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  • "MEU QUERIDO JUNQ".

    “MEU QUERIDO JUNQ”.

     
    (Brito Santos) / Novembro/2016



    Revisão: Luísa Aranha

    Contato: (causoseprosas.com.br)



    Capa: Arte & Criação: Wilson Brito

    Contato: (facebook.com/wilson.brito93)



    Autores Novos e Veteranos. Divulgue sua obra aqui. Contato: Vânia Livros



    Agradecimentos Especiais:

    “Sociedade Secreta dos Escritores Vivos”: Bruno Vieira, Sandro Moreira, Bruno Cardoso.

     

    “Curso de Escrita Criativa”: Tiago Novaes.

    Contato: (escritacriativa.net.br)

     

     

    Para elas, as mulheres: As duas principais mulheres com quem tive a honra, e o privilégio de conviver. Mesmo por pouco tempo, foi um pouco que virou muito, levando-se em conta a qualidade do tempo vivido.

    “Mãe, e Irmã” – “Lú..., você quer umbu?”

     

    Mais mulheres: (Professoras) do Curso de Jovens e Adultos da Escola Fundação Florestan Fernandes em Diadema/SP.

    Especialmente para “Fátima” (História); e “Ana Paula” (Português/Inglês). Espero reencontrá-las um dia.

     

     

     

     

     

     

    MEU QUERIDO JUNQ


     

    “As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física”.

    (Friedrich Nietzsche )

     

    Manoel Junqueira, este era o seu nome. Para seu amor, era “Junq” (apelido carinhoso pois todo casal apaixonado tem essa mania não é mesmo? Ou é “tinho”, ou “vida”.  Alguns, são verdadeiras bombonieres. “Meu pão de mel”, “vem cá docinho de leite”.  Coisas grudentas, desse tipo.

    Estavam juntos há alguns anos. O relacionamento ia bem, cogitavam casar-se. Ter filhos? Quem sabe... mesmo que para isso, fosse necessário adotar. Uma união estável, quem poderia impedir? Namorado antigo? Jamais. Justiça? Também não.

    Com o problema na embaixada resolvido, comprou uma linda mansão em Atibaia. Tinha posses para isso, vida plena, vida boa.

    O escritório de contabilidade funcionava a todo vapor, clientes aos montes. Pensava em expandir, contratar mais funcionários. Pois é. Parece mentira, mas às vezes acontece. A felicidade aparece, vem e fica.

    Estavam bem nos negócios, bem no relacionamento, bem com os amigos. Coisa rara na vida de qualquer um, chegava a dar medo.

    O médico psiquiatra, Flávio Gikovate, escreveu sobre o assunto em um dos seus artigos: “... as pessoas, ao se apaixonarem, passam a viver em estado de alarme; muitas vezes em pânico, como se algo de terrível estivesse para lhes acontecer”.

    Sinceramente? Junq... dava de ombros para isso. Não que ele não respeitasse a opinião do médico, longe disso. Preferia olhar sempre, o lado mais otimista da vida, ver o copo “quase cheio”. Se era assim, com o copo quase cheio, quem dirá, com ele “passado à régua”.

    Como vida é ciranda, coisa viva que vagueia, chamava o Chico para cantar: “Roda mundo, roda gigante, rodamoinho roda pião, o mundo girou num instante, a roda do meu coração”.

     

    Uma mudança sutil ocorreu depois do feriado. Juntos mais uma vez, como gostavam de fazer, os três amigos fiéis, Carmen Lúcia, Manoel Junqueira e Albano Matoso, passaram um dos finais de semana mais divertidos da vida, como se o futuro adivinho e precavido, os premiasse pelo sofrimento vindouro.

    Contrapeso e equilíbrio na balança da mulher que segura a espada.

    Se conheciam desde os tempos de colégio, todos os homens naquela época desejavam Carmem Lúcia, também, com aquele corpão. Quando tinha apenas quinze anos, a menina já parecia uma “toura”. “Toura” de touro mesmo! Como se fosse esse o feminino.

    Botava umas roupas “Meu amigo”! Aqueles vestidinhos que vem o demônio no tecido, quando a mulher anda, é uma festa ali atrás, todo homem quer entrar mesmo sem ser convidado. Junq, um pouco tímido e sutil, ficava enciumado algumas vezes.

    Já Albano, macho alfa, arranca toco pega tudo e estraçalha, brincava com ela dizendo:

    “Ah..., se eu fosse mulher! Iria me vingar..., ô; se iria. O que eu faria? Sairia na rua com uma roupa bem provocante, sabe? Tipo essa que você está usando aí. E então, quando aparecessem candidatos, eu iria dar que só, dar sem dó. Dar pra caralho, deixar todos eles moles.

    E tem mais... quem não desse no couro, ia colocar na lista. A lista dos broxantes. Para aprender a se garantir”.

    Carmem Lúcia ria. Dizia que todo homem era igual, todo homem pensava desse jeito. Bons encontros, bons tempos aqueles.

    No recente final de semana, relembraram bons momentos: suas bagunças e curtições de adolescentes, inventaram e criaram novidades. Beberam, comeram, jogaram. Quase uma perfeição. Quase! Dois dos três agora noivos, pelo sim ou pelo não, justa e posta divisão.

    No meio da brincadeira, quando estavam disputando uma partida de “Just Dance”, Junq percebeu que Albano, estava a todo momento perto demais de Carmem Lúcia. Conversando mais que o de costume. De início, achou normal. Afinal de contas, a amizade dos três era antiga.

    “Será que eles já haviam tido um caso antes? E ele, Junq nunca ficara sabendo? Não, não, não... tira isso da cabeça rapaz, isso é só viagem, apenas viagem. É apenas o excesso de rum, com limão gelo e soda. ”

    E foi assim que Junq, começou a desconfiar dos dois. Pouco a pouco. Os atrasos para os compromissos que não aconteciam antes, uma viagem aqui outra li. As ligações em horas estranhas, sempre com descrições ou pelos cantos.

    “Quem era? ” “Hã? Nada não... apenas um amigo do trabalho”. A coisa intensificou, ou um copo esvaziou. Ou quem sabe, transbordou. Chegou uma hora, em que ficou insustentável.

    A semana decisiva na vida do trio seria aquela. Junq, depois do ocorrido na festa andava muito desconfiado, fez o que não costumava fazer. Uma das coisas que odiava nas pessoas, esgueirou-se por entre os móveis, e, durante uma das ligações, ficou ouvindo atrás da parede.

    “Sábado? Está bem. No mesmo lugar de sempre? Na mesma hora de sempre”. No fim a frase que terminou por selar seu destino massacrou seu coração. “Um beijo”! Aquela frase... duas palavras... nunca tinham soado tão dolorosas para ele como desta vez.

    Já havia ouvido tantas e tantas vezes, amigos cumprimentarem-se assim, é normal. Mas não ali, não entre ele dois, ele tinha certeza. Intuição, coisas do coração, de quem ama e está apaixonado. “Como ela pode? E ele...esse... porco traidor...aquela... puta e vadia”.

    Teve uma ideia: Iria até o encontro acabar com a festa. Surpreenderia os dois, e pronto. Se fosse o caso, desceria o cacete. Afinal de contas, quando o lance é traição, não tem esse negócio de culpa de um, e não culpa do outro.

    Tudo safado e sem vergonha, farinha do mesmo saco para citar o dito mais dito de todos os tempos. Para ter dedo na rosca, precisa dos dois. “Da rosca e do dedo”. Estava decidido.

    Na sexta-feira de manhã, Junq inventou uma viagem de negócios, disse que só retornaria no domingo. Comprou até mesmo a passagem de avião, mostrou e tudo, para dar credibilidade, queria deixar os dois “pombinhos” bem à vontade.

    Assim, sem desconfiar de nada, sem nem imaginar o que estaria esperando por eles. Queria pegar no flagra, ver com os próprios olhos. Todo homem traído merece isso, para limpar sua alma.

    Bons tempos aqueles em que às mulheres tinham a dignidade como principal característica. O que aconteceu com as mulheres meu Bom Deus? A culpa foi dela. Sempre dela. Ele sabia, dizia isso para os amigos quando conversavam sobre o assunto.

    “A tal: ‘Revolução Feminina’. A culpa sempre foi da ‘Chiquinha Gonzaga'. Maldita Chiquinha Gonzaga, ela e seu piano infeliz. Foi ali que começaram os ‘pancadões’ da vida. Que hoje dominam as grandes metrópoles, e muitas vezes varam as noites das periferias do Rio de Janeiro e de São Paulo, impedindo todo e qualquer um, de ter uma mínima noite de sono. Imaginou a sua canção mais famosa, uma marchinha de carnaval: ‘Ô abre alas... que eu quero passar...’, tocado com som ao fundo do “Beatbox” puxado pelo DJ. Aquele ‘tchu-tchu-tchu’ horrível e repetitivo feito com a boca, os lábios abrindo e fechando rapidamente, batendo um contra o outro e cuspindo”.

    Durante a noite, Junq de propósito aproximou seu corpo deixando claro sua intenção, para ver se rolava alguma brincadeirinha entre os dois. Porém nada aconteceu. Foi como havia imaginado, o fingimento entrou em cena.

    “Sinto muito, mas hoje não dá, não estou bem”!

    “Não estou muito bem é uma pinoia! ”, pensou Junq. Queria mesmo era guardar todas as forças, todos os seus fluídos, inclusive seu suor, para a traição.

    “Filhos duma puta, miseráveis, como podem”. O sono demorou, criou filmes na cabeça, via os dois em kama sutra, outras vezes cabaret.

    Na manhã do sábado, como tudo já estava preparado de antemão, mesmo tendo dormido mal, acordou cedo, tomou banho e café. Saiu na hora que disse que sairia, para não levantar nenhuma suspeita.

    No beijo de despedida, se manteve frio e calculista, mas não deixou de imaginar aqueles lábios noutro corpo e sua língua noutra carne. Sentiu-se enojado. Cortaria à fria faca, fino fio em franco corte.

    Pegou o carro, o peso do pé no acelerador, a arrancada seguida do barulho dos pneus riscando o chão. Sua marca, sua urina, dirigiu até um ponto, em que pudesse fazer a perseguição sem ser visto, à distância.

    Nem precisou esperar muito, provavelmente o tesão dos dois estava à flor da pele, “Malditos! Se fosse mesmo viajar, mal teria saído. Não dariam o tempo, nem de tomar o avião”.

    Seguiu o carro tranquilo, com toda descrição. Tomando o cuidado de deixar alguns outros veículos entre eles, até chegar no local designado. Quando o perseguido estacionou, fez o mesmo.

    Foi aí então que viu, sem querer crer, sem querer ver. Uma flechada, uma agulhada, uma pancada, uma explosão.

    Sua desconfiança, suas dúvidas que até então ainda se achavam penduradas no corcovado, segurando em fracas raízes e cipós, caiu de repente.

    Uma queda no vazio, uma queda no escuro. Queda funda e sem volta, buraco largo escuro negro. Tudo estava acabado, o destino dos três, selado para sempre.

    Só lhe restava uma coisa a fazer, esperou que entrassem na casa, não era um motel. Escolheram uma casa tradicional, um sobrado simples, numa rua de pouco movimento. 

    Assim era melhor, mais fácil invadir sem portão um muro baixo.

    Caminhou até a entrada, na frente os dois carros estacionados. Um atrás do outro, bem coladinhos. Dando um recado claro, do que estaria acontecendo.

    Conferiu a pistola. As aulas de tiro finalmente pagariam seu valor. Para abrir a porta, usaria dois clips, isso era fácil. Praticava de vez em quando até por brincadeira.

    Assim que entrou, conforme caminhava ficava tudo evidente. As peças de roupas formando o caminho e a indicação da transa, primeiro as formais, depois as informais...

    E por fim, as íntimas. Alguns sussurros, dois gemidos, um pouco baixo ainda lento, dava até um certo tesão, mas o ódio era maior.

    O ódio pegou o tesão pelo pescoço, empurrou contra a parede, e com adaga pontiaguda perfurou seu coração, olhou fundo nos seus olhos, sem nenhuma piedade, olhar frio, olhar medonho, um olhar sem emoção.

    Subiu as escadas devagar, no andar de cima a porta do quarto estava entreaberta. A respiração ofegante, o cheiro dela, do creme dela, do perfume dela, do corpo dela. Ela em cima dele, cavalgando. O frenesi e a vontade. 

    Vasta a fome um do outro, dava até uma certa inveja. Os dois, com os olhos fechados, nem perceberam quando ele entrou. Ficou alguns segundos observando, realmente era linda.

    Peitos grandes, rígidos, coxas grossas, bunda avantajada, sacudindo as carnes conforme o corpo se movia para frente e para trás. Gemidos, mais fortes, mais alto. Não permitiria que gozassem! Arma apontada nas mãos trêmulas.

    Não estavam firmes o suficiente, mas era perto e não tinha como errar.

    Disparos! Um... dois... nela, por trás. Três... quatro... nele, no peito. Cinco... seis... na cabeça dela. Sete... oito... na cabeça dele. Pronto.

    Sentou na beira da cama onde um ato sexual acontecia ainda a pouco. O cheiro do sexo agora, misturado ia sendo substituído aos poucos, pelo da pólvora. Latidos vindos da janela. Um funeral a caminho, o final que todos os traidores mereciam e merecem.

    Olhou na mesinha ao lado, um papel rabiscado. Não... na verdade uma carta. No envelope “Meu Junq”, com um coração, circulando o nome. Dentro, estava impresso:

    Para Manoel Junqueira

     

    “Meu Querido Junq”,

     

    O maior amor que tive em minha vida, por muito, muito tempo.

    Meu amor, não pense que estou mentindo por favor. É a mais pura verdade. Estou indo embora sem nada dizer, porque não tenho coragem ainda. Há algum tempo, venho tentando encontrar forças e coragem para te contar, juro que tentei. Por Deus, tentei diversas vezes. Sempre tive certeza do que queria em minha vida, nunca tive dúvidas sobre nada. Você estava certo sobre muitas coisas, só errou em uma. Em me aceitar. Em me deixar fazer parte da sua vida. Nestes três últimos anos, tenho sabido mais que nunca, o que é viver felicidade. Achei até que não conseguiria sentir algo além. Que o nosso amor era o ápice das alturas. O clímax do clímax. Mas não foi assim.

    Espero que nos perdoe um dia por isso. Éramos amigos. Sim, éramos. Nossa amizade sempre foi verdadeira. Se estiver lendo essa carta é porque agora já não estaremos aí com você. Planejamos fugir, ir para bem longe, para nunca mais voltar e para nunca mais nos vermos. Seria impossível uma vida nova, com você perto. Então decidimos assim. Assim é melhor ou... menos pior. O que os olhos não vêm o coração não sente, isso é um fato.

    De alguém, que te amou com toda a paixão, que cabe em um coração humano.

     

    Albano Matoso de Oliveira.

     

     

    Sua visão foi ofuscada, tanto água, tanto choro, tão molhado estavam os olhos. Caiu devagar e de joelhos, com a carta na mão, o corpo balançando em pêndulo, então gritou rasgando o ar com um alto estrondo:

     - Arghhhhhhhhhhh! Nããããooooo! Não... não... não... – pegou a carta, amassou com os punhos e apertou contra a testa. Ficou assim, alguns segundos.

    Pouco tempo depois ergueu a cabeça, ainda zonzo, respirou.

    Procurou o resto das forças, por fim levantou devagar e pesado. Ouviu o som de conversas lá fora, sirenes ao longe, pela janela.

    Ajeitou um dos corpos na cama, o outro rolou e empurrou para o lado. Como quem se livra do lixo, um saco pesado jogado no cesto.

    Tirou toda a roupa do corpo. Ficou nu e deitou-se com o outro corpo na cama arrumados de um jeito, como um casal.

    Pegou a arma na mesa ao lado. Olhou para o teto, soluçou e chorou:

    – Agora... meu amor... ninguém vai nos separar...

    “Meu amor, minha vida... foi meu tudo, foi meu lar. ”... “Meu Querido Albano”.

    No chão frio ao lado da cama, o corpo de Carmem Lúcia que já foi um dia tão quente como o sol, mas que agora era uma casca vazia e sem vida, branca e sem cor.

    Como sempre tão juntos, quem iria mudar. Não passou mais que um segundo... outro tiro cortou o ar.







    (Brito Santos) 

    caminhantesdasletras.blogspot.com






  • 140 batimentos por minuto

    Minhas mãos aos montes transpiram
    Meu corpo trêmulo agora busca por uma calmaria
    Minhas narinas sem função já não respiram
    Dormir? outrora poderia

    Quem dera fosse tudo isso adrenalina
    Quem sabe apenas animação genuína
    Bateram-se três da madruga
    E essa energia perseguia sem fuga
    Profissional assassina

    Aquelas palavras que não foram ditas
    Não foram ditas pois o peito travou
    Aquelas promessas tão bonitas
    Não foram cumpridas porque o racional não deixou
    Mil e uma coisas lindas
    Que o vento levou

    E por falar em mil que nem sequer posso citar
    Que tal falar dos mil pensamentos diarios
    Só pra começar?
    Pensamentos de todas as ordens, e são vários
    Nessa eterna máquina de ponderar
    Pondera tanto que as vezes não da nem pra controlar
    Pelo amor, onde fica o botão de desligar?

    Porque não basta apenas nessa vida ponderar
    Nem tudo se resume a raciocinar
    Quero por um momento parar de pensar
    Sem ter que estar ligado ou ter de me ligar
    Quero apenas vivenciar
  • A quebra do destino

    maxresdefault
    Tenho 1 hora e meia para escrever um conto... Pois estou a esperar um carregamento de um arquivo e não tenho o que fazer, então vou fazer um conto... De que falar? Vou contar uma história real... É noite, umas 7 horas... Eu estava voltando para casa e então vi numa esquina perto de casa, onde fica uma fabrica, um casal que eu nunca tinha visto antes estava a conversar com o vigia do lugar, tudo normal, então vou em direção a eles e de repente um homem aparece atrás de mim e com um pedaço de pau ele tenta me agredir e consegue. Levo uma pancada na cabeça e acordo... Era um sonho! Sim, mas você vai ver que ao mesmo tempo era real. O tempo passou e Aconteceu algo inacreditável eu desta vez saia de casa, acho que ia comprar algo para comer, não lembro a hora, mas era noite e olhei para a esquina da fabrica e quando fui me aproximando vi que as pessoas que estavam ali eram as mesmas antes desconhecidas de meu sonho, estavam na mesma posição, mesmas roupas e conversavam, a mulher estava sentada numa moto. Daí olhei em volta pra ver se via o agressor, mas ele não apareceu, ainda bem né, foi tudo rápido e eu passei. Então para enfeitar este mini conto crio uma explicação... Antes de eu sonhar quase cheguei a conhecer uma garota que fazia curso no mesmo lugar que eu, então não a conheci, foi como se as circunstancias tivessem mudado, pois quase falei com ela, porem um homem que provavelmente era o pai dela entrou em minha frente na hora de eu atacar e falar com ela. Este homem era o agressor. Ou seja, eu não conheci a filha dele, por isto não tive algum tipo de discursão com ela que levasse o pai dela a me seguir e agredir. Talvez tudo tenha sido apenas uma coincidência, as pessoas, o lugar do sonho, pois praticamente para sair de casa tem que se passar por ali, para ir a parada pegar ônibus principalmente. Mas para quem acredita em destino, este conto foi: A quebra do destino. E o arquivo ainda não terminou de carregar... O que mais falar? Para este virar um breve romance eu voltei a ver a garota e desta vez a conheci... Será que vamos ter brigar ou algo que leve o pai dela a me fazer algo? Eu tive que decidir antes de conhecê-la e como a conheci decidi assim enfrentar esta situação sem medo, ou com este como um pouco precavido. É foi o que foi sem ser, ou seja, saiu tudo bem, até hoje estamos juntos e nada aconteceu. Às vezes acabamos fazendo coisas colocando medo sobre as pedras do destino, porem devemos enfrentar e assim seguir adiante. A verdade foi só o sonho e a ocasião real. A quebra do destino aconteceu para quem acredita em sonhos e destinos. Para mim foi apenas coincidência. Falei sonho, mas logicamente foi um pesadelo e para muitos uma premunição que gerou alguma coisa que me fez mudar este destino, talvez eu o tenha mudado inconscientemente. E este foi o fim, porem tenho que continuar o arquivo ainda não terminou de carregar. Então vou dizer é que à garota e o pai dela nem existiram, talvez o agressor do pesadelo fosse apenas um ladrão, se é que existiria este destino diferentemente de sem a aparição dele como foi o que no real aconteceu. Não passou nem 1 hora e vou terminando este conto por aqui, sim, deixando vocês pensado sobre suas vidas, que ocasião na vida de vocês ocorreu algo parecido? Parem após terminarem de ler e reflitam, busquem uma resposta para esta pergunta que fiz e quando encontrarem não tenham medo!
  • Alguém vai ter que ceder

    Acordo e olho o relógio: duas da manhã. Atordoada, tonta e suando frio. Onde eu estou? Olho ao meu redor e bem, estou em casa. Se acalma, respira, toma um gole d'água. Foi só um pesadelo. Mais um pesadelo...
    Quem dera os piores monstros fossem os de conto de fadas; seria muito mais fácil lutar contra eles. Trancar os armários, tapar o vazio debaixo da cama, não sair comendo maçãs por aí. Ah, como tudo seria mais fácil...
    Mas e quando eles estão dentro de nós? Quando trancar os pensamentos, tapar o vazio de uma despedida e não tomar o veneno das palavras alheias não se faz possível?
    Medo. Insegurança. Arrependimento. Perda. Desilusão. Culpa. Desesperança. Pânico. Ansiedade. Pressão da simples sobrevivência.
    Eles dançam e festejam na mente com total desdém e até com o ar da graça do prazer. A gente tenta se livrar da bagunça; livros, remédios, meditação e busca espirítual. Tem até aqueles dias que a gente chega a implorar por misericórdia e um pouco de sossego, pelo menos durante o sono, mesmo sabendo que não vai haver um segundo de quietude se quer.
    Mas há de haver um dia em que isso tudo desaparecerá.
    Ah, esse dia! Tão esperado dia!
    Mesmo que para isso eu tenha que desaparecer também.
  • Alma Perdida

    Ela era uma prostituta. Mas não era uma prostituta qualquer, nela havia algo especial. Cercada de tristeza e dor, seu corpo possuía tons curiosos.
    Carmen, filha de João e Maria, cresceu ouvindo que o mundo era vazio, um lugar sem esperança. Quando criança, tentava de todas as formas agradar os pais que trabalhavam dia e noite para poder colocar o pão na mesa, chegavam cansados e só verificavam se Carmen estava viva, não prestando atenção acima da mesa: ‘’Papai,Mamãe. Eu não sei muito sobre vocês, contudo isso é uma das consequências da vida que fomos destinados a ter, porém amo vocês do mesmo jeito que qualquer outra filha amaria.”
    Aos 16 anos, os pais de Carmen morreram e a adolescente foi morar com o único parente que tinha, seu tio. Era uma casa fria, sem cor. Todas as noites, ela chorava baixinho, no canto do quarto, implorando para sentir alguma coisa: felicidade, tristeza, raiva... Algo que mostrasse que ela ainda estava viva e não somente sobrevivendo. Seu tio, uma pessoa amarga, chegava bêbado em casa todos os dias e, naquela noite, ele escutou um murmúrio vindo do quarto. Alguém chorava. Uma alma perdida pedindo socorro. ‘’Eu vou te dar um motivo para sentir algo.’’, disse, puxando a cinta e espancando a jovem Carmen.
    E naquela madrugada, ela de fato sentiu algo: repulsa. De si mesma. Olhava para os hematomas e as lágrimas não faziam seu caminho pela bochecha mais, era uma dor mais profunda. Julgou que a melhor forma de acabar com aquilo era fugir e assim fez, saindo sem rumo. Vagou pelas ruas, somente o tempo conseguiria cura-lá.
    Passaram- se anos, Carmen se encontrava no banheiro do posto, enquanto passava o batom tão vermelho quanto seu próprio sangue, um sorriso falho no canto dos lábios. No relógio marcava 00:00, deu um passo para o lado de fora, sentindo o vento frio contra sua pele pálida. Mais uma noite de trabalho.
    Uma mulher diferente de todas as outras, parada no ponto, vendendo aquilo que sempre desejou ter, o puro amor.
  • Beco do Adeus

    Com os olhos fechados e calo nesse mundo de ódio e amor aos poucos meus olhos escorem gotas que caiem no chão, que me lembra de tudo que fiz e cada vez me deixa mais confuso já não sei oque fazer perdido em delírio de pensamento pessimistas que me levaram esse lugar escoro chamado de beco. Jogado no chão a chorar parece apenas um conto de um livro de ficção momento que o protagonista é derrota ou perde alguém que ama bem minha historia é diferente estou aqui, pois nunca ter nada, perde sempre, ser zero a esquerda, não consegui ser o protagonista da minha própria vida é engraçado dizer nesse momento poderia ser aqueles que as pessoas percebem que ficarem chorando não vai mudar nada, mas já passei por isso, mas não mudou nada sabe antes que m julgue como um cara que não quer lutar pelos seus sonhos entenda que  nem todos desistem por não ter coragem de lutar uns só estão cansados de perder sabe é fácil falar levante a cabeça e siga em frente quando  você não  perdeu mais vezes que pode contar. Caralho isso esta  muito desmotivador até pra min mas vou te mandar real irmão você  provável que seja alguém  melhor que eu já que estou morto nesse momento que esta lendo isso, mas mesmo tendo uma vida de bosta tive momentos  bons, olha tive um amor ela era linda mas tive que deixar ela parti ter uma vida melhor, amigos verdadeiros,  muitas coisas boas só que tudo oque realmente tentava  fazer de útil não dava certo desde de criança então hoje eu parto para um outro começo. Adeus caro leitor.
  • Carta de volta ao remetente

    Seus beijos me fazem querer ficar, eles são quentes e me perco nos seus lábios enquanto percorre minhas costas com suas mãos. Então abro os olhos com nossos rostos ainda ligados e vejo sua expressão sorridente enquanto beija. Sinto também o seu cheiro, ele me satisfaz da maneira mais refinada possível. Você se afasta e eu observo cada um de seus perfeitos detalhes. Não sei se já disse, mas amo a maneira como seus olhos têm o formato desenhado pelas maçãs do seu rosto. Vejo que elas estão rosadas e quero voltar a esse momento outra vez. "Por favor, não vá", eu digo querendo fique mais, pelo menos abraçada a mim.
    Chego em casa, ainda sinto seu cheiro, quero guardá-lo até nos vermos novamente. Estou totalmente submergido no que sinto por você, um sentimento para o qual não tenho nome.
    Ouço você dizer sobre suas noites, como se diverte. Conheço, através de você, as pessoas com quem anda ficando. Presto atenção em cada palavra que diz sobre o seu ex. Quando vai dormir, ainda fico acordado comparando os lugares onde poderíamos ir nesse fim de semana. Penso, por horas, no quanto desejo ser seu próximo beijo. Reflito sobre como, se eu tivesse a oportunidade que ele teve, nunca me tornaria seu ex.
    Na próxima vez que conversarmos, como sempre, eu vou perguntar sobre o seu dia tentando não demonstrar que te quero mais que tudo ao meu lado, pegar meu bloco e escrever todas as coisas que meu coração está dizendo sobre você, colocar numa caixinha com o seu nome e deixar guardado, esperando o dia em que serei bom o suficiente pra te dizer tudo o que está ali e ouvir que sente o mesmo por mim.
  • CASOS E DESCASOS

    CRUEL SENHORIO
    O casal dormia profundamente.
    O sol, que já ia alto, aquecia fortemente a telha de cimento amianto do teto do pequeno barraco da rua Um, número 530, na favela do Jardim DS, Zona Leste de São Paulo.
    Maria dos Santos Roberto Guedes, de 26 anos, e seu companheiro, Chico Boió, de 40 anos, pedreiro de profissão, ainda estavam entorpecidos pela cachaça barata ingerida até a madrugada e mal tiveram tempo de levantar-se, da malcheirosa cama.
    Foram surpreendidos pelo operário Donato Pereira Gomes, de 55 anos, que empunhava uma faca de 15 centímetros.
    Vários golpes, tudo muito rápido.
    A perícia técnica não precisou ainda quantos, nos dois corpos que caíram no chão de terra batida, umedecendo-a.
    A mulher recebeu mais facadas, sem piedade do criminoso.
    Donato Pereira Gomes se vingava assim, do casal que não queria desocupar seu barraco, apesar dos insistentes pedidos.
    O assassino não suportava mais as brigas dos amásios em sua casa, quando se embriagavam.
    Ele, Donato, também costumava beber com Maria e Chico Boió, nos bares da favela e no próprio barraco, quando se recolhiam para dormir, sempre acompanhados da garrafa de pinga mais ralé encontrada nas biroscas da favela do Jardim DS.
    O convívio do trio começou há mais ou menos dois meses, quando Donato conheceu o casal bebericando, num animado e barulhento forró.
    Fizeram amizade rapidamente e o pernambucano, ao saber que Maria e Boió não tinham onde dormir convidou-os para seu barraco até que arrumassem uma acomodação.
    No começo, Donato Pereira Gomes se deu bem com os novos inquilinos.
    Ele ia para o trabalho em uma fábrica de plásticos, enquanto o casal permanecia em casa, dormindo.
    À volta do operário, já no começo da noite, os três iam para os bares tomar seus aperitivos preferidos.
    Pelo menos uma garrafa da "mardita branquinha” era consumida de várias maneiras e, embriagados, se dirigiam para o barraco.
    Ali, tomavam mais aguardente barato, até que o sono  pesado chegasse.
    A bebida foi influenciando negativamente na amizade entre o casal e Donato, dia após dia.
    Eles brigavam muito e o operário perdoava muitas coisas, até que resolveu pedir que desocupassem seu barraco.
    Dos pedidos, Donato passou a exigir que Maria e Boió se mudassem com o que o casal não concordava.
    As discussões foram sucedendo-se, até que o pernambucano tomou uma decisão.
     - Não suporto mais vocês aqui! Ou mudam, ou jogo os dois na rua!
    De nada adiantou a advertência, ela entrou por suas orelhas e saiu sem nenhuma atenção, do casal.      
    Eles continuaram no barraco, não se importando com Donato, que começou a se torturar raivosamente.
    - Se eu sou o dono disto, tenho de pôr ordem na casa! Vou agir!
    Chegou a comentar, com os vizinhos.
    A favela estava em silêncio na manhã do dia 27 passado, José Bentão retornava das compras em uma venda da Vila Rica, principal bairro da região da favela do Jardim DS, quando encontrou o amigo Donato com uma mala na mão.
    - Bentão, matei aqueles dois que moravam comigo e por isso vou viajar!
    Disse o operário a Bentão, que não acreditou muito nas palavras do amigo, mas resolveu ir até o barraco.
    Ali, o quadro de terror, Maria estava com a barriga toda retalhada.
    Boió também estava repetidamente esfaqueado.
    Os dois mortos e totalmente cobertos de sangue já começando sua coagulação.  
    José Bentão saiu do barraco desesperado e saiu à procura de Donato, que já desaparecera pelas estreitas ruas da favela, encoberto pelos latidos dos cães.
     - "Não me disse para onde ia! Deve ter ido para sua terra! Era um homem bom, o Boió, um grande amigo”.
    Disse José Bentão ao escrivão interessado Peixoto, da Delegacia em Vila Rica, quando era interrogado.
    José Bentão foi quem avisou a polícia sobre o duplo assassinato e é a principal testemunha do inquérito; ainda aberto, sem solução, como milhares de outros.
     
    O CAMINHONEIRO E O TRAVESTI
    Válber da Silva Teixeira, 30 anos, caminhoneiro, tinha se instalado no bairro do Bixiga, em São Paulo, nos anos 70, passando a frequentar o bar e café Grappa de Lucio Montanari, de 28 anos, localizado no centro do bairro.
    Com a compra do local, Lucio chamou seu irmão, Pietro, de 25 anos, para que também viesse tentar a sorte em São Paulo, deixando a localidade de Casella (Gênova), onde ambos eram cozinheiros.
    Pietro dormia no bar e cuidava da casa, nos horários em que o irmão estava fora, fazendo pagamentos.
    No domingo à tarde, Lucio estava de folga e o rapaz ficou responsável pelo estabelecimento.
    Para defender-se de possíveis assaltantes, sob o balcão, guardava um revólver calibre .38, carregado.
    O bar e café, contendo um balcão, mesas com banquinhos e uma mesa de bilhar, foi comprado pelos dois irmãos há menos de dois meses.
    Nem Lucio e nem Pietro conheciam Válber, apesar do mesmo, frequentar o estabelecimento antigo, já há algum tempo.
    No entanto, desde que haviam adquirido o negócio, o caminhoneiro nunca havia ido lá.
    Dez ou doze pessoas estavam no bar e café Grappa, naquela tarde ensolarada e abafada.
    Pietro, irmão do proprietário, se encontrava atrás do balcão e alguns fregueses em torno da mesa de bilhar.
    O delegado Tanaka e o escrivão Jair, do Distrito Policial da região, só sabem o que aconteceu através de testemunhas.
    Entre elas, Pasquale de Santis, antigo morador da redondeza.
    Válber chegou por volta das 18:00hs.
    Embriagado, agressivo.  
    Pietro Montanari, embora não o conhecesse, já sabia de sua fama de desordeiro.
    Preveniu-se e deixou o revólver à mão.
    Válber, que quando ficava embriagado, se apresentava como Matilde e, nos "inferninhos" frequentados por travestis, se vestia como mulher, ruiva e sedutora, e já estava bastante alcoolizado. 
    Queria beber mais e participar do jogo de sinuca, mas, como estivesse incomodando os demais fregueses, com seus palavrões, acabou sendo advertido por Pietro e intimidado a se retirar.
    O caminhoneiro travesti não se conformou, franzindo sua feição, horrendamente.
    Forte e completamente embriagado, Válber já estava fora de si.
    Inconformado quando foi intimado a sair do Grappa, simplesmente começou a quebrar tudo.
    Primeiramente, jogou no chão copos e garrafas e, em seguida, agarrando uma das mesas com os braços fortes, avisou que iria tombá-la.
    Pietro pediu que se acalmasse.
    Válber não escutou e cumpriu a ameaça.
    Sem esforço algum, tombou a mesa e ameaçou continuar o quebra-quebra geral.
    Pietro não pretendia atirar.
    Intimidado com a fúria do desordeiro, ele primeiro dá um tiro em direção do chão, acertando a coluna que separa duas das três portas do local.
    Nem assim Válber se intimida e tenta avançar contra o comerciante, gritando, completamente alucinado.
    Sem opção, o rapaz italiano agora trêmulo, aponta o revólver para o agressor e aperta o gatilho, mais duas vezes.
    Válber esboça uma reação de surpresa, observa abismado os dois tiros em seu peito, cospe muito sangue e cambaleia, como um boneco de pano.
    Tenta desesperadamente, agarrar-se ao balcão e cai.
    Está agonizando, praticamente morto.
    Ainda vivo, é socorrido pela guarnição de radiopatrulha que foi chamada para verificar, o que havia acontecido ali, mas morre, ao chegar ao hospital.
    O inquérito segue os trâmites legais.
     
    O SACO PLÁSTICO
    O motorista do ônibus, que faz a linha Santo Amaro-Taipas (São Paulo), virou-se para a mulher idosa que acabara de descer e disse-lhe.  
    - "Minha senhora, esse saco é seu?!"
    Viviane Rocha soltou um grito e entrou desesperada, no coletivo.
    No afã de tirar o saco plástico decorado, que já estava na mão do cobrador, ela deixou o seu conteúdo cair no chão, bruscamente.
    Pedro Silveira, o motorista ficou visivelmente boquiaberto; enquanto Jacinto dos Santos, o cobrador, quase desmaiou: na frente dos dois, a seus pés, havia dois crânios humanos, e algumas peças de roupa, que haviam caído do saco, que pertencia àquela simpática velhinha.
    O condutor do veículo, então, fechou as portas do coletivo e seguiu para o Distrito Policial mais próximo, apesar dos protestos ininterruptos de Viviane, e o espanto de outros dois passageiros.
    Na delegacia, interrogada pelo delegado Tavares, a idosa passageira, deu mostras de teimosia.
    Ela garantiu que estava vindo de Andradina e se dirigia, para casa de um filho.
    Teria pernoitado de 5 para 6 de janeiro no terminal rodoviário Tietê.
    Nervosa, gesticulando muito, ela somente não sabia explicar, a origem dos crânios, que ainda possuíam um grotesco resto de cabelos grudados.
    O mais estranho, eles estavam enfeitados com penas coloridas de galinhas.
    Os peritos do Instituto de Criminalística foram prontamente chamados.
    Examinaram detalhadamente o macabro encontro, mas não conseguiram chegar a nenhuma resposta plausível.
    Somente no dia seguinte, 6 de janeiro, é que os legistas do IML chegaram a uma conclusão definitiva, eram dois crânios pertencentes a pessoas do sexo masculino.
    Dona Viviane Rocha continuou detida, por não conseguir explicar a procedência dos crânios.
    Os policiais divagaram em teorias, mas descartaram a hipótese de que os crânios fossem de vítimas de homicídios.
    Realmente nem Agatha Christie, a renomada escritora britânica, teria uma imaginação tão grande, apesar da versatilidade incrível mostradas nos seus inúmeros romances policiais.
    Matar alguém (no caso duas pessoas), esperar a decomposição e carregar seus crânios decepados por dias seguidos, até mesmo dentro do coletivo é algo imaginável até mesmo para o mais fantasioso dos mortais.
    O que acabou também descartando a possibilidade do homicídio foi o fato de que não houve, por aqueles dias, nenhum crime em que fossem encontrados cadáveres sem cabeça, não identificados, após minuciosa busca.
    Afastada a possibilidade de assassinato, restava aos investigadores checar a história bizarra da velhinha.
    Logo, descobriu-se que ela não morava em Andradina, mas sim, aqui mesmo na capital.
    Em seguida, uma informação anônima, confirmada mais tarde, falava a respeito do envolvimento daquela inocente senhora em cultos de magia negra.
    Os policiais passaram a acreditar então, que os dois crânios foram retirados de algum cemitério da cidade para servir em trabalhos de despacho.
    A certeza é praticamente consolidada, pelo fato de os dois crânios estarem adornados, com penas.
    Dona Viviane, contudo, não confirmou a versão aventada pelos policiais.
    Ela, inclusive, chegou a negar que o saco plástico fosse seu, apesar do testemunho apavorado do motorista, do cobrador e de dois passageiros traumatizados, que se encontravam dentro do coletivo.
    Quando foi "apertada" durante o interrogatório, a velhinha repentinamente ajoelhou-se e passou a rezar, gritando.
     - "Vocês querem comprometer-me! Deus é justo e vai provar que sou inocente! Isso é demais para uma mulher da minha idade! Eu não posso acreditar, ingratos, isso é pecado, sabiam?!"
    Depois dona Viviane, fingiu um suposto “desmaio”.
    Os investigadores, pacientemente, esperaram que ela "recobrasse" os tais sentidos, jamais perdidos.
    Continuaram as insistentes perguntas, mas ela também continuou insistindo em negativas.
    Finalmente, ela foi dispensada na tarde do dia 7. 
    Mas, foi indiciada e iria responder a inquérito por violação de sepultura e profanação, seguida de roubo de cadáveres e afins.
    Um caso estranho, curioso e mórbido.
    Um fato até mesmo incrível, pelo seu inusitado, dois crânios adornados, roubados de um cemitério qualquer, para serem usados em trabalho de magia negra.
    Um acontecimento até mesmo engraçado, não fosse trágico, dentro da violência da capital.
    Em tempo, a estranha e simpática "vovozinha" não conseguiu responder ao inquérito, desapareceu, uma semana após o acontecido; assim como surgira, do nada.
    Domicílio ignorado, dizem os policiais; o caso foi arquivado.
     
    A MORTE É BONITA E USA BATOM
    Aquele local do Guaraú, próximo ao Grêmio dos Reservistas do Forte Itaipu, em Peruíbe, litoral sul de São Paulo, convenhamos, é bastante deserto.
    A rua Sete é apenas uma pequena cicatriz rasgada no ventre da mata virgem.
    Pouquíssimas casas por perto.
    Por isso, quase ninguém viu quando o táxi Lada vermelho placa ZZ-1530 estacionou ali, naquela noite de sexta-feira, 13 de agosto.
    Quase ninguém viu, também, uma pequena fogueira que insistia em arder durante muito tempo.
    Uma fogueira macabra, que as árvores e arbustos em volta mal disfarçariam se houvesse espectadores.
    No dia 17 de agosto, um domingo, os poucos moradores da localidade, descobriram o que alimentava as chamas, dessa fogueira.
    Era o cadáver carbonizado de um homem jovem.
    Pouco restara daquele corpo, além de um pequeno tufo de cabelos, parte do rosto e tórax, dos braços e das pernas.
    O trágico encontro abalou os humildes moradores, caminho obrigatório a quem se dirige à Barra do Una.
    O corpo (mais ossos torrados, do que carne) estava semienterrado à margem da rua.
    Sobre ele, alguns galhos queimados.
    Nas proximidades, as sobras de um saco plástico contendo as roupas e documentos do infeliz.
    Ao ser avisada do achado, a polícia da região viu-se de mãos amarradas.
    Não sabia quem era e praticamente, não tinha meios para identificar a vítima.
    O chefe dos investigadores, Clodoaldo Leite Pereira, passou dias percorrendo as redondezas onde foi encontrado o corpo.
    Até que obteve a primeira pista concreta: às 19h30 daquela sexta-feira; um táxi Lada cinza havia sido visto nas imediações do Grêmio dos Reservistas.
    Dentro dele, nada mais, nada menos do que integrantes da turma do Fiapo, um dos mais conhecidos grileiros de terra de Peruíbe, envolvido em homicídios e chefe de uma quadrilha, cuja extensão de atividades, nem a polícia local conhecem.
    Dessa informação, à detenção dos cinco ocupantes do taxi e daí à elucidação do crime, foram passos curtos.
    O cadáver quase que totalmente carbonizado, era o de Francisco Coelho Filho, 20 anos.
    Ele havia sido assassinado, com dois tiros na cabeça, por sua amante, Paula Pontes Silva, 34 anos, loura oxigenada e muito bela, anos atrás, proprietária de uma barraca de bebidas e petiscos na praia de Peruíbe, a famosa "PPP".
    Francisco teria sido morto por vingança; Paula não suportava mais as agressões e ameaças, que o amante fazia a ela e ao seu filho menor.  
    Os cinco membros da turma do Fiapo (incluindo o próprio), entraram na história, apenas para desovar e dar sumiço ao corpo.
    - "Eu conhecia a Paula há dez anos. Nós éramos muito apegados. Quando ela me pediu para desaparecer com o corpo, eu não pude recusar. Se fizemos coisa errada, está feito".
    Disse Porfírio Costa Machado, 30 anos, o Fiapo.
    Dono de um ferro velho por lá, Fiapo é mais conhecido na região e fora dela, do que a desvalorizada nota de R$1,00 real.
    E temido também.
    Já foi processado por homicídios, lesões corporais e furto de energia elétrica, inclusive sua fiação.
    Mas anda calmamente pela cidade, bebendo de graça onde quer e sempre cercado de muita gente estranha.
    Uma espécie de "Don Corleone brazuca", se isso possa existir realmente, claro.
    De uma de suas últimas aventuras, Fiapo ostenta no alto da testa a cicatriz chamativa de bala.
    Foi num tiroteio travado com agentes da Polícia Federal.
    Simplesmente porque ele estava grilando a área de terra, onde deverá ser construída a futura usina nuclear de Peruíbe.
    Fiapo não é flor que se cheire não, comenta-se na cidade.
    Nem a própria Paula pode confiar nele.
     - "Ela disse que assumiria toda a responsabilidade pelo que aconteceu. Se não assumir, vai ser a próxima da lista. Sabe como é eu também tenho as minhas fontes, dotô", ameaça.
    Paula conheceu o Francisco no Carnaval deste ano, quando ele foi trabalhar para ela na barraca de bebidas.
    Passado o Carnaval, ambos começaram a viver juntos.
    Mas era uma convivência bastante difícil, eles desentendiam-se bastante.
    Qualquer coisinha, ele quebrava-lhe a cara, dava-lhe surras homéricas.
    Teve um dia aqui na minha frente, ele ameaçou matar ela e o menino, explicou o delegado.
    Fui obrigado a atuar-lhe em flagrante, por ameaça.
    Ele passou dez dias preso, mas quando saiu os dois voltaram a viver juntos.
    Acho que ela fez isso por desespero, raciocina o delegado Waldomiro Passos, titular do DP.
    No dia 6 de agosto, Paula procurou o Fiapo, contou-lhe que iria matar o amante, por não suportar mais, e pediu-lhe uma arma.
    Fiapo recusou-se.
    Não se sabe onde, depois, ela conseguiu uma pistola automática calibre 7.65.
    Na noite de 10 de agosto, ela matou Francisco, filho de um comerciante, Dario Coelho.
    Não tendo como desfazer-se do corpo, colocou-o dentro de um saco plástico e enrolou o volume, num cobertor.
    Tirou o colchão da cama de casal e colocou o cadáver, sobre o estrado.
    Dois dias depois, Paula procurou o Fiapo.
    - "Fiz a história. Matei o cara".
    Disse muito calma.
    Prometeu R$1.500,00 reais para que ele desse um fim ao corpo.
    Fiapo não pensou duas vezes.
    Chamou seu empregado BGHI, 14 anos, o Filé, e Jacinto Gomes, 35 anos, o Xuxão.
    Chamou também o amigo Pedro Silva dos Anjos, 30 anos, o Pato.
    Às 18h de um dia chuvoso, os quatro chegavam a uma padaria (A Mirante das Praias), nas proximidades da estação da FEPASA de Peruíbe, para um lanche regado obviamente a cerveja, muita cerveja gelada.
    Só então Fiapo explicou a eles o trabalho que seria feito.
    Fiapo ainda procurou por ali uma perua Kombi para transportar o cadáver.
    Sem êxito.
    A única solução foi valer-se do táxi de Gilberto de Souza, 24 anos, o "GS", espécie de motorista particular de Fiapo.
    Às 19h, o quinteto chegava à casa de Paula, na rua Senador Domingues, 37, centro.
    Enquanto Gilberto manobrava o carro, os quatro foram ao interior da casa para retirar a "encomenda", mais um pacote com suas roupas e documentos e um galão com dez litros de gasolina.
    Como o corpo não coubesse inteiro dentro do porta-malas do veículo.
    - "Pato, muito doidão, porque tinha bebido demais", sentou-se com ele e o foi segurando.
    - "Fizemos a operação toda em cinco minutos", vangloriava-se Fiapo.
    Depois, o carro Russo rumou para o Guaraú.
    A cerca de 500 metros do Grêmio dos Reservistas do Forte Itaipu, o corpo de Francisco Coelho Filho, foi depositado à beira da rua Sete, coberto por gravetos e pelas próprias roupas.
    Filé despejou o galão de gasolina, no presunto, mas ninguém assume ter acendido o fósforo fatal.
    Durante alguns minutos, o grupo iluminado, ficou admirando a fogueira arder.
    Depois, retirou-se, com a tarefa já cumprida.
    No dia seguinte, Pato voltou ao local e, com um pedaço de madeira, fez uma cova muito rasa para ocultar o que sobrara do infeliz rapaz.
    Todos já foram detidos.
    Prestaram depoimento, no inquérito instaurado pela Delegacia local e foram postos em liberdade.
    Paula apresentou-se em seguida e negou o homicídio.
    - "Eu, não suportava mais viver com ele, mas não o matei senhor delegado. Ele é que iria suicidar-se. Quando entrei no quarto, ele estava com a arma encostada já, na orelha. Para evitar que ele se matasse, dei-lhe um tapa na mão. E o revólver, disparou então duas vezes”.
    Defende-se.  
    A já não tão bela assim, Brigitte Bardot de Peruíbe assume, porém, somente a ocultação e o pagamento a Fiapo para o desaparecimento do cadáver.  
    As investigações prosseguem, vagarosamente.
     
    O LOBISOMEM DE PARIS
    Se o inspetor Maigret pudesse sair do retiro forçado, que lhe foi imposto por seu genial criador Georges Simenon, certamente não reconheceria mais a velha Pigalle e Montmartre boêmias, que por noites a fio, palmilhou no encalço dos assassinos comuns, que infestaram Paris e seus arredores.
    As ladeiras íngremes e estreitas, calçadas com pedras irregulares, molhadas pela chuva fina, fervilhantes de gente até a madrugada, hoje estão vazias.
    Os verdadeiros cafés parisienses, as brasseries e bistrôs, onde, longe dos catálogos para turistas, se come a boa comida o bom queijo e se toma bom vinho, buscado em adegas de origem desconhecida, estão misteriosamente desertos.
    Um criminoso, como os que Maigret perseguia, está aterrorizando o bairro.
    A imprensa apelidou-o de o "Lobisomem", porque, desde que começou a agir, no começo de outubro, em cinco semanas assassinou impiedosamente, nove mulheres idosas e solitárias.
    Cinco desses nove crimes, antecedidos por sevícias e cometidos com extrema brutalidade, seguidos de pequenos roubos, aconteceram, coincidência ou não, na fase da lua cheia.
    Pigalle, onde está o Moulin Rouge, dezenas de outros cabarés famosos e outros tantos restaurantes, mais famosos ainda, fica na famosa rive gauche (margem esquerda) do rio Sena.
    Ali, incluindo também célebre Montparnasse, os velhos casarões transformados em apartamentos e suas águas-furtadas, transformadas em ateliês, desde a primeira metade do século passado, começaram a atrair os artistas inconformistas de todo o mundo.
    Ali viveram, beberam absinto, se drogaram, passaram fome, foram execrados e se tornaram gênios figuras como Baudelaire, Rimbaud, Modegliani, Toulouse-Lautrec, Picasso e tantos outros, famosos ou desconhecidos.
    Boêmios e irreverentes, seria bem natural que no labirinto de ruas estreitas, proliferassem a sua volta as adegas, com o chão coberto de serragem, cheirando a vinho novo derramado e taverneiros, sorridente, protegidos por aventais não muito limpos, do peito aos pés.
    Com os gênios, ébrios, boêmios e malditos os infortunados de toda a espécie, os marginalizados pela lei ou pela vida, fizeram fugir os derradeiros bons burgueses, fazendo também a delícia do turista embasbacado.
    Lado a lado com os artistas, obviamente os infelizes.
    Velhos solitários, cujas pensões minguadas ou a usura de filhos e netos indiferentes, só dão mesmo para pagar os cômodos e águas-furtadas, de aquecimento precário e banheiro fétido comum.
    Rodeando a todos, as floristas tristes que passam as madrugadas, de primavera ou inverno, à porta dos cabarés, tentando ganhar o café do dia seguinte, ambulantes de toda a espécie e a partir da segunda década do século, migrantes de todas as partes da Europa, América e África.
    Ali age sorrateiramente o assim chamado, Lobisomem, a besta desconhecida.
    Suas vítimas, velhas solitárias e miseráveis, surpreendidas durante a noite em seu leito, amarradas, golpeadas a facadas com selvageria e depois roubadas em alguns francos, uma ou outra joia barata de família. 
    Sem que, até agora, ninguém haja escutado um grito, um barulho fora do comum, ou um pedido de socorro, nada.
    O mistério e o terror, que extravasaram as fronteiras do bairro para tomar conta da cidade, tornaram-se objeto, de escândalo nacional e objeto de investigações também de jornalistas e curiosos fofoqueiros.
    Enquanto isso, os comissários, da Polícia Judiciária, andam às tontas e em desespero, tentando juntar as peças desse verdadeiro e enigmático, quebra cabeça.  
    A população do bairro e principalmente as mulheres idosas, tem medo de deixar seus pardieiros, mesmo para ir até a agência de Correios mais próxima, receber seus magros cheques mensais de pensionistas.
    Nas ruas, as pessoas olham-se com desconfiança e andam rapidamente e quando escurece dificilmente se encontrará uma prostituta sequer nas esquinas.
    As vítimas se sucederam em um ritmo ordenado, macabro e monótono, que nada indica haver terminado.
    No dia 5 de outubro, encontra-se o corpo de Gabrielle Foucoult.
    A ela seguem-se os cadáveres de Ilona Juneaut, Anne Pasteur, e assim sucessivamente as demais.
    Todas, entre 80 e 90 anos de idade.
    Quem iria querer fazer-lhes mal?
    O pouco dinheiro roubado justificaria a tortura a que foram submetidas?
    Os agentes acreditam que não, talvez algo de incontrolável mesmice, ordena o seu cérebro doentio.
    Se já estavam amarradas, sua morte só se justifica para um louco ou para que não reconheçam o assassino.
    A princípio a polícia pensou que fosse um dos muitos jovens viciados em heroína, que perambulam por aqueles bairros e que cometesse os crimes no desespero para conseguir dinheiro fácil e comprar o tóxico.
    No entanto, a aparente invisibilidade do assassino parece desmentir totalmente, essa fraca hipótese.
    Dificilmente, alguém tão dominado pelo entorpecente (tudo indica que seria assim, se o caso fosse esse) teria sangue frio para evitar qualquer deslize, nove vezes seguidas e tudo, num horrendo banho de sangue. 
    Outro detalhe intriga a polícia Francesa; por que o matador age apenas naquelas ruas restritas a um exíguo raio de quilômetro e meio, a partir de Montmartre?
    Isso parece dar convicção aos agentes que, em vez de vagabundo, alcoólatra ou toxicômano que vaga desesperado pelas ruas, o maníaco sangrento, mora ou tem ocupação fixa na área delimitada.
    Um ambulante, talvez.
    Mais jovem que suas vítimas, mas, certamente, tão amargo e desiludido, quanto elas.
    Um vendedor de bugigangas qualquer, que vê a vida monótona passar a sua frente, ignorando suas frustrações recalcadas.
    Quem sabe até amargando a lembrança de uma mãe indiferente, alcoólatra ou prostituta, tão idosa e solitária como suas próprias vítimas.
    A mente humana é perturbadora, altamente complexa e muito pouco estudada ainda.
    Um ambulante que, durante todo o dia, colocado à frente de sua banca ou percorrendo sempre as mesmas ruas para oferecer aos gritos, sua mercadoria barata, nem sequer é notado.
    Não o notam, mas ele pode observar calmamente tudo e todos, com seus olhos dissimulados, de predador faminto, caçando.
    Pode escolher calmamente sua próxima vítima, precisar seus horários, ter certeza de que não haverá um porteiro para reconhecê-lo, um vizinho para interromper a execução, ou uma testemunha qualquer, para identifica-lo. 
    Anônimo antes do crime transfigura-se medonhamente, apenas quando já está diante de sua vítima, para voltar ao anonimato logo que fecha a porta atrás de si e deixa sobre uma cama pobre, mais um vulto disforme e farrapos banhados em sangue e fúria.
    No dia seguinte, ele poderá estar no bistrô mais próximo, tomando uma sopa quente de legumes, para combater o frio do inverno e depois, nas calçadas sujas e apinhadas pela chusma que sai para o trabalho, talvez até sorria malignamente para outra anciã solitária que, no fundo de seu cérebro doentio, por uma razão desconhecida, já escolheu como a próxima vítima, novamente sedento, como um verdadeiro; Lobisomem.
    Nada de conclusivo, foi apurado naquela época e o caso foi esquecido.
     
    O GUERREIRO DO SOL NASCENTE
    A ira dos antigos samurais fez o velho japonês Toshiro Watanabe, de 70 anos, voltar aos seus tempos de guerreiro.
    A época em que pertencia ao Exército Imperial do Japão. Watanabe, agora, era o rapaz de vinte e poucos anos, o soldado que lutava contra os americanos na Segunda Guerra Mundial.
    Podia até sentir o cheiro da pólvora, os ouvidos zumbindo com as explosões das bombas.
    Tempo e espaço se entrelaçavam.
    - "Banzai!"
    O grito de guerra, em honra ao imperador do Japão, ecoou com ferocidade.
    Watanabe lamentava não estar armado com sua metralhadora.
    Faltavam também a "takaná" e o "tantô", respectivamente, a espada e o punhal dos guerreiros do Japão feudal.
    Tempo e espaço continuavam se misturando na mente do ex-combatente.
    O destino pôs em suas mãos, um prosaico tridente de agricultor, como a arma do seu último combate.
    E foi com a imagem de sempre, que Watanabe avançou, contra os inimigos.
    Dois contra um, uma luta desigual, logo encerrada num lance desleal.
    Watanabe não conseguiu desviar-se do botijão de gás de cozinha, arremessado à traição, e caiu golpeado na cabeça.
    Depois, o inimigo desferiu uma machadada no pescoço do ex-soldado.
    Toshiro Watanabe sobrevivera em Okinawa.
    Para morrer nas mãos de um garoto de 15 anos, num barraco miserável de Santo André, no grande ABC paulista.
    Toshiro Watanabe morava sozinho, naquela casa humilde, porém imaculadamente limpa.
    Ao lado de uma viela, entre duas ruas maiores, no Jardim Jacatuba, bairro pobre do município de Santo André.
    O local é ermo e cheio de mato.
    A família do ex-soldado, mulher e dois filhos, há muito o abandonara, mudando-se para outra cidade.
    A segunda Guerra Mundial deixara marcas terríveis em Watanabe.
    Sua mente, perturbada, tornara-se uma pessoa de comportamento estranho, aliás, como todo o sobrevivente, de qual guerra seja.
    Às vezes, passava horas e horas, olhando para o céu infinito, como se esperasse bombas despejadas.
    Watanabe tinha até razão ao se considerar cercado por inimigos.
    A viela malcheirosa e o quintal eram permanentemente ocupados por marginais de todos os tipos, que ali se escondiam, para fumar algo ilícito, ou repartir produtos de roubos.
    O velho militar, inofensivo, segundo seus vizinhos, não gostava dos intrusos.
    O cérebro do ex-soldado, transformava o matagal, numa revolta praia do Pacífico.
    Ele via os navios no horizonte.
    Os canhões disparando, bolas de fogo.
    As grandes barcaças encalhando na areia branca, desembarcando os fuzileiros.
    Não eram os Marines Americanos.
    Era apenas um menino de 15 anos, conhecido como Ratão, que mais uma vez voltava a invadir o quintal do oriental, para furtar limões.
    Watanabe já estava cansado de pedir que não fizessem mais isso.
    Então, naquela manhã de névoa, perdeu a paciência.
    Municiou uma velha espingarda com sal e acertou o ladrão.
    Disparou duas vezes. 
    Ratão correu sangrando, foi obrigado ficar acamado 10 dias, até sararem as feridas, causadas pelos disparos.
    Enquanto se recuperava, Ratão jurava.
    - "Um dia, ainda acerto aquele japa, com certeza!".
    No inverno, Ratão estava de volta às ruas.
    A ideia de como se vingaria, surgiu quando ele passou diante da casa do japonês.
    Encontrou-se com um conhecido, identificado apenas pelo apelido de Sanduba e fez uma proposta tentadora.
    - "Eu vi que ele tem botijões de gás na casa. Se você me ajudar a roubá-los, eu lhe dou um".
    Os dois garotos invadiram a casa, em que o Watanabe não se encontrava no local.
    Mas foram flagrados por ele, quando acabavam de empilhar roupas e outros objetos.
    O japonês partiu para cima deles empunhando seu tridente como se fosse uma antiga baioneta.
    - "Aaaahhh! Banzai! Banzai!"
     Sanduba ficou apavorado.
    Ratão mais tarde, juraria para a polícia, que aquele era o primeiro delito, do companheiro.
    Só o Ratão ficou na sala, esquivando-se, graças à sua habilidade e juventude, das estocadas de Watanabe.
    Aí pegou o botijão de gás e acertou em cheio, o guerreiro do sol nascente.
    Ratão diria também à polícia, que resolveu matar o oriental, para evitar ser preso.
    E fugiu, levando as roupas do japonês.
    Escondeu-se na casa de uma irmã.
    Mas, não resistiu ao impulso de voltar ao local do crime, no dia seguinte.
     - "O japa ainda estava lá gemendo. Não sei se me reconheceu não seu “dotô”. Tenho a impressão de que ele me pediu ajuda, mas eu não fiz nada, fui embora".
    Ratão, contudo, não esquecia a imagem do ex-soldado agonizante e voltou uma segunda vez a casa.
    - "Ele já estava morto, fedia! Estava enrolado num cobertor".
    O menor contou, então, que teve medo de que a polícia encontrasse suas digitais na casa.
    Para apagá-las, resolveu incendiar o barraco.
    Tocou fogo no colchão e num monte de espuma de borracha, que encontrou numa caixa.
    Só não destruíram os R$100,00 reais em notas, que caíram de uma das caixas.
    O incêndio, o encontro do cadáver semicarbonizado do oriental, a morte violenta dele que se transformara num ancião estranho, porém pacífico, comoveram todo o bairro.
    E a solução do crime, se tornou um ponto de honra, para a maioria das delegacias de polícia do Grande ABC.
    Mas, simplesmente, foi o remorso quem resolveu o caso.
    Ratão não conseguia mais dormir.
    Passava os dias escondido num ferro-velho, desconfiava até da própria sombra.
    Dormia no interior de uma velha enferrujada e suja Kombi branca ano 76.
    O grito de guerra do ex-soldado, não o deixava em paz, tinha constantes pesadelos.
    O garoto fez a primeira confissão para o próprio pai, Severino Soares Souza, que, incrédulo, se limitou a dizer.
    - "Se for verdade, não apareça mais em casa, seu moleque".
    Ratão também confessou o crime, para os amigos.
    Não acreditaram.  
    - "Mentiroso! Você não seria capaz disso, cara. O velho Watanabe conhecia artes marciais. Ratão, você é que estaria morto, agora, se o tivesse enfrentado, é!".
    O remorso desesperava e corroía o assassino.
    Já estava pensando em se entregar à polícia, quando foi detido por investigadores, do Distrito Policial da região.
    Os investigadores tinham ouvido um comentário sobre a fantástica história que Ratão, repetia aos amigos e resolveram checá-la.
    O menor contou tudo, com detalhes, foi colocado à disposição do juiz Corregedor de Menores.
    Ele é reincidente.
    Estivera detido na FEBEM, por porte ilegal de arma.
    Mas Ratão era um assaltante.
    Gostava de atacar, jovens de classe média.
    Tirava os sapatos e as roupas de suas vítimas e as afugentava, disparando para cima; um revólver de brinquedo, com espoleta, o assim chamado “simulacro” juntamente com seu amigo Sanduba, o qual nunca viu uma arma, em sua vida.
    Armadilhas da vida de periferia turbulenta, das grandes cidades, atualmente.
    Que o guerreiro descanse em paz, a sombra de uma cerejeira florida, velado por seus companheiros de combate. Sayonara, Toshiro!
    O inquérito foi finalmente concluído.
     
  • Deveria ter te falado

    Oi venho-te falar que tenho uma doença terminal não tenho muito tempo de vida, na verdade os médicos me falaram que tinha três meses de vida no máximo hoje esta quase no final desses três meses, não me brigue por não ter contado é que odiaria ver você perdendo tempo da sua vida se preocupando com alguém que já esta morta, e ver seu olhar de dó pra min não ia suportar isso acho melhor tomar um tiro, mas me desculpe por não ter contado antes, acho que sou idiota por não ter contado pode xingar me odeia  seria melhor, só de imaginar  você chorando me parte aquele meu coração que lava endurecida, mas se não chorar me arranca um sorriso. Sabe todo dai queria te contar, mas não consegui, por favor, entenda eu já estou morto não queria ser só um incomodo ver falsa esperança, não muito obrigado, mas não  quero. Você não tem ideia como não queria entrar em sua vida para partir tão breve, pensei todo dia de sumir com uma brisa que bate no rosto e se vai rápida mente não conseguia sempre queria aproveitar um pouco mais já que era meu fim queria acabar com lembranças boas mesmo que fosse só uma conversa boba ou um inteligente. Agora me despeço ADEUS vou sentir sua falta.
  • Dia de chuva

    Tudo começou com um belo dia pós chuva. À vi em uma travessa daquela pequena cidade.
    A princípio não havia reparado em seu elegante cachecol estampado com flores, e sua blusa lisa caque que destacava sua esbelta cintura, e sua calça jeans escura, e suas botas marrom, sem salto. Não sou de reparar nas pessoas, mas não pude deixar de reparar em seus cabelos castanho escuro, levemente andulado nas pontas, e aqueles chamativos par de olhos mel esverdiados, que até poderia dizer que eram âmbar, e um sorriso, lindíssimo, com dentes tão brancos como as nuvens, e reluzentes como as estrelas. Mas o que realmente me chamou a atenção, foi o motivo de seu sorriso, um pequeno pássaro verde, pousado em uma árvore próxima. Ela apontava, e sorria, mostrando-o para quem andava com ela.
    E isso me fez pensar: Como coisas simples podem fazer a alegria de alguém?
    Aquele pássaro pousado naquela árvore, nada de mais, fez a moça sorrir.
    E aquela simples ação da linda moça, me fez sorrir o resto do meu dia.
  • É errado te amar?

    7:45 A.M
    Ethan se sobressaltou quando o despertador tocou, ele não estava mais dormindo, mas só de pensar no que lhe esperava dava preguiça de levantar. O quarto estava escuro apesar de já ser manhã, talvez o fato do tempo lá fora estar horrivelmente nublado tivesse alguma parcela de culpa, o garoto suspirou exasperado já se lembrando do que lhe aguardava. Naquela manhã nublada e fria seria seu primeiro dia em um novo colégio, mais um para a sua longa coleção de colégios ridiculamente caros, com pessoas idiotas e esnobes que pensavam que eram melhores que as outras por terem tido a sorte de nascer em uma família rica e isso — na opinião de Ethan — não era motivo pra se gabar, afinal qual era a grande coisa de poder dizer que vinha de uma família rica? Do que adiantava ter tanto dinheiro, mas não ver a cara de seu pai por um mês inteiro por causa do trabalho dele? Ou mesmo poder comprar tudo o que quiser e não ter a quem dar? Quando se é rico assim, não se pode sequer confiar nas pessoas, o que resulta em uma triste e solitária vida e aquilo era algo que Ethan não queria para si. Ele se forçou a sair da cama que era grande demais para apenas uma pessoa e jogou os lençóis de lado se sentindo exausto, arrastou-se até o banheiro e se encarou no espelho, mas imediatamente se arrependeu de tê-lo feito na verdade tinha se arrependido de ter feito o que fez na noite passada. Apenas para fazer raiva ao seu pai que nunca estava em casa, mas quando chegava queria mandar nele saiu passando a noite quase toda fora, havia chegado há apenas três horas atrás e dormindo mais ou menos uma hora e meia, seus cabelos estavam uma bagunça, sua roupa extremamente amassada, com marcas de batom e cheiro de perfume caro que as garotas tinham deixado nele. Pôs as mãos no rosto e massageou as pálpebras doídas com a ponta dos dedos suspirando ainda mais exasperado que antes, parecia que recentemente tudo o que ele fazia era suspirar não importava o quão bom tinha sido a sua diversão, logo após ele continuava se sentindo... Vazio!
    Depois de ter certeza de que não tinha mais jeito Ethan se despiu e ligou o chuveiro; não usou a banheira, pois se o fizesse não sairia dali tão cedo e acabaria perdendo o dia de aula. A água quentinha lhe escorria dos cabelos aos ombros e em seguida para todo o corpo, aquilo lhe acordou um pouco e depois de apenas alguns poucos minutos em baixo da água teve que sair, fechou os olhos e ergueu a cabeça passando uma toalha por seus quadris, estava mais magro, sentia seus ossos pélvicos mais salientes que antes! Realmente queria evitar encontrar com seus pais quando estivesse saindo, o que era pouco provável, já que seu pai estava trabalhando em casa aquele mês e sua mãe tinha acabado seu manuscrito há apenas alguns dias.
    Ethan pegou a primeira roupa que achou e vestiu, não estava com disposição e nem via motivos para se preocupar com a aparência e ele não se interessava muito por moda, mas a roupa até que lhe caiu bem na medida do possível. Estava apenas de calça jeans preta, blusa branca de algodão com um pano grosso — já que ali era como o freezer do mundo — um casaco preto para se proteger melhor daquele frio ridículo que fazia uma bota marrom e mochila, arrumou os cabelos ou pelo menos tentou deixá-los meio normais já que eles achavam que tinham sua própria vida e continuavam saindo e voando pra onde queriam, então desceu as largas escadas que davam para a sala de visitas e de jantar com cautela para, infelizmente, ver que seus pais já estavam tomando café da manhã na sala de jantar.
    Ele ainda não tinha se acostumado àquele local, só fazia uma semana que haviam se mudado e era tudo muito novo, não que a casa não fosse tão extravagante como a antiga, mas o ambiente era diferente. As paredes da sala de jantar eram de um tom de bege bem claro tornando o local arejado, a mesa era feita de mármore negro contrastando com o chão que era de porcelanato também claro combinando com as paredes, em cima desta havia um jarro com um belo arranjo de flores que Ethan desconhecia o nome, as dez cadeiras ao redor da mesa eram de madeira talhada e com acentos e costas acolchoados, o teto era alto apesar de a casa ter dois andares e de lá pendia um lustre enorme com pequenas peças em formato de diamantes que cintilavam quando a luz batia refletindo o arco-íris. Na parede mais próxima a mesa havia um quadro gigantesco da ceia de Jesus com seus discípulos, na outra mais afastada tinha um móvel baixo, como uma arca que servia de apoio para um grande espelho que ia quase até o teto, havia uma prateleira com as taças de sua mãe, as quais ela havia ganhado de presente em seu casamento. Ethan respirou fundo tentando juntar coragem e força de vontade para tentar pelo menos ter um diálogo decente com seu pai, um que não acabasse nele saindo furioso enquanto o outro lhe chamava de inútil.
    Entrou no cômodo indiferente, como se não houvesse aprontado nada na noite passada e também como se seu pai não existisse ali. 
    — Bom dia mamãe — se aproximou lhe dando um beijo na bochecha — Acho que estou meio em cima da hora, então estou indo... Até sexta! — um fato bom sobre o novo colégio era que havia dormitórios e os alunos podiam optar por passar o período de aulas lá e voltar para casa apenas no final da semana, Ethan estava mais do que grato por isso e muito ansioso para sair logo daquela casa.
    — Ethan — ele congelou no lugar e girou sobre seus calcanhares roboticamente para olhar para seu pai que estava com a mesma expressão entediada de sempre — espere aí, eu te deixarei.
    — Hã... Não precisa, mas valeu mesmo! — ele aproveitou para fazer uma careta já que seu pai estava ocupado demais olhando para o celular.
    — Eu não estou perguntando, estou avisando, agora se sente e coma.
    — Por quê? — Ethan piscou algumas vezes encarando o pai sem realmente entender o porquê daquilo — Porque perder seu tempo me levando? E não me venha dizer que é por você está preocupado comigo, pois eu sei que não é!
    — Nada em especial — seu pai falou finalmente desgrudando os olhos da tela do aparelho e lhe encarando — apenas preciso falar com a diretora Solar, explicar  o motivo de você estar se matriculando tão tarde, no meio do ano letivo.
    — Eu posso falar com ela sozinho... Não precisa gastar seu precioso tempo comigo! — Ethan falou aquilo fazendo com que, sem querer saísse com mais veneno do que o esperado, seu pai levantou da cadeira e estreitou os olhos fazendo sua boca secar.
    — Eu já decidi... Eu vou com você e ponto final, goste você ou não... Não é como se eu quisesse ir também, então quanto mais rápido formos, mais rápido isso acaba para nós dois, hum?! Não insista em dificultar minha vida!
    — Edmund... Isso é jeito de falar com seu filho? — sua mãe encarava seu pai com um olhar severo, mas ele apenas a ignorou.
    — Bom... — Ethan sabia que não devia começar uma briga com seu pai porque sempre sairia perdendo, mas seu orgulho não lhe deixava engolir as palavras do outro — Dificultar sua vida é a única coisa que tem de legal para fazer na “minha” vida monótona e rotineira. Dificultar a sua vida é a melhor coisa que eu tenho pra fazer e cá entre nós, se a sua vida fosse perfeita em casa também enquanto todo o resto funciona perfeitamente não seria justo com as pessoas que vivem de forma infeliz, certo?! Só estou tentando manter o equilíbrio...
    — Chega os dois, comam comportadamente em silêncio ou saiam!
    Ethan abriu a boca para falar, mas ao olhar para a expressão facial de sua mãe sabia que a tinha magoado então resolveu parar por ali, mesmo sabendo que não era justo resolveu não falar mais nada, afinal não ia adiantar muita coisa, talvez só servisse pra deixar seu pai mais irritado ainda. Eles seguiram pra o tráfego sem terminar o café, o clima estava realmente tenso no carro, sua mãe tinha permanecido em casa e estavam apenas os dois juntos, o que nunca acabava bem, seu pai só estava fazendo aquilo para puni-lo, Ethan sabia disso e também sabia exatamente o que ele queria dizer com "conversar"... Ia “explicar” a diretora o quanto ele podia ferrar com a vida dela e com a escola caso alguma coisa acontecesse e vazasse fazendo a mídia se envolver. Ia ser uma conversa mais ou menos assim: "Olha aqui, se esse garoto aprontar alguma coisa e aparecer qualquer que seja o comentário na mídia... Eu acabo com vocês". 
    Da ultima vez que a mídia se envolveu ele tinha que admitir que as coisas ficaram feias pra sua família por um tempo, mas afinal como ele ia saber que o simples fato de acender um cigarro na escola ia se transformar em uma notícia como aquela?
    "O adolescente, mais conhecido como Ethan Fitzgerald — filho do milionário Edmund Fitzgerald e da renomada escritora de best-sellers conhecidos em todo o mundo, Dakota Fitzgerald — foi pego em flagrante usando drogas ilícitas na escola, o garoto descrito pelos colegas como problemático já foi pego praticando coisas semelhantes em suas escolas anteriores, escolas as quais o mesmo foi expulso. Brigas, vandalismo, posse de drogas e instrumentos que poderiam ser usados como armas são apenas algumas das acusações em seu longo histórico de feitos vândalos. Apesar de tais fatos nunca terem sido confirmados o simples fato de terem surgidos não servem como prova de tais atos? Porém as perguntas que não querem calar são: Será que o garoto é um viciado? Porque seus pais nunca mencionaram que seu único filho sofria de transtornos psicológicos...?" 
    E assim ele ficou conhecido como um lunático violento e viciado em drogas que envergonhava o nome da família, por isso seu pai perdeu muitos contratos com grandes empresas sócias e muito de seu crédito e fama, por esse motivo tinham se mudado para uma nova cidade onde seu pai tinha conseguido bons sócios para fechar negócios.
    Ethan estava tão perdido em pensamentos que nem se deu conta que seu pai estava dirigindo em uma estrada de terra com grama morta dos lados, a estrada parecia infinita; ele não lembrava ao certo quando tinham adentrado ela e não conseguia ver seu fim. A paisagem era quase mórbida com a grama amarelada dos lados e o céu cinza acima deles. Depois de mais alguns longos minutos com o carro sacudindo pela estrada maltrapilha ele finalmente avistou uma enorme construção ao longe; quando seu pai lhe dissera que era grande ele não imaginou aquilo tudo... O colégio parecia mais como o campus de uma faculdade. 
    Ao chegarem seu pai entrou em um grande estacionamento de piso lustroso e lâmpadas no teto até onde ele conseguia ver, o que particularmente achou um tanto sem nexo, afinal era só um estacionamento.
    Quando finalmente estacionaram ele saiu do carro o mais rápido possível, já era humilhante o suficiente ter ido até ali com seu pai de imagem perfeita, não era preciso que soubessem que ele era seu filho também, não queria má fama assim que chegasse, então começou a caminhar rapidamente sem ter certeza de para onde estava indo, apenas seguiu a claridade natural que vinha de um grande portão nos fundos da construção. 
    — Ethan, onde você está indo? — perguntou seu pai erguendo uma sobrancelha perfeitamente delineada.
    — Para a minha aula, não é óbvio?
    — Seria falta de educação eu ir falar com a Sra. Solar e não levá-lo comigo para se conhecerem! — disse ele com um sorrisinho que Ethan havia aprendido a odiar e temer — Você irá até lá comigo.
    — Porque eu preciso fazer isso? — ele suspirou exaspero pela terceira vez em apenas uma manhã, estava começando a se alterar — Você está fazendo isso como uma forma de punição?
    — Punição? Porque eu faria isso? Não consigo te entender Ethan.
    — Por causa da notícia e... Pela noite passada, talvez?
    — Nós não vamos falar sobre isso aqui, conversaremos uma outra hora... Mas não pense que sairá impune disso. — Os olhos de seu pai faiscaram ameaçadoramente. 
    — Então me deixa ir para a minha sala vai, ninguém precisa saber que você é meu pai, nós dois saímos ganhando, você mesmo disse que não queria fazer isso!
    — Já chega Ethan, você vai lá comigo e ponto.
    — Porque você sempre faz isso? É só para me ver assim, alterado? Você gosta tanto de abrir ainda mais o espaço gigantesco que existe entre nós?!
    — Você não consegue pensar que eu faço alguma coisa por você, porque eu sou seu pai e me preocupo com a sua vida? Mesmo assim quem aparentemente gosta de aumentar mais ainda o espaço entre nós é você fazendo de tudo para me envergonhar e sujar meu nome.
    — Sempre a mesma coisa, só se preocupa com seu nome... Desculpe, mas não acho que você saiba o que é amar, respeitar ou se preocupar com mais alguém que não seja você mesmo...
    — Ótimo, agora que você entendeu a sua situação podemos seguir...
    — O quê? — Ethan não estava acreditando naquilo.
    —Você vem sozinho ou quer que eu vá até aí e lhe carregue até a sala da diretora Ethan? 
    Seu pai que tinha lhe passado alguns metros — ele havia parado no lugar perplexo — parou e o olhou com aquele sorriso que sequer chegava a mexer em seus gelados olhos, aquele sorriso que Ethan conhecia tão bem, porque era exatamente igual ao seu. Se ele tinha achado humilhante ir até o colégio, imagina ter que entrar sendo carregado por seu pai... Ele odiava aquele fato, mas infelizmente eles se pareciam bastante um com o outro, claro que não do jeito que gostaria que fosse! Se pudesse escolher alguma coisa dele, talvez escolhesse a altura e os músculos.
    Seu pai era o tipo de todo mundo, o tipo "bonito e rico de morrer". Era bastante alto com 1,92 de altura, pele pálida, olhos azuis céu e tinha os cabelos que era a principal atração; cabelos ruivos com tons variados do vinho ao laranja, cortados curtos e muito bem arrumados para não ficar nem um único fio fora do lugar. Os fios escuros se misturavam com os mais claros e quando ele andava parecia às chamas de uma vela dançando de acordo com o vento, era hipnotizante olhar para seu pai com seus olhos gelados e seus cabelos quentes, seu sorriso frio e indiferente que mostrava dentes brancos e alinhados contrastando com um cavanhaque perfeitamente feito e nem uma única imperfeição na pele, com um terno caro e bem alinhado e postura perfeita era intimidador olhá-lo, as pessoas queriam ser ele ou queriam ser dele, na sua frente Ethan parecia um experimento que não havia dado certo. Ao invés da altura ou dos músculos, ele herdara apenas os pontos fracos do pai, pelo menos nele eram pontos fracos!
    Era uma versão meio destrambelhada do outro... Enquanto seu pai era alto e com a postura perfeita, Ethan era baixo para a média da sua idade, apenas 1,70 de altura e não se importava muito com a postura ou com as roupas, tinha o cabelo ruivo também, mas ele o pintava e por isso era bem mais escuro que o de seu pai e bem maior também, enquanto o de seu pai era cortado curto com apenas um pequeno topete o seu era comprido chegando quase até os ombros; os tons dos cabelos do seu pai eram mais para vermelho e laranja, enquanto o seu ficava mais para o vinho e o castanho por conta da tinta, só dava para notar que era vermelho se estivesse no sol ou em um lugar bem iluminado que desse para ver o reflexo dos fios, mas com a mudança e tudo o que havia acontecido à tinta estava saindo e ele não tinha tornado a pintar o que era estranho já que a raiz era mais clara que as pontas. Seus dentes também eram muito brancos e alinhados, o que o deixava com raiva, a pele também era tão pálida quanto à de seu pai, mas não tão imaculada. Ele tinha vários machucados antigos e cicatrizes de brigas passadas, mas também parecia muito com sua mãe, a estatura baixa e magra, por exemplo, a aparência frágil e élfica quase feminina de características pequenas, rosto pontudo, nariz arrebitado que passava certo ar de superioridade e olhos cinza tempestade. 
    Ethan sempre sofrera com o fato de ter a aparência frágil demais, ele lembrava que em seu último colégio fora perseguido até o último dia de aula, os malditos não o deixavam em paz por causa de sua aparência e sempre batiam nas mesmas teclas perguntando se ele tinha mesmo alguma coisa entre as pernas ao invés de um espaço vazio como as meninas... No seu último ano de fundamental os quatro garotos de sempre o cercaram e o arrastaram para um local afastado da escola, o líder do grupo disse que não acreditava que ele era um garoto, insinuou que ele era uma lésbica, isso o deixou espumando de raiva e ele bem que tentou lutar, mas as coisas começaram a dar erradas e tomar um curso diferente o fazendo sentir medo de uma briga pela primeira vez. O garoto que parecia comandar o grupinho de vândalos começou a lhe tocar em lugares estranhos e constrangedores enquanto sussurrava coisas sujas ao seu ouvido como se ele fosse uma garota de fato, Ethan teve que lutar muito e depois de ser molestado por todos quatro e por ter resistido ter sido espancado quase até desmaiar finalmente conseguira fugir, não sabia como, mas tinha conseguido voltar ao colégio e pegar seu carro voltando para casa em choque e completamente detonado... Seu nariz estava quebrado, as costelas machucadas, cortes na cabeça e rosto, sem seus tênis ou a sua blusa da farda. 
    Quando entrou em casa e sua mãe lhe viu, veio correndo ao seu encontro perguntando o que tinha lhe acontecido, seu pai chegou perguntando o que era todo aquele barulho com um ar carrancudo e ao lhe encarar sua expressão se transformou de raiva para nojo. 
    — Olha só o que aconteceu com seu filho Edmund, isso não pode continuar...
    Mas a única coisa que ele fez foi olhar para seu filho, os olhos tão gelados quanto o gelo puro, bufou em desprezo e disse simplesmente:
    — Se você não é homem suficiente para ficar e brigar ou para se defender pegue pelo menos o que restou da sua dignidade, se é que tem alguma, e vá a um hospital sozinho, sem precisar vir chorando para a sua mãe... — ele virou para sua mãe e continuou — Satisfeita Dakota? Olha só o que você fez! Criou um covarde, um garoto que não serve para nada, o que ele fará quando você não estiver mais aqui?
    Dizendo isso ele se virou e voltou ao seu escritório. Sua mãe chamou o médico da família que arrumou seu nariz e enfaixou suas costelas, Ethan não chorou na frente de seu pai ou dela, muito menos de seus agressores, mas no silêncio do seu quarto enquanto tirava as ataduras para tomar um banho, sentiu a garganta apertar. Enquanto tomava banho e a água tocava seu rosto, ele sentiu as lágrimas descerem calmamente mornas se misturando a água, ele sentou-se no chão sozinho no silêncio e então chorou não que ele se orgulhasse de demonstrar tamanha fraqueza, mas não conseguia segurar, ficou observando seu sangue misturar-se a água e escorrer pelo ralo pelo que pareceram horas, quando finalmente saiu do banho e vestiu seu pijama, deitou na cama e abraçou o travesseiro, momentos mais tarde sua mãe bateu na porta e entrou sentando-se ao seu lado, botou um travesseiro no colo e ele deitou-se em suas pernas, ela disse que lhe contaria uma de suas historias, exatamente como quando ele era criança, ela lhe acariciava os cabelos enquanto suas lágrimas caiam mornas molhando o travesseiro, ela começou e Ethan fechou os olhos ouvindo aquela voz calma e meiga de que era como bálsamo para sua alma, a história dizia o seguinte: 
    "Há muito tempo atrás existiu uma pequena aldeia a qual era lar de um garotinho, esse garoto era o mais menosprezado de todos por não ter altura ou porte físico, todos riam e zombavam dele pelas costas até mesmo seu pai lhe desprezava por causa de sua aparência pequena e magra, o pobre garotinho todos os dias chorava no silêncio da noite, mas o que seus colegas não sabiam era que ele vinha de uma linhagem muita, muito antiga e rara. Uma família que tinha poderes sobrenaturais, essa família era um clã, que por acaso era o clã que protegia a aldeia, mas quando o garotinho falou para seus amigos eles zombaram ainda mais dele. Porém, um dia inimigos invadiram a cidade e o garotinho magro o qual todos riam, se transformou em um enorme dragão negro com olhos amarelos que paralisavam quem ousasse olhar, com asas tão grandes e fortes que jogava os inimigos do outro lado do mar, com um poder de fogo tão grande que com um único jato queimou todos os navios, os reduzindo a cinzas. Depois disso todos queriam ser amigos do garoto e ele viveu o resto de seus dias feliz, mas antes ele aprendeu que... Mesmo coisas pequenas podem se tornar grandiosas".
    Ethan no outro dia foi até o centro da cidade e fez uma tatuagem, para lhe lembrar daquele dia, ele gravou aquele dragão da estória de sua mãe na sua pele, porque ele sabia que era como aquele garoto... Aparentemente frágil e covarde para as pessoas, mas por dentro tão forte quanto um dragão. 
    ***
    Quando Ethan finalmente voltou ao presente percebeu que já estavam caminhando em um corredor apinhado de alunos curiosos que sorriam ou faziam cara feia e cochichavam entre si, até que finalmente chegaram a porta onde se podia ler "diretoria" e entraram. A mulher que veio ao encontro deles era alta, por volta de seus trinta e poucos anos, com olhos e cabelos negros, seu cabelo estava preso em um perfeito rabo-de-cavalo alto e bem apertado, tinha cílios grandes e cheios e um estranho brilho nos olhos o que os faziam parecer estar sempre arregalados, usava um terninho cinza, sapatos pretos de salto e um batom excessivamente vermelho... Ela lembrava a Ethan uma vilã ou uma bruxa má dos contos de fadas só um pouco mais moderna, mas com as mesmas características marcantes que eram 1) as unhas, os lábios, 2) os olhos e 3) as sobrancelhas, que eram muito arqueadas. Ela estendeu uma mão pálida, com dedos longos e com grandes e pontudas unhas vermelhas assim como os lábios.
    — Olá Sr. Fitzgerald, é um prazer receber você e seu... Filho aqui. — ela o olhou de cima a baixo com desprezo nítido o suficiente para lhe fazer ficar desconcertado.
    — Sim, igualmente... Então gostaria de lhe explicar a situação...!
    Seu pai conversou com a diretora por bastante tempo e Ethan ficou observando-o flertar com ela, quando ela disse que estava faltando alguns documentos para a conclusão da matrícula ou quando tentou insinuar que Ethan não era qualificado para estudar na escola ou mesmo que já estavam na metade do ano letivo, já haviam passado até mesmo das férias de verão, ele sorriu e falou em como os olhos dela eram admiráveis e ela finalmente cedeu e no final ainda pediu-lhe seu número, vê se pode? Depois de esperar por pelo menos meia hora, Ethan começou a se distrair, ele lembrou que enquanto caminhava pelo corredor algo no meio daquela multidão de rostos tinha chamado sua atenção, não foi bem uma coisa que ele soubesse definir, pois estava muito perdido nos próprios pensamentos para ter prestado atenção, foi apenas uma impressão, como se a parte de seu subconsciente que estava funcionando tivesse prestado atenção por ele, era só uma vaga lembrança que começava a ficar nítida agora, a lembrança de um par de olhos cor de mel lhe seguindo tão intensamente que chegou a tirar-lhe o fôlego.
    ~ C O N T I N U A ~
  • Entre a Espada e o Espinho (Capítulo do livro que estou escrevendo)

    A brasa ainda batia em sua face. A imagem da grande fogueira Bravrhera’na visitava seus sonhos. Naquela fria noite, deitou tão exausto da longa caçada que acabou esquecendo-se de apagar a pequena fogueira que fizera. O agudo som dos galhos estalando fez com que acordasse. Virou-se assustado percebendo o enorme cervo ali parado observando-o com temor. O homem tentou se levantar, mas a ferida em sua coxa o impedia dando grandes pontadas em seus nervos. Puxou seu arco, que estava preso ao elevado roble que encobria aquela grande área, mas o cervo, contudo, já estava a metros de distância.
    Bufou decepcionado.
    Fincou sua adaga no roble e com grande dificuldade levantou-se. A chuva havia cessado e a cintilante luz escarlate do sol começava a esquentar seu corpo. Pegou sua espada presa a bainha e a prendeu em seu sinto. Seu estomago reclamava, fazia alguns dias que não comia algo. O vento soprava forte pela manhã, bagunçando ainda mais seus negros cabelos ondulados que acompanhavam sua espessa barba, a qual estava manchada pelo sangue que escorrera durante a noite devido ao corte em seu supercílio. Deu alguns passos desajeitados, o pedaço de tecido que amarrou sobre a ferida de sua coxa para estancar o sangue estava suspenso e o sangue voltava a escorrer. A imagem da fogueira passou novamente em sua mente, dessa vez acompanhada por uma voz pacífica e suave. Assustado, amarrou o tecido fortemente, franzindo o cenho e rangendo os dentes de dor.
  • ESCURIDÃO

    Solidão é a palavra que define meu atual estado: Tristeza, mas não aquela de chorar, eu não choro, não choro mais, e isso foi algo que decidi e consegui cumprir, contudo as lágrimas serem ou não derramadas não me vem ao acaso, não sou de sair, prefiro passar o tempo no meu quarto, perdendo horas e horas na internet, sei muita coisa, porque leio muita coisa e desde sempre até onde me lembro, claro, acredito que coisas que não deveriam existir nesse mundo, existem: Dêmonios, fantasmas, lobisomens, bruxas, e mais tudo que pode ser imaginado.
    Sempre tive medo do escuro, digo, quando eu era criança, mais precisamente não medo do escuro, mas o que nele habitava, morria de medo de dormir sozinho, separado do conforto e proteção dos meus pais, mesmo estando no mesmo quarto o medo me vinha e eu mau dormia a noite, ficava de cobertor erguido à cima da cabeça, pois sabia eu que se olhasse para o escuro veria o que evitava toda noite ver.
    Palhaços gigantes com enormes bocas e dentes afiados para me devorar, esqueletos usando becas voando pelo teto em vassouras e rindo, umas das coisas que mais me pertubou foi a mulher, enquando estava deitado na minha cama ao lado da dos meus pais, juro por Deus e por tudo, eu vi a coberta se levantar, uma vermelha e comprida que adorava, e assim que foi esguida do meu corpo ignorando o fato de eu estar segurando-a uma mulher deitou ao meu lado na cama e nos tapou, sempre que contava essa história eu ficava serio, foi real eu sabia que tinha sido, mas o que mais me espantava era o fato de que minha irmã tinha morrido quando era um bebê, eu ainda não era vivo, caso estivesse viva hoje seria ela uma mulher já feita.
    Mais uma noite veio e eu ansiava pela aurora e o calor do dia, pois se tinha algo que eu sempre dizia era: O mau não age na luz, seja o que for que dominava a escuridão na luz eles não poderiam me fazer mau, ainda no escuro, vislumbrei um lobo, sim, um lobo enorme e com olhos cinzentos que brilhavam, gelei, só o coração batendo enquanto meus olhos acompanhavam os seus lentos movimentos, e o suor começa a aparecer pela minha testa, ele andou e parou perto da lateral da minha cama, olhou-me nos olhos, sorriu, e sumiu, como fumo, e eu continuava a olhar e olhar, sentia os ombros tensos e o pescoço rigido, odiava aquela situação e não via a hora de crescer, pois quando se cresce as fantasias morrem.
    Nessa época meus pais levantavam cedo para ir trabalhar, como eu dormia na maioria das vezes com eles, ficava na cama até de dia e depois ia para casa da minha prima enquanto eles não retornavam, estava de férias no cólegio, não lembro a série, o fundamental  foi o período mais odiado por mim, e isso faço questão de não recordar, dos imbecis dos colegas, a implicancia, e o fato de estar sempre sozinho seja nas aulas ou no intervalo. Como ia dizendo eu esperava o dia adentrar para ir à casa da prima, ainda de madrugada, estava escuro, senti algo cutucar minha coxa, eu medroso já cerrei com força os olhos, tinha essa mania, achava que faria o indesejado desaparecer, nunca deu certo, descobri o rosto um pouco para espiar e me deparei com uma coisa sem rosto e de pela azul escura em cima de mim, nao gritei, nunca gritei(quem iria ouvir) apenas cobri rapidamente o rosto enquanto sussurava por favor, por favor, não sei quanto tempo havia se passado, quando olhei novamente a coisa tinha sumido, reparei pelas gretas da telha e vi luz, nunca me senti tão aliviado.
    Com o passar do tempo que fui crescendo, mudei para o quarto que fora construido para ser meu, no começo não queria, por causa do escuro, nunca disse a ninguém que tinha medo do “escuro”, mas a palavra de meu pai era lei, e eu obedecia, noite após noite e depois de um longo tempo nunca mais vi as coisas na escuridão, eu deitava e ficava encarando o canto entre as paredes, procurando um lobo ou esqueleto, mas nunca mais os vi, pensar nisso me fez me sentir sozinho, e eu fiquei confuso, detestava aquelas coisas bizarras que vinham toda noite me atormentar, só agora percebi que tinha me apegado à elas, eram monstros, mas estavam comigo e só partiam quando a luz ordenava.
    O que tenho hoje são sonhos, loucos e divertidos, sonhos de todos os tipos, as vezes os odeio, porque acordo e percebo que não passou de um simples e bobo sonho, mas eu me sentia tão bem que aquilo era mais real do que a realidade, aproveito ao máximo, até os pesados, pois um dia esses sonhos iram acabar, irei dormir de noite e acorda na manhã e saberei nesse dia que mais um amigo se foi, eram três, os monstros se foram sem eu nem notar a sua ausencia, sonhos ainda tenho, só temo o dia em que acabar e o terceiro e eterno amigo, que me aompanha para tudo conter lugar e sei, esse eu sei que nunca vai me abondonar a menos que eu faça primeiro. A solidão, pois não importa a ocasião eu sempre estou triste.
  • ESTRELAS

    Não pode, não há como você enfrentar tantos sozinhos, por favor – chorando. Não, não vá, não me deixe. Era necessário, para salvar a todos eu precisava usar o portal, só que minha magia estava no fim, e o que sobrou só daria para levá-las, eu teria que ficar para trás, sozinho, e com o exército se extendendo por todo o horizonte.
                É preciso, Estella, se eu não fizer todos morrerão, entenda, eu... é o único jeito, precisava acabar logo com isso ou iria fazer a escolha que queria, era a errada, porém, a que ele queria. Sou como uma estrela, estela: Quando uma estrela morre seu brilho ainda pode ser visto. – E o que isso tem, disse chorando. Apenas a olhei e meu coração se encheu de tristeza, sorri e disse que ela entenderia. A vanguarda inimiga já podia ser avistada precisava me apressar, comecei o encantamento e logo o portal se abriu, enviei-os à capital onde estariam em segurança, logo que sumiram me virei ao horizonte e para o mar de mostros que se aproximava de mim trazidos pelas ondas da destruição, respirei fundo, fechei os olhos e me preparei para a luta, sabia eu que não sairia com vida e mais uma vez a tristeza me abraçou, a última vez que a verei, pensei enquanto corria para a batalha.
                Quando cheguei ela estava sentada na mureta do castelo observando o por do sol e assim que semicerrou os olhos em minha direção deu um pulo de lá e veio correndo se jogando em mim, caimos e rolamos pela grama, ela soluçava e me abraçava enquanto dizia ainda bem, ainda bem, ainda bem. Deitei em seu colo e ao tocar seu lindo rosto de porcelana uma luz saiu de minha mão, estava sem tempo, pois o perdi na caminhada, ela não a percebeu, alisei a porcelana avermelhada que virou sua bochecha e sorri, a última vez, pensei.
                Você voltou, conseguiu, estou tão feliz, ele deitado em seu colo disse: lembra do que eu falei? Que mesmo depois que uma estrela morre, seu brilho ainda pode ser visto?.
    Após estas palavras ela compreendeu, ele já estava morto., deitado em seu colo jurou seu amor e disse que sempre a amou e sempre a amaria, enquanto o sol ia se pondo ele ia junto do astro, ela não conseguia conter a emoção e as lagrimas foram jorando de seu pranto, rolando pelo seu rosto. – Adeus, disse ele, adeus minha querida Estella, a melancolia em sua voz embargada. a lágrima saiu dos olhos de Estella e caiu no canto de seu olho e parecia que ele havia chorado, o sorriso bobo em seu rosto, bobo que ela amou a primeira vez que viu, e agora seria a última, quando o último raio de sol foi-se ele foi reivindicado para os céus, a minha estrela, pensou Estella chorando, o sol se foi e o levou assim como seu brilho. A lua subia alto no panorama celeste junto das suas luminosas, ela passou a noite toda procurando a sua estrela.
  • Eu Juro Que Não Sabia...

    Aquela festa estava destinada a ser inesquecível. Joe já havia bebido muito mais do que pretendia, ficando em um estado totalmente eufórico e imprevisível. Ela dançava no meio da pista como se não houvesse amanhã, remexendo de uma maneira chamativa e sedutora. De repente, ela sentiu uma mão agarrando seu pulso e a puxando para um local escuro e desolado do resto da festa. Era Josh, seu ex-namorado, que claramente não tinha suportado o término. Mas, como estava incrivelmente bêbada, Joanne não se importou com o fato de que tinha prometido à si mesma que não teria mais nenhum tipo de relação com o garoto e deu-lhe um beijo caloroso e equivocado, o deixando extremamente exitado.
         Depois de alguns minutos repletos de satisfação, Josh começou a empurrar a garota pelo quadril até o banheiro masculino, aonde os dois se trancaram em uma cabine e começaram a tirar a roupa um do outro. Porém, havia um detalhe. O garoto posicionou sem celular em um ângulo certeiro próximo a descarga do vaso sanitário que estava logo atrás do "casal". Assim, a câmera do telefone captou momentos que de maneira alguma deviam ser gravados na memória do um celular de um adolescente. Joe estava tão chapada que nem suspeitou de nada e apenas se deixou levar pelos seus instintos que buscavam o ápice do prazer. Mal sabia ela que aquelas gravações iriam gerar um tremendo rebuliço...
         No dia seguinte, Joanne acordou com uma dor de cabeça nefasta. A ressaca estava batendo de um jeito inacreditável. Ela então decidiu que não iria à aula e tentaria sossegar um pouco. Ela foi até a cozinha e tomou um bom café da manhã, depois se deitou no sofá da sala e abriu o seu computador. Seu Facebook estava repleto de notificações. Ao vasculhar um pouco a rede social, Joanne arregalou os olhos e começou a chorar. Todos estavam compartilhando um link que levava até o vídeo gravado por Josh. Joe tratou de pegar seu telefone e ligou imediatamente para o garoto. Felizmente, Estava na hora do intervalo, então o garoto pôde atender mesmo estando na escola.
         - Alô?- O espertinho não parecia nem um pouco preocupado.
         - Seu desgraçado!! Você me filmou fodendo com você sem nem me avisar e ainda espalhou o vídeo para todo mundo ver?!
         - Hey, puta, nem vem com essa que você SABIA que eu estava gravando. 
         - Ai, vai se foder!! É claro que eu não sabia...
         Josh simplesmente desligou na sua cara.
         Joanne ficou arrasada, se trancou no quarto e se pôs a chorar novamente. Se ela ficasse muito tempo ser ir à escola ela sabia que seus pais iriam suspeitar de algo. A pobre garota estava simplesmente perdida...
         Na semana que se seguiu, Joanne percebeu que já estava na hora de comparecer às aulas. Enquanto andava pelos corredores da escola, pôde perceber que todos os olhares se voltavam para ela. Todos riam, xingavam e cochichavam. Quando a aula de fato começou, inúmeros bilhetinhos ofensivos voavam em direção à carteira da jovem. Joe tentou ignorá-los, mas em certo ponto ela simplesmente desabou em lágrimas e pediu à professora para ir ao banheiro. Ela se trancou em uma cabine e esperou até a hora do intervalo. Porém, quando o sinal bateu e Joanne estava prestes à deixar a cabine... Dois garotos adentraram o banheiro feminino silenciosamente e esperaram até que Joe se mostrasse. No mesmo instante que a jovem se dirigiu à fileira de pias para se olhar no espelho, os dois encrenqueiros saltaram em sua direção e a pressionaram contra a parede.
        - Vamos fazer outro vídeo, vagabunda? - Um dos meninos disse tirando o celular do bolço.
        Joanne começou a gritar, porém o garoto mais forte e alto tapou a sua boca e deixou que o outro menino desabotoasse as calças.
       O que se seguiu fora uma cena horrível e extremamente revoltante. Após alguns minutos, os dois deixaram o banheiro correndo em meio a risadas eufóricas enquanto Joe simplesmente se encolheu em um canto, abraçou os joelhos e começou a chorar. Por que aquilo estava acontecendo justamente com ela?!
        Quando chegou em casa, a garota sentiu uma vontade incontrolável de contar aos pais o que havia acontecido, mas... devido à uma sensação horrível que misturava vergonha e medo, a adolescente desistiu e foi direto para a cama, aonde chorou como se o mundo estivesse prestes a acabar, ou... como se já estivesse em ruínas.
        Alguns dias depois, na hora do almoço, um bando de garotas se aproximou de Joanne e começou a xinga-la sem piedade alguma.
        - Ora, ora, ora, se não é a puta do momento... - Uma loira desprezível tratou de comentar.
        - Hahahah, ainda por cima, fica chorando no meio da aula para se fazer de coitada! - Uma outra acrescentou.
        - Me deixem em paz, por favor... - Joanne implorou.
        - Ou o quê?! - A loirinha retrucou.
        Joe respirou fundo e fechou os punhos... Mas não foi capaz de segurar seus instintos. Ela se levantou rapidamente do banco aonde estava sentada e se pôs a puxar os cabelos de uma das garotas ali presentes. A mesma começou a gritar, e logo surgiram pessoas de todos os lados para separar as duas. 
        Mais tarde, Joanne e o grupinho de garotas foram encaminhadas à diretoria e os pais de Joe foram chamados.
        - Por que você atacou a Srta. Manchester, Joanne? - O diretor balofo e mal-cheiroso tratou de perguntar.
        - Porque ela me irritou.
        - E posso saber o que ela fez para te deixar tão irritada?
        Foi aí que Joanne ficou sem palavras... Ela não podia contar o porquê.
        A garota acabou levando uma advertência para casa, aonde a mesma teve que ouvir inúmeros sermões dos pais sem nem ao menos poder se defender... Foi aí que ela teve uma ideia para acabar com tudo aquilo. De madrugada, Joanne se entupiu com os remédios da mãe que havia adquirido sorrateiramente e com uma faca da cozinha, ela simplesmente cortou os pulsos, escrevendo com sangue nas paredes da sala a seguinte mensagem: "Eu não sabia que ele estava gravando. Eu juro que não sabia...". E assim faleceu Joanne Valentine, mais conhecida como Joe. Uma garota forte, porém que não resistiu à mágoa e a humilhação supremas. Vamos acabar com o Bullying, para que a próxima Joanne Valentine possa ser salva... Obrigado pela compreensão.
  • How Be a Mom

    PRÓLOGO
    Não importa o quão racional ou inteligente sejas. Nenhum ser vivo é detentor de tanto conhecimento a ponto de não ser surpreendido pelo desconhecido. Experiências são conquistadas com o tempo, com os erros, com as pisadas em falso. É com elas que se aprende a lidar com o novo, os obstáculos são contornados até que se chegue a seu objetivo.
    O transtorno é imensurável. Ninguém escolhe percorrer o fundo do poço, apenas, em algum momento dessa longa trilha, a qual se chama de vida, tropeça-se em uma pequena pedra, não vista, no meio do caminho. Afinal, as grandes rochas são visíveis e evitáveis, não?
    Impor-se metas. Munir-se das melhores intenções. Planejar cada passo. Até que um dia nota-se que a base de sua construção não era tão forte, que os pilares daquela estrutura já não estavam tão firmes e, em dado momento, caem em pleno caos. Mas está bem, é apenas juntar os pedaços, fazê-los mais fortes e reconstruí-los de uma forma que não caíam mais por aquele mesmo motivo e tantos outros. Assim se forma uma nova etapa da vida.
    “— Essa é uma nova etapa da sua vida Eliza. – o pai deu dois leves afagos no topo dos longos cabelos negros da garota que o mirou com os exóticos olhos violetas — Uma nova etapa. – repetiu e deu um leve sorriso encarando aquele estranho tom.”
    Naquele dia seu pai estava tão orgulhoso, depois de terem feito a matrícula de Eliza Eckhart numa das melhores faculdades de administração do país.
    — Mana? – aquela voz familiar soou longe de seus pensamentos — Mana! – foi o chamado mais alto e os olhos violetas vislumbraram o vulto da mão da menor passando frente aos seus raros orbes — Estou a chamando faz tempo, mana. – Scarlett Eckhart pôs as mãos na cintura delineada, enquanto dava bronca na filha primogênita da família.
    Apenas naquele momento Eliza notou que ainda estava com o lençol, o qual deveria por no colchão, em mãos e olhava perdidamente para algum ponto da parede. A pele tão alva contrastava com os cabelos longos e levemente ondulados da garota, o único problema era o fato de estar anormalmente pálida.
    — Mana? – a caçula dos Eckhart questionou de novo, a sobrancelha arqueada pela dispersão da irmã.
    Os violetas encontraram os verdes esmeraldinos da mais nova, admirou-os por alguns instantes, como resplandeciam num brilho vivaz invejável ou como a coroa alaranjada em volta da pupila tornava o rosto, de traços tão meigos e até infantis, num de uma verdadeira mulher já completa, mesmo tendo apenas dezesseis anos.
    — Mana... – o tom mais ameno da voz de Scarlett chamou a atenção da outra —... o que você tem? – questionou, tocando, numa ternura inquestionável, a bochecha da mais velha.
    Ali Scarlett presenciou o corpo da irmã estremecer levemente, enquanto os olhos violetas tornavam-se opacos de desespero. Naquele ponto Eliza apenas pôs a mão sobre os lábios e saiu em passos ligeiros até o banheiro do quarto de ambas, trancando-o em seguida.
    As batidas e tentativas de abrir a porta do banheiro foram inúteis e já estava pronta para chamar um dos pais quando ouviu o som da descarga e a fechadura destravando. Ao abrir a madeira de mogno, deparou-se com a irmã escovando os dentes. Aguardou um ritual de passagem de água no rosto e um longo suspiro foi dado pela mais velha.
    — Céus mana, você está pálida. – segurou a mão da mais velha e a fez sentar sobre o colchão fofo da cama — O que você tem? Conta para a maninha. – Scar sentou-se na cama ao lado da que a outra estava, os móveis eram próximos, então era fácil para a caçula segurar as mãos de Eliza.
    Sempre foi tão dura e cheia de lógica. Mas onde existe lógica quando se trata do que é sentir? Era tão nova, tinha apenas dezessete anos e mal sabia dos labirintos que a vida impõe nos caminhos traçados. Então todo aquele emaranhado de boas sensações, guiados por belos olhos azuis, fê-la perder totalmente o sentido de realidade naquela simples noite.
    —Scar,eu....
    Claro que não poderia deixar de se lembrar dos sorrisos de canto, das conversas animadas e como ele a conquistou de uma forma que nunca tinha se permitido sentir naquele primeiro semestre da faculdade. De como as palavras sussurradas naquela voz de tom rouco ressoavam em seu ouvido e de como ela foi tão tola em se permitir levar.
    — Você tem estado estranha mana. Mal come, tem estado pálida. – Scar foi pontuando nos dedos — Até mesmo tem dormido mais, quando sempre é a primeira a acordar. – mais uma vez vislumbrou o desespero materializado nos olhos violetas — Mana está doente?
    As mãos tamparam o rosto. O que faria? Como seria dali em diante? Seu corpo. Seus sonhos. Bem podia recordar-se do dia em que, temerosa e de olhares furtivos, foi até a farmácia para comprar o típico teste feito em casa. Sentiu-se tão envergonhada sob o olhar questionador do caixa, mas era Eliza Eckhart e jamais abaixaria os olhos, por isso manteve-os sérios para o senhor de barba branca que apenas se ateve em pegar o dinheiro dado por ela.
    Naquele mesmo dia aproveitou que os pais não estavam em casa e que Scar tinha combinado de ir ao cinema com os amigos do colégio. E não levou muito tempo para que o desespero abatesse seus olhos violetas quando o resultado completou-se com um claro e simples ‘positivo’. Jamais poderia descrever em palavras o que sentiu no exato momento que reviu o exame.
    Eliza Eckhart, a garota genial, que ganhou bolsa integral na faculdade de administração, e provavelmente tinha um grande futuro pela frente ante sua perspicácia. Bem, agora estava grávida.
    — Scar eu... – respirou fundo, pois, mesmo depois de uma semana de ter aquele conhecimento sobre seu estado de gravidez, ainda não havia contado a ninguém —... estou grávida.
    E quisera Eliza não ter falado naquele momento, pois não houve tempo para lamentações, afagos ou questionamentos quando a porta, antes entreaberta, abriu-se de uma única vez para surgir a figura masculina do pai das irmãs Eckhart, Carl Médici Eckhart, com uma expressão que Eliza soube decifrar em algo ruim.
    — Pai. – Scar olhou para a irmã e, em seguida, para o pai, já se erguendo — O senhor...
    — Eliza! – a voz ameaçadora do pai fez a garota levantar-se — Repita o que você disse. – e dessa vez dera passos à direção da mais velha que parecia ter travado ante a indagação irritadiça do pai, nem mesmo havia notado quando a caçula se colocou frente a ela.
    — Carl, que gritaria é essa? – daquela vez foi a mãe quem adentrara o quarto, enquanto segurava uma toalha de louça nas mãos.
    Mas o questionamento de Celiny Evans Eckhart foi deixado em segundo plano pelo patriarca da família que apenas se atinha em fuzilar com aqueles olhos verdes escuros os violetas da filha mais velha.
    Eliza jamais poderia reclamar de sua vida. Teve tudo que precisava, desde as boas roupas e refeições fartas ate as idas ao cinema com a irmã, patrocinadas pelo pai, por sinal, este sempre fora bom com elas, extremamente rígido, mas sempre bondoso. Carl Médici não era o exemplo de pessoa amável, era general militar das forças armadas e pouco sabia demonstrar afeto, mas, de toda forma, mostrou-se ser um bom pai.
    Agora, a primogênita da família, não sabia dizer quem era aquele homem de expressão aterrorizante na face. Por isso quando entreabriu os lábios finos e desenhados em forma de coração nenhuma palavra saiu.
    — Repita Eliza! – foi a ordem não de seu pai e sim da personificação do general das forças armadas.
    — Pai, eu... – a respiração dela estava pesada e o embrulho em seu estômago tornava-se mais fatigante.
    — Você está grávida, Eliza? – Carl questionou mantendo aquele tom desconhecido pela família.
    — O que? – Celiny arregalou os olhos de um tom raro de rosáceo.
    — Eliza! – o tom de voz dele subiu mais uma vez.
    — Sim. – Eliza respondeu de uma única vez vendo o homem ir a sua direção.
    — Não. Não, não pai. – Scarlett se manteve na frente da irmã e a abraçou fortemente contra o peito como se ali pudesse manter a mais velha longe de perigo — Não bata na mana. – pediu chorosa, os olhos esmeraldinos estavam marejados, embora nenhuma lágrima ousasse cair.
    Aquele pedido pareceu travar o homem, mesmo que a expressão de raiva não saísse de seu rosto.
    — Carl, acalme-se, vamos...
    — O pai já sabe? – Carl cortou as palavras de Celiny, o cenho franzido em irritação depois de a mão passar pelos fios negros do cabelo cortado no típico estilo militar.
    Teve um singelo momento que Eliza não soube se conseguiria aguentar o que quer que estivesse em seu estômago, mesmo não tendo conhecimento do que havia lá, jogou fora tudo o que tinha da noite anterior naquela manhã. Então apenas balançou a cabeça afirmativamente. Fazia dois dias que foi até o apartamento de Braddley Cooper falar do que estava acontecendo e quando o fez o rapaz de seus vinte e cinco anos apenas retrucou que tinha de se mudar devido ao emprego. No dia anterior a Eckhart mais velha descobriu que ele não morava mais naquele apartamento e transferiu a faculdade. Depois disso não soube de mais nada.
    — Onde ele mora? – o pai questionou raivoso, tirando Eliza das lembranças que havia adentrado.
    Silêncio.
    Desde que iniciou a faculdade não comentara com os pais sobre o rapaz que adorava dar belos sorrisos a garota ou como aparecia de surpresa na biblioteca para ter longas conversas com a mais velha, tantas foram às vezes em que a bibliotecária os expulsava do lugar e eles iam até o gramado do campus continuar o bate-papo animado. E, claro, Eliza não era boba, ao menos não achava que o era, demorou um bom tempo até ele roubar o primeiro beijo do casal. Naquele dia, ao retornar da faculdade, contou a irmã que conhecera um cara legal e depois disso não voltou a mencioná-lo mais.
    — Eliza, meu bem, fale para podermos conversar com o rapaz. – Celiny se pronunciou, sabendo que Carl estava no seu limite de ‘compaixão’ pela filha.
    — Ele... – o coração dela disparou rápido dentro do peito —... saiu da cidade. - fora tão tola em se levar por alguém que apenas a fez se apaixonar para levá-la à cama.
    Um novo momento de silêncio, mas daquela vez pelo lado dos pais.
    —Pai,eu...
    — E o que você pensa que vai fazer? – Carl daquela vez estourou, tirando Scar do caminho enquanto segurava o braço de Eliza — Ele assumirá, por acaso? – esbravejou, dando uma boa sacudidela na mais velha.
    —Nãosei.
    — E como criará essa criança?
    —Nãosei.
    — Onde você estava com a cabeça, Eliza? – extravasou totalmente fazendo a mais velha cair sentada na cama depois de uma das sacudidas.
    — ‘Desculpa’ pai, eu...
    — Eu não criarei bastardo na minha casa. – continuou.
    — Carl, nós podemos resolver isso. Acalme-se, meu bem. – Celiny tentou se aproximar, só que, mais uma vez, ele se aproximou de Eliza, ficando frente a mais velha.
    — Fora da minha casa! – disse em plenos pulmões e todas as expressões naquele quarto foram a mesma de desespero.
    — Carl você não pode fazer isso. Eliza é nossa filha. – Celiny se antecedeu, rogando em desespero pela primogênita.
    — Se tem a capacidade de se entregar para qualquer um, também já pode se criar sozinha. – o homem retrucou de forma rude — Na minha casa não se cria mulher da vida.
    Aquelas palavras realmente a feriram de uma forma que não soube explicar. O embrulho do estômago estava em segundo plano, agora sendo substituído por uma pontada de dor no peito. Estar grávida era tão ruim assim? Ela não queria que seu pai criasse a criança que estava por vir, mas eram necessárias todas aquelas palavras?
    — Você não ouviu Eliza? – ante o silêncio e o olhar arregalado da mais velha, Carl se pronunciou — Não a quero ver nem mais um minuto nesta casa. – e naquele ponto segurou o braço da garota, enquanto num momento totalmente fora de si, puxou a garota, saindo do quarto.
    — Carl, pare. – Celiny foi atrás do marido, tentando pará-lo — É nossa filha, Carl. – as lágrimas escorreram dos exóticos orbes rosáceos.
    — Pai, vai machucá-la. – Scar acompanhava numa tentativa de fazer o pai voltar atrás na decisão — Larga a mana, pai. – e nem mesmo sendo tão forte pôde evitar que as lágrimas escapassem de seus olhos. Eliza era sua irmã, sua companheira, um pedaço dela.
    A esperança delas, de que o homem voltasse atrás, simplesmente se acabou ao vê-lo abrir a porta e colocar, literalmente, Eliza para fora da casa. Num último vislumbre, ainda, viram que a mais velha tentou falar algo quando a porta fechou-se por completo.
    — Carl, você não pode fazer isso. – Celiny tentou ir até a porta chaveada e Carl e segurou pelo braço.
    — Abra essa porta e você será a próxima a ir com ela também. – rosnou enfurecido para depois olhar a caçula da família — E o mesmo serve para você. – soltou o braço de Celiny que tinha o olhar em pleno terror, realmente não reconheceu aquele homem a sua frente.
    Aquele nó na garganta de Scar resolveu se desfazer em prantos, os quais fizeram a garota subir os degraus da escada o mais rápido que pudesse até se trancar no quarto. Seu coração doía tanto. Tentou escorar-se na janela para avistar a irmã, mas nada mais viu além de vizinhos enxeridos.
  • Impersonalidade

    Os rostos deterioram-se com o tempo
    Numa infinita espera pelo Paraíso
    Com as relações tornadas mementos
    Pelo mesmo motivo, falsos sorrisos

    Como o fácil se torna difícil?
    E como podemos trazer a felicidade,
    Para uma mente tão infantil?
    Não, o que nunca me faltou foi a maturidade

    Como podemos acreditar sem ver?
    Talvez eu não saiba quem sou
    De onde encontramos essa razão de viver,
    Se tudo o que disse, apenas falou?

    Quem é o verdadeiro infeliz,
    Em sua pequena visão de mundo?
    Explicando sua opinião mordaz,
    E esperando pelo fim, moribundo

    Sou como um rato,
    Escondendo-se da realidade
    Uma ovelha social, o seu gato
    Esperando para emboscar a veracidade

    Como funciona o ceticismo,
    Se nada do que vê, acredita?
    Escondido em um psíquico animalesco,
    Uma fraca alma niilista
  • Lembranças de um passado perdido

    Lembranças de um passado perdido
    Por que tinha que ser assim? Eu desisto!
    Pensava ele a frente da forca em um quarto escuro cheio de cartilhas remédios, cigarros e pílulas. Seus remédios já não funcionavam a um bom tempo. Ele não aguentava o peso da tristeza em suas costas. Ele só queria sair desse mundo cruel.
    Então no ápice de sua depressão o fez, acabou com sua própria vida. Porem antes de desmaiar graças ao sufocamento, ele se lembrou de sua infância, ele achou que aquilo era algum tipo de castigo, seu inferninho pessoal, uma maneira de fazê-lo sofrer e até que adiantou. Foram 10 segundos infernais e agoniantes, os mais longos de toda sua vida. Só que uma lembrança apareceu, uma lembrança confortante de sua mãe fazendo o almoço logo após dele ter chegado em casa. Ele ficou feliz, em seu ultimo segundo se abriu um sorriso em seu rosto, o mais triste é que em seus 10 últimos segundos  em 9 ele acabou sofrendo. Foi como um pesadelo seguido de um sonho, uma sensação confortável porem agoniante, era uma sensação de arrependimento.
    Ele acabou vendo uma imagem de um ser estranho ao meio de um ambiente em brasas, um ser cinzento. Chorando sangue o disse:
    -O mundo não é cruel, eu sinto. O estralo das chamas era alto demais para ouvir.
    Enquanto a figura dizia isso o lugar começava a pegar cada vez mais fogo, uma chama ardente, ele percebeu que iria sofrer para toda eternidade.
    -Mas quem é você? Disse ele.
    -Eu sou as lembranças de um passado perdido.
  • NÃO HÁ LUZ SEM ELE

    Era um dia atípico de inverno, parecia mais uma primavera se encaminhando para o verão; faziam talvez, uns 28°C, escaldante para o sul e agoniante para ela.
    Em compensação, o dia estava lindo como não havia há dias. E, assim como as controvérsias do tempo, o coração dela estava tanto quanto. Mesmo a bagunça sentimental cessando, a data não ajudava na recuperação, faziam exatos dois fucking meses desde a pior despedida dela. Até os de coração mais frio tem alguém que seja o ponto fraco, aquele que derrete os tantos graus de uma pedra fria no peito.
    Ela se arruma e sai, vai cuidar da vida. O dia flui leve, a hora passa rápido e até aí o que a incomoda é o calor.
    Olha o relógio, hora de ir embora;
    Pega o casaco, entra no carro, liga o rádio e vai.
    É no caminho de volta que trabalha a tormenta e tão atenta à datas, sabendo o dia que é, a faz temer e tremer ainda mais.
    Nos pequenos gestos de tentar não vê-lo, a vontade ainda ultrapassa a racionalidade e uma viradinha de lado com a cabeça para ver nem que seja o carro sempre acontece; porém a sorte, por assim dizer, sempre a acompanhou, fazendo com que nem o carro estacionado ela avistasse longe.
    A rua é reta e longa, de longe ela já consegue ver o brilho dourado refletido pelo fox 2004 e mesmo o coração gritando e implorando para que ela mantenha o foco à frente, a teimosia e a saudade fazem ela virar a cabeça reciosamente para a esquerda. O coração grita de tristeza. "Garota idiota! Eu bem avisei! Agora eu que aguente, não é?!"
    Ali está ele, bonito como nunca. A visão de uma fração de segundo é o suficiente para formar horas de lembranças.
    Nesse instante já não há mais calor, o céu escurece e nem a estrela mais distante brilha e a vontade de fazer o que quer tenha que ser feito se esvai.
    Só há uma luz. Aquela que ecoa no pensamento de que "Bem, se estando longe de mim o deixa feliz, em algum pulo eu acertei".
  • Neutralizado

    Essa foi a melhor maneira de terminar isso
    2015, 6 de dezembro, 46 anos
    Todo mundo diz que a vida passa na nossa frente quase como um filme antes de morrermos. Dizem que tal evento só acontece quando estamos numa situação de perigo e vimos a morte chegar impulsiva e devastadora no nosso campo de visão, mas o meu caso pode ser diferente, pelo menos eu acredito que seja. Porque afinal de contas eu estou aqui, deitado de barriga para cima no chão gelado do meu banheiro com um frasco meio cheio de neutralizadores na mão. Não há perigo iminente ou algo do tipo, eu simplesmente espero a morte.
    Na embalagem diz “cuidado, altas doses não são recomendáveis. Se o efeito não for o desejável com as dosagens recomendadas, pare com o uso”. Que engraçado, talvez todos esses anos enquanto eu tomava a dosagem certa eu estivera morrendo aos poucos, e agora eu simplesmente, com a medida certa, o fiz da melhor maneira. Acabei com isso rápido.
    Ou não tão rápido assim. Poucos minutos atrás eu estava chorando e as beiradas dos meus olhos ainda ardem um pouco. Estava triste e furioso. Possivelmente, neste exato momento, eu estaria realmente puto por estas pílulas estarem demorando tanto tempo para me matarem e talvez até com medo de morrer. Mas esse é o lado bom de pílulas neutralizadoras, você não sente medo de morrer, aliás, você não sente nada! Então, se você quer se matar, as recomendo fortemente! O estranho é que eu precisei sentir – e muito – para querer morrer. Quando enchi minha mão de comprimidos e os engoli com o auxílio de um suco de laranja cheio de açúcar, eu estava sentindo. Vou tentar descrever pra você o que eu senti já que nesse exato momento, estou tão repleto de sentimentos como uma porta.
    Dor.
    Uma quantidade absurda e imensurável de dor, quase palpável e que eu sentia enquanto lágrimas escorriam dos meus olhos e meu estômago se revirava numa dança selvagem. Uma dor que refletia toda a culpa, tristeza, luto e ódio que tomavam conta de mim. Se eu estivesse neutralizado, isso não teria acontecido. Eu estaria indiferente com os prós e contras da morte, assim como os da vida. E eu juro que agora, sinto tão pouco que não há maneira alguma de me sentir arrependido. Admito, no entanto, que ainda ouço aquela voz lá no meu interior gritando aquelas coisas. Mesmo neutralizado ao extremo e a beira da morte por uma overdose de pílulas neutralizadoras, ainda a ouço. E ela me implora por uma coisa.
    Apenas uma única coisa seu bastardo de merda! Você precisa fazer isso! Por acaso quer morrer sozinho?!
    A resposta é: Sim, eu quero. Mas a pequena voz continua a gritar dentro de mim:
    Qual é o seu problema? Acha que há alguém falando com você agora? Você sou eu, eu sou você, Damien Roseburn. Se eu quero que você faça isso, você também quer!
    Bem, nisso ele tinha razão. Ou eu tinha razão. Algum desses dois. Não vai custar nada, vai?
    Levantei-me do chão com um esforço incomum e deixei o frasco em cima da pia. Noto que acabei de me salvar de um tremendo clichê de suicídio no chão do banheiro com a arma do crime em mãos. Vou até a sala de estar, pego meu celular e disco seu número, ainda o lembro de cabeça. O telefone chama um pouco e ela atende.
    — Oi. — Digo daquela maneira seca e indiferente de falar. Não tento escondê-la.
    — Damien? Oi… — Uma pausa desconcertante.
    — Você acha que vale a pena? Eu digo, viver. — Falo ainda em tons monótonos.
    — O que? Damien, do que você está falando? O que aconteceu? — Na sua voz, um toque de nervosismo.
    — Eu fiquei sabendo de umas coisas…— Comecei a brincar com uma almofada do sofá da sala — Não encarei muito bem e fiquei muito, muito mal. Você não respondeu minha pergunta.
    — Damien fala comigo, o que tá acontecendo? É claro que vale a pena viver. Pare de pensar bobagens! — Ela quase grita.
    — Eu queria que você me dissesse que valeu a pena. Acho que na minha situação é comum pensar se a vida valeu a pena ou não. Pesar as situações boas e ruins e ter um veredito final. Mas eu tomei pílulas neutralizadoras e bem… Não me vejo em ocasião para ter esses momentos… E você me conheceu tão bem...—
    — Damien Roseburn, seu babaca! Onde você está?! Quantas pílulas você tomou?! — Ela parece que começou a correr e agora está gritando e me xingando a plenos pulmões.
    — Sim, eu talvez seja um babaca. Estou em casa, deitado no meu sofá. Devo ter tomado umas vinte.
    Fui xingado mais vezes. Ela começa a chorar dizendo que está a caminho.
    — Hannah, você está longe demais. Não se preocupe, eu não estou sentindo nada agora. Essa foi a melhor maneira de terminar isso. — Esperei ser interrompido, mas o único som que eu pude ouvir foi o de seus soluços e seu choro desesperado. — E eu queria te dizer uma coisa.
    Nunca iria imaginar quantas vezes iria conversar com lágrimas novamente
     1978, 20 de Agosto, 8 anos
    Aos oito anos de idade, uma criança pode ser encantada e entretida por diversas maneiras.
    — Robô! Por favor, Robô pai!
    Fui correndo em direção ao meu pai pedindo pelo grande ‘robô’. Dimitri Roseburn, um homem grande com um bigode escuro que faz parte da sua identidade, parou de ler seu jornal das notícias de domingo, colocou-o na mesa e levantou-se da poltrona de couro.
    O robô é algo extremamente divertido e é uma das minhas brincadeiras prediletas. Papai, por sua vez, é um mestre nisso. Acontece da seguinte forma: Apoio meu pé direito em cima do seu pé direito – o que devido a nossa diferença de tamanho, chega a ser confortável –, faço o mesmo com o seu pé esquerdo. Tudo isso enquanto meu pai segura meus braços para que eu não me desequilibre e caia pra frente. A ideia é que eu sou um humano e meu pai é um robô, uma espécie de megazord entende? Primeiro ele dá alguns passos lentos e eu sou levado junto, mas é como se eu o controlasse. No final ele me levanta pelos braços e então é como se o humano saísse do robô e ficasse pendurado por ele. É a melhor parte, bato as pernas como se estivesse realmente voando.
    Um apito vem da cozinha ao mesmo tempo que a porta da sala se abre. Papai me coloca no chão novamente e vai checar o fogão, vejo ele tirando um bolo do forno e o cheiro de queimado se alastra quase que instantaneamente pela casa. Joseph, meu irmão mais velho, passa pela porta com uma caixa de sapatos alocada gentilmente em baixo de seu braço direito. Vou correndo em sua direção.
    — Não Damien, isso é pra mamãe. – Joseph levanta a caixa para fora do meu alcance.
    Sinto tanta raiva por isso que quero chutar sua canela, mas apenas puxo a barra da sua camisa e insisto:
    — É o presente dela? Deixa eu ver, vai!
    Joseph bagunça meus cabelos e dá um daqueles sorrisos que adultos dão para crianças calarem a boca. Isso não é nada justo! Joseph é apenas 3 anos mais velho que eu, duas vezes mais alto e se acha um adulto como mamãe ou papai. Cruzo os braços e fico de cara emburrada enquanto papai tenta salvar o bolo queimado na cozinha e Joseph sobe as escadas, indiferente.
    Vou até a varanda e sento nos degraus que ficam de frente para a grande plantação do meu pai. Vivemos numa grande fazenda numa região um pouco distante da cidade. O vento quente bate no meu rosto enquanto penso no presente que Joseph irá dar pra mamãe e sinto uma pontada de inveja. Com certeza será melhor do que aquela carta dizendo “eu te amo” que escrevi pra ela pintado com giz de cera laranja e vermelho. Então decido dar o meu presente, talvez ser o primeiro a impressione. Volto para dentro de casa e subo as escadas até o meu quarto. Encontro com Joseph sentado na cama de cima da beliche. Não é bem um quarto só meu, vamos assim dizer. Pego a carta que fiz de presente e saio enquanto meu irmão cutuca a suspeita caixa de sapatos. O quarto de Maria está aberto. Ouço suas risadas e quando entro, me deparo com meu pai sentado ao seu lado, na beirada da cama, apoiando o rosto nas mãos.
    — Não está tão ruim assim. — Papai não parece estar gostando muito da brincadeira.
    — Eu disse que não era uma boa ideia! Se ao menos me deixassem fazer o bolo — Mamãe para de falar e tem uma crise de riso.
    Chego mais perto e observo o tamanho de sua barriga de grávida. É literalmente enorme. Me pergunto então, com o maior dos temores, se aquilo estaria comendo minha mãe viva.
    — Vejamos quem está aqui! – Mamãe me recebe, animada.
    Maria é uma mulher linda. A mais linda, na minha opinião. Seus cabelos longos e ondulados que batem na sua cintura são minha parte preferida nela. Depois de grávida, papai vinha constantemente a proibindo de fazer metade das coisas que ela normalmente fazia, mamãe começou a usar vestidos mais simples e quase não sair do quarto. Mas, as vezes, esse esquema de superproteção dava um pouco errado.
    Errado como um bolo de aniversário queimado.
    Papai me levanta como um incrível robô, sai da cama e me coloca sentado no seu lugar.
    — Vou a cidade comprar alguma torta. – Diz, infeliz, beija minha mãe e vai embora.
    — Feliz aniversário mamãe! – Eu digo e lhe entrego o bilhete.
    Maria leva alguns segundos para ler, abre um sorriso e me abraça dizendo:
    — É o melhor presente que eu já recebi na minha vida! É lindo Damien. 
    Ter a exata noção de que o presente era tosco e estava longe de ser o melhor que ela já havia ganhado me deixa um pouco confuso sobre o motivo pelo qual escolhi entregá-lo. Fiquei pior ainda quando Joseph entrou no quarto com um pequeno filhote de cachorro.
    — Ai meu Deus! — Mamãe gritou de uma maneira que eu levei um tremendo susto.
    — Feliz aniversário! — Joseph diz e coloca o pequeno cãozinho na cama. Incomodado, eu levanto e fico o encarando. É um cachorro simpático de pelos cinzas, tão fofo que quis apertá-lo. Eu até apertaria se não estivesse morrendo de inveja do presente de Joseph.
    Papai coloca a cabeça pra dentro do quarto e grita:
    — Vamos Joseph! A torta!
    Joseph abraça minha mãe e vai junto com papai. Ficamos só nós dois enquanto minha mãe brinca com o filhote. Ela nota minha cara emburrada e pergunta:
    — Me diz, o que você mais gosta no mundo inteiro?
    — Você! - Digo, de ímpeto.
    — Não, não, algo material. Que não seja nem eu, nem papai, nem o irmão Joseph e nem seu pequeno irmãozinho aqui. — Ela toca a barriga.
    Fico impressionado com a maneira pela qual ela colocou aquilo no meio de potenciais coisas que eu mais gosto no mundo inteiro. Cai fora!
    Cedo um pouco e respondo:
    — Hum... A chuva.
    — Pois bem! Chuva então. — Ela diz com aquele seu sorriso jovial erguendo o cãozinho cinza no alto.
    Reviro os olhos e viro as costas. Mamãe abaixa o cachorro e pergunta, confusa:
    — Damien, o que diabos tá acontecendo?
    — Nada.
    — Damien, eu te conheço.
    — Nada mãe.
    — Damien Roseburn, se você continuar chateado, aí a mamãe vai ficar chateada. E eu fico muito triste quando chateada. Quer que eu fique triste?
    Ela sempre me convence facilmente.
    — Joseph sempre te dá os melhores presentes. O presente desse ano foi tão bom que ele te deu algo que respira!
    Mamãe dá uma pequena risada que me constrange.
    — Ah pare com isso filho, eu amei o seu presente.
    Ainda cabisbaixo, sentei perto da minha mãe enquanto o cachorro tentava se aninhar no meu colo.
    — Bem... Desculpe por isso, eu só queria te deixar feliz no seu aniversário.
    Chuva deitou no meu colo, parecia estar mastigando algo. Olhei descrente para o cachorro. Ele definitivamente estava mastigando algo.
    — Meu bilhete... — Apontei para o filhote.
    Mamãe colocou o cachorro no chão e tirou metade do papel da sua boca. Agora dizia “amo” nele.
    Quis chorar. Quis muito chorar. Meus olhos encheram d’água e minha mãe disse:
    — Sabe o que eu mais queria ganhar hoje e que respira?
    Tentei perguntar mas se eu o fizesse, irromperia em lágrimas. Maria estendeu sua cabeça para trás de um jeito dramático.
    — Flores. — Disse, enfim.
    — Mãe... — Tentei engolir o choro para explica-la. — Flores não respiram.
    Ela riu e rebateu:
    — Respiram sim Damien, não sabia?
    Como assim flores respiram? Elas não têm nem mesmo pulmões para isso. Mas se minha mãe está dizendo, deve ser verdade.
    — O quanto você está afim de ganhar flores? — Perguntei esperançoso, lembrando da quantidade de flores que havia lá fora para buscar. Talvez mamãe estivesse sendo tão presa por papai que ela não tinha tempo para busca-las sozinha. — Tipo, muito?
    — Muito! Muito mesmo!
    Virei as costas para o sorriso da mamãe e corri até fora de casa. La fora, corri mais ainda. Corri até meus pulmões começarem a arder. Eu lembrava de um lago, e nesse lago haviam umas flores em volta que eram simplesmente perfeitas. Passo todo o caminho pensando na mamãe recebendo as flores com aquele seu sorriso e brilho nos olhos. Ela vai até esquecer de Chuva, tenho certeza! Enquanto caminho por uma vegetação que vai até meus joelhos, o céu começa a escurecer e ser tomado por nuvens cinzas e carregadas. Daqui consigo ver a rua de barro que meu pai usa pra chegar na cidade. Vejo seu carro passando na direção de casa.
    Não preciso me apressar, já estou no lago. Começo a procurar e logo as encontro perto de uma grande rocha repleta de musgo. Um grupo com seis orquídeas, pego metade delas, com o intuito de voltar lá outro dia e pegar as restantes, mamãe ia se surpreender quando o fizesse!
    Na volta, começa a chuviscar um pouco e eu coloco as flores por baixo da camisa para guarda-las bem. Quando estou no meio do caminho, vejo a caminhonete do meu pai indo – dessa vez, com uma velocidade anormal – para a cidade. Será que o bolo veio ruim?
    Chegando em casa, a chuva começa apertar e sou obrigado a correr. Tiro os tênis enlameados na porta. Não há ninguém na sala. Na cozinha, apenas uma grande torta de chocolate. Não vejo nada de errado nela para voltarem a cidade e comprarem outra.
    — Joseph?
    Pelo silêncio, parece que ele foi com o pai até a cidade de novo. Subo as escadas para entregar meu presente. O quarto de mamãe está vazio.
    —Mamãe? — Pergunto retoricamente, tomando noção da solidão. Subitamente fico com medo. Um medo acompanhando de um tremendo mal pressentimento. Sento na cama da minha mãe e sinto um molhado gosmento no traseiro. Saio enojado e sento perto da porta. Não leva muito até Chuva aparecer. Depois de um tempo, acabo brincando com o filhote, tomando até certa simpatia por ele.
    Não sei bem quando eu caí no sono, mas a primeira coisa que vi quando acordei foi um traço verde na minha mão. Pisquei mais duas vezes e vi que aquilo era parte do que eu tinha trazido. Onde está o resto!?
    Chuva sentava na minha frente, ofegante. Um de seus dentes estava roxo.
    — Seu idiota!
    Quando levantei correndo, pronto para esganar o cachorro, a porta no meu lado abriu e se chocou no meu ombro com força.
    — Ah, Damien!
    Era Joseph. Ele veio me abraçar.
    — Tá tudo bem. — Eu disse, esfregando o ombro, pensando que era um abraço de desculpas.
    — Mamãe... Ela... — Joseph tentava falar algo enquanto chorava.
    Eu nunca tinha visto meu irmão chorar.
    — Joseph?
    — É uma menina! — Um sorriso apareceu entre suas lágrimas.
    — Que bom... Mas... Cadê a mamãe?
    Já era bem tarde, seu aniversário deve ter passado e nem comemos a torta ainda. Olhei para minhas mãos e em um dos pequenos galhos ainda haviam algumas pétalas. Ainda poderia entrega-las!
    — Mamãe morreu Damien.
    É estranho quando não conseguimos achar palavras certas e a única coisa fácil, viável e certa a se fazer é chorar. Eu abracei meu irmão e em meio ao silêncio, choramos juntos. Uma espécie de troca de lágrimas. Um novo conceito de diálogo.
    Nunca iria imaginar quantas vezes iria conversar com lágrimas novamente.
    Ocupamos nosso tempo interpretando papéis com emoções fictícias
    2015, 12 de março, 45 anos
    São oito da manhã e já faz algum tempo que encaro o teto do meu quarto com aquela mesma expressão vazia de sempre. Metade do meu corpo nu está descoberto e eu sinto frio onde o vento toca. O frio é uma das poucas coisas que sinto, devo dizer. Naquela época em que eu gostava muito de certas coisas e odiava outras, eu costumava a gostar do frio. Na verdade, eu iria estar adorando essa manhã de hoje. Na minha esquerda, o quarto se encerra em grandes janelas, onde posso ver nitidamente toda aquela imensidão de nuvens carregadas e arranha céus que parecem estar literalmente rasgando as nuvens daquele cinza escuro. Ao meu lado, uma luz vermelha pisca, mostrando uma nova mensagem na secretária eletrônica, aperto um botão na máquina e sigo até o banheiro para tomar banho.
    ­— Ei Damien, é Elisabeth. Então, faz um bom tempo que a gente não se vê... Você não manda notícias... Estamos morrendo de saudades, então decidi marcar um jantar para o próximo mês, já que Joseph também vai estar passando na cidade para nos visitar! Me responda quando der, ok? Fernando está te mandando um grande abraço. Te amo maninho, se cuida.
    Acabo de ouvir a mensagem enquanto um jato de água quente bate nas minhas costas. Encosto a testa no azulejo do meu banheiro. Tudo indica que depois de receber uma mensagem dessas da minha própria irmã eu estaria me afundando em culpa e possivelmente, saudade. Mas indícios não funcionam bem comigo e, na verdade, não funcionam bem com toda a grande gama de neutralizados do mundo.
    Faço meu cooper rotineiro até a praia e percorro toda sua orla. Paro um pouco antes do fim dela, numa árvore centenária repleta de raízes exuberantes. Logo após ela a calçada se eleva e dali é possível ver as ondas mais fortes batendo nas pedras lá em baixo. Não é medo, simplesmente paro antes dali e volto. Sempre é assim, é um hábito.  E por favor, não se ocupe fazendo perguntas do tipo “por que neutralizados fazem atividades físicas? Pra que se preocuparem com a beleza ou saúde?”, você muito provavelmente me verá fingindo ser o que não sou para o “bem estar”. Seja meu ou da sociedade. Neutralizados fingem o tempo todo. Preciso ter um físico saudável para ter melhores chances de socialização e até, maiores chances de uma vida longa. As vezes finjo um sorriso até. Fazemos isso sempre. Enquanto os que sentem ocultam suas emoções, ocupamos nosso tempo interpretando papéis com emoções fictícias.
    Chego no meu prédio, cumprimento o porteiro com um aceno e um sorriso falso – olha lá – e ele responde balançando a cabeça com um sorriso simpático.
    — Como vai Sr. Francisco?
    — Bem, querido. Vou bem. — O senhor Francisco — um idoso sempre amigável e gentil com todos que passam — tem um bigode branco e bem cuidado, nunca deixo de reparar nele.
    Entrando no elevador, ouço um grito feminino.
    — Espera!
    Coloco a mão entre as portas para o elevador não fechar. Ela entra e diz:
    — Obrigado, mas você não deveria colocar a mão aí, é perigoso demais.
    A pequena mulher entra ofegante e vermelha de exaustão.
    — Não há de que. — Ignoro a proposta sobre perigos, afinal, não sinto medo. Retrato o melhor dos meus sorrisos. Ela me olha de um jeito estranho e lembro que o melhor dos meus sorrisos é péssimo.
    — Qual andar? — Ela pergunta apertando no botão 7. Percebo que seu cabelo escuro e curto é extremamente bagunçado e tem uma mecha tão rebelde que é possível reparar de longe. Me pergunto porque alguns dos que sentem não se preocupam com a aparência.
    — Décimo segundo, por favor.
    Quando chegamos no sétimo, o elevador não para e continua subindo.
    — Que merda... — A moça se afasta das portas e junto comigo, nota que também passamos do décimo segundo. — Isso tá errado cara.
    O elevador para com um solavanco violento.
    — Puta merda! — Ela grita. Está quase entrando num estado de pânico.
    — Calma. — Digo num tom calmo enquanto pego o meu celular para ver as horas.
    — Calma?! Estamos dentro da porra de uma caixa de ferro a o que? Quinze andares do chão?!
    Ela começa a dar voltas no elevador enquanto eu continuo parado no meio em perfeito descaso.
    — Sim, mas ele não deve cair, eu acho.
    A moça é pequena, mas quando vira-se e olha pra mim com aqueles olhos escuros, posso jurar que quase vejo sangue escorrendo deles. Até sentiria medo dela se não fosse pelo fato de...
    — Você é um neutralizado?! — Ela grita. Sua mecha escura de cabelo cai sobre sua testa, errada e sem sintonia.
    — Sim
     Já é hora de mais uma dose, procuro dentro da minha calça, acho a pequena caixa e tiro um comprimido dela. Levo à boca e engulo à seco.
    — Isso não é justo, eu sou claustrofóbica. Eu não posso ficar aqui. — Ela começa a andar mais rápido, se agarrando aos seus cabelos desarrumados.
    — Quer uma? — Ofereço a caixinha de neutralizadores.
    Enquanto a encaro ceticamente, repleto de boas intenções, ela me encara de volta, parecendo reunir toda a fúria do mundo para lançar em mim com seus olhos feitos de armas. Recolho a mão e guardo os neutralizadores no bolso sem saber o que dizer.
    —Vai se fuder! — Ela cruza os braços e se vira. — Neutralizadores são drogas de covardes.
    Não sei se foi algo armado ou simplesmente as palavras dela foram um feitiço para fazer o elevador abrir as portas. Ela sai de lá sem olhar para trás, provavelmente pouco se importando de estar no décimo quinto andar. Permaneço no elevador até as portas se fecharem de novo, refletindo sobre as acusações.
    Você não é um covarde. Ela não passou pelo que você passou.
    Aquela voz na minha cabeça de novo.
    Relaxado não é bem o estado certo, mas eu não me sinto mal ou algo do tipo. Apenas tenho aquele incômodo habitual. Nada fora do comum. Chego no meu apartamento, tomo outro banho quente e me arrumo para o trabalho.
    E eu me pergunto se um dia o amor me destruiria assim também
    1985, 9 de Fevereiro, 15 anos
    A alteração dos batimentos cardíacos, o rosto meio corado e a gota legítima de suor que define aquele sentimento típico: Raiva.
    — Me desculpa, mas — eu digo, trabalhando numa gentileza forçada — você não estava na minha frente.
    Apontei para a fila que se estendia até a entrada do refeitório. O grande gordo loiro tinha aquela cara de mongol que por si só, já me irritava. Seu uniforme da escola estava do avesso e eu não fazia a mínima ideia do porquê disso.
    — Me desculpa, mas — Rebateu ele, fazendo uma imitação nada verídica da minha voz — eu vou ficar nessa fila e meus amigo também chegarão e eles fica também. Obrigado.
    E virou as costas, me deixando com aquela cara estupefata diante de tanta falta de concordância e excesso de babaquisse em uma frase só.
    Meu sangue ferveu um pouco mais. Meu rosto, mais enrubescido. Meu punho, um tanto descontrolado. Cutuquei-o no ombro mais uma vez e ao tempo dele virar, dei um murro na sua cara com toda minha força.          
    Na minha volta um “ooooohh” uníssono dos outros estudantes se deu lugar num completo estardalhaço. O gordo loiro me encarou cético com a mão no nariz, a essa hora com uma quantidade considerável de sangue. Devo dizer que o gostinho de vê-lo naquele estado me satisfez um pouco, mas nada se comparou ao medo que se sucedeu. Não simplesmente pelo fato de ele se jogar em cima de mim e me jogar no chão (vamos considerar o seu peso colossal em comparação ao meu e não tomar essa luta como justa), mas também pelos seus amiguinhos, que eu sabia muito bem quais eram, retardados colossais assim como o líder, que agora eu vejo chegarem enquanto me protejo dos socos sem técnica, mas ainda assim pesados que ele dá nas tentativas de acertar meu rosto.
    Não sei quantas pessoas estão me dando pontapés e em meio à um espancamento e uma gritaria absurda a minha volta, não é muito fácil manter a compostura e muito menos tomar decisões sensatas. Continuo tentando defender meu rosto, encolhido no chão quando ouço alguém gritar:
    — Parem com essa merda!
    Consigo ver o gordo loiro sendo agarrado por trás e puxado dali. O herói? Joseph Roseburn, meu irmão mais velho. Logo depois, outros rapazes que de acordo com minha memória, são amigos de Joseph também puxam os outros garotos. Eles cedem por que afinal de contas meu irmão e seus amigos são veteranos e maiores (mas não retardados). Eles saem satisfeitos enquanto Joseph se agacha no meu lado.
    — Você tá bem?
    — Não acredito que você me fez esse tipo de pergunta. — Sento no chão e passo as mãos nas costelas, tudo em ordem. Sinto uma dor absurda no pulso direito e faço uma careta. Joseph ri e rebate.
    — Depois de uma dessas você sair com o pulso machucado...
    — Meu corpo todo dói.
    — Faz parte. — Ele pode falar esse tipo de coisa mas brigar nunca foi, nem de longe, um dos seus melhores hobbies. Ele estende a mão e me ajuda a levantar.
    — Acho que quebrei o nariz dele.
    Joseph franze o cenho com uma cara de reprovação. Eu não deveria ter dito isso.
    — Papai não pode saber disso.
    Papai soube disso.
    —Eu não criei filho pra isso!
    Meu pai bate com a palma da mão na mesa de jantar com tanta força que eu pude jurar ter ouvido a madeira ranger. Elisabeth levou um susto mas disfarçou-o cruzando os braços e olhando para o lado. Ao encarar seu pequeno rosto eu podia ler claramente um “O que diabos faço aqui?”. Acontece que a escola ficou sabendo do acontecido e ligou para nossos pais com conselhos inúteis e informações desnecessárias, na minha opinião.
    — Eram muitos, pai... Eu não pude fazer muita coisa. — Não me atrevo a olhar nos seus olhos.
    — Eles também eram maiores. — Disse Joseph ajeitando os óculos com o dedo indicador.
    — Me digam uma coisa. ­— Papai fecha os olhos como se buscasse algum tipo de concentração em meio a um ataque de fúria. — O que maricas fazem?
    Sabíamos a resposta porque papai sempre se dedicou a nos ensiná-la. Elisabeth era poupada do fardo de a responder, provavelmente por ser uma menina. Eu respondo, não muito satisfeito:
    — Maricas levam porrada.
    — Joseph, eu não te ouvi. — Ele inclina-se na direção de Joseph.
    Ele não o ouviu dizer nada porque Joseph nunca fala esse tipo de coisa geralmente relacionada a ser ou não um marica. O silêncio que sucede a pergunta deixa tudo tão intenso que começo a estalar os dedos com um fervor disfarçado por baixo da mesa.
    —Joseph Roseburn! O QUE MARICAS FAZEM? — Papai berra.
    Chuto a canela de Joseph por baixo da mesa e é como se ele acordasse. Continua olhando para baixo e diz num tom quase inaudível:
    — Maricas levam porrada.
    Nosso pai levanta, sai da mesa numa fúria silenciosa e nos deixa perplexos e imóveis nos nossos lugares. Quando ele some de vista, solto o ar dos pulmões e me acomodo melhor na cadeira. Sei que os outros dois sentiram o mesmo alívio.
    — Papai pode ser tão ridículo as vezes! — Elisabeth bufa e revira os olhos.
    — Com certeza. — Respondo, tentando controlar minhas mãos que ainda insistem em estalar os dedos que já foram estalados. Reparo no silêncio longo demais de Joseph e aperto seu ombro. Uma vez vi na TV que apertar os ombros das pessoas as tranquilizam. — Foi mal Jo, isso é tudo culpa minha.
    — Não é culpa sua ter um pai tão ignorante. — Joseph sempre sabia definir as coisas. E talvez era isso o que nosso pai realmente era.
    — Ele não costumava a ser assim — Cruzo os braços e aperto meus bíceps para manter as mãos ocupadas. — O que aconteceu à mamãe azedou ele.
    Joseph me encara de um jeito como que se concordasse comigo. Elisabeth desvia o olhar, triste. Me aproximo dela e busco seus olhos desconsolados.
    — Papai pode ter azedado, mas juro pra você que mamãe era tão doce que nada no mundo inteiro poderia azedá-la. De onde acha que você tirou todo esse mel? — Aperto seu nariz branco e dou um leve puxão, coisa que sempre faço com ela. Elisabeth cora um pouco e afasta minha mão do seu rosto com uma risada suave.
    Subo as escadas e vou em direção ao meu quarto, mas algo me para. A porta meio aberta do quarto dos meus pais me permite uma visão estranha. Um tecido branco e cheio de rendas se espalha pelo chão. Chego mais perto do jeito mais furtivo que consigo, espio lá dentro e levo alguns segundos para entender o que está acontecendo.
    Meu pai está abraçado à um vestido de noiva. Levo alguns segundos para reparar que ele também está chorando. O meu coração se aperta e eu me pergunto se um dia o amor me destruiria assim também.
    É sábado. Oito e vinte da manhã. Para um dia em que eu não preciso estudar ou fazer algo obrigatório como ir à igreja com meu pai ou levar Elisabeth em algum parque que ela gosta eu deveria estar com umas quatro horas a mais de sono, no mínimo. Mas ouço alguém gritando:
    —Chuvaaaaaaaaa!
    Reconheço sua voz estridente. Elisabeth.
    Quando chego na porta da fazenda ainda vestindo uma camisa branca e shorts de dormir, vejo Elisabeth perto das plantações com as mãos nos lados da boca gritando por Chuva, nosso cachorro. Joseph aparece à minha direita, pela sua cara ele também não planejava acordar tão cedo.
    — O que houve?
    — Acho que Chuva sumiu. — Ele responde.
    — Merda.
    — Vamos lá crianças. — Papai surge atrás de nós dois com as chaves do carro na mão.  E agora diz especialmente para Elisabeth. — Vamos achar seu cãozinho querida.
    É assim Damien. Todo mundo vai embora.
    2015, 12 de Março, 45 anos
    A mesa do meu escritório é arrumada e minimalista. No centro, mantenho o meu atual projeto, seja lá qual for. Á direita, um copo metálico com duas canetas pretas, uma caneta azul e uma caneta vermelha, à esquerda, um grampeador preto. No meu andar, devem haver mais outros trinta funcionários. Meu chefe passa de mesa em mesa avaliando o trabalho de cada um.
    Ele para na minha frente com uma grande pilha de papéis e a coloca entre meu grampeador e minhas canetas.
    — Preciso que você tome conta desses aqui pra mim, Roseburn. —Ele diz com um descaso pelo qual já estou acostumado. Sua careca está brilhando mais que o normal hoje.
    No bolso da sua camisa social listrada, seu nome está bordado: Jorge Mendez. Acredito que seja algo Mexicano. Jorge é um cara que faz o seu trabalho, mas nem sempre agrada os que estão à sua volta. Boatos dizem que, no décimo quarto andar, um funcionário arremessou seu notebook pela janela após uma discussão com ele.
    Sua sorte está no fato de 80% da empresa ser feita de neutralizados.
    — Tudo bem chefe. — Olho para a pilha gigantesca e aceno com a cabeça.
    Planilhas repletas de números, dados, estatísticas e funções prontas para serem avaliadas, corrigidas ou simplesmente preenchidas. Tudo é preto e branco. Tudo é exato. Um trabalho perfeito para pessoas como eu.
    —    What did you expect... From post break up sex?
    Ouço essa voz masculina cantando e me impressiono. Não simplesmente por achar a música familiar, mas por estar num trabalho repleto de pessoas completamente vazias de sentimentos e alguém estar cantando. A questão é que nós, neutralizados, não somos os melhores apreciadores de arte. Músicas, pinturas, filmes, tudo isso é muito sentimental para nós. O desinteresse é total.
    Me inclino para trás para espiar o escritório do meu lado através da divisória. Ele continua cantarolando e trabalhando, de vez em quando, mexendo os ombros numa pequena dança disfarçada. Não lembro de nenhum neutralizado trabalhando nesse andar, ele deve ser novo aqui.
    Quando tomo conta de que é impossível me concentrar com ele cantando ao meu lado, encosto no eu braço e digo:
    — The Vaccines?
    Ele continua cantando. Encosto com mais força:
    — The Vaccines?
    Ele olha pra mim meio perdido e tira os fones de ouvido.
    — Nossa, desculpa cara, não tinha te ouvido.
    — Tudo bem.  É The Vaccines?
    — Pera aí, você conhece The Vaccines?
    — Sim. — Forço um daqueles sorrisos com a boca fechada, não dá muito certo.
    — Nossa! — Ele me bate no braço com força — Ninguém conhece The Vaccines!
    — Eu ouvia há uns anos.
    Depois de um silêncio que se não fosse pela minha condição, seria constrangedor, ele acena com a cabeça para minha pilha de folhas e diz:
    — Isso é injusto, olha o Henrique, ele está à uma hora sem fazer literalmente nada!
    Olho para a pilha e depois para a mesa vazia de Henrique.
    — Eu não me importo, na verdade.
    Ele me encara, tentando decifrar minha falta de indignação e depois desvia o olhar, se espreguiçando.
    — Ouvi dizer que ele fez um cara lançar seu computador pela janela depois de uma discussão. —Digo, puxando assunto. Neutralizados não socializam muito, estou praticando nisso.
    — Sim, eu ouvi falar disso. Conheci o cara. — Ele olha pra mim e arregala os olhos — Já imaginou se o notebook tivesse acertado alguém?
    Ele ri enquanto eu permaneço inerte. Consigo vê-lo enrubescer um pouco.
    — Me desculpe, eu costumo a ter um senso de humor meio ridículo mesmo. — Ele oferece um aperto de mão meio sem jeito. — Meu nome é Tomás, a propósito.
    — Damien.
    Aperto sua mão.
    — Prazer Damien. — Tomás sorri. Noto que ele cuida bem de sua barba, que parece ter sido aparada há poucos minutos. Seus dois dentes da frente são ligeiramente maiores que os outros, como um coelho.
    — Mal chegou no setor e já fez novos amiguinhos? — Jorge aparece com outra pilha de folhas, a coloca na mesa de Tomás, deixando-o sem reação, e se vira para mim — Não sabia que neutralizados socializavam, senhor Roseburn.
    O encaro ceticamente me perguntando se ele acha que poderia estar me afetando com seu comentário desnecessário.  Jorge começa a caminhar de volta para seu escritório no fim do corredor quando Tomás, ainda com uma feição estupefata, diz:
    — Você só pode estar de sacanagem comigo.
    Jorge para por um segundo e se vira.
    — Perdão?
    — Olha a mesa do Henrique! — Tomás aponta com a palma da mão esticada para a mesa do outro empregado. Henrique tira os olhos do trabalho e volta sua atenção para Tomás que agora está gritando. — Você sabia que estamos no mesmo patamar? Que deveríamos trabalhar igualmente?
    Jorge ri e caminha na nossa direção. Agora todos estão olhando para cá.
    — Se você está insatisfeito com seu trabalho, pode pedir demissão a hora que quiser. Mas enquanto estiver aqui, você não pode fazer nada mais e nada menos do que seguir minhas ordens.
    Silêncio. Há uma veia na testa de Tomás que parece prestes a explodir, seu rosto está vermelho e ele parece querer pular no pescoço do nosso chefe.
    —Capiche?
    Tomás oferece um sorriso torto.
    —Capiche.
    — Mas que merda! E vocês ficaram juntos no elevador por quanto tempo?
    Tomás está na calçada conversando com alguém no telefone. Estou cansado de socialização e tento apertar o passo para passar por ele sem ser notado. Não funciona.
    — Tenho que desligar, tchau Hannah. — Ele desliga o telefone e corre na minha direção. — Ei, desculpa por aquilo.
    — Não se preocupe. Tá tudo bem. Acho que você deveria se preocupar mais com a própria pele agora. — Ofereço um sorriso. Tomás responde com uma careta e logo me arrependo. Qualquer hora dessas vou parar de tentar sorrir.
    — Que seja, não sou muito de levar desaforo pra casa. — Tomás questiona qual direção eu devo seguir apontando vagamente com o dedo indicador. Aponto para o lado esquerdo da rua e começo a caminhar, ele me acompanha. — O que ele disse, sobre você....
    — Ser um neutralizado?
    — Sim.
    — É verdade. — Encaro-o por um instante e depois volto a olhar os paralelepípedos da calçada.
    — Ah, ok. — Tomás faz uma pausa e diz — Eu pensei que... Bem... Você conhece The Vaccines.
    — Eu ouvia The Vaccines até 2011. Antes de... — Hesito, não preciso encher Tomás com problemas pessoais — de eu começar a tomar as pílulas.
    — Bem, eu até estava impressionado de achar alguém que não fosse neutralizado lá.
    — Desculpe te decepcionar.
    — Não! —Tomás gesticula com as mãos, nervoso — Não é isso. Você é legal, eu só... Pensei que...
    A sociedade encara os neutralizados como pessoas que não se ofendem e então tendem a ser grossos e não se importarem muito conosco. É irônico por que não nos importamos muito com eles também. Tomás me acha ‘legal’ e por algum motivo, se preocupou em estar me deixando incomodado ou não. Por algumas pessoas, acho que vale a pena se importar um pouco. Então tento ‘quebrar o gelo’.
    — Tá tudo bem cara, de verdade. Aliás, por que você trabalha num lugar como esse?
    — Eu sempre fui bom com números. Porém, na época, eu não imaginava que metade do ramo de exatas ia ser tomado por pessoas viciadas em pílulas neutralizadoras.
    — Ah, não chega a ser metade. Há outras empresas que não são como a nossa. Você podia tentar achar uma dessas.
    — Ah... — Tomás guarda as mãos nos bolsos. — Preguiça.
    Ele olha pra mim e ri. Eu tento sorrir.
    — Você vai ter que parar de sorrir desse jeito comigo.
    Tento mais uma vez sorrir esperando que ele continue rindo, mas Tomás fica sério.
    — Não, é sério Damien. É bizarro.
    Chego em casa cansado. Tiro os sapatos e os guardo num canto ao lado do armário. O casaco fica no cabideiro e minha bolsa, no mesmo canto de sempre ao lado do sofá da sala. Eu costumo a ser organizado. Tomo um banho quente e deito na cama ainda de toalha.
    Me importar, mesmo que um pouco, com Tomás não foi nada mais do que um pequeno gesto de empatia. Como disse, neutralizados não se importam, mas acabo lembrando daquelas pessoas que sempre estiveram me buscando e que eu não dei a devida atenção. Não é como se eu estivesse sendo tomado por culpa agora, é simplesmente um favor. A minha consideração pelas pessoas que uma vez amei (não acredito que eu possa amar agora) continua intacta. Pego meu celular e disco seu número. Não demora muito para ela atender.
    — Oi.
    — Oi! — Elisabeth parece animada — Como você tá maninho?
    — Hum... Bem. E você?
    — Ótima. E o que você tem feito da vida? Estou muito feliz que tenha ligado.
    — Eu tenho trabalhado, corrido... Nada demais. E você? — Rebater as mesmas perguntas é sempre uma saída fácil.
    — O de sempre também. Agora eu tenho mais uma turma do jardim e meus alunos novos são uma graça. Recebeu minha mensagem? Você vem?
    — É só estipular o dia, estarei aí. Não há nenhuma criança hiperativa ou algo do tipo?
    — Sim, tem um menino, o Pedro. Ele é meio animadinho demais. Que ótimo que você vem! Joseph vai adorar saber disso.
    — Boa sorte com o Pedro.
    Elisabeth ri enquanto forço uma risada. O lado bom de ligações é que ninguém pode ver meus sorrisos mal feitos e minhas risadas soam menos falsas.
    — Tenho que desligar agora, manda um abraço pro Fernando.
    — Ah, sim, claro! Te ligarei assim que marcar a dia maninho, tenho que esperar Joseph confirmar a data de volta dele. Beijo!
    —Beijo, tchau.
    Desligo a chamada e continuo encarando a tela do meu celular. Às vezes, sinto um incômodo dentro do meu peito. É geralmente nessas horas que ouço aquela mesma voz de sempre.
    Saudades dos seus irmãos, Damien?
    E por que diabos eu sentiria saudades?
    Porque você ainda os ama, é claro.
    Eu desisti do amor há muito tempo.
    Pego uma cápsula com pílulas no meu criado mudo, derrubo uma na mão direita e engulo a neutralização a seco.
    Ser um viciado em neutralizadores não te poupa de sonhos.
    Estou fazendo meu cooper diário. Nada fora do comum. É bem cedo e o sol acabou de nascer, algumas pessoas também correm na calçada da praia. Uma mulher loira passa por mim vestindo calças legging e cantando apenas com os lábios sem expelir som algum, uma música que toca em seus fones de ouvido. Isso me faz notar que também estou usando fones de ouvido. Mas nenhuma música sai deles. Os ignoro e continuo correndo, mesmo em silêncio.
    Quando estou chegando no final da praia, a vejo pedalando numa bicicleta vermelha, com seus cabelos escuros e compridos ao vento. Maria. Minha mãe. Não perco tempo com perguntas ou reflexões desnecessárias. Para mim, isso é real o suficiente. Começo a correr mais rápido mas minha mãe pedala numa bicicleta e está bem mais a frente. Passamos pela árvore centenária e eu pulo suas raízes que se entrelaçam quebrando a calçada. Normalmente eu pararia ali, mas eu preciso continuar. Preciso alcança-la. Eu preciso te dar um abraço de despedida. Só isso.
    Estamos na parte mais alta e à minha direita, lá em baixo, as ondas batem nas pedras violentamente. Continuo correndo e foco minha atenção na bicicleta vermelha e na mulher de cabelos escuros. Maria passa por uma curva fechada. Perco-a de vista por um momento e ouço uma buzina de caminhão. É ensurdecedor. Um mal presságio toma meu todo o meu corpo e então eu tento correr mais do que nunca para virar a esquina e encontrá-la. De alguma maneira, eu sei o que aconteceu. Por algum motivo, eu sinto a sua dor.
    Eu sinto.
    E sem explicação alguma, quanto mais eu corro, mais devagar eu fico. As gaivotas voam em câmera lenta sobre a praia. O som das ondas fica grave e parece estar o dobro de vezes mais alto. Parece uma eternidade, mas finalmente chego lá. O caminhão está parado logo atrás da sua bicicleta vermelha, agora destruída. Depois da bicicleta, Maria está deitada no chão, com seu vestido sujo de sangue. Me ajoelho ao seu lado e seguro sua cabeça, chorando.
    — Mamãe. Por favor. Mãe. Mamãe...
    Maria sorri olhando para mim. Eu continuo a chamando em meio ao choro desesperado.
    É assim Damien. Todo mundo vai embora.
    — Cala a boca! — Tampo meus ouvidos mas aquela voz vem de dentro.
    Todo mundo vai embora.
    Grito mais uma vez.
    — CALA A BOCA!
    E acordo. Envolto de lençóis molhados pelo meu suor. Respiro fundo, meu coração bate rápido demais. Inspiro e expiro algumas vezes para me acalmar enquanto continuo com os olhos abertos até minha visão se acostumar com a escuridão. Levanto da cama aos tropeços e corro até minha bolsa, no lado do sofá. Tiro minha carteira de lá e procuro sua foto. Meus dedos estão confusos. Consigo acha-la.
    Encaro a foto de Steve brincando com o seu pequeno carrinho vermelho no chão da sala. Sua feição tomada de inocência e felicidade. Mantenho o olhar fixo na foto por alguns momentos até ter certeza.
    Suspiro. Guardo a foto na carteira. Ainda estou neutralizado.
    Eu preciso deles
    1985, 11 de fevereiro, 15 anos
    Metade de mim morre de preocupação com Elisabeth e procura maneiras suaves de explicá-la como isso aconteceu ou simplesmente planeja uma boa mentira apenas para não machuca-la. A outra metade se preocupa comigo mesmo.
    Quando olho para seu corpo inchado, um nó se forma na minha garganta e meus olhos começam a arder, então tento ao máximo desviar o olhar, mas não consigo. Quando meu pai me chamou para ir buscar o carro, eu decidir ficar aqui, mas agora me arrependo dessa decisão.
    Achamos chuva. Ou melhor, achamos o seu corpo, cadente de pelos e quase irreconhecível, se não fosse pelo distante tom de cinza e por sua coleira com seu nome. Ele provavelmente foi atropelado. Estamos numa rua de barro a poucos quarteirões de casa, eu estava voltando da escola quando achei o seu corpo. Chamei meu pai na hora, mas a ideia de que precisaríamos de um carro para tirá-lo dali só veio depois. Então agora eu estou aqui, andando em círculos em volta do último vestígio que minha mãe deixou na terra (agora morto) dando o meu melhor para não chorar. Se meu pai chegar aqui e eu estiver chorando, não vai ser nada bom.
    Alguns minutos depois, avisto a caminhonete azul e suspiro de alívio. Papai sai do carro com uma enorme sacola plástica preta e meu peito se aperta. Joseph sai da outra porta e caminha na minha direção. Ele olha para o que restou de Chuva e diz:
    — Merda.
    Me surpreendo com o seu abraço e começo a chorar. Sabe aquele tipo de choro tão desesperado que dá vasão a soluções incontroláveis? Esse mesmo. Enquanto estou abraçado com meu irmão me sinto seguro como nunca, livre para chorar. Livre para repousar meu luto. Mas não por muito o tempo.
    — Pare de chorar Damien. — A voz do meu pai é tão intensa e grave que eu fico envergonhado.
    — Ignora ele. — Joseph sussurra no meu ouvido.
    Saio do seu abraço e enxugo as lágrimas tentando me recompor. Joseph me puxa dali quando cogito espiar nosso pai colocando o corpo do cachorro dentro da sacola. Morro de curiosidade, mas sei que é melhor para mim não ver esse tipo de cena.
    Quando estamos chegando, vejo Elisabeth sentada na porta da fazenda de braços cruzados.
    — Tirem a irmã de vocês dali, Beth não precisa me ver tirando um saco preto do tamanho de um cachorro da caminhonete. 
    Assentimos com a cabeça e vamos na direção da nossa irmã mais nova.
    — Eu conto. — Solto, começando a reunir forças.
    Joseph olha pra mim através dos seus óculos de grau e aperta meu ombro. Ainda não sei se apertar ombros realmente ajuda as pessoas ou se é apenas Joseph fazendo o que ele sempre faz, ser meu porto seguro.
    — Vamos inventar uma história. — Ele fala bem baixo por que já estamos chegando perto de Elisabeth. Aceno com a cabeça em resposta.
    — Vocês acharam chuva? — Ela pergunta, esperançosa.
    Ninguém contaria a uma criança de 7 anos que seu cachorro de estimação, que cresceu junto com ela, morreu. Tento bolar uma história da maneira mais rápida que eu posso. Um paraíso cheio de fazendas? Chuva foi embora por que ele quer criar uma família só para ele com uma esposa e vários pequenos filhotinhos cinzentos?
     Abro a boca para falar mas de repente tudo o que vejo é a sua forma deformada no chão da rua de barro, triste e sem vida.
    — Ele morreu. — Eu não consigo terminar a frase antes de começar a ter uma crise de choro. Joseph olha para mim estupefato e Elisabeth simplesmente arregala os olhos. Viro para Joseph e tento dizer em meio aos soluços. — Desculpa eu.... Eu...
    — Damien? —Joseph diz.
    — Chuva morreu? — Elisabeth pergunta para Joseph.
    — Sim, Beth.
    — Entendo. — Elisabeth cruza os braços e encara o chão.
    Eu continuo chorando como uma criança quando Elisabeth me abraça.
    — Calma maninho, vai ficar tudo bem.
    Enxugo os olhos com as costas das mãos e dou uma pequena risada com a ironia da situação, abraço minha irmã mais nova e me sinto mal por não estar conseguindo a proteger. Como uma menina de 7 anos pode ser mais forte do que eu? Joseph apoia a mão no meu ombro e subitamente tenho a certeza absoluta de que eu nunca poderei ficar longe desses dois.
    Eu preciso deles.
    — Vamos rapazes, tenho uma surpresa pra vocês. — Papai passa pela sala balançando as chaves do carro. Joseph tira sua atenção da revista que está lendo e me encara por um instante. Tenho um mal pressentimento.
    — Eu não posso ficar sozinha. — Diz Elisabeth ainda apoiada em mim sem tirar os olhos da TV.
    — Vamos deixar você com a tia Lúcia.
    — Ok. — Elisabeth se espreguiça e boceja.
    — Vamos logo garotos, temos que sair.
    Joseph fecha a revista e vai na frente, eu o sigo. Ambos não dizemos uma palavra sequer. A verdade é que nosso pai não nos dá muitos presentes, e qualquer coisa boa vindo dele é mais do que suspeito. Será que ele ficou chateado comigo por ter chorado hoje? Talvez, mas Joseph não fraquejou uma vez, por que ele estaria sendo punido também?
    Está anoitecendo e vamos em direção à cidade, deixamos Elisabeth no caminho com tia Lúcia e tudo o que eu mais desejo é ficar lá também.
    — Vamos lá, quem quer tomar sorvete?
    — Eu quero! — Elisabeth estende os braços e nossa tia, grande e robusta, a levanta numa pegada só.
    Eu também queria sorvete.
    — Para onde estamos indo? — Joseph pergunta do banco de trás.
    — Para o paraíso Jo, — Papai ri. — o paraíso.
    Olho para trás e encontro os olhos de Joseph, receoso. Quando chegamos na cidade, após muitos campos verdes e escuros naquela noite de campo, chegamos num amontoado de construções urbanas. Aqui parece nunca anoitecer, tudo é tão claro quanto de dia, mas agora, a iluminação tem mil cores diferentes. No lugar que paramos, em especial, a iluminação é vermelha. Logo em cima da porta de entrada tem um grande letreiro aceso dizendo:
    PARAÍSO CARNAL, 173
    — Isso é um... — Começo a dizer.
    — Você não pode estar falando sério. — Joseph me corta.
    — Estou mais do que sério. Sério como um pai mostrando aos seus filhos como serem homens de verdade.
    — Acontece que já somos homens. Você não precisa fazer nada quanto a isso. — Não lembro da última vez que Joseph levantou o tom de voz com papai. Começo a estalar os dedos, nervoso.
    — Chega! — Papai bate com as mãos no volante e Joseph se cala. — Venham.
    Ele sai do carro e nós o seguimos, não há muito o que fazer. Entramos no prostíbulo e mulheres seminuas passam por todos os lados nos encarando. Uma delas mandou um selinho para mim e eu desviei o olhar, aflito.
    Eu sou virgem e não sei quanto a Joseph, mas prefiro continuar assim a transar com prostitutas. Depois do nosso silêncio mútuo, nosso pai decide escolher as garotas para nós. Estava tão desconcertado me preocupando apenas em estalar os dedos que não sei bem como cheguei aqui, mas sei que ela é linda.
    — Meu nome é Samantha, e o seu? — A prostituta tira o top, deixando os peitos nus.
    Eu não quero fazer isso. Não quero.
    — Da-Damien. — Gaguejo e me amaldiçoo por isso.
    Meus dedos já foram estalados vezes o suficiente nos últimos minutos, então apenas passo uma mão na outra e continuo encarando o chão. Eu sento na cama, ainda de roupa. Samantha se ajoelha na minha frente. Ela claramente percebe meu nervosismo.
    — Damien, tá tudo bem?
    — Sim.
    — Você tem certeza de que quer fazer isso?
    Eu demoro a responder. Ela me olha com compaixão. Mas eu não posso decepcionar meu pai. Eu preciso deles. Eu preciso do meu pai, do meu irmão e da minha irmã. Não posso falhar com nenhum. Sem eles, eu seria... Eu não sei o que seria.
    Eu preciso fazer isso, pelo meu pai.
    A ignorância é o combustível do medo. Sabe no que isso dá, Damien?
    2015, 19 de março, 45 anos
    — Por favor Damien! Não me faça jogar esse ingresso fora.
    — Me desculpa Tomás, mas... Não adianta eu ir pra um evento de música, não tem lógica.
    — Você não precisa sentir nada, ora essa! É só nos fazer companhia, ficar lá, curtir a vibe.
    Eu realmente canso e cedo muito fácil. Pude conviver com isso desde sempre, mas não estou acostumado a pessoas insistirem tanto por minha companhia, a não ser quando se trata dos meus irmãos.
    — Tá, eu posso tentar ir.
    Tomás se anima e combinamos um ponto de encontro às 19:00. Tento memorizar as ruas e o horário, me despeço e desligo o telefone, deitando na cama cansado demais para fazer qualquer outra coisa. Imagine em números a vontade que um neutralizado tem de sair de casa à noite para assistir um show de uma banda que nunca ouviu falar. Se você respondeu 0, está certo.
    Eu costumo sempre a ser no mínimo, pontual. Então são 18:40 da noite e estou a caminho, vestindo uma calça jeans simples e uma blusa azul marinho sem estampa. Eu ando sem pressa pelas ruas meio movimentadas da cidade grande, estamos no horário de verão e por isso está escurecendo só agora. Quando eu chego na esquina onde eu deveria encontrar com Tomás, avisto na ponta do quarteirão uma massa enorme de pessoas vindo na minha direção a passos curtos. Semicerro os olhos para enxergar melhor sob as luzes dos postes que ainda estão acendendo e consigo detectar grandes placas erguidas e pessoas que parecem estar bem nervosas, principalmente pelos seus gritos que já posso ouvir daqui. Olho para o relógio no meu pulso e vejo que infelizmente ainda são 18:50. A multidão chega mais perto e consigo ler suas placas.
    “DIGA NÃO ÀS PILULAS!”
    “VICIADOS E COVARDES.”
    “NA BÍBLIA DIZ...”
    Não é como se eu tivesse medo ou algo do tipo, então simplesmente recuo um pouco e me encosto na parede para não ficar no meio deles. Eles vão chegando mais perto e as pessoas de fora do movimento começam a se afastar, receosas, mas eu continuo ali, quieto, esperando. No meio do protesto há um grande carro com uma caixa de som, a voz de uma mulher sai de lá, e ela também parece nervosa.
    — E esse é o número de mortes que vem duplicando a cada ano devido as pílulas. Eles não sentem medo e morrem por isso. O medo é algo necessário para a vida!
    Realmente, é cientificamente provado que o medo é algo essencial e há doenças em que a pessoa não sente medo e por isso, tem um risco de mortalidade muito grande. Mas acho que não é esse o nosso caso. Eu sei que devo “temer” colocar a mão numa panela quente, não sou um retardado mental.
    Isso não é medo seu idiota, é outra coisa. Se você não tiver medo da morte, ela corre duas vezes mais rápido na sua direção.
    Ignoro a pequena voz na minha cabeça. Me espremo contra a parede enquanto as pessoas passam esbarrando em mim. Elas estão suadas mas a grande parte veste ternos. Vejo alguns segurando bíblias numa mão e placas com uma grande Cruz na outra.
    — Eles matam o amor. E se matam o amor, matam Deus também! Nosso todo o poderoso nunca será morto! Os que tentarem isso merecem ser salvos dessa escuridão e convertidos ao amor divino!
    As pessoas gritam como uma tropa de soldados religiosos. Alguns deles olham de um jeito estranho pra mim. Tento mostrar naturalidade mas 1) estou num lugar nada natural para um não protestante, 2) eu não sei mais agir normalmente.
    Recém-neutralizados viram pessoas exatamente normais, mas sem sentimentos. Então quando um cara que passou a vida viciado em sentimentos como todos os outros, pega pílulas e começa seu vício, ele não vai aparentar ser um neutralizado. Passará semanas e quem sabe, até meses para que ele esqueça completamente (inconsciente ou conscientemente) como ‘fingir’ sentimentos. Mas até nós, veteranos com mais de anos no currículo, podemos imitar algo aqui e ali.
    Um homem que está de calça jeans e uma camisa cinza escrito “Essa não é a cura, é a doença” com uma grande pílula vermelha (que nada se assimila a reais pílulas neutralizadoras) abaixo, para na minha frente e olha bem dentro dos meus olhos. Poderia senti-lo invadindo a minha alma com aquele olhar, mas...
    — O que você tá fazendo aqui? Ein?! — O homem vem na minha direção.
    Algumas pessoas a sua volta param e nos encaram, curiosos. A gritaria cessa parcialmente.
    — O que? — Digo da maneira mais monótona possível encarando-o de volta. Ele para bem perto com uma postura erguida como um animal selvagem querendo intimidar outro macho do bando.
    — Você é uma abominação, sabia disso? — Ele grita mais ainda e a multidão começa a fazer silêncio para poder ouvir o sermão, continuo inerte e o seu hálito é terrível e está mais perto de mim do que eu gostaria.
    Não acho respostas válidas e não tenho vontade de me defender. Eu simplesmente não me importo. Enquanto ele bufa quase beijando meu rosto de tão perto, ouço pessoas gritando sentenças avulso como se fossem arqueiros me alvejando sem nem mesmo mostrar as caras.
    — Você deveria morrer!
    — Deus te odeia!
    — Mostre a ele porque ele deveria ter medo, Carl!
    — Bem, é uma boa ideia. — Ele ri.
    Essa é uma daquelas horas em que o bom senso grita tão alto dentro de mim que não há escapatória. Desvio para o lado rápido o suficiente para o soco dele acertar parte da minha orelha esquerda e dou alguns tropeços. Quando me recomponho, o encarando com seu olhar sádico, alguém puxa o meu braço e me carrega dali. O homem fica parado rindo de mim enquanto a multidão se une à um coro de risadas.
    Quanta crueldade.
    Ouço aquela pequena voz na minha cabeça dizer.
    Corro junto de Tomás, ainda sendo segurado pelo braço até pararmos num beco não tão longe dali.
    — Obrigado. — Digo.
    — Relaxa. Eu que deveria me desculpar, não sabia que haveriam protestos hoje, foi mal Damien.
    Ainda estamos encurvados recuperando o fôlego quando Tomás dá uma risada estranha e diz:
    — A ignorância é o combustível do medo. Sabe no que isso dá Damien? — Ele se aproxima e passa a mão na minha orelha, quando recua, tem sangue nela.
    — Não. — Levo a mão ao mesmo ponto e sinto um pequeno corte.
    — Ódio.
    Reflito sobre sua frase de efeito e lembro do motivo de eu ter começado as pílulas. Afasto-o da mente, como sempre.
    — Vamos lá. — Tomás dá um tapinha amigável nas minhas costas. — Temos que encontrar Hannah ainda.
    A fila para o show está enorme e eu não imaginava que essa banda fizesse tanto sucesso.
    — Qual é o nome deles mesmo? — Pergunto, em voz baixa.
    — The war drugs. — Tomás responde com a mesma discrição. — É muito parecido com The Vaccines, você vai adorar.
    Ficamos na fila por um bom tempo até Tomás ser surpreendido — assim como eu — por uma garota pulando nas suas costas e se pendurando nos seus ombros.
    — The war drugs! — Ela grita enquanto Tomás continua girando para tirá-la dali. Alguns dos fãs da fila nos encaram estranhamente e outros apenas riem e voltam com suas conversas.
    A brincadeira — ou loucura — acaba quando ela sai das suas costas e os dois se abraçam ternamente.
    — Sinto muito por Marcos, ele é um idiota por não vir. — A garota diz.
    — Não é culpa dele. Muito trabalho.
     Tomás sai do abraço e eu consigo entender que não se trata de uma garota. É uma mulher, de cabelos curtos e escuros. Eu não guardei muito bem o seu rosto, mas reconheço aquela mecha de cabelo solta e desordenada pendendo sob sua testa.
    — Hannah, Damien. Damien, Han— Tomás tenta nos apresentar mas é interrompido por Hannah.
    — Você! — Ela aponta pra mim com os olhos arregalados.
    — Vocês se conhecem?
    — Sim. — Respondo.
    Relações sociais. Um problema, eu disse.
    — O cara do elevador, Tom.
    — Nossa! Sério? — Tomás tampa a boca e ri.
    — Não tem graça. — Hannah desvia o olhar e cruza os braços. De alguma maneira, ela me lembra Elisabeth.
    — E por que diabos você estava no prédio dele? — Tomás pergunta.
    — Eu fui visitar a Luiza, do teatro, ela mora naquele prédio. — Hannah diz, impaciente.
    Não há tempo para conversa. A fila começa a andar e a euforia é total. Noto que estraguei todo o clima feliz entre os dois, Hannah fica quieta na dela e Tomás não sabe o que dizer.
    Mas que vergonha Damien.
    Eu não fiz nada de errado.
    Você erra toda vez que tenta socializar, idiota.
    Tento ao máximo afogar essa voz — que parece muito com a minha — no meu oceano de pensamentos. As vezes dá certo.
    O show começa e eu fico no bar o tempo todo, deixo Tomás e Hannah ficarem a sós, não quero estragar a noite de Tomás mais ainda. Ouço as músicas e realmente noto a semelhança com The Vaccines, mas não consigo sentir nada com elas, me animar, deprimir ou algo do tipo. Me pergunto como deve ser estranho se eu ouvisse The Vaccines agora e não sentisse nada. 
    Hannah aparece no meu lado e senta em um dos bancos do bar.
    — Duas cervejas por favor. — Ela diz levantando o indicador com um sorriso simpático para o barman. — Acho que você já está bebendo, não saiu daqui até agora. — Ela olha para mim e aponta para o copo meio vazio na minha frente.
    — Eu não bebo. — Levanto o copo e balanço o restante de suco de laranja com um erro fatal. Eu tento sorrir. Porque diabos eu ainda tento?
    Ela faz uma careta e ri.
    — Tudo bem, você não precisa beber, só pare de sorrir.
    — Me desculpe. — Viro para frente.
    — Olha, eu que deveria estar pedindo desculpas. — Hannah começa a bater com as unhas no balcão, ela as pintou de um azul parecidíssimo com o da minha camisa. — Eu não deveria ter dito aquelas coisas à você naquele dia, foi totalmente rude da minha parte.
    Eu não estava pedindo desculpas sobre aquele dia mas aproveitei minha deixa.
    — Neutralizados tem pouca noção de muitas coisas, não foi a minha intenção te ofender.
    O barman aparece com as duas cervejas e as coloca na nossa frente.
    — Leve a do Tomás.
    — Mas eu vou ficar aqui mesmo...
    — Não vai não.
    Hannah levanta e me agarra pelo pulso. Eu hesito mas como disse anteriormente, sempre estou cansado demais para discutir com as pessoas. Então sigo a pequena mulher a contragosto.
    Estou no meio da multidão e todas as pessoas estão meio quietas. A música parece ter acabado agora. Entrego a bebida para Tomás e ele sorri. Quando tento fazer o mesmo ele tampa minha boca com a mão direita e até Hannah ri junto.
    Você precisa sentir com eles de novo.
    Eu não quero.
    Eles ainda estão rindo quando luzes vermelhas e azuis acendem no palco. Um solo de guitarra imunda o recinto com um volume absurdo. Todos gritam e pulam, inclusive Tomás e Hannah que se olham incrivelmente animados e felizes, provavelmente por conhecerem a música e estarem amando aquele momento. O vocalista começa a cantar e todos o acompanham sem errar a letra. A energia que circula a minha volta é tão grande que eu fico extremamente estranho e deslocado. Quando chegamos no refrão, Tomás e Hannah me seguram, um em cada braço, e pulam me levantando numa sincronia absurdamente ruim. Mas eu assisto aos seus olhares e ouço a suas vozes enquanto cantam entendendo que o objetivo não é sincronia, uma boa cantoria ou uma simples dança. O objetivo é aproveitar tudo aquilo. E de alguma forma, eles parecem felizes.
    Seja feliz como eles são, Damien. Vamos sentir de novo.
    Por um momento eu cogito ceder a essa pequena voz dentro de mim. Mas acontece que the war drugs se assemelha muito a essa banda que eu e Steve ouvíamos muito anos atrás... A cada vez que ouço o refrão, consigo vê-lo ali conosco, dançando e cantando, alegre.
    Vamos sentir Damien! Vamos!
    Formulo minha resposta enquanto assisto Steve dançando na minha frente. Uma visão só de dentro da minha cabeça.
    Não.
    Vamos nos fingir de neutralizados por um momento, ok?
    1985, 11 de fevereiro, 15 anos
    — Damien, tá tudo bem?
    — Sim.
    — Você tem certeza de que quer fazer isso?
    — Com licença! — Joseph entra no quarto.
    — Que merda?! — Samantha olha para ele, assustada.
    — Joseph?! — Pergunto, quase gritando.
    Uma mulher entra logo atrás do meu irmão.
    — Kate? — Samantha se levanta e senta no meu lado, pouco importando-se sobre os peitos a mostra.
    — Oi Sam! – Kate é sorridente, magricela e tem uma enorme trança loira.
    — Vamos lá. — Joseph para, ajeita os óculos com o dedo indicador e aponta para mim. — Kate, esse é o Damien.
    — Oi Damien! — Kate sorri para mim.
    — Oi.
    — Você deve ser a Samantha, certo? — Joseph aponta para Samantha.
    — Sim. — Samantha concorda.
    — Samantha, eu sou o irmão do Damien. Vou te explicar a mesma coisa que eu expliquei a Kate. — Joseph anda de um lado para o outro gesticulando com as mãos enquanto Kate fica assentindo com a cabeça em concordância, ela parece ser meio louca — Nosso pai nos colocou aqui a força. Eu tenho uma namorada e sou heterossexual, não quero transar com a Kate e não é nada pessoal. Sobre o meu irmão, eu o conheço e sei que ele também não quer estar aqui. — Eu sorrio para Joseph em forma de agradecimento e ele sorri de volta. — E provavelmente ele não é gay.
    — Joseph!
    As duas mulheres riem, eu fico vermelho como um tomate.
    — Bem. — Samantha levanta e veste seu top com casualidade — Eu não ia obrigar o pequeno Damien a fazer nada que ele não quisesse.
    Eu desvio o olhar, ainda constrangido.
    — E temos TV! — Kate diz eufórica.
    Joseph senta no meu lado e passa o braço pelos meus ombros, apoio a cabeça no seu peito e agradeço mais uma vez.
    — Isso só pode ser piada. — Samantha diz apontando para a TV.
    Eu pego um punhado de pipoca que Kate nos preparou e levo algumas à boca.
    — Talvez seja verdade. — Digo.
    — Não tem como pararmos de sentir, certo? Também acho que é loucura. — Kate diz como se realmente fosse uma ideia bizarra.
    — Totalmente viável. — Joseph não tira os olhos da TV.
    O programa entrevista um homem que vem fazendo pesquisas sobre o que ele chama de “a cura da emoção”. Seu nome é Shelby Michael, ele mantém uma postura convicta mas seus olhos transmitem uma gentileza afetuosa. Shelby fala sobre uma vacina que poderia deixar as pessoas privadas de sentir qualquer tipo de emoção. Ele levou uma ‘cobaia humana’ e o seu nome é Wendy, uma adolescente com cabelos escuros e compridos.
     A apresentadora, uma mulher de meia idade com o rosto repleto de maquiagem e uma roupa chamativa rosa faz perguntas ao dono da vacina e à cobaia na frente de um auditório bem cheio.
    — Com que frequência você aplica as vacinas?
    — Nós estamos fazendo as aplicações de manhã e por enquanto isso parece estar sendo o suficiente para a ‘neutralizar’, vamos assim dizer, pelo dia inteiro.
    — E você, Wendy, como você está se sentindo sobre isso tudo?
    A apresentadora ri e seus cachos loiros balançam sobre seus ombros. A plateia se entretém com a piada enquanto Shelby fica um tanto sem graça. Wendy permanece inerte.
    — Como assim?
    — Nada, foi só uma piada. — Ela balança sua mão cheia de anéis brilhantes — Nos diga, como foi seu primeiro dia depois da vacina?
    — Bem, foi como se tudo tivesse mudado. Literalmente.
    Enquanto Wendy fala, ela mexe no seu vestido olhando para o chão, mas não parece estar constrangida, apenas sem saber o que dizer. Nos seus braços, é possível ver os furos das seringas.
    Shelby toma a palavra.
    — Wendy teve um passado difícil. A sua mãe morreu de câncer fazem 4 meses. Ela se dedicou a me ajudar com essas experiências e acabou que eu a ajudei um pouco também. — Ele sorri para Wendy.
    — Você quer dizer que a vacina a impede de se sentir triste pela morte da mãe?
    — Sim. — Wendy não tira o olhar dos próprios sapatos.
    — Bem, você ficou feliz com o resultado das pílulas? — A apresentadora mexe nos seus cachos.
    — Que idiota. — Joseph diz. — Como ela vai estar feliz?
    —Aposto que é uma bela de uma atriz, essa menina. — Diz Samantha.
    — Por enquanto o efeito das vacinas é completo. Então se considerássemos emoções como boas e ruins, ambas estariam sujeitas a neutralização. — O cientista explica e a apresentadora se endireita na cadeira.
    — Pera. — Joseph levanta e vai até a janela, abrindo a cortina alguns centímetros. — Papai chegou, Damien.
    Me concentro um pouco e consigo ouvir o barulho da caminhonete. Ela se destaca entre os outros sons da cidade.
    — Bem, rapazes. Foi bom pra vocês? — Pergunta Samantha.
    — Maravilhoso. — Joseph responde a papai.
    Ele nos olha um tanto desconfiado.
    — E pra você Damien? Aquela tal de Sam deu conta do recado?
    — Com certeza. — Digo, sem olhá-lo.
    Entramos na caminhonete e eu estou com tanto sono que desabo assim que sento no carona. Acordo com meu pai falando algo com muita raiva.
    — Veja só o que encontramos!
    Não sei do que ele está falando, esfrego os olhos e quando meu pai finalmente estaciona, vejo pela luz dos faróis dois homens vestindo suas roupas desesperadamente. Tenho um mal pressentimento, olho para trás em completo desespero. Joseph está dormindo.
    Estico a mão para acordá-lo mas papai ordena:
    — Vem, deixa seu irmão aí.
    — Mas-
    — Damien Roseburn, vamos ensinar algumas coisas para essas bichinhas.
    Saio do carro e sigo meu pai. Começo a estalar os dedos.
    — Já estávamos de saída. — Um dos rapazes parece ter a minha idade, ele é loiro e bem magro.
    — Que engraçado, eu também estou. — Meu pai ri de uma maneira que arrepia os pelos da minha nuca.
    O outro rapaz continua em silêncio. Sua pele é bem escura e ele parece ser um pouco mais velho.
    — Pai, vamos sair daq-
    — Cala a boca Damien, você só precisa fazer uma coisa.
    Meu pai aponta para o pedaço de ferro que está no chão ao meu lado. Eu olho para o objeto e um frio percorre toda a minha espinha. Os dois rapazes recuam até esbarrarem numa grande parede de tijolos. Estamos atrás de uma fábrica abandonada, nos limites da cidade.
    — Por favor, não queremos problemas. — O loiro levanta as mãos.
    Papai não responde e corre em direção aos rapazes. O negro olha pra mim como se pedisse por misericórdia e meu coração se aperta.
    Eu não quero fazer isso.
    Dimitri desfere um soco no rapaz loiro e ele cai no chão quase que mole. O outro sai aos tropeços e corre até tomar velocidade e sumir da nossa vista. Eu olho para o rapaz no chão e vejo que sua boca sangra muito. Seus olhos encontram com os meus e é como se eu sangrasse também.
    Eu NÃO POSSO fazer isso.
    — Damien. — Papai funga e continua parado na frente do garoto nocauteado que ainda olha para mim.
    Eu fico paralisado encarando os seus olhos. Porque meu pai fez isso? Eles são tão perigosos assim? Esses... homens?
    — DAMIEN! — Papai grita e me tira do transe.
    Pego a barra de ferro no chão e me aproximo. Olho para o meu pai e seu bigode que agora pinga suor. Eu não quero bater nele. Deveria? Mamãe foi embora, eu não posso decepcionar meu pai. Não posso.
    — Por favor... — O menino diz estendendo a mão e tocando no meu pé direito. Começo a tremer.
    Meu pai chuta a sua mão e se ajoelha. Segura seu queixo parecendo pouco se importar com todo o sangue que saiu de sua boca e diz:
    — Você sabe a diferença entre um humano e você? — Meu pai espera a resposta e depois do silêncio, ele grita — SABE?!
    — Não. — O rapaz diz e acaba cuspindo mais sangue.
    — Isso — Dimitri vira o rosto dele para mim. — É um humano. Interessado por mulheres, cristão, branco. — Ele vira o rosto do loiro de volta para o próprio bigode. — E você não é nada mais do que uma aberração. Entende o que eu digo?
    — Sim. — Mais sangue.
    — Damien. — Papai diz mais uma vez.
    Eu ergo a barra de ferro. Não consigo desviar de seu olhar. Ele continua olhando nos meus olhos como se soubesse como eu sou vulnerável. Como eu sou fraco.
    — Deixe o pai orgulhoso. — Meu pai apoia a mão no meu ombro.
    Fecho os olhos e abaixo o ferro com força. Não sei onde acertei. Ouço um grito sendo expelido de um gargarejo de sangue. Sinto a barra de ferro como se fosse uma extensão do meu braço e há um osso quebrando. Eu deixo a barra cair no chão e ando para trás. Não quero abrir os olhos. O silêncio que se sucede é aterrorizador demais. A escuridão me cerca.
    — Damien?! — Joseph grita meu nome. Ouço-o correndo na minha direção.
    Eu sento na terra, não quero abrir os olhos. Sinto o abraço de Joseph me envolver.
    — Se você chorar mais uma vez, te obrigo a vir aqui e fazer esse viado parar de respirar de vez. — Meu pai grita.
    — Tá tudo bem. — Joseph tenta me soltar mas eu me agarro em seu abraço e não lhe concedo permissão para sair.
    — Eu quero chorar. — Digo, bem baixo
    — Não, fica calmo. — Ele sabe que papai está falando sério. Ele sabe o que papai me obrigaria —Vamos nos fingir de neutralizados por um momento ok? Somos neutralizados agora. Não sentimos nada.
    Mas eu sinto tudo
  • O amor na primavera

    Se nunca fui amado como posso saber o que é esse sentimento? era assim que eu pensava antes de conhece-la. Meu pai me disse uma vez que o amor era algo mágico, quando se casou ele disse que foi a pessoa mais feliz do mundo, minha mãe estava linda toda de branco. Vi ambos sorrindo na foto que foi tirada no dia do casamento, era o casal mais bonito do mundo, foi o que pensei, mas algo mudou neles e perceberam que a vida de casados não era uma maravilha nem conto de fadas. Primeiro veio as discussões, nada muito sério até ele começar a chegar tarde em casa, no início ela achou que era traição e começou a segui-lo.
    Foi a um ano e meio, eu estava dormindo e fui acordado pelas brigas que vinham se tornando cada vez mais constantes, desci com cuidado para ver o que estava acontecendo, chegando nos últimos degraus da escada vi meu pai acerta o rosto da minha mãe em cheio. No outro dia ela se foi e nunca mais voltou, esse tempo todo fiquei pensando, por que não veio falar comigo?, por que não quis me ver?, por que não me levou junto?. Como você é parecido com o seu pai menino, foi o que disse a vizinha, nessa hora a ficha caiu, claro, minha mãe foi embora por causa do meu pai, ela não iria querer levar a cópia consigo.
    - Oi posso me sentar aqui?
    - Claro, que estranho, estudei a minha vida toda aqui e nunca vi ela antes - você é nova? quero dizer aqui na escola.
    - Ah! sim, vim passar um tempo com a minha avó, então decidi estudar nessa escola. - E você?, é novo?.
    - Não, consigo ser mais velho que a escola, comentei rindo, e ela riu também, não sei o porque, mas aquilo fez o meu coração acelerar.
    Desse dia em diante comecei a me encontrar com ela com mais frequência, íamos a todos os lugares, parques, cinema e festas, no começo achei que era só amizade, mas toda vez que a via meu coração acelerava, e finalmente percebi o que eu realmente sentia por ela. Eu, o garoto abandonado pela mãe, cujo pai não dá a mínima estava sentindo um sentimento diferente do que sempre senti, não era rejeição, era o oposto totalmente oposto. Era setembro quando decidi, iria pedi-la em namoro, já nos conhecíamos a dois meses, pensei que iria passar pelo colegial sem essa experiencia na vida: O primeiro amor, iria falar para ela como me sentia e depois iria pedir em namoro, estava muito feliz e toda vez que pensava nela um sorriso brotava em meu rosto era constrangedor ficar sorrindo daquele jeito, mas não queria disfarçar nem tentar esconder, queria mostrar a todos que eu também poderia ser feliz. Marquei com ela no parque, era sábado a tarde o sol estava agradável e o tempo bem fresco com aquelas leves brisas, quando cheguei avistei a sentada no banco, assim que me aproximei ela sorriu e o meu coração respondeu!.
    - Oi! disse meio nervoso.
    - Oi! que bom que me chamou tenho algo que também quero te contar.
    - Algo para me contar?, será que ela também irá me pedir? deve ser isso passamos dois meses praticamente grudados ela deve sentir o mesmo que eu, sorri. Pode falar então, meu coração estava a mil, mal conseguia parar de sorrir, as árvores florando, as flores se abrindo tudo isso era um sinal positivo à minha determinação.
    - Desculpa! como eu havia comentado vim passar um tempo com a minha avó e agora preciso ir embora para casa dos meus pais.
    Fiquei sem reação, era como se tivesse levado um soco no estômago, tudo parecia perder a cor e eu sentia o mundo girando ao meu redor, as árvores morreram, as flores murcharam, assim como meu sorriso e a única coisa que consegui ver foi o azul brotar nos seus olhos, ou será que foi nos meus?, ela falou e falou, mas eu nada ouvia tive a impressão de ter recebido um beijo no rosto, mas não lembro. Ela se foi, outra vez fui deixado, não achei que doeria, mas doeu, uma nova ferida foi aberta no meu coração e agora iria me machucar junto com a que eu já tinha.
    Desde que o colegial acabou sempre venho ao parque, me sento no banco e fico observando, cada passo dispara meu coração e eu olho na esperança de vê-la de novo, jurei que não esperaria mais nada dos outros, mas mesmo assim eu continuo voltando ao parque, não sei qual das duas eu espero, só sei que espero e acho que sempre irei esperar por ela.
  • O Diário de Melissa

    "- Eu me chamo Melissa, tenho 20 anos e não faço a menor ideia do que escrever em um Diário. Ganhei você no meu aniversário e, infelizmente, acabei te jogando no fundo da gaveta pelos últimos dois anos. Quando algumas coisas ruins começaram a acontecer na minha vida, acabei não entendendo bem o que fazer e, ao ir à um psicólogo, ele me aconselhou: escreva.

    Eu não poderia começar a escrever sobre outras coisas sem antes avivar o meu passado. Sabe, Diário, sinto-me culpada por muitas coisas e, entre elas, culpada por falhar e por não saber me impôr nos momentos certos. Mas, o que fazer?

    Há alguns anos atrás, tive meu futuro decidido. Meus pais me colocaram em uma escola particular, depois seguiram para me pôr em uma faculdade e cá estou, no meu último ano. Por quê não me impus? Quanto tempo eu perdi fazendo o que não queria? Quanto tempo eu teria investido se eu já soubesse o que fazer? Eu me sinto perdida, diário. Não estou feliz com o que faço, logo, não me sinto disposta o suficiente pra continuar. O que está acontecendo? Tudo tão confuso.

    Lembro-me de alguma vez na vida ter tido sonhos como querer ser uma Cozinheira Chef e ter meu próprio restaurante, ou trabalhar o meu corpo suficiente para ser uma modelo. Mas, logo que isso passa pela minha cabeça, hoje, só consigo pensar que o meu tempo não volta atrás e está cheio de arrependimento. Que tipo de pessoa eu vou me tornar, desse jeito?

    Mas, as escolhas de meus pais não foram tão ruins. Guiaram-me pelo caminho certo, levaram-me à igreja, foram gentis - embora ausentes - e principalmente estiveram lá para me ajudar. Sei que deveria retribuí-los, mas isso é uma coisa que não consigo engolir. Diário, não sei se amo tanto assim meus pais. Como humanos, cometeram muitos erros e, entre eles, o erro principal que me assombra até hoje é o fato de que cortaram minhas asas. Eu não pude voar, minha imaginação não pôde sobreviver e, hoje, estou a te escrever.

    Perto do fim de meu curso, não penso em "deixar pra lá". Penso em ganhar com isso. Mas, já não sonho mais e já não possuo objetivos. A vida parece fácil e ao mesmo tempo incompleta. Mas, esse é só um dos primeiros capítulos da minha vida, vai passar. Ainda assim, sou grata. Grata por ter sido repreendida, mas ingrata por não saber como voar, por não conseguir imaginar e ser incapaz de sonhar.

    Sabe, Diário, meus pais não souberam lidar comigo e eu os entendo. Nunca fui do tipo calma e gentil. Mas sim hiperativa e solitária. Eu nunca tive ninguém ao meu lado. Encontrei amigos dos quais hoje arrependo-me de ter me envolvido e acabei carregando cicatrizes até hoje. Não considerava amizades femininas, uma vez que sempre acabavam falando mal de mim pelas minhas costas ou me abandonavam sempre que descobriam algo desagradável em minha personalidade.

    A maioria de meus amigos eram homens e, eles me entendiam, mas, preocupavam meus pais. Meus pais sempre foram do tipo machistas o que, de certo modo, acabou me detonando à longo prazo. Diziam coisas desagradáveis e justificavam que a religião me proibia de envolvimento acima do necessário com qualquer tipo de homem enquanto que colocavam meus irmãos, por serem homens, acima do patamar e sem regras. Aquilo me enojava.

    Sempre fui restringida de tudo e todos. Meus irmãos eram livres para fazer o que bem entendessem. Sempre odiei essa regra. Hoje, acho que a restrição excessiva acabou comigo mais do que me ajudou. Ela fazia com que eu me sentisse um pássaro preso em uma gaiola, com uma vontade voraz de libertação. Fugi e escapei das regras várias vezes e, sempre que saía, mesmo que não fizesse nada, ao voltar eu era julgada.

    Mas, sabe diário, acredito que os melhores momentos da minha vida vieram com aquelas fugas. Eu fugia, sentava em algum lugar perto da praia e ali ficava o dia inteiro, respirando ar puro, sentindo o gosto de uma falsa liberdade. O horário de recolher me entristecia como nada faria: era hora de voltar pra cela e enfrentar o castigo que fosse.

    Mas, acho que não foi só isso. Meus pais tinham aquele péssimo hábito de não me reconhecer, o que perdura até os dias de hoje. Dentre os três irmãos, ainda que eu obtivesse mais êxito em alguma área, o crédito sempre era deles de alguma forma. Porém, acredito que não seria o que sou hoje sem todas essas vivências. Eu cresci.

    Sei que cresci quando, hoje, olho para os meus pais, com os mesmos velhos hábitos amargurantes e já não sinto nada. Sei que já não sou tão imatura a partir do momento em que não imagino mais uma cela todas vezes que chego em casa. Sei que não sou uma má pessoa no momento em que eu decidi perdoá-los por essas pequenas coisas e seguir em frente.

    Eu nasci ali, cresci ali. Não tem como dizer que, acima de tudo, não os amo. Acho que, todas as famílias possuem seus problemas, mesmo que pareçam tão perfeitas no exterior. Sei, hoje, que todas as pessoas possuem seu jeito único de amar, mesmo que em silêncio. E, eu os amo em silêncio, porque as palavras simplesmente não conseguem encontrar um jeito de sair.

    Acabei notando que, eles também, me amam em silêncio. Não conseguem dizer, por algum motivo. Mas, acabam demonstrando através de pequenas coisas, pequenos cuidados. Obrigada por tudo, pai e mãe. E obrigada à você também diário. Cheguei em uma conclusão: está tudo bem, eu estou bem."


    - Capítulo 1: Meus pais
  • O MENINO DO ORFANATO

    As dores guardadas no peito de um menino podem ser libertador para outros meninos, porque você passa entender que apesar de todas as dificuldades que um menino pobre possa passar, existem dores que nunca vão acabar independente de qualquer classe social. Esses relatos precisam ser contados como forma de denúncia.
           Uma família de classe média vivia em um dos melhores bairros da cidade de São Paulo, o pai era um homem exemplar para todos que o conheciam, a mãe uma mulher do lar dedicada, esse era o quadro perfeito para todos da vizinhança. O filho Heitor de  seis anos sempre bem vestido com roupas caras e com todos os brinquedos que uma criança possa desejar, porém sempre muito triste. Outras crianças tentavam brincar com ele, mas Heitor sempre muito recluso, com olhar cansado e distante.
             Certa vez uma vizinha perguntou a sua mãe se ele não tinha algum problema, pois era muito tímido.
             ─ Não querida, ele não tem nada sempre foi muito tímido não é Heitor?
             ─ Sim mamãe. Estou bem.
             Por algum motivo àquela vizinha não acreditou, o olhar do menino era um pedido de socorro, mas era algo que não era da sua conta. Como mãe apenas se preocupou com a criança, mas se ele falou que estava bem, então tudo certo.
             Uma noite ela percebeu que o menino chorava muito, ouvia de sua casa, levantou-se e foi até a janela. Não enxergou nada, voltou a deitar pensativa. No dia seguinte logo que viu a mãe do menino perguntou:
             ─ Oi Márcia tudo bom?
             ─ Olá querida, estou ótima.
             ─ Ouvi O Heitor chorar ontem de madrugada, ele está doente?
             ─ Não, não, às vezes tem pesadelo e chora alto.
             A mãe do menino falou bruscamente e foi saindo sem nem dar tchau. A vizinha ficou mais pensativa e desconfiada.
             Heitor já não aguentava mais aquilo, sabia que não era certo. A mãe sempre falava para ele ficar quieto porque o papai só fazia aquilo porque o amava. Mas não era certo. Heitor sabia que não, mesmo no seu mundo de criança onde se enxerga os adultos como poderosos, ele sabia que aquilo era covardia. Naquela noite ele chorou alto, pensou naquela senhora boa que o olhou preocupada, chorou para que alguém parasse com aquilo. Ele sabia que tinha que amar o papai e a mamãe, mas só pensava que seria maravilhoso se eles morressem. Daí tudo aquilo acabava.
            No dia seguinte Heitor não pôde ir à escola, não dava para levantar, seu corpinho miúdo estava dolorido e ele não chorava, só olhava para um brinquedinho de carrossel no chão com o palhaço a sorrir. Sentiu raiva daquele palhaço que parecia rir dele, pensou naquele momento que não gostava mais de palhaços.
            Os dias foram passando e passando e nada mais aconteceu. Heitor estava indo para a escola com sua mãe, o carro parou no farol e ele viu três meninos maiores pouca coisa que ele, os meninos vendiam bala e pediam moedas para comprar comida, Heitor sentiu inveja deles. Que bom seria só sentir fome.
            Passaram-se meses desde aquele dia, a boa vizinha mudou, Heitor ficou triste, não a via mais na rua. Estava brincando na sala, sua mãe estava no sofá com aquele pó que ele odiava, ela dizia que era pra ficar calma, mas ele sabia que quando ela cheirava aquilo ficava malvada. Logo o pai chegou nervoso, Heitor correu para seu quarto e ficou sentado na cama olhando para porta a espera, escutou as risadas e ouviu sua mãe chamar, não respondeu.
             Seu pai gritou seu nome e ele congelou, começou a suar, sabia o que viria depois. A porta abriu e sua mãe, já meio nua entrou totalmente descontrolada, era o pó, estava dominada. Pegou Heitor pelo braço e começou a arrastá-lo, ele tentou resistir e a implorar.
              ─ Por favor, mamãe não faz isso não. Não quero mamãe.
              ─ Cala sua boca menino, você é uma vergonha, se chorar vai ser pior – ela deu um tapa em seu rosto, ele caiu e começou a chorar. Seu pai ouvindo os gritos, foi até ali, no corredor entre os dois quartos, Heitor só teve tempo de levantar o rosto e ver seu pai sorrindo, quis correr, a mãe o segurou e tirou sua roupinha e ali mesmo o pai o violentou, Heitor não gritou, mas resistiu o quanto teve forças. Sua mãe assistia  a tudo e dizia com naturalidade:
            ─ Cuidado querido, não deixe marcas.
            A casa da vizinha estava à venda, Heitor sempre pensou que ela pudesse ser a pessoa que iria lhe ajudar, ficou mais triste, agora ele tinha sete anos, era maior e queria fugir daquela casa, mas sabia que se fugisse o trariam de novo e seria pior.
             No seu aniversário levou uma surra daquelas, o pai bebeu muito e fumando aquele cigarro de folhas ficou louco, chamou Heitor várias vezes, mas ele não foi. Quando seu pai o encontrou foi pior as brincadeiras, ele queimava o Heitor com a ponta do cigarro, como o Heitor não chorava ele repetia.
             ─ Menino fraco, chora mulherzinha – não vendo reação do menino ficou zangado, quando se levantou o cigarro caiu em cima de suas pernas nuas e o queimou nas coxas, ele ficou pulando como um macaco de circo, Heitor riu. Ele deu um soco na boca do menino, Heitor desmaiou.
            Quando ele acordou a mãe estava gritando com o pai, ele ficou feliz, agora ela ia defendê-lo, mas logo voltou a ficar triste ao ouvir suas palavras.
            ─ Você marcou o braço dele Carlos, agora vão ficar fazendo perguntas, quero só ver se descobrirem, temos que dar um jeito nele.
            ─ Cala boca Márcia, ninguém vai descobrir nada não, é só dizer que ele está doente, diz na escola que ele está com catapora, ninguém vai estranhar as marcas, sabe aquele amigo meu médico? – falou rindo debochado – vou pedir uns atestados pra ele.
            ─ Meu amor você é um gênio – ela abraçou o marido rindo e olhando para Heitor.
    O menino conhecia aquele olhar, ela era doente, gostava de assistir o que o pai fazia com o filho e se satisfazia com isso, ele sentiu tanto nojo daquela mulher que sem saber o porquê começou a gritar, gritar e gritar, como se sua vida dependesse disso.
           ─ Sua puta descarada, seu monstro, vou matar vocês, o diabo tem de existir pra levar vocês – repetia tudo o que o pai dizia em seu ouvido quando estava em cima dele.
            Os pais surpresos  começaram a gritar, a mãe estava em vias de matá-lo, pegou uma cinta e passou em seu pescoço, o menino esperneava, o pai disse que ia lhe dar uma lição. Com a mãe o segurando e o sufocando o pai baixou suas calças e foi pra cima do menino, mas Heitor se recusou a ceder, mordeu sua mãe e correu para cozinha, pegou a faca. Seu pai veio com ódio e gritou para mulher.
            ─ Márcia, te avisei que esse menino é filho do demônio, vem ver o que o filho da puta quer fazer – e riu de Heitor, aquele sorriso bestial, na hora o menino lembrou do brinquedinho, aquele palhaço. E sentiu muita raiva. Correu como um louco pra cima do pai.
            Mas que defesa uma criança de sete anos tem contra dois adultos monstros? Conseguiram pegar o menino, bateram muito nele e como se não bastasse a surra o pai o estuprou várias vezes naquele dia. Heitor chegou à conclusão que odiava aniversários.
    Seu corpinho nu ficou ali na cozinha, o deixaram como um monte de lixo, suas perninhas roxas e o sangue a escorrer no chão. Ele desejou a morte e pensou que ela tinha chegado a lhe buscar quando a campainha tocou.
            Como um anjo a vizinha que havia mudado, apareceu. Com ela trazia o conselho tutelar, pois a professora da sua filha, que também era professora do Heitor, havia lhe contado sobre o texto que leu do menino, no texto ele queria matar os pais, também comentou que estava preocupada porque Heitor vinha faltando muito à escola. A vizinha, junto com a professora denunciou os pais do menino, pedindo para que o conselho tutelar fosse até aquela casa, comentou que quando morava perto ouvia o menino chorar algumas noites e que ali havia sinais de abusos.
            Heitor foi levado, seus pais presos em flagrante por abuso de menor, tráfico e contrabando. Ninguém quis acolher o menino, os familiares diziam que Heitor seria uma criança problemática, então ele foi deixado em um orfanato. 
            Hoje Heitor tem dezessete anos, falta pouco pra ser maior de idade, é um menino estudioso e quer prestar vestibular na área de ciências sociais. Numa entrevista de trabalho quando a atendente perguntou seu endereço e ele passou do orfanato, ela o olhou e disse:
             ─ Nossa que triste viver em um orfanato – ele a olhou sorrindo e respondeu feliz.
            ─ Não é triste não moça, foi o dia mais feliz da minha vida.
  • O Mesmo Ritmo

    Uma parte de mim diz que "não"
    Que não é a hora certa
    Para se envolver, se entregar

    A outra parte diz que podemos ir
    Em busca do que nos espera
    E não devemos deixar no ar...

    Passei o dia todo pensando no que te dizer
    É duvidoso o "sim", é doloroso o "não"
    Escolhi o que preciso, o que agora posso ter
    Vai no mesmo ritmo do meu coração

    Me olhe nos próximos dias, nos próximos meses, nos próximos anos
    Da mesma forma que me olhou agora, quando eu disse que te amo

    Me guarde, nos seus pensamentos
    Me envolva em seus dias, me mostre saídas
    Sei que a nossa história, já estava escrita
  • O pombo preso no galinheiro — Crônicas do Parque

    Notara-se perdido no ponto atual de sua vida. Não soube ao certo como tudo lhe escapou. De repente, no parque de Kfar Saba, se viu em um lugar onde nunca quisera estar. Em que nunca imaginara, ou ao menos sonhara e desejara.

    _ Oh vida! _ exclamou como se estivesse perdido em si mesmo.

    As pessoas que o arrodeavam o contradizia. Nada tinha a ver com aqueles indivíduos cabeças de tarnegolot (galinhas). Seus papos eram mundanos, seus assuntos profanos, suas palavras besteiras. Não assim pensava pelo fato de se julgar superior, mesmo sabendo que era uma pessoa superior. Apenas sentia-se estranho com aquela gente, como um pombo que ficou preso no galinheiro. Mesmo assim, esforçava-se para ser gentil. Mantinha sempre um sorriso no rosto, não com tons de cinismo, mas de simplicidade. Pois, sabia muito bem ele, que aqueles indivíduos nada tinham a ver com sua angustia, apenas estava no lugar errado. E, se perguntava:

    _ O que estou fazendo aqui? Como vim parar aqui?

    Não era preciso ter muito cérebro para realizar aquele trabalho. Sabia que podia muito mais, e que era muito mais inteligente. Ali estava apenas por motivo de necessidade de adaptação. Assim, recebia ordens dos ignorantes e tolos, e as efetuava com a humildade daquele que sabe quem é, e crer no que quer. Somente se sentia desconfortável com isso. E pensava:

    _ É isso… só isso.

    Quando menino era observador, astuto e de olhos abertos. Estava a mil anos à frente dos demais. Quando adolescente era engenhoso, vívido e sagaz. E os adultos e as pessoas de mais idades, diziam:

    _ Este, será um grande líder.

    Aos vinte anos pensava como um homem de trinta. Era responsável, sonhador e trabalhador. Além de ser independente e autodidata. Tinha os seus próprios projetos e não trabalhava para ninguém. Além de ser bonito, sabia se expressar e se comportar. Era ousado, e tinha a força e magia de tudo fazer acontecer. Nada tinha de timidez, mas ousava ser tímido apenas como estratégia para conquistar o que se queria, e todos o invejavam.

    Por isso, não entendia o porquê de todo aquele silêncio nessa sua atual fase de vida. Só porque resolveu mudar de país? Porém, ignorava que mudando de país, mudara de cultura, e dessa forma, tinha que aprender como fazer tudo do início novamente.

    _ Nascer de novo. _ afirmava para si constantemente.

    Não era só pelo motivo de estar aprendendo a falar uma nova língua, o motivo era adentrar uma nova e difícil estranha cultura aos trinta anos. E saber que tudo que realizara e conquistara até agora, nada até então, tinha de muito valor ali.

    Se viu despido, e podado. Como uma mangueira jovem que já estava dando bons e doces frutos, mas que foi retirada do seu lugar de nascença, pois o senhor da casa ali resolveu fazer uma piscina. E assim, a podaram. Cavaram ao seu redor, e a levantaram da terra violentamente quebrantando suas fortes raízes. E, levaram-na para replantar no meio das laranjeiras, numa terra seca e pobre. Onde retiraram todas as suas folhas, restando apenas um tronco com tocos de galhos.

    As dificuldades de sua infância o tornou um jovem inteligente. E, holisticamente, confortava-se com as dificuldades de sua mocidade, que provavelmente vislumbrara que o tornaria um sábio ancião.

    Entretanto, a mangueira que ajudara a replantar, cavando um grande buraco sob sol escaldante do verão israelense, em que colocara grandes quantidades de estercos, klipohts (cascas secas de árvores) e muita água, não resistiu e morreu em meio as frondosas laranjeiras.

    _ Vearchshav! Ma ehiyeh iti… (E agora! O que será de mim…) _ pensou.

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