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  • "Senta aqui, vamos tomar um café"

    Senta aqui, vamos tomar um café?! Jogar conversa fora? Rir pra caramba, quem sabe chorar em algum momento. Senta aqui, vamos falar sobre nós! Como você está? Seus planos? Suas conquistas... Conta mais.

    Senta aqui, vamos matar a saudade de nós, vamos aproveitar um tempinho livre pra descansar a cabeça, o corpo! Senta aqui, vamos falar sobre sonhos, até mesmo daqueles mais cabulosos, quase impossíveis! Senta aqui, vamos olhar dentro do olho, ver como estão brilhando. Senta aqui, me deixa ver como você está bem, como você está feliz!

    Quero sentir seu abraço por alguns instantes. Ouvir sua voz, sua risada. Senta aqui, deixa eu te contar como eu estou como me sinto. Senta aqui, quero te contar uma ideia maluca que tive. Senta aqui, lembra aquela viagem que eu queria fazer, deu certo! Senta aqui, me ajuda a fazer uma lista de prioridades! 

    Preciso ir... Obrigada pela companhia, pelo café, pelo abraço, pela voz doce e suave, pelos conselhos impagáveis, pela companhia maravilhosa, pelas gargalhadas que demos, pelas bobagens que falamos e pela saudade que matamos!
  • (RE)FABULOSO

    Dedicado a Ivys Danillo e Breno Fonseca.
        Esta história não é tão velha que vos pareça um fato desconhecido, mas atentem-se as nuances do relato para que essas linhas más traçadas, não venham a parecer uma extensão mal elaborada do mesmo.
        Bem, agora vejamos, ela ocorreu na década de 60. O mundo todo já tinha visto as maiores guerras do mundo depois da Guerra de Troia e do Mahabharata, centenas de revoluções e muitos conflitos.
        Mas abaixo da Linha do Equador, no Trópico de Capricórnio, numa cidade litorânea do país conhecido como Brasil, haveria um conflito entre as tecelãs do Destino. Qual sina para qual garoto na sala?
        O mais velho parecia espirituoso, educado e gentil. Vestia um terno e uma calça social. Esmerado como um diamante. Os cabelos negros tinham um brilho ofuscante, a pele evidencia sua origem bastarda.
        O jovem tinha petulância, teimosia e cinismo. O gênio ruim só era mais limpo do que as mãos traquinas. A roupa galante já não constituía beleza alguma, tudo nele era um problema. A boca então!
        O médico chamou dos dois meninos na sala de estar e os dois se apressaram a entrar no quarto. O velho estava moribundo, desenganado pelo médico há muito tempo que viveria bem pouquinho.
        O braço pelancudo se agitou no ar e procurou abraçar os garotos, o mais velho retribuiu, o mais novo ficou de canto, assistindo a cena com nenhum entusiasmo. O velho pigarreou e disse aos dois:
         — Escutem meus filhos, pois tenho dois e não um como minha velha esposa acreditava. Vivi muito nesse mundo para lhes dizer o que a Vida espera de um Homem, e o que ela não quer ver em um Homem: Não faça do orgulho estandarte para que em teus ombros ele não se torne um fardo. Esqueceu-se de sorrir, não te lembres de chorar. A lamúria e o regozijo só aumentam o sofrimento. O maior de todos os pobres é o que só tem dinheiro para comprar a infelicidade. Os que comem a mesa da mentira, depois só vomitam asneiras. Os sábios são loucos aos olhos dos perversos. Se conselho fosse vendido, não serviria, pois o remédio para os males de um é veneno para o corpo de outro.
        Depois de dizer tudo isso ele entrou numa crise de tosse convulsionante e faleceu. O irmão mais velho chorou e imprimiu tudo no seu coração. O mais novo correu assustado do quarto do pai.
        Brincando de carrinho antes do velório, ele esqueceu tudo o que o pai disse. O Testamento foi lido no jardim. O senhor de calças coronhas e terno de ombreiras subiu em um caixote e fez a leitura.
        O falecido exigiu como tutor o seu amigo mais próximo, que cuidaria dos seus filhos. O pai queria que os filhos tivessem igualmente os mesmos cuidados, Educação, Saúde, Lazer, Segurança e Paz.
        Enterrado às três horas da tarde no cemitério da cidade, o resto da família que se resumia aos dois garotos, o tutor e os empregados, retornaram para a mansão que ficava bem localizada em bairro nobre.
        As coisas por um momento pareceram estranhas ao filho mais velho, não teria mais o pai ali para lhe repreender e lhe ensinar sobre as coisas do mundo. Havia muito que gostaria ainda de saber.
        O filho mais novo por sua vez sentiu um que a mais de liberdade. Não teria mais o pai para vigiar os seus passos ou brigar com ele quando cometesse um falta. Já se acostumara à nova situação.
        Como odiava o seu irmão, maltratava-o com todos os artifícios que podia, queria maltratá-lo, xingava o irmão, imitava um macaco e depois quebrava as coisas culpando o irmão mais velho por tudo.
        Quando se queixava com seu tutor, recebia a culpa ou um safanão. Seu irmão era o centro das atenções nas reuniões de família e ganhava os melhores presentes. O outro era segregado na cozinha.
        Acalentado pelas empregadas da mansão por ser bonzinho e de mesma cor, comia o bufê antes de todo mundo. Com o motorista aprendia a consertar carros. Com as empregadas aprendeu a cozinhar.
        Antes dos doze anos já tinha mais autonomia que muitas meninas da sua mesma idade. Suas notas na escola eram diferentes da de seu irmão mais novo, mas o outro comprava melhores boletins.
        Com o passar dos anos, um o irmão mais velho já tinha acelerado uma série devido à aplicação nos estudos, o caçula aumentou os gastos do tutor com a propina na escola e abafar o seu mau comportamento.
        Nada lhe punha rédea, e quando contrariado, usava o dinheiro de seu pai e pronto!
        Quando os dois se formaram no ginasial, o bastardo procurou o nível superior e o outro a boêmia. Enquanto as denúncias de assédio cresciam contra seu irmão, ele estudava mais ainda.
        Tentando ajudar, ele procurou o seu irmão caçula para uma conversa e disse-lhe:
        — Veja meu irmão, nosso pai faleceu e estamos sós no mundo, nosso tutor só não torrou toda a nossa porque depende dela para manter o seu padrão de vida. Olha para tudo isso e repara que é nosso por direito. Desde o portão até a poeira que se instale nos móveis. Não sei quais tuas queixas contra mim, mas que te falta para usufruir disto com mais saúde e respeito ao esforço de nosso pai?
        — Começa por ser bastardo, depois por sabichão e tenta parecer o que não é, quando na verdade o é em vice-versa. Não sei quem te disse que não gozo nem usufruo com saúde daquilo que o “meu pai” deixou para mim. O único mal que o meu pai deixou na Terra para minha desgraça e vergonha foi a ti. Não sei por que nasceste nesse berço, quando dele não tinha direito nenhum!
        E como um peixe a dar rabanadas nas fuças do desavisado pescador, o caçula, pois fim aquela conversa sem pé nem cabeça que tinha tido. O outro não se ofendeu, ele não se ofendia mais com nada.
        Enquanto enfiava a cara nos livros seu irmão enfiava a mão no violão e chegava em casa as tantas da noite. Acordava o tutor, bulinava as empregadas mais jovens e deitava na cama roncando feito um porco.
        Pela manhã acordava aborrecido gritando e ordenando quem aparecesse pela sua frente. Seu irmão mais velho já estava na primeira condução para a escola de nível superior. Era homem incansável.
        O irmão mais novo tomava café bocejando como um leão cansado de correr atrás da presa. Lia o jornal gaguejando as palavras e sempre perguntava ao motorista como se soletrava tal e qual palavra.
        Quando não berrava, gritava. Ai de quem não fizesse o que ele mandava. Como o reizinho mandão, ele apontava para um objeto e logo estava em suas mãos, ordenava e acontecia num passe de mágica.
        Mas como tinha preguiça até de mandar, saia logo para se encontrar com os amigos. As mulheres de vida fácil o conheciam sua lábia e as pobres que não conheciam logo se sentiam amarguradas com a gravidez.
         Tantos foram os bastardos que largou pelo mundo que já tinha quebrado record do pai e de seu tutor fanfarrão juntos. Eram muito parecidos por sinal.
        Os dias e as noites passavam iguais para ele. O tutor querendo lhe fazer bem e aumentar a fortuna da família, arrumou um casamento com uma bela moça. O irmão mais velho saiu de casa para fazer faculdade.
        O irmão mais novo considerou o caminho livre e arquitetou uma maneira de garantir a fortuna da moça e se livrar do tutor. Depois do noivado apressou o casamento com a sua pobre e ingênua esposa.
        Os sogros lhe abriram sociedade com o genro na sua empresa para unir os capitais das famílias. Envenenou o tutor com uma taça de vinho, entregue através pelas mãos da esposa na festa de núpcias.
        Um mês depois a perícia chegou com o laudo incriminatório: morte por intoxicação. Tudo de que ele precisava, esperou a condenação. Depois arrumou uma bela amante e desfilava com ela num cadilac.
        O sogro morreu num assalto seguido de latrocínio dois meses após a prisão da filha. A sogra não aguentando a pressão dos fatos suicidou-se meses depois. O caçula tornou-se sócio majoritário da empresa do sogro.
        O irmão mais velho seguiu na faculdade sofrendo todo tipo de tortura, física, psicológica e sentimental. Assim como em sua própria casa ele foi segregado como se fosse um animal selvagem qualquer.
        Sua inteligência ofendia seus colegas que acreditavam que ou ela vinha de berço ou era coisa de cor. Nem uma nem outra, ele concluiu a faculdade engenharia e ganhou uma oportunidade no Chile.
        Ele trabalhou durante quatro anos, os dois primeiros meses como minerador, depois como operador de máquina e concluiu o ano como engenheiro adjunto. Casou-se com a filha de um fazendeiro chileno.
        Com ganhava em dólares, chegou rico ao Brasil. Montou o seu próprio escritório de engenharia, quando os clientes sabiam do seu nome iam lá, mas quando sabiam quem realmente era davam-lhe as costas.
        Mas sempre voltavam a contragosto. Não havia outro com tanta qualidade e experiência no mercado brasileiro da época, os seus clientes acabaram deixando a necessidade passar por cima do ego.
        Ao saber como andava as coisas na mansão, resolveu nem pisar os pés lá. Seu irmão mais velho tinha perdido metade da fortuna com as safas que o seduziam e com jogos de azar que o rapinavam.
        Os ex-colegas procuraram emprego, mas ele negou, não sabiam fazer nada mesmo.
        O primeiro filho veio após a construção do segundo escritório. Em todo o Brasil sua firma prosperava, o petróleo aumentou seus rendimentos, fosse o preço do barril alto ou baixo, precisavam de engenheiros.
        O irmão mais novo um dia catou um jornal no lixo debaixo da marquise em eu tinha se enfiado como se fosse o Rei Rato e sentiu o cheiro de oportunidade no ar. Só precisaria de uma roupa mais “apresentável”.
        Quebrou a vidraça de uma loja de ternos e surrupiou as que conseguiu catar. Banhou-se no córrego onde as mulheres costumavam lavar roupa de ganho. Pôs sua melhor máscara e foi até a mansão do bastardo.
        Durante uma semana inteira tentou uma entrevista, e só conseguiu porque a filha mais nova percebeu sua presença e contou para o pai sobre o bisbilhoteiro. Ao se apresentar, o irmão mais velho o recebeu.
        Os dois subiram até o escritório e depois de comer umas fatias de bolo e tomar umas xícaras de café, não disfarçou, estava varado de fome. Depois da morte do seu tutor, as coisas haviam mudado.
        Casara pela segunda vez com uma bela mulher que gastava os mundos e os fundos. Perdeu o resto da fortuna no pôquer e foi preso por poligamia depois que a primeira mulher conseguiu sair da cadeia.
        Os empregados antes disso tinham-no abandonado um a um, ele sempre os considerou um tanto preguiçosos. Na verdade os que não iam embora morriam por maus tratos. O bastardo ouvia em silêncio.
        Depois de uma longa reticência, o irmão mais velho chamou seu segurança e mandou jogar aquele salafrário mal cheiroso no primeiro bueiro que encontrasse. O irmão mais novo ficou pasmo.
        Foi arrastado do escritório até o portão de entrada e antes que fosse colocado no porta-malas do seu carro, o irmão mais velho encarou o seu rosto perplexo do seu irmãozinho e disse em alta voz:
        — Faço minha as últimas palavras do meu pai.
        O porta-malas foi fechado com violência.
  • (Sobre)viver

    Perdi a agressividade. Estou sem crises nervosas, existenciais e financeiras. Meu sangue não está mais febril. Estou me rendendo às exigências da sociedade, do estereotipado e do previsível. Será que envelheci?
    Mas me disseram que carregamos com a gente por toda a vida as idades que já vivemos. Será? Eu, até pouco tempo, mandava tudo à merda, brigava por quase tudo. Paz! É isso! Estou sentindo paz! Alguém me disse que é a paz que faz a gente sentir assim.
    Paz? O mundo continua doente, sacana, injusto e sangrento e eu aqui, conformado, parado, pensando. Se isso for o que as pessoas chamam de paz, na verdade, não passa de uma ira camuflada, de uma máscara, de uma anestesia social.
    Cuidado amigos, é isso que a vida pode fazer com a gente, quando se comete o crime de se “enquadrar no contexto”, de ser chamado de lúcido. Agora só me falta converter religiosamente, fazer doações para pastores imbecis e deixar meu filho e meu vizinho passar fome. Devo o que, hein? Ser o Charlão de antigamente? Isso. Quero rebelar outra vez. A “sensatez” (Hipócritas filhos da puta) não tem a minha cara, embora, até pouco tempo, parecesse com ela.
    Acho que preciso conversar com mais crianças, com loucos e com um bêbado. È isso. Decidido. Preciso da verdade ingênua das crianças, da verdade roubada dos loucos e da verdade reprimida que acha uma brecha nos alcoólatras. Nessas verdades (sagradas e profanas) é que se deve achar o verdadeiro sentido de tudo. Mas...
  • [Roteiros] ETERNO

    […]

    Estive refletindo todo esse portfólio. O nosso amor. Sabe no que tanto andei pensando? Que a gente deveria casar. E ter uma família, cachorro. Temos uma conexão surreal, gostamos muito um do outro. Não há desculpas ou o que se questionar. Já sei que a resposta é um sim, não precisa responder. Agora só falta marcar o dia… Pode ser hoje mesmo, ao anoitecer, no Recanto, assim que eu sair do trabalho. Fechou então, marcado.

    Vamos mesmo casar hoje, viu? Uma cerimônia a dois, simples e singela, vamos eternizar cada segundo entre o luar e o alvorecer.

    Está será a noite mais incrível dos nossos dias.

    Olha, juro para o Universo que não estou brincando. Você diz que eu sou louco, mas ainda não sabe o quanto. Te amo, meu Jacarandá.

    […]

    Está falando sério? Adorei o seu falar cheio de convicção. Convicto quanto a mim. Exatamente assim, não há que se ter dúvidas.

    Eu trocaria a eternidade por esta noite, como em “Relicário — Nando Reis”. Caso com você quando e onde quiser.

    Assim que te vi, topei uma vida com você e todos os frenesis que há de vir. Estamos entrelaçados. Ligados por todo o sempre.

    O destino me mostrou isso ainda no principio. Te contei, cedo, nas entrelinhas e você não se deu conta.

    Lembra quando nos conhecemos? A primeira vez que nos encontramos?

    Recordo fervorosamente cada detalhe. A primeira vez que senti o seu toque, o teu cheiro, o teu olhar… A primeira vez que ouvi o teu timbre. O nosso abraço sob a densa chuva.

    As águas de março fechavam o verão e naquele dia eu tomei o banho de chuva mais gostoso da minha vida. Sobretudo, me vi no envolto corporal que estranhamente me arrepiou dos pés à cabeça.

    Somente quando diante do seu olhar eu compreendi tudo. Se tratava daquilo… a chuva.

    Quando do nosso primeiro beijo, a chuva também estava lá. Marcando o principio do relicário imenso desse amor.

    Em algum lugar no tempo ouvi dizer, e acredito com veemência, que as coisas que se iniciam com a chuva são eternas. Nos transformam. Mudam a nós mesmos radicalmente. É um sinal de que estamos alinhados ao nosso destino. São instantes atemporal.

    Sabe, tenho essa sensação… de que o “eu e você”, de algum modo, sempre esteve escrito. Não sei explicar, só sinto.

    […]

    Mulher, você é fantástica. Confesso, tive receio de que julgasse bobo, precipitado e mal desse ouvidos. As estações correm e nós permanecermos a agir como no principio. Não há que se esperar nada se tratando de nós dois. Não passamos vontade. Não importa como, quando ou onde. Gosto disso na gente.

    […]

    Óbvio que foi inesperado. Sem mais nem menos, de um instante a outro. Aliás, diante de tudo isso aqui, inequívoco que eu seria incapaz de dizer um “não”.

    Se trata de você, meu bem. O homem que tem nas mãos o meu choro de mulher, que tem o meu ver, o meu olhar e o que quiser.

    Eu toparia casar com você até mesmo se a proposta for fazendo juras de mindinho. O casamento, ao meu ver, não é institucional e sim simbólico.

    […]

    Você tem um potencial para me dizer coisas tão lindas que eu fico perdido sem saber o que responder. Como se nada do que eu dissesse fosse capaz de expressar tudo o que eu sinto.

    […]

    Não precisa me dizer nada. O seu olhar, o seu toque, me diz o Universo e o mundo. A sua linguagem do amor é diferente da minha. Eu não preciso de palavras de afirmação para reconhecer o que você sente.

    Você não precisa usar comparações, canções ou palavras bonitas para me fazer sentir amada. Basta palavras sinceras. Apenas.

    Gosto dessas nossas conversas. São lindas. Parece até mesmo que estamos seguindo uma espécie de roteiro, escrito por um alucinado que idealiza o amor.

    […]

    Eu jamais havia imaginado estar vivendo isso aqui. Esse “agora”, com você. Quando te conheci, não imaginei que seria a mulher com quem dividiria a minha vida. Na realidade, sempre te achei tão dona de si que parecia loucura cogitar qualquer envolvimento contigo. Você é um Universo de qualidades.

    Não sei o que em mim tanto te cativa.

    […]

    Sinto em dizer que não sei te responder. É um mistério. Eu mesma me questiono isso. O que faz você, ser você. Há algo, sei que há. Algo imenso.

    Posso apontar a dedo cada detalhe seu, pinta, marca, riso, jeitos e andados. É um conglomerado de coisas que te faz único. Fico imersa nos seus detalhes.

    Não precisa de muito. É justamente por ser tratar de você.

    Não sei explicar, desde o início, ainda que você e qualquer outro alguém agisssem exatamente da mesmíssima forma, eu sempre fui atingida ao máximo por você.

    O sorriso que enaltece o meu dia. O colo que eu deito e descanso. O olhar que despertar o meu lado devasso.

    Não percebe? Eu amo você. Você. Todo o conjunto do seu eu, cada partezinha.

    […]

    O que eu sinto por ti é desmedido a ponto de ser misterioso. Até mesmo mais que o céu, o luar e as estrelas. Eu sei exatamente o que torna você, você. Cada uma das coisas que me faz transbordar.

    […]

    Sabia que sou fascinada nessa coisa? Planetas, estrelas, anéis… Gostei dessa comparação com os astros. Pode ter certeza que irá encontrá-la em algum dos meus textos. Eles são cheios de você.

    […]

    Então, escolhi a noite certa. Um evento celestial para marcar mais um epílogo. A noite de glória para Vênus, seu ápice. Iremos contemplar o extremo de seu brilho sobrecarregar as Plêiades, da constelação de Touro.

    Aliás, por falar em astros, recorda a primeira música que cantei para ti? “Mecânica Celeste Aplicada — Yoñlu”. Tudo quanto a nós está repleto de pequenas coincidências. Sempre estamos diante da “sincronicidade” que você tanto fala.

    […]

    Espero não estar sonhando, delirando ou em devaneios. Você sempre me surpreende e cada vez de uma forma mais esplêndida. Se eu pudesse, nos fazia eternos.

    […]

    Vamos estagnar o tempo. Eu te farei eterna, em mim. Exatamente como em “As Coisas Tão Mais Lindas — Nando Reis”. Dias, semanas, meses, anos décadas e séculos, milênios vão passar e viveremos por todo o sempre, eternamente, no templo que construímos um no outro.

    […]

    Me sinto grata por você ser o alvo de toda a minha doação e entrega. É um prazer ser você a ter nas mãos o meu sentir e cada fresta do meu corpo. Eu amo a forma como me tem, como me toca (em sentido amplo).

    […]

    O prazer é mútuo. Sei o quanto adora ser chamada de “Vênus”. Mas, você não se dá conta que ser uma deusa, se tratando de ti, ainda é pouco. Você é um Universo inteiro. Aliás, o mais lindo que poderia existir. Tanta força, beleza e intensidade em uma única mulher. Você é expansão.

    […]

    Obrigada, meu bem.

    […]

    Eu quem sou grato. Terei a honra de casar com você. Aliás, venho matutando isso há dias consideráveis. Te comprei um vestido bem antes disso, por de imediato memorar você.

    Fica tranquila, não é branco e muito menos “de casamento”. Sei o que pensa a respeito. Sabe, Ele é do tecido e com os tipos de detalhes que você gosta. Quanto a cor, estampa e tudo mais, não sei dizer. Ele é a linha tênue entre o luar e o alvorecer.

    […]

    Perfeito.

    […]

    Sabe, adoro isso na gente… como nos tratamos. O imenso respeito. A cautela, cuidado e zelo um com o outro. O nosso amor puro. Nesta noite, vamos materializar não apenas simbolicamente. Te fiz algo. Também te escrevi outra música. Bom, seria surpresa, mas eu fico nervoso nesses instantes.

    […]

    Tenho certeza que irei amar.

    Está aí mais uma coincidência. Finalmente finalizei aquele capitulo. Eu escrevi todo o nosso enredo. Cada texto é pautado em um momento. São escritos repleto de frases, cores e falas dos nossos dias. Pormenorizei os nosso detalhes. Espero que goste da minha dedicatória, o primeiro exemplar será seu. Bom, seria surpresa, mas não me contive.

    […]

    Nas ultimas semanas, reconheci o seu jeito e andando diferente. A mudança do seu semblante. Acredito que se tratava disso. Eu tenho convicção que irei me desmanchar com cada palavra.

    […]

    Se trata não somente, mas também disso…

    […]

    Olha, a semana corria e muitos momentos pensei em “arrancar” algo de você, mas não tentei. Você pode ser boa em muitas coisas, mas não sabe disfarçar. Dissimular não é uma característica sua. Eu sinto que tem algo mais.

    […]

    Confesso que já fui melhor nisso. Te mostrei cada uma das minhas versões. No inicio de tudo isso, sobretudo, naquele 29 de fevereiro, eu te era um enigma. Hoje, me conhece tão profundamente que facilmente me decifra.

    […]

    Dona do meu pensamento, cogito algo. Aliás, que eu desejo fervorosamente que seja. Me diz, por favor, que não estou equivocado. Fala de boca cheia e com todas as letras que o nosso vinculo eterno já foi materializado.

    […]

    Se trata disso. Carrego o nosso vínculo eterno em meu ventre.

    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2020]

    @janacoutoj

  • 1- Aidan - TEOMAKIA

    Seis anos atrás ele apareceu na porta da nossa casa. Lembro-me que naquela época já faziam alguns anos que minha mãe estava casada com Antonino, na época em que ele já maltratava ela. Eu tinha 10 anos e, como não tinha muitas companhias, vivia brincando de imaginar histórias nas estradas e nos campos próximos de casa. Sempre sonhei alto, e até falava em voz alta quando não tinha ninguém por perto. Imaginava histórias de príncipes e princesas, como se eu fosse uma. Mesmo sendo menina e nova, Antonino já me mandava fazer trabalhos como se eu fosse um rapaz. Eu buscava lenha, conduzia as vacas para o curral antes do amanhecer e para o pasto depois da ordenha, carpia e arava a roça e dava milho para as aves. Além disso, ele me ensinava a ordenhar e a cortar lenha. Era muito exaustivo, tomava a maior parte do meu dia e me deixava com calos nas mãos e dores pelas pernas e costas. Dentro de casa, minha mãe fazia de tudo, lavava roupas no açude, cozinhava, limpava, arrumava e também não tinha tempo livre.

    Somente meu padrasto, por ser dono da chácara, ficava tranquilo e com tempo de sobra. Quando não estava bebendo e jogando cartas num bar na vila, estava na rede, entre as árvores do quintal, mascando fumo de corda. Por vezes, especialmente quando virava a noite fora, chegava em casa no meio da tarde, completamente bêbado e xingando muito a nós duas. Cansei de prometer a mim mesma que um dia nós iríamos sair de lá, ter nossa própria terra e viver felizes. Não que trabalhar fosse o problema, mas as duas trabalhar por três enquanto Antonino, saudável como um cavalo e largo como um boi, vivia as custas do esforço de uma mulher e uma criança, não parecia ser muito justo.

    Claro que não era assim tão simples. Comprar um pedaço de terra era caro, além de muito difícil. Para ganhar uma, dependia de um título de nobreza, coisa que só reis ou o Imperador podiam dar, ao que eu sabia. A opção seria morar na cidade, mas mesmo isso seria muito complicado. Uma casa na cidade também era cara de comprar e difícil de alugar. E eu não fazia ideia do que fazer numa cidade. Precisaríamos trabalhar por dinheiro, e tudo que sabíamos fazer eram serviços de casa, plantar e cuidar de animais. Fora que, embora eu não soubesse na época, quem chegava na cidade sem posses acabava vivendo uma vida muito mais difícil do que no campo, podendo passar fome ou adoecer com muito mais frequência do que na roça. Minha mãe sempre dizia que, na verdade, elas tinham sorte de ter o Antonino. Eu nunca aceitei isso. E foi nessa época que um rapaz misterioso apareceu na porta de nossa casa.

    Numa daquelas noites em que o Antonino desaparecia, eu tinha acordado antes do nascer do sol para tocar as vacas para dentro do curral. Quando percebi que ele não tinha voltado quase voltei para a cama, mas senti algo diferente lá fora. Tive uma sensação de que deveria abrir a porta para ver, de que era algo ou alguém quente, muito convidativo naquela manhã tão fria de inverno. É, eu sei que é estranho sentir que há alguém quente mesmo sem sentir calor e estando longe, mas era esse sentimento vago que eu tive naquele dia.

    Ao abrir a porta vi, através da névoa e dos primeiros raios de sol, um cavalo preto muito bonito, daqueles dos desertos do leste, muito grande e muito forte. Ele estava vindo em direção à casa, num trote lento e pesado. Quando foi se aproximando eu pude perceber que tinha um homem desacordado no lombo. O homem era jovem, estava bem vestido e não parecia ferido.

    Assim que o cavalo chegou bem perto de mim, parou. Ele deu um relincho baixo e o homem acordou. Eu não podia acreditar que ele estava simplesmente dormindo sobre um cavalo trotando. Mas estava. O rapaz me olhou, pestanejou por alguns segundos e sorriu. Que olhos diferentes! As íris dos olhos dele eram de um vermelho tão profundamente brilhante! Tinha cabelos longos, barba por fazer e parecia ter uns vinte anos. Ele, após alguns longos segundos, finalmente começou a falar.
    - Bom dia, pequena. Como'stai? Seus pais estão? - disse com uma voz grossa e rouca, provavelmente pelo sono. Esse "como'stai" era estranho. Nunca tinha ouvido falar, mas parecia significar "como está".
    - Bom dia, senhor. Bem. Só minha mãe está agora. Quer algo? Quem é voc... o senhor? - tentei falar da forma mais educada que sabia. O jeito dele falar era muito claro, com as palavras completas, mesmo com um sotaque um pouco diferente. Será que era um nobre? Príncipe não era, já que o cavalo era preto e ele era moreno. Mas, pensando bem, eu nunca tinha visto um príncipe fora dos sonhos acordada.
    - Chamo-me Aidan. A Quem pertence esta propriedade? Ou melhor, poderia chamar tua mãe?

    Resumindo, chamei e eles conversaram por mais ou menos uma hora. Oferecemos café, queijo e cuscuz com manteiga. Ele aceitou. Não conhecia cuscuz, mas disse que gostou muito. Apesar disso, comeu bem pouco. Sobre a conversa, ele perguntou sobre o Antonino, sobre o casamento da minha mãe e sobre como ele nos tratava. Perguntou muitas coisas, sobre nossas vidas, como vivíamos antes e sobre as coisas que gostávamos de fazer. Minha mãe não quis dizer nada sobre os maus tratos e nem sobre meu padrasto ser um preguiçoso. E por incrível que pareça, ele parecia bastante interessado em tudo que dizíamos. Quando falava dele, contava sobre a vida na cidade e sobre a infância. Contou que perdeu o pai ainda jovem, que trabalhava bastante desde muito jovem, por que o pai não gostava da ideia de ter escravos, e a mãe acabou seguindo pelo mesmo caminho. Parecia ser uma pessoa muito justa e boa. E também falou que queria aprender a fazer cuscuz. Depois disso, ao saber que o Antonino provavelmente não chegaria tão cedo, se ofereceu para ordenhar as vacas e buscar e cortar lenha. Como retribuição, queria minha companhia. Aceitamos.

    Quando estávamos no curral e depois na mata coletando lenha, ele me perguntou de novo sobre todas aquelas coisas. Longe de minha mãe eu falei sobre as coisas que ela não tinha falado. Porém, agora Aidan não mostrava mais aquela cara de interessado. Fazia todos os trabalhos com o rosto imóvel, parecendo não ter nenhuma impressão do que eu dizia, a não ser quando falei das agressões, quando ele travou por um segundo. Bom, depois eu percebi que esse era só o jeito dele mesmo. Que por dentro ele reagia. E aquela sensação calorosa continuava firme e forte. Depois de tudo falado, uma coisa que falamos não saiu mais da minha cabeça:
    - Mereces mais. As duas merecem, sim, entretanto tu... tu tens tudo para um dia ser quem sou. Sou um Dragão do Império¹.
    - Um Dragão??? - eu tinha certeza de que não conseguia esconder minha surpresa. Meus olhos certamente estavam saltados. Ele riu disso. - Mas os Dragões não são apenas homens nobres?
    - Sim. Eu sou um homem e sou barão².
    - É. Mas eu sou mulher, cabocla e plebeia. Eles não me aceitariam nunca! - não sabia quem exatamente seriam "eles", mas tinha certeza de que não aceitariam.
    - Sim, eu sei. - o sorriso dele mudou. Parecia estar se divertindo com aquilo. - Mais um excelente motivo. Eu tenho só mais uma pergunta, mas essa é sobre sua mãe. - voltou ao tom sério. - Ela ama o senhor Antonino? Ela deseja continuar vivendo com ele?

    Nessa hora eu exitei. Eu não tinha certeza, mas achava que ela não o amava mais. Ele era arrogante, muitas vezes cruel e violento. Eu queria muito dizer pro Aidan que nós só queríamos ser livres, mas o que ele podia fazer? Barão era um título mais baixo, não tinha como fazer nada por nós. Mas um Dragão do Império com certeza tinha contato com nobres maiores. Antes que eu pudesse responder, ele continuou.
    - Entendi. Acho que ele está perto de chegar. Vamos recebê-lo em casa.

    Não entendi como ele percebeu, mas realmente Antonino estava chegando no exato momento que nós voltamos para frente de casa. Minha mãe, que estava lá fora, ficou branca como papel. O homem veio atacado, de cara feia, como se fosse agredir alguém. E eu percebi que ele ia agredir o barão. Aidan, por outro lado, estava com uma postura dócil, de pé perto da porta, com um sorriso convidativo no rosto.
    - Seja bem-vindo, senhor Antonino. Como'stai? É um prazer conhecê-lo!
    - O que faz na minha casa, maldito? - meu padrasto era um palmo mais alto do que o rapaz, e tinha mais que o dobro da largura, a maior parte disso em músculos, mas também era um tanto gordo. - Não te conheço. Suma ou eu te mato.

    O sorriso continuou no rosto do Dragão. Ele se despediu de nós duas, parecendo ignorar Antonino. Estávamos assustadas. Até que se virou, deu três passos até ele, colocou a mão em seu ombro e disse, ainda de maneira educada:
    - Sou Aidan, Dragão Imperial e Catedrático³ do Fogo. Sabes por que um homem é mais forte que uma mulher? Para protegê-la. Pois bem. Se eu descobrir que o senhor agrediu fisicamente uma das duas eu voltarei, o levarei a um passeio atado ao meu cavalo, o arrastarei por muitas léguas nas estradas do nosso Império, até o Paço Imperial onde, caso chegue vivo, será julgado e condenado a morte. Eu mesmo cortarei sua cabeça com um serrote. Tenha um excelente dia, senhor Antonino!

    Sem ter retirado o sorriso do rosto em momento algum, o Dragão montou seu cavalo e foi embora. Desde o momento que ouviu o nome de Aidan, Antonino mudou o semblante, parecia temeroso. Depois disso, sem falar nada e com a cabeça baixa, ele entrou e foi direto para o quarto, onde ficou por horas trancado. Daquele dia em diante, por muitos meses, ele não mais nos tratou mal.Por alguns anos eu não pude compreender o terror que meu padrasto viveu naquele dia.

    ¹ Dragões do Império: a ordem de elite, guarda pessoal da família imperial em tempos de paz, unidade de operações especiais em tempo de guerra. Tem um número limitado de indivíduos, cavaleiros cuja lenda diz terem poderes sobre-humanos.

    ² Barão: título mais baixo da nobreza do Imperio. Tem direito a uma terra e alguns escravos.

    ³ Catedrático: detentor de uma cátedra (cadeira), neste caso, uma das quatro lideranças do exército imperial. Seria o mesmo que um general.

  • A beleza original **

    Eu sou mãe de dois
    E os dois são meus filhos

    Na primeira vez que eu
    Tive a honra de os perceber
    No meu universo
    Recuperei minha inocência
    E falei a língua dos anjos
    Eu me fiz macia
    Água, fogo, terra e ar
    Sussurrantes
    Delicada criatura por dentro

    Mas por fora fui fortaleza
    Para os proteger

    Eles chegaram
    E toda a beleza de meu coração
    Cercou suas presenças puras
    Nesse mundo de Deus

    E essa história se repete
    A todo instante
    Eu sou mãe
    Eles são filhos

    __
    ** tudo que permanece
  • A Bruxa da Arruda e o Sagrado de Tudo

    A manhã estava carinhosamente refrescante em um dia de verão calmo, que precedia o calor do seco e ensolarado tempo impermanente. Acordou às cinco horas da manhã como de costume, e já não tinha mais a necessidade do despertador do seu smartphone para tal feito. Simplesmente os olhos automaticamente em uma só expressão se abriram, o corpo em um só impulso na cama se sentou, e mergulhado nos seus pensamentos do que fazer com o novo dia de quarentena que auto se apresentava, meditava… claro! Aqueles dias eram por demais incomuns, de um lado tinha o dia todo pela frente sem a rotina acinzentada do levantar, correr e trabalhar, e, por outro lado, teria que ser criativo ao esforço máximo, em táticas incomuns e altruístas para não deixar que o tédio com toda sua improdutividade o arrebatasse, sequestrando a sua proposital impulsionada momentânea e intencionada alegria.
    Essa intencional alegria era a Poderosa Presença do Sagrado em sua vida. E apenas se baseava, por incrível que pareça, as coisas e recordações mais simples e singelas da sua tenra infância. Principalmente as lembranças delicadas e afetuosas de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Pelo qual, todas as manhãs, dedicava em um cantinho do seu oratório (em culto aos antepassados) uma vela sentada em um pires repleto de azeite de oliva misturado a sal grosso e mel, um pote de água que diariamente derramava seu líquido em uma específica planta de Arruda (Ruta graveolens), trocando a água do recipiente todas as manhãs, além de oferendas de flores silvestres, como: Cenoura-brava (Daucus carota subsp. Maximus); Centaurea Nigra (Centaurea nigra subsp. rivularis); flor Leopardo (Belamcanda chinensis); flor de Laranjeira (Citrus × sinensis); flores de Onze-horas (Portulaca grandiflora) e Calêndulas (Calendula officinalis). Tudo isso para se manter em conexão permanente com o espírito de sua querida bisavó. Sendo esta, em vida, sua sacerdotisa. E em morte carnal sua guia espiritual. Pelo que lhe prometera em vida terrena, que ao desencarnar nunca o abandonaria e o vigiaria de cima. Dando-lhe inúmeros conselhos e severas instruções ritualísticas de como manter o contato espiritual com sua alma e coração depois de sua partida.
    Para a Bruxa da Arruda, sua bisa, tudo era Sagrado…
    E do Sagrado… e unicamente, pertencendo ao Sagrado!
    Tudo era vivo! E tinha em si um grande e puro significado.
    Tudo era mágico!
    Tudo era místico!
    Tudo era encantado!
    Tudo era rico!
    Sua constante alegria não se baseava em emotivos momentos.
    Era como o constante balançar das árvores que bailavam se animando, apenas, com o tocar dos ventos.
    O seu grande sorriso em sua face iluminada, transmitia a qualquer um que olhava um manancial inesgotável de pleno contentamento.
    As pessoas que iam ao seu encontro de amor se preenchiam, automaticamente renovando esse sublime sentimento.
    Sua bisa lhe dizia que o Sagrado é um estado a ser sustentado constantemente. Um estado de bons hábitos e boas disciplinas que você mesmo se coloca a praticar. Um estado de Amor, de estar amando e de se sentir amado a toda hora e em todo momento, independente das circunstâncias, posses, pessoas, relacionamentos e virtudes materiais ou espirituais. Um estado de simplicidade e humildade, e cumplicidade no serviço devocional, na prática da caridade e solidariedade. Vivendo em perfeita gratidão e sendo gentil não só com as pessoas, mas a tudo em que os nossos sentidos intentar, aplicar e perceber. Lhe dizia que o segredo para vivenciar o Sagrado na prática, estava na gratidão e valorização da vida em todas as suas formas, não diferenciando uma pepita de ouro de uma simples pedra do rio, um ser-humano de uma formiga, a mais iluminada estrela do céu noturno de um singelo grão de areia das praias do mar. E essa valorização é ver a beleza oculta no amago de todas as coisas, sua Energia Divina e Intenção Criativa. Dizia-lhe que para realização de tal feito era preciso se livrar das amarras da má educação de si mesmo, que degenerou os nossos sentidos na elaboração de conceitos e preconceitos, a partir das inúmeras errôneas percepções externas a nossa Linhagem Sagrada, deteriorando e adulterando o nosso pensar, o nosso sentir, o nosso olhar, o nosso ouvir e o nosso falar. E explicou-lhe, que devido a tudo isso, o porquê das manifestações artísticas, arquitetônicas, filosóficas e religiosas de hoje estarem tão feias, rudes, cinzentas, frias, quadradas, embaraçadas e amontoadas, repetitivas e sem coração.
    D. Darluz dizia que por nos desconectarmos das sabedorias dos nossos ancestrais, o nosso sentido do novo e a capacidade do espanto e da novidade assombrosa de olhar tudo de maneira nova, no sublime estado de encantamento e percepção de alerta alegria, se perdeu no mundo. Dizia que o mal das futuras gerações estava na comparação e associação de capturar as impressões, sem a capacidade madura de traduzi-las, sendo essa maneira uma errônea tentativa de interpretar o novo sem a compreensão do velho, desassociando as consequências presentes e futuras das ações passadas. Daí, como ensinava a Bruxa da Arruda, eis a importância de se cultuar os antepassados, pois, uma árvore não pode florir e gerar bons frutos sem o bom cuidado para com suas raízes.
    Voltando ao momento presente, e na cama em que se encontrava sentado, vira como era difícil traduzir a vivência de infância que tivera com sua bisa para o moderno, virtual, tecnológico e competitivo dias de hoje. Sabia que as redes sociais virtuais, ao contrário do que se pensava, alimentava mais as más ações do ego do que o conhecimento (pelo qual era a sua proposta inicial). E que esse contato virtual se tornou uma máquina alimentadora dos nossos mais animalescos instintos, provocando mediante as imagens, sons, cores e palavras as mais variadas sensações emocionais para a satisfação dos nossos mais carnais e individuais desejos de ter ou ser. Não medindo as consequências de um super ego (‘eu’ pluralizado), que busca sempre aquelas ilusórias sensações que lhe possam dar a tão almejada satisfação momentânea, em uma falsa privacidade de no ato de estar solitário cometermos as maiores torpezas, em que julgamos erroneamente não impactar o nosso mundo externo. Vira que a internet, ao contrário do que fora a sua proposta de unir as pessoas, se tornou um luxurioso baile de máscaras, em que as redes sociais eram essas enfeitadas e coloridas máscaras.
    Assim, contudo, preferia estar no seu jardim. Na companhia das lembranças de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Que o lembrava que o mundo ainda era envolvido por uma aura de Novidade Mística, Alegria Mágica e Amor Divino. E que só poderia vivenciar o Sagrado da Vida observando, compactuando, comungando e se relacionando com o Mundo Natural em toda sua essência ecológica. O seu pequeno jardim era totalmente dedicado ao Sagrado e a memória de sua bisavó. Ali… dedicando-se a colocar as mãos e os joelhos na terra, se sentia uma Pessoa Superior em toda sua humildade, dividindo-se entre o observador e o observado, conhecendo a si mesmo na observação dos pequenos seres vegetais, minerais e animais. Se perdendo em um mundo desconhecido de encanto e nostalgia, que o elevava e fazia distante das miseráveis catastróficas vivências de traumas e barbaridades da bestialidade e ignorância humana.
    Ao regar suas plantas em pleno final de tarde, se via quando pequeno sentado no colo de sua bisa em uma balança pendurada a um tronco da árvore de Tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), em que juntos no crepúsculo vespertino se divertiam olhando as inúmeras nuvens no céu a tomar formas inusitadas de rostos, silhuetas, animais e objetos. E sua bisa, também, instigava a sua imaginação a ver essas formas nas plantas, flores, objetos e coisas. Dizendo que as mensagens dos seres naturais (Elementais) vêm a nós nas formas que a nossa consciência pode reconhecer, por eles falarem uma linguagem desconhecida aos nossos sentidos e dimensão.
    E, lembrou-se das manhãs ensolaradas ao correr pelo terreno da Chácara Celeste (que na verdade era um pedaço do céu na terra) logo ao acordar, indo de encontro a sua querida bisa nos campos abertos, vendo-a colher flores para o seu ritualístico culto matinal. E chegando ofegante até ela, gritava: “Bisaaaaa!”. E D. Darluz respondia com a mesma intensidade: “Meu Miúdo!”. E ela o carregando, abraçava forte e o cobria de beijos, até ele dizer basta. E, D. Darluz lhe dizia: “Olha meu Miúdo, não existe nada neste mundo que é mais adorável que uma flor, nem nada mais essencial que uma árvore e planta, sem elas não conheceríamos o belo, não poderíamos respirar e nem comer, nem nos curar. E, ocultamente a esses benefícios que elas nos trazem ao nosso corpo de carne e seus sentidos, tem ainda a sua função mística, que é a mais relevante, algo divino em que as pessoas comuns e materialistas não têm a capacidade de ver. Uma força mágica e espiritual, eterna e imutável.”
    A Bruxa da Arruda sempre o alertara a valorizar todas as coisas… de uma simples pedra a um pequeno objeto. Como um brinquedo, um utensílio ou algo do tipo. Dizia que tudo tem um propósito e que nada é obra do acaso. Alertara que todas as coisas por serem criações foram pensadas e intencionadas a se manifestarem. Tudo tinha um espírito, mesmo as coisas inanimadas. Pois, sempre afirmará: “O que tem corpo, tem espírito. Tudo é vivo! Toda criação é fragmento do seu Criador, contendo em si uma determinada energia que por mais pequena e singular que seja, é viva em si mesma, presa e magneticamente sustentada nesse corpo, é consciente especificamente para executar tal função, e depois de executada por si só se decompõe e desaparece”. E afirmava que a evolução desses corpos inanimados tinha a ver com a evolução humana, de acordo com seu grau evolutivo. Assim, o inorgânico Elemental podia se manifestar numa pedra, numa mesa, em um relógio de pulso, nos objetos que mais amamos e desejamos, e ainda mais nos brinquedos das crianças, por serem carregados de sentimentos. E que por isso, para seus Rituais da Magia Elemental necessitava dos objetos e minerais… das pedras… das cascas de árvores… dos restos de corpos dos seres vivos e seus derivados, onde se continha ainda preservada a energia Elemental necessária para tal e específica magia.
    Assim, Maria da Piedade…, moradora e proprietária da Chácara Celeste, que se localizava em algum lugar escondido na região nordeste do Brasil…, a Bruxa da Arruda: agricultora, queijeira, azeiteira, parteira, rezadeira, curandeira, e feiticeira portuguesa…, de origem dos antigos povos celtas das terras europeias mediterrâneas da Península Ibérica…, apelidada como D. Darluz…, afirmava que quando nos damos conta da existência do Poder Criativo em tudo que existe ao nosso redor e no nosso viver, quando descobrimos que tudo tem coração e inteligência, que tudo é intenção, e que a toda intenção foi aplicada uma específica atenção, e que a tudo que damos atenção doamos uma determinada fração de nossa energia vital, que se torna um fragmento de vida em si, independente por si próprio e evolutiva em si mesma… Tudo se torna Divino! Tudo se torna Sagrado! A ordem da Grande Espiral do Eterno e Permanente Contínuo.
  • A Carta Gelada

    Às oito e meia da noite, em um sábado, eu estava sentado no sofá, assistindo a um filme, e com um tigela de cereal ao leite sobreposta ao meu colo. O estado de profunda concentração me pungia naquele momento, e meus olhos acompanhava inflexivelmente os movimentos surreais de um serial killer prestes a desligar mais uma vida. Nesse momento, eu ouço um batuque que não fora oriundo da TV, e que aos poucos se repetia ritmadamente. Após alguns segundos guiando a minha audição, percebo que era alguém batendo na minha porta. Confesso que senti um arrepio nas espinhas, e que quando percebi do que se tratava, acabei derrubando a tigela e molhando o tapete. Desdenhei o meu deslize e fui apressadamente até a porta. Receoso em falar algo, olhei pelo olho-mágico, só que esse estava quebrado. Não encontrei palavras no momento, e minha tensão estava aumentando feneticamente. O batuque não parava de se repetir. E eu resolvi interrogar: 
    —Quem é ? 
    O barulho cessou, e o silêncio reinou. Senti um choque profundo, um sensação de taquicardia apertada, um gosto de sangue. Era a sensação de temor misturada com perplexidade. Eu resolvi, perguntar novamente: 
    — Quem é que está aí? 
    E nada a não ser o grito melancólico do silêncio, um som abafado e chiado ao meu ouvi. Neste momento, inquirições estavam se chocando contra minha pisque. Quem será que está uma hora dessa batucando a minha porta? Se fosse algum conhecido, certamente, me ligaria ou então, falaria. Posto isso, resolvi dar de ombros, aliviando a minha mente com a ideia de alguém ter errado de localidade devido à embriaguez ou algo do tipo. 
    Fui até a geladeira, pensei em pegar um suco, mas achei melhor uma cerveja para aliviar a tensão. O chão da sala estava todo lambuzado, e minha janta já não me pertencia mais. Perdi a fome, por mais que o fastidioso despejamento de adrenalina no meu sangue tivesse gastado energia, o medo incutido momentaneamente perfez-me a omitir o desejo por comida. Eu não tive a menor intensão de limpar a sujeira. Perdi a vontade de terminar o filme. Na verdade, não perdi a vontade, apenas, cenas de suspense e insanidades são iriam acalmar meus ânimos. 
    Liguei o toca disco, coloquei uma música animada, repousei meus ossos sobre o sofá e, assim, resolvi abrir a cerveja. 
    —TOC. TOC. TOC... 
    O batuque voltou e desta vez mais agressivo. Nem sequer abri a cerveja. Tive um susto mais avassalador do que antes. E desta vez, senti que algo ruim iria acontecer. Preconizei-me a ligar para polícia. Pedi urgência na ocorrência, e fui aconselhado de evitar ficar perto da porta. Subi apressadamente às escadas e, assim sendo, resolvi me trancar no quarto, e ocupar-me a atentar aos batuques. Cada batuque, cada segundo, estava exaurindo a minha sanidade. Eu não estava aguentando mais. Era uma pressão aterradoramente cruel. Estava com a visão vertiginosa, e uma tontura me eivou. Senti calafrios. Não era mais nervosismo, era o medo que me possuíra. Eu escutei um estrondo, e ademais, seguiu-se apenas o som da música de vinil que tocava lá em baixo. Presumi que entraram na casa. Não sabia o que fazer. Pensei que era melhor pular da janela. Forcejei sem resultados, a embotada ferragem, que impedia a minha fuga. Maldita hora em que troquei o ar fresco pelo ar condicionado. 
    Passei um tempo, procurando algo para quebrar a janela. Nada. Essa palavra resumiu meus esforços. Peguei meu sapato, e agredi impiedosamente a janela, e essa parecia rir da minha cara. Nem um arranhão. Foi quando eu tomei a decisão mais tresloucada da minha vida: choquei-me com toda a angústia e frustração do momento contra a estorva. Uma certeza eu tinha: ou eu acabo com ela, ou ela me acaba. Contudo, sai vitorioso entre aspas, pois, embora eu tivesse fragmentado o vidro em imensuráveis cacos, os cacos dilaceram-me em cortes excruciantes. E ainda, uma queda do primeiro andar me fez sentir como a gravidade me ama. 
    Quando eu caí lá fora, me escondi em umas árvores. A penumbra dava arrepios. A única luz que tinha era a luz de um poste próximo a minha casa. Eu estava às espreitas tentando vislumbrar quem batia na minha porta. Ninguém? fiquei sem entender. Ninguém estava batendo na minha porta. Eu me levantei e fiquei surpreso. Circundei a minha visão em trezentos e sessenta graus e não avistei nada. Apenas uma coruja crocitava em um rododendro ao lado da minha casa. Senti uma gélida friagem acariciando a minha face. Resolvi sair dos arbustos e encaminhar até minha casa. Por garantia resolvi caminhar em derredor a casa para se certificar de que ninguém além de mim estava ali. Quando fui até a porta, eu me perguntei: cadê a chave? Realmente me lasquei. Pensei em forcejar a porta. E nada. A porta por mais velha que fosse, era bastante resistente. Tentei subir pela fachada na frente. Só que não obtive sucesso. Quando retornei a pontapear a porta, a polícia acaba de chegar. Eu pensei, até que fim. A polícia mandou eu colocar a mão na cabeça. Eu clamei dizendo eu sou o dono da casa. Não sou criminoso! Os agentes insistiram com a arma apontada. Eu disse eu me recuso a ser preso. Levei um choque e acabei sendo prezo. 
    No caminho até a delegacia, eu expliquei todo o ocorrido e eles não comentaram nada. Na delegacia, fui questionado várias vezes. Estava exausto, abatido, machucado e, dessa vez, faminto. Contei até onde pude. Disse que foi um tremendo engano. E no dia seguinte fui liberado, realmente constava no sistema o meu nome como proprietário. 
    Caminhei desconsoladamente, fixando meu olhar no chão. Mergulhei num estado de profunda introspecção. Estava com raiva e deveras frustrado. Pensei, será que sou doido? Será que estou vendo coisas? Essas reflexões infindáveis foram vertidas em remorso ao ver a porta da minha casa aberta. Roubaram minha televisão, meu toca disco, minhas cervejas, vários pertences. E eu estava fumegando de raiva. Não só tinha perdido a noite, como também várias coisas; até a minha dignidade. 
    Tentei acalmar meus ânimos. Esforço em vão. Então achei melhor arrumar a bagunça, pois só o tempo iria mudar meu humor. Vasculhei na geladeira algo para comer e, misteriosamente, encontrei uma carta dentro do congelador. Estava petrificada, parecia que estava ali a muito tempo. Caramba, que maneira fria de me entregar uma carta. Abri a carta, e tive a maior surpresa da minha vida: 
    "Feliz aniversário." 
    Era o que estava escrito. Foi quando eu me dei conta de que era o dia do meu aniversário. Um dia que começava bastante angustiante. E essa carta só me trouxe raiva. Que se dane o aniversário. Estava muito mais preocupado com minhas coisas perdidas do que com essa carta infame. 
    À tarde, comemorei meu aniversário comendo um sanduíche com suco, e depois, fiquei sem fazer nada. Sem TV, sem música, sem cerveja, e, acima de tudo, com as feridas latejando. Sem dúvidas, o pior aniversário da minha vida. Às seis horas da noite, estava quase dormindo, quando alguém bate em minha porta. Eu me levantei exasperado e fui até a cozinha, peguei uma faca e um bastão de massas, e resolvi abrir a porta sem delongas. Tive um grande choque. Quem batia na minha porta não era criminoso, nem era ladrão. Era simplesmente um bêbado que errou de casa e me pediu desculpas. Não sabia se ria ou se chorava. 
    No dia seguinte, às noves da manhã, decidi ir ao mercado. Quando abri a porta para sair, e ia saindo, acabei pisando em alguma coisa. Foi então que vi que era uma flor, só que abaixo dela tinha uma carta. Olhei de um lado para o outro, não avistei ninguém. Peguei a flor e a cheirei. Que aroma inigualável. Olhei a carta, muito velha a princípio, e a abri. Li recitando-a em voz alta. 
    Meu Deus! Comecei a chorar e não acreditei no que via e no que escutava. Senti um arrepio profundo. A carta datava 4 anos atrás e dizia: 
    " Hoje, meu filho, é o dia em que você completa mais um ano de vida e eu quero lhe dizer que mesmo antes de você nascer eu já o amava. Quando você nasceu foi uma alegria imensa, tanto para mim como para todos os que o rodeavam. Você cresceu, e se tornou este grande homem que és. Nunca deixe que os problemas da vida afetem seu vigor. Viva a vida. Seja feliz! E nunca se esqueça da sua mãe. Venha me visitar quando puder. Eu estou com saudades. 
    Te amo filho. 
    Da sua Mãe, Regina! 
    09/11/1984 " 
    Eu fiquei muito perplexo. Minha mãe morreu exatamente a quatro anos atrás. E esta carta estava datada no dia do meu aniversário. Quem será que me enviou esta carta? Pensei que foi o correio que tinha enviado em virtude de atrasos. Mas que atraso! 
    Fui até o correio procurar saber se entregaram algum lote de cartas extraviadas ou algo do tipo. A minha busca confirmou a minha hipótese. Realmente teve um lote fora extraviado a muito tempo. Depois de anos de investigação e processos judiciais, o correio teve que reentregar o máximo possível do lote. Eu fiquei extasiado. Quanta consciência! Ainda estava com dúvidas, se realmente foi o correio que me enviou ou foi outra pessoa que me enviara. Talvez alguém da família. Mas que família? Não tive contato a anos, embora soubesse algumas localidades. Eu acho que ninguém iria ligar para o meu aniversário. Mas e a flor? como foi parar lá? 
    Alguns questionamentos foram levados fixamente durante o percurso de volta a casa. Quando eu cheguei, pela primeira vez, vi uma coisa tão obvia, que de tão obvia acabava não sendo vista. Ao lado da porta tinha uma roseira florida e que nunca me dei conta de apreciar a sua beleza. E assim deduzi que provavelmente a carta, pelo fato de não ter caixa de correio, até porque nunca precisei, fora colocada por baixo da minha porta, e logo, o vento poderia ter puxado a carta para baixo e, inusitadamente, derrubado uma flor da roseira. Que vento! Uma explicação racional mas com pitadas surreais. Ironia do destino ou obra do acaso? Fiquei muito intrigado, até porque, quem colocara aquela outra carta no congelador. Talvez em um aniversário atrás, eu estivesse recebido uma carta e em virtude de embriaguez ou cansaço, acabei fazendo algo sem consciência do ato. Mas tudo como se desmembrou foi algo inacreditável para mim. E, portanto, pesou profundamente nos conselhos que minha mãe me deu. Decidi reavaliar meus atos. Prestar mais atenção nas coisas simples. 
    Eu vivia uma ironia curiosa, quanto mais detestava a vida, mais temia a morte. Desde que eu perdi minha mãe, solidão foi sempre companheira. Eu estava em uma ilusão profunda. Eu via o dia e não a luz sol. Eu via a noite e não o luar. Eu via a terra, mas não via as flores. Eu via os frutos, mas não via os sabores. 
    Pode não ter sido o melhor aniversário que tive, mas sem dúvidas será o aniversário mais inescurecível. Eu sempre fui medíocre, conformista e sem virtudes. Sempre receei a loucura. Mas estava muito enganado, ser louco é uma virtude que poucos alcançam e muitos temem. Decidi então, viver como ninguém viveu, sonhar como ninguém sonhou, ser o que ninguém foi: simplesmente, ser alguém original.
  • À espera dela

    Ela demora mais quanto tempo para chegar? Saiu toda atrapalhada hoje. Resmungou como de costume no banheiro, mas parecia mais apreensiva que o normal. O seu cheiro era mais forte do que de outras vezes. Os pés usavam um tipo estranho de calçado. Fazia barulho quando se mexia pelo chão da casa. Falou algo, olhou naquela "pulseira" das horas e saiu ofegante. Passos rápidos e não se despediu de mim. Fiquei a olhar uma última vez pelo vidro da janela quando entrava no bólido. Eu não tenho a noção do tempo que passou e de quanto ainda falta para ela voltar para mim. Cedo ou tarde eu sei que ela irá voltar. Ela sempre volta. E quando isso acontecer eu vou pular nela como nunca antes. Resta-me deitar no tapetinho e ficar olhando para a porta.
     
  • A Extinção dos Gatos

    Três gatos morreram e fizeram a tristeza de uma família se juntar à tristeza de milhões de pessoas no mundo que passavam pelo mesmo. Os gatos estavam morrendo por uma doença misteriosa, transmitida pelo ar e que aparentemente os matava sem muita dor, os deixando tontos e cambaleantes por alguns poucos minutos, terminando com um súbito e fatal desmaio. Mas a família ainda sentia muita dor mesmo após semanas em que os três se foram.
    Obviamente os cientistas estavam interessados em achar alguma cura ou vacina já que isso também significava milhões em lucros, mas muitos não demonstravam muito otimismo com a velocidade que a doença se espalhava e o tempo necessário para as pesquisas. Enquanto isso, há cada vez mais relatos de coisas sobrenaturais acontecendo. Aqueles mais ligados ao mundo sobrenatural afirmam que os gatos são guardiões do submundo e por isso esses eventos estão acontecendo. Já os mais céticos falam que tudo isso não passa de um monte de desocupados que espalham desinformação para sustentar uma teoria da conspiração.
    Nicolas, que acabou de perder os seus três gatos, era um dos céticos, enquanto os seus pais eram crentes no sobrenatural. Eles moravam há mais de duas gerações em uma fazenda a uns dez quilômetros de estrada de chão da cidade mais próxima. Quando criança, Nicolas brincava nas árvores que seus avós plantaram em suas infâncias e desde cedo aprendeu os trabalhos na roça, além do respeito aos animais. Cada bicho tinha uma função, seja prática ou espiritual, e por isso tinham que ter a constante presença de todos eles. Por mais difícil que fosse, os gatos tinham que ser substituídos assim que partiram deste plano, então os pais de Nicolas fizeram uma viagem até a cidade para adotar uns gatos de sua tia, castrá-los e comprar alguns suprimentos pra casa. Pela primeira vez, Nicolas ficaria alguns dias totalmente sozinho e seria o responsável por manter toda a plantação e animais vivos. Mas é claro que, depois de acompanhar o seu pai todos os dias por mais de 8 anos, não seria uma tarefa muito difícil. A rotina já estava bem definida há anos e só mudava quando um novo equipamento chegava, então sabia que tinha que acordar bem cedo e ficar alternando entre cuidar dos animais e da plantação. Era algo bem cansativo e até chato em alguns pontos, mas necessário se quisesse sobreviver.
    O lado bom é que quando chegava a noite estava tão cansado que só queria esquentar a janta, que não passava das sobras do almoço, e deitar. O cansaço era tanto que sempre se recusava a acender a luz da cozinha para lavar o seu prato, usando a pouca claridade da sala em suas costas como guia. Assim que levantou a cabeça para abrir a torneira, viu uma sombra humana se formar na parede e se aproximar de suas costas até que não houvesse mais luz e a parede estivesse completamente preta. A sua respiração parou momentaneamente, a barriga se contraiu e os olhos vidrados se esforçaram ao máximo para piscar. Assim que piscou, tudo estava como antes e a luz da sala continuava a iluminar fracamente a cozinha. Nesse instante, soltou de uma vez só todo ar que tinha segurado e respirou fundo algumas dezenas de vezes para se acalmar enquanto a água escorria na sua frente. O seu lado racional tentava convencer o emocional de que tudo não passava da obra do cansaço, afinal não estava acostumado a fazer todo o trabalho sozinho. E, mesmo que não fosse cansaço, não tinha outra alternativa a não ser tentar descansar já que o próximo dia estava perto de começar.
    Como sabia que não ia conseguir simplesmente tirar isso da cabeça e dormir, decidiu deitar no sofá, colocar os fones de ouvido e esperar o sono o pegar desprevenido. É estranho como não se percebe a transição entre estar acordado e dormindo. Sem nem lembrar em qual parte da música dormiu ou até mesmo qual era a música, Nicolas foi para o mundo dos sonhos e se distanciou completamente de sua realidade. Pelo menos até abrir os olhos e perceber que não conseguia mexer nem sequer um dedo. O medo que sentia era perceptível em sua breve respiração e que foi ficando mais curta ao perceber pela sua visão periférica que uma sombra vinha se aproximando. Quando ficou de frente pra ele, percebeu pelo corpo que era um homem alto, mas bem franzino e com uma aparência de que tinha sofrido muito. O corpo todo do homem parecia envolto de uma sombra a não ser pelo chapéu que uma vez já tinha sido bege, mas agora estava preto de tão sujo. Aquele homem sombra ficou encarando Nicolas por alguns segundos, parecendo saborear o medo que ele sentia e que transparecia pelo seu suor, lágrimas e respiração. Nicolas tentava falar, gritar e implorar, mas não conseguia abrir seus lábios. Enquanto batalhava contra o seu corpo, o homem sombra avançou pra cima dele e começou a sufocá-lo com uma força incompatível com o corpo que apresentava. A respiração curta de Nicolas tinha ficado inexistente. No desespero da busca pelo ar, piscou o olho, caiu no chão e começou a tossir. Por alguns minutos ficou olhando de relance para todos os lados tentando achar o homem sombra enquanto revezava entre respirar e tossir. O medo ainda estava em seus olhos e só queria fugir, mas os seus pais haviam levado o único carro que tinha na propriedade. Então, ignorando o cansaço, decidiu andar até a propriedade vizinha a uns três quilômetros e pedir o carro deles emprestado.
    Ele queria e tentava se convencer de que tudo tinha uma explicação. Já tinha tido uma vez paralisia do sono e talvez fosse só isso, embora ela não explicasse a marca vermelha de dedos em seu pescoço. Mas mesmo que de algum modo conseguisse uma explicação racional para tudo isso, não iria adiantar. O medo que sentia era muito grande e, por mais que quisesse, não poderia ignorar isso. Então pegou uma lanterna, a identidade e um pouco de dinheiro, trancou a porta e fugiu em plena escuridão.
    A lanterna ia da direita para esquerda e da esquerda para a direita em uma meia lua interminável, indo ocasionalmente para trás para ver se não havia nada lá. A vista das estrelas já começava a acalmá-lo nesse longo caminho, o que era bom. Já havia pensado na desculpa que usaria com os seus vizinhos: uma pessoa invadiu a casa e o agrediu, mas conseguiu fazer com que ele sumisse. Como tinha medo que ele voltasse sozinho ou acompanhado, queria passar a noite na cidade. Não era a verdade, mas também não era uma mentira. Com tudo isso planejado, podia continuar admirando as estrelas e afastando a imagem do homem sombra de seus pensamentos.
    Tinha acabado de direcionar a lanterna para trás, visto que não tinha nada lá e voltado a mirá-la para a frente quando sentiu um enorme impacto em sua perna esquerda que o fez cair e soltar diversos xingamentos. A dor parecia sair de seu joelho e ir ardendo até a sua mente. Quando olhou para o chão, viu uma pedra do tamanho de um melão banhada em sangue. Tentou se levantar, mas a dor não permitia que o seu joelho sustentasse o seu corpo.
    Devia faltar mais uns quinhentos metros até a casa vizinha, então, como não tinha outra escolha, decidiu começar a se arrastar. Logo depois dos primeiros centímetros percorridos, sentiu uma forte puxada em sua perna machucada que levou a uma nova irradiação de dor. Embora tentasse, não conseguia gritar e, por mais que se esforçasse, só soltava uns grunhidos baixos. Quando começava a se acostumar com a dor, olhou para a frente e viu o chapéu na sombra de um homem. Não conseguiu encarar por muito tempo, pois, cada vez que a dor ficava um pouco mais tolerável, ele puxava com força para dar um tranco na perna e irradiar mais dor para o corpo. Sabia que estava sendo levado de volta para a sua casa. Tentava piscar e se debater para escapar, mas o homem sombra era muito forte.
    A família de Nicolas chegou dois dias depois dessa noite com seis filhotes de gatos, bastante comida e fertilizante. A mancha de sangue na estrada já se confundia com o vermelho do barro e nem foi percebido pelos seus pais. E mesmo que percebessem, provavelmente acreditariam que algum animal tinha caçado e arrastado a carcaça de sua presa. Não estariam certos, mas também não estariam errados. Chegando em sua casa, viram o corpo de Nicolas empalado com o suporte de uma antena e deixado com os braços abertos como se fosse um espantalho bem na escada que dava acesso a porta principal da casa.
    A polícia investigou o caso que teve uma repercussão nacional, mas nunca chegaram a algum suspeito. Segundo os legistas, Nicolas foi empalado vivo, morrendo lentamente de hemorragia enquanto a antena ia atravessando os seus órgãos até chegar ao seu estômago, o fazendo engasgar lentamente com o seu próprio sangue. Mesmo demorando horas para morrer, pela distância entre as propriedades ninguém deve ter conseguido ouvir os seus gritos de dor. Já os seus pais nunca souberam o que o atormentou já que se mudaram antes dos seus novos gatos morrerem pela doença.
  • A Mudança

                                                                                                                    I
    Carlos desde que se lembrava, não gostava da ideia de ter de se mudar, gostava de sua casa anterior, gostava da vizinhança, dos amigos que lá tinha e do clima quente. A maioria das pessoas viviam reclamando sobre o calor matador que lá fazia sem parar, dia após dia, mas Carlos gostava, estava acostumado com o calor e com toda a agitação do seu antigo bairro.
    Ele gostava de ver as crianças brincando na rua a tarde toda, correndo de um lado para outro, com toda a sua inocência e desconhecimento de mundo. Gostava do céu, que era sempre de um azul limpo e aberto, e de como era hipnotizante, fácil de se perder em pensamentos quando se ficava sentado olhando a magnitude daquele azul. Lembrava-se de uma dessas vezes, estava deitado num chão morno cimentado, olhando para o céu, não se recordava o que se passava pela sua cabeça naquele momento, mas se lembrava de se sentir sonolento naquele chão duro que estava tão acolhedor, e afogado em sua própria mente, vidrado naquela imensidão azul, ele adormeceu.
    E agora estava acordado dentro daquele carro velho, colado na janela observando sua nova casa. Havia dormido durante toda a viagem, só foi acordar quando seu pai já estacionava o carro em frente a casa, e sua mãe já os esperava do lado de fora, em frente ao portão de madeira envelhecido. O terreno possuía uma cerca de madeira, que aparentava ser da mesma idade do portão, tinha aproximadamente um metro de altura e uns dez centímetros de espaçamento entre as madeiras. Imediatamente Carlos a achou completamente desnecessária, já que não havia nenhuma outra casa por perto. Bem no meio do terreno havia a casa de dois andares construida em madeira, na frente instalava-se a varanda que continha uma porta simples que dava entrada para a casa, acima havia uma janela de madeira retangular, que se abria para fora em duas partes, ou pelo menos deveria, pois acreditava que não seria possível devido ao pútrido estado da janela. Toda a construção externa da casa era de madeira com uma pintura branca, com a madeira e a tintura disputando quem detinha o pior aspecto depois de aparentes cinco décadas de abandono.
    Na época da construção, ela provavelmente seria a casa dos sonhos para quem queria criar uma família numa região pacata, com bastante espaço e contato com a natureza, uma vida simples e proveitosa sem todo o estresse de uma cidade populosa. Quando nova, a construção simples e de visual limpo, devia passar uma tranquilidade invejável, como viver naquelas pinturas genéricas de casas campais. Mas agora o branco era sujo e a casa tinha evidentes manchas de mofo, rachaduras e lascas em todo lugar. Sua decadência era decepcionante quando se imagina como deve ter sido quando construída, porém era compreensível, já que ninguém parecia ter encostado na casa nas últimas décadas. A tranquilidade e a beleza da simplicidade que devia se encontrar aqui a cinquenta anos, dava lugar a monotonia e a depressão que se instalava cada metro quadrado do lugar.
    – É pai... você conseguiu, é de fato uma bela aquisição - disse Carlos aborrecido. Não conseguia se imaginar vivendo ali dentro, nesse lugar isolado e morto, sem nada para fazer e com ninguém conhecido para se entreter.
    – Tudo o que precisa fazer é aceitá-la, depois de um tempo ela se tornará um lugar aconchegante para você. Disse seu pai enquanto o olhava pelo retrovisor com um pequeno sorriso.
    – Vamos antes que sua mãe comece a nos gritar, ela já parece bem ansiosa por termos chegado.
    – Anda Carlos, quero lhe mostrar a casa logo. Chamou-lhe sua mãe.
    Assim que saiu do carro, Carlos notou uma brusca queda de temperatura, mesmo o sol do fim da manhã não era suficiente para afastar o frio úmido que se debruçava sobre eles, sem qualquer sinal de vento ou movimento produzido pela natureza. O silêncio era ainda pior, se sentia estranho como se o silêncio que pressionava suas orelhas fosse tão alto que cobria todos os outros sons, e só era interrompido quando um deles falava, causando-lhe um sobressalto todas vezes, como se uma taça de vidro quebrasse a cada início de frase.
    A espessa neblina que se apoderara dos arredores do terreno talvez fosse a responsável, bloqueava a vista de tudo que estivesse fora do raio de uns oitenta metros, era como se estivessem dentro de uma domo cercado por uma gorda e branca nuvem.
    Atravessou o portão seguindo sua mãe em silêncio pela propriedade, observando o devastado chão do terreno, era uma mistura de grama morta, completamente irregular e esburacada com chão arenoso escuro. Diversas plantas invasoras também estavam por lá espalhadas, haviam carrapichos, capim, ervas daninhas e outras que não conhecia, tudo em completa desordem. – Acho que não teremos uma horta como papai queria. Disse à sua mãe.
    – Você pode ajudá-lo a limpar e a plantar. Contato com a natureza é importante para um garoto urbano como você – respondeu sua mãe.
    – Tudo bem, sei que ele imploraria por isso mesmo.
    Passando pelo deque da varanda em frente a porta de entrada, sua mãe se segurou e lhe deu um olhar penetrante enquanto abria a porta. – A casa é velha, mas tem muita história e vida, dê uma chance e ela se mostrará mágica para você assim como foi para seu pai.
    – Bem, velha e histórica com certeza ela é - retrucou Carlos.
    A entrada da casa dava direto numa sala de estar ampla com um sofá velho e uma poltrona de couro marrom totalmente poído, ainda nela haviam uma alta estante de livros empoeirados, uma televisão quadrada antiga e um pequeno bar com garrafas de bebidas tão empoeiradas quanto os livros. Seguindo pela sala à esquerda tinha uma cozinha coberta do chão ao teto de pisos brancos encardidos, com uma janela na lateral dando vista para o lado esquerdo do terreno, e no centro da cozinha uma mesa retangular de madeira antiga que conseguia acomodar de maneira apertada cinco pessoas. Próximo ao fim da sala à direita se encontrava uma escada que levava ao corredor do segundo andar, onde haviam os dois quartos e o banheiro que ficava ao término da escada. O quarto de seus pais era uma suíte no final do corredor e possuía vista para a frente do quintal, enquanto o seu quarto ficava na outra extremidade do corredor, dando vista para os fundos do terreno. 
    Depois de mostrar a casa, sua mãe lhe entregou as chaves do quarto e desceu, iria preparar o almoço com seu pai, que seria servido na varanda que havia na parte de trás do quintal.
    Ao entrar no quarto se deparou com um cómodo quadrado de cor bege escuro, havia enormes manchas de mofo que desciam dos cantos das quatro paredes numa espécie de degradê de negro absoluto ao verde musgo, algumas iam do teto até quase tocar no chão madeirado, eram grandes e gordas como grandes hematomas numa pele clara e enrugada. Havia também um guarda roupa de madeira de quatro portas, cada uma com um espelho empoeirado e manchado nas bordas devido ao tempo. E por fim, uma cama de solteiro de madeira maciça, a madeira ainda que velha parecia ainda muito forte e resistente a um grande peso, e ao lado da cama uma janela de abertura ampla que dava vista para o quintal dos fundos e para uma grande área de mata esparsa.
    Pela janela ele pôde ver que a área possuía uma relva verde bonita, com bastante espaço entre as árvores que eram grandes e bem verdes, e mais próximo do seu quintal havia um estreito riacho pedregoso, a água seguia seu curso fraca, com todas as pedras a mostra, só filetes da água escura e densa corriam ao redor das pedras, como lágrimas que escorriam de um rosto muito sujo. Era um riacho que tinha seus dias contados, em contraste das árvores e da relva que pareciam lhe roubar toda a vida para brilhar nos seus dias verdes. Assim, o riacho sedia cada vez mais vida, e a cada gota que corria, levava embora a memória de seus dias límpidos.
    Carlos voltou sua atenção ao quarto ao ouvir o chamado de sua mãe para o almoço, temia que ela fosse servi-lo no quintal dos fundos, no momento que viu mesas e cadeiras lá postadas. Porém, ao se encaminhar para saída, algo à sua esquerda lhe chamou atenção, a parede defronte a sua cama possuía agora um círculo escuro no centro, parecia-lhe um mofo, talvez não o tivesse notado ao entrar. Mesmo assim, sua curiosidade o levou a se aproximar da parede, fixado por aquele círculo chegou tão perto quanto um palmo de mão e pode ouvir quase inaudível, um silvo arrastado e debilitado, como os últimos segundos de uma morte lenta, o mofo respirara.
                                                                                                                       II
     Demorou todo o restante do dia e boa parte da noite adentro para terminarem de limpar a casa, e em especial Carlos que passou horas tentando de toda forma retirar aquelas manchas bolorentas de seu quarto, sem obter nenhum sucesso. Frustrado e exausto, Carlos decidiu que deveria dormir e mesmo assim demorou mais algumas horas para conseguir, sua mente voltava sempre com a imagem do mofo respirando, e como ele se postava logo na parede a sua frente, foi difícil tirá-lo da cabeça.
     Enfim, quando os primeiros raios de sol começaram a rasgar o azul escuro do céu, trazendo maior claridade e calor, Carlos se sentiu mais seguro e assim pode cair em seu sono. Porém, mesmo em seu sono não tinha tempo para descanso, assim que dormiu se viu numa escuridão total sufocante, nada podia ver e tentava em vão esticar suas mão para apalpar algo. A seus pés passava um curso de água que ia até acima de seu tornozelo, a água gelada lhe dava calafrios e os tremores se intensificavam gradativamente até serem quase cãibras. Seus lábios gelados tremiam tão rápidos quanto milissegundos, e toda tentativa de fechar a boca era patética e inútil, e nesse estado, foi quando voltou a ouvir.
     A mesma respiração daquela encontrada no bolor em sua parede estava de volta, débil e fraca ela lhe chegava e foi acelerando, crescendo. Ao mesmo tempo o nível da água alcançou a metade de suas canelas, trazendo objetos pesados e macios que acertavam suas pernas, fazendo com o que manter o equilíbrio fosse quase impossível. Olhava para baixo  procurando ver a água ou as coisas que o acertavam, mas o breu era tão forte quanto uma venda em seus olhos, nada enxergava e nem dimensão de distância ele possuía.
     Não sabia a quanto tempo estava lá parado, fechou os olhos com força e rezava para que acabasse, seus ouvidos eram pressionados pela respiração forte e abrupta que estava agora sintonizada com seu coração, cada batimento no ritmo acelerado de seu nervosismo era acompanhado por uma lufada de ar expelida em seu ouvido, lhe deixando mais nervoso, criando assim um círculo vicioso do terror. Quando achou que não mais suportaria, algo passou por seu tornozelo e o agarrou, cravando garras adentro de sua pele e músculos. Sentiu aquele aperto tanto no tornozelo quanto em seu coração, o medo cravou-se em seu peito com as mesmas garras que se prendiam em seus pés e o apertaram até explodir. E assim, acordou de sobressalto com as mãos no peito e com o sol queimando seu rosto.
     Ficou sentado imóvel na cama tentando acalmar-se, respirava fundo seguidamente por mais de um minuto, suas mãos tremiam e seu peito vivia para buscar o ar e jorrar para dentro de seus pulmões a certeza de que tudo fora um sonho e nada mais. Sua mente foi aos poucos se tranquilizando, porém não esperava que ao levantar a cabeça e olhar adiante, bem a frente da sua cama, a parede que detinha a mancha que lhe dava calafrios fosse novamente levá-lo ao terror.
    A parede, na qual jazia a pequena mancha escura de mofo, já não se fazia visível, toda sua extensão fora engolida pelo mofo, que expelia pequenas partículas no ar a cada ciclo respiratório. Levantou de um salto, todo o pesadelo voltava a sua cabeça, e o sufocamento trespassava agora o tecido do sonho para a realidade, a respiração forte e acelerada retornou aos seus ouvidos junto com o medo que teimava em agarrar-se ao peito. Passou pela porta e desceu as escadas sem olhar para trás, parou apenas ao pé da escada e olhou para o andar de cima na tentativa de achar algo que podia estar lhe seguindo, mas nada encontrou.
    Seguindo as vozes de seus pais que saíam de outro cômodo, Carlos se dirigiu a cozinha a procura de se acalmar na segurança de seus pais. Ao passar pela entrada, os encontrou sentados na mesa com a cabeça totalmente afundadas sobre pesadas páginas de jornal, que se ergueram para vê-lo chegar.
    No momento que atravessou o batente, Carlos ficou preso ao chão ao olhar os rostos de seus pais, ou no caso a ausência deles, sua mãe possuía a face afundada como se por diversas vezes um objeto de imenso peso havia lhe caído sobre o rosto, sua boca era um rasgo contorcido que exibiam num sorriso nenhum dente, apenas um vão escuro tão profundo quando o abismo de sua cavidade ocular exposta. Já seu pai, tinha a metade de cima do rosto tão liso quanto uma máscara, não possuía olhos, ouvidos e nem nariz. Enquanto a metade de baixo era ocupada por uma imensa boca que ligava as extremidades laterais da sua cabeça, amplamente repleta de dentes afiados que ficavam a mostra devido ao sorriso congelado e aterrorizador que se fazia em sua face.
    – O que houve Carlos ? Ouvimos você gritar agora a pouco - disse sua mãe
     Carlos não podia responder, lutava para prender um grito em sua garganta, e se esforçava o máximo para não sair correndo novamente. Devia estar enlouquecendo, a mancha, o sonho e agora isso. Fechou os olhos e disse à sua mãe – Não é nada, acho que não estou me sentindo bem. Vou lá fora tomar um pouco de ar, ver se melhoro.
     Nesse mesmo instante, seu pai veio em sua direção de forma lenta, como se observando cada aspecto de Carlos – Têm certeza que não quer sentar conosco um pouco, meu filho ? Você realmente parece muito abatido, dessa forma você nos deixa preocupado - E assim que terminou sua frase, seu pai segurou a cabeça de Carlos próxima a sua, examinando-o, seus dentes afiados com mais de quatro centímetros davam-lhe a aparência de um tubarão. O bafo pútrido que trespassava entres os dentes trincados, combinado com as salivas que escorriam pelos cantos da boca, descendo por toda a extremidade do rosto até cair pesadamente no chão, contradizia toda a fala de seu pai, que para os ouvidos de Carlos parecia preocupado com a aparência do filho, enquanto que para seus olhos parecia faminto e levemente desapontado pelo abatimento de sua presa preferida que talvez para ele diminuísse o sabor da sua futura refeição.
    – Sim...pai, eu só preciso de um pouco de ar livre - Disse Carlos travado, com uma enorme dificuldade. E no momento em que seu pai retirou-lhe as mãos do rosto, Carlos saiu apressadamente para a sala principal e de la para a porta de entrada.
     A atmosfera do lado de fora era a mesma do dia em que havia chegado, era fria, silenciosa e com uma pesada sensação de morbidez. Mas o silêncio, nesse momento o ajudava a se acalmar, longe de seus pais e do terror do sonho que o perseguia, Carlos pode respirar tranquilamente por alguns minutos. Por isso, decidiu andar, se afastar da casa e de seus problemas.
     Após descer da varanda e andar pelo finado jardim, Carlos percebeu que a neblina estava ainda maior hoje, aumentando o cerco à casa, e tornando o silêncio ainda mais poderoso. Nem quando passou descuidadamente por sobre a morta grama e entre as diversas plantas invasoras, foi produzido algum som. Entretanto, se deu conta de que no meio da rua, parado onde se iniciava a neblina, havia um homem que olhava para o chão de maneira fixa.
     Carlos espantou-se ao ver alguém novamente, havia pensado que não havia nenhuma outra alma viva ao redor de sua casa, e foi até a rua para encontrar esse homem. Porém, ao chegar mais perto o homem se virou e adentrou a neblina, na qual Carlos foi em seguida, chamava o estranho seguidas vezes na tentativa de o homem parar.
     Mas quando adentrou a neblina soube que não mais precisava chamar, o som que o estranho fazia ao pisar no chão era como um tambor ritmado, que parecia ecoar, preso dentro da neblina sem espaço para fuga. Os passos e os ecos se misturavam, tornando impossível saber qual era o real, o passado e o presente era um naquele passo, que só foi abafado quando um estrondoso som o encobriu, pareceu um tiro que reverberou sobre si diversas vezes, multiplicando seu volume.
     Assustado, Carlos se virou para voltar pelo caminho de sua casa, mas por mais que andasse a neblina ainda ficava à sua volta, em todas as direções era única coisa que via, não sabia mais em qual direção devia ir, podia andar para qualquer uma que ainda pareceria que estava no mesmo lugar, a névoa densa agarrava-se a sua volta, o cercando naquele mundo.
     Cansado, Carlos teve que parar e dessa vez voltou a ouvir. Vindo em sua direção, cada vez mais alto e fácil de identificar, vinha uma bicicleta que quando se tornou visível, era levemente familiar. Uma bicicleta de médio porte, azul e preta andava em sua direção, devagar fazendo o som da corrente ser o único som existente daquele lugar, onde reinava absoluto. A bicicleta não trazia ninguém pedalando, veio sozinha e por uns três metros andou até Carlos, parando ao seu lado e se sustentando por uns cinco segundos, quando enfim pareceu se dar conta da impossibilidade daquele acontecimento, ela desistiu e tombou para o lado sem produzir nenhum som, como se caísse em nuvens.
     Logo após a queda da bicicleta, outro som se fez reinar novamente, de novo um estrondoso barulho de disparo foi produzido dentro da névoa, e como o primeiro, assustou Carlos até o fundo de sua alma, o fazendo correr às cegas por minutos, não sabia para onde ia, ou por onde, a direção não trazia importância a Carlos, apenas a distância era relevante e era isso que buscava. Quando abriu os olhos, depois de minutos correndo e tropeçando, Carlos se deu conta que havia chegado novamente no portão de casa.
                           
                                                                                                                  III
     Carlos atravessou o portão com lentidão, sentia-se exausto e pela escuridão noturna do céu, podia deduzir que se passou horas dentro da névoa. Não sabia exatamente quanto tempo, se fora horas ou dias, sentiu como se fossem minutos, mas agora sabia que não poderia ter sido.
     Juntou forças para chegar até a casa, queria descansar mas acreditava que não seria possível. Não seria capaz de vivenciar novamente o horror de estar no mesmo lugar que seus pais, ele ainda tentava retirar da cabeça a imagem profana deles, que hora ou outra voltava a sua mente. A mais simples imagem mental deles lhe dava calafrios, tremia durante todo o caminho, temendo encontrar novamente seus pais com aquelas faces, e imaginar que ambos estariam preocupados pelo sumiço do filho e que isso seria uma ótima oportunidade para seu pai o analisar a centímetros de distância, como da última vez.
    Na metade do caminho, um barulho constante surgiu e foi crescendo a cada passo dado em direção a casa. Logo pôde identifica-lo, o som parecia de água corrente, e a distância e o volume indicavam que corria forte e veloz. Só podia imaginar que a fonte fosse o rio atrás da casa, o que lhe parecia impossível já que ainda ontem o rio definhava em seu leito.
     Entrou em casa sorrateiramente e esperou em silêncio na expectativa de perceber se alguém o havia notado. A sala e a cozinha se encontravam vazias, e do andar superior caiam minúsculas partículas negras que se espalhavam pela sala, o que logo foi desvendado ao perceber-se que a escada e a parede que levavam para o segundo andar estavam cobertas por um negror bolorento. Assim, quando enfim notou que a porta que dava para o fundo do quintal estava entreaberta, se apressou para atravessá-la se encaminhando para os fundos, onde viu a figura de seus pais, ambos de costas para a casa, a poucos metros do rio, olhavam fixamente para o curso da água como se estivessem presos a ele.
     Apreensivo, Carlos ficou parado durante segundos em hesitação. Não sabia se ia em direção a seus pais na esperança de que toda aquela transfiguração que eles sofreram fosse apenas uma construção de sua mente exausta, ou se voltasse e fosse para qualquer outro lugar que conseguisse. Porém, antes de sua decisão, sua hesitação lhe custou um preço, seu pai voltara sua face ainda transfigurada para Carlos e o olhou como se estivesse a menos de um metro e não os vinte atuais.
    Sob o olhar inquisidor de seu pai, Carlos congelou, não conseguia se mover, tomar uma decisão. Ficou parado olhando aquela face aterrorizadora, totalmente entregue e submisso. Quando seu pai numa voz gelada e afiada como uma navalha o chamou com um “Venha!”. O som da palavra atravessou os vinte metros e chegou aos seus ouvidos como um segredo sussurrado às escondidas, cravou-se em seu coração e o rasgou como uma faca de gume enferrujado, na qual Carlos só pôde obedecer.
    Quando chegara na metade do caminho, Carlos já tinha a imagem clara. O rio de fato estava mais do que vivo, corria veloz como um cavalo, carregando o que parecia troncos de árvores rio abaixo, e fundo o suficiente para cobrir as patas de tal animal, sua largura era de no mínimo seis metros, escondendo todas as pedras fixas em seu leito e nas suas margens. Por outro lado, a mata verde parecia presa num domo outonal, com o verde substituído pelo marrom seco das folhas e da relva que poderia se quebrar ao menor sinal de vento.
     Chegando até seus pais Carlos parou abruptamente. Seu pai com as mãos firmes pôs Carlos a sua frente, e percebendo a sua perplexidade ao notar o que de fato o rio carregava, seu pai lhe deu um sorriso demoníaco. – Olha Carlos, o rio está novamente vivo. E ao lhe dizer isso, seu pai segurou -lhe a cabeça e a manteve presa direcionada ao rio.
     A essa distância Carlos pôde ver que não eram troncos de árvores que estavam sendo levados pelo rio, mas sim corpos. Corpos em estados de decomposição eram carregados aos montes pela água, de homens e mulheres de todas as idades, desde crianças até idosos. Suas peles enrugadas tinham tons esverdeados, roxos e pálidos, alguns tinham partes de seus corpos faltando, outros tinham ausência parcial de pele, e assim eram carregados numa profusão de água turva de cor marrom.
     Estava agora a menos de dois metros do rio, sua mãe ainda impassível, parecia presa a um transe na qual lhe permitia apenas ficar de pé, olhava para o rio e ignorava tudo o que acontecia a sua volta, enquanto que seu pai posicionado atrás de Carlos, segurando-lhe sua cabeça, se aproximou do seu ouvido e com sua recente voz cortante e fria, que apenas pode ser produzida por algo que a décadas deixou de existir, disse a Carlos – Está na hora de se juntar a eles. E logo após, o empurrou com extraordinária força para dentro do rio.
     Carlos caiu afundando em meio aos corpos, fracassou a tentar se levantar, suas pernas pareciam fracas e sua força ia em direção oposta ao seu desespero, os corpos pesados e de pele macia acertavam os seus membros a todo momento, a falta de ar foi crescendo a medida do seu medo até atingir seu ápice, quando Carlos não mais se encontrava no rio.
     Estava numa rua asfaltada num início de tarde, crianças jogavam bola na rua enquanto ele passava montado em sua bicicleta azul e preta pela lateral da rua. Havia pessoas sentadas em frente as suas casas, conversando amigavelmente com seus vizinhos. O som vindo da rua era barulhento, somado com o calor emanado por um sol alto e amarelo num céu limpo, podia essa combinação ser insuportável para alguns, mas para ele era acolhedor, estava próximo a sua casa, e todos ali o conheciam.   Acenavam e lhe dirigiam saudações enquanto passava lentamente por elas na sua bicicleta. Quando uma correria se fez em toda a rua, disparos estrondosos começaram atrás de Carlos, as crianças foram rapidamente resgatadas por qualquer adulto mais próximo, os que estavam sentados em frente de suas casas se trancaram de imediato, os bares e estabelecimentos familiares desceram suas portas. E nessa confusão, Carlos acabou perdendo o equilíbrio, caindo de sua bicicleta. Tentou se levantar mas suas costas doíam e ardiam incessantemente a qualquer sinal de esforço feito por ele.
     Virou de barriga para cima na tentativa de ver o que acontecia, garotos passavam a toda velocidade por ele seguidos de homens fardados que tentavam alcançá-los e disparavam às suas costas, logo se deu conta do que havia acontecido.
     Deitado naquele duro chão que emanava um calor acolhedor que o abraçava por trás, enquanto o sol queimava levemente seu rosto como uma carícia de dedos em chamas. Sua respiração ficava cada vez mais lenta ao passo que Carlos nadava naquele oceano claro que era o azul límpido do céu, se perdia naquela imensidão, se afastando e afogando aos poucos ele se distanciava de seu mundo até que apagou.
     Estava agora de volta submergido no rio, com água entrando por sua boca, podia sentir os resíduos dos corpos humanos que lhe invadiam junto a água, conseguiu enfim firmar seus pés no fundo contra as pedras e se erguer com imensa dificuldade. Seus pais, de volta ao transe com o olhar perdido no rio, nada expressaram.
     Tentava se esticar para alcançar a margem direita do rio, seus dedos riscando finas linhas na terra não conseguiam proporcionar firmeza suficiente para o seu corpo, quando com sua mão direita, conseguiu cravar todos os seus dedos dentro da margem do rio, rebentando-lhe as unhas de seus dedos, causando uma dor estonteante, Carlos aos poucos foi se aproximando da margem. Quando, como uma unidade, todos os corpos do rio começaram a se debater e a tentar agarrar qualquer parte exposta do corpo de Carlos.
     Um corpo de um idoso cravou todas as unhas pútridas de sua mão no braço esquerdo de Carlos, causando um enorme puxão para o fluxo da água, mas Carlos segurou tão firme a margem que o braço do idoso se soltou de seu corpo e ficou pendendo junto ao braço de Carlos. Suas costas exibiam rasgos em todas as direções, devido aos fracassos dos corpos de se agarrarem a ele.
     Estava com a parte superior do corpo já fora da água, quando sentiu mãos agarrarem seus tornozelos. Duas mulheres mortas, uma sem mandíbula e a outra sem toda a parte inferior do corpo, seguravam seu tornozelo esquerdo, enquanto o seu pé direito era segurado por três corpos tão necrosados que era impossível identificar o que haviam sido em suas vidas passadas. Com esse atraso, mais corpos conseguiram se segurar em Carlos, escalavam suas pernas e cravaram-se em suas costas, mordiam e arranhavam onde podiam.
     Sua mão não aguentando tal peso, foi cedendo e escorregando. Ao mesmo tempo, um corpo conseguiu escalar toda as costas de Carlos, e lhe chegou a cabeça. Mordeu-lhe com os dentes marrons a lateral da face, enquanto que, com a mão cravou todas as unhas, de mais de três centímetros, na mão direita de Carlos que num impulso soltou a margem, sendo tragado de imediato para o rio, afundando com mais de sete corpos agarrados a sua volta. Tentou gritar, mas submerso a água invadia sua boca, carregando a seus pulmões toda impureza do rio. Se rebatendo e lutando contra todos os corpos a sua volta, a alma de Carlos foi levada pelo rio para completar sua morte.
  • A paixão como eterno crime culposo

    Poucos livros conseguiram abordar as relações conflituosas no casamento como A Guerra Conjugal, do escritor curitibano Dalton Trevisan. Os contos reproduzem os papéis e o psicológico de muitos casais. Com objetividade, humor negro e uso de metáforas, seus textos transmitem uma valoração naturalista da união entre homem e mulher.
                Em todos os contos, dois personagens se fazem presentes, João e Maria, por si só uma ironia do autor, pois nos remetem a famosa história dos Irmãos Grimms. Lembrando o Star System usado em obras de mangá, como as de Osamu Tezuka. Assim a visão do leitor se volta para as ações dos personagens e a influência do meio em que vivem. Isso foi essencial para que sua narração direta não ficasse vaga durante a leitura.
                Sua narrativa sintética não impediu a construção de personagens redondos, algo bastante difícil numa narrativa tão árida. O casal onipresente, ao longo dos diversos contos apresenta inúmeras facetas. Em algumas histórias João é um homem passivo com os atos de Maria, seja na infidelidade ou sendo violentado pela mesma. Em outras ele é o carrasco, trata Maria com indiferença, torturando-a ou a trai com um amante.
                Maria por sua vez, vai de uma dominadora até uma escrava sexual. Muitas vezes a esposa usa dos seus dotes físicos para obter do marido ganhos materiais, ou exceder na lascívia e ser perdoada. Em alguns contos, no entanto, Maria sofre horrores ao se casar com João. Os fetiches do cônjuge ferem não apenas o corpo de Maria, mas também o seu orgulho, ao ponto de em uma das histórias, João colocar o amante para viver sobre o mesmo teto.
                Outros personagens constantes em todo o livro são os filhos. Apresentam-se sempre como vítimas do malfadado casamento entre João e Maria. As famílias crescem desestruturadas. Se o casal ganha em algum aspecto, os filhos saem perdendo, tanto na saúde, paz, lazer etc.
                João e Maria constituem o arquétipo de casamento feliz que inexiste por vários motivos apresentados no livro: As paixões e o instinto sempre acabam interferindo na união conjugal, o casamento formado por interesses materiais impedem qualquer desenvolvimento sentimental, a idealização do casamento encobre as motivações dos conjugues, o casamento também é feito de conflitos. Muitos outros motivos são apresentados no decorrer do livro, o que acaba tornando as situações absurdas, porém reais.
                Sua experiência como advogado deve ter ajudado a formar os cenários dos contos, muitos deles lembram o gênero policial, os finais sempre imprevisíveis e abruptos deixam o leitor desconcertado. A escrita rica de Dalton Trevisan impressiona pelos artifícios que usa nos seus textos, por exemplo, o gore em alguns contos deixam as suas histórias bastante sombrias. A dependência física de alguns personagens sejam eles João ou Maria, dá o parecer de que a paixão é uma droga, e o casamento um ritual para o seu uso.
                Com a falta de descrição dos personagens, pois são tão comuns que mesmo o leitor (a) poderia ser um deles (as), o que nos resta é nos atentar ao cenário. Por vezes a imundície dos antros, e mesmo nos personagens, é o que mais impressiona. Ficamos sem entender porque homens tão asquerosos acabam seduzindo as belas Marias? E horrorosas mulheres os valorosos João? Talvez a resposta esteja na imposição do casamento pela moral vigente.
                Algo notável nos escritos de A Guerra Conjugal é o uso de metáforas seja para encobrir ou codificar conteúdo erótico, tornando as passagens por vezes fantasiosas e em outras até poéticas. Vide o seguinte trecho do conto Quarto de Horrores: “Em pé na cama, inteiramente despido, João soprava a flautinha de bamba... Olhos vidrados, descobertas as vergonhas, girava à sua roda, ora aos pulos, ora de cócoras...”; outro conto com uma bela metáfora é A Normalista: “Sobre a cabeceira a imagem da santa e ali na cômoda a manada de elefantes vermelhos do bem grande ao menor, sempre de trombas para a parede...”. O foco da narrativa é o psicológico dos personagens que são transmitidos através das suas ações nem sempre louváveis. A um clima de demência nas relações “afetuosas” dos personagens que lembram o filme Psicose.
                Outra consideração a sua precisa narrativa é o uso de elementos sensoriais. Chegam a se tornar sensitiva as coisas simples do dia a dia como o amargo do café, o frio do sereno, o penacho de um cardeal ganha não apenas forma, mas total sensibilidade através das palavras de Dalton. Para histórias tão conflituosas, esse uso de elementos sensoriais acaba por diminuir o clima pesado da narrativa.
                A Guerra Conjugal mostrou que o casamento não passa de uma idealização extravagante de uma moral piegas. Nos contos do livro ninguém consegue se realizar na instituição falida que se tornou o casamento, seja ele civil, no religioso ou as uniões estáveis. Muito disso devido à interferência de outrem, e do que cada João e Maria espera receber, e não doar em prol do outro.
  • A porta entreaberta

    Uma mãe em seu quarto olha para o espelho enquanto se maquia, passa base, escolhe a cor do batom, retoca os olhos e cílios. Faz isso de forma mecânica para sair com seu marido que espera na sala assistindo um jogo de futebol. Enquanto isso o filho do casal que em instantes será cuidado por uma babá, passa pelo corredor e direciona seu olhar para a fresta da porta, onde ele consegue enxergar uma parte do corpo e do rosto da mãe em frente ao espelho, imagina ela no restaurante comendo e sua beleza sendo observada por alguns mais próximos, o perfume de loção cara usada para momentos especiais é sentido pelo filho, parece a que as colegas de escola usam só que melhor, lembra da professora de inglês, alta e sorridente, a caixa do supermercado também surge em suas lembranças de sorrisos e perfumes, nada é mais perturbador e confuso do que associar a própria mãe a outras mulheres. Mas nesse instante escuta a voz do pai ecoando da sala alertando sobre o atraso e imediatamente desvia o olhar e caminha em direção à sala, pensando como aqueles pensamentos chegaram em sua mente e constatou o perigo daquilo e de como era estranho pensar aquilo. Daquele dia em diante ele nunca mais olhou para frestas, e assim concluiu que portas entreabertas são a coisa mais perigosa do mundo.
  • A primeira ação quando a quarentena acabar será...

    As vezes o pensamento flutua em retrospectiva, olho para trás e questiono minha caminhada até aqui. Estou beirando os quarenta, alguns sonhos, poucas oportunidades mas firme, desistir jamais! A vida era normal regada de esperança por dias melhores.

    Inimaginável colapso, mundo às avessas, sofrimento e agonia. Uma pandemia fortuita trazendo destruição. Sendo emergentes o óbvio, governança pífia, brecha para espoliação de verbas e desrespeito, pois há sempre incrédulos não querendo entender a real complexidade. Em meio a reveses como sonhar? Tendo esposa, filha, a missão seria garantir renda e orar por luz no fim do túnel. A trajetória não se mostrava fácil, isolamento, reaprender a conviver, trabalhar enfim inúmeros detalhes.

    Sou do Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, estado praticamente falido, décadas de corrupção, violência urbana expandindo e as chances menores. O tempo passava, não me iludi achando ser imediata a resolução. Diferente de outros estimando um, talvez dois meses para voltar ao normal. Imaginava no encerrar da quarentena o que faria ? Qual a prioridade ? Para muitos curtir aquela noitada, boteco, temos os viajantes, cinéfilos, etc. No entanto a meu ver projetar o simples bastaria.

    O recorde negativo país a fora seguia avassalador. Mais uma vez os cariocas eram destaque. Parte da população ignorava a doença sendo alheia as medidas protetivas e indignava aqueles buscando agir corretamente. Acreditei estar fazendo papel de bobo cumprindo a reclusão, mas buscava ter equilíbrio emocional para disseminar bons fluídos. Pensava nos entes queridos, estar longe simbolizava cuidado, respeito e acima de tudo amor.

    Todos os dias quando colocava minha filha para dormir sem hipocrisia rezava agradecido. Uma menina saudável, linda e forte. Por ter dois anos, ainda não estudar e conviver socialmente facilitou alguns pontos. Lembram da retrospectiva ? Valeu a pena estar aqui nesse exato momento! Deus vem sendo generoso proporcionando estar empregado para garantir o conforto da família. Não posso reclamar e me fazer de infeliz, seria injusto. Os sonhos vão retornando gradativamente e na hora certa se tiverem que acontecer estarei pronto. Até lá, sigo trabalhando firme. Ah! Faltou dizer, após a quarentena desejo levar minha filhota em um lugar para correr bastante! A garota adora! Ser pai trouxe outro sonho vê-la crescer.

    Estou ciente das adversidades, turbulências e desafios pós pandemia. Mas estamos vivos e ainda há tempo. Muito obrigado SENHOR por essa vida! E benção para todos vocês.

    LUTE E NÃO DESISTA!
  • À procura da felicidade

    Respira, inspira, ele vai chegar, ele vai chegar...
    Era o que Karen repetia em pensamento várias vezes. Ela havia marcado um encontro pela internet, apesar de nunca ter imaginado que chegaria a este ponto, fazia tanto tempo que ela não saia com alguém que não lhe restou muita escolha. Afinal, ela tinha uma filha, que ela amava mais do que tudo e mesmo muito nova essa menininha sempre perguntava pelo pai e a mãe não aguentava mais não poder lhe dar uma resposta que não fosse magoá-la. Karen queria recomeçar e dar à sua filha a família completa que ela sempre mereceu mesmo que essa não fosse composta por seu pai de sangue.
    Enquanto olhava ao redor, algo lhe chamou a atenção, era um vaso repleto de lindas rosas vermelhas, e isso logo lhe trouxe a tona o seu passado. Ela lembrou de seu primeiro amor e pai de sua filha, um amigo de infância que depois de afastado por muito tempo, havia voltado a cidade. Karen lembrava perfeitamente, ela tinha 18 anos de idade e ele 20 anos. Era inevitável não rolar alguma coisa entre eles, "o destino quis que fosse assim", era o que todos diziam. Ficaram, e até partiram para algo mais, Karen pensou que este seria o seu amado, o seu verdadeiro amor, pobrezinha. Isso durou até a sua gravidez, que assim do momento que ficou sabendo, o seu amado, pegou suas coisas e fugiu, sem dar explicações, nem noticias.
    Mesmo arrasada, Karen estava disposta a enfrentar tudo e todos pelo seu bebê, procurou casa, procurou emprego e sozinha ela conseguiu criar sua filha, que hoje tinha 7 anos e era uma menina inocente e doce, com um coração de ouro.
    Ao pensar na filha Karen instantaneamente sorriu e aos poucos sua ficha foi caindo... Todos esses anos ela estava procurando a felicidade, buscando se sentir completa, o que achava que somente encontraria em um homem. Mas o que ela pôde perceber somente agora, nesse momento de reflexão e lembrança, era que ela já havia encontrado a felicidade e que ela sempre foi completa, porém nunca havia notado. E aquele encontro, aquele lugar, aquelas rosas á despertaram para a realidade, e ela seria eternamente grata por isso.
    Sem mais delongas, Karen se levantou da mesa onde estava sentada, e saiu, mas saiu diferente, iluminada e com um sorriso no rosto. Confiante ela seguiu em frente atrás do verdadeiro motivo da sua felicidade: sua FILHA.
    E o cara do encontro.... Bom ele não encontrou Karen, mas encontrou a sua futura esposa e a futura mãe dos seus filhos. As coisas nem sempre são como queremos, elas são como precisam ser, e cabe a mim e a você virar a situação a nosso favor...
  • A Promessa

    Altas horas da madrugada. Jogo a mochila nas costas, faço o sinal da cruz, peço a Nossa Senhora a proteção, ajoelho-me diante dela e agradeço. Preciso pagar algo. Na mochila carrego algumas peças de roupa: uma blusa para caso faça frio, uma calça, um par de chinelos novos, meias e algumas cuecas. Claro sem esquecer-me de toalha e sabonete, estou indo viajar.
    Não vou de carro, avião, e muito menos de ônibus. Serei guiado pelas minhas pernas e pelo amor que tenho por Jesus Cristo, o nosso santo salvador. Tranco a porta de casa com a chave, enfio ela no bolso da calça e dou inicio a minha caminhada.
    O céu de cor escura e estrelada é acompanhado por uma lua cheia gigantesca, tão grande que até dá para tocá-la com a ponta dos dedos, mas eu não quero. Ao meu redor poucas casas, árvores, e silêncio. Estou nessa jornada sozinho, só eu e Deus; em minha humilde opinião, melhor companheiro não há.
    O dia amanhece. O sol aparece e eu resolvo sentar-me. Sem alternativas escolho o chão, forrado de capim seco. De dentro da mochila eu tiro pão e água, como lenta e vagarosamente, saboreando cada pedaço, cada gole, cada momento. Vejo carros passando apressados do meu lado, mas não enxergo o tempo passar.
    Prossigo minha jornada que será longa, mas que terá uma justa recompensa em sua chegada. No trajeto muitos param e ofertam-me carona, eu agradeço, mas recuso, pois promessa feita deve ser cumprida.
    Quase um dia inteiro de caminhada e o cansaço começa a tomar conta. Suor escorre do meu corpo e lágrimas descem dos meus olhos, eu venci. A igreja está lá, imponente diante de mim.
    Coloco-me de joelhos sobre o asfalto fervente. Cruzo os dedos numa prece e dou glórias aos céus e agradeço Jesus e a Nossa Senhora por ter me dado saúde para atingir o objetivo dessa jornada. Agradeço a Deus por ter salvado minha mulher e meu filho.
    Foram meses de sofrimento. Minha esposa teve diversas complicações durante a gestação. Meu filho nasceu prematuro, com apenas seis meses de gravidez. Ela quase faleceu, meu pequeno também, mas prometi a Deus e a Nossa Senhora se os salvasse eu iria a pé para a igreja e esse seria o meu agradecimento.
    Pacientemente esperei. Com amor e devoção rezei e pedi com todas as minhas forças um milagre. Foram dias difíceis. Dias em que eu pensei em desistir, principalmente quando os médicos diziam-me que já não havia mais esperança. Noites em claro em que eu trocava meu sono só para ficar ao lado dos grandes amores da minha vida, minha mulher e meu filho.
    Não desisti, insisti e venci. Estava sentado na sala de espera do hospital, o rosto cansado e o olhar triste; o coração batendo num esforço incomum, ele pedia para parar. Foi quando uma enfermeira veio em minha direção e com lágrimas nos olhos me falou:
    - Venha, o doutor deseja lhe ver.
    Sem entender nada eu fui. O lugar onde eles estavam era há poucos metros dali, mas para mim parecia ser uma distância incalculável. O médico de cabelos brancos e jaleco da mesma cor me aguardava de costas para mim. Ao virar-se para olhar-me vi um brilho em seus olhos, em seguida um sorriso grande, largo e bonito. Foi então que ele me disse:
    - Um milagre aconteceu! Sua esposa e seu menino despertaram. Não terão nenhum tipo de sequela, e amanhã mesmo você poderá leva-los para a casa.
    Desabei. Ajoelhei-me no chão cercado pelo médico e mais três enfermeiras. De longe vi meu filho ainda na incubadora, de olhinhos abertos e com cara de sono. Também vi minha amada esposa, de cabelos cacheados e aspecto cansado; se não tinha sido fácil para mim imagina como foi para ela ter suportado tamanha penitência.
    E então estou aqui. Diante da imagem de Nossa Senhora, de joelhos. Pagando aquilo que prometi. Nesse instante minha esposa troca meu filho, ele já tem quatro anos e hoje é seu primeiro dia de aula. Obrigado Senhor. Obrigado Deus. Obrigado Nossa Senhora. Minha vida e a minha família agora é toda sua.
  • A Riqueza Salva

    No começo a tecnologia era vista com entusiasmo. O futuro era visto de maneira brilhante com diversos inventos fantásticos, muitos deles estranhamente ligados ao atributo de voar. Parecia algo surreal e mágico substituir as rodas por nada, podendo admirar de maneira simples toda a beleza que um pássaro vê cotidianamente. Mas o pessimismo foi lentamente tomando conta das mentes e o futuro passou a aparecer de maneira sombria.
    Alguns apostavam no aquecimento global, outros em um vírus mortal que é liberado sem querer de algum laboratório, e ainda tinha aqueles que acreditavam que as máquinas iriam adquirir inteligência e dominar o mundo. O grande problema é que tudo isso desconsidera o fator humano. Há muito já se discutia se era a sociedade a responsável pela maldade humana ou se nós já nascemos assim. A resposta, embora importante, só revela que somos maus. E, sendo maus, nós temos que ser o grande protagonista do nosso fim, pois, se não for assim, provavelmente não é o fim.
    Esse pessimismo mostra que, tanto para o pobre como para o rico, o mundo iria acabar num futuro próximo. Talvez não o mundo, mas com toda a certeza pelo menos a existência da raça humana. O grande problema é que os pobres não têm muito poder de ação individualmente e juntar todos a nível mundial para ter alguma mudança é um trabalho muito árduo, difícil e alguns até diriam que impossível. Mas os ricos estão em um número bem menor e o dinheiro deles carrega um poder quase sobrenatural.
    Tudo, como sempre, começa com o medo. Basta uma pandemia para que a venda de bunkers dispare como se fosse um sinal do final dos tempos. Os bilionários acabam desabafando com os seus amigos, que também são bilionários, sobre esse pessimismo e percebem que é um sentimento comum. E, talvez durante uma conversa no balcão de um bar enquanto bebem um whiskey mais caro do que um carro popular, acabe surgindo ideias de como sobreviver a tudo isso sem perder a qualidade de vida. No princípio, as ideias pareciam absurdas, mas vão se complementando. No fim, fica um silêncio constrangedor. Os pensamentos foram longe demais, reais demais e sedutores demais. Afinal, por que não? É só a morte, a velha companheira que está direta ou indiretamente presente em nossas fortunas e em nosso conforto. Por que não pode participar da nossa riqueza e conforto eternos? E não é difícil conseguir gente o suficiente. Basta convencer as 26 pessoas mais ricas do mundo que já terá poder o bastante e os outros terão que vir se quiserem sobreviver. Bilhões de dólares podem se livrar facilmente de bilhões de pessoas.
    A ideia era bem simples na realidade. Bastava continuar desenvolvendo a tecnologia como se nada de diferente estivesse acontecendo, mas lentamente ir acelerando esse ritmo. O foco principal era desenvolver a inteligência artificial para que ela conseguisse chegar ao ponto de criar as suas próprias invenções, além de máquinas que conseguissem substituir o trabalhador humano nas fábricas. Mas esse último era mais simples já que estava em curso há muito mais tempo. Depois disso, o segundo passo poderia ser posto em prática: a aniquilação de todos que não faziam parte do plano. Pode parecer algo complicado à primeira vista, mas só é necessário o caos inicial. É possível fazer isso de diferentes maneiras. Dá para envenenar lotes de sal e açúcar ou até mesmo o sistema de abastecimento de água de um país, sendo escolhido um veneno de ação lenta para que os sintomas fossem confundidos com os de alguma doença. Também dá para simular desastres naturais, como um enorme tsunami, ou diversos ataques terroristas atribuídos a grupos radicais de fachada. Por fim, mas ainda bem longe de terminar uma enorme lista, é possível criar eventos sobrenaturais como boa parte de uma cidade ter morrido eletrocutada durante uma enorme e súbita tempestade formada por uma bomba de pulso elétrico.
    Assim que o caos se instala, gerando a maior (e última) crise do capitalismo, o fim começa a caminhar por si só. As pessoas não veem o inimigo invisível e talvez não ligassem mesmo se o vissem. O mais importante para elas é não passar fome enquanto sonham em voltar ao estilo de vida antigo. Por isso se separam em grupos e começam a brigar entre si pelo mínimo de recursos. Eles mesmos começam a se exterminar para tentar sobreviver. E essa luta se torna ainda mais difícil porque a maioria das pessoas não sabe técnicas de sobrevivência, como produzir alimentos e nem como funcionam as coisas eletrônicas que usamos cotidianamente. Então só resta lutar pelas coisas que já foram fabricadas e, se tiverem sorte, encontrar algum grupo que detenha esses conhecimentos.
    Para os ricos essa fase também é um pouco tensa, pois é crucial. Eles têm que se manter escondidos até a poeira abaixar e proteger os meios de produção, pelo menos o suficiente para que possam reconstruir rapidamente as suas casas e fábricas. Mas essa parte não gerava tanta preocupação já que tinham uma avançada tecnologia e não precisavam chegar ao mesmo ritmo produtivo de antigamente. Cada um era responsável pelo seu esconderijo e os principais eram debaixo da terra, em plataformas marítimas ou até mesmo debaixo do mar em submarinos de luxo. Assim que essa fase acabasse, seria possível deixar que a natureza se recuperasse sozinha devido as reduções drásticas com a super população e do problema da poluição. Na realidade, o próprio fim do capitalismo levaria consigo a maior parte dos problemas. Como os próprios bilionários diziam com suas vozes pomposas e orgulhosas: “Esse é um amargo remédio, mas é a única esperança para a sobrevivência da humanidade e do planeta”.
    No fim dessa fase, a própria inteligência artificial começaria a planificar a economia para decidir o que seria produzido, o local de produção, a quantidade e para quem ia primeiro com base na logística e em qual plano seria o mais rápido para recuperar a luxuosa vida de todos. É claro que ainda havia desafios, afinal alguns sobreviventes, que os ricos apelidavam de baratas, ainda andavam e sobreviviam nas ruínas das cidades. Por sempre andarem escondidos, não havia um censo de quantos ainda resistiam ao domínio mundial dos ricos. Ao todo 15 milhões de milionários foram chamados para participar do plano criado pelos bilionários e logicamente todos aceitaram. Como podiam abrigar a sua família e alguns amigos, o número de sobreviventes ricos deveria rondar os 40 milhões, mas muitos não aguentaram carregar a culpa e acabaram se suicidando. Já outros tentaram sair dos seus esconderijos muito cedo para reconstruir a sua vida normal e acabaram assassinados. E ainda teve aqueles que não se esconderam muito bem, foram encontrados e mortos por baratas famintas. Ao todo devem ter restado uns 25 milhões de ricos espalhados pelo mundo.
    Um desses ricos era Thomas, um homem que fez sua fortuna no mercado tecnológico após criar uma startup de investimentos. Ironicamente o slogan da empresa era “Sobreviva como um rei, invista com a gente e faça a sua fortuna”, mas ele deve ter sido o único ligado ao aplicativo que continuava vivo. Ele tinha uns 25 anos e 1 filho pequeno no momento em que o plano de extermínio foi posto em prática. Quando sua mansão superprotegida estava pronta, saiu do seu luxuoso bunker com um pouco mais de 65 anos e 5 filhos. Mas se alguém o visse na rua em um dia qualquer provavelmente acharia que ele tinha uns 40 anos. As dicas e tratamentos de beleza que a inteligência artificial oferecia eram valiosos, ajudando os ricos a terem uma vida longa e saudável. Além disso, ela criava um belo conteúdo de entretenimento a partir dos gostos dos moradores, o que evitava a culpa e o estresse, influenciando e muito na aparência deles.
    Já o contrário parecia acontecer com Isaac que tinha somente 30 anos, mas aparentava uns 50. Ele nasceu durante a época do extermínio, então era mais fácil lidar com a realidade já que nunca viveu nada diferente do caos. O estresse e a culpa eram sentimentos cotidianos, sempre estando misturados com a raiva e frustração. Ele era negro e seus músculos eram definidos, mas isso acontecia mais pela desidratação e uma dieta irregular do que por uma rotina dedicada a musculação. A barba e o cabelo eram aparados com uma faca sempre que atingiam comprimento o suficiente para puxar e cortar, os deixando com uma aparência de ninho de pássaro. Os cuidados com os dentes eram precários, mas o suficiente para deixá-los lá. Tanto o cheiro do corpo como o das roupas eram azedos, pois ninguém confiava na água dos rios desde o envenenamento em massa. A preferência era sempre pela água das chuvas e somente em épocas de estiagem era que a água do rio era usada, mas sempre com cautela. Embora não tenha vivido a parte mais bruta do extermínio, sempre ouvia as histórias do pai e seguia os seus ensinamentos como se fossem regras canônicas.
    O seu pai, que se chamava Francisco, morreu quando ele tinha apenas 15 anos, enquanto a sua mãe morreu dando à luz. Quando tudo era normal, ele era o mordomo de Thomas que preferia um humano tomando conta de sua casa do que um robô, além de acreditar que ajudaria o seu filho a ser mais empático ao crescer do lado de humanos. Embora fosse constantemente abusado verbalmente, Francisco não poderia se dar ao luxo de pedir demissão já que não tinha muitos empregos lá fora e a maioria das pessoas trabalhavam como autônomas. Ele achava engraçado como elas formavam quase um mercado fechado: autônomo vendendo para outro autônomo e assim todos vivendo de forma apertada, mas sobrevivendo.
    Era bem diferente de como Isaac vivia e, sempre que ele se lembrava das histórias do pai, ficava com uma sensação de que era um conto de fadas impossível de se tornar realidade. Ele vivia com um grupo de 4 pessoas, todas mais jovens do que ele. Eles moravam entre uma pequena floresta, que antes era um parque, e os escombros de um antigo prédio que ainda tinha parte de alguns andares em pé. O verde já tinha recuperado uma boa parte do cinza da cidade e, como o parque já tinha um grande número de árvores antes, nessa área a recuperação foi mais rápida. Eles dormiam em uma pequena cabana feita de lona com duas valas escavadas ao lado. Isso permitia que a água da chuva fosse captada mesmo quando ninguém estivesse no acampamento. Assim, eles conseguiam fazer trocas com grupos que moravam nos esgotos sempre que ficavam sem conseguir caçar alguma coisa no parque. A troca não era agradável, mas aqueles que moravam nos esgotos sempre tinham uma abundante criação de baratas e uma escassa captação de água. Pronto, a troca perfeita estava feita: um pote de água por um de baratas. No começo é nojento comer elas, mas você vai fritando, as observando e pensando em sua fome. De repente, param de ser tão nojentas e passam a ser desejáveis ao pensar na crocância do exoesqueleto sendo esmagado pelos seus dentes, no gosto salgado se espalhando em uma boca que não sente nada a dias e na satisfação de ter alguma proteína no seu estômago. Mas graças a Michelle, que era a responsável pela montagem das armadilhas no grupo, esse canibalismo nem sempre acontecia. Ela aprendeu tudo que sabia com a sua mãe e tentava passar para a sua irmã mais nova Micaella, mas ela sempre esteve mais interessada nas histórias do mundo do passado que Isaac contava. Já Yuri e Regis eram os responsáveis pela segurança e arrumação do abrigo, sempre pensando em jeitos de afastar outros grupos, além de deixar tudo limpo e funcional. Como era o mais velho, Isaac supervisionava todos e sempre preparava as refeições. Era um grupo bem limitado que foi formado pelos pais de Michelle e Isaac, mas que de alguma maneira inexplicável continuava sobrevivendo.
    Antigamente havia mais membros, chegando a ter 15 pessoas em seu auge. Porém, como o acampamento ficava muito perto da mansão de Thomas, muitos eram capturados e outros fugiam com medo de terem o mesmo destino. A última baixa do grupo foi Juan que, enquanto caçava com uma lança, foi visto por um drone que patrulhava os arredores da mansão. Ele tentou correr, mas, com o lançamento de um projétil menor que uma bola de gude e macio como uma pena, ele caiu no chão imobilizado. Logo depois foi recolhido por um robô que voava a poucos centímetros do chão e que era do tamanho de uma van. Alguns diziam que a pessoa capturada era torturada por informações assim que acordava, já outros diziam que virava fertilizante para a plantação de flores dos ricos.
    Na realidade, ninguém sabia o que acontecia dentro da mansão e nem como ela era por causa dos enormes muros que separavam as duas realidades. Era até amedrontador olhar para ele toda noite antes de dormir, pois, mesmo em meio a tanta escuridão, ele ainda se destacava como se fosse um corpo vivo que se aproximaria de você durante o seu sono e te mataria enquanto estivesse indefeso. Já durante o dia, ele perdia um pouco dessa magia. Embora só tenha visto a barragem de uma hidroelétrica em um antigo e acabado livro de geografia, Isaac imaginava que deveria ser muito parecida com esse muro, mas só que ao invés de ter comportas para liberar a água, tinha pequenos buracos por onde saiam drones de vigia e alguns outros robôs. Mesmo de longe dava para perceber a vegetação subindo pelo muro e um musgo verde se formando na base enquanto lutava contra o preto da sujeira. De resto, parecia ser originalmente cinza escuro e totalmente liso, sem nenhuma imperfeição à vista e sem nenhuma chance de ser escalado, pelo menos não antes de ser visto pelos gélidos vigias.
    Isaac pensava muito nesse muro e se lembrava de uma história que o seu pai lhe contou, mas que nunca compartilhou com mais ninguém. Segundo ele, era uma história perigosa demais para ser divulgada e que poderia comprometer a vida de muitas pessoas. Talvez até mesmo se tornando a nova lenda de El Dorado. Era sobre um dia de trabalho comum, bem cansativo como sempre, e ele preparava um chá para levar até a sala de reuniões de Thomas. Logo depois de bater na porta e entrar, ele viu uns engenheiros apresentando um projeto de uma bela mansão com grandiosos muros. Na hora ele achou que o senhor Thomas ia reformar ou se mudar para um outro terreno, então não se importou muito. Mas, graças a sua memória fotográfica, viu os mesmos muros se erguerem no final da fase bruta do extermínio. Isso não seria de grande ajuda se ele não tivesse percebido que a mansão do projeto era exatamente igual e no mesmo lugar que a mansão onde trabalhava. Portanto, deveria ser a mesma ou pelo menos ter a mesma base e, se for assim, provavelmente ainda teria o mesmo túnel de fuga entre o corredor do primeiro andar e o quintal. Ele tinha sido criado na época da 2º Guerra Mundial para ser usado se algum exército inimigo invadisse. Depois foi reformado ao longo dos anos para o caso de haver um golpe comunista. No fim, só foi usado por gerações e mais gerações de adolescentes para fugir de casa, mas mesmo assim ainda deveria estar lá. Isaac se lembrava de um desenho que o seu pai fez para ilustrar o que estava contando e onde mais ou menos deveria ficar cada coisa hoje em dia. E, logo quando terminou a história, pediu para que ele só tentasse usar essas informações no momento em que soubesse que estava sem saída, pois as chances de morte eram muito maiores que as de sucesso. Ele falava que era como apostar na loteria, mas Isaac nunca entendeu muito bem essa expressão.
    Ele guardou esse segredo durante anos, tentando descobrir quando era a hora certa já que havia só uma tentativa antes do boato se espalhar ou se perder para sempre. Guardou até que Micaella foi capturada enquanto verificava se as armadilhas tinham pego algum animal. A sua irmã estava longe e não pôde fazer nada. Michelle ficou chorando durante uns dois dias seguidos, se culpando e imaginando pelo o que a sua irmãzinha estava sofrendo. Via ela em todos os cenários que diziam ser o destino dos capturados, mesmo sabendo que a maioria eram apenas histórias para assustar os mais jovens. Mas talvez alguma fosse verdadeira, não é? Alguma tinha que ser a verdadeira. Talvez não criassem as pessoas como gado para o abate e nem lutavam até a morte entre si para entreter os ricos, mas com toda a certeza morriam. Esse era o final de todas as histórias.
    Nesse momento, Isaac teve que admitir pela primeira vez que estava sem saída. Na realidade, há muito tempo não tinha nem sequer um caminho para o qual poderia seguir. Ver o seu grupo definhar ao longo dos anos e estando mais perto da extinção a cada dia doía como uma ponta de lança presa em sua carne, então Isaac teve que contar a história para o grupo. A decisão não seria dele, mas havia somente duas opções: eles podiam ir para o mais longe possível do muro e esquecer tudo ou podiam ficar, tentar invadir e torcer para não morrer. Houve um pouco de revolta por ter contado isso só agora, mas ele sabia que o tempo faria com que todos entendessem o porquê de ele ter escondido. Mas, como estavam cansados da realidade e do terrível cotidiano, decidiram lutar ao invés de fugir e assim começaram a elaborar o plano para a invasão.
    No dia seguinte, tudo que foi planejado já começou a ser colocado em prática. Eles entraram no esgoto logo após o parque e seguiram por ele até ficarem a mais ou menos uma quadra de distância do muro. Eles sabiam que entrando depois do parque não iam se deparar com nenhuma outra pessoa porque ninguém era tão louco de chegar tão perto daquela muralha amaldiçoada. O cheiro não era o pior do mundo já que não recebia esgoto há muito tempo, mas mesmo assim a sensação de ser algo sujo e nojento ainda prevalecia. Para organizar o trabalho, eles se dividiram em duplas que iam trabalhar por 12 horas seguidas. Isaac e Michele ficaram com o primeiro turno, o que foi um alívio já que ela era a única pessoa com quem conseguia ficar em silêncio sem se sentir constrangido. Com os outros dois, sempre parecia que algo estava errado e precisava ser preenchido com papo furado. Portanto, essa divisão seria ótima já que as conversas somente atrasariam o imenso trabalho que teriam pela frente.
    Em uma escavação todas as partes são difíceis, mas a mais difícil sempre é a que você está fazendo naquele exato momento. E, nesse caso, o começo era a parte mais difícil. Isaac tinha que calcular exatamente o ângulo em que o túnel tinha que seguir para atingir a passagem subterrânea do quintal. Depois de conferir milhares de vezes o mapa e ouvir diversos “não sei” de Michelle quando perguntava se estava certo, marcou com algumas pedras a direção e ficou feliz em perceber que era onde o concreto do esgoto estava cedendo. Ele trabalhou durante uma hora e conseguiu atingir a parte de terra do túnel. Michelle continuou e conseguiu fazer o comecinho da passagem. E assim eles foram se revezando de 1 em 1 hora para que pudessem descansar um pouco. Eles marcavam o tempo com uma ampulheta improvisada a partir de uma antiga garrafa pet e escavavam com pedaços de metal antigo presos em pedaços de madeira que originalmente seriam utilizados em armadilhas. Não eram as melhores ferramentas e quebravam facilmente, chegando inclusive a fazer alguns cortes quando a parte de ferro soltava com um golpe forte, mas era o melhor que podiam fazer.
    Quando acabou o seu turno e pôde voltar para o acampamento para descansar, só queria ficar deitado na terra amaciada pela grama e olhar para o céu enquanto ainda tinha a chance. Logo ele iria cair no sono, acordar e voltar para a escuridão. Ele tinha medo de voltar para lá. Não um medo paralisante, mas um que embrulha o estômago e te deixa trêmulo. O máximo de luz que eles tinham era um pouco de gordura que eles deixavam queimar no meio do caminho. O cheiro de animais em decomposição predominava, se sobrepondo ao cheiro de terra úmida. E, por estar fazendo bastante esforço físico, era obrigado a respirar mais vezes, sentir esse cheiro pútrido invadir as suas narinas e dominar a sua mente. Mas o que o deixava mais irritado era saber que ia demorar e que provavelmente já seria tarde demais para encontrar Micaella viva. E a cada dia que passava, a demora só irritava ainda mais. O problema não era mais a intensidade do trabalho, mas a longa distância que estava se formando. Os turnos tiveram que passar de 1 hora por pessoa para 3 horas porque simplesmente demorava muito para se rastejar até o fim do túnel. As discussões aumentaram e a maioria tinha Isaac como alvo, indo desde o quanto cada grupo estava escavando até questionamentos em relação a direção em que estavam seguindo. Mas todos que discutiam não acreditavam realmente no que falavam, era só uma forma de se livrarem de toda a raiva e frustração que acumulavam. Eles precisavam descontar em alguém porque também tinham medo de ter tomado a decisão errada. Tinham medo de ter escolhido a morte e literalmente estarem cavando o seu próprio túmulo.
    Depois de 1 semana e meia trabalhando 24 horas por dia, Isaac fincou a sua pá na terra e ela quebrou ao se chocar com o concreto. Ele fechou os seus olhos enquanto a sua pupila olhava para cima, respirou fundo e sentiu uma lágrima caindo do seu olho direito. Finalmente tudo estava próximo de acabar, seja de uma maneira boa ou ruim, mas acabar. Os próximos passos já estavam traçados e prontos para serem postos em prática no pôr do sol, logo quando os pássaros começam a cantar. Enquanto Isaac quebrava o concreto e invadia a mansão, o resto do grupo iria se separar em volta do muro e começaria a queimar uma série de bonecos de palha para distrair uma parte dos robôs responsáveis pela segurança. Logo depois disso, os três iriam se reagrupar dentro do parque e esperar o sinal de Isaac. Seria algo simples, talvez até invisível para alguém com olhar desatento. Ele faria uma fogueira dentro dos muros e pela primeira vez todos que estavam lá fora veriam fumaça saindo da fortaleza. A lenha seria os corpos dos ricos que moravam lá. Talvez possa parecer radical, mas o único jeito de uma barata não morrer é quando o exterminador tem medo dela. Ele tinha certeza que essa história se espalharia e faria com que todos os ricos temessem as baratas novamente.
    Logo após o primeiro pássaro piar e chamar todos os outros para o céu numa revoada que passa dançando pelas nuvens, as faíscas começam a surgir em bonecos de palha e os drones se juntam aos pássaros. O som surdo de uma haste de metal sendo golpeada rápida e sucessivamente por uma pedra encoberta de panos ecoa baixinho pelos esgotos. O suor descendo pelo rosto de Isaac como se ele tivesse acabado de sair de uma chuva não negava o esforço que ele fazia na luta contra o concreto. No começo, o seu adversário resistia em ser perfurado, sendo desgastado lentamente, mas, quanto mais era danificado, maiores eram as lascas que caiam. Depois de meia hora, já conseguia ver a luz do outro lado e bastou só mais 20 minutos para que conseguisse passar pelo buraco. Enquanto se espremia para alcançar o outro lado, sentia as lascas de concreto arranharem cada centímetro do seu corpo e o sangue quente brotando com ardência em alguns dos cortes. A primeira parte do corpo a sentir o cimento frio do outro lado foram as suas mãos e logo depois os pés, deixando o buraco para trás.
    Antes de prosseguir, Isaac decidiu ficar sentado por uns cinco minutos no chão para descansar e aproveitar o sorriso debochado que se formou em seu rosto após essa primeira conquista. Estava dentro. Não era um túnel grandioso e requintado, mas era do lado de dentro dos muros. Tudo à sua volta era cinza e escuro. A única iluminação eram pequenas luzes de emergência grudadas na parede separadas por uma distância tão grande que não iluminava todo o túnel. Mesmo assim pareciam grandiosas para alguém que viu somente alguns poucos LEDs no decorrer de sua vida. Chegavam a ser tão fascinantes que até o hipnotizavam por alguns segundos. Mas chegou a hora de se levantar e continuar, então tirou uma faca do cinto e começou a andar silenciosamente. Ele saia da luz de uma lâmpada, entrava na escuridão e seguia o caminho até encontrar outra luz mais adiante. Isso se repetiu umas dez vezes até encontrar uma grande porta de ferro na sua frente com um enorme leme grudado nela e que era usado para trancá-la. Ela estava com limo em algumas partes e já dava para ver sinais de ferrugem lutando contra a sujeira. Isaac sabia que seria difícil de girar e puxar a porta, então deixou a faca no chão, respirou fundo umas três vezes e jogou todo o seu peso contra o leme o forçando a girar no sentido anti-horário. Depois de alguns segundos sem se mover nem um milímetro, um clique foi ouvido e a roda começou a girar lentamente. Quando não conseguia mais girar, puxou a porta com toda a sua força até que tivesse espaço o suficiente para passar. Os rangidos soltados por ela o faziam praguejar em sua mente com todos os palavrões que sabia. Não tinha como fazer silêncio nessa parte, então só podia torcer para que ninguém ouvisse.
    O lado de dentro da porta era mais brilhante. Essa foi a primeira coisa que percebeu quando chegou ao outro lado. Logo depois, pegou a faca e passou um pé de cada vez pela porta. O piso era de uma madeira lisa e o ar, que no túnel era frio, estava em uma temperatura perfeita, nem quente e nem frio demais. A sua direita tinha uma escada com uma porta de madeira no topo e a esquerda havia dezenas de barris na horizontal com torneiras fixadas na tampa. E bem na sua frente tinham fotos em preto e branco de pessoas sorrindo. Demorando um pouco para juntar as letras, viu que em cima delas estava escrito “Mural do agradecimento”. A voz da mãe de Michelle surgiu em sua cabeça falando “Os ricos são pessoas estranhas, cada um tem a sua excentricidade.”. Essa foi a resposta dela quando Isaac perguntou porque existiam drones que tentavam machucá-los. E agora ecoava em sua mente. Talvez por isso decidiu se aproximar e olhar quem eram. Foi passando o olho rapidamente em cada uma das fotos. Como não reconhecia ninguém, pensou que poderiam ser os bilionários que participaram do plano ou dos descendentes de Thomas. No momento em que chegou na última foto, já estava preparado para fazer o movimento de voltar e subir as escadas, mas parou. Os seus músculos paralisaram totalmente e o único movimento que aconteceu nos segundos seguintes foi uma lágrima rolando do seu olho esquerdo. A foto era de Micaella. Ela estava mais limpa e com o cabelo arrumado, mas com o mesmo sorriso que dava quando Isaac contava as histórias do passado. Ele reconheceria esse sorriso em qualquer lugar porque normalmente era a única parte do seu dia que valia a pena. Às vezes era o que o fazia ter esperanças.
    A raiva, que já era grande, só aumentou. Ele fechou os punhos com força e limpou a lágrima. Não queria ver mais nada lá embaixo, só acabar com tudo. O mais rápido possível de preferência. Então subiu as escadas, abriu a porta e seus olhos se fecharam com a luz intensa. Aos poucos seus olhos se acostumaram e começou a identificar o local. Era como um corredor largo e decorado com um papel de parede branco com formas amarelas retorcidas, como se estivessem dançando. Havia três quadros bem coloridos, mas sem nenhum desenho em específico. Mas o que mais o fascinou foi o tapete. Ele era bem peludo e, quando colocou os pés nele, foi como se estivesse sendo absorvido pela areia molhada depois de uma onda. Era acolhedor, mesmo estando em terreno hostil.
    Depois de se acostumar, tinha que decidir se iria pela esquerda ou direita. Não tinha nada que indicasse o caminho certo, então foi para a direita. Os seus passos eram lentos. Bem lentos. Um pé de cada vez. Sem se apressar. E assim chegou perto de uma porta que estava em uma completa escuridão. As palmas da sua mão suavam e molhavam o cabo da faca enquanto o medo aumentava. Respirou fundo e deu um passo para a frente. Poucos centímetros antes do seu pé encostar no chão, viu uma sombra surgindo na sua frente. Em um movimento rápido e puramente instintivo, levantou o braço até a altura do queixo e tentou atingir a sombra com um golpe de faca no peito. A sombra foi mais rápida, golpeou com uma das mãos a articulação do braço e com a outra forçou a faca a se voltar contra o corpo de Isaac que a sentiu perfurando o seu estômago. Uma ardência mortífera se espalhou por onde a faca passou e, mesmo quando a soltou, ela continuava pendurada em sua barriga. A única reação que conseguiu ter foi dar alguns passos para trás e se apoiar na parede. Isso fez com que a sombra andasse para a frente e se revelasse. Ela tinha o rosto de alguém morto. De alguém simplesmente impossível. Enquanto começava a engasgar com o seu próprio sangue quente, via o seu pai com um terno preto e com uma aparência bem mais jovem se aproximando. Era ele que o tinha esfaqueado, mas era impossível que estivesse ali. Isaac o viu morrer em seus braços há 15 anos atrás e, mesmo se não tivesse, ele não o mataria, não o seu pai. Os pensamentos de Isaac já não fluíam de forma ordenada quando aquela coisa se aproximou de seu ouvido e falou com uma voz calma e familiar “O Sr. Thomas não gosta de baratas em sua casa, então vou ter que pedir para se retirar.”. Ele torceu a faca logo depois da última palavra e uma pontada de dor se irradiou pelo seu corpo como se tivesse sido atingido por uma forte corrente elétrica. A última reação de Isaac foi encostar no pescoço de seu pai e encarar os seus olhos enquanto a escuridão se aproximava. Não existiam batimentos em seu pai e logo não existiriam nele mesmo. A sua cabeça caiu pesadamente para frente e os seus olhos ficaram abertos, mas não enxergavam nada além da escuridão.
  • A vida de uma Pimenta

    Comer a mais no café se tornou rotina. É uma maneira de evitar o contato prolongado com quem eu mais amava: meu pai.
      Depois do meu pedido de ajuda, a vida se virou de ponta cabeça. Depois do meu suicídio mal sucedido, minha cabeça começou a trabalhar num escritório e ter que ler vários artigos por dia.
      Bom, vamos ao ponto. A verdade é que sou depressiva bipolar e fóbica social. Mas a vida não tão difícil quanto pode ter passado em sua mente. Sou bem aberta à recepcionar pessoas e ouví-las. Só entro em pânico quando tenho que ir ao shopping. A vida só ficou complicada mesmo quando meus pais decidiram que eu não podia mais ficar sozinha. Isso mesmo. 24 horas por dia, vigiada. Além disso, comecei a ter o senso de que meu pai estava se aproveitando de nós, minhas irmãs e eu, para fazer tudo na casa, enquanto ele se sentava ao sofá. Sabe aquela VELHA história de que o homem trabalha fora de casa e a mulher dentro? Pois é, acontece aqui. E foi assim que as brigas começaram; que a distância se tornou refúgio e que eu comecei a perder o senso.
      Quero contar essa história do início. Mas é uma LON______GA história. Então, se você quiser/puder ficar, conto tudo direitinho....
  • A vida é boa!

    Eu acordo.
    Tenho água para beber, 
    tenho roupas para vestir,
    tenho comida para comer 
    e até um sol para olhar e admirar todas as manhãs. 
    A vida é boa!
    Gratidão.
  • Abandonados

    O sol estava quase se pondo, e começava a esfriar. Era hora de juntar as ferramentas e ir pra casa. Já havia refeito a cerca e checado o propulsor, não havia perigo essa noite. Papai instalara esse mecanismo há alguns anos, custou quase dez meses de trabalho, mas valeu a pena. Nessa época do ano os ataques de radús aumentavam. Talvez por causa do frio, que congelava as partes mais distantes da floresta, e fazia os outros animais fugirem. Eles gostavam de atacar em bando, e quando estavam reunidos representavam perigo a todos, inclusive a nós. Mas agora estávamos seguros, por enquanto...
    _Will... onde está seu irmão?
    Os arus já começavam a cantar, anunciando a chegada da noite. Minha mãe estava trancando a gaiola dos macucos quando me viu chegando. Carregava apenas algumas ferramentas, as outras deixei no caminho, apesar de meu pai sempre reclamar, dizendo que isso as oxidava. Estava ficando frio.
    _Não sei... pensei que tivesse voltado. Me deixou sozinho fazendo a cerca e sumiu.
    O olhar de preocupação ficou estampado no rosto dela. Não era seguro para uma criança andar durante a noite pela estância. Sabia onde poderia encontrá- lo, e não tardei em ir. Queria chegar antes do anoitecer e a tempo de ouvir músicas com meu pai.
    _Ele deve estar na represa. Vou lá buscar ele, já volto...
    _Cuidado Will! Não se esqueça de ligar o propulsor quando voltar.
    A porta da gaiola estava emperrando há alguns dias, por isso mãe custara a trancá-la. Era um trabalho para a próxima semana. Saí em disparada pela trilha que levava á represa. O lugar ficava extremamente frio á noite, e os gralhos cantavam em conjunto, causando um som horrível.
    Nadic estava jogando pedaços de rochas queimadas na água. Provavelmente nem se deu conta do quão tarde havia ficado. Ele era o caçula da casa, o protegido, meu irmão. Nunca me importei de zelar por ele, afinal era minha responsabilidade.
    "Irmãos tem que ser unidos"
    1
    Meu pai disse isso quando Nadic nasceu, e dizia algumas vezes mais. Sabia o quanto era importante ter um amigo ao lado, e ninguém seria mais amigo que um irmão.
    Gritei Nadic, e acenei com o braço para que viesse. Atirou sua última pedra na água e veio, num leve galope. Já havia escurecido, e não era bom ficar fora da cerca durante a noite. Tratei de apertar o passo, mas Nadic não acompanhava. Então joguei a isca que funcionaria.
    _Quem chegar por último tem que dar banho no Solomon amanhã.
    Ninguém gosta de se molhar enquanto tenta dar banho num animal de quase dois metros. Era de longe o pior trabalho a se fazer, para crianças. Os adultos tinham coisas um pouco mais difíceis.
    _Não vale, Will... você estava na frente quando falou. Espera!
    Não parei de correr. Não pela fuga do serviço, que no final das contas seria meu de qualquer forma. Nadic era muito pequeno e fraco para dar conta do Solomon. Queria apenas chegar rápido em casa, e assim ouvir a rádio com papai, como fazíamos todas as noites.
    _Ei, Will... espera! Will, tem alguém aqui.
    Estava bem á frente quando Nadic parou. Podia ser um truque, parando para esquecermos o desafio, mas não era o que parecia. Ele estava parado, e olhava fixamente a lavoura de linhais. Dizia insistentemente que havia algo ou alguém ali. Não conseguia ver nada, mas seus olhos estavam estáticos, buscando e agonizando por algo.
    Um barulho...
    Seja o que for que Nadic tenha visto, certamente não estaria ali amanhã. Um grupo de radús descia o bosque, emitindo sons enlouquecidos. Estavam famintos, e se não corrêssemos muito seríamos devorados naquela noite.
    Nadic continuava olhando o linharal, sem sequer perceber os gritos e uivos atrás de nós. Ele estava em outro lugar, parecia dormir e sonhar profundamente, acordado e de pé.
    Peguei-lhe pelas pernas e joguei nas costas. Logo saí da trilha, pegando o caminho mais rápido até a proteção da cerca. Conseguia ouvir as batidas dos dentes ferozes atrás de nós. Não daria tempo. Um deles estava muito perto, quase chegando...
    Corre Will! Corre!
    2
    Minhas pernas doíam e estavam rígidas no frio. Não conseguiria correr muito além daquilo, iríamos morrer ali, devorados por um bando de radús de dentes afiados.
    Mudei meu curso outra vez e agora corria rumo ao poço dos cânions. Se conseguisse pular em seu interior estaria livre dos radús. Eles não suportavam o contato com a água durante a noite. As nascentes se congelavam e liberavam gases de alta densidade, mantendo o solo coberto por uma nuvem branca e tóxica.
    Sabia. Não tinha outra escolha, não uma melhor.
    Eu poderia tentar a fragmentação, mas era quase impossível; não a dominava plenamente, e Nadic menos ainda. O máximo que já tínhamos conseguido metamorfosear fora uma mão, ou meio braço, nunca mais do que isso. O grande problema não era fazer, mas refazer; e o que fazer depois de mudar. Isso poderia nos matar tão rápido quanto os radús.
    Não iríamos conseguir, eles estavam atrás de nós, e Nadic pesava muito. Num último impulso joguei-me com Nadic no poço, sem me atentar que ele poderia estar congelado. Batemos forte na superfície coberta por uma fina camada de nitrogênio. A camada rompeu e afundamos...
    3
    _Onde estão os meninos? Will me falou sobre ouvirmos...
    As palavras de Moorse perderam-se quando se deu conta do que estava acontecendo. As crianças não haviam voltado, estavam lá fora, no frio, e talvez fora da proteção do propulsor.
    _Will foi buscar Nadic. Já deviam ter voltado, ele falou que iria rápido, mas até agora...
    _Calma, vou lá. Eles devem estar dentro da cerca, não há perigo.
    Moorse soltou Solomon e com o caminho clareado pelo farol da fazenda partiu em busca dos filhos... ou de seus corpos.
    A cerca estava reerguida, como havia pedido para Will fazer pela manhã, mas o propulsor estava desligado. Acionou outro feixe de luz, clareando o caminho além da cerca. Não via nada, nem as feras.
    Deixou Solomon seguir o rastro, farejando e deixando saliva por onde passava. O que quer que fosse, levaria Moorse a algum lugar. Talvez rastreasse os radús, ou os meninos, e quem sabe ambos.
    4
    O caminho farejado saía da trilha e seguia pelo campo, dirigindo-se ás antigas estalagens da estância, onde estavam o velho moinho e o poço abandonado. Nenhum funcionava, e tampouco eram acessados. Radús subiam o morro correndo, e então Moorse soube que Solomon havia os seguido. O animal parara de farejar, parecia ter chegado no fim do rastro, e agora estava sentado com as orelhas erguidas e atendo, olhando para o alto do casebre, já caindo aos pedaços. Demonstrava haver algo ali, mas Moorse não deu atenção.
    Seguiu caminhando até o poço, e viu a superfície se reconstituindo no meio. Parecia ter sido quebrada ou rompida por alguma coisa.
    Aproximando-se não pôde ver nada. Então ouviu uma pancada, de dentro para fora, vinda do poço. Havia algo ou alguém ali. Moorse não se moveu, apenas observou. Foi então que viu parte do rosto de Will comprimido contra o nitrogênio congelado, gritando desesperado.
    Moorse olhou para o poço, aproximando-se. Ficou despido, sem se importar com o frio ou com o vento em volta. Solomon observava, apenas grunhindo, lambendo o focinho e se deitando. O que outrora fora um ser corpulento e pesado, desfizera-se gradativamente, e agora feito líquido escorria lentamente para o poço.
    A camada de nitrogênio começara a gasificar, e a superfície do poço voltava a ficar líquida. Will e Nadic boiavam e eram levados para fora do poço, agora puxados por Solomon. Quando a fumaça se desfez, havia água escorrendo. Moorse agora surgia deitado no canto. Seu corpo voltara a ser o mesmo, num incrível processo de materialização.
    Nadic estava desacordado, tremendo, e enrugado. Will conseguiu se manter desperto, mas não totalmente. Moorse sentiu-se feliz ao ver o filho mais velho dormir a tempo de não ver o quanto a tentativa de fragmentação lhe havia custado.
    Seguiram pela trilha desta vez, sob a luz dos faróis. Nadic nas costas de Solomon; Will nas costas de Moorse, o braço estava pela metade, enrolado na camisa do pai, e a parte esquerda do rosto estava coberta.
    Fechou-se a cerca e o propulsor foi acionado.
    Seguiram rumo á casa.
  • Abstração de vida

       Dois meninos, deitados no capim que parece mais uma grama. Mesmo em cima da camisa, volta e meia o capim pinica as costas. Estão bem em frente para a estrada de asfalto, que trouxe o “progresso” a comunidade rural.
        Nenhum deles liga pro asfalto quente. Mas os carros que passam sobre ele sim. A escola era pela manha. Já tinham feito suas obrigações na roça e agora estavam ali a contar as três horas da tarde, quantos subiam e quantos desciam.
       Os que desciam eram de um, os que subiam do outro. Quando um carro dava marcha ré, não discutiam, negociavam ate chegar a uma conclusão. Alguém lembra que tem carros demais e diz “não, fica já tenho muitos da cor vermelha”, e o amigo respondia “não eu tenho muitos chevetes”. Doa o carro e fim de papo. Ambos possuem tantos carros que poderiam abrir ate uma concessionária
        Mas e as motos? As motos também, as bicicletas e ate os carros de mão. Estavam ali tão despreocupados. Não tem filhos para alimentar, educar, mulheres para cobrar nada deles. Por isso viviam assim, como diria o poeta “Êta vida besta meu Deus”.
       Um deles esboça um sorriso, o outro senti pena daquelas pessoas a descer e subir no asfalto, a passarela do progresso. Eles pouco se importavam com ele, queriam mesmo era sonhar que eram donos do que passava por ela.                                                              
  • Alma Perdida

    Ela era uma prostituta. Mas não era uma prostituta qualquer, nela havia algo especial. Cercada de tristeza e dor, seu corpo possuía tons curiosos.
    Carmen, filha de João e Maria, cresceu ouvindo que o mundo era vazio, um lugar sem esperança. Quando criança, tentava de todas as formas agradar os pais que trabalhavam dia e noite para poder colocar o pão na mesa, chegavam cansados e só verificavam se Carmen estava viva, não prestando atenção acima da mesa: ‘’Papai,Mamãe. Eu não sei muito sobre vocês, contudo isso é uma das consequências da vida que fomos destinados a ter, porém amo vocês do mesmo jeito que qualquer outra filha amaria.”
    Aos 16 anos, os pais de Carmen morreram e a adolescente foi morar com o único parente que tinha, seu tio. Era uma casa fria, sem cor. Todas as noites, ela chorava baixinho, no canto do quarto, implorando para sentir alguma coisa: felicidade, tristeza, raiva... Algo que mostrasse que ela ainda estava viva e não somente sobrevivendo. Seu tio, uma pessoa amarga, chegava bêbado em casa todos os dias e, naquela noite, ele escutou um murmúrio vindo do quarto. Alguém chorava. Uma alma perdida pedindo socorro. ‘’Eu vou te dar um motivo para sentir algo.’’, disse, puxando a cinta e espancando a jovem Carmen.
    E naquela madrugada, ela de fato sentiu algo: repulsa. De si mesma. Olhava para os hematomas e as lágrimas não faziam seu caminho pela bochecha mais, era uma dor mais profunda. Julgou que a melhor forma de acabar com aquilo era fugir e assim fez, saindo sem rumo. Vagou pelas ruas, somente o tempo conseguiria cura-lá.
    Passaram- se anos, Carmen se encontrava no banheiro do posto, enquanto passava o batom tão vermelho quanto seu próprio sangue, um sorriso falho no canto dos lábios. No relógio marcava 00:00, deu um passo para o lado de fora, sentindo o vento frio contra sua pele pálida. Mais uma noite de trabalho.
    Uma mulher diferente de todas as outras, parada no ponto, vendendo aquilo que sempre desejou ter, o puro amor.
  • ANELO, minutas de um desventurado

    PRÓLOGO
         Lembro-me de um gosto semelhante ao cheiro associado à ferrugem, de não poder levantar meu braço ao lado da porta do motorista e sentir um formigamento muito bem vindo em minha perna após notar estar com algo atravessado pela parte interior de minha coxa esquerda e prender-se firmemente ao meu banco. Algo, um ferro desmembrado do outro veículo talvez, também pressionava o pé desta mesma perna em sentido contrário e talvez fosse essa a causa da sensação anestésica.
         Ewan McGregor bradava a plenos pulmões que Satine o perdoasse pelo equívoco dele à seus olhos serem verdes ou azuis. Eu já estava tão acostumado com aquela adaptação de Moulin Rouge que a versão da canção Your Song, original de Elton John, me parecia esta ser a original. E além de ser um dos musicais favoritas de Elena, a cada vez que a música tocara no carro ou em qualquer que fosse o lugar que estivéssemos, sempre me deparava com a mesma imagem de mio amore...como era gratificante admirá-la em seus momentos de fantasia. Era como se a personagem a quem era dedicada a música fosse ela, e seu rosto se enchia de um sentimento de realização e ruborizava suas maçãs do rosto perfeitamente desenhadas deixando a face mais amável como uma criança não sabendo lidar com um elogio. Tão logo, os dois amantes dançariam sobre um elefante escarlate aplumado metodicamente para uma noite ao gosto não de um poeta que ama e venera a simplicidade do amor genuíno, mas sim um marajá não tão hostil, porém metódico. Coisa que nem de longe o desafortunado Christian poderia vir a ser. Mas tão apaixonado –me questionava entre um desagradável zumbido crescente e luzes que bruxuleavam à minha frente. –, como  poderia ele esquecer a cor dos adorados olhos de sua bella? De um azul tão reluzente quão eram, em sua lembrança, as águas eloquentes de Calábria. O mesmo azul do vestido que Elena vestira esta mesma manhã.
        –Elena... –tentei em vão gritar, mas minha voz não poderia ser comparada a um mero sussurro. –Dio, cosa è sucesso...? Lena... – eu ainda podia ouvir os versos cantados enquanto o mundo se desdobrava  e esticava tão rápido e sem avisos enquanto eu dava ordem aos fatos, “Um carro na contramão...eram dois? Acho que capotamos...Elena. Elena, desliga il radio.”. Enquanto recuperava parte da consciência já estava sendo tirado do emaranhado de ferro e peças do painel do carro, e tal era a confusão de formas avulsas e amassados que seria difícil dizer que um dia fora parte efetiva de um Pajero.
        Mais tarde, no hospital, enquanto um zumbido abafado tomara o lugar da melodia em minha cabeça, alguém me dizia que eu estava bem, que tudo iria ficar bem e eu não precisava me preocupar pois as coisas iam bem. Eu tentei por vezes abrir os olhos mas parecia que pesavam boas toneladas. Eu precisava saber como Elena estava. Só assim justificaria o pleonasmo irritante quando nem tudo estava realmente bem. 
         Dois dias depois eu já andava sem auxílio de alguém ou de corrimãos, mas eu ainda me sentia completamente apoiado por olhos melancólicos e cheios de incredulidade. Ora, quem sequer consideraria o destino preparar na calada da noite uma emboscada vil e calculista, onde uma jovem á flor da idade seria massageada com os gélidos dedos da morte por um evento coadjuvante?
         Aos vinte e nove anos de idade, Elena já morrera duas vezes. A primeira tinha cerca de dois anos àquele dia, quando o corpo já não aguentara mais medicação e seu coração decidiu não mais trabalhar em sua função apenas de viver por quimioterapia, ela teve de ser submetida à ressuscitação, e pela grazia di Santa Catarina teve sua breve segunda chance. Mas não posso reclamar quanto a nossa vida. Apesar de um breve casamento, foram, como de costume dizem por aqui no Brasil: anos dourados.
         Nos conhecemos no verão seguinte a mudança dela para Carpi; estávamos eu e meu velho pai, il signor Montanari, pescando como de costume em Lago di Garda que ficara a duas horas e meia de casa, aproximadamente. Nos feriados e dias comuns que meu pai se declarava de folga do trabalho, arrumávamos a mala de nossa antiga caminhonete, eu gazeteava uma ou duas aulas no colégio e partíamos bem cedo para o lago em busca de um boníssimo e ensolarado dia com o tão italiano prazer de não fazer “nada”.
         Tínhamos uma floricultura. Era o nosso orgulho, pois aquela pequena loja pouco maior que a nossa cozinha na época, pertenceu a um sonho quase imaculado de minha mãe. E quando finalmente conseguiu guardar dinheiro de produtos em conserva que era de costume fazer-se em casa, juntou com as economias de seu marido, meu pai, e materializaram o negócio. Mas não foram apenas flores no início. Parecia algo pouco, mas precisava de investimento não só monetário como também físico, contínuo. E como ainda não tínhamos dinheiro para pagar funcionários que fizessem parte do trabalho, pelo menos o pesado, meu pai resolveu largar o emprego no banco no centro da cidade e trabalhar no negócio da família.
         E bem...por sorte, talvez, deu muitíssimo certo. Depois de muito trabalho duro e abdicação, expandimos o sonho de mamãe e contratamos pessoas para ajudar. Simultaneamente abrimos outras duas lojas; uma ao sul de Carpi e outra no centro. Papai tomava conta de gastos e toda a parte burocrática que demanda um comércio razoavelmente grande, enquanto mamãe transitava entre as lojas e tomava nota de como vinha sendo o tipo de atendimento, a qualidade de nossas flores, procurava novos fornecedores e mais tarde até trabalhar com entrega. Que foi onde eu entrei efetivamente. Logo tirei minha carta e virei o mais novo entregador da Allma d’Orcia, nossa floricultura.
         Meus pais sempre foram um ícone de respeito e companheirismo para mim. Em meus 47 anos, nunca vi na vida, casal tão apaixonado e ativo de todas as formas que a idade lhes permite. Claro que as vezes haviam pequenas discussões, como quando meu pai inventava de sair de madrugada para pegar um bom pico em Garda. Dio santo! Era um verdadeiro caos em casa. Enquanto eu ficava no meio de meus pais sem poder argumentar qualquer que fosse meu ponto de vista, e sempre acabava indo com meu pai também, logo, era inútil remediar a discussão.
         Papai sempre fora um homem bom, um pouco impulsivo talvez, mas um signor direito. Nós passávamos no armazém perto de casa, que além de vender compotas de doces excepcionais, tinha uma variedade boa de artigos para pesca. E o dono era um velho amigo de meu pai, o que fazia de nossa passada lá antes das pescarias, quase obrigatória. Comprávamos alguns tipos de isca e um vinho barato para meu pai. Eu separava alguns refrigerantes e mini conservas caseiras de damasco e ameixa que eram o ponto alto das nossas pescarias, para mim ao menos. Ah, e vez ou outra inventava jogos que desafiavam a mim mesmo contra o humor de il signor Alessio, amigo de papai, dono da loja. O homem era parrudo como um touro, e tinha traços marcantes como a linha do maxilar intimidador. Eu sendo um adolescente na época, esperava um dia ter a barba tão densa como a dele, mas não compreendia como alguém de feições tão brutas era tão extrovertido e sempre de excelente humor. Até uma notícia do falecimento de um bom amigo ou a criminalidade crescente da região eu desconfiara não fazer grandes mudanças em seu humor. Sua voz era quase que cantada; rouca e firme, porém contagiante a ponto de fazer você gostar de falar até sobre as antigas histórias de rinchas entre as contradas ao norte.
         A cada dia de pescaria, eram coisa de três minutos de carro até o armazém. Três preciosos minutos que me lançava os desafios como: “se hoje finalmente estiver de pá virada ou com um ar não tão caloroso como de custume, eu conto a papai sobre minhas notas vermelhas. Do contrário, se o velho estiver como de fato sempre está, eu espero o conselho chama-lo para uma reunião”.
         Era de se esperar que um rapaz de dezesseis ou dezessete anos lançasse ao destino tais desafios bobos, e de fato eu me divertira.
         Não me lembro ao certo se havia acontecido algo, mas naquele mês recebi algumas ligações de mamãe pedindo para que eu arrumasse um tempo e fosse vê-los. Dissera que meu pai não estava em um tempo muito bom da cabeça, então numa quinta-feira –quando o movimento no trabalho era normalmente baixo.–pedi folga a meu chefe e saí três horas mais cedo e fui até a casa nova de meus pais no centro, e propor uma pescaria de última hora naquela mesma tarde. Eu trabalhava com um antigo professor do meu curso de gastronomia num badalado ristorante lá mesmo onde crescera desde que nasci. Era um lugar muito movimentado pelos jovens, mas com um requinte indiscutível. Passei em minha antiga casa, onde morava sozinho agora, tomei uma ducha e troquei minhas roupas por algo mais confortável. Deixei meu carro em casa, afinal, meu pai não sairia para pescar num carro menos vazado que nossa antiga caminhonete, e peguei um táxi. Quase chegando no centro, comecei a refletir sobre quanto tempo não fazíamos isso. As nossas pescarias estavam cada vez mais perdidas; eu trabalhava demais e meu pai já não era mais um signor a todo gás. Mas ainda assim, quando eu conseguia me dar folga, era meu primeiro plano. E nesta tarde, quase noite, passamos no costumeiro armazém e no balcão um menino ruivo com seus quinze anos, ainda perdia a guerra brutalmente para a acne.
         –Mais alguma coisa signor? –por mais que fosse estranho ser chamado assim, não me atentei com as palavras do rapaz. Estava tentando identificar o sujeito com quem meu pai papeava.
         Já estávamos com tudo o que precisávamos e enquanto eu pagava nossas compras, ainda não reconhecera o senhor com quem meu pai conversava todo o tempo praticamente desde que entramos na loja. Ele estivera sentado num banco no fim do corredor à esquerda da entrada de funcionários, lendo um jornal que eu reconhecera por ter visto cedo na banca em frente ao meu trabalho, dizendo que o preço de um vinho que meu pai não gostava muito iria despencar contra o mais barato que ela tanto gosta e bem, logo estaria mais caro.
        –Que amargura não toleramos por boa economia? – comentou meu velho pai, com o senhor. Ele quase sempre teve essa compulsão por economizar o que desse e como pudesse, não que sua condição financeira o fizesse necessário, mas por que é um verdadeiro “mão de vaca”, como dizem aqui. Repelindo este pensamento, voltei a concentrar minha atenção ao senhor que conversava tão descontraidamente com papai. Já havia pego as sacolas e fui na direção deles. Ainda tínhamos uma boa estrada pela frente e nunca gostei de dirigir durante a noite.
         –Oh,– a arquejou com uma surpresa triunfante o velho Alessio. – buonasera! Se non è il nostro piccolo coniglio! – me saudou. Uma onda nostálgica percorreu meu corpo de forma sutil quando o apelido foi dito. Eu o ganhara num dia engraçado, visto de hoje! Em uma das feiras artesanais anuais no centro de Carpi, eu deveria ter uns 12 anos. Meu pai havia me presenteado com uma bicicleta azul marinho com sino e cesto adaptável. Foi uma conquista para mim, e dores de cabeça para meu pai.
         Naquela tarde, colocando mais uma coisa na lista de vergonhas que o fiz passar, estava descendo o beco que desembocava na rua onde acontecia a festividade quando um maldito cachorro saiu ladrando de dentro da varanda com cerca viva da senhora que morava em uma das casas do meio. Meu susto foi tão grande que eu ao invés de reduzir a marcha da bicicletta e pedalar na direção da outra rua vazia, me embolei ao descer dela e a soltei pelo chão no largo lá em baixo, antes de me enfiar por entre as barracas e o aglomerado de gente participando de todas as formas oferecidas da feira.
         Eu tenho uma cicatriz na parte esquerda de minha testa, perto do olho, deste mesmo dia. Enquanto eu corria e me contorcia pra passar por toda aquela gente, estava tão assustado que nem passou pela minha cabeça olhar pra trás e ver onde o cachorro estava. Se eu o tivesse feito, veria que ele já não me seguia a certo tempo, mas em compensação, muitos amigos e conhecidos de papai me viram correr feito louco sem aparentemente nenhum motivo. Foi então que cheguei na piazza onde expunham animais para a venda e tantos cestos de palha com variados tamanhos, que cheguei a pensar momentaneamente se conseguiria me enroscar ali. Agora, você acreditaria se eu lhe dissesse que o bendito cachorro estava ali à minha espera?
         Se alguém me contasse eu sem dúvidas não levaria fé. Mas lá estava ele. Bem, eu não sei se era o mesmo cachorro na verdade, mas na hora eu nem pensei. O meu susto que já era quase palpável conseguiu ficar sete vezes mais intenso! Então eu corri pro outro lado dando meia volta, quando bati com a cabeça em alguma coisa que pendia de uma daquelas barracas. A esposa de il signor Alessio me diz que era um vaso com plantas de uma varanda onde ao lado posicionaram estrategicamente uma barraca para que não acontecesse algo do tipo, mas, como estava tomando muito cuidado e tendo muita atenção com o mundo a minha volta –para não dizer o contrário.–, fiz justamente o que foi calculado com tanta cautela para não acontecer.
         Levei uns pontos, ganhei um sorvete acho que de pêssego, se não me falha a memória. Daqueles feito em casa pela senhora esposa do senhor Alessio, e felizmente não tornei a ver aquele cão fantasma que ninguém, além de mim, viu me perseguir incessantemente aquele dia.
         Bem, você já soltou um coelho de sua gaiola e tentou pegá-lo? Molto bene, il signor Alessio desde então só me chamara assim. Coelho, il coniglio. Mas Santa Catarina!!! O tempo não faz bem à algumas pessoas, de fato. O homem estava tão mais velho do que me lembrava que tive a impressão de abrir a boca num pequeno o quando finalmente o reconheci.
         E quanto a pescaria com papai, me lembro de quase sempre sentarmos naquela mesma ponta plana para jogar as linhas, mas esse dia havia um outro grupo por lá, e junto a eles estava ela. Ao esplendor de seus vinte e poucos anos, deduzi, num macaquinho amarelão e uma camisa de gola alta que eu me lembrara dos antigos casacos de mamãe, aqueles que davam a impressão de sufocar. Além de serem horrorosos e espalhafatosos demais para meu gosto. Mas foi quando uma de suas amigas disse ter visto um tubarão que me despertou a atenção. Ao que todos riam, Elena olhava com atenção a água revolta, na esperança de ver o tal “maior peixe que já vira”, que a amiga alertara a todos. Bem, não precisa ser muito esperto pra saber que não há tubarões ali, mas se o objetivo fosse ter algum motivo para urrar e por a vigor toda a bebida quente que eles vinham ingerido só naquela tarde, tinha tido sucesso a menina de cabelos quase branco de tão loiros que falara sobre o peixe.
         Lena viu o peixe e deu um urro de felicidade enquanto vinha correndo em nossa direção; pedira aos berros se poderia pegar o monstro pra eles, e bem...não era o maior que já pegara ali, mas dava pra dar uma de pescador sênior e me gabar um pouco. Infelizmente não fui tão bem quanto o previsto. O peixe era forte como um cavalo! Puxava cada vez mais forte e enquanto eu dava linha pra enganá-lo, era ele quem me fazia de bobo. Meu pai tomou a vara de minhas mãos e logo jogou o tal monstro pra fora d’água com uma facilidade que só me fez envergonhar. Caramba que pescada! O grupo de Elena inteiro ficou extasiado; quiseram tirar fotos atrás de mais fotos enquanto Elena se acabava de rir, e meu velho seguia no mesmo sentido. Mas ele ria era de mim.
        “Isso sim é uma gargalhada.”, não parava de pensar vendo jeito hilário e persuasivo pra onde ela levara a cena. Os cabelos acobreados presos em uma trança que não ia até as pontas dos fios emolduravam seu rosto. Tinha a pele e os olhos muito, muito claros e seus lábios salientes contrastavam com um rosado sutil no rosto tão bem enquadrado ao seu sorriso –che bella! –, que me deixou praticamente hipnotizado.
         –Eu também quero uma!!! Calma aí –disse aos berros, me tirando do transe e deixando por segundos, de lado, a cena cômica que vira a pouco, comigo sendo seu protagonista. Enquanto corria mais uma vez em minha direção, disse ofegante –vem cá pescador. Só chega esse troço bem pra lá...não trouxe nenhuma outra roupa e estamos longe de casa. Ah, qual é? Me dê um sorrisão!
         Essa foto é uma das lembranças mais queridas que eu tenho de casa. Casa, em todos os sentidos.
          Por mais que eu não gostasse de início, ela ficara colada por meses na geladeira do apartamento dela sem eu saber, claro. Só quando finalmente nos encontramos, por acaso no Lorenz ristorante, onde eu trabalhara bons 6 anos, e conversamos sobre algo que não fosse peixe e roupas mal cheirosas finalmente trocamos e-mail e depois telefones. E você pode imaginar o meu susto ao chegar na cozinha de até então uma no máximo amiga e deparar com aquela bendita fotografia em sua geladeira, em meio a tantos outros papéis, mas só algumas poucas fotos. Eu estava com um ar de assustado, mas sorria, o que deixou a foto como uma daquelas que tiram do alto da primeira descida de uma montanha-russa de grandes parques, e quando você vai conferir se ficou boa sua cara está tão constrangedoramente contorcida que você sai fingindo ter adorado mas recusa por “educação”.
         Esta mesma fotografia hoje está aninhada em minha geladeira. Uma péssima mania que adquiri, diga-se de passagem. Já perdi as contas de quantas geladeiras trocamos por esses anos, não por problemas técnicos, mas pela estética. Junto a ela pendem uma fotografia de meu pai, eu e meu tio na última feira de artesanato que fui em casa e umas fotografias avulsas minhas e de Elena, ainda quando morávamos na Itália, pouco antes de descobrirmos o seu câncer.
  • Apenas Um Garoto

    Em 1994, numa cidade do interior de São Paulo, nasceu um pequeno garoto. Coitado… Desde pequeno já vivia à sombra do tormento que seria sua vida. Logo ao ganhar parte nesse mundo já virara um problema. Seus pais, jovens, 19 anos, o tiveram contra sua vontade, deixaram suas vidas e sonhos de lado por causa dele. O tempo passou, e assim como o tempo, a inocência do garoto foi embora. Com apenas 5 anos ele já sabia que não merecia viver. Já escutava ocasionalmente seus pais brigando e reclamando dele, chamando-o de problema, dizendo que deveria ter sido abortado, mas o garoto nunca abriu a boca pra falar sobre o que escutara em casa. O tempo continuou passando, ele agora tinha 11 anos, e continuava pensando que não merecia viver. Esse garoto, mesmo com todo esse sofrimento, sempre foi muito bom em disfarçar. Ninguém imaginava o que se passava na cabeça dessa criança. Medos, desilusões, depressão, tristeza, amargura. Tudo isso era dele, e apenas dele, pois nem amigos o mesmo tinha capacidade de ter. Um dia ele conheceu um outro garoto, aparentemente feliz. Ele tentou evitar esse garoto, mas não conseguiu, e de alguma forma ganhou seu primeiro amigo nesse momento. O tempo, maldito tempo, continuou passando e apenas estragando o protagonista dessa história. Esse amigo que ele conheceu, seu único amigo, faleceu aos 17 anos. Durante 6 anos esse garoto sentia que merecia viver, sentia que tinha alguém que se importava, mas esse alguém foi removido brutalmente de sua vida. Desse dia em diante o garoto concluiu “Não tenho direito de viver. Não tenho o direito de ter um laço de amizade sequer.” e passou a evitar tudo e todos. Ele viveu sozinho por alguns anos, teve algumas novas amizades e namoro, mas todos, sem exceção, foram decepções. 2015 chegou. Faculdade, carro, dinheiro. A vida desse garoto começou a mudar. Ele novamente fez laços de amizades e está namorando há quatro meses. Esse garoto já está estragando seu namoro, já está se calejando para caso tudo venha a ocorrer de novo e ele seja jogado sozinho na vida, como merece ser jogado. Alguém, por favor, ajude esse garoto. Alguém, por favor, me ajude…
  • Apenas uma visita

    Certo dia cheguei de surpresa na moradia de um velho conhecido meu. Ele, espantado por minha incomum visita perguntou:
    − Aconteceu algo?
    Eu, fingindo espanto, disse:
    − Boa noite para ti também.
    − Oh, perdoe-me por minha falta de educação, mas deve concordar que uma visita sua (sobre tudo a esta hora) é um tanto que estranha.
    − Sim, de fato – estampei um sorriso em minha face tipicamente seria e desacostumada a sorrir. – Não vai me convidar para entrar?
    − Oh, mas uma vez devo pedir desculpas, desta vez por minha falta de atenção: Por favor, entre. – Dando espaço para que eu pudesse passar pelo pequeno e velho portão enferrujado.
    − Obrigado.
    Claro que a essa altura ele ainda estava acostumando-se novamente com a minha presença. Percorri lentamente aquele pequeno e defecado quintal ouvindo seus pedidos humilhantes de “oh desculpe-me por isso, desculpe-me por aquilo”, sinceramente não me importava nem um pouco com toda aquela sujeira ou a presença dele implorando asneiras triviais humanas.
    − Posso entrar em sua casa? – Perguntei parando diante a entrada principal que dava aceso a uma cozinha mal arrumada.
    − Sim, sim – disse ele – Aproveite e sente-se, vou passar um café... Ah sim, acabei de lembrar que você não toma café, né?!
    − Agora eu tomo sim, descobrir que ele é melhor do que álcool destilado. – Tentei ser mais amável enquanto arrastava uma cadeira. – Mas não precisa se dar ao trabalho, eu bebo esse que está aí na garrafa térmica mesmo.
    − Ela está vazia, aqui em casa café nunca sobra, mas não é trabalho nenhum, na verdade antes de você chegar já estava me preparando para passar um.
    − A essa hora da noite?
    − Sim, sim. Café sempre me faz dormir bem. – Sorriu.
    – Você não é tão normal quanto me lembrava.
    − Ah, mas quem é normal?! Ser estranho é tão mais divertido. Aliás, se todo mundo fosse normal o mundo estaria uma bosta.
    − Oras, mas o mundo não está uma bosta?
    − Pois é, não havia pensado nisso.
    Ele passou o café e nossa conversa ficou girando em torno desses assuntos banais que nunca levariam a lugar nenhum. De fato, era só uma conversa amigável entre velhos conhecidos.
    Fiquei por lá cerca de duas horas, observei que uma mulher estava dormindo em um sofá na sala, e que haviam crianças na casa por conta dos inúmeros brinquedos jogados pelo chão da cozinha e pelo belo volume de louça suja na pia.
    Pensei no motivo de estar ali naquela noite, no quanto eu estava sendo ruim com aquele que, de certa forma, me considerava um amigo, mas infelizmente não podia fazer nada para mudar o que já estava traçado há tempos...
    − Então, casou?! – Repentinamente perguntou-me.
    − Eu?! Não, não.
    − Por que não homem?
    − Ah, minha vida não dar espaço para uma família.
    − Bobagem. – riu. – Minha vida também sempre foi corrida, você sabe, mas mesmo assim encontrei o amor da minha vida e não deixei escapar, quando menos notei já estávamos casados e com o pequenino a caminho. Sei que minha casa é humilde, e que não moro no melhor bairro da cidade, mas sou infinitamente feliz, pois tenho uma família que amo e sempre que estou triste me alegra. Não seria esse o sentido da vida?! Digo; ser feliz?
    − Sim, você está correto. Lembro que eu sempre dizia que para um homem ser completo tem que ter sua família e de repente olha-me aqui, não seguindo o próprio conselho.
    − Acontece cara, normal. O que importa é ser feliz. – deu duas batidinhas em meu ombro.
    − Sim, sim.
    − E você é feliz? – Perguntou com um ar realmente preocupado.
    Fiquei sem saber o que responder e um tanto quanto perdido em meus pensamentos:
    − Bom, creio que seja a hora d’eu ir embora. – Mudei de assunto, levantando-me da cadeira. – Muito obrigado pelo café e pela conversa.
    − Ora, mas tão cedo? Ainda nem são onze horas.
    − Sim, sim. Amanhã preciso acordar cedo. – caminhando para a porta.
    − Entendo, mas espera um pouquinho, quero te apresentar alguém. – foi para sala.
    Da porta da cozinha pude ouvi-lo falando bem baixinho “Amor, Amor, acorde, vamos acorde quero te apresentar a um amigo meu”. Alguns poucos minutos depois ele reapareceu seguido de uma mulher com rosto levemente marcado pelo tempo.
    − Veja. Essa é minha esposa Adriana. –Disse-me olhando-a carinhosamente e sorrindo.
    − Olá – disse ela. – Meu lindo sempre falou muito de você. – um pouco envergonhada.
    − Ah sim, espero que tenha falado bem ao menos. – estendi a mão para cumprimentá-la.
    − Sim, sim – sorriu – Sempre muito bem, até me dava ciúmes. – gargalhou.
    − Sem motivos, sempre fui homem. – disse ele agarrando-a por trás levemente e lhe dando um amoroso beijo.
    Sinceramente fiquei contente em ver um casal tão feliz e apaixonado.
    − Bem, foi um prazer conhece-la Adriana, mas realmente preciso ir agora.
    − Ah, tudo bem, mas ver se volta aqui mais vezes.
    − Nem espere, esse aí só aparece uma vez a cada século só para avisar que ainda estar vivo.
    − Não é bem assim – envergonhei-me. – Pode deixar que em breve venho aqui com mais tempo (menti, a pobre mulher não sabia a razão d’eu estar ali)
    Enfim me despedi com um amigável abraço em ambos e fui em direção à rua acompanhado pelo meu velho conhecido.
    − A gente conversou tanto e você acabou esquecendo de dizer o porquê veio aqui esta noite.
    − Ah, não se preocupe, era um assunto trivial. Já me bastou ter passado esse tempo contigo, ter posto a conversa em dia e relembrado o passado mesmo pesado.
    − Pode voltar aqui quando quiser. A Adriana sempre está em casa, se eu não estiver é só esperar com ela que chego.
    − Sim, sim pode deixar. Bem, até algum dia então. – Disse já começando a andar pela rua.
    − Até, vê se toma cuidado por aí.
    − Pode deixar. – acenei de costas.
    Alguns dias depois seu primogênito morreu de uma doença até agora não confirmada, sua mulher entrou em depressão logo depois (e até no exato momento em que digito estes fatos ainda não se recuperou) e a vida daquele meu velho conhecido nunca mais foi a mesma.
    Sou um dos portadores da Morte, como ninguém a deixaria entrar de bom grado em sua casa ela usa pessoas como eu para poder invadir os lares e deixar sua marca.
    É assim que vivo...
    Sou feliz?

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