, e ele
    não passa de um canalha.
    “É assim que é perfeito para ti Lucy?”
    Ele questiona. “Não ter nenhum tipo de envolvimento, com o pior marido que há? Sim.” Ela fala sem sequer 
    analisar.
    “Tudo bem. Me perdoe pelo beijo, 
    vamos fingir que não aconteceu.” Ele
    cede ao mundo em que ela quer viver,
    mesmo que isso o machuque, e que
    não seja o seu desejo.
    “Não posso. Eke é como uma irmã
    que nunca tive, seria errado.” Ela lhe
    diz. “Faça o quê achar melhor.” Ele
    responde com voz fraca e sem
    ânimo.
    “O melhor, é você voltar pra sua 
    mulher, e nunca mais se aproximar 
    de mim.” Ela responde, e ele só
    balança a cabeça.
    “Como quiser.” Ele pousa na areia,
    e a deixa ir. “Não me levará de volta pra casa?” Lhe inquire. “Você vai achar o seu caminho, tenho certeza.” Diz
    deixando-a para trás.
    “Nem sei onde estou. Este lugar tão sombrio, cheio de lama e lodo, me dá calafrios.” Caminha ao lado dele, e este ri sem vontade, de fato ela permanece presa ao controle de Bael. “Se sou
    tão ruim...” Inicia descendo 
    a montanha.
    “Por quê está seguindo comigo?” Ele
    ergue a sobrancelha, curioso pelo que há de vir. “Eu não conheço este lugar,
    e Yaweh te nomeou, um dos seus
    generais.” Diz de imediato.
    “Ah tá.” Respira fundo, Bael foi bem esperto, deu a ela elementos reais, só para garantir que jamais acordaria. “O beijo foi ruim?” Ele pergunta. “Não
    quero falar.” Responde com
    indiferença.
    No fundo se sente envergonhada, no
    mundo perfeito, jamais tinha beijado a outro anjo, pois seu corpo e espírito,
    eram somente do marido.
    “Se não responder, serei obrigado a
    fazê-lo outra vez.” Ele brinca, e a bela congela. “Por quê é importante? Eke 
    me disse que já beijou várias.” 
    Tenta desviar o assunto.
    “Várias me beijaram, mas eu só 
    beijei uma.” Ele a corrige, e ela o ignora. “A sua mulher.” Responde seca. “É, se 
    é no quê quer acreditar.” O soldado 
    do céu, revira os olhos, com o 
    seu sorriso maldoso.
    “O quê quer comigo?! Por quê veio
    me perturbar tão de repente?!” Ela o inquire, movendo os braços, e ele a
    joga contra o ar, prendendo-a
    aos seus braços.
    Para ela, foi jogada contra a árvore
    , e esta desapareceu. Sua mente fica a falhar, e cenas sombrias dominam a sua cabeça. “Eu quero que lembre de mim.”
    Ouve ao longe, vendo a sua verdadeira
    vida, se passando como um filme
    antigo.
    Uma dor extrema, lhe faz fraquejar,
    e gritar aos ventos. Ao ver que surtiu 
    efeito, ele tenta elevar o choque, e
    a abraça forte.
    Novamente os lábios dele, vão de encontro aos seus, e ela o empurra em pânico. “Miguel você perdeu o parafuso foi?! O outro beijo foi só para diminuir a carga de Harmonia, não confunda as coisas !” Grita, e ao ver que voltou 
    ao normal, ele volta a beijá-la
     de alegria.
    “Você voltou!” Ele a cumprimenta, e
    esta o estranha. Do quê estava falando
    ? E onde estavam? Eram perguntas que não se calavam. “É uma longa história.
    E o beijo foi necessário.” Ele responde
    , e sai com um sorrisinho de
    vitória.
    “Volta aqui, pervertido.” Ela o segue, 
    e ele vira. “Quer repetir a dose?” Ergue a sobrancelha, sentindo-se atraente e
    irresistível. “Não.” Diz friamente,
    e ele continua rindo.
    “Está agindo como um idiota.” Ela o
    julga, mas a felicidade dele é tanta, que
    isso não o atinge. “Um idiota feliz, por
    saber que minha amada, voltou a
    se lembrar de mim” Lhe
    diz.
    “Está amando outra pessoa? Porquê
    eu não lembro de ti!” Ela fica defensiva,
    e ele outra vez a agarra. “Eu sei que se
    lembra. Não adianta esconder.” Diz
    olhando-a no fundo dos 
    olhos.
    “Um beijo pra não morrer, e fica assim.”
    Ela o desdenha. “Três beijos na verdade. 
    Para te fazer lembrar de mim.” Retruca.
    “Três?!” Ela se horroriza. “Ou mais.”
    Passa na frente dela, com o
    olhar confiante.
    “Você deve beijar mal mesmo. Por isso
    demorou tanto para eu voltar” Brinca, e ele olha sério para ela. “Quer testar ?”
    Questiona, e ela nega repetidas
    vezes.
    “Então não diga mentiras.” Segue
    bem animado, levando-a para longe do conflito. Infelizmente sua felicidade não dura, a grande luz os cega, ele se põe
    na sua frente, e segura-lhe atrás
    dele.
    “Nahemah Lilith.” Diz a voz de Bael, 
    e esta retorna para o seu controle, deixando o arcanjo, para seguir
    com o novo Deus.
    “Lucy não!” O arcanjo diz ao vê-la
    indo para os braços do demônio, que
    a acolhe, e diz algo no seu ouvido,
    que o guerreiro não é capaz
    de entender.
    A dama então voa na direção dele,
    e passa direto, indo até os humanos
    que assassina um a um, drenando
    o sangue deles, com uma única
    mordida.
    Quando não, os abre ao meio com
    um sorriso macabro, tendo piedade dos bebês, mas não dos adolescentes, aos
    quais acerta golpes, que são fortes
    para arrancar-lhes o 
    coração.
    Devido a alguma frase que o sol 
    negro lhe disse, ela assassina mais de
    mil pessoas, em questão de minutos, e
    pouco á pouco, vai pintando o mundo
    de sangue inocente e culpado, até
    restar só os que seguem a
    Bael. 
    Fim?
  • Blefe Mortal

    O suor escorria pelo seu rosto, porém a feição séria e amedrontadora distraía seus oponentes naquele momento, exceto por Louie.
    Louie era um homem negro e Grisalho, com trajes finos,uma bengala que não apresentava marcas de uso e um olhar vil, porém cativante.
    - Você tem certeza, garoto? Indagava o velho homem com um tom extasiado.
    - Nunca tive certeza de nada, e sempre apostei tudo... E só cheguei aonde estou porque minha vida foi feita de apostas e vitórias...então...é, tenho.
    Enquanto o jovem prolifera as palavras em cima do dinheiro que já não tem, lembra-se da pacata cidade onde nasceu, o calor dos pães já murchos a pouco tirados do forno e o afago materno que o acolhia; Também se lembra de sua primeira viagem para os Estados Unidos onde conseguira sua bolsa em Harvard, seu primeiro emprego, seu primeiro carro, casa, barco, relógio de ouro e claro, de Clarice...
    Ah Clarice... Um verdadeiro anjo caído, mais sedutora que o próprio demônio e mais cruel que Deus, seus lábios vívidos e suculentos rapidamente tiravam nosso protagonista de órbita, mas algumas palavras o fizeram aterrisar novamente na realidade.
    -Showdown!- Afirma o crupiê.
    A confiança do jovem o faz baixar rapidamente as cartas, mostrando um  Flush bem desenhado.
    A própria lógica do poker dizia para Patrick, naquele momento, que era quase impossível uma combinação maior, exceto por um Royal Flush, mas esse era totalmente improvável; Seus cálculos eram precisos e sua mente aguçada o suficiente para apreciar o gosto da vitória de uma forma extremamente precoce, porém, a felicidade de seu oponente começava a deixá-lo em desespero, o velho homem, ao se preparar para mostrar as cartas, solta as seguintes palavras:
    -Parabéns garoto - afirma mantendo o sorriso e baixando as cartas viradas para baixo - Você ganhou.
    O suor que antes era de nervosismo agora virou em felicidade contida atrás daquela máscara; Ao recolher as fichas de seu devido prêmio, a voz rouca e suave do idoso gesticula uma tentadora proposta:
    - Eu tenho mais... Muito mais, quer ver?
    Patrick, em profundo êxtase responde:
    -Quero, quero não só ver, mas tomar, quero dinheiro, quero poder,quero ter o sangue de todos aqueles que me humilharam, quero...Quero...
    Antes de terminar a frase o jovem homem vê seu reflexo no espelho, seu cabelo desarrumado, seu olhar vidrado e expressão diabólica o assustam, e logo atrás de si, através do espelho, vê a sombria criatura que cochicha:
    -Que assim seja.
    O semblante que forma à sua retaguarda toma uma forma demoníaca, o jovem desesperado salta á frente aterrorizado derrubando as fichas e a mesa.
    A criatura medonha se curva, rindo, quase gargalhando.
    - Ora...Por que tanto medo? Não era você que queria sangue a pouco tempo atrás?
    As presas cravam, o corpo esfria,
    e no chão se destaca a sequência mais nobre do Pôker: Um Royal Flush carmesin.
    "A vida é um jogo, que quanto mais você aposta, mais emocionante fica."
  • Caçadora

    Já haviam se passado dois dias desde que os sequestros começaram, as delegacias da região estavam lotadas de policiais e informantes, todos desesperados por uma única pista. Nos hospitais seguranças cercavam os berçários, pais nunca deixavam um enfermeiro ficar a sós com seus filhos. Dois dias, quarenta crianças, todas tiradas dos braços das mães em sete diferentes hospitais da cidade.
    Sofia tentara rastrear os sequestradores a partir de câmeras de segurança, mas não conseguiu nada além do que a policia tinha, os bebes eram pegos por enfermeiros que trabalhavam nos hospitais, eles aparentavam estar fazendo seu trabalho de rotina, contudo, nunca chegavam ao destino, desapareciam dentro de um carro junto com a criança, tudo pego pelas câmeras.
    No primeiro dia dez roubos dentro de uma hora, dois recém-nascidos e oito que já estavam a mais de um dia no berçário, quando chamaram a policia já haviam desaparecido, essa primeira onda ocorreu somente em um hospital, os outros trintas seguiram o mesmo padrão no dia seguinte, menos de uma hora e em seis hospitais diferentes. As câmeras de trânsito não conseguiam acompanhar os criminosos, haviam poucas e cobriam somente uma parte pequena das ruas.
    A cidade inteira estava em pânico, a mídia não saia de cima da polícia, os gerentes dos hospitais estavam ocupados demais tendo que atender advogados que ameaçam processos milionários, Sofia sabia que quanto mais alvoroço acontecesse, mais as pessoas deixariam passar os detalhes, então estava na hora dela agir.
    Após assistir as câmeras diversas vezes, juntou os seguintes padrões, o comportamento dos enfermeiros até recolherem as crianças eram normais, nenhum dos quarenta apresentara qualquer sinal de nervosismo, nenhum teve qualquer contato estranho ou incomum entre eles, ou seja, sequestrador com sequestrador, assim como agiram de forma completamente confortável quando saíram do hospital e entraram no carro, o mais provável era que o quer que tenha motivado os roubos tenha acontecido entre os segundos em que as câmeras não pegavam eles, se tornava difícil notar qualquer interação com outros possíveis cumplices nesses momentos, ninguém estranho, tudo em perfeita ordem, parecia completamente inútil.
    O único detalhe que juntava todos os membros como cumplices era que em cada roubo o carro do sequestrador pertencia a outro sequestrador, todos segundo os familiares sem qualquer ligação. Os carros foram encontrados, estavam separados em diversos bairros da cidade, sem GPS, sem os donos, sem pistas.
    No primeiro dia vinte minutos após chamarem a policia as BRs que levavam para fora da cidade estavam fechadas, no segundo dia elas foram reforçadas, a guarda nacional ajudava a cercar a cidade, ninguém passava sem ser visto, pelo menos era isso que eles queriam acreditar, o mais provável era que as crianças ainda estivessem na cidade, a questão era acha-las.
    Sofia pensou em qual seria o próximo passo da polícia, estavam prontos para invadir todo e qualquer lugar que pudesse abrigar quarenta recém-nascidos, quanto tempo demorariam para conseguir a permissão? Algumas horas?! Ninguém conseguiria esconder-se por tanto tempo com esse número de reféns, os planos eram outros, talvez aquelas crianças não tivessem algumas horas.
    Eram quatro horas da manhã, Sofia decidiu que não valia a pena correr atrás de todos os quarenta suspeitos, escolheu um, Carlos Mendonça, quarenta e dois anos, residia no hospital a mais de uma década, casado e com três filhos, um homem normal, pai amoroso e ótimo jogador de cartas segunda a esposa. A casa do suspeito ficava próximo a casa de uma das vítimas, podia ser coincidência ou ele podia estar de olho na gravida a muito tempo.
    A menina esgueirou-se pelo jardim da casa, sempre de olho para que ninguém a visse, escalou até o segundo andar onde sabia por informações recolhidas de conversas com “vizinhas informantes” (fofoqueiras) que ficava o quarto do suspeito e sua esposa. A janela estava fechada, mas era de vidro e por ela podia-se ver uma mulher de idade já avançada deitada na cama em um sono profundo, um sono que conseguira a muito custo, isso era o que indicava os frascos de soníferos ao lado da cama. Outro motivo pelo qual Sofia escolhera aquela família em especial era por que fora uma das primeiras entrevistadas, metade dos familiares de suspeitos ainda estavam na delegacia e a garota preferia fazer seu trabalho longe da polícia.
    Todos na vizinhança dormiam, tão calmos e ao mesmo tempo tão desesperados, Sofia desceu para o jardim, encontrou a porta dos fundos e com um grampo abriu a fechadura como se fosse um jogo de criança.
    Andou pela casa sorrateiramente, procurou pelos filhos, mas eles não estavam, deviam ter sido mandados para os cuidados de algum parente para evitar que comtemplassem a tristeza da mãe, era uma coisa boa, não seria interrompida. Subiu as escadas, fechou as cortinas do quarto, vestiu uma mascara completamente branca que só possuía buracos para os olhos e foi em direção a cama.
    - Cristina! – sussurrou bem perto do ouvido da mulher, mas não surgiu efeito.
    - Cristina! – voltou a repetir, agora mais alto dando um empurrão na dorminhoca.
    A mulher resmungou um pouco, virou-se de frente para a menina e quando abriu os olhos, entrou em desespero, tentou gritar, mas uma mão tapava sua boca. Seu próximo instinto foi pular para fora da cama, novamente frustrada, desta vez devido a faca de caça que repousava em seu pescoço.
    - Não quero ter de usar meios violentos. – disse Sofia – mas não hesitarei um segundo se me obrigar a fazê-lo, estamos entendidos?
    A mulher com os olhos arregalados e cheios de medo acenou com a cabeça de forma afirmativa. Sofia retirou a mão que tapava a boca da vítima, mas manteve a faca,
    sentou-se na cama confortavelmente enquanto era observada pelo olhar amedrontado de Cristina.
    - É... é dinheiro? – perguntou a mulher gaguejando – Te... te... tem no... co... co... cofre, a senha é 2...2... 4...
    - Isso não é um assalto!
    A mulher permaneceu um momento em silencio, então pediu se poderia sentar, Sofia permitiu, contudo, sem remover a faca do pescoço da vítima.
    - É meu marido? – perguntou a mulher com os olhos cheios de lágrimas. – Você é uma parente?
    - Não Cristina, sou só alguém querendo fazer a coisa certa.
    - Com uma faca?
    - Com os meios que a justiça despreza, mas necessita.
    As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da mulher. – Eu não tenho nada a ver com isso, meu marido também não, é um grande engano, ele é uma boa pessoa.
    - Ele sequestrou um bebe e desapareceu, não é a definição correta de boa pessoa.
    - Você não entende, ele não pode ter feito isso, ele é um homem carinhoso, um pai de família gentil, nunca esquece meu aniversário, continua dizendo que me ama todos os dias mesmo depois de vinte anos de casamento.
    - Parece perfeito demais não acha?!
    - Por que está aqui? Tem alguma pista dele, tem dele algo a mais que os outros? Não conheço todos os envolvidos, mas tenho certeza que assim como meu Carlinhos eles são vítimas de alguém que os manipulou.
    - Acha mesmo que ele é inocente?
    - Eu conheço meu marido!
    - Então consegue imaginar alguma oferta que o teria feito repensar seu estilo de vida? Dinheiro, algum favor especial talvez?
    - Dinheiro? Eu sei que ele é só um enfermeiro, mas dinheiro nunca foi um problema, ele herdou uma fortuna de seus pais, poderia ter pego tudo e ido embora, em vez disso dedica todo dia cada centavo dele para dar a mim e a nossos filhos a vida mais alegre que poderíamos desejar.
    - E onde está sua alegria agora?
    A mulher caiu em prantos e Sofia não demonstrou qualquer sinal de pena diante da cena, assim como sua mão não afrouxou no pescoço da refém.
    - Temos um problema aqui! – disse a menina – Tudo indica que seu marido faz parte de algum grupo de lunáticos que resolveu sequestrar quarenta crianças de uma vez só em um período de dois dias, sabe o quanto isso é insano? Não faz o menor sentido! Sabe, eu gostaria que ele não fosse culpado, acredite em mim, assim eu pouparia uma bala na hora de matar os responsáveis, o problema é que preciso de uma outra teoria que o livre dessa, você tem alguma?
    - Ah...ah... Não sei... ah... Talvez alguém parecido com ele, talvez... eu não sei... – a mulher voltou a chorar, tentou controlar quando sentiu o fio da navalha apertar mais contra seu pescoço.
    - Vamos lá Cristina, eu não tenho muito tempo.
    - EU NÃO SEI! Bolar uma teoria não deveria ser o seu trabalho?
    - Estou sem ideias, preciso de uma segunda opinião, que tipo de grupo é lunático a esse ponto?
    - Tráfico sexual, trabalho infantil, órgãos, EU NÃO SEI!
    - Sabe qual é o problema com esses grupos Cristina?
    - Eu... eu... eles... não fazem escândalo?!
    - Exatamente! Você não está se esforçando para livrar seu marido dessa Cristina.
    - ELE É INOCENTE! Porque não acredita em mim?! Eu não sei de nada, ele era um bom homem, meu deus ele até doava dinheiro para igreja todo mês.
    Sofia suspirou desapontada, retirou a faca da garganta da vitima e a guardou no sapato, as duas permaneceram em silencio por um momento, até que a menina notou algo no que havia ouvido.
    - Vocês são religiosos? – perguntou ela a mulher.
    - Não exatamente! A religião vem de família, mas as doações são nossa única ligação com esse tipo de culto atualmente e é só porque a igreja faz obras de caridade ou algo assim...
    - Está me dizendo que não sabe exatamente para que a igreja usava o dinheiro?
    - Era o... era... meu marido... que... cuidava disso... você... você acha que...
    - Um homem perfeito?! Talvez você esteja certa e não seja nada, mas só por precaução vou checar para onde o dinheiro ia, tem pelo menos o nome da igreja?
    Alguns quilômetros longe dali, dentro de uma cafeteria vinte e quatro horas, Sofia procurava em um dos computadores do estabelecimento, tentando encontrar informações sobre o Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo. Era uma comunidade bem grande, muitas propagandas sobre obras de caridade, embora as igrejas deste culto fossem templos pequenos e espalhados em vários pontos da cidade, todos os anúncios traziam consigo a imagem do patrono da religião, o padre
    Deo Missusa, latim, se fosse escrito Missus a Deo significava enviado de deus, Sofia entendia um pouco de latim e essa podia ser novamente só uma coincidência, mas aquele parecia ser um nome inventado, do tipo que artistas usam para parecerem mais chamativos.
    “O que Deus diria disso?!” pensou ela.
    Após alguns minutos de pesquisa encontrou um numero de telefone, sabia que não ajudaria muito, mas resolveu tentar um contato com o próprio “Enviado de Deus”, através da linha de ajuda a viciados. Saiu da cafeteria, encontrou um lugar sossegado e então telefonou, foi quase que imediatamente atendida por uma mulher.
    - Centro de fé e contemplação do senhor Jesus Cristo, que a benção do senhor esteja com você, com quem estou falando?
    Sofia enrugou um pouco a voz para parecer rouca – Meu... Meu nome é Karine, eu... eu preciso de ajuda... eu quero me matar.
    Houve uma comoção do outro lado da linha, outra pessoa assumiu o telefone, desta vez um homem, afinal, a linha era para viciados, não suicidadas. – Boa noite Karine, meu nome é Jeferson, estou aqui para te ajudar, preciso que continue na linha ok? O senhor nosso deus tem um proposito para você, sua vida tem um valor inestimável...
    Sofia resolveu criar um pouco mais de drama – Onde está a mulher? Eu estava falando com uma mulher? – ameaçou um choro – Porque todo mundo me passa para outra pessoa?
    - Karine, eu preciso que se acalme ok?! A irmã Maria está aqui comigo, ela não saiu, eu pedi para assumir o telefone, já lidei com isso antes querida, tem algo que deseje em seu coração?
    - Deo!
    - Como?
    - O padre Deo está ai?
    - Sinto muito querida, o padre encontrasse em seus aposentos, mas Deus fala através de todos nós, pode falar conosco e estará falando com Deus.
    - Por favor! – Sofia fingiu que estava chorando, parecia bem convincente, era uma ótima atriz – eu estava... estava vindo para cá, pronta a pular, pronta a tirar minha vida, então eu vi, eu vi um cartaz, era o padre Deo, é um sinal, meus pais sempre foram religiosos, eu nunca liguei para essas coisas, por favor, eu preciso falar com o padre, ou então não tem porque eu continuar nessa ligação.
    A resposta foi rápida – Tudo bem Karine, eu preciso que prometa continuar na linha, não faça nada precipitado, vamos tentar entrar em contato com o padre, mas enquanto isso, porque você não nos dá sua localização?! talvez o padre possa te encontrar pessoalmente.
    - NÃO! Vocês estão mentindo, vão chamar a polícia, vão me mandar de volta para aquela maldita clínica, EU QUERO FALAR COM DEO OU VOU PULAR!
    - Calma Karine, estamos ligando para o padre agora mesmo...
    A ligação se estendeu por alguns minutos com Jeferson incentivando o tempo todo para que a vitima se acalmasse e tivesse paciência, Sofia por sua vez mostrava cada vez mais sinais de impaciência para que agilizassem as coisas, por fim a ligação foi passada para o “Santo Deo”.
    - Que a benção do senhor esteja com você, o que há em seu coração querida? – perguntou o padre.
    Era hora de decidir bem o que dizer, Sofia queria saber se a igreja tinha algo a ver com os sequestros, pensou em alguns dos sequestradores. – Meu nome é Karine... meu pai era Gregório Castro...
    Sofia não disse mais nada, esperou uma reação.
    - Um dos sequestradores?! – disse o padre.
    “E o peixe morde a isca” pensou a menina, mesmo que tivesse visto todas as notícias seria difícil decorar todos os quarenta nomes, muitos dos jornais nem se deram ao trabalho de citar todos os envolvidos, de novo, poderia ser coincidência, mas a garota chegara até ali com algo extremamente banal como contribuições para caridade, não tinha porque não ir a diante.
    - Ele falava muito da igreja – Sofia continuava com a voz de choro – você o conhecia?
    - Deus conhece todos os seus servos minha querida, mas eu sou só um mortal, não tive a honra de conhece-lo, tenho certeza que era um bom homem...
    - Então porque ele...
    - O diabo as vezes tem vitórias que não conseguimos entender, mas Deus sabe a hora de agir, se seu pai era um bom servo, tenho certeza que Deus perdoara seus pecados.
    - E os seus, padre?
    - Meus?!... meus pecados? Somos todos iguais aos olhos de Deus.
    - Ele sempre doava dinheiro para igreja! – disse Sofia atirando no escuro.
    - Ele era um doador fiel da caridade sim, e Deus ajuda quem ajuda os desfavorecidos.
    Uma ligação, havia uma ligação entre dois suspeitos, ambos doavam para igreja, como sempre sem provas, mas as coincidências continuavam a aparecer.
    - O que está pensando em fazer querida? – continuou a falar o padre – É por isso que está pensando em cometer o pecado do suicídio, por causa dos pecados de seu pai?
    - Como posso viver com isso padre? Minha amiga pensa do mesmo jeito, a mãe dela também fez isso, era uma boa mulher – mais uma tentativa, Sofia pensou em outro
    nome entre os sequestradores - Julia Tália Santos, sempre doava para sua caridade – esperava outra mordida, mas as coisas mudaram a partir daí.
    - Quem é você? – perguntou o padre de forma fria.
    Nesse instante Sofia entendeu que fora descoberta, estava ligando pontos demais, pedindo informações demais, e o líder de um culto só podia ser burro até determinado ponto ou não seria o líder.
    - Onde estão eles? – perguntou a menina.
    - Os sequestradores? Porque eu deveria saber disso?
    - Porque eles trabalham para você, porque sua maldita igreja sequestrou quarenta crianças e posso apostar que não faz parte de um programa de caridade.
    - Dominus tem um grande plano para elas, você é uma criatura sem fé, não entenderia.
    - A policia está ouvindo essa conversa!
    - Não está não! – disse o padre com confiança – essa é uma linha privada, já tenho sua localização e alguém de olho em você, é só uma adolescente metendo o nariz onde não é chamada...
    Sofia desligou o telefone e olhou em volta tentando encontrar os olhos do padre em algum lugar, não havia ninguém, estava sozinha, a rua era silenciosa e ao longe os primeiros raios de sol nasciam, ela suspirou aliviada e ao mesmo tempo sentindo o coração pular para fora do peito.
    Agora que já sabia que a igreja realmente tinha algo a ver com isso ela tinha que encontrar um modo de chegar até eles, estariam em um grande culto ou algo assim, devia haver muita gente envolvida, não que fossem fazer isso em um lugar público, mas devia ter um jeito de chegar a eles.
    Sofia entrou novamente na cafeteria, era a única cliente ali, pensou em pedir algo, passara muito tempo sem comer nada, foi até o balcão e enquanto avaliava as opções notou vários cartões de visita, taxis, livrarias, grupos de ajuda, e lá estava ele, a imagem de Deo “Faça parte da nossa comunidade!” dizia o cartão.
    - Vai pedir? – disse o garoto atrás do balcão assustando Sofia que estava focada nos cartões.
    - Não! – respondeu ela rápido – desculpa, quero dizer, estou escolhendo ainda.
    O garoto sorriu e de forma graciosa fez uma reverencia, Sofia riu e voltou os olhos para o cardápio. Ao fundo ouviu o telefone tocar, o garoto atendeu imediatamente, deixando a menina sozinha com as opções.
    Seria um dia puxado, ela precisava de energia, começara a pensar que se metera com algo muito grande, afinal, estava sozinha, passou os olhos pelo hambúrguer e pela
    torrada, pensou em pedir talvez um pastel, estranhamente estava com vontade de comer pastel.
    - Karine? – perguntou o atendente.
    Sofia ergueu os olhos a tempo de ver um teaser ser disparado contra seu peito, ela tombou no chão com 50 mil volts passando pelo seu corpo, tremia freneticamente, já tinha feito treinamento com armas de choque, não era algo fácil de suportar, conseguiu com muita força arrancar os ganchos que lhe transmitiam a corrente, mas ficou no chão convulsionando. O menino ficou lá, com um olhar catatônico, observando sua presa, após alguns segundos pegou a faca que era usada para cortar os bolos e deu a volta no balcão indo em direção a sua vítima.
    Sofia ainda tremia, mas levar tantos choques nos treinamentos devia valer alguma coisa, pois ela conseguiu se levantar, cambaleou para longe do atacante, mal conseguia se manter de pé, sua única opção era tentar aguentar até que seu corpo tivesse condições de lutar.
    O menino se aproximou rapidamente enfiando a faca no braço de Sofia, ela gritou de dor e voltou a tombar ao chão, desta vez levando uma serie de mesas e cadeiras junto, a faca não entrara muito fundo, acabou caindo durante a confusão. O atendente pulou em cima da pobre garota desferindo diversos socos em um ritmo frenético, a cada golpe a consciência de Sofia ia esvaziando, “como pudera ser tão descuidada?” pensou ela “Não notara um agressor tão próximo, tanto treino, tanto esforço para acabar assim?! Não! ainda não estava acabado”.
    Um movimento rápido entre um dos socos, uma cabeçada, as cabeças se chocaram forte o suficiente para empurrar o garoto para trás. Sofia encontrava-se exausta, afastara o inimigo, mas por quanto tempo? Não tinha mais forças para lutar, para sua surpresa, não precisaria mais lutar.
    O garoto começara a resmungar de dor, perguntando o que diabos tinha acontecido, ficaram ali por alguns minutos, os dois, Sofia em um estado bem pior que o garoto, até que o seu ex-inimigo veio ao seu socorro, ajudou a levanta-la, correu pegar o kit de primeiros socorros quando viu o estado do corte em seu braço e enquanto limpava o ferimento a garota aproveitou para perguntar algo que já imaginava.
    - Você tem alguma ligação com Deo?
    - O cara da igreja? Não!
    - Como conhece a igreja? – perguntou apontando para os cartões de visita.
    - Fiz uma doação! Para um programa de viciados e... a mais ou menos um mês atrás me convidaram para uma comemoração para doadores, era um tipo de palestra, dormi a sessão inteira, me deram os cartões na saída.
    - Soldados russos! – disse Sofia, agora entendia o que havia acontecido, como todas aquelas pessoas tinha sido convencidas a fazer o que fizeram.
    O garoto olhou em volta, somente agora parou para tentar entender o que havia acontecido, o teaser para ladrões estava em cima do balcão, acabara de ser usado, uma faca ensanguentada estava caída no chão, sentiu-se horrorizado, havia feito aquilo com a menina.
    - Não se preocupe, não vou contar para ninguém – disse Sofia – desde que não conte que estive aqui.
    O garoto tinha muitas perguntas, mas foi convencido a deixar que a garota fosse embora sem responder nada, e com o aviso para que não atendesse o telefone.
    Soldados russos, fora isso que aconteceu, os doadores que compareceram a reunião de comemoração foram hipnotizados para serem como soldados russos, ativados com algum sinal, prontos para executar qualquer ordem que lhes fossem dada, seriam necessários apenas alguns segundos para ativar as marionetes durante os sequestros, poderia ser qualquer um a fazê-lo, bastava algum sinal pré-programado. A reunião havia acontecido segundo o garoto no subsolo da decima terceira cede da igreja, todos dormiram na reunião, motivo pelo qual não falavam dela por ai, talvez estivesse erada, mas tinha a impressão que seria lá que o quer que estivesse acontecendo seria realizado.
    Oito horas da manhã Sofia já se encontrava livre de quase todas as dores, sangramento estancado, ferida limpa, estava na hora da caçada. A garota finalmente se vestia para um combate, botas de couro, uma malha que absorvia impactos, duas facas na cintura, duas facas nas botas, cobrira tudo com um sobretudo preto, e a ultima peça era um rife de caça com dardos tranquilizantes que guardou dentro de um case de violão junto com sua máscara, na rua pareceria uma menina comum, quem a via mal sabia que estava indo em direção a uma guerra.
    Passou algumas vezes por frente de televisões que anunciavam a invasão da polícia em vários pontos da cidade, a guarda nacional estava ajudando, vários vídeos eram gravados a partir de câmeras de celular, o perímetro das invasões era sempre evacuado, podiam estar lidando com terroristas, não encontrariam nada e demorariam muito tempo para fazer isso.
    Demorou uns quarenta minutos até chegar a igreja, não havia ninguém ali, não na parte de cima pelo menos, Sofia levou um tempo para achar a entrada do subsolo, lá em baixo parou na escada, ficou abaixada observando a sala, era um lugar imenso, bem maior que o andar anterior, a porta lacrava a sala e impedia que qualquer som saísse de lá.
    Os fieis podiam ainda não estar ali, mas os sequestradores estavam, todos desacordados amarados em cadeiras, vendados e amordaçados. Sofia não conseguia ver os recém-nascidos, mas agora tinha certeza que aquele era o lugar certo. Em um canto do salão arrumando o que parecia ser um palco estavam dois homens grandes vestidos de branco com sinais de cruzes invertidas desenhados em seus trajes, a garota não podia ser burra e enfrentar os dois em uma luta corpo a corpo, seria esperto
    guardar os dardos do rifle para quando estivesse em real perigo, por hora faria tudo com calma, para começar colocou a mascara branca, não podia ser reconhecida.
    Tentando ser a mais silenciosa possível esgueirou-se pelo canto do salão, aproveitando que os dois grandões estavam distraídos em uma discussão calorosa sobre a posição de uma das peças de madeira. Quando conseguiu alcançar o fim do salão, entrou em baixo do palco e de lá engatinhou até que estivesse ao alcance dos calcanhares dos dois, com um movimento rápido puxou as facas da cintura e cortou os tendões acima dos calcanhares, imediatamente os dois homens tombaram de bruços no chão, Sofia saiu do esconderijo e apertou a faca contra a garganta dos monstros de branco, os dois ficaram paralisados com as laminas ameaçando acabar com suas vidas.
    - Onde estão os bebês? – perguntou ela.
    O grandão do lado direito resmungou – Sua vadia, não vamos falar nada, Dominus vai cuidar de você, estará morta assim que Deo chegar.
    A lâminas foram pressionadas com mais força e uma linha de sangue escorreu pelo pescoço.
    - Estão com os fies! – disse o do lado esquerdo em desespero – a gente só banca o segurança, por favor, não me mata.
    - CALADO IDIOTA! – gritou o outro.
    Sofia retirou a faca do pescoço do da direita e com o cabo lhe deu uma coronhada que o fez perder a consciência, enfim, voltou a atenção para o da esquerda. – Continue a falar.
    - Eles separam os bebes, não dava pra manter todos em um só lugar, vai ser hoje ao meio dia, era para ser a noite, mas tiveram que adiantar, todos reunidos... são sacrifícios... para Dominus, nunca foi feito antes, é o maior ritual, eles realmente esperam invocar esse tal Deus hoje...
    - Porque não se livraram dos sequestradores ainda?
    - Eles vão assumir a culpa!
    - Fui atacada fora daqui por alguém hipnotizado, quantos mais há?
    - Não sei, não cuido disso!
    A faca foi apertada mais fundo na carne gorda do pescoço. – Eu não sei, eu juro, sei que são bastante, tem até uns policiais, todos que doaram, e as pessoas doam bastante para essa igreja.
    - Então é provável que se eu ligar para policia vão saber que estou aqui e as crianças somem?
    - Bem provável!
    Sofia fez igual a antes e apagou o grandão com uma coronhada. Amarrou os dois, amordaçou-os e empurrou para de baixo do palco, onde não seriam vistos. Suas opções eram limitadas, precisava derrubar Deo antes de chamar a polícia, procurou pelo lugar coisas que talvez pudessem ser uteis, tomou cuidado o tempo todo, mas felizmente ninguém apareceu, por fim onze horas a portaa da escada se abriram e pessoas começaram a entrar, a menina estava escondida em cima de uma das vigas de ferro do teto junto com as lâmpadas, as luzes estavam viradas para o outro lado de forma que não dava par ver que havia alguém ali, o rifle estava pronto, Deo estaria no palco e seria o primeiro a cair.
    Os minutos iam passando e cada vez mais pessoas chegavam, alguns sem nada, outras com os bebes no colo. Todas as crianças foram colocadas no centro da sala junto com os sequestradores, aparentemente ter o sangue dos recém-nascidos nas roupas dos sequestradores fazia parte do plano.
    Deo foi o último a aparecer, cumprimentava a todos como se não estivessem para sacrificar quarenta crianças em um ritual macabro e insano.
    - Louvado seja Dominus! – disse ele ao se posicionar em seu lugar no palco, todos os fies repetiram em coro, devia ter umas setenta pessoas ali.
    Sofia pegou o celular, pronta a mandar sua localização para a polícia, assim que começasse a atirar ninguém mais poderia impedi-la, bastava um click e a ajuda estaria a caminho, infelizmente um estrondo forte assustou a todos e tomou atenção da garota. Um dos grandões que estava em baixo do palco havia acordado e se debatia feito um peixe fora da água.
    Os fieis se amonturam para tirá-los de lá enquanto outros procuravam ao redor da sala quem fora o responsável por aquilo. Deo parecia furioso, olhava para todos os lados imaginando quem ousaria se intrometer em um dia tão especial, eis que ele viu algo, viu o cano do rifle, viu a tempo de desviar do primeiro disparo, um alvoroço se estabeleceu, todos procuraram um lugar para se esconder e os bebes começaram a chorar em um coro que poderia derrubar um gigante, a confusão só aumentou, as pessoas corriam de um lado para o outro derrubando as cadeiras com os reféns que acordavam desesperados tentando se soltar.
    Sofia apertou o botão de enviar da mensagem e começou a disparar seguidamente os dardos contra Deo que corria de proteção em proteção fugindo dos disparos.
    - ELA ESTÁ NO TETO SEUS IDIOTAS! – gritou ele para seus fiéis.
    Alguém virou um foco de luz para posição da garota, agora todos podiam vê-la, estava exposta, os fieis que já haviam se acalmado começaram a atirar nela coisas que encontravam pelo chão, para sorte da garota todos eram péssimos de mira.
    Dois dos fieis decidiram escalar as paredes para poderem alcançar a posição da atiradora, nesse momento Sofia teve que mudar o seu alvo, derrubar os dois foi fácil, o
    problema é que outros decidiram fazer o mesmo e os dardos estavam acabando, sem falar que Deo ainda estava de pé.
    No centro do salão alguns dos sequestradores soltaram-se das amarras e pareciam estar cientes de sua situação porque não esperaram nem mesmo um segundo para sair dando porrada nos verdadeiros vilões. Deo gritava frases que deveriam ativar a hipnose, mas não funcionava muito, pois assim que alguém recebia um golpe na cabeça voltava ao normal.
    A briga ficava cada vez mais intensa, os sequestradores estavam bem mais irados, contudo estavam em menor número, havia alguns que nem se quer haviam sido desamarrados ainda, sem falar que tinham que sempre levar a briga para longe de onde estavam os bebes, quase ninguém mais se lembrava da menina que começara a confusão, o que fora muita sorte, já que os dardos haviam acabado.
    Deo por sua vez ainda se lembrava daquela pequena criatura, irado com o fracasso do seu plano e notando que sua saída de emergência fora trancada, pôs-se a escalar a parede para derrubar a criança. Ele subia rápido motivado pela raiva, nem esperou estar próximo ao alvo, se atirou agarrando a perna da menina derrubando os dois de cima da viga.
    Sofia ficou pendurada pelas mãos na barra de ferro, Deo estava logo abaixo pendurado em sua perna, era um lugar alto, se caíssem poderiam quebrar muitos ossos ou até mesmo morrer. O padre era bem mais pesado do que aparentava, fazendo com que a garota tivesse que aplicar muita força para não soltas as mãos.
    - O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO PIRALHA?! – gritou o padre.
    - ACABANDO COM UM GRUPO DOENTE DE LUNÁTICOS!
    A garota tentava chutar freneticamente o peso em suas pernas, mas a coisa abaixo dela parecia fortemente motivada a manter-se presa.
    Vendo uma oportunidade única Deo sacou uma das facas que ficavam na bota da menina e cravou em sua perna extraindo um grito de dor da pobre atiradora. Deo retirou a faca e quando estava pronto para mais uma facada a garota soltou a viga, os dois despencaram, o impacto com o chão foi forte, Deo pode ouvir suas costelas quebrando na queda, seus pulmões foram perfurados, sangue jorrou de sua boca, Sofia por sua vez teve a queda amortecida pelo cadáver do padre junto da malha revestida que estava usando, uma ou duas costelas se partiram, ela estava fraca, mancando, mas conseguiu se por de pé encarrando horrorizada o pedaço de carne abaixo dela.
    Os fieis que ainda restavam se desesperaram ao ver a queda do líder, alguns foram nocauteados durante a distração, alguns tentaram correr para fora da igreja, mas os policiais já cercavam o perímetro. Os reféns finalmente controlaram a situação, as crianças continuavam a chorar e depois de tanta baderna ia ser difícil fazer eles pararem.
    Sofia sabia que não poderia estar ali quando a polícia chegasse, teria muita coisa para explicar, sem falar que acabara de provocar a morte de um homem, cambaleou para trás do palco, havia uma porta de fuga que Deo provavelmente teria usado se ela não tivesse trancado antes dele chegar. Antes de sair um dos reféns chamou sua atenção.
    - Quem é você? – perguntou ele perplexo com a salvadora mascarada.
    - Pode me chamar de caçadora! – respondeu Sofia antes de correr para fora da igreja e desaparecer.
  • Café, Rotina e um Pouco de Horror

    Essa sempre foi minha rotina no final da tarde: chegava do trabalho muito cansada, sem coragem até mesmo para usar as chaves e abrir a porta, deixar o café esquentar na cafeteira, enquanto jogava minhas roupas por todo lado da casa e procurava por algum filme na Netflix.
    Filmes de terror nunca me assustaram, mas ver pessoas tomando sustos e entrar em desespero me garantia boas gargalhadas antes de cair no sono. Hoje algo diferente e assustador aconteceu.
    Assim que cheguei e seguia rigidamente minha rotina, na cozinha aconteceu algo que para mim não passava de um acidente doméstico causado por algum descuido. Afinal, é comum que uma pessoa cansada coloque sua cafeteira na beirada da mesa de cozinha e ele caia com o chacoalhar da água fervendo. Pois bem, a cafeteira caiu, tomei um susto, mas ignorei e nem mesmo levantei para limpar o chão, apenas voltei para a TV, mas quando olhei, ela estava na página do YouTube e na caixa de pesquisa, tinha palavras como: demônio, rituais e suicídios. O que me deixou confusa foi o fato de que eu não lembro de abrir o YouTube. Enquanto tentava lembrar em que momento eu havia entrado naquela aba, algo ainda mais estranho aconteceu. Senti um frio na minha nuca, na verdade era como se alguém estivesse soprando em linha reta nas minhas costas, assustada, imediatamente virei sem saber o que procurar, pois estava sozinha e neste mesmo instante sentir um dedo subir por minhas pernas, a parti dos joelhos, em direção a minha virilha.
    Aquilo já era demais, eu tentei não acreditar, queria não acreditar. Corri em direção as minhas roupas espalhadas pela casa e tentei vesti-las o mais rápido possível. Ainda sem terminar de me vestir, com a intenção de sair, dei alguns passos até a poltrona onde deixei o controle da TV e o peguei, mas quando pressionei o botão de desligar, a TV nem mesmo piscava. Aproximei-me para desliga-la manualmente e ainda assim ela permanecia ligada, mas a angustia tomou total controle quando puxei o cabo de energia e ela não desligou, aquilo fez meu mundo desmoronar, não era possível.
    O frio aumentou e eu já podia sentir meus dentes tremer, e não sabia se era de frio ou medo. Olhei ao meu redor e tudo que passava por minha cabeça eram as palavras; suicídio e demônio. Corri até a porta, não queria passar nem mesmo mais um segundo ali dentro, mas antes de sair fui desligar a luz, a luz também não desligava, mesmo clicando várias vezes com muita raiva e isso pareceu dar mais força para tudo aquilo, pois o controle foi arremessado na parede, espalhando-se em alguns pedaços no chão. Senti minha pele umedecer em lágrimas, estava entrando em pânico. Pânico ainda não é suficiente para descrever o meu estado emocional naquele momento e foi por consequência que decidi fazer a única coisa que podia me tirar daquele pesadelo. Peguei garfo todo metálico e fui até a primeira tomada de energia e empurrei-o, eu esperava que fosse instantâneo, nada aconteceu, achei que estivesse fazendo errado e continuei tentando, mas quando percebi que nada aconteceria, eu dei um grito estridente e chorei ainda mais. Ajoelhada e sem esperanças coloquei as mãos nos ouvidos para não ouvir as batidas das gavetas de talheres que havia acabado de começar junto com uma almofada que foi arremessada em direção a janela, não pensei duas vezes quando a segui e pulei para fora da janela.
    Tudo ficou escuro por alguns segundos, seguido por um clarão. Eu estava acordada. Estava confusa. Peguei o controle da TV onde passava o vídeo de um homem com máscara de coelho e parecia contar uma história sobre demônios, quase me distraí, mas quando finalmente pressionei o botão, rapidamente ela desligou. Fui até a cozinha e a cafeteira estava inteira em cima da mesa e o café nem estava fervendo ainda. Mas eu continuava com muito frio!
  • Canção de ninar

    Levantei bem cedo e vi o sol nascer bem lá no finalzinho do horizonte pelas frestas da janela. Fazia um calor tremendo e eu acordei suando mais do que tampa de marmita, não tinha jeito; era levantar e ir direto para o banho. Peguei roupas limpas, a toalha e um sabonete, o meu sabonete; na nossa casa cada um tinha seu item de higiene, tudo por causa de doença, mamãe morria de medo das tais das bactérias que ela um dia ouviu uma voz grande falar de dentro do rádio.
    Não tinha chuveiro, o banho seria num enorme tonel de madeira, o negócio era enorme mesmo, cabia eu e mais duas ou três pessoas dependendo do tamanho. E ali eu me banhava, relaxei na água e quase adormeci, só não o fiz porque mãezinha aos berros me chamou e pelo susto que tomei quase fiz toda água se esvair pelo chão de terra do quintal.
    De machado na mão minha mãe estendeu a ferramenta para mim e também uma xícara de café que tomei num só gole. Lá em casa cada filho era responsável por uma tarefa, a minha era cortar, recolher e transportar a lenha, sem ela era impossível fazer comida ou esquentar água e banho frio ninguém gostava.
    A floresta era cheia de gigantescas árvores, de pedras grandes e de animais assustadores. Às vezes tinha medo de ir, mas precisava. Chegando lá me deparei com algo dependurado em uma árvore, alguma coisa que girava sem parar, ia e voltava. Parei, forcei a vista tentando ver se conseguia descobrir o que era, mas não dava. Então decidi me aproximar e soltei um grito, meu irmão estava ali, com a corda no pescoço, de sorriso no rosto e de olhos arregalados.
    Corri o mais depressa que pude, chegando a casa minhas pernas tremia, minha respiração era agitada e a minha voz não saia de jeito nenhum. O máximo que fiz foi apontar o dedo para uma direção, sair correndo e fazer mamãe vir atrás de mim. Minha mãe, pobre dela, caiu de joelhos, as mãos puxando o avental para enxugar as lágrimas, na garganta um grito preso que seria solto, no peito uma amargura, um sofrimento e um fim sem explicação. À distância vi dois homens cortarem a corda e colocarem meu irmão já sem vida no chão. Vi também minha mãe embalando seu filho mais velho nos braços, cantando para ele uma canção de ninar e lhe dando um beijo no rosto.
  • Celeiro de José

    O dardejar dos raios de sol pressagiava mais uma aurora naquela fazendola no interior agrestino. As sabiás e os bem-te-vis desatavam a cantar e as cigarras já indicavam o castigo solar que vinha. Seu José acordou tremendamente diferente, tinha tido um pesadelo que talvez prenunciasse a algo. Acordou abatido, mesmo assim, não se deixou levar pelas intempéries oníricas, foi metodicamente realizar seus quefazeres cotidianos: ordenhar a vaca, cuidar da ração dos bois e carneiros, alimentar as aves; enquanto isso Maria, sua mulher, estava preparando o café. Quando foram tomar café, maria notou josé muito abatido e questionou-o: 
    —o que aconteceu com você? 
    —nada não mulher. 
    —deixe de enrolação, sei muito bem quando está incomodado com alguma coisa. 
    —deixe de bobagem e vá tomar seu café. 
    —Mas num vou de jeito nenhum. cuide e desembuche logo. 
    —eu já disse 
    — você num disse nada. pois tá bem. 
    e assim maria saiu arretada da cozinha. Durante a tarde, após José chegar da roça, maria notou muito estranho; ele estava escrevendo algo em um papel. Maria ao vê-lo, gritou: 
    —Que danado tu tá fazendo agora? 
    —nada não 
    —endoidou agora. Este matuto tá escrevendo agora. Meu Deus, é o fim do mundo. 
    —não tô escrevendo. Cuide procurar o que fazer. 
    —Vish maria, tá perdendo o juízo. Nem cinquenta anos tem ainda e já tá pirando. 
    Após esse ínterim, Maria foi preparar uma sopa para o jantar. Seu José ainda não saiu do quarto e isso causou novamente um grande incômodo a maria. Ao terminar a sopa, maria pegou uma colher de pau e foi até ele descobrir o que estava fazendo. 
    —O que danado tu tai fazendo zé. 
    —já disse, nada. 
    —cuide, me dê esse papel aí. 
    E maria ferozmente tomou o papel da mão de josé e ficou muito surpresa, ele não estava escrevendo e sim desenhando; desenhou uma espécie de casa. 
    —que diabos é isso agora? você virou desenhista foi? 
    —não! disse ele friamente 
    — e o que é isto então? 
    —já falei que não é nada. 
    —Mas num to cega. Você vai me dizer dum jeito ou doutro. cuide desembuche de uma vez hôme. 
    —Eita mulher para aperrear meu juízo. Isto aí é apenas um desenho que veio na minha cabeça. 
    —pra que tu quer isso? 
    —pra nada. 
    foi quando maria pegou uma vassoura que estava no quarto e ameaçou ele impiedosamente. Ele, temendo levar umas porradas, acabou contando o que estava por trás daquele desenho. 
    Maria ao ouvir, disse que ele estava bem doido mesmo. José calmamente retrucou: talvez! 
    No dia seguinte josé foi coletar madeira para tal projeto e isso deixou maria perplexa. 
    Passaram 4 meses, José estava prestes a terminar o seu projeto. Maria cada dia ficava mais preocupada com a loucura dele. José de tempos para cá, começou a trabalhar incansavelmente, plantando, colhendo, estocando, construindo... 
    Quando por fim terminou seu projeto, não aparentava uma casa e sim um grande celeiro. Ele estocou comida não só para ele como também para seus animais. Os vizinhos acharam josé muito estranho, eles se perguntavam o por quê de tanto trabalhado, e além do mais, para quê um celeiro no sertão. Certa vez, veio uns primos distante até a casa de José, com uma pretensão implícita, eles vieram trazer alguns produtos orgânicos como forma de omitir sua verdadeira intensão: descobrir o porquê dessa construção. Ao passar o dia, eles em uma conversa trivial, acabaram induzindo ao questionamento do celeiro. José disse que era para se proteger contra o frio, e assim, eles discretamente riram, e retrucaram: 
    —Seu zé, de onde é que esse frio virá? Aqui é sertão e o único frio que tem é o da geladeira. 
    José por um momento se omitiu mentalmente, refletindo sobre o seu sonho assustador. Após alguns segundos, ele retornou e disse: 
    — Certa vez tive um sonho curioso. E que me fez fazer isto. 
    — Que sonho, conte-nos? 
    — A terra quente e amarronzada do sertão ficava fria e branca. 
    —Mas zé, ter pesadelos é normal, pesadelos e sonhos são distorções da realidade. 
    —tempos atrás, sonhei durante 2 semanas o sertão morrendo, não pelo calor e sim pelo frio, nos dois últimos dias da sucessão de sonhos, vi uma casa no meio do gelo, era grande e abrigava animais, era o celeiro que fiz. 
    —Zé, aqui é agreste, é até difícil chover, imagine gear . Sertão é seco, nem Antônio estava certo, quando disse que o sertão ia virar mar. E agora vem você, dizendo que vai nevar. 
    —Se não acreditas, não cabe a eu julgar. O que eu tive foi uma visão, que por mais que seja bobagem, a convicção que tenho é que esta estiagem vai dar lugar a uma passagem, em que ninguém ia imaginar. 
    E assim, seus primos saíram rindo, e josé calado ficou, Maria cada vez mais preocupada com José, pensou que ele deva está doente e que o sol quente tenha fritado seu juízo. 
    Em uma noite calma, uma chuvinha fina dançava sobre as telhas. Acresce que, aos poucos essa chuvinha começava a engrossar, e José na cama dizendo que a hora já ia chegar. De manhã cedo, José acordou, a chuva ainda estava forte, pegou um guarda-chuva, e foi até seus bichos guardar no celeiro. Quando voltou molhado, a mulher se arrepiou, pensava ela: será que ele está certo, será que com o dilúvio a neve vai chegar?. Mas tarde a chuva parou e o sol novamente raiou, sem piedades evaporou tudo que na terra foi abençoado. O calor reinou e com isso maria viu que josé estava errado. José não ficou preocupado, disse a maria que no seu sonho, aquilo era um aviso, e mas tarde a neve ia chegar. Passaram semanas, meses, e o sol cada vez mais forte, o sol castigava tudo e todos, a água estava escassa e josé ainda não desanimou. Maria estava com medo de José perder o resto do juízo que tinha com aquela ideia fixa. Após 3 meses do projeto de josé ter sido finalizado, a chuva começava a lavar a terra estéril, o pasto vagarosamente crescia, os animais se deliciavam, as seriemas gritavam anunciando a vida que nascia do solo rachado — era o paraíso. José sempre com a convicção iminente, tinha fé na sua profecia. Os meses foram se passando e a seca foi reinando, tudo que em um momento vivia o apogeu, viu seu declínio sendo devastado com sol... 
    Até hoje os bisnetos de José levam a profecia do tataravô como uma emblema. Quem sabe um dia do sertão o sol se canse, da chuva a neve surja e José fique lembrado como um profeta do passado, que tanto foi criticado, com seu sonho enigmático.
  • Contos de Argalia

    Em minha historia contarei sobre Argalia,um reino majestoso, diversificado , cheio de controvérsias , magia , sabedoria e também muito disputado.Repleto de origens,conspirações e acontecimentos vastos. Marcado especialmente por uma disputa central de dois irmãos que buscam administrar o poder e governar tal terra de riquezas e mistérios e também de personagens admiráveis e fantásticos que buscam desenrolar seus destinos em meio a tantaos acontecimentos,conspirações e façanhas.
    De um lado a sobrevivente herdeira de Argalia Hemileia que almeja conseguir por direito sua parte no trono,do outro Arigann seu irmão um rei tirano que após o falecimento de seus pais,ordenou um massacre a todos os seus irmãos para governar sozinho.Desconhecendo entretanto,por pouco tempo, que sua irmã ainda criança havia sobrevivido,e se tornado uma grande maga guerreira.
    Aqui irei contar a historia acompanhada dos personagens,suas origens,poderes e ambições através de detalhada e épica narração.
    Hemileia A Maga Guerreira - Imagem adaptada por Ramile Veras via Rinmaru games-acension
  • Crack in the Sky

    “Eu me lembro da primeira vez que olhei dentro de um anel. Na mensagem do Whatsapp estava escrito bem assim: ‘O Junior disse que dá pra ver lá da casa dele. Ele tem um telescópio de 60 mm.’ Escrito como se alguém soubesse a importância de ser de 60 milímetros ou não.
    Ok.
    Vamos à casa do Junior.
    Sabe... Quando passou no plantão da globo a primeira vez já deu medo. Todo mundo sabe que se passou lá só pode ser sério. Ninguém falava de outra coisa. Os anéis que surgiram no céu eram o assunto do momento. Mais que Stranger Things, mais que a última temporada de Game of Thrones, mais que vídeos de gatos tocando teclado (isso é famoso ainda?) e mais que The Walking Dead (acho que esse último nem é tão falado mais, não sei. Não sou tão ligado nisso.)
    Cada um tinha sua própria interpretação do que eram os anéis. De verdade? Acho um nome bem idiota! Mas todo mundo chama assim. O Rafael chama de cus do céu. Eu finjo que é babaca, mas por dentro dou risada. Cus do céu é ótimo. Bom nome.
    Então... Quando surgiu o assunto dos anéis a primeira vez todo mundo ficou especulando. Mas não parecia nada de extraordinário. Talvez algum fenômeno meteorológico ou algo parecido. Parecia um anel feito de nuvens. Uma circunferência perfeita, inabalável e impassível. Talvez fosse uma forma embrionária. Eram vários e de vários tamanhos e só. Sem novidade alguma por exatos 7 dias.
    Daí veio o primeiro plantão da globo. Talvez esse tenha sido o evento de comoção global mais abrangente que já existiu. Estava pensando nisso outro dia. O Léo disse que era a copa do mundo e eu até concordei por um segundo. Depois voltei atrás. Eu mesmo não gostava de futebol. Copas não me comoviam. Mas com os anéis não tinha essa de gostar ou não. Eles estavam ali pra quem tivesse olhos que enxergassem e pescoços que inclinassem para trás possibilitando uma visão clara do céu. Acho que a parcela da população mundial que se enquadra nesses requisitos é maior que a parcela que gosta de futebol.
    Enfim... Na TV estavam dizendo que era possível ver o outro lado dos anéis. Alguns eram bem grandes e eu realmente não sei se conseguia enxergar algo. Parecia tudo muito borrado. Mas com toda a certeza não eram halos gasosos ou círculos de nuvem como outrora pensei. Havia algo no meio dos anéis no céu. Lembro que religiosos ficaram em polvorosa e dizeres apocalípticos viraram trending topics no twitter num misto macabro de memes e pessoas verdadeiramente assustadas. Tudo isso durou mais 7 dias.
    Quando veio o segundo plantão houve uma dicotomia emocional. Uma mistura de excitação científica por parte de uma galera mais racional (que andava sumida diante da irracionalidade dos acontecimentos) junto com os mesmos arautos do capeta que bradavam o fim do mundo em coro uníssono. Nos anéis maiores eu realmente consegui ver algumas coisas. Uma graminha, um oceano talvez, umas casinhas.
    Na TV disseram que cada anel mostrava exatamente o que estava acontecendo em outra parte do mundo. Exatamente! Alguns amigos da Universidade não conseguiam conter a adrenalina em posts de facebook e afins. Pipocavam teorias acerca de buracos de minhoca e similares. Foi bem legal! Confesso. Eu tenho agonia de voos longos. Quando apresentaram a possibilidade de uma viagem de 20 horas passar a ter menos da metade porque iriam cortar caminho por um anel assim que mapeassem todos eu realmente fiquei feliz!
    Se eu que sou totalmente ignorante na arte das manjadas saquei que o ciclo de ação desses anéis é de 7 em 7 dias, com certeza isso já havia sido percebido pelo alto escalão que estava pesquisando os anéis.
    Pois bem. De 7 em 7 dias parecia que a nitidez dentro dos anéis aumentava. Começou como um borrão e em 49 dias veio o terceiro plantão na TV. Basicamente alertando para o fato de que os anéis pareciam telas 4k de setenta bilhões de polegadas suspensas por mágica. No meio desse tempo fomos à casa do Júnior pra olhar para os anéis por um telescópio. Era sinistro! Você olhava pra cima, mas parecia que estava olhando pra baixo. Vimos pessoas, casas, florestas, oceanos, montanhas. Tudo! Perfeitamente! Era incrível à noite também, porque os anéis dos locais no mundo onde era dia iluminavam completamente a noite desse lado do mundo! Mas não chegava a parecer dia. Só iluminava muito bem. Um espetáculo visual! Fiquei viajando pensando que se todo mundo tivesse telescópios seria fácil se comunicar em tempo real, daí lembrei que tem a internet.
    De qualquer maneira... Acho que era para ter acontecido um quarto plantão na TV. No sexagésimo quarto dia. Mas nem rolou. Aqui desse lado do mundo estava de noite e, parafraseando o meu amigo Márcio, parece que a terra rachou no meio. Eu nunca ouvi um barulho tão alto. Já faz 6 dias e eu ainda não escuto nada do lado esquerdo. Acredito ter perdido a audição de maneira permanente. Doeu muito e sangrou. Todos os vidros de casa quebraram. A tela das TV’s também. Os vidros dos carros também. Celular, notebook, tudo. Fiquei sabendo que uns 8 cachorros na rua morreram depois. Ta todo mundo bem assustado. Ainda tem luz, mas está bem fraca. Internet não tem mais, nem telefone. A gente tentou ir ao shopping lá na capital, mas a BR tava bloqueada hoje. A mãe do Júnior trabalha na esplanada e disse que liberaram todo mundo no dia depois do barulhão. Ninguém tem contato com ninguém. Nem telefone, nem internet em lugar nenhum lá.
    Depois do barulho vários anéis ficaram negros. Não negros como a noite. Sei lá... Nem como a noite mais escura que já vi. Não sei explicar. Tentei tirar uma foto, mas não funciona. O Rafael disse que jura que viu um pássaro voando perto de um anel que ficou negro e foi chupado pra dentro. Achei que ele tava viajando, mas faz sentido. Porque desde ontem todas as nuvens tão meio que em espiral. Como se os anéis fossem ralos de uma pia e as nuvens a água caindo pra dentro do ralo. Nos anéis que não estão negros tem um monte de coisa. Em muitos tem uma galera junta como se fosse uma manifestação. O Junior disse que olhou pelo telescópio um anel e tinha muita gente com placas com KONIEC SWIATA bem grande nelas. Ele anotou pra procurar quando a internet voltar.
    Faltam uns 2 minutos pra chegar o próximo sétimo dia.
    Vou só comer e volto a escrever aqui. Eu não como já faz uns...”
    Fim.
  • DAS MESMAS VEZES

    A voz abriu a janela com furor e pudor, como se não quisesse fazer barulho. Porém, com o impacto insano dos próprios gestos embaralhados, desconcertados e desengonçados fez-se o estrondo sem querer. Havia o intuito de perturbar, de estilhaçar e por fim de fazer não viver. A voz sugava a alma da moça deitada na cama, quase que desfalecida. A voz que não se importava com a tortura agoniante dos ossos que se contorciam rapidamente em uma expulsão do próprio espírito. A voz que não era dos cabelos negros que estavam embalando o travesseiro em um abraço meio "graceiro", benéfico. A voz acariciou o pescoço nu da jovem imóvel. Fez-se um calafrio. Em um estupefato movimento do vento insone, a vocalização perdia-se no deserto frio da alma. A moça pestanejou, fez rangir os dentes, ignorou o grito de socorro estridente. Acordou, já era manhã. E, logo que se ergueu pela janela para contemplar o sol escaldante, a vista foi atingida com a dor do morto que a olhava com pupilas saltitantes. "O grito era dele!", exclamou. Agora não era mais. 
  • Descoberta

    Capítulo 1
    Estava eu a procurar uma camisa no guarda-roupas do meu quarto, quando me dei de cara com um objeto um tanto rústico para o restante das pessoas que procurava há séculos — talvez fosse exagero meu —, meu cordão com uma pedra ônix fazia quase parte de mim, e estava aflito com medo de especular a possibilidade de tê-lo perdido para sempre, mas finalmente o encontrei. Passava das oito horas da manhã e já estava bem atrasado para a aula em minha escola. Certamente não desejaria levar mais uma advertência em menos de uma semana por falta de pontualidade nas aulas do senhor Janet.
    Janet era meu professor de literatura e era caçoado dos demais estudantes pelo simples fato de seu nome ser dito feminino, mas justificara isso, pois seu pai assistia muitos filmes quando mais novo, lia bastante e se deparara com um série de livros cuja a protagonista era uma mulher chamada Janet e se encantara pela mesma, prometendo a si mesmo que homenagearia a mulher colocando seu nome em seu primeiro filho, fosse homem ou mulher. Deu no que deu.
    Mais tarde, pelo meio da aula de literatura me veio na cabeça algo que havia esquecido de fazer - eu realmente estava tenso naqueles dias e necessitava de férias, caso o contrário precisaria de remédio controlado, a não ser que eu quisesse enlouquecer — Sei que tinha prometido algo a meu amigo Ferdinando e era algo de suma importância para o mesmo, mas nem com todo o esforço do universo eu conseguira me lembrar. Peguei-me em divagações quando fui chamado atenção pelo meu professor, que pedira pronto para me ferrar que eu me dirigisse para frente da turma e fizesse uma breve síntese do próximo livro que íamos ler com base em suas palavras — mas eu não havia escutado nada — sem alternativa acabei por afastar a carteira e segui como seu terrível plano de me ferrar — estava realmente paranoico, pois aquele era meu professor e minha aula preferida — quando cheguei à frente daquela turma que por incrível que pareça estava posta com toda a atenção deles ligados em mim, olhei com um impulso para o relógio de ponteiros pregado na parede e suspirei de alívio imperceptivelmente. A sirene tocou, salvo pelo gongo pedi desculpas ao senhor Janet e ele não aceitou assim tão facilmente, me deu um livro que até então nem sabia o título para que lesse em uma semana e apresentasse um resumo na frente da turma sem consultá-lo. Fui pego de surpresa, pois apesar de amar ler, eu certamente perderia toda a sanidade que restava em meu ser se me compromissasse com mais alguma coisa nesse final de semestre, porém não tinha opção. Era isso ou zero, e a nossa amizade não tinha o menor peso dessa vez.
    — Senhor Janet! O senhor quer me enlouquecer de vez?! Acha que não tenho o que fazer?! Acha realmente que só tenho as suas coisas pra dar conta?! Perdoe-me a grosseria, mas suas aulas não são as únicas nessa escola! — Bombardeei-o de forma impaciente e impulsiva.
    — Meu jovem, já se acalmou? — Perguntou rindo — Olhe só, eu entendo pelo que está passando…
    — Não parece! — Exclamei interrompendo-o.
    — Sei que está sobrecarregado, e com isso nem reparou no livro que lhe entreguei. Creio-me que será mais uma diversão do que um trabalho — falou ele virando o livro em minha mão deixando à mostra a capa que me saltou aos olhos.
    — Não estou acreditando que é sussurro?! É meu sonho lê-lo desde quando saiu o prólogo! — Falei animadamente erguendo o livro contra o sol que saía pela janela em uma ação ridícula que só reafirmava a demência que as várias tarefas inacabadas da minha vida estavam me causando. Dei de ombros para a minha própria loucura e agradeci a meu professor por me proporcionar a realização dessa leitura.
    — Sei que você queria ler esta série e estava sem dinheiro para comprá-la, então, como sei que é um bom aluno, resolvi adicioná-la em minha ementa das obras literárias de contos fictícios para que você tivesse essa oportunidade. Mas me prometa que vai agradecer ficando mais atento em minhas aulas — falou Janet de forma preocupada e singela em minha direção.
    — Está bem professor, me perdoe… Talvez esse livro me faça bem, ou me enlouqueça de vez — pensei — Bom começo de tarde ao senhor e até próxima aula — Janet assentiu com a cabeça e vi que a conversa havia terminado, então saí em direção ao corredor e só aí me lembrei de que Ferdinando não tinha vindo à aula, com esse relance levei à mão a testa e lembrei-me do favor que tinha que fazer ao meu amigo. Teria eu que dizer ao professor de literatura que o mesmo tinha ido ao hospital visitar seu tio que tinha sido atacado por homens há umas cinco noites e tinha sido agredido friamente, fazendo com que ele fosse levado para a UTI no centro da cidade as pressas. Enquanto andava pelo corredor me lamentando da minha falta de memória, passei em frente ao meu armário e resolvi pegar meu guarda-chuva, pois sei que o tempo incomumente esfriara e certamente choveria. Aproveitei e juntei os livros que estavam amontoados no meu armário e coloquei-os dentro da mochila preta com amarelo que eu ganhara de aniversário de dezessete anos — eu ainda era considerado um bebezão para toda minha família — fechei o zíper que prendeu em uma página de um dos meus livros, rasgando-a, e desejei amaldiçoar toda a família do zíper até a sua quinta geração, mas lembrei-me que não passava de um zíper. Abri novamente a mochila e soltei um suspiro profundo de alívio ao observar que era um livro de matemática e não um dos livros de literatura —não gosto de matemática, apesar de me dar superbem na disciplina — fechei novamente a bolsa e me dirigi até a saída central da escola.
    Meu colégio era enorme, e apesar de ser um prédio que foi construído em meados do século XIX, era bem conservado, por todos, e o Estado tinha um apreço maior ainda por ele, pois no passado o mesmo fora casa de um imperador que veio de Portugal se apossar dessas terras — que já tinha donos —,mas na verdade o que eu sei sobre esse tal imperador português é que ele não passava de um homem que foi destituído de seu cargo e se obrigou a fugir para o mais distante de Portugal para não ser morto pelos homens que lhe haviam usurpado o poder na época, e sinceramente não sei o porquê, mas essa história me perturbava. Minha escola se encontrava no coração da cidade próximo a um bairro rico que era conhecido por ser boêmio e esse tipo de coisa. Ela tinha seu nome em alto relevo na fachada escrito com letras maiúsculas IMPERADOR MIRIEL I de forma imponente como se quisesse exaltar a figura de tal homem. Era um palácio enorme com várias salas construídas com materiais da época, com incríveis quatro andares e um terraço logo acima, no qual se realiza palestras de extrema importância para a instituição, com uma paisagem lindíssima, que dava uma visão privilegiada para toda a cidade. O colégio ainda não tinha sido reformado e corria o risco de ser tombado como patrimônio histórico e cultural estadual — não conheço nada sobre essas ações, mas tinha em minha cabeça que se isso acontecesse eu precisaria mudar de escola, e apesar de tudo não queria que isso chegasse a acontecer. Gostava daquele espaço.
    Eram quase duas da tarde quando recebi várias mensagens de Ferdinando no WhatsApp, enquanto eu estava deitado pronto para abrir meu livro novo. A priori tomei um susto, mas me recuperei de forma imediata e desbloqueei meu Samsung preto desbotado que pedia outro. Observei as mensagens, na qual meu amigo me convidava para ir dormir em sua casa a noite, pois seus pais iam visitar seu tio Nathanel no hospital e não voltariam antes do meio dia da manhã seguinte. Ferdinando era filho único, mas odiava ficar sozinho, mas mesmo assim seus pais saíam muito, principalmente a trabalho. Posso dizer que sua família não era rica, mas passava longe de ser pobre. Classe média alta. Fui até a cozinha onde se encontrava meu pai e meu irmão mais novo de 16 anos e pedi a ele permissão para dormir na casa de Ferdinando e expliquei a situação, e ele assentiu positivamente com a cabeça.
    — E mamãe, será se ela deixa eu ir dormir na casa dele? — Perguntei a meu pai de forma preocupada.
    — Não se preocupe Arthur, eu converso com ela, certamente não implicará com isso, ela nunca se importou em você dormir fora, principalmente se for na casa de Ferdinando — Falou meu pai, me tranquilizando. Vi que meu irmão só observava nosso diálogo atentamente e percebi que queria que eu o convidasse para ir comigo, assim o fiz.
    — Felipe, deseja ir comigo? — Perguntei de maneira convidativa, olhando em seus olhos.
    — Ah, não se preocupe meu irmão, já tenho planos para essa noite. Já pedi até papai e mamãe, e eles já deixaram. Vou a minha primeira festa com meus amigos e estou ansioso por mais tarde. Ia até lhe chamar para ir comigo, mas vejo que já têm planos também — Respondeu ele animadamente.
    —Sendo assim, divirta-se! — Desejei a Felipe, saindo da cozinha em direção à sala onde estava meu celular para responder Ferdinando.
    Felipe é um menino animado, negro de pele clara igual a mim. Uns cinco centímetros mais altos que eu, consegue me humilhar parecendo mais velho. Um rapaz bondoso e superprotetor. Aparenta ser ingênuo, mas só aparenta. Tem mais iniciativa do que eu. Ele certamente me supera em tudo, mas não sinto inveja. Não sou de se jogar fora.
    Respondi Ferdinando, e combinamos que eu chegaria a sua casa às sete horas da noite. Bom, era melhor eu me apressar, pois só faltava uma hora e eu demorava muito. Meu pai sempre me dizia em tom descontraído que eu quando fosse me casar, atrasaria mais que minha noiva. Mas quem disse que eu queria ter uma noiva?! Fui até meu quarto, peguei minha toalha cinza e entrei no banheiro. Tirei minha roupa, e a pendurei no vidro do box. Depois de uns dez minutos me enxuguei e corri até o quarto para trocar de roupa. Abri a gaveta, peguei uma cueca boxer branca e uma camisa preta, um short branco e joguei em cima da cama. Lembrei-me que precisava levar outras roupas, já que ia dormir fora. Peguei minha mochila na parte superior do meu guarda-roupa cinza e tirei cadernos e canetas de dentro dela. Joguei-a em cima da cama, e então peguei uma blusa azul marinho e um short preto, e uma cueca do mesmo modelo de cor vermelha, então fiz o mesmo. Olhei para o relógio e decidi rapidamente qual das duas opções de peça eu escolheria para ir vestido. Optei pelas últimas que havia colocado sobre a cama, então as outras roupas prensei entre os livros dentro da mochila. Dei mais uma vistoriada e tirei os livros didáticos, deixando só os literários.
    — Agora sim, mais espaço! — Sussurrei comigo mesmo. Fechei definitivamente a bolsa, destranquei o quarto e sai correndo pela casa. Parei em frente a mesa de centro da sala e peguei minha carteira que havia esquecido lá em cima. Peguei o celular e avisei que estava saindo de casa para Ferdinando. Ele me respondeu e disse que eu telefonasse quando chegasse perto do portão do seu condomínio. Apesar de eu já ter ido à casa de Ferdinando inúmeras vezes, o porteiro insistia em não me conhecer, então tinha que realizar todo um ritual que eu já estava cansado para que o mesmo liberasse minha passagem.
    Saí correndo da minha casa que ficava perto do centro de Colina em direção à parada de ônibus mais próxima. Dei sinal para o único que me levava o mais próximo da casa de Ferdinando. Paguei minha passagem ao cobrador e passei a catraca que fez um barulho estridente que fez com que todos do ônibus focassem os olhares em mim. Fiquei constrangido, mas logo me coloquei de costas para todos me apoiando em uma barra de ferro suspensa de forma horizontal para os passageiros que não tiveram a sorte de conseguir cadeira. Desloquei minha mochila das costas para minha barriga, e então fiquei em pé, esperando que eu chegasse logo ao meu destino. Ao passar das duas primeiras paradas várias pessoas que estavam em pé desceram na Avenida 3, na quarta parada duas moças que estavam sentadas nos bancos a minha frente se levantaram e deram sinal para descer do coletivo. Aproveitei e me sentei. Três segundos depois ouvi a catraca estalar como a vez que eu passei, mas não olhei para trás. Um homem que aparentava ter uns 22 anos, negro de pele clara, com músculos definidos — mas não denunciava a prática de academia —, cabelos negros e olhos castanho-claros, vestindo uma camisa de manga longa de cor acinzentada e short branco e chinelo branco, pediu licença de forma fria, porém educada para sentar ao meu lado. Afastei-me para o banco próximo a janela e ele sentou-se próximo a mim. Encaramo-nos por dois segundos, mas eu desviei o olhar, pois me senti acuado com tal situação. Olhei para fora da janela, observando aquela multidão de carros em fileiras. Já passara das sete da noite e só estávamos um pouco mais a frente da metade do caminho.
    Desfoquei minha vista dos carros e desloquei-a até o outro lado da avenida. Olhando para o vazio, eu via o tempo passar. Quase hipnotizado pela escuridão que ali estava no outro lado da pista. Saí do transe quando senti um leve toque em meu ombro que o apertou, eriçando os pelos do meu corpo — talvez pelo susto. Olhei rapidamente para o lado de onde vinha o aperto e vi que era o rapaz de camisa cinza que havia me tocado. Percebendo a minha reação ele me acalmou.
    — Acalme-se rapaz, eu só preciso saber a hora — Falou o garoto rindo da minha reação de forma descontraída, tentando me tranquilizar. Os cantos de sua boca se levantaram, mas sua reação não era muito convidativa. Aqueles olhos me fitavam de tal maneira que chegava a me perder em meus pensamentos. Os círculos cor de mel me prenderam facilmente como em um labirinto no qual eu não saberia o caminho de volta. Talvez eu só estivesse de paranoia mais uma vez. Fiquei olhando para ele imóvel, quando recebi um estalo com os dedos diante dos meus olhos, me fazendo cair na real.
    — Oh, me desculpe, desculpe mesmo. São sete e vinte — Falei olhando para meu celular. Ele sorriu como forma de agradecimento, e por um momento lhe vi observando-me de cima a baixo. Fiquei muito assustado com aquilo, mas contive minha reação. Guardei meu celular no bolso e voltei meu olhar para a janela novamente.
    — Você não sai muito à noite, não é? Parece muito espantado com toda essa situação simples do cotidiano das metrópoles — Fiquei surpreso com o comentário. Um rapaz desconhecido estava querendo bater papo comigo? Estava com um pé atrás com a ocasião que se desenvolvera, mas coloquei em minha cabeça que só era mais uma paranoia que minha mente atarefada criara no meu cérebro. Afinal, não tem problema algum em eu conversar com um cara, ou quem quer que fosse em um ônibus a noite. Tinha muita gente, e eu não era mais criança. Aquela história de não falar com estranhos talvez já estivesse vencida quando completei 15 anos de idade. E outra, dali a conversa não passaria. Eu desceria na minha parada, ele na dele, e não nos veríamos mais. Simples. Só uma simples conversa.
    — Bem… Não é que eu não saia a noite — eu raramente saía — é que estava perdido em meus pensamentos, refletindo sobre as várias tarefas de conclusão de semestre que tenho que fazer e outras coisas que me afligem no momento. É.… e também porque a droga desse ônibus está demorando muito chegar à minha parada — Respondi ao rapaz, tentando explicar a minha situação.
    — Hum… Sei bem como é. Onde você vai descer? — Perguntou ele a mim, com a voz baixa. Hesitei em responder, mas não queria parecer grosseiro.
    — Vou ao bairro Limoeiro, para a casa de um amigo — Respondi certo de que ia me arrepender.
    — Que ótimo então. Também estou indo para lá. Desceremos na última parada da Avenida 3, poderíamos ir juntos até lá. Teremos mais tempo para conversar — Gelei imediatamente, e queria me matar pelo fato de que diria eu avisei para mim mesmo, mas esbocei um sorriso falso como quem estivesse gostado da ideia. A verdade é que tinha muito medo. Medo não do garoto em específico, mas medo de qualquer pessoa que pudesse me atacar. Agredir-me pelo simples fato de ser quem sou. No caso, todo mundo. Na escola, as pessoas me conheciam como o moleque covarde, e muitos caras me metiam medo. Geralmente, eles são bem maiores que eu, o que intensificava a minha insegurança. Mas resolvi me acalmar, mesmo estando à mercê de um estranho, eu tinha uma vantagem. Ele não me conhecia.
    Caminhávamos pela rua que dava acesso ao Limoeiro, por baixo de um viaduto que era decorado por pichações ilegíveis. Estava extremamente escuro. Apenas andávamos vacilantes à luz de alguns postes com lâmpadas incandescentes. Algumas pessoas nos acompanhavam, pois haviam descido do mesmo ônibus. Apenas desconhecidos, mas mesmo assim me sentia seguro, pelo fato de ter um número relevante de pessoas. Acalmei-me. Estava de demência novamente. Era só mais um amigo que eu pudera fazer. Fica sossegado, pensei.
    Chegamos à parada a qual eu deveria pegar outro ônibus em direção à casa de meu amigo. Já era quase oito da noite e estava extremamente atrasado, como sempre, impontual. Não trocara mais nenhuma palavra com o rapaz que eu acabara de conhecer, e nem ao menos sabia seu nome. Foi tudo estranho. Aleatório, mas não me importei mais. Meu ônibus chegava próximo e me despedi do carinha que continuava ao meu lado, me olhando, mas sem nenhuma expressão no rosto.
    — Esse é o meu ônibus, tenho que ir. Prazer em conhecê-lo! — Comentei apontando para o coletivo que se aproximava enquanto estendia a outra mão para cumprimentá-lo em despedida. Ele sorriu, mas não apertou minha mão. Reagi surpreso, mas dei sinal e subi. Sem entender nada que se passou dentro do coletivo que pegara perto de minha casa até agora, passei a catraca e sentei-me na primeira fileira. Olhei para a janela e o rapaz já não estava mais na parada. Me arrepiei, mas logo justifiquei o fato de seu sumiço instantâneo. Talvez tivesse ido comprar algo, ou atravessado a avenida. Desviei o olhar e esperei até que chegasse ao condomínio de Ferdinando.
  • Devoradores de corpos

    Senti o cheiro amargo e azedo da carniça e vi no céu uma revoada de pássaros negros, eram urubus. A poucos quilômetros de onde estava, uma criança de vestido comprido, e com um grande ferimento na cabeça achava-se morta na beirada de um riacho cercado por belas árvores e pedras grandes. Lá também havia uma enorme cachoeira onde as águas desciam as rochas como um véu de noiva.
    Era impossível saber como aquele corpo apareceu ali; se por causa da correnteza ou trazido pelos braços de algum mal feitor. Naquele lugar o silêncio só era interrompido pelo barulho dos pássaros e pelo vai e vem de águas revoltadas e também pelos urubus que sobrevoavam durante o dia a procura de alimento. Há abutres malditos, que esperam calmamente por suas presas, e que comem suas entranhas e seus olhos deixando apenas os ossos. São devoradores de corpos. Costumeiramente se alimentam com restos de outros animais, entretanto, desta feita, a refeição seria uma criança.
    Pousaram sobre ela e em uníssono soltaram um grite estridente. A partir daquele instante ninguém podia se aproximar sobre o risco de sofrerem as consequências. E lá permaneceram por mais de hora, comendo os olhos, a carne e bicando a pele, na tentativa de rasga-la e devorar com mais facilidade suas entranhas.
    Já era possível ver os ossos, de um vermelho escurecido misturado com um roxo parecendo um hematoma. Depois de devorado, o que havia sobrado ficava abandonado aguardando a natureza fazer o resto.
    Dias se passaram e ninguém reclamou do corpo. Família alguma foi até as autoridades se queixando de ter uma filha desaparecida. Em anos vivendo nessas terras jamais ouvirá falar de humanos sendo devorados por essas aves. Eles sempre se alimentavam com os restos mortais de outros animais, mas comer uma criança? Eu não quero mais pensar nisso, só de lembrar eu sinto calafrios e fico com as mãos suadas de tanto medo.
    Mas esses urubus nada fazem, são inofensivos. A função deles é de limpar a natureza dos restos, mas um ser humano, ainda mais uma criança, não pode, sobe hipótese alguma, ser considerada como uma sobra, o nome que quiserem colocar nesse absurdo. Minha preocupação não é apenas com essas aves. Fico aflito só de imaginar como essa menina foi morta. Ela pode ter sido abusada sexualmente por alguém. Deus do céu, em que mundo nós estamos? Não existe mais respeito, nem por uma pobre e indefesa criança?
    Eu decidi voltar para o recanto dos urubus. E lá estavam eles, com aquela postura imponente, com o pescoço erguido e os olhos brilhando. Não havia mais corpo, restavam ali somente ossos e um cheiro insuportável de podridão. Por que diabos eu tinha de ver aquilo? Dava-me ânsia só ter de ver todos aqueles ossos.
    Os urubus saíram voando e só retornariam quando surgisse algo novo para comer e não demorou muito para isso acontecer. Dessa fez foi o corpo de um menino, sem camisa e de calças, sem sapatos, calçando somente meias; um dos pés estava furado no calcanhar. Como já havia escurecido nenhuma ave por ali pousou, mas elas ficavam em total vigília. Caso alguém se aproximasse e ousasse tirar a refeição elas atacariam e matariam se fosse preciso.
    No dia seguinte eu despertei com o sol atingindo meu rosto, tentei me proteger com o braço fazendo sombra, mas foi em vão, o brilho estava muito forte. Eram exatamente dez animais, todos enfileirados. Um a um eles foram levantando voo e pousando diretamente no corpo do menino. O primeiro bicou forte e arrancou um pequeno pedaço da carne; dava para ver nos olhos daquele monstro a satisfação. Aos poucos os outros foram se aproximando, pousando e bicando. Não sei dizer direito, mas acho que aquilo nunca mais pararia, pois ali estavam os legítimos devoradores de corpos.
  • Dois. Capítulo dois de seis

    Capitulo dois
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         Os dois entraram na mansão, o jardim era imenso, com muitas árvores. Até chegar a casa foi um longo caminho, pois entraram se escondendo de planta a planta.
         -Após o crepúsculo rondaremos a casa sem sermos vistos!
         -Concordo que ir agora seria entregar o jogo. Coutinho estava mais com medo que Zé, ou menos seguro. - Porque será que eles roubaram o dinheiro, e como souberam?
        -Só sei que o pegaremos de volta e entregaremos no prazo! O nariz de Zé estava empinado quando proferiu isto.
    Pararam na árvore mais próxima do casarão e por ali ficaram a tagarelar de vez em quando.
         -Aí minha mulher! Coutinho começou a repetir e desta vez isto apoquentou Zé que passou a perceber tal coisa e não parava de repetir até que Zé perguntou:
         -Porque tu tanto pensas em sua mulher?
        -É que se perdermos o emprego minha mulher vai se sentir muito mal, tanto que ela desejou que eu me empregasse e tivéssemos um pingo de sossego. Nós não vamos perder nossos empregos era o que Zé acreditava e o disse.
         A noite caiu os dois desceram da árvore e de fininho rondaram a casa até pararem em uma das janelas onde viam o casal de ladrões e após ouvi-los por um tempo Coutinho soltou estas palavras:
         -O faxineiro é o ladrão!
       -O estranho é ele morar nesta mansão, não acha? Zé referiu a pergunta a Coutinho e foi como se fosse para os ladrões, pois a conversa deles chegou à resposta para este assunto:
         -Finalmente não precisarei trabalhar como um escravo, dês de que perdi o meu emprego milionário trabalhei como um cachorro para não termos de vender esta mansão, tivemos que despedir vários empregados, mas a sorte nos bateu! Disse o ladrão, na conversa que parecia ser para sua mulher, ou seja, eles eram realmente um casal e ex milionários.
       -Isto explica porque não há vigias neste lugar, isto facilita nosso trabalho, temos que encontrar onde eles guardaram o dinheiro! Ficaram a escutá-los por bastante tempo, mas de nada serviu para seus propósitos.
         -Foi como o planejado, e olha que não tivemos muito tempo. A mulher comentou e ouviu:
       -Sim o dinheiro é nosso! Os seguranças rondaram a casa, mas ainda com cuidado, pois poderia sim ter alguém de olho por ali.
       -Sairemos daqui como vimos sem sermos vistos. Zé estava certo, devido este ser seu trabalho, ouviu bem do chefe. Pegariam o dinheiro de volta e o entregariam no prazo. Tinham tempo, conheceram o lugar de cabo a rabo e ainda na noite voltaram à árvore mais próxima do casarão e Zé dizia-se cansado, exausto, tinha que tirar um sono foi vencido pelo cansaço. Coisa que os dois fizeram e logo o sol nasceu. Depois Zé acordou ouvindo o bom dia de Coutinho que também disse apontando para baixo:
         -Olha eles colocaram uma mesa, vão tomar café ao ar livre, vê só que chique eles são!
         -Acordou faz tempo, porque não me acordou?
         -É que cai daqui e a pancada doeu. Coutinho tinha a pouco caído da árvore.
       -Alguém te viu? Zé quis saber assustado e o amigo o confortou dizendo que ninguém o notou. Com o alivio Zé comentou:
         -Bom, daqui podemos ouvi-los e assim podemos descobrir onde esta o dinheiro.
       Os ladrões chegaram, estavam sendo servidos por uma empregada, esta talvez tivesse trabalhando para eles sem receber, seria alguém de confiança Zé pensou e continuou a assistir com muito interesse.
         -Com este dinheiro vamos poder voltar a contratar pessoas e criar um meio de renda, que nos mantenha nas condições ao qual estamos acostumados.
         -E em fim poderemos ter nosso filho, tanto, tanto desejado. A mulher proferiu e ao repetir a palavra que repetiu isto emocionou Coutinho, os dois agora sabiam que aqueles dois agora miseráveis tinham uma historia e uma das boas.
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    Veja a seguir o capítulo três.

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