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  • A Anti-Musa

    A válvula da panela girava, a cozinha suava vapor de sopa quente. Cheiro de temperos no ar. O sol lá fora mal entrava pelas janelas veladas com cortinas grossas. O resultado era um cômodo abafado e entregue à penumbra. Uma mulher estava sentada à mesa, diante de um rádio antiquado que ressoava um samba triste. No entanto, não parecia estar atenta aos apelos do sambista, tão pouco à panela ao fogo. Na verdade, ela parecia nem estar presente mentalmente. Em uma espécie de despersonalização, seu olhos arregalados encaravam o azulejo encardido das paredes, mas seu espirito poderia muito bem estar vagando pelo plano astral.
                    “Catatonia: Perturbação do comportamento motor. Geralmente envolve uma posição rígida e imóvel que pode durar horas, dias ou semanas. (E...) A história nos conta que, nesses casos, um doente poderia ser enterrado ainda vivo (!), tamanho seu estado de inércia. (...xaus…) Dentre as condições médicas que podem causar o estado catatônico estão:  esquizofrenia; depressão; derrame cerebral; entre outras condições neurológicas e psiquiátricas. (...ta.)”
                    Alguns minutos ou algumas décadas se passaram...
                                                                                                              *****
    ...e então, subitamente, a mulher deu um pulo na cadeira em que estava. O acontecido pareceu ter impressionado a ela própria, piscou rapidamente repetidas vezes e olhou em volta, como para desvendar em que lugar se encontrava. Seus olhos vagavam pela cozinha, viu a janela encoberta; um armário empoeirado, com portas escancaradas; louças usadas, empilhadas sobre uma pia de mármore; seu velho rádio que ainda tocava alguma música qualquer; uma geladeira pequena, azul turquesa e na porta da geladeira estavam imãs em formato de frutas e legumes. Dois desses imãs mantinham presa uma fotografia, quando os olhos da mulher finalmente se encontraram com os olhos desta foto, o olhar se alterou – passou de apático à revoltado.
                    “(Eu sou um monstro!) Transtorno dismórfico corporal, historicamente conhecido pelo termo dismorfofobia. (Minha pele é seca, meu cabelo é crespo, meu nariz é comprido, meus lábios são muito finos...) Trata-se de um transtorno psicológico caracterizado pela preocupação obsessiva com defeitos mínimos ou imaginários na aparência física. (Eu devia ser colocada em uma jaula...)”
                    O surto perdurou por horas ou séculos.
                                                                                                              *****
    A mulher agora estava sorrindo. No chão, uma fotografia despedaçada coberta de cacos de vidro. Na porta da geladeira, uma mesma imagem encontrava-se intacta, presa pelos mesmos dois imãs. A mulher caminhou até o fogão, a panela chiava incansavelmente.
                    “(O trem! Por Deus, vou perder o trem....) Alucinações auditivas, sinal de esquizofrenia. (Tenho que apanhar o trem!)”
                    A mulher, de maneira impulsiva, agarrou a panela fervente, suas mãos arderam no mesmo instante e vacilaram. A panela despencou no fogão aceso.
                    “(Ai... Como está gelado...) Alucinações sinestésicas, sinal de esquizofrenia.”
                    O rádio sobre a mesa iniciou uma canção que pareceu alegrar a mulher. Uma bossa nova lenta a fez arriscar pequenos passos de uma dança confusa. Enquanto dançava, alguém tocou seu ombro.
                    - Oh, Tom! Como é bom te ver.
                    - Me concede a honra desta dança, madame?
                    Agora ela dançava abraçada com seu par.
                    “Alucinações visuais... Um sério sintoma de pessoas esquizofrênicas. (Sabe, algumas informações você deveria guardar para você...) Na verdade, não acho que seja possível. Quando eu penso você pensa. (Transtorno dissociativo de identidade: conhecido popularmente como dupla personalidade) é uma condição mental em que um único indivíduo demonstra características de duas ou mais identidades distintas, (cada uma com sua maneira de perceber e interagir com o meio.)”
                    A música terminou e levou consigo o lapso de felicidade. A canção que iniciou era alegre, porém a mulher não teve vontade de dançar. Ela se atentou a letra, o cantor falava de sua amada, sua musa. Após alguns instantes, a mulher desabou no chão e começou a chorar escandalosamente.
                    “(Eu nunca serei a musa de alguém. Nunca alguém irá se inspirar em mim.) Ao menos não de maneira positiva... Mas quem sabe quando forem falar sobre sociopatia. (Ah, mas é claro! Que agradável tema...) Bom, talvez você possa convencer alguém a escrever algo para você. (E eu lá tenho cara de Annie Wilkes?!) Na verdade... Tem sim.
                    A lamúria pareceu durar uma eternidade.
                                                                                                              *****
    A cozinha ainda suava vapor de sopa quente. O cheiro, porém, não era nem um pouco agradável. O válvula do bujão borbulhava espuma. O sol estava se pondo lá fora, mas a majestosa luz do crepúsculo mal entrava pelas janelas fechadas e veladas com cortinas grossas, impedindo que os malditos vizinhos xeretassem. “Transtorno de personalidade antissocial...” A mulher sabia que era alvo de comentários maliciosos e não demoraria muito para a vizinhança se reunir para atear fogo a sua casa. “Transtorno de personalidade paranoide...” Ela estava sentada à mesa, diante de um rádio antiquado que ressoava um chiado de estática. Um Marlboro ainda não aceso rolava entre seus dentes, ela refletia:
                    “(Não sou musa-inspiradora de ninguém...) Não é musa inspiradora de ninguém... (...Mas depois disso talvez eu seja.) ...Talvez seja. (Minha cabeça dói...) Tontura... (...Mas a dor vai passar.) A voz irá embora... (Tudo terá fim...) Tem certeza? (Você sabe o quanto é difícil danificar uma válvula de gás?) Você sabe que eu sei. (Sei...) Ideação suicida... (Fim.) ...Fim.
                    A mulher acendeu o cigarro e o cantor pensou nela finalmente.
                                                                                                              *****
    [Inspirado na canção A Anti-Musa de Romulo Fróes e Clima.]
  • Café, Rotina e um Pouco de Horror

    Essa sempre foi minha rotina no final da tarde: chegava do trabalho muito cansada, sem coragem até mesmo para usar as chaves e abrir a porta, deixar o café esquentar na cafeteira, enquanto jogava minhas roupas por todo lado da casa e procurava por algum filme na Netflix.
    Filmes de terror nunca me assustaram, mas ver pessoas tomando sustos e entrar em desespero me garantia boas gargalhadas antes de cair no sono. Hoje algo diferente e assustador aconteceu.
    Assim que cheguei e seguia rigidamente minha rotina, na cozinha aconteceu algo que para mim não passava de um acidente doméstico causado por algum descuido. Afinal, é comum que uma pessoa cansada coloque sua cafeteira na beirada da mesa de cozinha e ele caia com o chacoalhar da água fervendo. Pois bem, a cafeteira caiu, tomei um susto, mas ignorei e nem mesmo levantei para limpar o chão, apenas voltei para a TV, mas quando olhei, ela estava na página do YouTube e na caixa de pesquisa, tinha palavras como: demônio, rituais e suicídios. O que me deixou confusa foi o fato de que eu não lembro de abrir o YouTube. Enquanto tentava lembrar em que momento eu havia entrado naquela aba, algo ainda mais estranho aconteceu. Senti um frio na minha nuca, na verdade era como se alguém estivesse soprando em linha reta nas minhas costas, assustada, imediatamente virei sem saber o que procurar, pois estava sozinha e neste mesmo instante sentir um dedo subir por minhas pernas, a parti dos joelhos, em direção a minha virilha.
    Aquilo já era demais, eu tentei não acreditar, queria não acreditar. Corri em direção as minhas roupas espalhadas pela casa e tentei vesti-las o mais rápido possível. Ainda sem terminar de me vestir, com a intenção de sair, dei alguns passos até a poltrona onde deixei o controle da TV e o peguei, mas quando pressionei o botão de desligar, a TV nem mesmo piscava. Aproximei-me para desliga-la manualmente e ainda assim ela permanecia ligada, mas a angustia tomou total controle quando puxei o cabo de energia e ela não desligou, aquilo fez meu mundo desmoronar, não era possível.
    O frio aumentou e eu já podia sentir meus dentes tremer, e não sabia se era de frio ou medo. Olhei ao meu redor e tudo que passava por minha cabeça eram as palavras; suicídio e demônio. Corri até a porta, não queria passar nem mesmo mais um segundo ali dentro, mas antes de sair fui desligar a luz, a luz também não desligava, mesmo clicando várias vezes com muita raiva e isso pareceu dar mais força para tudo aquilo, pois o controle foi arremessado na parede, espalhando-se em alguns pedaços no chão. Senti minha pele umedecer em lágrimas, estava entrando em pânico. Pânico ainda não é suficiente para descrever o meu estado emocional naquele momento e foi por consequência que decidi fazer a única coisa que podia me tirar daquele pesadelo. Peguei garfo todo metálico e fui até a primeira tomada de energia e empurrei-o, eu esperava que fosse instantâneo, nada aconteceu, achei que estivesse fazendo errado e continuei tentando, mas quando percebi que nada aconteceria, eu dei um grito estridente e chorei ainda mais. Ajoelhada e sem esperanças coloquei as mãos nos ouvidos para não ouvir as batidas das gavetas de talheres que havia acabado de começar junto com uma almofada que foi arremessada em direção a janela, não pensei duas vezes quando a segui e pulei para fora da janela.
    Tudo ficou escuro por alguns segundos, seguido por um clarão. Eu estava acordada. Estava confusa. Peguei o controle da TV onde passava o vídeo de um homem com máscara de coelho e parecia contar uma história sobre demônios, quase me distraí, mas quando finalmente pressionei o botão, rapidamente ela desligou. Fui até a cozinha e a cafeteira estava inteira em cima da mesa e o café nem estava fervendo ainda. Mas eu continuava com muito frio!
  • DAS MESMAS VEZES

    A voz abriu a janela com furor e pudor, como se não quisesse fazer barulho. Porém, com o impacto insano dos próprios gestos embaralhados, desconcertados e desengonçados fez-se o estrondo sem querer. Havia o intuito de perturbar, de estilhaçar e por fim de fazer não viver. A voz sugava a alma da moça deitada na cama, quase que desfalecida. A voz que não se importava com a tortura agoniante dos ossos que se contorciam rapidamente em uma expulsão do próprio espírito. A voz que não era dos cabelos negros que estavam embalando o travesseiro em um abraço meio "graceiro", benéfico. A voz acariciou o pescoço nu da jovem imóvel. Fez-se um calafrio. Em um estupefato movimento do vento insone, a vocalização perdia-se no deserto frio da alma. A moça pestanejou, fez rangir os dentes, ignorou o grito de socorro estridente. Acordou, já era manhã. E, logo que se ergueu pela janela para contemplar o sol escaldante, a vista foi atingida com a dor do morto que a olhava com pupilas saltitantes. "O grito era dele!", exclamou. Agora não era mais. 
  • Descoberta

    Capítulo 1
    Estava eu a procurar uma camisa no guarda-roupas do meu quarto, quando me dei de cara com um objeto um tanto rústico para o restante das pessoas que procurava há séculos — talvez fosse exagero meu —, meu cordão com uma pedra ônix fazia quase parte de mim, e estava aflito com medo de especular a possibilidade de tê-lo perdido para sempre, mas finalmente o encontrei. Passava das oito horas da manhã e já estava bem atrasado para a aula em minha escola. Certamente não desejaria levar mais uma advertência em menos de uma semana por falta de pontualidade nas aulas do senhor Janet.
    Janet era meu professor de literatura e era caçoado dos demais estudantes pelo simples fato de seu nome ser dito feminino, mas justificara isso, pois seu pai assistia muitos filmes quando mais novo, lia bastante e se deparara com um série de livros cuja a protagonista era uma mulher chamada Janet e se encantara pela mesma, prometendo a si mesmo que homenagearia a mulher colocando seu nome em seu primeiro filho, fosse homem ou mulher. Deu no que deu.
    Mais tarde, pelo meio da aula de literatura me veio na cabeça algo que havia esquecido de fazer - eu realmente estava tenso naqueles dias e necessitava de férias, caso o contrário precisaria de remédio controlado, a não ser que eu quisesse enlouquecer — Sei que tinha prometido algo a meu amigo Ferdinando e era algo de suma importância para o mesmo, mas nem com todo o esforço do universo eu conseguira me lembrar. Peguei-me em divagações quando fui chamado atenção pelo meu professor, que pedira pronto para me ferrar que eu me dirigisse para frente da turma e fizesse uma breve síntese do próximo livro que íamos ler com base em suas palavras — mas eu não havia escutado nada — sem alternativa acabei por afastar a carteira e segui como seu terrível plano de me ferrar — estava realmente paranoico, pois aquele era meu professor e minha aula preferida — quando cheguei à frente daquela turma que por incrível que pareça estava posta com toda a atenção deles ligados em mim, olhei com um impulso para o relógio de ponteiros pregado na parede e suspirei de alívio imperceptivelmente. A sirene tocou, salvo pelo gongo pedi desculpas ao senhor Janet e ele não aceitou assim tão facilmente, me deu um livro que até então nem sabia o título para que lesse em uma semana e apresentasse um resumo na frente da turma sem consultá-lo. Fui pego de surpresa, pois apesar de amar ler, eu certamente perderia toda a sanidade que restava em meu ser se me compromissasse com mais alguma coisa nesse final de semestre, porém não tinha opção. Era isso ou zero, e a nossa amizade não tinha o menor peso dessa vez.
    — Senhor Janet! O senhor quer me enlouquecer de vez?! Acha que não tenho o que fazer?! Acha realmente que só tenho as suas coisas pra dar conta?! Perdoe-me a grosseria, mas suas aulas não são as únicas nessa escola! — Bombardeei-o de forma impaciente e impulsiva.
    — Meu jovem, já se acalmou? — Perguntou rindo — Olhe só, eu entendo pelo que está passando…
    — Não parece! — Exclamei interrompendo-o.
    — Sei que está sobrecarregado, e com isso nem reparou no livro que lhe entreguei. Creio-me que será mais uma diversão do que um trabalho — falou ele virando o livro em minha mão deixando à mostra a capa que me saltou aos olhos.
    — Não estou acreditando que é sussurro?! É meu sonho lê-lo desde quando saiu o prólogo! — Falei animadamente erguendo o livro contra o sol que saía pela janela em uma ação ridícula que só reafirmava a demência que as várias tarefas inacabadas da minha vida estavam me causando. Dei de ombros para a minha própria loucura e agradeci a meu professor por me proporcionar a realização dessa leitura.
    — Sei que você queria ler esta série e estava sem dinheiro para comprá-la, então, como sei que é um bom aluno, resolvi adicioná-la em minha ementa das obras literárias de contos fictícios para que você tivesse essa oportunidade. Mas me prometa que vai agradecer ficando mais atento em minhas aulas — falou Janet de forma preocupada e singela em minha direção.
    — Está bem professor, me perdoe… Talvez esse livro me faça bem, ou me enlouqueça de vez — pensei — Bom começo de tarde ao senhor e até próxima aula — Janet assentiu com a cabeça e vi que a conversa havia terminado, então saí em direção ao corredor e só aí me lembrei de que Ferdinando não tinha vindo à aula, com esse relance levei à mão a testa e lembrei-me do favor que tinha que fazer ao meu amigo. Teria eu que dizer ao professor de literatura que o mesmo tinha ido ao hospital visitar seu tio que tinha sido atacado por homens há umas cinco noites e tinha sido agredido friamente, fazendo com que ele fosse levado para a UTI no centro da cidade as pressas. Enquanto andava pelo corredor me lamentando da minha falta de memória, passei em frente ao meu armário e resolvi pegar meu guarda-chuva, pois sei que o tempo incomumente esfriara e certamente choveria. Aproveitei e juntei os livros que estavam amontoados no meu armário e coloquei-os dentro da mochila preta com amarelo que eu ganhara de aniversário de dezessete anos — eu ainda era considerado um bebezão para toda minha família — fechei o zíper que prendeu em uma página de um dos meus livros, rasgando-a, e desejei amaldiçoar toda a família do zíper até a sua quinta geração, mas lembrei-me que não passava de um zíper. Abri novamente a mochila e soltei um suspiro profundo de alívio ao observar que era um livro de matemática e não um dos livros de literatura —não gosto de matemática, apesar de me dar superbem na disciplina — fechei novamente a bolsa e me dirigi até a saída central da escola.
    Meu colégio era enorme, e apesar de ser um prédio que foi construído em meados do século XIX, era bem conservado, por todos, e o Estado tinha um apreço maior ainda por ele, pois no passado o mesmo fora casa de um imperador que veio de Portugal se apossar dessas terras — que já tinha donos —,mas na verdade o que eu sei sobre esse tal imperador português é que ele não passava de um homem que foi destituído de seu cargo e se obrigou a fugir para o mais distante de Portugal para não ser morto pelos homens que lhe haviam usurpado o poder na época, e sinceramente não sei o porquê, mas essa história me perturbava. Minha escola se encontrava no coração da cidade próximo a um bairro rico que era conhecido por ser boêmio e esse tipo de coisa. Ela tinha seu nome em alto relevo na fachada escrito com letras maiúsculas IMPERADOR MIRIEL I de forma imponente como se quisesse exaltar a figura de tal homem. Era um palácio enorme com várias salas construídas com materiais da época, com incríveis quatro andares e um terraço logo acima, no qual se realiza palestras de extrema importância para a instituição, com uma paisagem lindíssima, que dava uma visão privilegiada para toda a cidade. O colégio ainda não tinha sido reformado e corria o risco de ser tombado como patrimônio histórico e cultural estadual — não conheço nada sobre essas ações, mas tinha em minha cabeça que se isso acontecesse eu precisaria mudar de escola, e apesar de tudo não queria que isso chegasse a acontecer. Gostava daquele espaço.
    Eram quase duas da tarde quando recebi várias mensagens de Ferdinando no WhatsApp, enquanto eu estava deitado pronto para abrir meu livro novo. A priori tomei um susto, mas me recuperei de forma imediata e desbloqueei meu Samsung preto desbotado que pedia outro. Observei as mensagens, na qual meu amigo me convidava para ir dormir em sua casa a noite, pois seus pais iam visitar seu tio Nathanel no hospital e não voltariam antes do meio dia da manhã seguinte. Ferdinando era filho único, mas odiava ficar sozinho, mas mesmo assim seus pais saíam muito, principalmente a trabalho. Posso dizer que sua família não era rica, mas passava longe de ser pobre. Classe média alta. Fui até a cozinha onde se encontrava meu pai e meu irmão mais novo de 16 anos e pedi a ele permissão para dormir na casa de Ferdinando e expliquei a situação, e ele assentiu positivamente com a cabeça.
    — E mamãe, será se ela deixa eu ir dormir na casa dele? — Perguntei a meu pai de forma preocupada.
    — Não se preocupe Arthur, eu converso com ela, certamente não implicará com isso, ela nunca se importou em você dormir fora, principalmente se for na casa de Ferdinando — Falou meu pai, me tranquilizando. Vi que meu irmão só observava nosso diálogo atentamente e percebi que queria que eu o convidasse para ir comigo, assim o fiz.
    — Felipe, deseja ir comigo? — Perguntei de maneira convidativa, olhando em seus olhos.
    — Ah, não se preocupe meu irmão, já tenho planos para essa noite. Já pedi até papai e mamãe, e eles já deixaram. Vou a minha primeira festa com meus amigos e estou ansioso por mais tarde. Ia até lhe chamar para ir comigo, mas vejo que já têm planos também — Respondeu ele animadamente.
    —Sendo assim, divirta-se! — Desejei a Felipe, saindo da cozinha em direção à sala onde estava meu celular para responder Ferdinando.
    Felipe é um menino animado, negro de pele clara igual a mim. Uns cinco centímetros mais altos que eu, consegue me humilhar parecendo mais velho. Um rapaz bondoso e superprotetor. Aparenta ser ingênuo, mas só aparenta. Tem mais iniciativa do que eu. Ele certamente me supera em tudo, mas não sinto inveja. Não sou de se jogar fora.
    Respondi Ferdinando, e combinamos que eu chegaria a sua casa às sete horas da noite. Bom, era melhor eu me apressar, pois só faltava uma hora e eu demorava muito. Meu pai sempre me dizia em tom descontraído que eu quando fosse me casar, atrasaria mais que minha noiva. Mas quem disse que eu queria ter uma noiva?! Fui até meu quarto, peguei minha toalha cinza e entrei no banheiro. Tirei minha roupa, e a pendurei no vidro do box. Depois de uns dez minutos me enxuguei e corri até o quarto para trocar de roupa. Abri a gaveta, peguei uma cueca boxer branca e uma camisa preta, um short branco e joguei em cima da cama. Lembrei-me que precisava levar outras roupas, já que ia dormir fora. Peguei minha mochila na parte superior do meu guarda-roupa cinza e tirei cadernos e canetas de dentro dela. Joguei-a em cima da cama, e então peguei uma blusa azul marinho e um short preto, e uma cueca do mesmo modelo de cor vermelha, então fiz o mesmo. Olhei para o relógio e decidi rapidamente qual das duas opções de peça eu escolheria para ir vestido. Optei pelas últimas que havia colocado sobre a cama, então as outras roupas prensei entre os livros dentro da mochila. Dei mais uma vistoriada e tirei os livros didáticos, deixando só os literários.
    — Agora sim, mais espaço! — Sussurrei comigo mesmo. Fechei definitivamente a bolsa, destranquei o quarto e sai correndo pela casa. Parei em frente a mesa de centro da sala e peguei minha carteira que havia esquecido lá em cima. Peguei o celular e avisei que estava saindo de casa para Ferdinando. Ele me respondeu e disse que eu telefonasse quando chegasse perto do portão do seu condomínio. Apesar de eu já ter ido à casa de Ferdinando inúmeras vezes, o porteiro insistia em não me conhecer, então tinha que realizar todo um ritual que eu já estava cansado para que o mesmo liberasse minha passagem.
    Saí correndo da minha casa que ficava perto do centro de Colina em direção à parada de ônibus mais próxima. Dei sinal para o único que me levava o mais próximo da casa de Ferdinando. Paguei minha passagem ao cobrador e passei a catraca que fez um barulho estridente que fez com que todos do ônibus focassem os olhares em mim. Fiquei constrangido, mas logo me coloquei de costas para todos me apoiando em uma barra de ferro suspensa de forma horizontal para os passageiros que não tiveram a sorte de conseguir cadeira. Desloquei minha mochila das costas para minha barriga, e então fiquei em pé, esperando que eu chegasse logo ao meu destino. Ao passar das duas primeiras paradas várias pessoas que estavam em pé desceram na Avenida 3, na quarta parada duas moças que estavam sentadas nos bancos a minha frente se levantaram e deram sinal para descer do coletivo. Aproveitei e me sentei. Três segundos depois ouvi a catraca estalar como a vez que eu passei, mas não olhei para trás. Um homem que aparentava ter uns 22 anos, negro de pele clara, com músculos definidos — mas não denunciava a prática de academia —, cabelos negros e olhos castanho-claros, vestindo uma camisa de manga longa de cor acinzentada e short branco e chinelo branco, pediu licença de forma fria, porém educada para sentar ao meu lado. Afastei-me para o banco próximo a janela e ele sentou-se próximo a mim. Encaramo-nos por dois segundos, mas eu desviei o olhar, pois me senti acuado com tal situação. Olhei para fora da janela, observando aquela multidão de carros em fileiras. Já passara das sete da noite e só estávamos um pouco mais a frente da metade do caminho.
    Desfoquei minha vista dos carros e desloquei-a até o outro lado da avenida. Olhando para o vazio, eu via o tempo passar. Quase hipnotizado pela escuridão que ali estava no outro lado da pista. Saí do transe quando senti um leve toque em meu ombro que o apertou, eriçando os pelos do meu corpo — talvez pelo susto. Olhei rapidamente para o lado de onde vinha o aperto e vi que era o rapaz de camisa cinza que havia me tocado. Percebendo a minha reação ele me acalmou.
    — Acalme-se rapaz, eu só preciso saber a hora — Falou o garoto rindo da minha reação de forma descontraída, tentando me tranquilizar. Os cantos de sua boca se levantaram, mas sua reação não era muito convidativa. Aqueles olhos me fitavam de tal maneira que chegava a me perder em meus pensamentos. Os círculos cor de mel me prenderam facilmente como em um labirinto no qual eu não saberia o caminho de volta. Talvez eu só estivesse de paranoia mais uma vez. Fiquei olhando para ele imóvel, quando recebi um estalo com os dedos diante dos meus olhos, me fazendo cair na real.
    — Oh, me desculpe, desculpe mesmo. São sete e vinte — Falei olhando para meu celular. Ele sorriu como forma de agradecimento, e por um momento lhe vi observando-me de cima a baixo. Fiquei muito assustado com aquilo, mas contive minha reação. Guardei meu celular no bolso e voltei meu olhar para a janela novamente.
    — Você não sai muito à noite, não é? Parece muito espantado com toda essa situação simples do cotidiano das metrópoles — Fiquei surpreso com o comentário. Um rapaz desconhecido estava querendo bater papo comigo? Estava com um pé atrás com a ocasião que se desenvolvera, mas coloquei em minha cabeça que só era mais uma paranoia que minha mente atarefada criara no meu cérebro. Afinal, não tem problema algum em eu conversar com um cara, ou quem quer que fosse em um ônibus a noite. Tinha muita gente, e eu não era mais criança. Aquela história de não falar com estranhos talvez já estivesse vencida quando completei 15 anos de idade. E outra, dali a conversa não passaria. Eu desceria na minha parada, ele na dele, e não nos veríamos mais. Simples. Só uma simples conversa.
    — Bem… Não é que eu não saia a noite — eu raramente saía — é que estava perdido em meus pensamentos, refletindo sobre as várias tarefas de conclusão de semestre que tenho que fazer e outras coisas que me afligem no momento. É.… e também porque a droga desse ônibus está demorando muito chegar à minha parada — Respondi ao rapaz, tentando explicar a minha situação.
    — Hum… Sei bem como é. Onde você vai descer? — Perguntou ele a mim, com a voz baixa. Hesitei em responder, mas não queria parecer grosseiro.
    — Vou ao bairro Limoeiro, para a casa de um amigo — Respondi certo de que ia me arrepender.
    — Que ótimo então. Também estou indo para lá. Desceremos na última parada da Avenida 3, poderíamos ir juntos até lá. Teremos mais tempo para conversar — Gelei imediatamente, e queria me matar pelo fato de que diria eu avisei para mim mesmo, mas esbocei um sorriso falso como quem estivesse gostado da ideia. A verdade é que tinha muito medo. Medo não do garoto em específico, mas medo de qualquer pessoa que pudesse me atacar. Agredir-me pelo simples fato de ser quem sou. No caso, todo mundo. Na escola, as pessoas me conheciam como o moleque covarde, e muitos caras me metiam medo. Geralmente, eles são bem maiores que eu, o que intensificava a minha insegurança. Mas resolvi me acalmar, mesmo estando à mercê de um estranho, eu tinha uma vantagem. Ele não me conhecia.
    Caminhávamos pela rua que dava acesso ao Limoeiro, por baixo de um viaduto que era decorado por pichações ilegíveis. Estava extremamente escuro. Apenas andávamos vacilantes à luz de alguns postes com lâmpadas incandescentes. Algumas pessoas nos acompanhavam, pois haviam descido do mesmo ônibus. Apenas desconhecidos, mas mesmo assim me sentia seguro, pelo fato de ter um número relevante de pessoas. Acalmei-me. Estava de demência novamente. Era só mais um amigo que eu pudera fazer. Fica sossegado, pensei.
    Chegamos à parada a qual eu deveria pegar outro ônibus em direção à casa de meu amigo. Já era quase oito da noite e estava extremamente atrasado, como sempre, impontual. Não trocara mais nenhuma palavra com o rapaz que eu acabara de conhecer, e nem ao menos sabia seu nome. Foi tudo estranho. Aleatório, mas não me importei mais. Meu ônibus chegava próximo e me despedi do carinha que continuava ao meu lado, me olhando, mas sem nenhuma expressão no rosto.
    — Esse é o meu ônibus, tenho que ir. Prazer em conhecê-lo! — Comentei apontando para o coletivo que se aproximava enquanto estendia a outra mão para cumprimentá-lo em despedida. Ele sorriu, mas não apertou minha mão. Reagi surpreso, mas dei sinal e subi. Sem entender nada que se passou dentro do coletivo que pegara perto de minha casa até agora, passei a catraca e sentei-me na primeira fileira. Olhei para a janela e o rapaz já não estava mais na parada. Me arrepiei, mas logo justifiquei o fato de seu sumiço instantâneo. Talvez tivesse ido comprar algo, ou atravessado a avenida. Desviei o olhar e esperei até que chegasse ao condomínio de Ferdinando.
  • Dois. Capítulo dois de seis

    Capitulo dois
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         Os dois entraram na mansão, o jardim era imenso, com muitas árvores. Até chegar a casa foi um longo caminho, pois entraram se escondendo de planta a planta.
         -Após o crepúsculo rondaremos a casa sem sermos vistos!
         -Concordo que ir agora seria entregar o jogo. Coutinho estava mais com medo que Zé, ou menos seguro. - Porque será que eles roubaram o dinheiro, e como souberam?
        -Só sei que o pegaremos de volta e entregaremos no prazo! O nariz de Zé estava empinado quando proferiu isto.
    Pararam na árvore mais próxima do casarão e por ali ficaram a tagarelar de vez em quando.
         -Aí minha mulher! Coutinho começou a repetir e desta vez isto apoquentou Zé que passou a perceber tal coisa e não parava de repetir até que Zé perguntou:
         -Porque tu tanto pensas em sua mulher?
        -É que se perdermos o emprego minha mulher vai se sentir muito mal, tanto que ela desejou que eu me empregasse e tivéssemos um pingo de sossego. Nós não vamos perder nossos empregos era o que Zé acreditava e o disse.
         A noite caiu os dois desceram da árvore e de fininho rondaram a casa até pararem em uma das janelas onde viam o casal de ladrões e após ouvi-los por um tempo Coutinho soltou estas palavras:
         -O faxineiro é o ladrão!
       -O estranho é ele morar nesta mansão, não acha? Zé referiu a pergunta a Coutinho e foi como se fosse para os ladrões, pois a conversa deles chegou à resposta para este assunto:
         -Finalmente não precisarei trabalhar como um escravo, dês de que perdi o meu emprego milionário trabalhei como um cachorro para não termos de vender esta mansão, tivemos que despedir vários empregados, mas a sorte nos bateu! Disse o ladrão, na conversa que parecia ser para sua mulher, ou seja, eles eram realmente um casal e ex milionários.
       -Isto explica porque não há vigias neste lugar, isto facilita nosso trabalho, temos que encontrar onde eles guardaram o dinheiro! Ficaram a escutá-los por bastante tempo, mas de nada serviu para seus propósitos.
         -Foi como o planejado, e olha que não tivemos muito tempo. A mulher comentou e ouviu:
       -Sim o dinheiro é nosso! Os seguranças rondaram a casa, mas ainda com cuidado, pois poderia sim ter alguém de olho por ali.
       -Sairemos daqui como vimos sem sermos vistos. Zé estava certo, devido este ser seu trabalho, ouviu bem do chefe. Pegariam o dinheiro de volta e o entregariam no prazo. Tinham tempo, conheceram o lugar de cabo a rabo e ainda na noite voltaram à árvore mais próxima do casarão e Zé dizia-se cansado, exausto, tinha que tirar um sono foi vencido pelo cansaço. Coisa que os dois fizeram e logo o sol nasceu. Depois Zé acordou ouvindo o bom dia de Coutinho que também disse apontando para baixo:
         -Olha eles colocaram uma mesa, vão tomar café ao ar livre, vê só que chique eles são!
         -Acordou faz tempo, porque não me acordou?
         -É que cai daqui e a pancada doeu. Coutinho tinha a pouco caído da árvore.
       -Alguém te viu? Zé quis saber assustado e o amigo o confortou dizendo que ninguém o notou. Com o alivio Zé comentou:
         -Bom, daqui podemos ouvi-los e assim podemos descobrir onde esta o dinheiro.
       Os ladrões chegaram, estavam sendo servidos por uma empregada, esta talvez tivesse trabalhando para eles sem receber, seria alguém de confiança Zé pensou e continuou a assistir com muito interesse.
         -Com este dinheiro vamos poder voltar a contratar pessoas e criar um meio de renda, que nos mantenha nas condições ao qual estamos acostumados.
         -E em fim poderemos ter nosso filho, tanto, tanto desejado. A mulher proferiu e ao repetir a palavra que repetiu isto emocionou Coutinho, os dois agora sabiam que aqueles dois agora miseráveis tinham uma historia e uma das boas.
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    Veja a seguir o capítulo três.
  • Enredo de Occulta

    Eu estava naquele lugar novamente, em uma sala sem portas e nem janelas, somente um espelho que refletia um pouco de mim, mas muito pouco, andei ate ele como sempre e me olho, olho para os meus pés e uma coisa escura estava subindo neles, tento tirar meus pés de la, mas eles estavam presos,começo a puxar mais forte e a entrar em panico ela não queria soltar, a sombra estava subindo mais, minha cintura já estava totalmente tapada, não via nada abaixo dela, cada vez que eu tentava fazer força para eu sair, mais meu corpo ficava preso e mais ela subia, meus braços já estavam tapados, a sombra para no meu pescoço mais foi só na parte da frente do meu corpo, atras ela continuava,meu cabelo que já era preto foi tapado pela escuridão, quando eu olhava para o espelho só tinha como ver meu rosto, olho para o espelho novamente e em vez do meu reflexo, estava a silhueta de uma mulher, a silhueta literalmente brilhava, ela estende a mão para mim, tento segurá-la dela mas a sombra estava mantendo meus braços presos,a mão dela vai saindo do espelho e quase encostando no lugar onde era para estar meu braço e a sombra sai daquela parte mostrando meu braço novamente, ela me puxou e a sombra foi cada vez saindo do meu corpo, eu estava ficando aliviado por não estar mais com aquela coisa, quando eu atravesso o espelho no outro lado estava aquela silhueta da mulher que brilha, mas do lado dela estava uma silhueta negra de um homem, os dois estendem a mão para mim e eu........







    Querem que eu continue?Comentem se sim ou o que pode melhorar
  • Humanos - A Retomada (cap.1)

    humanos copia

    Por anos, foi discutida as reais chances de existir vida fora do nosso planeta. Os flagras registrados nunca nos pareceram o suficiente para que pudéssemos acreditar, de fato, na existência alienígena. Talvez, o que chamávamos de tecnologia, não apenas havia nos levado para um rumo diferente, mas também nos cegado, pois nos tornamos incapazes de discernir com clareza o que estava acontecendo a nossa volta. E junto com o passar dos séculos, como uma lenda que tornara-se apenas um leve sussurro, os rumores de vida alienígena foram sendo esquecidos, reduzidos a conto de fadas. Como é de nossa natureza, seguimos dissecando o planeta Terra, usufruindo de todos o seus recursos e sem que percebêssemos, ele estava próximo a dar seu último suspiro. Então, como muito havia se falado a dez vezes cem séculos atrás, eles surgiram.

    Os mais velhos contam velhas histórias sobre brechas que simplesmente abriram-se no ar e as figuras nasceram dali; pavorosas e estranhas, munidas de armas nunca antes vistas e determinadas com sua invasão. Sem que pudessem entender o que estava havendo, objetos com formas diversas surgiram no céu e desceram para dar início ao que alguns chamam hoje de Recolonização. Ouvi dizer também sobre a existência dos grupos extintos que uniram-se para impedir o avanço dos invasores, mas que não resistiram por muito tempo. Grupos esses, que até hoje especula-se ainda existirem, mas nunca passou de um mero boato... As tais Nações. “Fomos dominados!” Assim conta um senhor: “... Não houve escapatória!” Mulheres, homens, crianças, negros e brancos... Todos subjugados como animais e tomados como objeto. Hoje, o planeta Terra não passa de uma grande fazenda, onde nós, humanos, somos identificados por um carimbo micro localizador que nós é dado quando nascemos. Sem nome, somos reconhecidos como Servidores, vivendo em imensos pavilhões conhecidos como Estábulos e existindo única e exclusivamente para suprir as necessidades de nossos colonizadores.

    — Esse velho sempre com essa conversa! – disse o rapaz na fila ao meu lado esquerdo esperando para receber sua higienização. — Nações, diz ele! – soltou um suspiro menosprezando o assunto. — Provavelmente essa coisa nunca existiu! Quem já ouviu falar disso?!

    — Pois, está enganado! – defendeu-se o senhor. — Elas existiram e foram a nossa última chance! – deu uma breve pausa. — E talvez ainda sejam...

    — Acho que está trabalhando demais nos campos, velho! – o outro ainda zombando jogou contra ouvindo a risada contida dos demais. — Eu nasci Servidor, assim como meus pais e meus avós e assim sempre foi até antes deles. – breve pausa. — Isso tudo o que você diz é coisa de sua cabeça... Devaneios por causa da idade! – finalizou antes de adiantar-se e entrar na câmara transparente que logo foi preenchida por vapor onde ele desapareceu.

    Por um instante eu fiquei vago, longe, então ouviu o velho dirigir-se a mim novamente perguntando, na verdade quase afirmando que eu concordava com o Servido que ainda banhava-se na cabine. Eu dei de ombros. A verdade é que para mim pouco importava o que havia acontecido séculos atrás. A única coisa que realmente havia de importante estava a minha frente, meu filho, o que restara de minha falecida companheira.

    — Bons tempos deviam ser aqueles. – o senhor soltou esperando que a câmara a sua frente também abrisse. — Bons tempos. – repetiu. — Já imaginou você poder ter um nome, filho? – agora falava com meu garoto que o olhava curioso. — Maravilhosos, não? – sorriu e então entrou no lavabo a sua frente e também sumiu nu no vapor.

    Meu filho, intrigado com a conversa do senhor questionou-me se aqueles fatos seriam realmente verdade. Os demais, calados, esperando também por sua vez, faziam-se passivos à conversa, mas atentos à resposta. Eu respondi que se aquilo realmente aconteceu, já não faria diferença, e que o que importava de verdade é que estávamos juntos e nada mudaria isso. Dito isso, a passagem abriu-se para que fizéssemos também a nossa higienização.

    “Essa madrugada acordei de um pesadelo. Havia fogo e sangue. Não entendi exatamente o que estava acontecendo, mas fiquei aliviado por ter sido apenas um sonho. Acho que as conversas daquele velho Servidor estão me afetando mais do que eu poderia ter imaginado. Preciso me acalma!. Não seria nada bom que meu filho me visse desse jeito. Sou tudo o que ele tem e não posso me deixar levar por histórias sem fundamento.”

    Antes que a corneta desse seu primeiro toque, eu já estava acordado. Meu filho dormia tranquilamente, mas já era hora de ir para os campos. Como percebi que ele não acordou resolvi despertá-lo antes que viessem intervir. Aos poucos foi abrindo os olhos, mas precisei apressá-lo, pois, ouvi passos se aproximando. Logo em seguida surgiu um Feitor, tão obscuro quanto qualquer outro.

    Por serem responsáveis por nossa vigilância, nós os chamamos de Capatazes e desde que me lembro, não houve se quer, um só Servidor que  conseguiu escapar de sua atenção. Todos os que tentaram coloca-los à prova, não voltaram para o Estábulo.

    Esse, agora em frente a nossa tenda, possuía, como a maioria deles, o rosto animalesco, negro e encoberto por uma espécie de elmo. Trazia com sigo, também, um bastão o qual apontou para dentro de nossa tenta. Rapidamente puxei meu filho para perto de mim e o vigilante manteve-se ereto observando o nosso dormitório. Tive certeza de que não era só apenas impressão minha, ele estava a procura de alguém. Então, repentinamente ele afastou-se e seguiu em frente. Respirei aliviado, e surpreso, percebi que meu filho parecia absurdamente tranquilo.

    — Todo bem? – perguntei buscando uma reação dele, mas nada me disse.

    Logo, ouvimos claramente junto com a confusão que cresceu instantaneamente os berros de um grande número de Servidores. “Coletores! Coletores!”. Meu filho, então, deixou transparecer seu desespero abraçando-se em mim com força. A nossa frente, surgiu como um fantasma pálido envolto por seu manto ainda mais branco, um Coletor e suas Lentes.

    — Não são pra você! – lhe garanti. — Não são! – eu repeti, mas dessa vez para que eu mesmo acreditasse.

    Levei meu filho para o fundo da tenda e o encobri novamente e me sentei o mantendo seguro junto a mim, mas isso não impediu que ele ouvisse os gritos, berros de uma Servidora que, em desespero, não conseguia impedir que levassem sua filha. Seu companheiro, tentando interferir, acabou sendo contido violentamente pelas Lentes.

    — Não são pra você! – voltei a dizer para meu filho. — Não vieram por sua causa. – tentei acalmá-lo.

    — Mas eles virão! – ele respondeu tremendo.

    — Não! Não irão... Só tenho você! – expliquei.

    O sistema de controle populacional é o que garante a ordem nos Estábulos. Quando um casal alcança o numero dois de Servidores-filhos, o mais velho é retirado deles. Eu mesmo quando era garoto, presenciei o momento em que vieram buscar meu irmão mais velho. E assim como meus pais, optei, junto com minha falecida companheira, que evitaríamos ter mais do que um Servidor. Nunca me perguntei para onde são levados. A verdade é sempre evitei especular essa pergunta, muitos de nós sabe que ela tira o sono. “Mas e se vierem?”. Meu filho ainda insistiu. A verdade é que me vi engasgado ao aceitar aquela ideia, mas a verdade era uma só. Eu mataria quem tentasse.

    Confira também.... O Manequim!
  • Iniciando o pecado

    Por sorte conheci Ângela.
    Era magra, um pouco alta, loura, seus cabelos caiam sobre seus ombros com leves ondulações, era branca, suas bochechas eram rosadas, seu nariz avermelhado e lábios finos com um tom bem claro.
    Era adoravelmente simpática, seu sorriso era bem quadrado, como se fosse uma dentadura. Estava no segundo ano de medicina. Só sabia falar sobre isso.
    Falava como o cheiro hospitalar era viciante. Contava curiosidades sobre o corpo humano. Explicava sobre as partes inúteis do corpo.
    Era engraçada.
    O clima ficou tenso quando começou a falar sobre seu ex. Um cara qualquer. Futuro advogado. Um babaca que queria que ela desistisse da faculdade.
    Eu não me importava com nada que ela dizia.
    Mas queria me importar. Seus olhos claros, verdes ou azuis. Não lembro. Eram tão bonitos, tinham um brilho. Como se a vida dela até aquele ponto fosse tudo perfeito. Mas não era.
    Há alguns meses sua irmã ficará paraplégica num acidente de carro. Algo que me fez sentir mais próximo dela, já que tínhamos isso em comum.
    Seu foco na área, era descobrir um meio de fazer sua irmã voltar a andar.
    Ela tinha fé, mesmo dizendo não acreditar em Deus. Diferente dela, eu tinha uma crença enorme no pai divino. Eu era o escolhido. O filho de Deus.
    Minha avó começou a me levar para a igreja após a morte da minha mãe. Dizia que encontraríamos a paz lá. Encontrei a paz alguns anos depois numa missão divina.
    Ângela me perguntou sobre meu passado. Inventei uma historia, onde eu tinha uma família perfeita, feliz e viva. Contei coisas engraçadas sobre minha mãe. Contei sobre o arroz que ela queimou uma semana antes.
    Tudo mentira. Ângela ria.
    A festa já havia começado. A conversa estava tão boa que nem percebemos.
    Umas trinta pessoas estavam ali. A casa não era grande, tendo apenas um quarto, sala, cozinha e banheiro. Não era muito confortável, os cômodos eram minúsculos. Mas aconchegantes.
    Percebi que Ângela foi conversar com outros amigos. Fico sozinho. Algumas pessoas que passavam por mim, falavam comigo e ofereciam bebidas. Mas recusei. Jamais havia bebido álcool.
    Tentam puxar assunto, mas ignoro-as. Vejo os passos de Ângela, observo aquele sorriso saltar de conversa em conversa. Com a mão direita ela coloca uma mexa do cabelo atrás da orelha. Olha-me e sorri. Então some na multidão.
    A música esta cada vez mais alta. As luzes coloridas fazem minha visão ficar turva. De repente alguém grita ao pé do meu ouvido.
    “Quer ir ao quarto?” – era Ângela, rebolava e bebia uma bebida colorida.
    “Fazer o que?” – Pergunto... Atualmente me envergonho disso.
    Ela se inclina e me responde com um beijo.
    Um beijo de língua, sinto o sabor do álcool, mas não recuo, sinto o calor da sua língua, dança na minha boca.
    Beijo termina. Ela sorri.
    Agarra minha mão me puxa em direção ao quarto. Minúsculo quarto.
    Meu coração estava batendo o mais rápido possível. Ela abre a porta branca e entramos naquele pequeno espaço, com uma cama que tem um abajur na cabeceira, uma arara com diversas roupas espalhadas. Sobre a cama, estava um cara de porte físico bem atlético, junto de uma garota ruiva, totalmente nus.
    Ângela faz sinal para que saiam, foi quando notei, que ela era a dona da casa.
    Os dois obedecem, sem retrucar. Saem e fecham a porta.
    Ângela ri. Começa a dançar.
    Sou virgem. Ela sabe disso. Segura minhas mãos e põe sobre em sua barriga. Estava quente.
    Ainda segurando minhas mãos, sobe devagar sobre aquele seu corpo macio, fazendo com que eu tire sua camiseta. De sutiã preto ela rebola.
    Aquele excesso de informações, misturado com a bagunça que meus hormônios faziam dentro de mim, me deixava meio perdido.
    “O que eu faço?” Pensava frequentemente. Mas Ângela me dava às direções.
    Soltará o sutiã. Aquele belo par de seios do tamanho de maçãs, me fez vidrar ainda mais naquele corpo. Belas maçãs rosadas. Ela continua controlando minhas mãos. Passa elas sobre as maçãs, meu corpo esquenta. Ela mordisca meu lábio e se entrega num beijo estalado. Um beijo forte, com fogo e paixão.
    Ela deita. Olha-me nos olhos.
    Como se meu cérebro tivesse recebido instruções através daquele beijo, ele passa a fazer tudo automaticamente. Passo minha língua naquelas belas maçãs rosadas, desço pela sua barriga e abro seu short. Retiro-o e fico olhando para sua calcinha roxa com lacinho preto.
    Sem pensar duas vezes retiro toda minha roupa, não me importo em ficar nu. Deito sobre aquela garota de seios rosados, ela esta toda nua agora. Faço os movimentos no quadril como se estivesse programado no meu instinto.
    Movimentos repetidos. Corpos quentes.
    Sinto suas unhas arranharem minhas costas. Passo a mão em seu rosto. Em seu cabelo. Em seus braços, peitos. Beijo seu pescoço. Ela me agarra com mais força.
    Acelero o movimento. Ida e volta sem pausa.
    Novamente ela segura minha mão, leva até seu pescoço, o seguro e a beijo. Beijo firme.
    Ida e volta. Vai e vem sem pausa.
    Ela se contorce de prazer. Suas unhas arranham minhas costas, mais e mais. Suas pernas se contraem. Ela geme. Gemido abafado.
    Sinto minhas costas arderem. Seus olhos estão revirados e sua boca aberta.
    Gozo.
    Então foi quando percebi. Ela estava sufocando. Já havia sufocado, estava morrendo. Suas mãos caem sem força sobre a cama.
    Penso em pedir ajuda, mas minha voz não quer sair. Aqueles lábios que me beijavam há pouco tempo atrás estavam arroxeando. Ela não se move. O abajur na cabeceira da cama havia caído por causa do vai e vem.
    Entro em pânico. Corro para o banheiro e vomito. Vomito muito. Sento ao lado do vazo e começo a chorar.
    “O que houve?”
    “O que eu fiz?”
    Essas perguntas varriam minha mente. Eu precisava de ajuda. Ninguém me ajudaria. Minha avó ficaria louca. Choraria sem parar.
    “Você se tornou como sua mãe.” – Diria ela gritando e tentando furar o cerco policial.
    Eu estava sozinho. Ninguém poderia me consolar. Mas no meio daquele choro, tive forças para ficar em pé. Deixo o corpo do meu corpo sobre a pia, enquanto me olho no espelho. Vejo meu reflexo. Aparentava ser bem mais jovem. Cabelos bagunçados, nada de barba e olhos inchados. Aquela imagem me faz rir. Estar totalmente em pânico e não ter nenhuma saída, me fazia rir.
    Rir era a única coisa que poderia me ajudar.
    Penteio o cabelo com um pente que estava ali. Estou mais calmo. Respiro fundo. Mesmo sem entender o que aconteceu. Sorrio para o reflexo e ele me imita.
    Volto para o quarto.
    Ângela ainda esta lá. Nua e linda. A luz reflete sua pele pálida. Deito-me ao seu lado. Aconchego minha cabeça sobre seu ombro.
    “Como isso aconteceu?” – Pergunto a ela.
    “Perdoa-me, ok? Foi sem querer” – Tento me redimir com ela.
    A cubro para que não sinta frio. O som estava bem alto, poderia atrapalhar seu sono.
    Sono profundo.
    Sua boa ainda esta aberta, assim como seus olhos, que mesmo revirados são lindos.
    “O que eu fiz?”
    “o que estou fazendo?”
    Minha mente esta tentando me trazer para a realidade. Matei mesmo aquela garota. Sem motivo algum.
    Matei por ela ser linda? Não.
    Matei por que me apaixonei? Não.
    Não havia explicação, apenas duvidas. Coloco minha roupa e a visto também. Desculpa Ângela. Coloco seu corpo no meio das roupas que estão jogadas na arara. E me despeço. Sinto vontade de beija-la, mas minha sanidade ainda falava comigo. Ainda
  • O Espetaculo

    Esclarecimentos,
    premissas
    ou
    Lorde Deborath Del’volterrie.
         Entre os ilusionistas, embusteiros e a escória de ladrões o segredo para o sucesso esta na inovação das estratégias e no mistério das mesmas. Trazendo as mãos laçadas as inimizades no circulo de trabalho. Lorde a titulo agraciado por principado encantado pelo não compreendido. Senhor Deborath para o publico em geral. Magnífico Lorde Del’volterrie para a mídia farsante e invejosa.  Mágico de herança de família cigana, recheada de truques e picaretagens em formas de trapacear olhos atentos a desmascará-lo, retornavam as tabernas sem indicação da não veracidade dos eventos. Nome artístico e referencia do trabalho, personalidade marcante de época, sobrenome forte referente à grandeza dos feitos e desfeitos. Nobreza e fascínio aos incrédulos da arte. Ágil contra jogadores crescidos e viciosos no carteado. Tamanha doação à humanidade e merecedor há ultrapassar o tempo e lembrado como o “Corrupto Merlin”.
         Caminha em declínio e sua lona sem serem experimentados aplausos e invadido pela monotonia do esquecimento. Outros Mestres e grandiosos espetáculos. Infelizmente o narcisismo de ter o tornado o melhor deixou passar despercebida à existência do jovem iniciante de ideias para picadeiros cedentes pelo inédito.
         Vantuir Fanir de idade para ser seu filho, milagroso e expressivo ao fazer desaparecer salões diante de olhares cativos. O Oposto do Lorde que não disfarçava qualquer forma de encanto, preferindo a arrogância de tenra idade de bajulações.
         O obvio veio à tona com o prestigio as explosões de luzes e ilusões faraônicas apagaram o brilho das palestras ultrapassadas e acabou as tornando para o publico o que a mídia descrevia de forma repugnante: “As repetitivas apresentações da cada passo, perdoem-me os Mestres, soam como aulas patéticas de exatas”.
         Aproximava o fim e o egocêntrico Del’volterrie não enxergava o apagar das luzes.
     Arrastado ao nada
         Perplexo maquinava  inovações, vicioso, possuía monótono estilo a desagrado dos novos tempos. Solitário de companhia sincera, rodeado de bajuladores e usurpadores de imagem, verdadeiros vampiros de sua presença. Há alguém de grande estima carnal e humano, Juliette Deborath, linda criança retirada dos laços maternais, transformada concubina, estupro permitido, legalmente aceitável, guia espiritual e sexual, e como esposa herdou defeitos e desordem de caráter. Sobre a fidelidade não pretendia enxergar, animal de estimação que preocupamos quando estamos angustiados. O “Ele” necessitava usurpar a juventude e Ela a gozar da posição. Cruéis, corrompidos pelo bem estar da carne plena e digna felicidade. Um por obrigação e comodismo arrastada a sobrevivência e o outro por promiscuidade.
         Procurando o que não havia de encontrar acabou aproximando-se do rival emocionado e ébrio pelo trabalho sem tempo e nem olhares para Del’volterrie, talvez olhar tímido as lacunas de periódicos, por curiosidade e pouca malicia que no intimo a veneração. O inescrupuloso a copiá-lo, a comprar dos ajudantes os segredos e a concebê-los como legítimos, a inveja o tornara obcecado e acordava o demônio antes despreocupado da presença mundana. Criaturas multifaces ligadas ao Lorde a traçar o caminho e de Fanir consagrado inimigo.
         O novato digno nas ações tornou a batalha jurídica, perdendo vários combates graças histórico de corrupções e influencia.
         Grandes batalhas e maiores as derrotas, contudo havia falhas, a ira tornava o oponente criativo e o competidor no levante dirigiu-se ao outro lado do mundo, diferente e imoral em contratar verdadeiros abutres caçadores de inovações e trapaças, adquirido para a ascensão, apresentava como criador das parodias, o que não comprava roubava e tornava como próprio, assassinando de vez  o restante do original tornando-se copia e parte de nada.
         A balança das vitorias e derrotas, consideraria vencedor ate o momento crucial da perca de  Juliette, a dominante arrogância a afastava e a cegueira nebulosa dos acontecimentos não o deixou a percepção. Partia a louça nobre, enxergando  futura falência o trocou pelo rival que por covardia passou a possuir o que fora do  Lorde.
         Acerca-se dos amantes, apesar de conflitantes eram próximos e da infidelidade de Juliette incertezas, mesmo circulo de pseúdos amigos usurpando cada lado. Através dos abutres o conheceu, consagrando a maior das medíocres verdades “o amor à primeira vista de interesses”.
         O próprio destino tem laços com a altivez e o desprezível, por este tempo de desolação e redenção, morrer ou viver, o caçador surgiu com o que poderia erguê-lo novamente, o extraordinário e assustador, promessa de retorno e agarrou as asas dessa investida ressurgindo na companhia de Carsus.
         Partir a longa distancia a terras desconhecidas, ausentando por longo período, tempo proveitosas para diluir a angustia e não o ódio, autópsia de sentimentos e rasgava a alma alimentando o irracional, seguiu viagem para o continente antigo, passando por tabernas de vodus que corrompem a mente e lógica.
    ...
         Importância: na conjunção de interesses entre Vantuir e Julliete os caçadores de novidades foram corrompidos a entregarem as descobertas invés de levadas ao Lorde, somente Carsus não teria se vendido.
    O Espetáculo
    Parte I
         Do retorno da longa jornada a terra dos homens de cor, envenenado pelo ego e adultério transformados em imprescindível necessidade de vingança, o combustível para retornar e escarrar nas faces incrédulas. Manteve-se isolado a maquinar em companhia do leal Carsus e provido guru trago como tutor descendente do país distante, homem baixo e rude de traços, certa idade e sobriedade nas palavras nativas que preferia pronunciar aos ouvidos de Lorde Del’volterrie.
          Longas reuniões com investidores a preparar a supremacia na técnica antiga de ser Deus, absorver e corromper os espíritos, ressuscitar falsos mortos, onipotente, desafiar a natureza, ignorar as crenças, superar o criador.
     O Espetáculo
     Parte II
     Lorde, o delator e o publico.
    Deborath assume as rédeas dos relatos
     
     
         Regressado e ambicioso, demorou no necessário a anunciar o novo espetáculo, andou esquecido do publico, o julgaram derrotado e desistente. Juliette tinha uma criança do próprio ventre.  Fanir agregava riqueza.
         Inimaginável e surpreendente retorno aos espectadores súditos da obra dobraria mundos, apavoraria despertando interesse, testemunhas vivas apenas Carsus e o tutor de longínqua terra.
         E o grande dia chegou. Theatro alugado a alto custo, profissionais competentes e músicos de qualidades excepcionais a prover no local maravilhoso baile antes da apresentação principal.
         - Senhores, ”súditos”! - Reflexão – Recolhida ao abismo para renascer de profundas fendas a magia, trazendo das entranhas o inacreditável – O público no geral desejoso a ver qual traquina exposta, o absurdo traria pra enganar, julgamento antes do inicio da exposição dos fatos.
         Palco obscuro, olhares dispersos, inicia-se o discurso, piadas idiotas pra sorrir os descrentes – Candidato a ajudar-me, audacioso e escrupuloso, ver a morte e sentir a razão da vida. Necessito que seja verdadeiramente imponente e corajoso – O hipócrita escritor de coluna de folhetim local se predispôs, afirmando que desvendaria algo; o ”Eu” confiante na melhor escolha.
         - Aproxime intelectual! – Sobe luz intensa Claúdios o escritor posicionado junto a Del’volterrie – Qual o seu maior temor? - tom de deboche e risadas dos presentes.
         - Não temo   – ficariam aterrorizados antes do final - sorriso a incentivar o acontecimento - fim das gargalhadas, único golpe perfurador pelas costas com enorme adaga e depois de retirada e limpa no punho do paletó, desespero e a movimentação de fuga e anunciaram os policiais a invadir - conturbação provocada pelo ato insano, cobriu o cadáver enquanto “recitava” o pedido aos espíritos. Alguns permaneceram no recinto curioso com o desfecho lógico e a prisão, o cadáver coberto reanimando a solavancos, horror e o momento quase eterno do corpo estirado a mover, fugitivos da primeira oportunidade pavorosos ao retorno dos que haviam saído, descoberto o manto, erguido o ensanguentado. 
         Termino o ato todos foram levados à delegacia para relatar o ocorrido.
    O inesperado
         Nada comprovado e esclarecido, a prova contra suposto crime um paletó de linhas finas perfuradas, sangue e testemunhas atordoadas e controvérsias. Finalizada a entrevista na delegacia.
         -  Senhor Deborath! – Claúdios.
         -  Senhor – Queixume do miserável - O que ocorreu na noite anterior? Intriga-me que estive ausente por minutos, sei que não revelara a artimanha e quero ser o primeiro a entrevista-lo.
         Vitima: resumo...
         Incrédulo corrupto, não o sabe que foi escolhido a dedo. Predileto abutre de patifarias? Em quem acreditariam? Nas minhas palavras ou opositores?
         - Preciso de divulgação. Exclusiva antes do fechar da coluna. Cuide-se, afinal esteve morto. - finalizando e afastando com apertos de mãos frias e franca e cruel ironia.
    O retorno
         O espetáculo seguinte seguiu a formula do primeiro com a orquestra festiva agregando valor. Organização a conseguir as novas metas, sendo o foco os adversários que viriam como suínos ao abate, por mera vontade de descobrir a brecha inexistente.
        O publico retornava para confirmar o presenciado anteriormente e reunindo ouvintes de bocas alheias e criativas. Distanciava da vulgaridade de outros eventos do antigo Lorde, iniciava a coquetel farto, musica de excelentes profissionais e maravilhosas entoadas e as vagas do abatedouro teatral esgotavam. Os Músicos aqueciam o ambiente e a trama a serem instruídos a dizerem segredos que não sabiam; passavam informações a deixar fluir, embriagados afirmavam estupidezes inacreditáveis a atrair o algoz. Excelentes seres humanos. 
         Entoado o ultimo acorde, acendia a presença dominadora aos olhos descrentes. Palestras sobre vida e morte, filosofia e o irracional em nós. Vagava a olhares atrás do terror explicito. Claúdios suando como porco disperso a escrever. Purificada a visão e o convite ao amigo e usurpador de fortuna que vendia segredos e enriquecera a sombra vampira do criador...
         - Apreciadíssimo Senhor Smith.
          - Estimado Johnson, saudades do tempo que trabalhávamos juntos. – cinismo entre ambos, atuando com vigor quanto acenou entreolhando as exclamações dos restantes e a aumentar o ego focou a luz destacando-o dos demais. - Participaria caríssimo amigo?- antes que formasse justificativa - É ilusionista magnifico e acredito que adoraria descobrir qual ardil da inovadora obra. –Acalorado e gentilmente arrastado.
         Servida taça de vinho e despejar ações enganadoras a descontrair e despreparar ao que viria. Conversa em alto tom, elogios e gracejos e o guru com auxílio de assistentes entrava a empurrar enorme e qualquer coisa coberta por pano branco a imensa torre de quatro grandiosos metros. Convidado a aproximar e descobrindo o objeto que se revelou uma forca – olhar de espanto - Johnson induzido a subir no cadafalso. Algum receio? A prova viva que nada ira lhe acontecer - Olhar direto ao publico, ou melhor... – Por aqui por gentileza! - entusiasmado a papeis e disperso apresentou-se Claúdios acompanhado pelos servos do Lorde.
         - Terá bastante a escrever – tremula e bagunçado subiu as escadas. - como andas?
         - Incomodas dores onde supostamente fui apunhalado.
          - Adiantado o que será publicado? – observando o amontoado de papeis amassados.
          - Sim! Não! - gaguejou desconexo - escreverei posteriormente - terminado a frase afagou as folhas.
          Desinteressado e externo aos pensamentos.
         - Vamos? – a cilada. -  Hoje terei o prazer de enforcar um camarada – gargalhadas intensas.
         Sem demoras e firmeza na ação evitando o fiasco em não conseguir ressuscitar a víbora entre rapinas.
         E o corpo desceu idêntico a saco de areia levado pelo peso do burgo gordo, ouvir-se o estalar do pescoço na ultima fileira, o mergulho no silencio e o suspiro de Senhora Smith. Deste episodio ninguém saiu corrido, apenas o delegado e seus homens aproximando a inibir a fuga do assassino.
         E as frases não inteligíveis foram recitadas e reencarnou o suspiro do cativo ouvido por todos e retirando da corda antes que se enforcasse novamente.
         Entre aplausos à noite terminou.
    Avise-me quando abrir os olhos
         As publicações traziam estampados o alvoroço da primeira e o esplendor maléfico da segunda. Incrível o sucesso e desconfianças, apenas Claúdios não publicou única linha, nenhum suspiro, ausente à redação do folhetim.
         Encontrado desolado nas escadarias no inicio da manha pelo zelador do estabelecimento, imóvel lagrimava conflitos. Aparente distúrbio mental e conduzido a manicômio.
         Seguida o internamento sem contato com o mundo externo passando o tempo em reclamações sem sentido e rabiscos de bonecos escondidos entre brinquedos de parques, meros traços infantis. Rabiscava entre folhas amassadas como as que o acompanhavam no theatro, negava a aproximação dos escritos e os devoravam caso necessário, enquanto os rabiscos deixados expostos. Certo de inspiração dominadora transparecia o artista desenhando imagens complexas nas paredes do manicômio, verdadeiras obras de arte de caráter infundado.
         Passagens foram lidas e na defesa dos íntimos lutava a sangrar os saqueadores, complexos pensamentos ambiciosos e mesquinhos. Demências dominavam entrelaçados ha frases confusas de confissões de atrocidades na Mansão de herança de família localizada nas montanhas.
          Deduzido tratar desabafos da mente cansada, relatando que molestado quando criança ou molestador, nenhum registro de acontecimentos parecidos fora registrado nos arredores da província.
         Com o sofrimento dos dias não se demorou o cessar e por descuido dos carcereiros, conseguindo moldar dos pés de velha cadeira estaca a qual introduziu no coração perturbado.
          - Hipócrita, que os atormentadores não tenham pena de sua alma – Palavras do Lorde ao receber a noticia.
    Silogismo
         Imprevistos são criados pra que o decorrer dos fatos obtenha sentido, os inimigos definhavam e Del’volterrie prosseguia: Claúdios, Johnson e quatro distintos reveses, dois comerciantes com vasta fama de usurpadores, o político e a solteirona. Os comerciantes ressuscitados balearam-se; desavença a jogo de cartas a valer migalhas. O político embriagado a acido encontrado cozido, a dama de hábitos vagando desnorteada tentando cortar os pulsos entre lagrimas por faltar coragem.
         Necessárias mudanças nas articulações do obvio. Baseado no livre arbítrio e a partir deste a plateia dominaria as escolhas, infiéis subjugavam-se, empregados submissos a patrões e patrões a empregados e expectativa de falha e findassem naquele cenário insano.
         Dissabores demasiados chegando a matar após as apresentações, mortes ingênuas; a mulher que espatifou a cabeça do companheiro com golpes de jarra de metal, burgueses feudais a grande dose de veneno para roedor misturando uísque de excelente qualidade. Dos sardentos negociantes de escravos que a gula da ganância resolvida a chumbo, outro estúpido político atirou-se da torre mor da basílica desesperado e frases de negação a dor. Não menos importante a solitária prostituta degolada com própria navalha de muitas lutas no quarto pútrido e solitário.
    ...
     
          Intimado a comparecer a delegacia a dar explicações.
           - Pessoas resolvendo os teus desafetos, viram o desamor em seus companheiros e resolveram tirar a prova em meu palco.
           - Mesmo assim Senhor Deborath, a partir desta data o esta proibido de usar cidadãos em teus espetáculos – disse firmemente a autoridade – use animais, seus músicos e mesmo se suicide se quiser, mas os cidadãos estarão proibidos.
         - Esta extrapolando na sua autoridade.
         - Desafetos! – tom de autoridade – dessabores se executam? Bela afirmação Lorde Del’volterrie. Esta a molestar a todos – firme autoridade.
         “Maldito arcanjo usurpador. Terá as asas podadas por minhas hastes.”
     
    A Aliança
    Deborath, Carsus e o tutor.
     
         Inquestionável que as ordens de Catanir forçadamente seguidas, oficiais monitorando os passos do Lorde que acatou remoído. Precisavam conhecer os por menores da intimidade através da arte. Como Johnson...
         O ex-assitente depois de ressuscitado tornara promiscuo assumido, vadio malfadado a ambientes servido a entorpecentes, pederastia e jogatina. Dormindo nos guetos de promiscuidade, estado de mendicância afastado dos bens pelos parentes, por fim encontrado com punhal cravado ao pescoço estirado em valeta de chuva. Afirmado as autoridades que na noite do crime gritava a esfolar-se. Casos entre vadios não são resolvidos e enterrou-se o cadáver.
         Esfriara na ausência de carnificina perdendo espaço para Vantuir Fanir e sua Maravilhosa assistente, entre lonas montadas nos espaços vagos, animais exuberantes desfilavam soltos, anões maquiados arrancando sorriso fácil de crianças. O inimigo voltara grandioso, à cruz ao corcovado e o “Eu” no declínio. À custa do estúpido e suas privações.
         Se há ratos a devorar o estoque de inverno, os matamos cruelmente expondo a carcaça à vista a intimidarem novo saque, teoria que funciona com êxito a primatas. Havia a dar fim a certa ratazana.
    Aliança
    Assassinato fora das cortinas 
         Cortinas seladas e fuga a outras localidades, aqui não prosseguiria a ascensão.
          - Quem é Catanir?! Esnobe no direito de ditar regras para manter falsa imagem de ordem. No Burgo a violência oculta e nos subúrbios dissipavam doenças pedófilas, miséria e contratavam assassinos – numero de crimes que diminuiu quando podia exercer a arte.
         Não frequentava a periferia, provinda repercussão negativa enviava os subordinados a resolver e abafar o acontecido para que o odor da podridão não chegasse à classe de seus donos.
         Criatura de fictício religioso, soberbo a templos entre santos e crenças que no obscuro assediava pequenas inocentes de fora do burgo trocadas pelos parentes a favores da justiça concebidos. Verdadeiro conselheiro submisso a juízes e corruptos que o delegavam poderes de ação, desta forma agir em causa própria. O motivo de interditar a obra por aproximar de teus donos, enquanto enforcava e esfolava desafetos comuns coisa alguma o perturbava verdadeiramente.
         Esclarecer o que é comum aos abastados assediar filhas de subordinados como forma de demonstração de domínio, dominar famílias inteiras era sinal de importância.
         Não era momento de arrependimentos e tinha que assassinar um rato. Ratazana de importância que exibida enfraqueceria toda corja. Como aproximar-se de alguém singular.
         Catanir usava de influencia para satisfazer certos favores juvenis. Carsus frequentava o submundo, caminho pra onde os dissabores o enviara.
         Nos becos foi levantado à menina de seus olhos. Belo garoto de nove anos, olhos acastanhados e longos cabelos aloirados, verdadeira pétala entre daninhas, na flagela nascia flores formosas, exemplar que a burguesia possuía de raríssimo levado à insistência a misturar a carne com o povo. 
         Renato nasceu para servir. Pai famoso as carceragens e alvo fácil para satisfação de fetiches e trocou o filho pela falsa liberdade e as pretensões futuras do Lorde.
         A simplicidade conduz o projeto, funcionara melhor que ideias mirabolantes, como na mágica: deixe quebrar a cabeça quem quer descobrir o segredo e quanto mais procurar não enxergara a resolução próxima aos olhos.
         Subornar e iludi-lo a liberdade das garras do nefasto; fingir conselheiro e caridoso em relação a dinheiro. Convencidos a não concordar com a desordem que os flagelavam; induzir a tornar o ódio vingador dos lamentos contra o opositor.
         Obcecado e aguardando a oportunidade de agregá-lo a satisfação da carne.
         Os homens de cor ministram variedade de venenos não reconhecidos pelo principio de intoxicação, matando vagarosamente, o intoxicado definharia ate a morte. Há esse tempo homens cavalgavam como vento para as terras longínquas a trazer a formula da salvação.
         Sem demoras ao plano que incluía o pai que fora espancado após violência contra o filho a satisfazer os desejos do Lorde e partiu levando frutas, peras e pêssegos. As peras continham veneno, informação passada. Ambos morreram há exatos três dias.
     
    Aliança
    Na penumbra  acenda velas, pois o mal há de temer a luz!
     
         Na ausência de autoridade, bela coroa flores e financiamento de arruaceiros devido à briga que levara a morte nas ruas obscuras.
        O momento de mudanças.
         Partiram em viagem as dunas dos Iseros em busca de esclarecimentos junto ao maioral.
         Conhecedor de que pessoas chegaram a cometer suicídio, como o caso do Jornalista, a assombrosa morte de Johnson e esposas agredindo maridos e entre anormalidades de um grupo em particular que não sofriam nenhuma alteração, o dentista que prosseguiu após afogado pela mulher, o Tenente baleado no palco pelo subordinado – vingança a aparte - a majestosa infiel voltou à situação de encantadora beata a prazeres da Classe Clerical.
          - Criaturas impossibilitadas de fulgor e a na maioria somos planetas e não estrelas, na condição de planetas há facilidade de sermos habitáveis por espíritos e guiados por tentações. Mesquinhos demônios pregadores de ciladas. Ressuscitado os desgostos, enfraquece o espirito concebendo poder a quem adora maltratar. Contrapartida há seletos possuidores de farol particular a guiar dos corais e rochedos, dificilmente tratados como marionetes, apesar de perceberem o tormento de vinculo externo e visões para fraquejar...
           ...Honre os feitos e trabalhe unicamente contra os rivais e no caminho escolhido procure aproveitar a estadia, da eternidade o temor é que o terás e penaras. Ministre os empecilhos, venere unicamente esta existência, a futura não te interessa. Segue esta guia em prosa e separe por sua vez os justos das trevas
         Aconselhado pelo maioral partiu.
        O retorno e organização de forças, abandonado por Deus e dando atenção às trevas, não será coadjuvante.  
    Nova era
     
     
         Entender o motivo em não atacar diretamente contra Juliette e Fanir?! A resposta é precavida, não por temor trago por feixes de razão e conduta regenerada, precisava limpar o caminho, a melhor parte do plano é o final, a fuga prisioneira sem vestígios, o assassinato sem deslizes de provas. 
         Vantuir Fanir trabalhando peripécias e sombras dos pesadelos a carne viva avista no horizonte. 
         Antiguidades e promovendo alvoroço, artistas maquiados e animais interessantes da terra além-mar, como parte do theatro acomodável circo e novas apresentações, mantendo no interior os músicos e a aguardada carnificina. O clímax focava os enforcamentos, punhaladas e decapitação sem sucesso custando sanidade do instrumentista a propor algo impetuoso – necessário aprimoramento - tronco de Abeto, machado, sacos a engolir cabeças e o corpulento carrasco mongol. Entre serpentes diversas, não obtendo glamour.
         Passando a limpo os acontecimentos a que passivos tornavam-se assassinos e suicidas com abastado grau de crueldade, famílias inteiras dizimadas pelos próprios entes. Tal propaganda afastava os tementes, o encanto dissipava e mortes cruéis não traziam interesse, o pós-palco apavorava. O tutor aperfeiçoou no que diz respeito afastar os espíritos, chagando a ter controle da situação, às trevas encontrara o raiar. 
    ...
         Vagou deixando-se reconhecer. A mascara amigável apagada pela nevoa sombria do “Eu”. O evitavam e murmuravam tolices, venda de almas e vampirismo.
        O animo dos incrédulos variava por desafortunados e afortunados de luz – o aperfeiçoamento necessário - resultando tranquilidade posterior, levam medíocres vidas sem sentido, afastando assim observações indesejadas.
         A ausência de Santana e por via acabaram as perseguições. Os diários expurgavam vermes controlados, estando por cima das carcaças noticias ruim influenciam lucros, a difamação trazia pessoas de longe e manteve por mais tempo... 
         Observava Juliette nos eventos diversos da agora cogitada localidade,  conhecia os teus gostos e precisava atualizar as técnicas o copioso, adaptando e possuindo.
         Envio de flores e convites.
         Óbvio aos olhos dos Fanir prevendo a desvantagem e rejeitando comparecer. Ela Maravilhosa. Os anos e a atual maternidade a moldaram e embriagava felicidade, estado de espírito que não saboreou nos anos de convivência - o maltrapilho a construir o Império. 
         Nenhuma criação perdura, sentia no bolso, casa vazia, e a influencia nas paginas dos periódicos e a corrupção de autoridades. Lorde Del’volterrie  não comprava favores, fascinava pelo medo, facilitando a dominação.
    Ao pagar das luzes
     
         Sábado.
         Na multidão Fanir e sua formosa esposa.
        Preparativos de ultima hora a encorajá-los, abraços acolhedores a persuadi-los, engrandecer a presença de ilustres convidados antes que se blindassem.
         - Amados, temos convidados interessantes conosco, aplausos ao Senhor e Senhora Vantuir – indiferente às ousadias e luzes focadas nos assentos levantaram-se – Tenho fé que esse momento a muito desejosos presenciar. Para engrandecer e certo do querem todos farei o inusitado a investir a própria cabeça a frente do algoz – tom de sacarmos e gargalhadas ilustrava o fato acariciando a lamina da espada de parte do cenário, apetrechos a aperitivos como tochas, lanças, a donzela de ferro e tantas se tratando de tortura prosseguiu a rotina de terror.
         –  Para agrado de devedores e desespero dos credores, Senhor Deborath, vitima de sua obra – descaso - e que não haja duvidas sobre a veracidade, convido Senhor Vantuir a carrasco – alvoroço e falta de ação ao ser envolto e encaminhado pelos assistentes.
    ...
         Não há segredo que o ocorrido daquela noite havia sido minimamente maquinado junto aos anfitriões e que a angustia e a surpresa dos acontecimentos era incontestavelmente fortalecedora, o inesperado era sentir o odor de prazer, cheiro de fêmea no cio ou o lobo espreitando a presa. Tal essência vinda de Fanir.
    ...
                                    
         - Assumo imprevistos de responsabilidade deste teimoso, temos hoje a presença da autoridade policial para confirmar tal ato. – focando e focado por olhos apreensivos - Sem pormenores a ansiedade de todos. O Sensitivo não usará o manto da morte como de costume – deboche – emocionem, supliquem e convenção a desistir - sorrisos imersos com sabor de vingança.
          Descrente do ato a engolir o receio misturando odor provido do lobo o convidado se pronunciou.
         – Agrado e como conhecedor de técnicas de iludir olhos pouco treinados, acredito que nesta noite descubro o segredo – o maldito tentou sobressair à carniça – seguirá a imaginação dos presentes.
          No habitual; colocada à forca na ausência de capuz e atadas às mãos ao peso a queda mortal, instruído como proceder e único golpe o estalar dos ossos desta vez houve suspiros ao invés de gritos na multidão.
          O “Ele”  – demência – irreal e antes que os suspiros terminassem e o verdugo da magia dissipasse, o guru desceu a recolher o corpo amparado por assistentes a remover o cadáver. Frases inteligíveis recitadas e o “Eu” cambaleante no auxilio a ficar de pé, ressuscitado como Lazaro embelezado por cachecol dourado e detalhes rubros, forma de esconder a enorme marca que surgiu de tal empreitada.
          Explicações incompreensíveis à plateia e o ressuscitado. Incontáveis foram vitima deste ato, o charme contido nos atores da cena. Incrédulo procurando à lógica evadiu sem palavras e Juliette não demostrava consternação.
         Repercussão - Os magníficos mostram a que vieram – publicaram - Flores (ótima ideia ter ministrado Senhor Vantuir) e palcos seguintes lotavam os assentos e corredores.
     
         A exposição à morte e continuando a trabalhar com a sorte dos outros.
     
    Jogo sem cartas
     
         Atordoado queimava em descobrir erros e o ponto chave, palestras com assessores procurava alucinado a desvendar a farsa. Perseguindo conchave, subornando e não encontrando respostas satisfatórias para compreensão do  acontecido, chegando a contatar o triunfante.
            Aos cuidados de...
          Lorde  Del’volterrie.
     
          Convido-lhe a minha residência nesta segunda, para tratarmos de assuntos de interesse mutuo. Senhor e Senhora Vantuir jantam às 20 horas, com interesse de degustar cálice de bebida para esquentar o animo do corpo e cachimbo para a alma, lhe convido a comparecer às 19 horas.
     
          Sem demais o solicito.
     
    Segunda
    Dia de todos os Santos e veneração dos mortos
         - Indignado!?  Reconheço quando o adversário – Ira... - bases de muros fortificadas – indagou  sentado à frente da arrogante mesa a servir café de aroma aprazível saído das fezes de Luwak.  - No inicio – continuou – achei o espetáculo inteligente e toque teatral, cheguei a reproduzir feitos para aguçar colaboradores. Com tato e malicia realizo. – novo trago – Mas o aperfeiçoamento intrigou-me.
         - Excitei curiosidade ao fabuloso Fanir? – tom de ironia valorizando o artista e reverso da obra.
         - Depois de participar da estranha encenação – degustação – e por sincero a chamá-lo de gênio, insucesso em decifra-las - pausa – chega o ponto de não conseguir disputar espaço nesse lado do continente - tose programada - e para alegrá-lo, minha trupe deve partir pra o norte, deixando o aqui com o adoecido publico.
         - Interessante à proposta. Considerarei como proposta dividir o continente.
         - Negócios por melhor dizer – a saliva de misero jogador de carteado pairava nos lábios.
         - Estou velho e ao contrario de outros homens, a idade deixa-me audacioso e posso chegar a qualquer fronteira.
         Esplêndido sorriso! – Quietação na ganância não me encontra na situação de acabado, desconheço o engenho hoje e nada impede de sabê-lo amanha. A idade lhe alcança e a mortalha aproxima rapidamente. Esta difícil conseguir espetáculos que prendam o publico e por sincero depois que descobrir a artimanha, não sobrara tempo para criações admiráveis.
         - Aprecio homens que sabem jogar com as poucas peças que lhe sobram – idiota ambicioso – num suspiro intimo – devo pensar sobre a proposta, não descansara enquanto desvendar o ponto chave – risadas - havendo vantagem nesse acordo. Lançar-se-ia na aventura na posição de vitima ao árabe algoz? – sorvendo a acidez intensa do café Luwak servido em porcelana chinesa.
          - Sim! – exaltando o aroma agradável – indaguei a propor intrigante proposta.
         - O que alavancaria a carreira de ambos, refletindo propaganda no norte e florindo duradouro publico ate descobrir os segredos.
         - O que sugere?
          - Apresentação em praça publica. Idêntico a que há séculos ocorria nessa maldita província a atarem fogo nos hereges.
         - Lorde – sarcástico sorriso –Aposentando unisse-se a trupe, a mente mesquinha e maquiavélica é maior trunfo aos concorrentes, homem que duela com varias armas. A ganância maliciosa das ações dos obstinados. - Faremos.
     
     
    Capitulo perdido
         Desvairar sobre o amor e suas incógnitas...
         O que há de bom no fazer sofrer? Punitivo e investir contra a vida? Doença que submete a odiar.
         Como sentimento tido como simplório e glorioso pode destruir ao ponto atirar-se contra o que ama e contra a si na esperança egoísta que ninguém mais o tenha? Sentimento injusto devastador de corpos por mera luxuria do querer sem ser pretendido! O amor não passa de capitulo do mal, designado pelo Criador a nos moldar a tua imagem.
    Senhoras e Senhores
     
         Sexta.
         Noticia de pagina a reunião das partes - propaganda massiva do evento – expectadores vindos de províncias distantes se juntando a donos de theatros a cobiçarem as apresentações para lotarem suas arenas, prefeitos a colocar pequenos vilarejos no mapa a custa dos magníficos.
         Estando preparado e músicos em paletós pretos entoando musica alegre estilo festival, vendedores e trapaceiros embrenhados na multidão a buscar lucro fácil.
         Aguardada a chegada dos artistas dessa apresentação de sangue e covil de  humor negro. A busca por adoração da massa escrava das mentiras. As três figuras principais: a primeira superior na obra, desejoso de grandeza; a segunda tentando desvendar o sem fundamento, o impossível, arriscando o que conseguira – copioso do primeiro – ganância e descobrir forma de levar o oponente ao infortúnio. A terceira figura, a atriz, pouco importante do ponto de vista da apresentação, grande valor no desenvolver da conspiração, o inicio ou pretexto, “Ela”, o objeto para o capitulo final, acima do domínio e dinheiro, parte coadjuvante e mero troféu de possuída por Fanir, o poder de ter o que o inimigo venera. O terceiro assistia despreocupado com quem vença, e verdade que a vitória sempre é tua. O ditador da trama que invade mentes ambiciosas a guia-las a precipícios, o “Eu” sendo a própria Deusa disfarçada a agir sem levantar suspeitas.
         Del’volterrie o primeiro a comparecer postando vigias a volta para precaver-se da  dianteira. Majestoso, cumprimentando sem distinção de classes. Antecipadamente palestrou e respondeu perguntas e questionado de futura aposentadoria – alimentados por comentários - entre sorrisos manteve-se agradável; o que não pertencia a seu caráter.
         Breve chegaram os convidados - Ele receoso e Ela bela – junto Delegado Santana a completar a equipe do Lorde.
         – Saiba que é responsável pelos feitos – indagou a ar de desculpas, precisava esclarecer as normas da lei – é conhecedor que deslizes será preso por assassinato. – Esclareceu o cão ao dono.
         - Bem! – continuou o corruptível – não derretem amores havendo falhas se complica.
         - Agradecido pela preocupação e tomadas precauções – agradável tom de voz - noite especial e particular – Aproximação dos Fanir.
         - Estou pronto!
         - Esta cada dia mais bela - beija a mão da ex-esposa – percebo que esse velho não lhe era atencioso. O publico impaciente, começam a dispensar a propaganda de que tudo passou de traquina.
         Juliette acomodada na primeira fila, à esquerda o delegado acompanhado pela infantil esposa de quatorze anos, luxo para um homem gordo e mal educado. A direita de ambos a lamúria. Atores apresentados, nas proximidades os agentes de policia e junta de médicos tragos cuidadosamente por Fanir. Protagonistas  em conversas banais a quebrar a tensão.
         Moldando o laço da forca à base, enquanto atava divertia-se. A aflição visível e notada de Fanir que poderia desistir e o pressentindo o fez acelerar os trabalhos.
    O Ato
     
     
         - Esta noite daremos o melhor, além de enforcar ilustre rival – o colocar da corda – descer do corpo com próprio peso e ouvirem estalos de ossos, para não terem a menor duvida da veracidade do que presenciarem – reagiu espreitando a entender a tramoia e a procurar algo a impedir o estrangulamento - digo que somente hoje vou separar a cabeça do corpo com esta espada – descrente ao termo “decapitar” saindo do estado de atalaia e visivelmente desesperada - fria lamina e o puxar da alavanca a queda, falta do capuz a proteger os olhos dos olhos do publico que observou a separação da cabeça e o ato de segura-la como troféu erguido aos presentes.
          As autoridades acompanhadas pelos médicos e por não menos atordoados alguns ilustres que frequentavam as primeiras filas agindo para colocar as coisas em ordem. Lorde Del’volterrie calmamente apoiou ao corpo a cabeça de olhos entreabertos em tom sombrio de angustia com ajuda dos assistentes o manto da morte.
           Publico duvidoso do ocorrido, espantado, o delegado submisso às ações, faltava coragem a atitude que tomar. Corpo apoiado no assento auxiliado pela equipe.
           Moveu-se. – pavor e sangue – expressou grito agudo apavorante – reviravolta - incrivelmente retornava os sinais vitais entre aplausos descontrolados dos que presenciaram o ocorrido – autoridades consternadas entre médicos desconexos e a frieza de Juliette o menos perceptível.
    O  inicio  do fim
     
          Dias de grande alvoroço, a imprensa alucinada atrás de entrevistar os protagonistas. 
          Lorde Del’volterrie se autopromovendo, Fanir isolado por não conseguir escapar dentre pesadelos e tormentos da ressurreição. Incubado recorda dos aplausos e de ter sido recolhido ao hospital a confirmar que realmente estava vivo, anormal apenas a cicatriz emplastada onde supostamente  teria sido decapitado. O pânico e o silencio à aproximação dos médicos, a face fria e os aplausos. Unicamente os aplausos traziam na alma perdido sem fundamentos a finalizar.
          Definhou o grandioso. Visivelmente não o mesmo obstinado. Agravante o estrondoso sucesso do opoente. Del’volterrie viajando para o norte a promover motivadas apresentações. Desta vez sem Fanir vagando entre duvidas e incertezas.
         Coube a  Julliete assumir os negócios, longe  das garras ambiciosas do Lorde que apoderou do papel de “Viajante devastador” a devorar novas plateias.
         Ela dirigia a mérito, assumindo palcos e comandando como aprendera a acrescentar toque pessoal, investindo no fator família, evitando o publico de  doentes pelo gosto da morte e ilusões que arriscam a sanidade. O retorno da simples magia, trapezistas, animais exóticos e pequenos anões a arrancarem sorrisos de adultos e criança, agregando músicos. Iluminava enquanto o marido embriagado na loucura.
         O “Eu” deliciava-se com o obtido, envolto por riqueza e luxuria.
    ...
         Chegado à madrugada fria de meados de inverno e o fim das angustias de Fanir, abominado pelos teus e afogado em ilusões, a coleara a leva-lo as grutas do inferno em gruídos de perdão.
    O demônio me prometeu a você e jurei te fazer sofrer
     
         Ciente do trágico acontecimento “O Ilusionista Deborath Del’volterrie” retornava se predispondo a auxiliar a viúva.
         Lorde envolto em cínicos pêsames e maliciosos agrados de fartura oferecendo prontamente a quem não os renunciou retornando a sua proteção antes da primeira estação pós-morte.
         O casal unido reinando sobre o publico, da riqueza e do glamour a mercê da eternidade na memória popular. Julliete manteve os negócios separados as atividades diferenciadas, abrangendo o grande público.
         O assassino manteve administrando a carniceria, centro de demência humana aonde miseráveis de amor próprio vinham para praticar o que o coração pedia e a ordem social não permitia os atos de sacrificar sem serem socialmente punido.
         Desejo de matar. Gosto divino empregando inovações a golpes de espada, estrangulamento e cólera, preocupando unicamente ressuscitar os desamores a cínico bem estar da sociedade. Cessando após os massacres os enlouquecidos, se almejava algum corrupto mesquinho, autoridade ou político fanfarrão rifava a sorte destas aos hospedeiros. Sendo o diferencial é que nada ocorreria, aprimorara a técnica de dominar os errantes, no geral sem efeito maléfico aos demais, promovendo conservadora e hipócrita segurança a participantes assustados e  desconfiados com boatos  de perturbações posteriores.
         A união perdurou...
     O ilustre cavalheiro do paletó desgastado pela maresia. 
    Nuvens de poeira surgem, o  vento  vem trazendo consigo o odor de purificação do mar.
         Vestimenta de corte  alinhado e  fora de época a interessante figura despontava na localidade, acima o sol escaldante maltratando quem levava a medíocre existência, a população perturbada pelas  fulminantes apresentações do Lorde, o numero de mortes acentuava drasticamente, efeitos colaterais diretos aos intrépidos pendentes alastravam nas residências, pessoas assassinadas por entes vingativos - havendo coragem para aproveitar a oportunidade fora dos aplausos – motivos diversos, propensão a eliminar desamores e  posteriormente decepcionado por ter de volta o opositor, chegando à motivação do “Eu” pelo prazer da situação terminavam o martírio após o espetáculo.  Casos interessantes como a esposa jovem e frágil a ter ajuda dos assistentes a colocar o idoso marido no cadafalso devido enorme peso do estrapilho flatulento, depois do feito e chegando a casa, a efêmera mulher sentindo o gosto da coragem, enfiou a faca que estava á mão no pescoço do mal cheiroso quanto reclamava da comida – Imprestável! Saberás o porquê tirei você da casa de sua mãe! Queimaste o bife – ultimo desaforo. Mera doença de caráter... 
         Costume local nos meses de verão encontrar as ruas jovens solteiras e senhoras em sombrinhas acompanhadas de pretendentes a monótonos passeios, novidade o visitante distinto dos demais a chapéu de cor clara, diferente ao usual dos que vivem nesses cantos do mundo. Altivo trazendo consigo pequena maleta de estilo porta documentos e simples mala na qual estaria seus pertences. Apresentava-se como especialista em  psicanálise e esquizofrenias, Doutor Leblor de Samante, vindo de alto mar por assim dizer, tinha como oficio cuidar das mentes de marinheiros que enlouqueciam na meia nau dos navios e como hobbie a desvendar e desmentir possíveis sereias, embarcações assombradas, acrescentando quarenta anos de buscas e nunca sequer presenciou vulto inexplicável.
         Homem esbelto de pele bem morena a marcas deixadas pelo sol agressivo do mar. Encantador na educação e perturbador em questionamentos e  logo mostrou a que veio, acometido por comentários a respeito do carniceiro que assassinava e ressuscitada à bem querer, como Jesus a Lazaro e relatos intrigaram-no a comparecer a terra firme e comprovar a fonte do fascínio ilusório desse genioso artista de façanhas demoníacas, descritas assim por muitos.
         Instalado envolveu-se nas causas clinicas local para sustento no período que fosse necessário a concluir a tese sobre as peripécias de Senhor Deborath. A população temerosa à palavra transmitida pelo  missionário local, não levantando nos sermões os feitos e desfeitos do Lorde, custoso manter o templo impecável a base de doações dos fieis, convencer a Deus da deficiência humana é mais fácil que agradar os porcos locais dos domingos.
         Passando-se semanas a chegada do inconveniente, O Lorde precavendo-se da existência do mesmo logo que começou a perguntar aos cantos dos ventos as quais paredes tinham ouvidos e as janelas vozes, verdade que de inicio não deu atenção, afinal curiosos apareciam a todo instante, havia timbre nos interrogatórios, aprofundava questões banais e alheias às preocupações, não resumia a entrevistas a carentes de atenção, procurava se envolver na rotina local e principalmente remexer o passado das vitimas.
         Senhor de postura minuciosa, acostumado a publicar teorias e fechamento de pesquisas, famoso em grandes periódicos pelos trabalhos, desta forma poderia chegar claramente aos temores do povo e trazer alivio e tornando assim publica as descobertas de farsas a fenômenos inexistentes.
        Não tardou a visitar as apresentações e confirmar com próprios olhos as ocorrências que o intrigavam tanto. Participou como parte do publico varias vezes sem sucesso a ser convidado, Del’volterrie conhecedor dos interesses do Doutor o evitava claramente chegando mesmo a se confrontarem com palavras em dado momento.
        - O Senhor é homem de grande valia para nossa sociedade e não arriscarei que algo de errado com vossa pessoa.
        - Estando aqui esta noite tenho o mesmo valor que qualquer cidadão neste recinto.
       - Não se trata de mera ilusão, cada espirito tem sua hora e esta noite concluo que não é a tua – em tom ameaçador – mas a data não tarda a chegar.
       E rapidamente surgindo o melhor escolhido para aquela apresentação.
      Retorno ao passado 
     
        É de conhecimento que Claúdios  fora encontrado desiludido nas escadarias do theatro no inicio da manha e que não dizia conformidades choramingando divergências da infância e em consequência fora conduzida para tratamento a casa de repouso ficando confinado, isolado do mundo real e preso a papeis ate a morte por suicídio.
         Doutor Samante engajado como psiquiatra voluntário do recinto junto aos enfermeiros que o acompanharam, tendo assim privilégios a confissões inusitadas a requintes de crueldades supostamente praticados pelo escritor de passado de luxuria. Nunca deixou de escrever, na maioria banalidades sem nexo e realidade, entre folhas devoradas não expondo a outros olhos, contrario de alguns desenhos estúpidos deixados a quem mostre interesse. Escritos foram lidos, mostrava o lado usurpador de derrotas e conquistas, defendendo os íntimos lutava ate sangrar os saqueadores e a si próprio, força incrível emergida de homem de aparência frágil e pensamentos ambiciosos e mesquinhos. Demência perturbadora instalada, narrações sem sentido, acidentes que havia descrito no tabloide, acontecimentos ocorridos no passado, grande quantidade de poemas, ameaças a pessoas que por intermédio de franca investigação descobriu-se fazerem parte da infância burguesa, relatos de assassinatos, bajulas e casos de abuso a menores.
         Desabafos de mente cansada, Claúdios fora molestado na infância e em detalhes o real pairava assombroso e delatava que fora molestador pouco investigado pela policia, caso que dava a Leblor afazeres a visitar a majestosa Mansão  localizada a leste e procurar detalhes explícitos da imensidão das verdades do jornalista, comprovar rastros de veracidade nos rascunhos, nenhum registro nos altos policiais, sendo culto e viajado que em estado de insanidade descrevia verdades perturbadoras.
    Bonecas de carne.
    Escritos de Claúdios em papeis amassados e que foram usurpados
      Parte de anotações
         Devorado por vermes o medo intimo, a boca de cada parasita representada por dentes cor de mármore e lábios ensanguentados e beijados.
         Estripar: tirar as tripas; rasgar o ventre; matança.
        Carnificina descrita a cada nota que transcreverá adaptando a lógica das palavras fugindo de detalhes regados de insensatez do doente.
      As telas
         Constatando a existência de vitimas é certo que  não as amava, apenas desejava possuir os destinos, roubar o néctar para saboreá-lo: síndrome de criador, fato comum aos participantes da notável conspiração precedida por Lorde Del’volterrie.
         Inúmeras passagens sobre esquartejamentos e sangue supostamente usado na pintura de quadros que figuravam imagem, além de escritor eram talentoso desenhista, provido de qualidade artística, loucura tratada como forma de arte desumana e bizarra.
     
    Vampirismo
     
         Desde os primórdios o sangue é representado como ícone da vida. O sangue correndo nas veias significa a continuidade do viver.
         O desespero insano levou Claúdios a prover de dieta de sangue, não das fêmeas que eternizavam a imagem, absorvendo sangue de varões levado à percepção de virilidade somada à eternidade de corpo.
     
    Espelhos vivos
     
         Narrativas da Mansão herdada e localizada no conjunto de montanhas - filho de burgos de antepassados escravista - herdou majestoso imóvel de cômodos amplos, entre eles o citado como a sala das crianças. Indicava grandiosos jardins e entre imponentes e seculares Bétulas situava o cemitério de garotos que serviram de banquete.
         A sala das meninas em espelhos circulares que tomavam as extremidades do recinto, atrás como descrito pelo doente às escolhidas a mérito devido à beleza diferenciada. Tiveram as línguas cortadas e os lábios costurados, enclausuradas viva por trás dos espelhos de duas faces para eternamente assistirem aos clientes do ambiente sem serem notadas e impossibilitadas de exigir socorro ate a morte do corpo, no intuito de manter aprisionada a alma.
     
     
       Dentes cor de mármore
     
         Caso confirmado que o escritor era financiador de sequestros e negociações com mercadores de pessoas.
         A menina de dentes cor de mármore, demonstração de afeto baseado na necessidade de possuir a essência. Raridade de beleza infantil que fora adquirida como descrito no amontoado de folhas soltas - não ficando claro a direcionar o local. Beleza incomum descrita como a imagem de Sereia, a entidade Grega na alvura e aparente desejo ao conjunto face, lábios e chamativos dentes cor de mármore, pela igualdade de formação da boca, a brancura e brilho do sorriso furtava com facilidade ao agradar criança de seis anos – informação relatada – iludindo presentes e receber pelo ingênuo sorriso “branco”. Inocência à venda para o primeiro burgo disposto a pagar pequena fortuna para deitar com a virgem, preço desprendido para não apenas violentar a carne e despejou nos bolsos dos mercadores boa parte dos bens para apoderar-se de joia rara.
        Proprietário da inocência e por curto tempo chegou a venerá-la demorando a dar inicio a arrogância humana, logo que o sonho de ter companhia em estado de igualdade diluiu começaram os rituais de escravidão sexual, torturas e agrados insanos. A arte o maior quadro da sala, diferente das demais pinturas o fluido retirado agonizando dores em cortes feitos no minguado corpo – respeito maníaco pela face – talhara espelho especial e diferenciado para tê-la confinada a eternidade ao bem prazer retirá-la para repetidas horas de violência ate que o corpo desgastado pela sucessão de absurdos perdendo a formosura. Os lábios já não possuíam o sabor e desfizera a beleza dos traços, apenas o formato da boca reservava tom de formosura à mesma perfeição que achava dono começou a incomodá-lo e dela arrancada a sucessões de golpes de próprio punho a levando assim a morte.
         Da lembrança restou o quadro, encarcera-la ao espelho não poderia por estar morta. Enterrá-la entre os carvalhos seria repartir, providenciou sepulcro especial a enterrando no meio da sala e ergueu enorme mesa de pedra para almoços solitários.
     
    Nota particular de Leblor
          Há provas dos feitos guardados na Mansão, possivelmente sepultado junto à adorada.
         O que o levou a deixar promiscuidade explicita: O alto valor destinado à aquisição da Sereia o tenha o desprovido de dinheiro, talvez pressões locais aos acontecimentos que não de todo escondido. Ou alargando o circulo para aumentar o leque de possibilidades de encontrar outra companhia, insatisfeito com a solidão. Fatos a verificar visitando a propriedade.
    Assistente Johnson
     
         Acerca do assistente de palco pouco a apurar, entre vadios a verdade é falsaria ao medo de serem indiciados. De concreto que a loucura o teria dominado. Em conversa com a Viúva Senhora Smith obtive-se que o marido já retorna estranho desde a apresentação.
         - Nunca foi pessoa exemplar, mas falava sozinho confessando erros passados e investia em pedidos de perdão até o dia em que abandonou o lar. – Confesso da Viúva.
         Delírio de possessões demoníacas e perturbações insultavam vultos e cuspia adivinhações e mau agouro. Encontrado com punhal cravado no pescoço na obscura alameda dos bêbados logo após ter praguejado contra o comerciante que negara servi-lhe – Essa pocilga transbordara sangue nesta noite de lua cheia, quando os ânimos dos assassinos saem pra deleitar do clarão da lua.
         Sucedido na alameda, levando desconfiança que o comerciante encomendou a degola de Johnson, o interessante é que naquela noite bandos de soldados embriagados a vodca barata desentendeu-se e o novato exaltado empunhou de arma de fogo e proporcionou vários disparos a esmo, deixando corpos espalhados pelo salão.
         Testemunha apenas à mulher que o acompanhava a dividir garrafa de gim que afirmava veemente que relutava pronunciando blasfêmias contra o invisível e degolou-se com canivete e poça de sangue.
    Nota ao Folhetim
         Indicar culpados e ser imparcial aos percussores. Cabe às autoridades locais esclarecer os crimes e punir os culposos.
         Á Vantuir Fanir vaga acrescentar, isolado estado de insanidade não possuía empregados ou a quem esclarecer o ocorrido nos últimos instantes de vida, acrescentam que por situação pitoresca de possível triângulo amoroso, alargou os braços do primeiro marido ao encantamento do opoente e precocemente retornou ao dono original, principal motivação da morte, o casal novamente unido antes da data de aniversario de falecimento.
         Johnson Smith e Vantuir Fanir dialogavam com demônios e por fim deu cabo às vidas em suicídio, o primeiro confirmado por degola e o segundo enforcado na solidão do lar. 
         Duvidas da existência de forças sobrenaturais, certamente houve uso de alucinógenos, induzir a ação desejada à plateia e efeitos colaterais posteriores, é que por trás das mortes o Lorde Del’volterrie totalmente responsável.
    Assuntos pertinentes a observações
     
          Precavido abriu viagem à província distante e providenciou que Leblor fosse assediado pela lei corrupta o impedindo de continuar sobre ameaça de prisão por perturbação da ordem é incentivo a calunia. Pesava a pressão religiosa pregando que a ciência da psicanálise é afeto pernicioso a fornicar as mentes dos fieis filhos de Deus e induzi-los a fraquejar diante da Fé. 
        “Conclusão que na falta de provas materiais que por meio de entorpecentes e ilusionismo profissional Lorde Del’volterrie ludibriava em ato de mestre e somado à insanidade do próprio publico. Relativo às mortes, não há indícios de homicídio real nas dependências do theatro, orquestrado por conjuntos de arte e perspicácia do apresentador, nada de físico ocorria verdadeiramente. Ressalto casos que não serão confirmados, pois o artista cessou apresentar-se.”
    O fim por um segundo
     
         Samante publicou as informações e logo espalhou alvoroço, deixava claro que: A loucura absorvera os envolvidos, traga pela pressão de serem massivamente assediados após teoricamente ressuscitado, ha alucinar mentes de histórico de demência, não afasto falta de clareza e ligações do Lorde com os suicídios, não como agente direto e sim como indutor. Acompanha a matéria dados importantes de pessoas de grande importância dessa trama: mortes de Claúdios, Fanir e termino a pendencia a Johnson. Recomendável investigação policial fervorosa.
         Nota final de Doutor Leblor, preferencialmente guardadas ao retorno de Del’volterrie e mesmas palavras foram lidas na presença de Julliete.
         - Idoso cozido pela maresia e injurias – indignação – exigirei que malvisto explique-se – jogando as folhas a mesa retirou.
         - É a opinião de um homem livre, e é que comentários são antigos.
         Entrevista não proveitosa.
         - Surgir do nada e difamar qualquer pessoa de bem?
         - Irei convidá-lo a comparecer a delegacia e Doutor Samante não é o desinformado que possa ser coagido por convites.
    No sétimo dia Deus descansou.
    Na ausência o Demônio criou   a humanidade.
         A entrevista com Delegado Santana abriu feridas em corações rancorosos.
         - Por sincero desprezo as opiniões do Senhor e do Lorde – entre cachimbadas, acrescentou – levantar suspeita contra quem quer que sejam baseados em pressupostos relatos de loucos. – Continuou – Criticar a vida alheia é parte do instinto de sociedade ao contrario de incriminar, citar nomes é injúria.
         - Vejo comodidade nos casos bizarros que assolam a localidade.
          - Não tratamos de pessoas com suspiros de devaneios, lidamos diretamente com escorias a retirar das ruas. Nada há se constatar nas mortes recentes.
          - Seu antecessor não tinha a mesma opinião sobre os acontecimentos e coincidências.
         - O que Catanir suponha não tem valor jurídico pela falta de escrúpulos a situação que o levou a morte.
         - Tenho motivos a aprofundar o assunto caso conseguir conversar serenamente com as famílias.
         - Traga-me algo qual possa responsabilizar alguém criminalmente, cessando o incomodo para os cidadãos a boatos calamitosos. – baforadas – Evidencias e colocarei a experiência a fim de levar a julgamento o culpado e cumplices. –olhar confidente – encarcerarei quem quer que seja.
         Fim de palestra restando o encontro a belas  montanhas. 
     
     
    O covil
         Estando Leblor a distancia, Del’volterrie entregou os agradecimentos ao Delegado e obteve segurança para reiniciar as atividades. Motivo do retorno pela presença de Monarca que viera exclusivamente para acompanhar o magnifico devorador de almas – novo pseúdos artístico – apresentação a excelentíssima autoridade a frutos promovidos a espaços grandiosos e vantajoso ganho financeiro para homem de idade avançada que cogita furtivamente a afastar-se dos aplausos - conferindo a mente embriagada pelo carisma de Julliete e Osório Vantuir - a deixar o legado à família. 
         O coração de pedra moldado pela conveniência mostrava-se amolecido em oferenda a sorte.
         Programado surpreendente espetáculo para impressionar a comitiva do monarca. Movido pela harmonia que a esposa tinha a oferecer em novidades circenses, a estrutura planejada, transbordaria a província devido à propaganda massiva conseguida devida fanatismo do cativo publico. No geral nada de especial sairia de dentro do theatro, a carnificina tomava rumos previstos ha tempos, a falta de criatividade assolava. Procurou maquinar o surpreendente na receita óbvia.
          - Agrada colocar-se em risco!? – indagou Julliete.
          - Ideia esplendida. Senhores de características escravistas adoram possuir vitimas. O proverei de chance de sacrificar sem ser julgado pelo ato.
          - Trabalhe com o simples. Abra mão do almejado e não tenha receio de repetir o feito do decapitado.
         - Genioso!
    O dia
         Tutor encontrando-se acamado na semana da apresentação trazendo receio a continuidade. Presença do monarca acertada. Pequeno detalhe não poderia estragar os planos de aposentadoria, cominou retornar o Tutor à terra dos Iseros e trazer outro feiticeiro para terminar a incursão ao novo mundo. O tempo interagindo contra.
          Desconhecedora dos prognósticos do evento. – confie a tarefa a Carsus – frieza das palavras.
         - Vale o risco. Terei com Carsus conversa detalhada. – concordou o Lorde.
     O violino
     
          A multidão comprime-se em volta da forca erguida no centro da grandiosa praça. Junto dos degraus que conduz ao cadafalso, o carrasco, Carsus, espera de pé, flanqueado por dois ajudantes... O calor é opressivo, e em toda a praça reina o odor mefítico de sangue.
         O monarca apresentou-se acompanhado da segurança pessoal a mantendo distancia. Palavras de animo recitadas pelo anfitrião, o entrelaçar da forca e o descer do corpo e estalo dos ossos e a sequência Carsus apresentando a espada da morte – a guarda do monarca antecipou-se – procedeu a decapitar Del’volterrie. Ao termino corta-se o silêncio como se fosse nevoa.
         Entoar de solo proveniente de violino desconhecido nas apresentações anteriores à corja de músicos. A cabeça decapitada exposta em forma de vitória. As palavras recitadas no alvoroço da plateia. O manto e a ressurreição a solavancos de desespero do renascido, o que se sucedeu a Lazaro? Pavor dominava e aos gritos trazendo angustia aos presentes, insensivelmente a pequena violinista desbravava agressiva beleza de entoadas, introduzida por Julliete.
          A falha? O corte não cessava de esvairá sangue necessitando do auxilio médico e em e solos fora levado apressadamente.
    Imprevisto leva Lorde Del’volterrie a cuidados médicos.
    Noticia do dia seguinte. 
      A mansão
     
     
          O viajante desembarcou na estação ferroviária entre as montanhas de inverno constante e pessoas reservadas de hábitos caseiros. Não providenciou acomodações duradouras, o mar o aguardava, marinheiros entorpecidos por ilusões por longo confinamento longe de terra firme. Permaneceria o suficiente para confirmar existência do calabouço relatado pelo enlouquecido em confissões escritas.
          Determinada localização de excêntrico morador e informado que esteve na propriedade dias antes do período manicomial.
         De parecer pelo tabelião que fora bastante assediado a vender a propriedade e resistiu por longos anos e motivo da ultima visita fora para assinar documentos de transferência do imóvel. Indagado pela identidade do comprador não revelado.
         Em entrevista que era de conhecimento popular a obsessão do morador e devido à grande importância política da família nada de concreto a coibir as taras dementes. Questões sexuais com crianças abandonadas não agredia a rede corrupta e burguesa, ouve reação quando espalharam boatos de tortura e assassinato, boatos não levados a finco, medida precavida exigir que afastasse da região por necessário a que injúrias fossem arquivada nas mentes dos moradores.
         Seguiu a propriedade para desvendar os segredos dos bosques, os espelhos e da grande sala e imponente mesa sarcófaga. Instruído por guia local continuou o trajeto a cavalo por sombrias estradas perdidas entre gigantescas arvores maltratadas pelo frio constante, extensas áreas sem sinal humano, coberto pela neblina e assediado por carnívoros. Frio devastador e subidas íngremes avistaram no vale cavado pela criativa natureza à Majestosa Mansão. O tom de inverno dava à maravilhosa arquitetura ares de morte as edificações interligadas em único conjunto, modelando o castelo nas montanhas. A cada aproximação janelas curvas despejavam formas e complemento do prédio apresentando no decorrer do caminho transposto ate a entrada dos portões em muros de madeira e pedra desgastadas com o tempo, a de percebido pela preservação do imóvel que ainda possuía riquezas.
          Transpôs a muralha a procura dos serviçais, irreal que majestosa arquitetura abandonada a saqueadores. Uma carruagem avistada sem cocheiro e cavalos. – ouviam-se os relinchos – caminhou em direção à baia e visualizando os animais envoltos em mantas negras a conforto do frio. Vasculhou nas proximidades, efetuou gritos e chamados e ninguém a recebê-lo. Forçou as portas laterais do conjunto. Partiu para a seguinte, trancadas e inclusive as janelas. Circulando o anexo, conferindo maçanetas e chegando a interligação do novo edifício. Percorreu ao segundo edifício e depois de insucessos encontrou a que vacilou em abrir, podendo investir ao abrigo.
          Maravilhado pelo conjunto de peças completando a dispensa e cozinha direcionando ao corredor a ocultar sombras do que seriam cômodos menores. Insistiu procurar sinais insucesso. Seguindo o corredor deslumbrando obras inusitadas de pintores abstratos, além de exposições de enorme criatividade e assinadas por nomes considerados. O corredor anunciava pequenas salas e corredores demonstrando assim como figurava o conjunto de união dos edifícios, pequenas salas repletas de livros, pequenos museus e outras simplesmente vazias como a esperar que lhe dessem alma. De prédio a prédio, escadas que levariam ao piso dos aposentos. Não investindo ao andar superior anunciou-se sem resposta. Levando-se ao mais extenso.
          Sala de enorme porta que dava para entrada da mansão e novo conjunto de escadas ao piso superior, candelabros descuidados de limpeza, mobílias antigas de ares espanholas e quadros de artistas consagrados, verdadeira fortuna. Pequena câmara e conjunto de louças e ornamentos talhados em pedra chamavam a atenção a aproximar de peças destacadas por não completarem o conjunto dos moveis, pia enorme adornada em ouro e a frente do lavabo o espelho de cristal revestido de poeira mostrava igual valor, tal peça dava a robusta porta de metal que transposta ao encontro do procurado.
         Confirmada a sala de sombria, grandioso espaço e seus espelhos vivos a quadros que extrapolava arte nas falhas de pincel e marcas de digitais de ponta de indicador. Veio à mente o que havia lodo e visando pelas janelas obstruídas da luz por cortinas espessas que afastadas refletiu os a floresta de carvalhos. Centralizada enorme mesa talhada e abaixo estariam sepultados os restos mortais. A intrigante sensação de observado friamente pelos enormes espelhos dominantes do vão do local, excluídos quadros pintados a sangue das vitimas confinadas, tinham ar de socorro, pedido de misericórdia e vontade de liberdade.        
         Entorpecido pela cena investiu contra um dos espelhos a cadeira de cabeceira da mesa. Dificuldade para quebrar cristal de espessura inigualável, chegando a trincar sangrando as mãos a agressividade dos filetes, revelando partes da mortalha levando a múmia à liberdade. Impactado pelo terror que passou na maior parte da vida a procurar desvendar.   Falhou o fôlego ao ato de desespero e veio à mente que atrás de cada espelho acondicionava corpo mumificado a pedido de socorro.
           Abraçou o cadáver procurando força pra libertar os demais, ate a angustia ser quebrada por palmas investidas dentro da sala da morte.
          Aplausos!
         – Duvidamos que chegasse tão longe! – silencio – Não o recomendaram retornar ao mar?
          O rosto familiar, tal robusto homem servo do Lorde. Por que abutre aqui se encontra? Confuso levantou vacilante.
         - Calma, te ajudarei – Carsus ao auxilio.
         - O que faz aqui? – indagou ainda confuso.
         - Vim receber grandioso visitante a casa dos Del’volterrie. Se anunciado eu mesmo haveria lhe mostrado a propriedade.
         - Responda-me! É propriedade do Lorde?
          - Este não participa. – apoiando Leblor e lhe passando a cadeira, a qual investiu contra o espelho. – Estabilize a cabeça cansada e reflita.
         - Você é ligado diretamente às vontades dele. Qual a trama escondida aqui?
         - Caso de família. – sorrisos – O Tartufo foi marionete na organização dos acontecimentos.
         - Qual corvo assumiu tal providencia? – tentou levantar e detido por Carsus empunhando arma de fogo.
         - Quem mais poderia? Não me decepcione, use a imaginação. Vasculhe a periferia dos fatos e pondere os envolvidos, assim enxergara a frente. Reflita velho idiota.
         - Não vejo inocentes na escoria, são lobos devorando lobos.
         De cabeça baixa a escorrer o sangue devido à investida, percebe novos passos em sua direção, passos singelos de saltos de quem sabe andar com classe entre os poderosos. Levantou os olhos na iniciativa de avistar o novo anfitrião.
    Abismo
     
     
           Do erro o público será desconhecedor, afinal a pratica de tirar e devolver é parte dos frequentadores viciosos dos palcos. Fugindo do controle, pequeno detalhe despercebido à ausência do homem de cor. Carsus seguiu as normas como designado e o tempo revelará a verdade, de consistente Del’volterrie dirigido a cuidados médicos devido à corte na jugular que quase o levara a morte real.
           Devido acidente com o ator principal e a fragilidade vital, estado de recuperação precário à grande quantidade de sangue perdido, a aposentadoria a fiasco, a desistência do monarca.
         No coma permaneceu assistido por poucos. Julliete incumbiu-se a dar fim às insanidades do esposo, não haveria espetáculos sangrentos, apenas a arte que tornara praticante.
          O afastamento do Lorde que passando os últimos dias confinado, e desiludido de total recuperação física. Vitima e conhecedor do que havia dado errado enxergou dentre os olhos do agressor o cinismo da vingança. Porque Carsus recitara a Lira da sobrevivência pela metade? Quem introduziria o violino estarrecedor de genialidade e servindo para ensurdecer a fascinar os espíritos vagantes as apresentações à procura de solos? O covil de víboras saciado pelo próprio convívio, Carsus revela-se infiel. O solstício final, idêntico aos que receberam tratamento cruel, os espíritos o perturbariam ate que esbarrasse no abismo da loucura o levando ao suicídio quando cansassem da carcaça. Estapeado pelo próprio punho, comedia irônica.
          Preso aos desejos do acusador. Carsus mostrara-se autêntico na função de privar a vida, unido à acusadora Julliete formando o júri em que Del’volterrie seria condenado há esperar o ultimo suspiro. Embriagado por visões, trancafiado a demônios e sobre vigia a evitar encontrar a saída na morte. Palestrava noites seguidas com Johnson, insultava Claúdios entre deslizes de amizades no tormento trago pela presença de Vantuir, os sacrificados pela viúva negra.
     
    A anfitriã 
         Cabisbaixo sangrando a face devido à investida violenta sentia a movimentação de passos de quem sabe caminhar entre os poderosos, levantou os olhos na intensão de visualizar arredor.
         - Espantado!  – a visão do inesperado.
         - Senhora Vantuir a maestria dessa orquestra. E Lorde Del’volterrie?
         - Desatualizado. – dirigindo melhor anglo de visão – Meu esposo sofreu terrível acidente estando a cuidados médicos.
         Aproximou-se que o odor de almíscar lhe invadiu as narinas. - Direito de viver é merecedor pela investida em desvendar a trama e apontar os culpados. Homem digno por estar agora em nossa companhia.
         - Vamos dar fim ao intruso – propôs Carsus.
         - Acredito que tenha o direito de saber a verdade antes do fim. O que os levaram a infidelidade ao Lorde?
        Carsus preparava para efetuar disparo contra o Doutor, quando Julliete interferiu.
         - Filha das ruas e vendida na condição de servir? – puxou para si outra cadeira da sala – Ter o destino talhado. Usurparam o direito de infância de carinho materno e aconchego e proteção da comunidade. Acredita que chamam isso de batismo! Apresentar o recém-nascido à comunidade para esta o guardar de mercadores e pedófilos.
         - Por sincero que compadeço da sua dor.
         - Dor em ser vista como carne, passar de mãos efeito mercadoria de troca, tratada como brinquedo sexual por homens enriquecidos pela exploração de servos. Entregue a Claúdios; inocência aos sete anos. – lagrimas – parte da encomenda de oito crianças traga para a mansão e violentadas pelo maníaco no covil de sociopatas. Graças a Carsus não fazemos parte da arquitetura desse lugar. – suspiros de lembranças ferem – empreendemos fuga devido a descuido dos embriagados. – abaixou a acariciar o chão – Sorte não tiveram os que ficaram; os garotos foram enterrados vivos. Fugitivo para as montanhas ouvindo as suplica dos que permaneceram. – Ergueu-se – Dor humana! Creio desconhecer sobre dores humanas. Como foi difícil para duas crianças sobreviverem ao medo de serem agredidas por quem deveria zelar, vitima de inescrupulosos que comparecem aos domingos a presença de Deus a mostrar compromisso à comunidade. Proteger a deixa-las em farrapos as sarjetas do mundo. Sabe que dores são estas?
        - Posso te ajudar a se tratar! – Tentativa de consolo e agredido friamente a punho de pistola.
        - Cura? – sorriso doentio – A misericórdia nos encontrou entre trapos após dias de fuga ao mais longe possível desse lugar. Vagávamos pelo limbo sem amparo e apavorados. Curados em acreditar que solicitando abrigo na igreja o mal não nos alcançaria. O mal tem varias faces e acolhidos pelo Padre fomos leiloados aos homens da igreja, disputados pelo Delegado Catanir e a corjas de políticos e comerciantes locais. Arrematados por Johnson e presenteados ao Lorde. Se há cura pra o que sinto não procuráreis beber da salvação, pois na existência do criador este não me condenara.
          - Esta se alimentando de ódio. Estes mesmos que te enfraqueceram quando obtiver sucesso na investida.
         - Cada personagem terá suas responsabilidades, estando ausentes dois atores. Talvez três, pois não decidi a atitude tomar a sua visita inesperada.
         - Como convenceu Claúdios a lhe vender a propriedade. - Na iniciativa de estar a par de todos os fatos.
        - Corrompida a alma o maldito em arrependimentos ao contar-lhe segredos aos ouvidos não impondo dificuldades a obter a propriedade. Acredita em demônios Doutor? Deveria reconsiderar as suas crenças, quando agradados realizam desejos.
         - Terminar os meus dias acreditando em feitiçarias não é o que pretendia.
         - O Doutor não é merecedor da morte por se deixar vagar em pastos secos. Há vermes à dianteira.
          E Elacircula a sala rendendo-se aos espelhos.
         - Faria parte dessa obra. Tenho planos para a sala, aqui aprisionarei os culpados a mendigarem pelo perdão. Os cadáveres chegaram e serão confinados sem providencia de sepultura atrás dos espelhos em liberdade de minhas irmãs de infelicidade. Carsus já libertou os irmãos de sorte. Foram cremados e seus espíritos finalmente encontraram conforto.
    ...
         - Não foi fácil armar a ratoeira. –confortando os quadros. – convencer que Carsus seria serviçal confiável. O Enriquecimento ilícito de Johnson. Conquistar Fanir que permanecendo vivo a torna-se outro Lorde Del’volterrie... Promover o conhecimento da magia, investir contra os inimigos a mercê dos eventos semeando discórdia. Manter o Lorde entre ervas daninha. O senhor acelerou o toque final ao desembarcar na província atormentada. Nisto tivemos que rever certos papeis para conciliá-lo.
        Caminhava de cantos em cantos e os passos da lamuria tomaram conta do recinto.
         - Sábio homem é merecedor da escolha do destino.
         - Sepultado longe deste lugar!!!
          - Te estimo! – retirando pequeno frasco alojado entre os seios – Beba! –Coagido a ingerir o liquido arenoso.
    ...
     
         Carsus deixou a propriedade seguindo ate a estação ferroviária onde recolheu caixotes que chegaram de encomenda, Julliete ficara junto às irmãs a preparar chegada dos convidados. Do vagão de passageiros acolhido com dificuldade a desembarcar em cadeira de rodas Lorde Del’volterrie visivelmente entorpecido pela presbiofrenia.
    Lorde Deborath Del’volterrie   
     
     
          Mergulhado no abismo da mente a ter conversas veementes com espíritos, desgraçado e desprovido de oportunidade de morte. Emboscada maquiavélica a qual o destinaram, estando na particularidade de vivo a conselho dos mortos. Não haveria sossego para as investidas de Johnson, Claúdios e Catanir este que aprisionou a si a presença do pai de Renato. Vantuir Fanir a ultima presença amargurada por se achar inocente e desmerecedor de tal sorte. O Lorde em moléstia impossibilitado de levar o corpo ao suicídio.
         Anúncio final, faltando o ator pouco mencionado a juntar-se aos corvos.
         Carsus voltou à província para encontrar velho conhecido inalcançável aos olhares que o perseguia. A trupe desaparecera, o palco abandonado, afirmavam estando amaldiçoado pelos participes das bizarrices ali presenciadas. Seguiu pelas Alamedas dos burgueses, rodeada de casarões e jardins faraônicos e não menos grandiosa a Basílica. Sem orações transpôs as portas do templo desprezando imagens sacras que não traziam acolhimento.  Acomodou-se a companhia de três desesperados a socorrer de pecados a confiarem confissões ao corrupto desprovido de qualquer condição de fé.
           Pacientemente aguardou a o momento de levar a Deus as considerações por   ser deixado ao proveito dos homens de posses habitantes do mundinho de sete dias.
          - Padre.
          - Agraciado com sua presença filho! Que ventos o trazem, há anos que não o tenho na presença da cruz.
          - Andei ocupado tomando providencias terrenas.
          - Como vão passando sua irmã e sobrinho Osório? – filho do relacionamento entre Fanir e Juliette - E Lorde Del’volterrie?
          - Estamos acolhidos nas montanhas para melhoras do Lorde.
          - Quando depositei vocês a adoção o intuito de serem bem tratados.
          - Eternos agradecidos pela amizade. Estou a ordens do Lorde que se encontra recolhido. Vim buscar-te para orar por alma perturbada e aproveitar dar à benção a moradia – de súbito agarra o braço do pontífice.
          - Inoportuno – a víbora ameaçada armou bote – há muito que fazer por daqui.
          - Desprezara pedido de auxilio do maior financiador?
          - Prometo brevemente, mas agora não é possível. – A procurar abrigo á situação de perigo.
          - Acredito que não leva a serio a situação - espanto nos olhos do Padre as investidas de seguidos golpes de açoite – maldito desentendido. – a grená do ódio seguida de gritos de socorro – vou levá-lo! – caído ao chão e sangue na sotaina pela força da ira titânica de Carsus a dar fim à consciência.
     
    ...
     
         Juliette prometera presença de orador pelos confinados a morte do corpo e a eternidade da alma aprisionada a mansão.
                                       
          - Terá a quem rezar – a voz feminina encheu-lhe os sentidos em fortes dores de açoitamento e intoxicação por substancia ministrada a deixa-lo desacordado. Recordava de Carsus e a investida contra sua dignidade. – Aqui terá tempo para traquinar com Deus a dar acalento.
         - Ingratos. Provi o sustento e me tratam dessa forma? – procurando apoiar-se na grande mesa. – Quando retornar a Basílica – mentindo a si na forma de ter algum alento – A forca espera ambos.
         - Cale-se! – novamente exposto e agredido desta vez por Juliette – daqui em diante terá unicamente a imagem do inferno - rodeando o indefeso a Senhora de Negro desejosa de investir contra o inimigo. – queríamos o socorro para nossas vidas e iludidos por imagens sacras e orações acreditávamos que teríamos proteção. – suspiro de misericórdia do opositor – Meras mercadorias!
         - Qual o teu preço impostor? – Carsus.
         - Deus não terá piedade de vocês.
         - Ele foi convidado e infelizmente não pode comparecer. - Julliete.
         - Acreditam ter sucesso nessa investida contra a presença do servo do Papa? Sentiram minha ausência. Sou essencial à comunidade.
         - Não sentiram sua falta, corpos serão encontrados nos destroços da Basílica consumida por chamas.
         - Canalhas! - Reunindo forças e derrubado.
         - Padreco, aqui não lhe faltara o que não possuía na igreja. Terá comida e motivos para orar ate que o Demônio venha busca-lo. - Carsus.
          - Trancafiados a mansão até as orações e suplicas se misturem a arquitetura do prédio.
          Sequência ao terror angustiante apoiado a cadeira e contido por força imobilizadora de Carsus para que a Senhora derrame ácido nos olhos do missionário e na escuridão da cegueira possa ter prioridade na salvação.
    O fim
          Olhar atordoado a procurar a sensatez da razão, esteve febril por dias, desconexo percebia que se encontrava em local familiar e acalentador a cabine da embarcação, acolhido por seus homens entre a vida e a morte por doença de terra firme.
          - Como cheguei aqui? – indagou.
         - Avisaram-nos que estava a cuidados médicos por efeito de mordida de víbora nas várzeas do leste.
         Demorou organizar os sentidos a que recebera das mãos do auxiliar bilhete encontrado costurado no bolso do paletó.
         “Caríssimo Doutor, não cabe aqui entre nós nova visita, o passado agora se une ao futuro, peço destreza confidente, afinal a vida lhe pertence e que tudo seja esquecido.
     
    Lady Deborath”     
     
  • O Natal de Betinho

    Era fim de tarde e Betinho soluçava solitário encostado à porta da capela, a bunda magra torturada pelo frio da calçada. A palma da mão aberta mostrava uma moeda antiga deixada pelo pai em seu leito de morte, mas era antiga demais para comprar um presente para a mãe, outro para a irmã pequenina e doente, e outro para o irmão mais velho.
    Betinho odiava o Natal.
    Betinho odiava o Vigário.
    Há dias sua mãe não trabalhava mais para ele; não lavava o chão da igreja, nem ajeitava as velas do altar, nem tirava o pó das imagens... O vigário dizia que as beatas podiam fazer aquilo sem cobrar um centavo sequer, por quê pagaria a uma mulher preguiçosa e pouco religiosa como ela?
    Quando despediu a mãe do Betinho, o fez na sua frente, ignorando a existência do menino. Pensava que Betinho não entendia? Pensava que Betinho era burro?
    Betinho entendia tudo. Betinho sabia bem o significado da palavra “humilhação”.
    Por isso que Betinho odiava o vigário. Se pudesse dava-lhe um presente. Um presente tão asqueroso que o vigário jamais esqueceria.
    Mas aquela moeda não servia para nada, a não ser para lembrar da noite em que o pai se foi.
    Para quê ficar com ela? Para quê guardar aquela dor no bolso da bermuda, ou sob o travesseiro quando se deitava.
    Olhou bem para ela, a visão turva. As lágrimas partilhavam aquele momento. Das narinas escorria o catarro e a boca sentia uma mescla de sabores.
    Atirou a moeda para longe e enxugou a boca com o punho da camisa do irmão mais velho que usava quando estava suja. Só nessas ocasiões tinha um camisa: quando o irmão a atirava no cesto de roupa suja e usava a outra.
    Por que seu irmão tinha duas camisas e ele, nenhuma?
    Betinho odiava o irmão.
    Por que sua mãe nunca lhe comprou uma camisa e comprou duas para seu irmão?
    Betinho odiava sua mãe.
    E, ele agora pensava enquanto via a moeda rolar escada abaixo, sua mãe não lhe comprava uma camisa porque o dinheirinho que às vezes sobrava servia para comprar os remédios de sua irmã doentinha.
    Betinho odiava sua irmã doentinha.
    A única coisa que realmente amava era a lembrança do pai. O melhor a fazer era pegar a moedinha de volta. Descer aquela escada escura e fria apressadamente era o que devia fazer, caso quisesse reaver a moeda antes que algum delinquente o fizesse.
    Betinho desceu, os pés grudados nas costas, tamanha a pressa.
    Deteve-se no último degrau, junto ao chão.
    Um vulto esguio e negro como a noite que chegava segurava a moeda e abrindo-lhe um largo sorriso, perguntou:
    — Teu nome é Betinho?
    — Sim, senhor.
    — Queres comprar presentes de Natal com esta moeda?
    — Sim, mas não vale nada, senhor.
    — Vale bem mais que pensas.
    — O senhor acha?
    — Tenho certeza.
    — O que posso comprar com ela?
    — Muitas coisas. Mas antes, sentemos aqui, que te explico.
    O homem sentou primeiro naquele degrau.
    — Mas é tão gelado esse degrau! — Reclamava Betinho. — Prefiro ficar de pé, se o senhor não se importa.
    — Me importo, sim — o homem o encarou como se quisesse mata-lo, mas ao abrir um novo sorriso, continuou: — Por isso que já o esquentei para ti.
    Betinho sentou e mal pôde acreditar. O degrau estava quente.
    — O senhor é mágico? Está bem quentinho agora.
    — Não sou mágico. Sou um comerciante. E tenho uma proposta para ti. Quero te vender esta moeda.
    Betinho sorriu, inocentemente.
    — Mas esta moeda é minha!
    — Ora, mas é claro que não! Não a jogaste fora depois que descobriste que não queres mais lembrar do teu pai, que te amava tanto?
    — Como o senhor sabe disto?
    — Ora, mas não foi assim que pensaste quando jogaste esta moeda fora? Depois que descobristes que odeias o vigário, o teu irmão, a tua mãe e a tua irmãzinha doente?
    Betinho agora estava com muito medo. Com medo, mas com muita raiva e queria sua moeda de volta.
    — Dê-me a minha moeda, seu ladrão! — Gritou, avançando sobre aquele desconhecido.
    — Ela agora é minha porque a encontrei perdida nesta calçada — volvia ele, levantando-se e levando consigo o calor da calçada, transformando-a de volta naquela pedra de gelo. — Queres ela de volta?
    — Claro! — Betinho levantava-se e estirava a mesma mão que há pouco possuíra a moeda — Por favor!
    — Como disse antes, posso ti vendê-la.
    — Mas não tenho como pagar.
    — Claro que tens, olha só! Posso contar nos dedos! Conta comigo: O vigário, teu irmão, tua mãe, tua irmãzinha doente e teu falecido pai.
    Betinho sorriu. Agora havia descoberto: aquele homem era um louco qualquer, falava qualquer besteira que lhe passasse pela cabeça.
    — Por que ris? — Perguntou ele.
    — Porque o senhor é besta.
    — Sou mesmo?
    — Quer que eu pague com o vigário ou com meu irmão ou minha mãe ou minha irmã ou meu pai?
    — Sim, e por que não?
    — Está bem. Dê-me a moeda.
    — Não, não. Eu te vendo esta moeda. O que me ofereces em troca?
    — Deixe-me pensar... — Betinho nem precisou pensar muito. Era claro que já sabia. Era uma brincadeira, mas já sabia como brincar. —...O vigário.
    — Hum... — ele entregava a moeda a Betinho — Esta moeda deve valer muito para ti. Deste-me o mais valioso.
    — O canalha do vigário não vale nada — maldizia Betinho saindo correndo com sua moedinha de volta. Agora podia voltar para casa. Logo mais teria uma sopinha na ceia de Natal. Não era um peru, mas dava para encher a barriga.
    Enquanto cobria-se por uma densa nuvem de enxofre aquele homem dizia:
    — Verás o quanto ele vale.
    E lá ia Betinho feliz da vida para casa...
    A moedinha era sua novamente, agora era só entrar no beco e pronto já estava em casa.
    Mas, e aquele alvoroço?
    E aquela música? Não, não! Não era música, não! Era choro. Mas o que significava aquele aglomerado de beatas na frente da casa de Betinho? Que dor era aquela que todas sentiam em plena noite de Natal?
    Betinho pensou na mãe. O coração apertou quando entrou em casa e não a encontrou.
    — Cadê a mamãe? — Perguntou ao irmão, que ninava a irmã doentinha.
    — Foi na igreja cuidar das coisas do vigário.
    — Que tem o vigário?
    — Morreu, coitado. E parece que se enforcou, não sei porquê. Mas deixou uma carta que mamãe leu e correu para lá chorando como uma desesperada.
    — E o que dizia a carta?
    — Não sei. Mas tem teu nome, Betinho. Isso tem.
    Betinho correu para a porta, as beatas o olhavam com rancor, mas ele não entendia o porquê. Nunca havia dito nada que machucasse o vigário; o odiava, era verdade, mas somente seu coração sabia daquilo.
    Encontrou a mãe ao lado da cama onde o vigário jazia, coberto de flores brancas. Enquanto um terço pendia da mão que apontava para o alto em orações, uma folha de papel era esmagada pela outra, que se escondia às suas costas.
    Betinho olhou aquele papel que sua mãe segurava, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa foi surpreendido por ela, que notou sua presença.
    — Betinho — ela virava-se e esbofeteava-o — viste o que fizeste?
    — Mas eu não fiz nada!
    — Toma! — Ela jogava-lhe o papel na cara. — Some daqui e lê. Depois verás o quanto fostes uma criança má.
    Betinho saiu resmungando “Eu? Eu não fiz nada! Não fiz nada, não! Ele morreu porque quis! ”
    Sentou-se num dos bancos e leu.
    Senhor Deus, me perdoa. Não fui um bom filho. Aprendi tantas coisas Contigo, todos os Salmos, toda a liturgia, os dogmas da Santa Igreja, mas não consegui ensinar o Amor a uma criança. Sim, ensinei o Amor a tantas outras que cresceram, tiveram filhos e eu ensinei o Amor a esses filhos e aos seus filhos e aos seus filhos e assim por diante, mas não consegui ensinar o Amor a Betinho.
    Sim, a Betinho. Esse menino falava demais nas minhas aulas e isso me irritava. E eu, pobre criatura miserável e pecadora, ao invés de entender o quanto sua alma é livre como o vento, reprimia-o, expulsava-o e ainda despedi sua mãe, tão boa para mim.
    Que adianta rezar o Amor se não consegui fazê-lo brotar no coração de Betinho?
    Que eu sucumba no mar de arrependimentos que invade minha alma.
    Perdoa-me, Betinho.
    Adeus! O malcriado não foste tu, fui eu.
     
    O coração de Betinho apertou. Deveria chorar?
    Deveria.
    Deveria correr até o quarto, jogar-se aos pés do defunto e pedir-lhe perdão?
    Deveria.
    — Mas ele não vai te ouvir.
    Betinho olhou para o lado e lá estava seu amigo coberto de enxofre.
    — Senhor, eu estava brincando. Por que o senhor matou o vigário?
    — Eu? Eu não matei ninguém. Tu o vendeste para mim.
    — Mas pensei que o senhor estivesse brincando.
    — Brincando? Numa noite como esta? Numa noite em que as casas estão celebrando a vida eu procuro celebrar a morte de alguma forma. 
    Betinho encheu os pulmões e gritou:
    — Chega! Esta brincadeira acabou agora!
    — Engano teu. Começou agora.
    A força com que Betinho sentiu a mão da mãe puxar-lhe os cabelos foi tanta que ele gritou, agora de dor.
    — Para de gritar dentro da igreja e vai para casa, pensar em tudo o que fizeste ao coitado do vigário todos esses anos, Betinho.
    — Mas, mãe. É culpa do diabo.
    — A culpa é tua, Betinho. Vai para casa, que não quero olhar para ti.
    Ele já descia as escadas, aos soluços.
    Sua mãe finalizou dizendo:
    — E pensar o quanto ele te amava...
    Quando chegou em casa o irmão chorava. A irmãzinha parecia uma boneca de pano em seus braços e estava branca como cera. O que havia acontecido agora?
    — Está morta, Betinho — dizia o irmão. — Agora que o vigário está morto, quem lhe dará a Extrema Unção?
    — Meu Deus! O que isto quer dizer?
    — Que as portas do céu não se abrirão para nossa irmãzinha e sua alma vagará pelo Vale do Sofrimento para sempre, Betinho.
    — Misericórdia!
    — Será que nem isto aprendestes na igreja?
    Betinho saiu porta a fora, mas antes pegou uma vela e foi até os fundos da casa, no quartinho dos livros que o pai lia para ele. Ali era um bom lugar para acender uma vela e pedir que todo aquele pesadelo acabasse. Sentia a presença do pai ali; quem sabe ele não pediria a Deus por Betinho...
    Acendeu a vela, ali mesmo sobre uma pilha de livros e rezou...qual oração se não aprendera nenhuma? E o que deveria pedir? Não sabia falar com Deus; nunca procurou aprender. Mas sabia que uma vela acesa já era meio-caminho andado.
    Agora deveria caminhar um pouco. Talvez se fosse até a padaria da esquina poderia conseguir um pouco de pão dormido para trazer para casa e comer com a família, mesmo em meio a tanto sofrimento...
    Saiu com aquela esperança no peito.
    Encontrou com a mãe no caminho, que perguntou para onde ele iria.
    — Para qualquer lugar onde não me culpem por algo que não fiz! — Ele estava com raiva.
    — E teu irmão está em casa? E tua irmãzinha?
    — Melhor a senhora mesma ir lá e vê.
     — Ó, meu Deus! — Ela adivinhava e saía correndo.
    Betinho caminhou um pouco mais e contou sua história ao velho corcunda da padaria, que compadecido, entregou-lhe uma sacola com alguns pães.
    Mas a fome era tanta que preferiu comer um pedaço do pão ali mesmo na praça. Depois comeu outro pedaço e outro e outro e outro...quando se deu conta havia comido tudo.
    E agora? Voltaria para casa e diria o quê?
    Que não havia ganhado pão algum.
    Pôs-se de pé e já ia voltar quando o clarão no céu o fez relembrar daquelas tardes quando o pai lhe levava até ali para ver o pôr-do-sol...
    Mas aquele clarão não era no céu, era logo mais abaixo.
    E havia fumaça também.
    — Corre lá, Betinho! — disse uma beata que passava. — Tua casa pegou fogo.
    Ele lembrava-se da vela sobre os livros.
    — Parece que tua mãe entrou por uma janela para salvar teu irmão, mas não deu tempo. Agora estás sozinho no mundo. Que tristeza.
    Totalmente em desespero Betinho presenciou os últimos momentos da grande fogueira que sua casa havia se transformado. Os vizinhos jogaram agua a noite toda e, de manhazinha tudo eram cinzas.
    Os três dias seguintes Betinho os passou sentado defronte às cinzas da casa, até que sentiu o cheiro de enxofre novamente.
    — O que o senhor quer agora, Satanás? Sei que o senhor é o diabo, agora. Não sei como consegui ser tão burro.
    — Não foste burro. Foste imprudente. Olhaste apenas para teu umbigo.
    — Mas agora está tudo perdido. O que mais o senhor quer?
    — Eu, que pergunto: queres mais alguma coisa?
    — Quero minha família de volta.
    — Sei. Mas não posso te dar.
    — Claro que pode! O senhor a tirou de mim!
    — Mas que calúnia! Nunca tirei tua família de ti. Eu a comprei, assim como comprei o vigário, de ti!
    — Pois eu exijo que o senhor me venda, de volta!
    — Tens como pagar?
    Betinho enfiou a mão no bolso da bermuda e entregou a moeda a ele.
    — Aqui está! Se com ela eu te vendi o vigário e minha família, com ela poderei compra-los de volta.
    — Certamente — ele pegava a moeda e a guardava no bolso. — Mas nesses três dias ela perdeu um pouco de valor, então ficarás me devendo um trocado.
    — Não devo nada ao senhor!
    Aquele homem acariciou a cabeça de Betinho e este se afastou rapidamente. A Nuca havia esquentado, parecia que ia ferver.
    — Pronto. Agora não me deves mais nada. Vai para tua igreja rezar. Quem sabe...
    O cheiro repugnante de enxofre fez com que Betinho se afastasse, correndo de volta para a igreja.
    Parou no primeiro degrau e pensou: tentarei subir rezando. Tentarei lembrar das aulas do vigário. Quem sabe, lembro ao menos do Pai Nosso.
    — Pai Nosso... — ele começava a subida —...que estais...no céu.... Santificado seja Teu Nome...
    Ele mal podia crer no que se passava. Conseguia lembrar. Não havia sido tão mal aluno. Sabia rezar, sim, senhor!
    No último degrau sentou-se e encostou na porta como há três dias o fizera. Respirou profundamente e fechou os olhos pensando em tudo. Na irmãzinha, no irmão, na mãe, no vigário...
    A porta abriu-se rapidamente e quase que ele tombou para trás, pondo-se de pé rapidamente.
    — Betinho, meu querido!
    — Vigário! — Betinho mal podia crer. — É o senhor mesmo?
    — E quem mais seria? Venha! Entre meu querido. Têm uns alunos que não sabem rezar como tu. Mas graças a Deus que tu me ajudas. És precioso!
    — Sou nada. Sou malcriado.
    — Tu? Malcriado? Tua mãe precisa saber disso.
    — Minha mãe? Ela está viva?
    — Mas que brincadeira é esta, Betinho? — o irmão chegava naquele momento. — Olha o que trouxe para ti.
    Betinho abria um pacote e sua emoção era grande. Lá estava a camisa que tanto sonhara ter.
    — Como é linda!
    — Não é lá das melhores — sua mãe chegava com sua irmãzinha nos braços. — Mas tua irmã está tão bem de saúde que não precisará mais de remédios e eu pude comprar uma camisa para ti para cearmos o Natal de logo mais à noite contigo, teu irmão e tua irmã bem vestidos.
    — E hoje teremos pão, sopa e peru — finalizou o vigário. — Nosso Natal será inesquecível.
    Betinho, emocionado, disse:
    — Com certeza. Jamais esquecerei de todos que amo tanto e deste Natal especial!
    Durante a noite a ceia foi perfeita. As músicas das beatas, as gargalhadas, os elogios da beleza de Betinho e do cuidado que ele tinha com a irmãzinha, o irmão e a mãe.
    Era uma noite inesquecível, não fosse um único detalhe. Detalhe esse que Betinho queria saber, mas não lembrava.
    De madrugada sua mãe veio apagar a vela que ainda iluminava seu quarto, mas ele não deixou.
    — Ainda não apaga, mãe. Queria perguntar uma coisa antes?
    Ela sentou-se ao seu lado na cama e perguntou:
    — Pergunta, filho. Se puder responder...
    — Bem eu queria saber uma coisa... — ele esforçava-se. — Queria perguntar sobre uma pessoa...só não sei quem é.
    — E como vou sabe, né? — ela sorriu, beijou-lhe a testa, apagou a vela e se foi.
    Minutos depois Betinho tornou a acender a vela e foi até o quartinho dos fundos. Talvez alguma coisa ali o fizesse lembrar.
    Ao abrir a porta...
    Não havia nada. Nenhum móvel ou objeto, nada.
    Como poderia lembrar?
    A nuca latejou e uma voz sussurrou rapidamente:
    “Agora não me deves mais nada”
    Balançou a cabeça e sorriu. Não havia nada para lembrar. Era melhor voltar para cama e aproveitar o restinho do Natal. Voltaria até no escuro. Gostava do escuro. Gostava de sentir medo, de vez em quando.
    Soprou a chama e se foi para a cama.
    Betinho guardaria aquela noite para sempre. Aquele havia sido um natal especial: a ceia com o vigário amigo, a sopa, o pão, o peru...A mamãe, o irmão, a irmãzinha, algumas beatas...
    Havia sido uma noite inesquecível; ele adormeceu pensando assim.
    Mas..e a moeda? Que moeda, afinal, se não havia lembrança alguma da moeda que o pai que tanto amara havia lhe dado em seu leito de morte.
    Pai? Que pai que havia retirado da memória no momento em que comprou o vigário e a família de volta?
    Pobre Betinho que vendeu a família e o vigário...
    Pobre Betinho sem moeda...
    Pobre Betinho sem seu pai...
    Fim
  • O touro Agostinho

    Ela já contava com o atraso. Esperava sentada na fonte da praça do Giraldo, abraçando os joelhos junto ao peito e segurando os livros entre o abraço. Um calor difícil de sustentar debaixo de sombra, insuportável a descoberto. Mas era urgente retocar o bronze.
    Vestia tshit branca enfiada nas calças de cintura subida e tamancos pretos. Salto não muito alto.
    O opel corsa aproximou-se, arrastando a marcha e Simão arremessou o braço para fora da janela, muito concentrado sem mesmo retirar os olhos da estrada. Dora observou-o por breves segundos; postura rígida, pescoço reto. E como era de se esperar, depois de alguns  soluços, o corsa acabou mesmo por ir abaixo.
    "É seguro?", achincalhou ela da fonte.
    Ele não ouviu. Ficou a controlar do retrovisor se algum carro se aproximava.
    "Simão, acorda e ajuda-me a pôr a mala atrás", pediu ela carregando a mala com as duas mãos na frente
    "Espera aí, acho que vem uma carrinha."
    "Ela que espere. Faz-te cavalheiro e ajuda-me a carregar o raio da mala."
    Simão abriu a porta, ainda de olho na carrinha que entretanto parara ao fundo. A camisa xadrez a pender-lhe em torno da cintura. Carregou a mala sem fitar Dora, desajeitado e tropeçando nas próprias atitudes nervosas.
    "Entra rápido que a carrinha vem aí", avisou.
    Dora ficou parada do lado de fora a encará-lo antes de entrar.
    "Simão", começou ela. "Relaxa, estás uma pilha de nervos."
    "É que vem lá a carrinha e depois começa a apitar."
    Ela entrou de braços cruzados, para vincar o desconforto com a atitude do outro, que fez o carro engasgar-se para arrancar.
    Da praça do Giraldo até à saída de Évora foram cerca de dez minutos. Dez minutos de janelas escancaradas e o rádio a berrar qualquer música de Nirvana que ele também cantarolava e batucava com os dedos no volante. Depois exibiu o fio ao pescoço com o nome da banda, vangloriando-se por já ter comprado os bilhetes para o concerto.
    "Vou estar cara a cara com ele" gritou enfiando uma palmada na perna de Dora. "Kurt Cobain, o deus do grunge."
    Simão estava numa euforia excessiva. No fundo, Dora quase o invejava por não poder viajar sozinha também até Lisboa. Não pela música, mas pelo passeio.
    Ela fez questão de lhe dizer que não o achava preparado para viajar sozinho até Lisboa sem alguém experiente do lado, mas ele nem ouviu, ou fingiu que não escutou. Enfim, haja dinheiro, pensou ela. O carro era novo e o entusiasmo incontrolável.
    Simão continuou a divagar qualquer coisa acerca de Kurt Cobain. O cabelo estava quase como o do ídolo, mas ligeiramente mais ortodoxo, estilo cortina separado no centro para cada lado. No entanto, para Dora, a música resumia-se a berros de jovens mal resolvidos com a sociedade. E insistia no mesmo argumento.
    "Uma heresia", dizia Simão já enfadado.
    Mesmo assim não conseguiu impedi-la de quase arrancar a k7 do rádio. Ela não ia de maneira nenhuma até Beja debaixo daquela guerra de guitarras e gritos. As notícias da tarde eram mais interessantes para acompanhar o descampado de início de Verão que já se tingia de amarelos, salpicado de sobreiros descamisados.
    Informação de última hora, mais um agricultor desaparecido. Dora quase arrancou o volume para aumentar.
    "Shhh!", fez apontando o ouvido.
    “O que foi?”
    “Espera, deixa ouvir.”
    Falava-se do desaparecimento de um agricultor, na sequência da morte de outro coitado. Um total de três homens desaparecidos e um morto. Conflitos motivados por desacordos acerca de herdades e terrenos. Aparentemente existia um terreno problemático na junção de outros quatro, cujo os limites se interceptavam. Alguma coisa aquela propriedade tinha, que fomentava a discórdia. Ainda que o sujeito encontrado morto tivesse sido abalroado por uma manada de touros bravos. Não era certo de que se tratavam de assuntos relacionados, mas aconteciam na mesma área; bem ali onde Dora e Simão deslizavam a caminho de Beja.
    “Não é estranho?”, perguntou Dora, de atenção dividida entre o rádio e Simão.
    “Sei lá”, deu o outro de ombros.
    “Mas ouviste? Agora matam-se uns aos outros por um pedaço de terra? Voltámos à idade da pedra.”
    “Eles que se entendam. Não gosto de agricultores”
    Não era o desentendimento que preocupava Dora, eram as proporções que atingiam. Ainda que Simão o tentasse ignorar, havia por certo muita gente envolvida numa terra tipicamente tão recatada. Um problema a nível nacional de algo que acontecia nas suas barbas.
    “Mas este foi colhido pelos touros”, relembrou Simão.
    “Que por acaso também estava envolvido nas brigas… Não acredito em coincidências”
    Simão fixou o olhar no painel de combustível.
    Quase na reserva.
    Optou por não dizer nada mas o sinal amarelo não se conteve.
    “Estamos na reserva?”, perguntou Dora de olhos arregalados, assim que o sinal brilhou.
    Deu-se uma troca de quase insultos entre os dois. Simão revelava-se muito mais inexperiente do que ela ponderava. E ele insistia em afirmar que conseguiam chegar ao próximo posto com a reserva.
    Acabaram por encostar aos portões da quinta mais próxima. “Herdade do Girasol” lia-se na placa. A estradinha de terra afunilava à direita até ao casebre azul e branco no topo.
    “Vamos pedir ajuda antes de ficarmos sem a reserva”, disse Dora.
    "Eu ainda acho que chegávamos até à próxima..."
    "É melhor não arriscar", ela interrompeu. "Perguntamos se têm telefone, assim ligamos a alguém para nos vir buscar."
    Caminharam ladeados por uma cerca de pedra, e a meio do percurso ficava o portão do cercado.
    Aberto.
    Outra placa a indicar "Gado bravo". Pararam automaticamente, admoestados pelo receio.
    "Gado bravo e deixam o portão aberto. Por isso é que depois temos agricultores colhidos por manadas de touros"
    "Vou buscar o carro", sugeriu Simão.
    "Deixa, agora falta pouco. Corremos."
    E desataram a correr como crianças até à casinha azul e branca. Ela equilibrando-se nos tamancos, ele evitando o pó nos redley com a camisa à cintura quase a arrastar no chão.
    A casinha albergava o hálito fresco da cerâmica, e a velhinha muito magra limpava as mãos ao avental para servir dois copos de água.
    "O Alberto já liga o telefone aqui na sala", ia ela dizendo num sotaque cantado.
    As paredes sustentavam molduras a preto e branco de rostos jovens de lábios escuros, recordando outros tempos.
    "Beto, o telefone", gritou a velhota carregando os copos de água.
    Cabelo curto e grisalho, olhos concentrados em tarefas por cumprir.
    Beto entrou pela sala e deixou o telefone, branco amarelado na mesa. Já era de botões. O velhote voltou para dentro queixando-se das modernices, esquecera os fios para ligar à tomada.
    "Não sei se viu mas deixaram o portão da cerca lá em baixo aberto", avisou Dora. "Pode ser perigoso porque depois anda aí gente de um lado para o outro".
    A velhota parou, virada para a janela, de costas para os dois.
    "São touros que têm ali?", insistiu Dora. "A plaquinha da entrada diz girasol em vez de girassol. Mas é só um detalhe"
    "A menina faz muitas perguntas", respondeu a velhota numa súbita mudança de temperamento.
    Dora ia dizer que só estava a avisar mas foi interrompida pela voz esganiçada da senhora quase aos gritos:
    "Não tem que andar a espreitar a vida das pessoas, se o portão está aberto é para ficar aberto. Agente sabe o que faz."
    O rosto de Dora encheu-se de vermelho, os lábios apertados, olhos lacrimejantes. Simão conhecia aquela cara. Sabia que Dora não era menina de aceitar desaforos. E a velhinha continuou a carregar na mesma ferida.
    "Dora, não vale a pena", sussurrou Simão.
    "Isso é o que vamos ver. Era só o que me faltava", começou Dora. "Mas está aos gritos por quê? Eu ofendi-a? Deve ter algum problema na cabeça, só pode".
    A velhota revelou-se osso duro de roer e rapidamente a discussão tomou dimensões desmedidas. O pescoço de Dora inflamado em veias, o dedo da velhota no ar a ameaçá-la. Nem mesmo Simão conseguiria apagar o fogo que se alastrava como um rastilho de pólvora.
    "Vieram cá para vigiar?", perguntava a velhota. "Pois fiquem sabendo que daqui não nos tiram."
    "Mas do que está você a falar?"
    No meio do reboliço Dora mal teve tempo de ver a pá esparramar-se na cabeça de Simão. O sangue salpicou-lhe a tshirt branca, e o coitado ficou estatelado no chão, de fio ao pescoço exibindo as letrinhas "Nirvana". Dora ficou de boca escancarada a cruzar o olhar entre o velho e a tshirt. O velhote correu todo encarquilhado de pá prontificada também para cima de Dora
    "Você, não grita com a minha mulher", advertiu antes de investir com a pá no chão.
    Dora tropeçou nos tamancos quase caindo de costas. E de cotovelo a proteger a cara, ainda gritou: "Desculpem, eu não queria...". Coberto de ódio, o homem continuou de pá hasteada e ela correu, desequilibrando-se para a saída.
    A velhota berrava como uma galinha a ser degolada: "Vai buscar a espingarda, Beto"
    E o Beto já de pressão de ar em punho ainda apontou alguns chumbos a Dora que desejava ter trazido os ténis.
    É quando corre pela vida que o ser humano consegue as mais magníficas proezas; Dora galgou o muro de pouco mais de um metro e aterrou de mãos nas fezes de um qualquer bovino. Ainda se sentia o odor a feno embrulhado em travos de chiqueiro.
    Sentiu o leve cutucar de mão de criança, e a voz sussurrou.
    "Vem, aqui não te vão fazer mal."
    Ela olhou para cima, e eis um menino de cerca de dez anos, chapeu virado para trás, pele muito branca e macacão arregaçado na perna.
    "Atrás da árvore não nos conseguem ver", continuou ele, puxando Dora pela mão.
    Dora conseguiu recuperar a pulsação ao deixar de ouvir as chicotadas da espingarda. Debaixo da árvore, apertou os joelhos contra o peito e ficou a estudar o rosto do menino que a observava, apoiado na vara. Ela esperava que ele lhe entendesse os pensamentos. Mais do que isso, ela queria que o menino compreendesse o medo que o seu espírito carregava naquele instante. Os olhos como dois copos de água cheios, prestes a verter.
    Mas logo secaram quando a pouco mais de dez metros de distância conseguiu identificar, uma rocha? Indagou ela.
    Começou por descortinar os cornos, apontados na sua direção, o focinho brilhante, de narinas em riste, atravessadas pela argola.
    "Está um boi atrás de ti", disse ela com a voz trémula.
    O menino rodou apenas a cabeça, mantendo-se apoiado na vara e sorriu antes de dizer:
    "Ele não nos vai fazer mal. O Agostinho só está curioso."
    Depois, o miúdo posicionou-se de cócoras muito próximo de Dora.
    "É o chefe de todos os outros", completou ele apontando para os outros bois que entretanto surgiam por ali.
    Dora limpou o ranho do nariz, que insistia em pingar.
    "A avó deu nomes de padres famosos a todos. Ela diz que os touros são rigorosos como os padres e zelosos na distribuição da mensagem. Têm uma tarefa muito importante em mãos."
    Agostinho afastou-se num trote nervoso e desapareceu no horizonte.
    O menino continuou: "A avó está com medo que nos tirem da quinta por eles já serem velhos. Eu sei que está preocupada mesmo que tente esconder."
    "E os teus pais?", questionou Dora.
    "Morreram há uns anos. É por isso que os outros agricultores querem ficar com o que é nosso."
    "Eu tenho que ir buscar o meu amigo, ele ficou lá em cima", explicou Dora, em devaneio.
    "Anda", disse o menino segurando-lhe o braço. "vou mostrar-te um segredo."
    Caminharam pelo pasto até uma descida acidentada. Dora mantinha a atenção presa na casinha azul e branca, cada vez mais distante. E então o menino parou.
    "Consegues ver?", perguntou.
    Ela esforçou-se para entender o que via. Um amontoado de…
    "Vamos aproximar-nos mais. Não caias", avisou o menino.
    Conseguiu por fim decifrar o que via. O medo foi crescendo, drenando-lhe o rosto e acelerando o coração. Ela ficou quase morta de medo ao ver os corpos amontoados lá em baixo.
    "Queriam tirar a quinta à minha avó, mas enviei-lhes o Agostinho.", explicou ele com um sorriso rasgado nos lábios. O menino tinha olhos de gato, esverdeados, observou Dora. E uns lábios muito vermelhos. Era um menino bonito até.
    Ele voltou-se novamente para os corpos dos agricultores, precipitados no barranco. Dora encheu-se de energia, empurrou o menino para o chão e desatou a correr de volta ao muro. Não foi uma boa decisão, para Agostinho que emergiu ao fundo, de cornos rentes ao chão, um galopar de pernas curtas. Não esperou pelas ordens do menino, ele faria justiça e lidaria depois com as possíveis consequências.
    Dora não estava disposta a ser colhida pela onda de fúria prestes a rebentar-lhe em cima. Correu de pés descalços, e olhos fixos no muro de pedra. Os outros touros incentivaram Agostinho juntando-se à perseguição, fazendo o chão tremer. Apesar do calor, o céu carregava-se de nuvens escuras que coavam a luz solar.
    No momento em que Agostinho se prontificava para executar a sentença, Dora saltou cheia de destreza o muro de pedra, caindo de pernas assentes no chão. Agostinho esbarrou de cornos contra o empedrado, recuando sobre as patinhas delicadas, equilibrando toda a massa negra de músculos.
    Ela continuou a correr em direção ao carro. Apesar do terreno acidentado, não cedeu à dor nos pés que já sangravam.
    O carro permanecia de portas abertas. Sentou-se ao volante, num surto de desespero. Mas as chaves estavam nos bolsos de Simão, que jazia na casinha azul. E mesmo que as chaves ali estivessem, ela não saberia nem ligá-lo.
    Voltou a sair do carro. Seria mais sensato pedir socorro junto à estrada principal. Mas sentiu um peso forte na nuca que a fez aterrar de mãos no chão. A vista turva. O corpo a ser arrastado pelo pó.
    "Desta vez não me escapas", ouviu ela.
    Conhecia aquela voz rouca. Estava a ser arrastada pelo velhote, ainda de pá na mão.
    Os olhos não resistiram à dor e de um momento para o outro tudo escureceu.
  • Os holandeses

    O marido despediu-se com um beijo seco e rotineiro. Não ía demorar, prometeu. Mas desceria com o trator até às vinhas.
    Anelise retocou a sala antes de subir para o quarto. Disfarçou a bagunçada acomodando almofadas nos sofás, encheu a bandeja com copos de caipirinha e vinho, espalhados pela sala e equilibrou-os até à cozinha. Havia sido noite de festa. Um casal de amigos próximos, também holandeses, que estava de passagem de férias pelas planícies alentejanas e outra amiga íntima de Anelise. Noite de excessos e risos descontrolados. Ninguém acreditaria que se tratavam de homens e mulheres de meia idade. Ricos; milionários, excêntricos e dispostos a aproveitar os restantes anos de vida como nunca o haviam feito durante a juventude. Juventude gozada entre livros, cursos, negócios em busca das melhores oportunidades de assegurar um futuro risonho. Que se tornava agora em presente palpável. Às vezes inimaginável.
    Ela arrancou para a piscina. A desarrumação ainda mais agreste. De mãos apoiadas no quadril, retomava forças antes de continuar. Esperaria pela senhora da limpeza, decidiu. Ao menos a sala já não parecia tão caótica. Afinal de contas nada se faria na piscina durante aquele dia.
    A campainha tocou. Mais cedo do que esperava. Não a campainha da entrada principal, a do portão para o patamar da mansão. Na imagem da câmara exterior, a mulher estava de olhos no chão, esperando resposta do intercomunicador. Anelise simplesmente abriu a porta. Já esperava a senhora da limpeza para dar um destino à desorganização que se tornara incontrolável.
    A senhora tocou novamente, agora na campainha principal.
    "Pode entrar", gritou Anelise voltando das traseiras.
    "Bom dia", desejou a jovem. Mais nova do que Anelise pensara. Lenço branco de flores castanhas no cimo da cabeça, segurando longos cabelos ondulados e muito escuros. Não era o tipo de mulher que Anelise quisesse próxima do marido. Além do mais, apresentava-se de maquilhagem retocada e brincos chamativos.
    "Quer que limpe aqui fora primeiro?", perguntou a jovem prontificando-se para o fazer.
    "Fique à vontade"
    "Tem uma casa linda."
    Anelise anuiu.
    A frente da casa era adornada de jardins divididos pelo carreirinho que subia do portão até à porta principal. De um lado o envidraçado da sala do outro o da cozinha. Uma vista ampla e panorâmica para quem estivesse em qualquer uma das divisões. A piscina ficava do lado de trás. Um oásis que contrastava com o cenário seco de oliveiras e vinhas a perder de vista, para lá dos limites da mansão.
    Anelise serviu uma taça de vinho na cozinha e arrastou os chinelos até ao quarto. Ficava por cima da sala. Também ele de frente envidraçada. Era possível contemplar as vinhas todas entrançadas a acompanhar a ondulação dos montes. O céu muito azul navegado por nuvens pacíficas de quase meio dia.
    Fechou as cortinas e esboçou um sorriso envergonhado, relembrando as loucuras da noite passada em que agiam como adolescentes, empurrando-se para a piscina, música alta, muita bebida. Momentos em que tudo se tornava permitido. Horas separadas de leis morais, éticas e religiosas. O marido gritava como um louco. Típico adulto incorrigível, homem de boa constituição física, cabelo e barba grisalha. Sempre predisposto para celebrar. Dançava desengonçado como se nunca o tivesse feito na vida, agitando as ancas, de pernas abertas e garrafa de vinho na mão.
    Naturalmente que o Alentejo, na sua passividade, alimentava o estado de espírito festivo que se agravava com as noites quentes. Apenas observados pelo céu atafulhado de estrelas. E a herdade era grande. Sem vizinhos para se queixar da música alta, ou dos gritos arremessados para a piscina.
    O telemóvel vibrou na mesinha de cabeceira. Anelise arrastou-se para apanhá-lo.
    A mensagem dizia:
    "Peço desculpa pelo atraso."
    Escrevia a senhora da limpeza.
    Acho que ela se enganou, pensou Anelise. Ou talvez a mensagem apenas tivesse chegado naquela altura.
    Desceu para confirmar.
    A jovem segurava a saia com uma das mãos e o balde com outra como se bailasse ao som de música cigana, exibindo a destreza das ancas.
    Anelise avançou para deixar a informação mas logo foi interrompida por um entusiasmo atípico.
    "A senhora está com um rosto tão tristonho", disse a jovem soltando o balde. Depois segurou o rosto de Anelise como uma mãe consolando as dores de uma filha entristecida.
    "Só estou cansada", respondeu Anelise.
    Apesar da invasão de espaço, Anelise sentiu um leve conforto. A jovem tinha olhos grandes, cheios de alma. Olhos que perscrutavam o interior de Anelise.
    "Mas não é só cansaço físico, minha senhora", identificou a jovem, encaminhando Anelise para a sala.
    Depois sentaram-se as duas no sofá, de mãos dadas.
    "Muitas vezes escondemos problemas espirituais atrás de tarefas e afazeres, mas temos de lidar com as dores do espírito."
    Anelise não teve a certeza se entendeu e a jovem continuou: "É como ir ao médico", disse fazendo retinir as pulseiras. "Mas a um médico focado em diagnósticos mais profundos. Quer que lhe faça um diagnóstico?"
    "Ãããã..."
    "São cinco minutinhos", assegurou a jovem. "Vai ver que vai gostar."
    Anelise acabou por deixar o ritual desenrolar-se. A jovem identificava sinais nas mãos, nos olhos, na testa e fazia perguntas; muitas perguntas. Esqueceram os afazeres da casa e rapidamente se entregaram ao transcendente. Uma viagem confusa, de questões das quais Anelise não tinha a certeza da melhor resposta. Ao fim de cinco minutos ela sentia uma presença estranha a deambular pela casa. Algo arrepiante.
    "Acho que vou para cima, descansar um pouco", acabou por dizer.
    "Isso, minha senhora. O diagnóstico está feito e a cura virá aos poucos."
    A holandesa esvoaçou de robe de cetim para o quarto, ao cimo das escadas. Começava a sentir as vertigens do cansaço, e quase se atirou para a cama, implorando por descanso. As emoções num turbilhão.
    O pensamento voltou à noite passada. Certos momentos ainda não estavam claros.
    "Tem um quarto muito bonito", disse uma voz vinda do canto do quarto.
    O medo invadiu as entranhas de Anelise. Medo que foi crescendo, acelerando o coração. Ela podia jurar que não ouvira a porta abrir-se. E que a jovem continuava na sala.
    "Como é que você entrou aqui?"
    "Não tenha medo. Só me esqueci de lhe pedir uma coisa."
    De luz do sol escassa, coada pelas cortinas era difícil decifrar a jovem sentada na poltrona do quarto.
    "Peço que saia do quarto, por favor", ordenou Anelise com rispidez.
    "Desculpe-me pela invasão. Mas não quer que limpe aqui?"
    "Claro, não é isso...", Anelise precisou recuperar a razão. "Limpe primeiro a parte de baixo e avise-me quando quiser limpar aqui em cima."
    "Não tem problema, minha senhora. Assim que acabar lá em baixo eu aviso."
    E saiu esvoaçando a sai até à cozinha.
    Anelise segurava a cabeça, de cotovelos apoiados nas pernas.
    Optou por não adormecer. Afastou as cortinas da janela para o exterior. Conseguia ver a mulher passeando a esfregona pelo chão. O cheiro a lixívia subia até ao quarto trazendo consigo a normalidade dos hábitos rotineiros.
    Anelise saiu do quarto em bicos de pés. O emadeirado das escadas gemia por mais delicados que fossem os passos. E desceu até à piscina. Lá estava a jovem agora na parte traseira da casa, a limpar as cadeiras exteriores. A confusão enrogava a testa de Anelise, os cabelos desfiavam-se em fiapos amarelados muito finos.
    "Sabe, minha senhora", começou a jovem, lá do fundo, "O que lhe queria dizer é que normalmente as consultas no médico são pagas."
    Foi aproximando-se muito lentamente.
    "Os médicos espirituais também merecem o retorno do seu trabalho."
    Anelise não conseguiu ficar indignada com a sugestão. Invadida pela perplexidade, apenas anuiu.
    A jovem continuou a aproximar-se.
    "Não acha justo?”, perguntou, muito próximo de Anelise. Pergunta acompanhada de resquícios de afronta. Mas a jovem não sabia que se dirigia a uma mulher de negócios. Habituada a lidar com propostas ainda mais indecentes. Não tão atrevidas.
    "No entanto o serviço de limpeza está longe de ser o melhor", confrontou Anelise. "Estava a pensar receber algum desconto. Sinto-me lesada."
    O rosto da jovem emanou hostilidade de tão cerrado que se tornou.
    Não disse nada.
    Voltou para as limpezas. De joelhos resignados no chão.
    Anelise voltou para cima.
    Teve naquele momento a certeza de que havia algo mais com aquela jovem que de um momento para o outro já estava parada à entrada do quarto de Anelise. Ao vê-la no cimo das escadas, quis voltar para trás. Ouviu-se a loiça da cozinha desabar no chão. A jovem apenas se desviou da porta, ainda de olhar fulminante. Anelise não questionou, atarantada pelo medo. Entrou e fechou a porta atrás de si fazendo questão de trancá-la, ainda que aquela jovem parecesse não obedecer aos mesmos limites físicos que qualquer ser mortal.
    O telemóvel estava em cima da cama, com alguma mensagem por ler.
    Lia-se:
    "Mais uma vez, as minhas desculpas. Só conseguirei chegar depois do almoço, aconteceu um imprevisto"
    Dizia a senhora da limpeza.
    Por um instante, algo acudiu à mente de Anelise, um receio rápido e passageiro. Ela escreveu de volta:
    "Alguma coisa grave?"
    A cabeça rodou num turbilhão de ponderações. O coração acelerou as rotações.
    Tentou manter a calma e encostou o ouvido à porta do quarto.
    Silêncio.
    O telemóvel vibrou de volta.
    "Assaltaram-nos o apartamento, mas já comunicamos à polícia. Espero conseguir estar aí o mais rápido possível."
    Ela procurou algum objeto para se defender. Livros, almofadas. Até desmontar a cama se tornou hipótese. Qualquer taco de madeira seria melhor do que voltar a sair daquele quarto de mãos a abanar. Mas foi exatamente como Anelise saiu do quarto; de mãos a abanar.
    Os corredores afunilavam-se, cada esquina se tornava em ataque iminente. Anelise podia sentir a jovem a observá-la de algum canto desconsiderado. E quando menos esperava, a jovem emergiu da cozinha de faca na mão.
    A perseguição deu-se entre os móveis da sala. Copos no chão, cadeiras arremessadas, sofás arrastados. Até Anelise escorregar no tapete. De faca apontada à garganta rogou por tréguas.
    "O que quer você de mim?", gritou em agonia.
    "Eu sei que tem um cofre aqui em casa, toda a gente sabe na cidade. Leve-me até lá."
    "Cofre? Que cofre?"
    A faca admoestou-lhe o pescoço.
    "Não me minta", avisou a jovem. "Rasgo-lhe as entranhas."
    "Mas não existe nenhum cofre, o dinheiro está no banco."
    "Há um cofre nesta casa, as pessoas falam."
    Anelise logo se lembrou da cave. Pois claro, a cave!
    "Não é o que está a pensar", tentou Anelise, "mas é muito valioso e está na cave."
    A outra afrouxou o entusiasmo.
    "Onde fica?"
    Caminharam até à cave separadas pela faca. A jovem picava o quadril de Anelise fazendo-a apressar-se.
    Desceram a escadaria que emanava um hálito fresco e húmido de azulejos laranja. E eis que a galeria se revestia de quadros, nas paredes, no chão, nas prateleiras. O próprio teto exibia também os seus quadros.
    "Onde está o cofre?", insistiu a jovem.
    "É disto que as pessoas falam. Há quadros que valem milhares de euros. Temos muito dinheiro investido aqui, pode levá-los para vender."
    De início a jovem não entendeu. Depois, precisou do apoio das paredes para equilibrar as vertigens. Ela passeava as mãos inconformadas pelos quadros, como se de alguma forma fosse extrair o dinheiro e abanava veemente a cabeça.
    "Não, não, não", berrou. "Mas onde vai parar este mundo, minha nossa senhora", disse ela em devaneio, de faca a pender na mão, "as pessoas gastam dinheiro… as pessoas já não...", teve dificuldade em organizar o discurso.
    Num gesto irracional tentou segurar alguns dos ditos quadros, que de leves nada tinham e na ausência de força para o fazer acabou por escolher apenas um quadro. (longe de ser dos mais caros).
    Anelise ponderou o confronto físico quando a jovem começou a carregar o quadro para cima. Temeu ser atraiçoada por algum tipo de magia e preferiu saborear o momento em que a outra se debatia para arrastar a pintura.
    "Não esteja para aí parada e venha atrás de mim", ordenou.
    Chegaram à porta de saída, mas Anelise recebeu instruções ríspidas para ficar na sala virada para a parede. Não contestou. Acabou por observar toda a cena a partir dos envidraçados da sala.
    Logo foi tomada pelo espanto quando duas jovens idênticas entraram na viatura depois de atulhar o quadro. A princípio ponderou ser magia, a um nível extraordinário em que a menina se duplicara. Foi preciso tempo para aceitar que havia sido enganada por duas irmãs gémeas fazendo-se passar por uma mulher feiticeira.
  • Psychotic

    Capítulo 01
    Bam!
    Levantou os olhos cansados, já não aguentando mais ficar naquele lugar. Seus braços estavam cruzados em cima da mesa, e sua expressão já deduzia tudo que queria dizer. Apesar de o homem ter lhe dado as costas, sabia qual seria seu destino dali pra frente...
    – "Plantão". – leu a palavras em vermelho apenas para confirmar. – Ah, não... – choramingou após rolar os olhos.
    Voltou pousar a cabeça em seus braços, começando produzir o som idêntico de um choro, porém não estava chorando. Só queria tirar três horas para descansar, ela também precisava dormir ninguém era de ferro!
    Mas mais um turno noturno, sendo este o seu terceiro. Até quando teria que aguentar? Melhor nem pensar, pois seu corpo não iria aguentar por muito tempo, suas energias estavam esgotadas, e sem querer ser indelicada, mas Amber não aguentaria mais uma noite acordada, nem mesmo se tomasse anfetaminas para manter os olhos abertos!
    – Amber? Tudo bem? – a médica mais velha, adentrou a sala privada dos médicos com uma caixa de objetos em mãos. – Amber...? – chamou novamente, colocando a caixa em cima da mesa, e se aproximando da mulher, que até então não fazia um movimento. – Amber? – a cutucou devagar, e então percebeu que ela tinha os olhos fechados e uma expressão maltratada. – Pobre bichinho, está exausto! – afastou os cabelos de Amber, passando acariciar sua face adormecida.
    O nome dela era Wendy Smith, ou, mais conhecida como a Vovó Wendy do hospital Joseph Louise Morgan. Ela tinha lá seus setenta e oito anos bem vividos, e sua própria aparência denunciava sua idade. Tinha olhos verdes, sobrancelhas finas, cabelos curtos e brancos com alguns – despercebidos – fios pretos. E o sorriso que estampava, quase sempre, em seus lábios tinha o dom de cativar qualquer iniciante na área hospitalar.
    Todos a consideravam a "vovó", por ser a única médica mais velha que aguentou segurar todas as pontas. Sua vida se baseou em controlar os enfermeiros, porém sua responsabilidade dobrou, assim que ganhou os médicos em sua lista.
    Sempre tinha o dever de estudar o paciente, antes de entregá-lo nas mãos de um dos médicos. Essa era sua função. Não acreditava que, estudar a pessoa antes de deixá-la nas mãos de um profissional capacitado, fosse necessário, pois dentro daquele hospital era onde se localizava os melhores médicos do país. Nenhum possuía ficha marcada, todos – sem exceção – executavam muito bem seus trabalhos.
    Wendy tinha um enorme significado, ela era a mãe de todos ali dentro. Sua doçura conseguia cativar a todos, até mesmo um médico orgulhoso e mal-educado, do qual ela conseguia transformar em um profissional respeitoso.
    – Vovó Wendy? – a porta da sala se abriu devagar. – Preciso tirar uma dúvida com a senhora. – ele começou, segurando a nova ficha que recebera do chefe.
    – Alex, Amber trabalhou a noite toda, ontem? – Wendy quis saber, fazendo carinho nas costas da jovem.
    – Ela substituiu o turno da Katy, não se lembra? – respondeu como se fosse óbvio.
    – Katy Hill não voltou pelo visto. – concluiu vendo Alex assentir. – Pobrezinha, ela tem que descansar um pouco. – pronunciou afastando uma mecha de cabelo do rosto de Amber. – Dr. King, não pode levá-la até a ala privada? – questionou encarando o homem docemente.
    – Vovó... – levantou os ombros. – Já estamos na ala privada. – disse como se ela não soubesse.
    – Não digo aqui Alex, me refiro às camas que o hospital disponibiliza para vocês, médicos. – explicou.
    – O chefe não irá... "Encrespar"? – fez aspas com os dedos, deixando sua pasta de documentos em cima da mesa.
    – Irei explicar a situação para ele. – respondeu, visualizando Alex se dirigir para o lado direito de Amber. – Agora, por favor, querido, leve a Dr. Anderson para um descanso, sim? – pediu.
    – Não saia daqui vovó, eu preciso falar com a senhora depois. – avisou antes de pegar o corpo adormecido de Amber, cuidadosamente.
    – Cuidado. – pediu observando Alex caminhar com o corpo da garota nos braços.
    Seus olhos o acompanharam até este empurrar a porta, que daria acesso ao cômodo das camas, com o pé. Assim que a figura de Alex desapareceu, passou prender seus glóbulos fuscos, em tom esverdeado, no documento que antes estavam nas mãos do rapaz.
    Seus dedos enrugados, que tinham envolvimento com a fina camada de pele com manchinhas, abriram o documento, encontrando com algumas fotografias presas por um clips de papel. Com sutileza, as separou, observando os rostos inocentes das crianças. Os lenços amarrados em suas cabeças, já deduziam que todas lutavam contra o câncer.
    O hospital tinha uma área reservada, especialmente para se dedicar as crianças com câncer. E dentro dela, se poderiam encontrar de todos os tipos de sorrisos, ninguém ali demonstrava tristeza!
    O câncer era um assunto bastante delicado para se tratar, e o melhor jeito de lidar com isso era através das visitas públicas, onde pessoas dedicavam um tempo precioso de suas vidas, para fazer almas inocentes rirem.
    – Pelo visto, já descobriu meu assunto com a senhora, vovó Wendy?! – Alex voltou, fechando a porta por onde acabara de sair, com sutileza.
    – Amber acordou? – não, ela não ignorou as palavras de King.
    – Apenas tomou um leve susto quando as costas tocaram o colchão. – respondeu já observando Wendy passar as fotografias. – Ele vai vir hoje! – disse de repente, recebendo os olhos surpresos da vovó.
    – Como sabe? – perguntou abaixando as mãos com as fotos.
    – Ele sempre visita o hospital, nas segundas. – deu de ombros puxando uma cadeira. – Acho gentil da parte dele, tirar algumas horas da rotina, para passar com as crianças. – revelou começando brincar com o elástico da pasta.
    – Ele é um padre, Alex, o que você esperava? – o rapaz rolou os olhos.
    – Nem todo padre, é verdadeiramente um padre! – deixou fluir, cruzando os braços em cima da mesa, deixando um sorriso brincalhão estampar em seus lábios.
    Wendy encarou aquele sorriso com receio. Não gostava quando Alex King, ria após exclamar uma possível suspeita. Odiava ficar em cima da corda. Tudo que Alex mais sabia fazer era imaginar hipóteses e expô-las para o público, como se elas realmente fossem reais, ou fossem se tornar realidade. E isso deixava a vovó cada vez mais incomodada, ele como médico, não deveria viver no mundo da lua!
    – O que quer dizer com isso Alex? – disparou.
    – Eu? Nada, é claro! – foi cínico.
    Alex riu, deixando seu corpo cair para trás. Com os pés apoiados no chão, deixou a cadeira ficar sobre duas das pernas. Levou as mãos para trás da cabeça, e continuou encarando Wendy, concluindo que ela estava louca para mandá-lo para fora dali!
    – Alex, ele é um padre! – exclamou com o tom de voz um pouco alterado, tentando colocar alguma coisa verdadeira naquela mente fértil.
    – E daí que ele é um padre? – o tom de voz desinteressado, estava deixando Wendy irritada. – Ser padre, não significa servir apenas ao Senhor; assim como todo ser humano, um padre está sujeito aos pecados, sendo eles dos mais fáceis de controlar, até os mais difíceis... Ah, quer que eu cite algum pecado tentador? – expôs sua magnífica carreira de dentes brancos.
    – Guarde seus pecados "tentadores", somente para si! – rebateu. – O monsenhor, Bruce Rodriguez, se entregou completamente à igreja. É um dos melhores padres da região, como ousa falar essas coisas dele? – Alex negou com a cabeça, parecendo arrasado.
    – Nunca devemos confiar nas pessoas. O monsenhor pode ser considerado uma pessoa religiosa, respeitosa, pura, porém nós, nunca saberemos o que ele faz quando está fora da área sagrada! – respondeu apertando os olhos conforme pronunciava. – Mas... – se levantou arrumando as fotografias dentro de sua pasta com o documento. – Meu tempo que é sagrado, e têm várias crianças me esperando! – declarou seguindo caminho a porta.
    Wendy rolou os olhos, no fundo, ter demitido Alex King quando o chefe lhe deu a chance, teria sido uma ótima escolha. Mas sentiu pena dele na época, afinal, em sua cabeça, uma pessoa não merecia perder o emprego por deixar um bisturi cair em uma hora de desespero.
    Mas Alex passou dos limites. Falar do Pe. Bruce Rodriguez daquela maneira e com aquele tom de voz cínico, foi demais! A vovó era capaz de esperar tudo vindo dele, menos aquilo... Onde estava o consentimento por ter ganhado uma segunda chance dentro do Joseph Louise Morgan? Que tipo de monstro King se tornou?
    Vovó Wendy não tinha as respostas, porém não tinha tempo para elaborá-las, havia uma paciente preste passar por uma cirurgia no fígado, do qual ela precisava estar presente. Mas se Alex achou que tinha escapado dos questionamentos, estava muito enganado, pois eles sequer começaram!
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    A dobradiça rangeu por um fio de ruído, mas as crianças não mostraram importância com a falta de óleo. Assim que a porta foi empurrada, Amber adentrou a enorme sala, recebendo os olhinhos brilhantes em cima de si. Sorriu, podendo ver duas das meninas correrem em sua direção.
    – Amber! – uma delas emitiu, abraçando a mulher pela cintura.
    – Amber, estava com tanta saudade! – a outra que tinha um lenço branco na cabeça, também a abraçou.
    – Também estava Carly! – sorriu, se abaixando para ficar da altura das meninas. – O que vocês, estão fazendo hoje? – perguntou mantendo seu sorriso.
    – Estamos brincando de casinha. – Carly respondeu.
    – Está na hora do banho, quer brincar junto com a gente, Amber? – a outra ofereceu.
    – Talvez mais tarde Lola. – respondeu, deixando seus olhos caírem sobre as figuras de Alex e Wendy. – Agora vão meninas! – incentivou, e as duas logo correram em direção do tapete, onde estava a casinha de bonecas.
    Sem mais delongas, caminhou em direção da vovó Wendy, que parecia estar dando uma belíssima bronca em Alex. Ótimo, o que ele tinha aprontado daquela vez? Mente fechada e complicada, só poderia resultar em confusão!
    Rolou os olhos assim que viu Alex com os olhos de um predador. O rapaz tinha as mãos na cintura e sua língua umedecida seus lábios, enquanto a vovó lhe ditava palavras que pareciam não agradar muito sua autoestima.
    – O que aconteceu? – foi direto ao ponto.
    – Alex está acusando o Pe. Bruce, de não ser realmente um padre! – Wendy respondeu e Alex riu.
    – Eu não acusei ninguém! – repreendeu tentando segurar o riso. – Eu só falei como uma hipótese. A vovó que está o considerando um infiel à igreja! – Amber mostrou-se confusa.
    – Eu nunca disse que ele era um infiel à igreja, você que citou os pecados "tentadores"! – vovó se defendeu, apontando o dedo no peito de Alex enquanto falava.
    – Alex! – Amber emitiu ficando surpresa com as palavras da vovó.
    – O que? – o ouviu pronunciar. – Sexo não é pecado! Todo e qualquer ser humano necessita. Sentir um pouquinho que seja de prazer, não mata ninguém! – Anderson rolou os olhos, enquanto Wendy cobriu o rosto com as mãos, sentindo vergonha.
    – Você ouviu o que acabou de dizer? – levantou uma sobrancelha. – Está falando de sexo. Um padre, a partir do momento que decide ser padre, nunca se entrega aos pecados tentadores do mundo! – pronunciou firme de si. – Somos todos seres humanos, capazes de cometer erros, e o Pe. Bruce não é diferente de nós. Mas ele possui um ofício, o dever de servir a Deus... Então pare de tentar ver coisas, onde não há! – seu tom de voz firme, talvez intimidasse Alex.
    Mas ele riu, estava debochando de todas as palavras de Amber.
    – Amber, por favor, até parece que nunca transou na vida. – continuou rindo, fazendo a mulher engolir em seco.
    Sexo era um assunto bastante delicado...
    – Isso não vem ao caso, Alex! – rebateu com a voz um pouco alterada.
    – Vem sim! – provocou seguindo com passos lentos, até estar cara a cara com ela. – Diga, não é gostoso sentir o prazer vivo em suas entranhas? Ouvir sua própria melodia; sentir suas pernas bambas com cada round; o suor desenhando por sua pele... É capaz de negar que não gosta? – direcionou o olhar convencido para o olhar, já irritado, de Amber.
    – Eu disse... Que isso, não vem ao caso Alex King! – rosnou entre os dentes.
    – Parem já, vocês dois! – vovó interviu, os separando a partir do momento que ficou no meio deles.
    Alex tentou avançar com seus passos, mas a vovó o impediu, fazendo-o recuar com o olhar raivoso. Amber o encarava profundamente, com série de dúvidas... Bruce não merecia ser visto daquela maneira, de modo algum ele faltou com respeito à igreja, então não havia motivos para Alex julgá-lo.
    Sinceramente, Alex King tinha uma mente que precisava passar por um tratamento!
    – Eu só estava tentando ser amigável em conversar sobre sexo com você, Amber Anderson. – sorriu sarcasticamente.
    – Eu não preciso que ninguém... – Amber ia se defender, mas a porta escolheu justo aquele momento para se abrir. – Acho que seu amigo chegou Alex! – provocou fazendo o rapaz rolar os olhos.
    Wendy abriu um sorriso largo, e se dirigiu em direção do novo indivíduo, deixando Alex e Amber livres para se atacarem.
    A mulher, por outro lado, ignorou a presença de King, não queria ter que trocar palavras com ele, homem desprezível que só pensava em sexo!
    Amber Anderson não gostava de conversar sobre sexo. Sentia-se envergonhada. Era virgem aos vinte e três anos, não que nunca ter transado fosse uma vergonha, mas se sentia desconfortável por conversar sobre tesão sexual com alguém experiente, como Alex.
    – Bruce te adora Amber, não quer ir lá conversar com ele? – ouviu a voz de Alex, e tudo que fez foi ignorá-lo. – Não quer trocar umas palavrinhas? – provocou novamente, e ela apenas rolou os olhos. – Vai me ignorar mesmo Amber?! – entrou na frente dela com as sobrancelhas arcadas.
    – Nunca mais fale sobre sexo comigo! – deixou claro.
    – E, por acaso, isso é algum crime? Você já transou Amber, então não é constrangimento algum falar sobre isso! – se explicou, e visualizou a mulher abaixar a cabeça.
    – Alex entenda... – envergonhada olhou para os lados para se certificar de que ninguém mais, além dele, ouviria. – Eu sou virgem. – falou baixo apenas para ele ouvir.
    – Wow... Amber eu... – ficou sem jeito. – Eu não sabia, pensei que você e Jackson já...
    – Não, eu não deixei. Nunca me senti segura, por isso ele terminou. – explicou.
    – Entendo... Mas se quiser, a gente pode resolver isso! – indicou o banheiro com o queixo.
    – Estúpido! – riu acertando um tapa contra o ombro dele.
    Alex não escondia, e era preciso apenas estudar o seu sorriso para ver que ele sentia uma atração por Amber. Eram amigos desde que ela entrara para o hospital, e sempre, desde o primeiro dia, sentiu uma atração muito forte por ela.
    Ele queria fazer parte de um pedaço da vida da mulher, porém isso tinha se tornado algo difícil. Toda vez que tentava conversar sobre relacionamento, tentava ser o mais delicado possível, mas Amber sempre mudava de assunto quando ele questionava sobre intimidade.
    Agora entedia. Ela era virgem!
    – Você já se masturbou, alguma vez, Anderson? – questionou de repente.
    – Eu, hã... – travou, mas foi salva.
    – Amber! Amber! – duas meninas começaram a gritar correndo na direção da garota.
    – Fale meninas. – foi simpática e Alex observou seu sorriso tão lindo...
    – O Pe. Bruce quer falar com você. – Zoe respondeu segurando a mão da mulher.
    – Ele disse que vai nos ensinar como fazer uma torta de maçã, mas você tem que ir junto! – já lhe puxava a outra mão.
    – Parece interessante a ideia, Carly! – sorriu, deixando-se guiar pelas duas meninas.
    Alex mordera os lábios, onde estava com a cabeça? No mundo da lua só podia ser!
    Era bem óbvio, pela cara de vergonha de Amber em revelar que era virgem que ela nunca tinha se masturbado. Mas homens, oh, criaturas burras, sempre estragam tudo!
    Alex King buscava ter uma chance com Amber, certo? Pois bem, acabou com todas as suas chances possíveis!
    Passou acompanhar os movimentos de Anderson, vendo-a abraçar o Pe. Bruce com um sorriso largo nos lábios. Aquilo o fez revirar os olhos. Será que ele era o único com pensamentos diferentes sobre aquele padre? Não era possível que ninguém acreditava nele, não necessariamente precisavam concordar, então pelo menos respeitar suas teorias já era o suficiente, mas ninguém, certamente NINGUÉM tinha capacidade para fazer isso!
    Até mesmo a vovó Wendy, que julgava sendo como uma mãe ficou contra si, isso sem comentar de Amber...
    – Eu vou vomitar! – exclamou rolando os olhos, saindo em direção da saída da sala, com certeza, papéis ou arquivos eram muito mais interessantes que ficar ali observando Amber sorrindo abertamente para o padre.
    Sabe o quanto ele daria para receber um sorriso daqueles? Melhor nem dizer...
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    A mão arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha, era ela simplesmente linda demais! A mulher mais bonita de todo o hospital Joseph Louise Morgan!
    Afastou o cigarro dos lábios, soltando a fumaça para o alto, a cor branca começou desenhar um lado obscuro do puro desejo e atração. Os traços da fumaça desapareceram com a força do vento, porém esse era o menor dos problemas.
    Amber Anderson, era a sua garota, a escolhida para viver anos ao seu lado. Afastando novamente o cigarro dos lábios, jogou-o no chão, fazendo questão de pisar em cima, ninguém poderia saber que ele fumava.
    Precisava manter sua imagem no hospital.
    Pela última vez, espiou a imagem de Amber agora conversando com Wendy, e um sorriso acabou dominando seus lábios, ela era realmente a melhor mulher que já encontrara!
    E antes que dois médicos pudessem sair do estabelecimento, se dirigiu rapidamente em direção de seu automóvel. Adentrara o lado do motorista começando checar seus pertences, que estavam dentro da caixa em cima do banco do passageiro, e assim que conferiu cada detalhe, fechou a caixa com a tampa. Ele não iria precisar mais daquilo, somente no dia seguinte, agora seu rumo seria outra residência...
    Girando a chave da ignição, pisou fundo no acelerador, cantando os pneus. A imagem de Amber estava gravada em sua mente, mas agora não poderia contar mais com ela, sua próxima parada exigia um talento que ele escondia nas próprias mãos!
    Dentro do hospital, Amber caminhava pelo corredor, segurando sua prancheta de pacientes em mãos. A noite finalmente caiu e cobriu todo o céu de San Rosie, e o hospital nunca ficou tão escuro e frio igual naquela noite.
    A mulher esfregava as mãos nos braços na tentativa de espantar o frio, mas era tudo inevitável. Seus pelos continuavam se arrepiando lhe alertando que aquele seria um dos seus piores plantões!
    – Amber! – parou imediatamente os passos, virando na direção da voz.
    – Como está sendo sua noite, Jacob, belíssima? – tentou colocar sarcasmo na voz, o que foi um fracasso.
    – Deve está sendo o mesmo que a sua. – respondeu dando de ombros, acompanhando Amber que seguia para o balcão na recepção.
    – Que coincidência, não? O chefe do hospital pegando plantão, como qualquer outro médico, chega até soar engraçado! – caçoou rindo.
    – Amber pare de agir como uma criança no jardim de infância! – exigiu, e ela fingiu não ouvir, estava ocupada demais assinando alguns documentos. – Nem parece que é médica e sim, uma faxineira que só resmunga! – comparou e logo Anderson se virou, ficando cara a cara com Jacob.
    – Se eu pareço uma faxineira, por que me contratou para servir o seu hospital? – disparou firme.
    – Amber... Eu ter deixado dois plantão na sua mão, já são provas o suficiente do que você significa para mim. – respondeu, e a mulher negou com a cabeça e um sorriso cínico.
    – Foram duas noites, Jacob! – rebateu seguindo novamente para o corredor.
    – Me deixa falar Amber! – emitiu, começando segui-la.
    – Eu não tenho nada do que falar com você! – emitiu continuando com seus passos.
    Jacob percebendo que nada iria adiantar para parar Amber resolveu aumentar a velocidade de suas pernas. Conseguiu, com muito esforço, entrar na frente dela, e a mulher em contradição somente parou e rolou os olhos impaciente.
    – O que você quer Jacob? – deu-se por vencida.
    – Você está livre do plantão de hoje. – resolveu despejar tudo na primeira oportunidade que tivesse.
    – Por q... Não, cadê o documento onde consta minha demissão? – esperou que ele retirasse alguma folha do jaleco e lhe entregasse, o que não aconteceu, ao contrário ele riu.
    – Acha mesmo que vou demiti-la só porque a dispensei do plantão? – riu mais uma vez, e Amber suspirou em raiva. – Não se preocupe Amber, enquanto eu estiver no cargo de chefe, você nunca será demitida. – deixou claro antes de seguir para a recepção, de onde antes estavam.
    Rolou os olhos mais uma vez. Jacob Write com trinta e dois anos conseguia mesmo ser surpreendente. De repente joga um plantão nas mãos de Amber e logo depois decidi retirá-la do plantão?! Que tipo de chefe era aquele?
    Enquanto tentava refletir sobre a mudança de plantão observava, na mesma posição, à figura morena de Jacob conferindo algumas pastas. A secretária ria de alguma idiotice que com certeza saiu pelos lábios de Write.
    Era incrível como todas as mulheres tinham uma queda pelo chefe!
    Claro, com seus cabelos castanhos, corpo esculpido – nada muito exagerado – sorriso colgate e olhos azuis, malditos olhos azuis, ele só poderia ter sido um erro genético!
    Jacob Write tinha apenas trinta e dois anos, como era possível ter aquela aparência? Tudo bem que os olhos azuis lhe dava o charme natural, mas com sua idade, o certo seria estar casado, com filhos e aparência velha, mas Jacob era totalmente o oposto de tudo, começando por estar solteiro.
    Homens do século XXI.
    Amber balançou a cabeça de um lado para o outro, retornando para sua caminhada pelo corredor. Já que não teria mais que ficar responsável pelo plantão, o que mais poderia fazer? Só lhe restava ir dormir, pois se voltasse para casa teria que encarar a figura de Alex e vovó. O que de fato não estava com determinação para encarar...

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