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realismo

  • A Tragédia de Mariana

    Eu me chamava mariana
    Sempre fui bela e formosa
    Com minhas águas cristalinas
    A todos eu ajudava
    Ajudei a muita gente
    À agricultura também
    Terra de gente valente
    Que não se rende a ninguém
    Mas hoje tudo é passado
    Aqui não tem, mas ninguém.
    Os rios que banhavam as terras
    Aqui não banham, mas ninguém.
    Mariana deixou de ser
    Aquela Cidade formosa
    Com rios, praças e jardins.
    E suas arvores viçosas
    Mariana agora é passada
    Tudo ficou na história
    Que um dia existiu
    Essa Cidade formosa.
  • * Prazeres "quase" eternos

    Nos refletores, cores variadas explodindo em feixes de luzes ricocheteando os globos espelhados posicionados estrategicamente no alto do salão, infundia em cada um dos presentes, um misto de sensação cada vez mais agitado, frenético, dançante e prazeroso no expressar já movimentado dos pés sobre a pista de dança. “Que tanto de gata! Vamos praticar os passinhos? Marcos Hayashi era impulsionado pelos amigos em provocações já imersas e sequestradas pelo ritmo das músicas, vibrando neles, pensamentos, atitudes e comportamentos mais ousados que em um dia normal. “ Putz! Há tantos anos frequento esse espaço e nunca encontrei alguém que realmente valesse a pena!” Com o olhar viajando pelo ambiente, ele suspirava silencioso entre um e outro ressentimento, copo de cerveja à mão, acompanhando apenas com os olhos o grupo incompleto se enfileirando no centro, iniciando os passos exaustivamente praticados no fundo do galpão da fábrica. Conforme a música se desenvolvia e a provocação do ritmo abastecia a eletricidade dos corpos, a galera ao redor ficava cada vez mais agitada com gritos perenes, excitada pelos movimentos frenéticos de pés, mãos, troncos e cabeças metodicamente sincronizados entre os eles, perfeitamente expressando rostos já corroborados de sentimentos de aprovação por causa dos aplausos que recebiam. “ Galera, hoje não irei participar! Marcos sorria um sorriso desanimado partindo solitário para o segundo piso, após ter negado o convite quase obrigatório de estar ali, juntamente com eles, participando da coreografia que a alguns anos o clã  utilizava como “isca” para “pescar” novas garotas. Subindo as escadas, a alma tateando aqui e ali através de olhares trocados, contraditoriamente ele adentrou a sala reservada aos namorados, e como todas às vezes que se sentia entediado, caminhou lentamente atravessando o corredor sobrepujando uma parede esverdeada, onde após a grossa coluna de concreto, alguns banquinhos isolados construíam uma aura maior de privacidade no ambiente. Já sentado, o líquido embriagante sobre a mesa ao lado de um maço de cigarros amarrotado, ele ficava ali, o olhar perdido no horizonte dos sons, das cores e dos corpos agitados de desejo lutando contra a ansiedade e o receio de “porventura” voltarem desacompanhados após a farra.
    Como nas noites que velhos sentimentos voltava a atormentá-lo, ele retirou o pequeno livreto do bolso, capa azul de camurça, onde estava escrito em letras desgastadas e douradas o título: MAKTUB (Está escrito!) Com o rosto mergulhado vasculhava página por página, a fumaça do cigarro insistindo adentrar as pálpebras mas impedida pelo piscar frenético dos olhos, seu dedo finalmente encontrou a dobradura no cantinho que denunciava o papel amarrotado, sujo e amarelado pelas constantes releituras das letras. “O pior pecado do mundo é o arrependimento” Lia e relia em voz alta a frase que a tantos anos exercitava os músculos da língua e da mente, entremeando os pensamentos, devorando horas de suas horas por busca de significados diferenciados entre os inúmeros que se pôs a refletir em algum canto do apartamento. “Não acredito que estou vendo você aqui!” Era uma voz feminina e sensual, reconhecida no desabrochar da infância até a puberdade precoce, que acompanhou o Marcos menino nas ruas, nas praças, nas lanchonetes, na escola e em cada cantinho de casa quando imprudentemente esquecidos ali por ambos os pais. “ Linda Harumi! ” Em um sobressalto, os olhos não podendo esconder o impacto daquela presença, ele ficou vislumbrado com a beleza que agora encorpava a menina manhosa, delicada em gestos e nos protestos, a raquítica especial que insistia a tantos anos estimular antigas lembranças, povoar suas memórias, sempre o incomodando em desejos impossíveis de serem esquecidos. “ Há quanto tempo você está no Japão?” Já sentada e o encarando, Linda perguntava curiosidades ouvindo atentamente não mais se atendo a fisionomia do rosto dele, nem incomodada pelos olhares à volta a devorando de cima a baixo, mas no movimentar contínuo e singelo daqueles doces lábios que, na adolescência, tanto deliciou em beijar. “Estou à três anos no Japão! E você?”  Marcos respondia suas perguntas com o semblante amendoado e carinhoso, lutando com os olhos na verdade, mas não conseguindo se desvencilhar das curvas, das formas, da silhueta formosa ainda que na penumbra do ambiente levemente já esbranquiçado pela fumaça branca liberando um odor agradável que subia dos motores elétricos posicionados nos quatro cantos da pista de dança.
    Como água represada à anos, ambos assim ficaram, os olhos dele encarando sutilmente os olhos dela, ela tateando resquícios de percepções diversos nele, mas ambos simultaneamente impulsionados a encontrar nos diálogos; um sentimento comum impregnando as palavras, ladeando o pausar das resposta involuntárias, ou suspenso em algum movimento inconsciente que porventura denunciasse em gestos, em olhares, em suspiros inaudíveis que eles ainda se desejavam. “ Cheguei à três meses... é tudo tão diferente…  não sei se vou conseguir me acostumar!” Buscando refúgio no calor corporal que, paulatinamente se alastrava para a singeleza do rosto, Linda Harumi intercalava sorrisos com desvios de olhar, e ele, devolvia o sorriso envelopando com eles, promessas protetoras de alguém um pouco mais acostumado com toda aquela loucura, com todos aqueles trejeitos, com todas aquelas esquisitices de país de 1º mundo.  Finalmente chegava a pausa de descanso do DJ que, com as mãos doloridas, posicionou um LP enquanto os casais apaixonados iam se formando aos pares. “Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo...” Ele se levantou da mesa, e estendendo carinhosamente a mão em sua direção, a convidou para descer até a pista de dança ao som romântico de Mariah Carey...
    “You look into my eyes
    And I get emotional inside
    I know it's crazy but
    You still can touch my heart
    And after all this time
    You'd think that I
    I wouldn't feel the same
    But time melts into nothing
    And nothing's change…”

    Já abraçados, as mãos de Linda suavizadas sobre os ombros seus ombros e as deles circundando firmemente sua cintura, por um momento ou pelo tempo que durou a música, toda uma torrente de sentimentos acumulados e represados ao longos dos anos passados, arrebataram suas almas: vieram as lembranças das promessas joviais expressas em beijos singelos e demorados, das fugas entremeio as festinhas que aconteciam na vizinhança, as travessuras, os receios, e a intranquilidade pelo possível flagra ao pé da porta que avultam ainda mais em sentimentos sinceros, crescentes, genuínos, se apossando cada vez mais do coraçãozinho de ambos na pré-adolescência. “Nunca consegui te esquecer!” Marcos proferia confissões acaloradas ao pé do seu ouvido, a respiração de ambos ficando acelerada, diminuindo cada vez mais o espaço entre os corpos no apertar dos abraços não tão sutis, seduzidos cada vez mais pelas passagens românticas da música. “ Ah Marcos… eu também não … “ Ela respondia os gracejos já se sentindo segura nas palavras, o queixo angelical repousado sobre o ombro dele, deixando a doce fragrância do perfume nos cabelos embriagar cada vez mais o olfato do recém amor reencontrado. “ Parece que foi ontem....”  Refletiam no conforto do próprio silêncio, os passos alternados; dois para lá, dois passos para cá, e a canção anestesiando os corpos da tensão do dia, adocicando pensamentos diversos, enternurando emoções antigas, revirando no fundo do baú dos sentimentos até encontrar o ‘’amor descontinuado’” ainda fibrilando pulsões, latejando sensações, emergindo na epiderme do ser resquícios do prazer de uma vida a dois interrompida, impossível agora, pela força do destino ou pelo acaso do reencontro de almas que se procuravam, permanecer vivo somente nas lembranças.
    “Não vai nos apresentar ?” Logo ao final do repertório romântico, os amigos se aproximaram expressando arfadas, suspiros e golfadas de ar intercaladas, provocando ciúmes ao colega que, diante daquela beldade, o julgava um cara sortudo. “Essa é a Linda!" Apresentava a acompanhante ao seleto grupo de amigos em círculo, desejando naquele espaço de tempo ter dito “meu amor” ao invés de “minha amiga”, dando-lhe um beijo singelo na bochecha, enquanto permitiu que ela fosse fuzilada por perguntas vindas de todo o grupo. Ela respondeu todas as perguntas buscando sempre apoio na presença ao seu lado, as palavras entrecortadas por gestos, por olhares, por suspiros acompanhados de uma entonação amanteigada na voz, e a todo momento direcionando o olhar para aquele que a abraçava. “ Vamos reunir a galera amanhã na estação. Você vem?” Convidaram. “Não vou dar certeza pessoal... Eu e a Linda acabamos de nos reencontrar e talvez tenhamos outros planos para amanhã...” Franzindo os olhos, Marcos a encarava com ternura em rabos de olhos desconfiados, receoso por ter ultrapassado por assim dizer, algum limite dela, na resposta espontânea que deu ao amigo. No relógio central localizado no alto do chafariz da praça principal, bateram duas horas da manhã quando todos se despediram em frente da casa noturna denominada B’One com o frio cortando porta afora, cada um seguiu esgotados e satisfeito em passos apressados na direção do ponto de ônibus. “Aonde te deixo?” Marcos Hayashi perguntava já sentindo saudades, conduzindo-a rumo à estação do metrô subterrâneo enquanto Linda Harumi momentaneamente muda, sorriu envergonhada, com o rosto mais corado que o normal. “Me leva pra sua casa?” Ressabiada e com os olhos miúdos enterrados em sua direção, como uma cadelinha sem dono ela apertou ainda mais o braço encadeado ao seu. Por um instante de momento, com a mente de Marcos  sendo pega desprevenida viajando em devaneios passados, ficou mudo.  “Se você quiser é claro...” Ela reforçou o auto convite com a face insegura e envergonhada,respeitando as próprias pausas respiratórias do ar gelado adentrando as narinas, concentrando o seu olhar a partir dali, nas leituras de uma "aura" agora desperta, emitindo paulatinamente um brilho mais incandescente que antes.
    Após apearem do táxi, ambas as mãos roçando a pele em toques singelos, finalmente seus dedos se entrelaçaram. “Nem em mil anos poderia ter imaginado reencontrá-la...” Marcos Hayashi comemorava em silêncio, a respiração ficando ofegante, e a imaginação a mil enquanto conduzia com doçura Linda Harumi já na entrada do pátio. “Cuidado com o degrau princesa!” Advertia carinhoso, controlando em pausas a excitação se avolumando na mente, enquanto admirava de rabo de olho a silhueta formosa revelada na penumbra da noite. “ Haha! Princesa? Nossa! Estou adorando esse seu tratamento VIP!” Ela subia lentamente cadenciando os passos, a lanterna do celular Iluminando o caminho, enquanto se esforçava para apaziguar o vestido florido, rebelde ao corpo, totalmente agitado com as rajadas de ventos vindo em ambas as direções. Dentro do apartamento N° 404, já protegidos da tortura congelante que ficara de fora, em um impulso logo eles se aqueciam abraçados. “Precisamos de um banho!” Linda se antecipou em falar, para logo em seguida, às pressas, corrigir o possível mal entendido sublimado nas próprias palavras: “ Quero dizer que eu preciso tomar um banho…” Energias inocentes estas, entremeando suas falas, passando a vibrar insinuações sensualmente mais provocantes na libido de ambos. “ Sim, claro! Vou pegar um roupão para você…” Suspirou.
    Foi uma “puta grosseira” de um prostíbulo localizado no centro de uma cidade chamada Omya que anos atrás “roubara” a virgindade do inexperiente Marcos. Entre as “estocadas inseguras” ora ela folheava uma revista, outrora retocava a maquiagem borrada, mas sempre e compulsivamente recontando o dinheiro adquirido que escondia entre cobertores inundados de suor. Com as pernas arregaçadas, recebendo as idas e vindas frenéticas que estremeciam toda a extensão do seu corpo judiado, ela não se esforçava para esconder a má vontade do “ fazer ” expressado nos suspiros tediosos que bufava, nos olhares indiferentes carregados de desprezo, e principalmente na falta de educação que denunciava o cansaço da “ labuta exagerada ” que mulher alguma nunca deveria se acostumar. Dentro de uma cabine 3x1 mal iluminada, com homens e alguns jovens atrás da porta em fila ansiosos para adentrar, foi que Marcos Hayashi aos 16 anos de idade iniciava a traumática vida sexual que, dali pra frente, viciava sua carne, mas violentava inevitavelmente a sua alma. Agora Linda Harumi estava ali: lindamente provocante, insinuante em gestos inconscientemente diretos, arrebatada por desejos de compartilhar com ele, o abecedário completo do prazer quando é deliciosamente conjugados nos verbos: dar e receber amor. Mas Marcos respirando resquícios dessas mesmas frustrações passadas, instintivamente se fez de desentendido, corou nervoso, e insinuando à tarefas esquecidas, ele desprezou momentaneamente os clamores desesperados da sua faminta carne. “ Está com fome? Que acha de eu preparar um lámen pra nós!” Dizia partindo para a cozinha, lhe entregando um roupão amarelo, enquanto Linda envergonhada pelas recentes falas, fechava a porta do banheiro confusa. “Fiz besteira… como você é oferecida garota!" O quê ele vai pensar de mim?” Ela naufragava em perguntas confusas, tirando a roupa vagarosamente, e em paralelo, procurando defeitos em frente a um espelho que revelava seu físico, mas não as angústias brotando da sua alma. “ Burra, burra, burra...” Balançada pelas próprias condenações, ela achava repouso apenas na batida quente das águas que, inundando suas costas, descia suavemente ladeando e abrangendo as curvas acentuadas das nádegas.
    Na cozinha, segurando uma faca afiada na mão, Marcos Hayashi preparava entre um suspiro e outro, os ingredientes que comporiam o preparo do alimento à base de massa: o kombu, o niboshi, ossos de carne, shitake e um pouco de cebola. Mantinha o pé segurando a porta da geladeira entreaberta para alcançar com a mão um par de ovos mexidos que quando quebrados, caiam na água fervente, diluindo e empedrando ao mesmo tempo. “ Que vontade de estar lá, tomando um banho quentinho, agarradinho com ela... ” Dizia degustando os pensamentos vindos do demoniozinho sibilando em seus ouvidos, os seus olhos revirados ao teto, já sentindo no corpo as velhas tremuras do prazer.

    “Mas ela não é como as outras que eu  comi...” Deu o veredicto final, se concentrando no tempero, despejando as verduras picadas na panela enquanto o macarrão duro amolecia aos poucos, no compasso das mexidas da colher de pau. O cheiro do lámen proporcionado nos vapores que subiam em espiral até o teto, seguia o fluxo do ar sorrateiro que entrando pela abertura da janela da sala, alcançava e engolia todos os ambientes do apartamento. “Que cheiro delicioso! ” De repente, Linda, a passos lentos, com o roupão grudado a um corpo jorrando vapor pelos ares, despontou silenciosa na porta da cozinha, e encostando no portal contemplava-o enquanto penteava com os dedos seus longos cabelos umedecidos. 

    Sobre a mesa, os tchawans esperavam virados de cabeça pra baixo bem ao lado dos hashis de madeira recém tirados de uma embalagem. Para acompanhar o preparo; shoyu, pimenta e um pouquinho de kurikake que era jogado sobre o arroz cozido sem um pingo de sal. “ Linda, use o meu quarto para se trocar! ” No quarto, já sentada sobre a cama, Linda Harumi vasculhava com olhos nervosos resquícios que porventura indicassem alguma pista, alguma mancha, cheiro ou algo que confirmasse que alguma presença feminina havia passado por ali. Não encontrou nada. Apenas fixado nas paredes, três pôsteres de tamanho 2x1 “embelezavam” o ambiente pouco iluminado, gerando um frenesi louco de imagens retiradas de revistas hentais (pornô). Em cada cenário, mulheres nuas em  poses extravagantes e sensuais, revelavam as próprias “curvas” sem nenhum pudor. Por exemplo, na parede frontal, estampado estava a imagem de uma loira estonteante: só de biquíni e agachada de costas, ela segurava uma bola de basquete, glúteos quase ao chão, o rosto virado pra trás oferecendo um sorriso lindo carregado de provocação. Na parede lateral à esquerda, bem ao lado de uma estante montada de ferro encaixáveis, o segundo quadro apresentava uma morena escultural em meio à mata: sentada sobre uma grande pedra, as pernas entreabertas, o dedo indicador da mão esquerda passeando os lábios volumosos em um olhar inocente, subliminarmente convidativo ao prazer. À vista ficavam os seios fartos, as coxas grossas, a barriga bronzeada, e o sexo totalmente à mostra, sendo ladeado carinhosamente pela pontinha dos dedos da mão direita. Por último era a ruiva emoldurada no cantinho especial do quarto, por cima de uma escrivaninha coberta por livros e algumas revistas de sacanagem organizadas metodicamente em fileiras que faziam divisa com um porta canetas de aço. A terceira beldade estava suspensa sobre uma máquina de escrever antiga que, há alguns anos, Marcos Hayashi vinha dedilhando alguns poemas apaixonados. “Assim você acaba comigo guria!” Era exatamente assim que ele em seus devaneios frequentes, repetia sua confissão sem se cansar, sozinho no banho ou debruçado sobre a cama, devorando a imagem nua com olhos famintos enquanto arregaçava o “membro endurecido” salivando de desejo, saltitante na palma da mão. “ Nem consigo trabalhar amanhã ” Desejava-a com a boca, os pensamentos soltos e encravados em cada pedacinho do corpo dela: nos lábios carnudos insinuantes no movimentar da língua aos beiços, nos seios fartos carregados de uma volúpia descomunal que refletindo o rosado dos bicos pontudos expressava ainda mais a brancura da pele sedosa, na bunda redondinha, formosa em formas, empinando convites a deliciosas cavalgadas aceleradas, e por fim, na cerejinha do bolo, o gran finale, representado pelo sexo depilado, acentuado pelas marcas de um biquíni ausente, deliciosamente pronto para ser consumido a exaustão. Gemendo sempre baixinho acompanhando o movimentar frenético do vai e vem dos dedos cerrados, ele não deixava que nada passasse despercebido à sua mente, sempre voraz a tudo que, dependendo da quantidade dos pixels da imagem estática, pudesse ser deliciado.
    Deslumbrada com a beleza das imagens, no entanto visivelmente perturbada com a rivalidade que elas representavam, Linda Harumi ficou por um breve espaço de tempo às encarando de frente; o olhar empoderando, a respiração firme e pausada na postura ereta do corpo que anunciava ali, algum tipo de futura batalha. “O reinado de vocês, suas piranhas, acaba aqui!” Dizia em falas esquizofrênicas, relaxando os ombros e as costas, sentindo-se mais leve, mais segura e liberta nas recentes palavras que expurgaram algum tipo de mal inconsciente. Em seguida, após vestir um moletom acinzentado, procurou na gaveta inferior da cômoda alguma meia que pudesse calçar. “Será que é o diário dele?” Lina Harumi manuseava um caderninho capa de couro, cor vinho envelhecido, com o tempo de uso já considerável, sem anotações externas que denunciassem algum tipo de função. Abri-lo sem ser descoberta era impossível. Trancado pelas bordas, um pequeno cadeado dourado garantia que o conteúdo das páginas, seja lá o que for que estivesse escrito, ficasse totalmente inviolável, definitivamente inacessível a olhares curiosos. 

    “ O lámen está pronto... ” Sobre a mesa, com os olhares timidamente trocados, eles se sentaram lado a lado, talheres à mão, servindo da panela à frente, deliciosa e convidativa aos olhos no saciar da fome acumulada, expressada nos roncos sugestivos do estômago que horas atrás vinha reclamando como cachorro louco. Dizendo “Oishi!” em japonês, Linda agradecia a Marcos Hayashi com a boca cheia do macarrão, ora suspenso sobre as duas ferpas do hashi que, enfiado entremeio aos fios, lutava para manter-se firme e ancorado aos dedos. “Vamos ouvir uma música?” Retirando o CD da Roxette do estojo, Marcos o encaixou cuidadosamente no compartimento do aparelho eletrônico, girando o botão do volume até que a canção Listen To Your Heart, já audível em som ambiente, começasse a tocar:

    “I know there's something in the wake of your smile
    I get a notion from the look in your eyes, yea
    You've built a love but that love falls apart
    Your little piece of heaven turns too dark…”

    Finalizado o jantar, eles se sentaram na sacada do apartamento. Com o coração mais acelerado, a respiração ofegante em ciclos se alternava de acordo com a temperatura no interior do edredom enroscado em ambos os corpos à convites de contatos mais aflorados. “A lua é linda!” Ouvia-o dizer poemas ao pé do ouvido, aveludando as palavras, e com o olhar amoroso, Marcos ajustava o tom da voz na altura perfeita que não atrapalhasse a melodia de amor que continuava entoando vibrações carregadas de candura a partir do aparelho na sala.

     “ Eu a perdi uma vez…” Marcos ditava promessas que insistia que iria cuprir a ela, o seu olhar ficando sério, apertando seguidas vezes um chumaço do edredom felpudo que ia reduzindo cada vez mais o espaço entre os dois corpos se ardendo de desejo no resvalar nada sutil dos toques eletrizados. “Ah mas éramos apenas dois jovens apaixonados...  Enroscada ao seu peito e com a ponta dos dedos, Linda identificou uma estrelinha sob a lua, reluzindo seus raios cintilantes na penumbra da noite. “ Vamos compensar agora, né princesa ? Ao ouvir a energia vibrando destas doces palavras, Linda Harumi duplicou o sorriso espaçando ainda mais o espaço entre os lábios, agasalhando no coração de mulher sensibilizada com o cenário, as doces seguras palavras recém-ouvidas ao pé do ouvido. “ Podemos sim e vamos! ” Marcos Hayashi reforçou novamente os abraços, o seu semblante esmagando o dela, sorvendo com a língua o excesso do chocolate que ficara salpicado em um dos lados da bochecha. O carrossel girando no aparelho de som, por fim alcançou o último CD posicionado e, no compartimento sobre o laser, posicionou a música romântica La Solitude de Laura Pausini:

    “Marco se n'è andato e non ritorna più
    E il treno delle 7:30 senza lui
    È un cuore di metallo senza l'anima
    Nel freddo del mattino grigio di città
    A scuola il banco è vuoto, Marco è dentro me
    È dolce il suo respiro fra i pensieri miei
    Distanze enormi sembrano dividerci
    Ma il cuore batte forte dentro me”

    Ali, sobre o luar, os rostos corados levemente sendo iluminados, eles deram o primeiro beijo de amor que, dali pra frente, selaria o reinício da relação iniciada na adolescência. Debaixo do cobertor, ora os corpos se fundindo nos abraços apertados, outrora as mãos soltas à vontade brincando apalpadelas entremeio ao vácuo, deixava a pele toda eletrizada, desejosa por mais, carregada de uma ânsia insaciável por toques mais acalorados. “  Sou toda sua amor!” Linda Harumi se jogou sobre seu corpo, o olhar levemente ficando devasso, se distanciando rapidamente da timidez inicial, incentivada ainda mais pelo alastrar da ardência úmida no enroscar frenético das duas línguas. “ Vem cá... não foge! ” E ela o segurava em suas falsas escapulidas, ambos os sexos estimulados debaixo da roupa, a sua boca carnuda toda enlouquecida, desejosa por mais, naufragando em um mergulhar cada vez mais profundo dentro dos lábios do amado.

    Linda se entregava sem economias, excitada pela voracidade dos beijos contínuos, pelo calor tempestivo gerado nos abraços mais apertados, mas sempre e paulatinamente testemunhando o desnudar do próprio corpo no avultar nada sutil de dois olhos incinerados. Ainda que se sentindo sequestrada pelo desejo de satisfazer a ele ou mesmo ansiando querer mais pra si dele, ela permanecia totalmente entregue diante das investidas sequenciais, palpáveis, ou gustativas, não interrompendo as preliminares nem diante das tão necessárias golfadas de ar. “Fica louquinha pra mim, fica princesa?” O amado balbuciava para uma mulher cada vez mais perdida nos próprios sentidos, a cabeça emborcada para o lado em desprezos dos cabelos sobre o ombro, permitindo com estes submissos atos, uma passagem mais convidativa ao prazer, carregada de provocações eróticas, aprisionando parte dos desejos de Marcos focado na consumação exacerbada da pele nua em volta do seu exuberante pescoço. “Ai que tesão...” Sem piedade Marcos caia esfomeado, o pensamento acelerando o palpitar do coração nos gemidos crescentes ao pé do ouvido, beijando a pele dela com carícias provocativas no passear sensível junto aos lábios, em suaves mordidas no lóbulo inchado de desejo, seguido por intercaladas enfiadas da língua no fundo do orifício do ouvido. “Hum, já estou tão molhada...”. Excitado, Marcos finalizava o ciclo degustativo com chupadas mais sedentas que as iniciais, sua língua serpenteando roxeões à flor da pele, notórias a ver de longe, afogando cada vez mais a libido de ambos no desejo louco de adentrarem o próximo estágio.

    Grossas nuvens formando no horizonte, e o próximo estágio acontecia estritamente às apalpadelas aprofundadas, a mão de Marcos adentrando o moletom de Linda, a pontinha das unhas arranhando suavemente a lateral do dorso dela, a deixando toda arrepiada, louca de desejo por ele que, suas mãos subindo o sutiã, não saia dali, até vencer o adversário empacado, o fecho não sincronizado com o tesão arrebatador que há muito tempo já engolia os dois. No concentrar mental entre as pausas para a respiração, finalmente o fecho se abriu, os sorrisos antes abafados coloriam mais o rosto, as mãos resfolegantes por tatear tanto, finalmente degustavam toda a volúpia de um par de seios extremamente fartos. “ Também estou pegando fogo...” Marcos Hayashi advertia sem parar e ela ficava cada vez mais excitada nas carícias, nos afagos, no movimentar da pontinha do dedo pressionando levemente os bicos dos seios e os deixando mais inchados, entumecidos e desesperados por mais. “Agora desce um pouquinho...” Em seguida, como um cachorrinho bem adestrado ele fielmente obedecia, descendo ao ventre chapado, passeando os dedos na extensão da virilha, estacionando nos pelos pubianos macios e escassos, ora puxando-os levemente como se quisesse arrancá-los, outrora massageando por cima como uma mãe amorosa acariciando os cabelos do filho.

    Ali na virilha, a calcinha apertada denunciando tatilmente a umidade do sexo vazando o exterior do tecido, os dedos dele ficaram mais agitados, mais sedentos, mais ansiosos por causa do ritmo pulsante do sangue que, circulando com maior rapidez nas têmporas da testa, aumentava cada vez mais a pressão sanguínea dentro da cabeça. “Que bucetinha molhada..." Assim, narrando seus laboriosos atos, Marcos começava devagarinho, acariciando o clitóris em movimentos suaves, às vezes frenético no enrijecer dos dedos, mantinha estes movimentos por alguns segundos, depois voltava a ladear os lábios de cima a baixo, arregaçando a abertura da vagina, sempre com o extremo cuidado de não feri-la com as unhas. Na entrada do orifício, com o desejo sexual alimentando a sua sensibilidade criativa, Marcos Hayashi sentia o próprio “pau” ao invés de “dedos” endurecidos: indo, vindo, estacionando lá no fundo, depois voltando e entrando novamente, retornando a ladear os grandes lábios como no início, saboreando assim, devagarinho, palmo a palmo, toda a  densidade cavernosa daquele sexo encharcado.“ Que vontade de chupá-la...” Diante de um par de olhos se cerrando, ele retirava e adentrava os dedos do orifício, e com a viscosidade fazendo ponte entre o indicador e o polegar, abocanhou os dedos com uma tal voracidade, que a deixava ainda mais excitada.

    Era de se esperar que a chuva logo caísse do céu já tenebroso, anunciando o prelúdio que viria através das trovoadas que estremeciam os carros estacionados, os latões de lixo, os postes de ferro mal posicionados, os corrimões das escadas e seus parapeitos, as paredes de alvenaria, os telhados, as janelas, e toda a extensão da sacada onde eles se encontravam. “ Por favor, vamos entrar?” Ela agarrava-se a ele enquanto os clarões dos raios iluminavam como flashes instantâneos os ambientes antes ocupados apenas pelo negrume da noite; as vielas pouco movimentadas, o sombrear das árvores envelhecidas na entrada do pátio e os corredores dos edifícios vizinhos mal iluminados por causa da baixa potência da lâmpada. “Claro que sim! Vamos...” Ele com o olhar prestativo encadeou seus braços a ela que, sentindo o cheiro másculo exalando do seu corpo úmido de minutos outroras, agora lutava para manter toda aquela excitação incubada no seu corpo de mulher ainda não satisfeita. Caminharam até o interior da sala com os dedos entrelaçados, ambos os rostos selando-se entremeio aos beijos que aconteciam aos trotes, e quando atravessaram o ambiente, alcançaram por fim o aconchego do quarto quente, totalmente preparado ao prazer. 

    No canto esquerdo do dormitório, um abajur chinês com cúpula esbranquiçada e base em tons que se aproximavam ao vermelho sangue, estava localizado a ½ metro da cama. A partir dali, emergindo sua luzinha fraca e limitada, os feixes de luzes alcançavam apenas parte dos móveis e objetos que compunham o lugar, emergindo todo o resto do ambiente em uma penumbra amarelada que se permitia ver apenas vultos nas sombras. “Safadinho você hein...!” Dando voltas ao redor e se posicionando fronteiriço as paredes do quarto, para o provocar, ela encarava as três imagens emolduradas, arranjadas de tal forma que, a iluminação refletida diretamente nos retratos, acentuava ainda mais a beleza irradiando de cada uma das daquelas deliciosas curvas estáticas. “São só pôsteres que não significam nada...” Usando argumentos que mantinham a suavidade do clima ainda pairando no ar, ele a apertou no peito, deu-lhe logo um beijo ardente, sugando todo o fôlego que ela tinha reservado para revidar em palavras. “E eu?” Sorrindo baixinho entremeio aos gritinhos de prazer sufocado que quanto mais ela emitia, ele delirava, seu pescocinho sensível ficou totalmente exposto às carícias vorazes dos lábios incendiados de Marcos. “Você é o meu xuxuzinho!” Respondendo respostas agradáveis, ele a abraçava cada vez mais forte, temperando com humor as palavras salpicadas com ternura, emulando à partir do coração que em outros tempos estava desassossegado, o amor adolescente interrompido anos atrás, e que agora, se ascendia em envergadura e presença,  anestesiando a psique de ambos em confortos verbais e carinhos visíveis, expurgando de dentro dela, qualquer tipo de malícia que porventura instigasse a continuar se avolumando de ciúmes infantis. “Assim você me ganha!” Agora, com o ar do ambiente mantendo sua nobreza, o mesmo inspirava leveza, e impregnado das liberdades não palpáveis que tanto protegem e estimulam os amores, eles voltaram a se aconchegar nos abraços.

    A música havia parado de tocar no aparelho quando o som da chuva torrencial começou a despencar do céu. Inicialmente foram pingos pipocando sobre o telhado que, quando se avolumavam na calha, transbordavam na parede e desciam inundando as bordas janela, deixando a vidraça completamente enervada por grossos fios de água que se enraizaram. “Que fofinho !”  Retirando a calcinha rosa de Linda, Marcos a deslizava entre as pernas entreabertas, enquanto ela o encarando na direção dos seus olhos, se situava através do brilho ocular emitido graças a uns poucos feixes de luzes que ricocheteava em um espelho e jorravam entremeio a escuridão do quarto. Com as mãos segurando o objeto íntimo, ele o levou até o rosto, acariciou a própria pele como se fosse a dela, e em seguida buscou entremeio as linhas do tecido de algodão, o cheiro exalando da essência úmida impregnada no seu interior..“ Tem um odor maravilhoso ! ”  Era o que repetia antes de entrar em um transe louco que o levou a sugar todo o resquício do líquido viscoso que pairava na superfície do algodão. Marcos a elogiava lambendo os próprios beiços, passeando a língua aos lábios, acariciando o membro endurecido trincando pulos desesperados para fora da calça. Como uma mulher não enlouquecerá de prazer diante destes atos? Ver o amado se satisfazendo assim; como um cachorro doido, faminto de desejos, degustando “sabores” e consumindo “odores”, o olhar faiscando contatos mais aprofundados na pele dela, a sua boca gulosa pipocando em brasas, desejando a todo custo bebericar toda a sua intimidade?

    “ Mantenha bem abertinha para mim... ” Marcos segurava suas pernas entreabertas, enquanto descia a sensibilidade do seu rosto devagarinho, suavizando toda a extensão da pele dela. “ Tá gostoso assim? ”  Passeava a língua úmida no interior das coxas, saltitava entre elas, até chegar pertinho dos grandes lábios. Apesar do tesão implorando por extravasar, ele não adentrou por um instante. Permanecia apenas ladeando lábios e língua por fora, energizando a libido aflorada nos toques singelos na pele do seu rosto provocando a pele dela, enquanto beijos e mordiscadas suaves eram alternados rente à divisa, arrepiando Linda Harumi ainda mais no desejo louco de ter todos aqueles limites íntimos ultrapassados. “ Tá judiando demais de mim...” Linda emitia gemidos suaves, os olhos semicerrados ao céu, adocicando a voz no rebolar perfeito que poderia colocar o pingar do seu sexo, mais bem posicionado frente a lábios vertendo lavas incendiárias. Com as pernas tremulando sobre os seus lábios, finalmente Marcos Hayashi decidiu que a doce tortura chegava ao fim. “ Enfia essa linguinha lá no fundo, por favor… ” Enlouquecida nos estímulos e ainda mais sendo consumada a exaustão por uma boca esfomeada, ela desfrutava o desidratar dos próprios fluídos entremeio a uma língua louca, serpenteando enrijecida sobre o clitóris vibrando cada vez mais intumescido. O amado lambuzava os beiços, a pausa para as suas respirações sendo adiadas, a língua, os lábios, e a boca por um todo sempre prudentes na aceleração frenética que desprezava ainda mais os protestos alarmados pululantes no aperto da própria calça. Lentamente, palmo a palmo, com a língua tateando aqui e ali ansiando por absorver resquícios de sensibilidade ainda não explorada, Marcos subia e descia devagarinho, palmilhando olfatos, degustando com excelência toda a textura da pele sensível envolta da vagina. Com a pontinha dos beiços, os dentes acovardados dentro da sua boca, ele puxava cuidadosamente os lábios vaginais: ora os esticando de encontro a si, outrora soltando-os de volta, mas sempre e repetidamente voltando a esses mesmos atos de provocação, gerando dessa forma, uma tensão sexual assoberbada em gemidos cada vez mais carregados de gratidão.

    Linda Harumi suplicava a ele, e ele com a excitação expressada na face avermelhada, mergulhava cada vez mais fundo dentro dela: tateando o interior da intimidade, sentindo as fissuras cavernosas no penetrar inicialmente tímido, e em seguida perfurador da língua até o fundo, mas sempre engolindo e engolfando em êxtase absoluto cada pedacinho da sua libido transbordante de mulher lucidamente entregue. Abandonando os trejeitos ora iniciais, de súbito ele alternou o tom das investidas, antes lentas e delicadas, para em seguida se lançar com maior avidez, maior gula e uma sede insaciável na agressividade enternurada que tomava conta da sua língua. “ Uiiii, Marcos, eu estou quase gozando!” 

    Ela arfava transes carregados de extrema sensualidade; serpenteando o corpo e revirando os olhinhos para o alto, expressando nestes sequenciais atos, todos os desejos outrora reprimidos no ser e agora, expressos no mordiscar frenético das unhas aos bicos dos seios, das mãos galgando carícias em volta do pescoço e lóbulo da orelha, movimentos incontroláveis que a deixaram toda inundada, desejosa ao extremo, fielmente descabelada diante do frenesi possuidor de promessas de êxtases absolutos. “Não para que eu vou gozar!” Quando ouvia este tipo de confissão, Marcos dava brecadas propositais como parte de seus planos de prazeres quase eternos, cheios de malícias, com os lábios umedecidos se afastando do sexo temporariamente desidratado, e arrancando nesses covardes atos, protestos acalorados carregados de uma ansiedade descomunal, ainda mais expressados no rebolar ensandecido das nádegas sobre seu rosto. “ Aguenta mais um pouquinho...”  Marcos também empacava excitado, seus olhos encarando um olhar desvanecendo, mas sete segundos depois ele voltava a apertar o botão do start com mais vontade, maior voracidade e grande desejo nos lábios entremeando as pernas dela; degustando os sabores, consumindo os mesmos odores, fibrilando as velhas palpitações em um bailar nada sutil do clítoris sob a vibração mais enérgico da sua língua.

     Após sequenciais investidas assim: frustrantes e ao mesmo tempo provocantes na carne suada, a excitação de ambos novamente alcançava o nível máximo; ele voltando da embriaguez, subia até a virilha,  passeava a língua sobre o ventre dela, ladeando sempre em sentido horário ou ao contrário os biquinhos pontudos e rosados aprumados em ambos os seios. Por fim, pairava sobre o rostinho angelical e lindo levemente desfigurado pelo prazer interrompido de minutos outroras. “ Agora sente o seu gosto na minha boca! ” Marcos ia ordenando submissões e despejando na boca dela toda a essência do sexo ainda pairando sobre seus lábios, e Linda Harumi gemia mais enlouquecida, se perdendo nos cheiros, nos gostos, nos próprios fluídos a sublimando em metamorfoses embriagantes da própria sexualidade. “ Fica de quatro...” Ela totalmente turva entre os sentidos rodopiando, logo ficou de quatro, enquanto ele afrouxando o cinto da calça, tirou o jeans apertado denunciando um volume exagerado dentro da cueca box. “ Putz, esqueci o preservativo...” Expressando preocupações no semblante, Marcos ia revirando as gavetas da cômoda e do guarda roupa, o membro endurecido bailando vendido no ar, enquanto ela enlouquecida suplicava cada vez mais alto para logo ser penetrada...

    “ Te quero por inteiro… ” O provocava em palavras suavizando gemidos em seu ouvido, tentando-o com o timbre da sua voz ficando enternurada, oferecendo ali toda a volúpia dos lábios vaginais arregaçados e ainda mais valorizados no rebolar provocante das nádegas passeando sofregamente para ambos os lados. Com o rosto enterrado no colchão e a curvatura perfeita da coluna indo de encontro com um arrebitar cada vez mais acentuado da bunda, ela insistia: “ Ah! Assim não! Vem logo Marcos...”  Agora Linda ordenava em gemidos, e ele de pronto obedecia em desesperados desejos de obedecer; optando assim por deixar do lado de fora do quarto; todas as disciplinas latentes que poderiam por hora, evitar preocupações carregadas de reticências futuras, desprezando nessa forma de agir e mal calcular, quaisquer empecilhos ao prazer corroborado nas duas carnes que finalmente se esfolavam. “ Que fogo...” Em baixos sussurros e com a respiração ofegante,  Marcos sentia o pulsar do próprio sangue circulando incontrolável nas veias, enquanto ela desfrutava centímetro a centímetro conforme a consumação operava por baixo das suas operantes nádegas. “ Mete com mais vontade... ” Linda Harumi se sentindo ávida, com tamanha eroticidade mordeu o travesseiro, e com o sexo sendo arreganhado em um cravar de dedos afastando ambas as suas coxas para os lados, com as intimidades escancaradas, ela testemunhou seu clitóris tremer e vibrar em um aperto sufocante socando sequenciais intensidades por baixo das suas nádegas.

     Percebendo o seu sexo friccionar suavemente o “ ponto de contato” do outro sexo, ele com a mão esquerda apoiado sobre a bunda dela, buscava apoio para investidas mais emborcadas, perfeitamente mais bem posicionadas, realizando movimentos transversais no penetrar, ou verticais o suficiente para que os pés levemente em suspensão junto ao corpo favorecessem um ângulo melhor, um colocamento melhor, facilitando dessa forma uma postura mais adequada para que a rigidez peniana infringindo o clitóris intumescido, o esmagasse sucessivamente em todas as investidas de entra e sai. E assim foi. Sucessivamente, exaustivamente, calorosamente provocando o desejo sexual tempestivo, a eletricidade afrodisíaca se apoderando de ambos os corpos inebriados por mais, o prazer não maduro emergindo a virilha, se espalhando pelos músculos em calafrios reconfortantes carregados de promessas de devaneios altissonantes, a tensão tão estimulada nas preliminares, saldada ali, nos pensamentos não mais confundidos e muito menos controlados pela consciência já livre das prisões, liberta dos atrasos, se entregando de vez na luxúria do gozo explodindo no corpo e na alma de ambos. “ Linda! !” Ele dizia “ Marcos !” Ela respondia. Encerrando os gemidos, jogados um sobre o outro, totalmente nus e encharcados pelo deleite percorrendo os corpos, eles adormeceram. 

    Com o irromper do sol no horizonte denunciado que o alvorecer havia principiado, ambos se sentiram levemente atordoados quando no abrir da janela do quarto, golpes de ventos carregados de resquícios da neblina que havia varado a madrugada ainda insistia umedecer a camada de ar, somando-se ao cheiro das flores e das árvores, principalmente do pessegueiro plantado na frente do edifício, inundando ambos os pulmões de uma essência revigorante que rememorava antigas recordações no peito de Marcos. Ficaram por alguns instantes posicionados assim, os rostos sobrepujando parcialmente o limite da janela, avistando ao longe as montanhas, as nuvens pairando quase inertes sobre elas, e toda a vegetação limítrofe pelo alcance de dois pares de olhos encantados com a beleza do cenário. “ Que vista privilegiada! ” Ela bocejou esticando os braços outrora repousados nos ombros de Marcos, procurando a melhor posição para aproveitar a infusão dos raios solares que, jorrando ambiente adentro, aquecia parcialmente a nudez feminina refletindo um brilho mais incandescente através da pele. 

    “ Daí alguém pode te ver... ” Ele sorria sussurrando ciúmes brotados inconscientemente, para em seguida jogá-la sobre a cama, se esforçando a todo o instante para imobilizá-la com o corpo estendido sobre o dela. “ Eu quero que me vejam como vim ao mundo! ” Dando risadas golfadas entremeio a provocações acompanhadas de remelexos de quadril, Linda Harumi  brincava de se soltar até sentir o fôlego se esvair nas cócegas que recebia na sola do pé, nas axilas e principalmente na cinturinha tão sensível ao encravar dos dedos de Marcos. “Ainda não te disse bom dia meu bebêzinho lindo!” Ainda nus, eles já se encontravam enroscados, e apesar do leve incômodo apontado através do bocejar dos hálitos, logo as bocas se avançaram em um tripudiar frenético de línguas e lábios em total desconsonância com hábitos rotineiramente matinais. “Assim você acaba comigo!” Em um meneio, ele foi jogado de costas por ela, e ela já sobre ele, oferecia toda a volúpia de ambos os seios eriçando os bicos quando posicionados fronteiriço a voracidade dos seus lábios. “Mama gostoso meu bebê!”  O provocava sem se deixar penetrar, apenas saboreando os lábios vaginais passeando com eles na ponta do membro ficando endurecido, e o encharcando no mel que escorria gradualmente pela cabeça, lambuzando toda a extensão nervurada, até se acumular viscoso no limite das bolas massageadas pela delicadeza da sua dedicada mão. 

    Encarando-o no fundo dos seus olhos, carinhosamente Linda sorriu o provocando: “  Você vai ver o que é bom para tosse! Ontem a noite me torturou, agora sou eu que vou te pagar na mesma moeda! ”  Degustando um duplo prazer; tanto no proferir dessa covarde promessa quanto no vislumbre da “ dureza “ posicionada a poucos centímetros do corar do seu rosto, com o serpentear da pontinha da língua, ela umedecia os lábios em provocações contínuas e não amenizadas no olhar devorador estampado na sua bela face. " Vai me fazer gozar com essa boquinha? ” Ele deitado de costas, mantinha contínuos emborques de coluna para vê-la trabalhando lá embaixo, antecipando na mente e na carne, a colheita do prazer sexual proveniente da noite anterior que, após ter semeado exaustivamente em frenéticas labutas de língua e lábios, chegava carregado de promessas de devaneios deliciosamente ainda indefinidos.  Mas com intuito de torturá-lo, ela ficou inerte por alguns instantes, apenas encarando-o e se deliciando no desespero expressado em seu semblante: “ Hum… Esse pau vai ficar mais gostoso na minha boca!” Com o corpo tremulando da ansiedade que o revolvia em remexidas ensandecidas pelo logo aquecer de seus doces lábios, e apesar dos seus desesperados atos; ora segurando um chumaço do seu cabelo e direcionando o orifício da boca para perto do palpitar do seu sexo, outrora implorando o logo realizar daqueles prazeres já efervescendo em gemidos silenciosos e desesperados, Linda não cedeu. Desejou excitá-lo além. E assim, consequentemente o resistia realçando cada vez mais o verbalizar das suas promessas. 

    Com uma das mãos soldada sobre o sexo, com a outra ela se esquivava do desespero de Marcos Hayashi, agarrando-o pelo punho da sua mão direita, para em seguida devorar gradualmente toda a sensibilidade contida em cada um dos seus dedos. Com um biquinho beijava as unhas e dali com um sensual afastar de lábios, sua boca úmida o sorvia como se fosse uma luva em idas e vindas, incendiando cada vez mais a sensibilidade já refletida em tremulações nervosas que vagarosamente subia pela espinha dorsal dele e explodia deformando o seu rosto. Sussurrando repetidamente: “ Tá gostoso bebê? ” Ela proferia palavras aveludadas, os olhos amendoados, naufragando o silêncio ensurdecedor da manhã nos gemidos que naturalmente se misturavam com o início de uma melodia de pássaros que se iniciava no beiral da janela. “É assim que vou fazer com você!” E tornava a engolir os dedos e gemer, aumentando o ritmo ou diminuindo, alternando entre os dedos frios e secos e os deixando novamente quentes e umedecidos. “ Que sede da sua boca bebê…”  Se lançando rapidamente sobre ele, novamente ela se afogou em sua boca, beijando-o sofregamente, mordiscando seus lábios ainda anestesiados dos prazeres outroras, e de lá, escorregando de línguas entrelaçadas, ia se aventurar entremeio a roxeões esculpidos e decorados sob a pele do seu pescoço exposto.

    Mas de forma alguma ela se distraia do membro ainda tremulando abaixo, e paralelamente enquanto se deliciava descendo os lábios na caixa toráxica, nos bicos do peito e os mordiscando de leve, passeava sobre o umbigo e o provocava com a " quentura " da língua massageando o fundo do orifício. Em baixo, sob o massagear delicado de uma das mãos, ora Linda arregaçava a cabeça até esgoelá-lo, outrora encapuzava-o por completo também, persistindo nesses calorosos sequenciais movimentos até gerar um calor sexual intempestivo que só era amenizado no estimular mais intenso e mais frenético do arregaça e encapuza que paulatinamente ia emergindo a libido sexual do amado no anseio louco de logo ter o seu pênis exaurido no desforrar de lábios acelerados. " Garota, você é do mal mesmo!" Repetia sem se conter, os olhos docemente acovardados, os braços soltos e desenergizados, naufragando seu corpo carnal na imensidão dos estímulos estuprando seu ser, e o arrebatando ferozmente por dentro. Nos segundos que se seguiram, com a respiração atropelada na sensação chamuscante percorrendo em fagulhas de molestamentos no peito, desejou que seus desesperados anseios de devaneios se tornassem muito mais que eternos quando por fim a quentura abarcando aqueles doces acelerados lábios, cumpria a prazerosa promessa de o engolir. "Puta que o pariu..." Gemia já estando no céu: o movimento da cabeça da amada indo e vindo ocultando parte do seu sexo agargantado, sons sonoros de êxtases de delícias eram pronunciadas em gemidos não contidos que ora e outra arfava descargas elétricas afrodisíacas no intervalo de ambas as respirações.

    " Chupa só a cabecinha..." Com a mão de Marcos segurando um chumaço dos seus cabelos alvoroçado, para lá ela subiu guiada deixando toda a extensão nervurada iluminada de saliva, e após segundos degustando em delícias a pontinha rachada, o encarava com gula cada vez mais expressa no olhar visceral abrilhantando seus olhos. Ali, diante dos desejos desesperados do amado, ela mergulhou mergulhos nunca imaginados com outros homens: com a libido desenfreada inundando o próprio sexo em gotejos de desejos sobre a perna e o cobertor, ora suas mãos calibraram o membro para que não ultrapassasse o limite do pedido, outrora desciam tremulando pelo corpo feminino até a vagina, degustando com os dedos eretos e cerrados, toda a extensão do pêlos pubianos, lábios e a entrada molhada. "Agora engole até o talo e acaba com o papai...!" Ao ouvir as orientações finais de Marcos, Linda Harumi se aprumou em desejos de obedecer para se lançar com muito mais prazer: retirou fios de cabelos que incomodavam a face e foi descendo e subindo, subindo e descendo, vagarosamente articulando movimentos com o cilindro de carne sufocando o aperto dos próprios lábios. " Hum… parece que ficou mais grosso hein?" Agora mais excitada e após cerrar a mão na base encharcada de saliva, laborou movimentos com o corpo nu, ajustando a posição corporal que mais cooperasse com a mecanicidade da sua língua e lábios, principalmente da garganta já desfrutando de gotículas precoces e salgadas, resultado dos estímulos cada vez mais enérgicos no passear descontrolado da outra mão sobre o próprio sexo, pois os dedos operando ritmados com o sugar da voracidade da sua boca, estimulavam brutos prazeres sob a sensibilidade de um clitóris se avolumando de gula carnal, afogado em ânsias, desejoso até os céus dos céus por aqueles breves segundos de gozos que quando alcançaram, a fez desfalecer e tornar uma só entranha com ele.

     “ Que tal um banho juntinhos ? Podemos? ” Sorriam desorientados pelas energias raleadas de minutos outroras, e o piso gelando a sola do pé, agredia chacoalhões matinais conforme eles iam trotando até o registro da ducha. Mas nem tudo se trata só de sexo, carnes esfoladas e suores respingando de corpos eletrizados até a alma. Há um sentimento sim, ou melhor, uma “verdade ainda oculta em sentimentos”  e que é um tanto quanto essencial dentro de um relacionamento que vai se desenvolvendo aos poucos, entremeando as experiências das trocas recíprocas, fortalecendo a conta-gotas todas as bases subjetivas do que no íntimo já deseja ser puro e incondicional. E quando esse processo é genuinamente forjado no espelho da verdade tateando as verdades que mais despontam de dentro do coração, esse jeito de se encarar para se enxergar, vai tecendo  caminhos decididamente compartilhados, enredos mais solidificados, carregados de mais significados se aflorando em cuidados, proteções, carinho curador de feridas, um conjunto de anestésicos psicoemocionais para a epiderme do ser frente ao que, na vida comum de um casal, ainda vai se desenrolar em muitos sequenciais amadurecimentos, até se metamorfosear por completo do rio vertendo o inundar de experientes lágrimas, no que seja o desabrochar do verdadeiro amor. 

    Do nada, “ flagelos do passado ” tornaram a reviver, avultar corpo e carne, sequestrando Linda em uma “ insegurança repentina ” que já deixava seus olhos verdes marejados de lágrimas. “ Dessa vez vai ser diferente! ” Insistia silenciosamente para si em meio aos conflitos; os ossos titubeando o peso do corpo no bambear dos músculos das pernas, as tremuras crescentes fibrilando na boca do estômago, e o peito suado, sufocado na ausência do ar que grotescamente minguava na mente. Tudo junto e eclodindo, elevou a ansiedade de Linda Harumi ao seu estado máximo. Ela buscou alento entre os movimentos, mas não encontrou. 

    “ Está tudo bem? ” Assim, deitada sobre o piso, o antebraço direito sobre o rosto como venda sobre os olhos, ela sofreu acovardada o peso de cada pancada existencial refletida nos pavores angustiosos, nas sequenciais lembranças ruins que cansaram de lhe roubar o sono da noite, nos traumas, nas frustrações, nas desilusões, nos abusos, e no sentimento de abandono que insistia a todo custo acompanhar seus antigos relacionamentos. 
    “Eu sinto que eu sinto excessivamente…” Ela recordou dos diagnósticos da terapeuta, os braços circundando o corpo nu coberto pelo cabelo molhado, enquanto expressava um choro sendo reprimido no intervalar de cada respiração. “ Pelo amor de Deus Linda, me diga o que está acontecendo com você? Foi algo que eu fiz? ” Ali, já sentada no chão, ela encontrou auxílio apenas nos ensinamentos fraternos ouvidos desde a infância pelos pais e tios, nas lembranças das falas solidárias que adentrando madrugada a fora pareciam nunca esgotar os diálogos entre os amigos, nas orações que ouviu na igreja, na Palavra que proferiu na solidão do quarto, nas recordações da paz desfrutada entre as meditações diárias.
    “Eu não fui totalmente sincera com você Marcos…”  Aconchegada sobre a cama, com os braços firmes em abraços dando voltas nos joelhos, Linda Harumi voltava a derramar pequenas lágrimas alinhadas com um sentimento palmilhando cuidadosamente as escolhas das suas palavras, ladeando os suspiros irreprimíveis, margeando as confissões que sofregamente ela revelaria a seguir: “ Me perdoe a maldade que fiz a você Marcos … Eu não deveria ter te envolvido nisso... ” . Confuso e ficando angustiado, Marcos se manifestou: “ Que maldade você fez para mim Linda? Por acaso isso é alguma brincadeira? Putz, realmente não estou entendendo nada…” 

    Limpando as lágrimas com as bordas do roupão, e lutando inutilmente consigo para empoderar o próprio semblante, Linda não pode sintonizar-se com o brilho confuso emitido pelos olhos dele, e aos soluços, confessou aos prantos: “ Sou uma mulher casada Marcos… Sou uma mulher casada…! Me perdoe esta grande maldade! ” Portanto, como ele nunca imaginou vivenciar uma situação como aquela que ela também demonstrou ao longo da noite, ter na alma e no corpo a âncora ancorada nos refrigérios das paixões reavivadas, Marcos Hayashi sem saída, e não tendo outra alternativa, passou a cultivar um silêncio de início ensurdecedor.

    Ainda aos prantos, ela insistia: “ Me perdoe Marcos! Te encontrar foi um tipo de presságio, milagre, sei lá, mas que está sendo um refrigério indescritível pra mim. Meu mundo está desmoronando e não sei o que fazer…” Ela suspirou e prosseguiu: “Ontem a noite brigamos feio, saí sem rumo, perdida, só queria tomar um ar, daí eu te vi e…” Com o rosto cabisbaixo, escolhendo cuidadosamente as frases e picotando palavras julgadas desnecessárias, Linda Harumi demonstrou, apesar do corpo ainda envergado, vestígios de uma coragem crescente que de fato a ajudou a voltar-se para ele e encará-lo nos olhos “ Marcos, por favor, fala alguma coisa…” 

    Após liberar uma golfada de ar, Marcos mantinha seu silêncio enclausurado no corpo nu debruçado sobre as bordas da janela. O rosto se aquecendo rebelde ao sol, a íris se acostumando a luminosidade adentrando o ambiente, e a cabeça sendo sustentada pelo apoio de uma das mãos vacilando o peso da mesma para ambos os lados. Vagarosamente, ele inspirou e respirou sequencialmente respeitando as pausas profundas, profundas pausas ante o absorver do ar denso e gelado parido no encontro dos vendavais noturnos da noite de outrora, com as névoas advindas das montanhas distantes. Acendeu um cigarro e abraçou-se. Na verdade, abraçou-se como nunca antes tinha-se abraçado, e chorou. Conseguinte ao enxugar das lágrimas, mergulhou mergulhos em seus pensamentos mais confusos e, após longos minutos inerte com o olhar mirando o nada diante de si, submergiu do seu mundo interior transbordando de lá, o alívio alentador das inocências que inocentaram a aura já se sentindo generosamente liberta do inundar intrépido de sentimentos esvoaçados. 

    Serenando o semblante agora esvaziado das angústias que o cerraram a face, ele expurgou-se de todas as culpas e, voltando-se a se alimentar de pensamentos carregados de amor, encapsulou-se por completo em auto perdões contínuos que, abrilhantando seu olhar, resguardou a psique que lutara ferozmente para voltar a se equilibrar. Interiormente, Marcos Hayashi, já naquele início de manhã avançada, se anestesiava no horizonte das primeiras movimentações iminentes vindas do comércio iniciando suas atividades, dos passos descompassados dos transeuntes cruzando ruas e calçadas, e enquanto uma brisa suave passeava reconfortos em seu rosto, seus ouvidos antes consumidos naquela rotina vibrando desgastes, adorou todos os sons sobrevindos até a janela, principalmente dos automóveis a transitar velozmente, segundos seguintes a semáforos totalmente esverdeados.
  • 27 (Vinte e sete)

    "Eu deveria ter 27 trilhas em caminhos;
              Eu deveria ter 27 tinteiros e um pincel;
              Eu tenho 27 trilhas em caminhos;
              Eu tenho 27 tinteiros e um pincel."

              Na cidade de Natal, um jovem nascido no dia 27, posteriormente nomeado por sua sobrinha de Tupo e anteriormente por sua mãe de Tulipo, que veio da admiração de sua mãe as suas 27 tulipas e do desejo de uma filha, mas Tulipo não é flor e não se preocupa com zoação.

              "A cidade deveria ter 27 ruas em estradas;
              A cidade deveria ter 27 edifícios de 27 andares;
              A cidade tem 27 ruas em estradas;
              A cidade tem 27 edifícios de 27 andares."

              No centro de um dos 27 traços do centro da rua, Tulipo comanda a dança de um grupo que se denomina seu e se nomeia: Os 27 céus. O grupo canta e dança em 27 passos alternados entre: para frente, para trás, para um lado e para o outro. Todos seguindo as ordens de Tulipo que criou este grupo de 27 pessoas para comandá-lo em uma competição na mídia visual.

              "Deveríamos ter 27 dias para praticar;
              Deveríamos ter 27 chances até vencer ou perder;
              Temos 27 dias para praticar;
              Temos 27 chances até vencer ou perder."

              Tulipo ficou irritado na sua primeira das 27 apresentações, mesmo assim ganhou e depois brigou, chingou seu grupo e toda está gritaria serviu para orientá-los a melhorar. As 27 apresentações tem sua definição definida e logo soa o nome do vencedor e Tulipo sorri, não acredita, fica desorientado por alguns instantes e dá 27 passos em direção ao palco da premiação e agradece a todos.

              "Às vezes não acreditamos em números;
              Às vezes não acreditamos em nós mesmos;
              Às vezes acreditamos em números;
              Às vezes acreditamos em nós mesmos."
  • A copa

    Porque depositar tanta esperança em pessoas simples?São milhares de pessoas simples torcendo por poucas pessoas tão simples quanto elas.Quero dizer,biologicamente somos todos iguais.Então porque tratá-los de maneira diferente?.São milhares de pessoas confiando seu dinheiro em apostas,são milhares de pessoas perdendo apostas.São milhares de pessoas felizes,são milhares de pessoas deprimidas.Seria a copa uma contradição?
  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorasse, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmo. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • Abstração de vida

       Dois meninos, deitados no capim que parece mais uma grama. Mesmo em cima da camisa, volta e meia o capim pinica as costas. Estão bem em frente para a estrada de asfalto, que trouxe o “progresso” a comunidade rural.
        Nenhum deles liga pro asfalto quente. Mas os carros que passam sobre ele sim. A escola era pela manha. Já tinham feito suas obrigações na roça e agora estavam ali a contar as três horas da tarde, quantos subiam e quantos desciam.
       Os que desciam eram de um, os que subiam do outro. Quando um carro dava marcha ré, não discutiam, negociavam ate chegar a uma conclusão. Alguém lembra que tem carros demais e diz “não, fica já tenho muitos da cor vermelha”, e o amigo respondia “não eu tenho muitos chevetes”. Doa o carro e fim de papo. Ambos possuem tantos carros que poderiam abrir ate uma concessionária
        Mas e as motos? As motos também, as bicicletas e ate os carros de mão. Estavam ali tão despreocupados. Não tem filhos para alimentar, educar, mulheres para cobrar nada deles. Por isso viviam assim, como diria o poeta “Êta vida besta meu Deus”.
       Um deles esboça um sorriso, o outro senti pena daquelas pessoas a descer e subir no asfalto, a passarela do progresso. Eles pouco se importavam com ele, queriam mesmo era sonhar que eram donos do que passava por ela.                                                              
  • Ação e Reação

    Tenho ouvido por ai a lei da ação e reação. Ela é usada em qualquer situação social e vou me ater, somente, no momento de desentendimento num relacionamento a dois, não vem ao caso qual seja o tipo de relacionamento, ampliarei para todas as classes, seja homo, seja heterossexual. Acontece que em momentos de conflitos conhecemos verdadeiramente quem é o nosso parceiro. Não é no sexo, nem no cinema, nem na casa da sua mãe, nem na viagem e no jantar romântico. É aqui (no desentendimento), que poderemos identificar qual é a sua personalidade e acredite: Se você não gostar da ação ou reação do seu parceiro, tome cuidado! Desde da violência física, verbal e consequentemente psíquica até aos atos de suposta traição ou desejo de trair. Acontece que no período de conflito é que demonstramos quem somos de verdade. O quanto de autocontrole e respeito para com o outro temos. Aqui demonstramos o nosso verdadeiro afeto e amor e o mais importante nossa índole. Se somos pacientes, altruístas, fieis, respeitosos e bondosos com o outro. O importante é se relacionar com quem lhe entenda e te aceite nos momentos felizes e saiba te tratar ainda melhor em tempos de conflitos. Mas por favor, saiba identificar e valorizar o comprometimento do próximo, pois você também está sendo analisado.
  • Acessando o vídeo: I like the stars

    Estava eu navegando a internet quando decidi acessar o youtube. Eu sou brasileiro, mas adoro o conteúdo americano. De repente, na pagina inicial do youtube, estava vídeo especial dizendo: i LIKE THE STAR. Eu cliquei no link, curioso e eufórico. O video carregou e o que tinha nele era: (musiquinha infantil e um homem cantando) I like the stars,i like the stars i`am happy, yes, verry happy. In the sky, in the sky there are sixty tree stars isso durou 6 minutos até que acabou com uma estrela cadente
  • All Star #31

    Acho que, se a Bíblia estiver certa, ninguém que morreu com mais de 18 foi para o céu. Tudo que pode se fazer de errado já se fez até os dezoito anos. Milhares de punhetas, centenas de chingamentos, pensamentos sacanas com a mulher do próximo, gula, avareza, mentira, não tem alma que dure até os 18. Tudo indica que eu tenha assinado a minha passagem quando roubei uma caneta da papelaria da escola, com uns nove anos. De lá para cá venho apostando na teoria do arrependimento, e colecionando pecados. Por isso acho que Deus me pune com a Júlia. Sou um covarde e ela sabe. É tipo um blues do Charlie Park depois da meia noite, com uns goles de wiskey barato. Ou o Leonard Coen tocando Wanderwall. Dói de verdade. Não quero parecer um idiota, mas é difícil evitar. Vou procurar o que fazer na loja de CD do Dé para fugir de qualquer tipo de pensamento. No caminho encontrei a Paula voltando da escola. “Porque você não foi na aula hoje?” “Sei lá, fiquei no computador até altas horas ontem e não acordei no clima. Perdi alguma coisa?” “Não. Eu, a Júlia e a Alina queríamos ir na sua casa fumar um e escutar um som hoje a tarde.” “A hora que vocês quiserem.” “Umas três e pouco?” “Fechado.”
    Queria ter um novidade, alguma coisa legal para contar para elas. Parei na Curva de Rio Discos já com a ideia de levar alguma coisa do Strokes. Era uma batida legal, um som que as meninas iam gostar, e eu não tinha nenhum álbum deles ainda. Resolvi não perder muito tempo na loja, só peguei o CD e voltei para casa para começar a bolar os baseados. Liguei a nova trilha sonora, coloquei Beleza Americana no mudo na TV e sentei na escrivaninha para trabalhar. “Sou só um cara comum que não tem nada a perder.” Adoro quando o Lester fala isso para aquele chefe dele com cara de almofadinha de Harvard. Quero falar isso para um chefe cretino destes um dia. Ou para um professor idiota que acha que sabe tudo da vida. E entre esse pensamento de glórias e uma empolgação homérica em Last Night a Paula e a Júlia gritam no portão. “Nossa, você tem o Is this it??” Foi a primeira coisa que a Júlia disse quando entrou no quarto e escutou a música. “Peguei hoje no Dé, sabia que você ia curtir.” Me sentia como se tivesse passado no vestibular de medicina. “Vi um clipe deles na MTV ontem que nunca tinha visto. Tem umas imagens de Nova York muito legais.” “Não vi esse ainda.” “Posso colocar o refri na geladeira e acender um baseado?” A Alina sempre era mais objetiva.
    A Paula chegou e pediu para tirar o filme porque ela ainda não tinha assistido inteiro e queria ver depois. Coloquei Os Bons Companheiros para ver se dava um pouco de ação à tarde. “Aí, não gosto de filme de violência.” A Júlia reclamou antes da primeira facada do Henry no corpo do porta malas. Naquele momento desejei nunca ter tido aquela fita. Como a Alina estava lá o Enrolado também apareceu. Com dois baseados acesos e todas as mídias operando o mundo parecia que estava aos nossos pés. “Será que a gente vai viver para ver a maconha legalizada?” A Paula falava sobre erva com uma notável paixão. “Acho que sim. É uma planta, nunca vão acabar com uma planta. Ela se multiplica por força da natureza.” A Júlia as vezes parecia que tinha vocação para natureba, mas a Coca-Cola não deixava. “Vamos fazer um bolonha?” “Aqui não dá, não vou ter como explicar pro meu Vô o ingrediente verde. Mas apoio a ideia.” “Vamos falar com a Tati e fazer no forno a lenha do sitio dela no fim de semana.” “Vamos!” “Vamos!” “Vamos!” “Sim!” Moção apoiada por unanimidade efusiva.
    Escutar 1979 com a galera fazia tudo ser mais legal, então troquei os Strokes por Smashing Pumpkins entre a ideia do bolonha e as discussões sobre as aulas de matemática. Descobrimos aí um ponto de tensão entre a Alina e o Enrolado. “A aula do cara é um saco. Ele não tem a mínima didática. Ele não esta falando com robôs. O cara não dá um sorriso, não faz uma piada”, dizia ele. “Eu entendo muito bem matemática por causa dele. Se você é burro não bota a culpa nele”, e ela estava disposta a iniciar uma guerra por Pitágoras. “Sei lá, a aula dele faz eu me sentir burra. A didática dele comigo não funciona.” A Paula queria jogar gasolina na fogueira. “Tem gente que se da bem com exatas, uns com humanas. Pelo menos ele não enche o saco como o Tadeu de Português que acha que é o centro do mundo.” Tentei dar uma aliviada, e quando a Júlia concordou comigo foi como se a gente fosse tão parecido que era evidente que tínhamos sido feitos um para o outro.
    A filme acabou, o baseado também, e humanidade continuava sem perceber a existência daquele universo paralelo que a gente construía no quarto. “Eu só queria viver sem que ninguém se preocupasse comigo.” Falei isso sem pensar que eu queria que a Júlia se preocupasse comigo. Quando pensei isso me senti um verdadeiro idiota. Eu não era diferente do professor de matemática cretino que queria atenção. O CD terminou e não troquei a música. Fiquei jogado no canto da cama com cara de paisagem tentando atrair a Júlia por piedade. Fechei o olho e desejei com toda força que tinha que todo mundo desaparecesse e só sobrasse eu e ela. Acabei caindo no sono quando eles falavam alguma coisa sobre uma balada no sábado. Acordei sozinho não sei quanto tempo depois que eles saíram.
  • All Star #35

    As vezes acho que acredito que todo mundo nasce com um destino traçado. Tipo, independente do que você faça as coisas vão acontecer, de um jeito ou de outro. Aposto minha vida com a Júlia nisso, mas esta começando a ficar difícil de acreditar. Fiquei sabendo que ela esta ficando com um cara que já esta na faculdade. Não conheço o bastardo, e nem estou afim de conhecer. Agora todas as garotas que eu vejo tenho vontade de beijar, só para ela saber como eu me sinto vendo ela com outro cara. Mas acho que ela não vai sentir a mesma coisa. Queria que ela soubesse de tudo isso. Também queria que esta porra de aula de física nunca tivesse começado. A Paula fez um bilhetinho passar de mão em mão da primeira a última carteira até chegar em mim. “Eu e as meninas queríamos ir na sua casa mafu nhacoma hoje a tarde.” “Nem tudo acontece do jeito que a gente quer”; era o que eu devia ter respondido. Mas como um ser humano pacífico e otário confirmei o rolê. Tinha comprado o CD novo do Eagles of Death Metal e queria cantar Now I’m a Fool para a Júlia, mesmo que ela não entendesse nem o porque nem a letra.

    Aleguei uma dor de cabeça indecente e fui para casa antes de ter que encarar a aula de biologia. Passei as aulas quase que dormindo, meio longe, sair mais cedo adicionava algum mistério sobre a vida para as meninas. No caminho parei na Curva de Rio Discos para comentar com o Dé sobre o livro do Mutarelli que tinha acabado de pegar. “Será que o cara não tem medo de escrever uma história como essa?” “Medo do que?” “Sei lá. Um policial assassino apaixonado por uma travesti. Eu pensaria que todos os policias do mundo estariam querendo me matar por causa disso.” “Tem muito mais que isso no livro. Esse é só o enredo.” As vezes acho que acredito que todo mundo tem um plano de vingança secreto contra alguma coisa que odeia. Se eu fosse um policial talvez eu odiasse o Mutarelli por ter escreto Miguel e os Demônios. Tenho medo de estar andando com ele na rua e um policial me parar, pegar o livro e dizer: “Porque você esta lendo esta porcaria? Você acha que policial é viado? É isso?” Enfim, como diz o meu avô “até provar que focinho de porco não é tomada o coitado morreu com o choque”.

    Quando sai da Curva de Rio vi a Júlia subindo a pé sozinha. Ela também devia ter dado o migué na aula de biologia. Fiquei com cara de expectativa zero esperando ela chegar até mim. Ela também não parecia a garota mais feliz de todos os tempos. “Acho que não vou a tarde na sua casa com as meninas hoje?” Queria ter dito: “Se eu soubesse que você não ia não tinha topado.” Mas saiu só um “Por quê?” murcho. “Não sei, não estou me sentindo bem.” “Fumar um pode te ajudar.” “Não sei. Talvez o problema seja esse. Estou fumando demais.” “Duvido que o problema seja esse.” Falei dando uma risadinha de leve, que ela retribui. As vezes acho que acredito que a vida da uns sinais sobre o destino. Aquilo era um sinal. “Também não ando muito bem, mas acho que não é por estar fumando muita maconha.” “Porque então?” “Sei lá, tudo que eu faço dá errado, não vou passar no vestibular nem para ser lixeiro. Não estou feliz.” “Porque não? Tudo que você faz é legal, todo mundo queria ter uma vida como a sua.” “A grama do vizinho é sempre mais verde, até você perceber que é artificial.” “É. Vou virar aqui. Até mais.” “Beijos! Aparece lá mais tarde….não me abandone.” Falei colocando a mão no peito e fazendo uma cara de cão sem dono. Ela rio e se foi me deixando cheio de esperança.

    Cheguei em casa e tirei uma soneca depois do almoço para ver se recuperava o ânimo. Quando voltei a vida pensei que a única coisa que poderia salvar o dia seria a Júlia aparecer com as meninas. Sem ela preferia passar a tarde sozinho escutando um som e viajando na maionese. Coloquei uns clips do Aerosmith na televisão e comecei a bolar baseados em linha de produção. No terceiro a Alina chegou com a Paula. “Meus Deus. Essas meninas dos clips do Aerosmith são demais. Nunca vou ter um corpo assim.” As vezes acho que acredito que todo mundo só pensa em sexo. Tem gente que parece que vai na padaria não para tomar café, mas para ver se acha alguém para transar. Queria perguntar se elas sabiam se a Júlia vinha, mas não queria que elas percebessem que meu único interesse na tarde era esse. “Estamos esperando mais alguém ou podemos acender esse baseado?” “Se mais alguém chegar a gente não pode acender outro?” Não era exatamente a resposta que eu esperava, mas fazia bastante sentido.

    Quanto mais o tempo passava mais eu tinha certeza que a Júlia não ia vir. No fim a gente queria a mesma coisa, passar a tarde sozinhos. Ela deve ter conseguido, ou não, o cretino que ela esta ficando poderia estar lá com ela tentando fazer ela melhorar. As vezes acho que acredito que nós dois ficarmos juntos é inevitável, só preciso ter um pouco de paciência. Estava todo mundo em transe com o clip de Crazy. “Como pode a Liv Tyler ser filha desse monstrinho?” “Ele não é tão monstrinho.” Não era a filha dele que a Paula queria ser. “Acho que ela é um tesão.” A Alina não segurou seu lado lésbica e deu uma risada sexy quase interminável. Será que a Liv Tyler tinha uma turma como a nossa? Que passava a tarde fumando maconha e falando de Rock’n Roll? Será que a Júlia esta sozinha? Acendi mais um baseado e me ajeitei na cama como quem vai dormir. As duas entenderam a mensagem e foram embora depois do cigarro pós-baseado.
  • Alma Perdida

    Ela era uma prostituta. Mas não era uma prostituta qualquer, nela havia algo especial. Cercada de tristeza e dor, seu corpo possuía tons curiosos.
    Carmen, filha de João e Maria, cresceu ouvindo que o mundo era vazio, um lugar sem esperança. Quando criança, tentava de todas as formas agradar os pais que trabalhavam dia e noite para poder colocar o pão na mesa, chegavam cansados e só verificavam se Carmen estava viva, não prestando atenção acima da mesa: ‘’Papai,Mamãe. Eu não sei muito sobre vocês, contudo isso é uma das consequências da vida que fomos destinados a ter, porém amo vocês do mesmo jeito que qualquer outra filha amaria.”
    Aos 16 anos, os pais de Carmen morreram e a adolescente foi morar com o único parente que tinha, seu tio. Era uma casa fria, sem cor. Todas as noites, ela chorava baixinho, no canto do quarto, implorando para sentir alguma coisa: felicidade, tristeza, raiva... Algo que mostrasse que ela ainda estava viva e não somente sobrevivendo. Seu tio, uma pessoa amarga, chegava bêbado em casa todos os dias e, naquela noite, ele escutou um murmúrio vindo do quarto. Alguém chorava. Uma alma perdida pedindo socorro. ‘’Eu vou te dar um motivo para sentir algo.’’, disse, puxando a cinta e espancando a jovem Carmen.
    E naquela madrugada, ela de fato sentiu algo: repulsa. De si mesma. Olhava para os hematomas e as lágrimas não faziam seu caminho pela bochecha mais, era uma dor mais profunda. Julgou que a melhor forma de acabar com aquilo era fugir e assim fez, saindo sem rumo. Vagou pelas ruas, somente o tempo conseguiria cura-lá.
    Passaram- se anos, Carmen se encontrava no banheiro do posto, enquanto passava o batom tão vermelho quanto seu próprio sangue, um sorriso falho no canto dos lábios. No relógio marcava 00:00, deu um passo para o lado de fora, sentindo o vento frio contra sua pele pálida. Mais uma noite de trabalho.
    Uma mulher diferente de todas as outras, parada no ponto, vendendo aquilo que sempre desejou ter, o puro amor.
  • Andarilho lírico

    Luz.
    Carreira.
    Mesa suja e cheia. 
    Jurídica justiça sem juz.
     
    Injusta.
    assusta.
    Frusta.
    Reproduz. 
     
    Palavra entre beco.
    Rua sem saída. 
    Idai desprovida.
    Bico seco. 
     
    Boêmio e teco.
    Malandragem. 
    Boteco.
    Abordagem. 
     
    A vida enquadra.
    De toca a ladra. 
    Se emboca.
     
    Desbocada 
    Singela 
    Madrugada.
    Em aquarela.
    Água com churumi.
    Temperada com chimi churry 
    Ilustre término impune. 
    Clima tenso na viela 
     
    Elegante 
    Nada Atlético
    Cético viciante.
    Eclético coisa de patético.
    Ofegante de terno o miliante.
     
    Situação contrária.
    Sem aliado extra.
    Trancado.
    Deitado.
    Calor insuportável.
    Me passa um cigarro
    ( por favor )
  • Ando lendo muitos livros ultimamente

    Uma árvore pega fogo
    E
    Dois párias se matam em um bar enquanto eu leio um livro
    Nada acontece pelas próximas duas páginas
    Mesmo assim me convenço que não é a aposta que torna a vida suportável
    Um gato é atropelado
    E vento solar atinge o polo norte criando uma aurora boreal
    Nada acontece na próxima página
    Mudo a posição das pernas, é tudo que eu faço
    Agora estão esticadas


    As pessoas caminham e tentam não pisar nas minhas pernas
    Enquanto isso uma mãe golfinho dá à luz pela primeira vez
    E algum artista cria uma música lendária que nunca será gravada
    Estamos perto de descobrir quem é o assassino
    Viro mais uma página
    O sinal bate
    Mais uma geleira se parte formando um iceberg
    O livro acaba
    Olho para o teto e penso
    Que seres ridículos nós somos
    Um velho morre na Pensilvânia
    Fecho os olhos e seguro um grito de agonia.
     
  • Apenas um sonho

    Descobri meu refúgio em você
    Vivemos o melhor que a vida tem,juntos
    Contra todos,vencemos
    Mas,onde você foi?

    Sinto que não posso te encontrar
    E a solidão aumenta a cada segundo
    Lembro de cada sorriso seu
    Não pode ter ido embora

    Foi tudo apenas um sonho?
    Não posso acreditar
    Foi tudo apenas um sonho?
    Não posso acreditar

    Nosso amor não se perdeu
    Quero cada segundo da minha vida com você
    Só te encontro nos retratos
    A sua espera a toda hora

    Minha vida virou uma escuridão
    Talvez ainda exista no meu sonhos os seus sorrisos
    Não posso ter te perdido

    Foi tudo apenas um sonho?
    Não posso acreditar
    Foi tudo apenas um sonho?
    Não posso acreditar
  • Apresentação

    Frequentemente me pego relembrando o passado, como se tivesse algo nele que eu vivi e esqueci de aprender, algo que passou batido e que não notei.
    Os assuntos são variados, desde pessoas que nunca mais soube noticias, até momentos e  os sentimentos que senti neles.
    Acredito que peguei este hábito nas aulas de história do ensino médio, a professora Aninha sempre me instigava a saber toda a história para entender como chegamos no hoje, do porque daquilo tudo, por mais que a história fosse complicada.
    Minha história de vida não é daquelas chamativas, esta mais para uma história parada e monótona, porem quando se afasta um pouco para se observar de longe tem tantos capítulos que você leva um susto e se pergunta em como virou tudo aquilo, pois nem pareceu tantas histórias dentro de um livro só.
    Tenho atualmente 23 anos, paulistana, moro com os pais, trabalho a quase 7 meses em um petshop... um resumo da vida financeira, porem não de mim, não da minha história, daquilo que me define...
    O que me define é um conjunto das minhas ações, das pessoas que estão em meu cotidiano ou já estriveram, e todos meus pensamentos.
    Sei que esse texto ficou muito desconexo mas só precisava escrever sobre eu, sobre me afirmar no meio de tudo o que tenho passado, espero ser mais clara...
  • As curvas de Jessica

    Lentamente a vendei, tive que me controlar para não a assustar logo na amarra. Jessica não gostava muito, mas havia cedido, talvez pelo enorme tesão que sentia por mim ou pela grandiosa carência. Logo foi a vez dos pulsos serem amarrados, e, após eles, projetei meu corpo sob o dela, o forçando contra a parede enquanto ambos estávamos inclinados, de joelhos na cama. Meus dedos jogaram o cabelo de Jessica para o lado, seu pescoço ficou a mostra e, refletindo sobre todas as vezes que a via casualmente, não me contive. O primeiro abraço foi demasiadamente forte. O suficiente para que ela reclamasse e ficasse impedida de respirar, era esperado, meu braço passou por sua barriga, segurando em sua cintura, enquanto meus beijos alcançavam seu pescoço. Logo após, minhas unhas arranharam suavemente a parte de trás de sua coxa, e fiz o favor de massagear sua cintura. A excitação começava a fluir por seu corpo, isso era notável. Seus beijos ficaram mais salientes e calorosos, seu pescoço quase que se quebrava para alcança minha boca. Meu peitoral fazia enorme atrito com suas costas, me excitava pensar que ela estaria se empolgando com o toque de meu abdômen quente. Queria a tocar, por isso a acariciei por todo o corpo, as palmas de minhas mãos viajaram de seu rosto até seus joelhos, logo na última viagem fiz questão de passar sobre sua roupa íntima, tocando-a e a masturbando, por cima da roupa, de um jeito firme e lento o suficiente para estar sincronizado com nossos beijos e deslizes. Aquilo não era o bastante, a massageei na região dos seios, apalpando eles e não deixando um centímetro sem as carícias. Logo podia ouvir as primeiras falhas em sua respiração, o que só aumentou meu apetite, fazendo com que, de maneira inconsciente, deslizasse nossos quadris interminavelmente um pelo outro. Esse foi o primeiro passo para que Jessica se sentisse confortável com minha presença, ela passou a me desejar mais e mais. Eu também. Mas para dois jovens imaturos... todo amor era pouco.
  • Beijo

    Definitivamente beijar não era o forte dela, descobri isto no primeiro toque em sua macia língua, estava tão ansiosa por isto quanto eu, mas como de praxi mantinha a solidez confiante a qual ela sempre cultivou no dia a dia, sua grosseria foi posta de lado para que ela aproveitasse um improvável e caótico momento. O beijo por sí só era péssimo em um ritmo inconstante sem aquele encaixe mandibular que se vê no cinema hollywoodiano, era uma orquestra sem timbre ou ritmo, que se construía na desordem atemporal, não lembro quanto tempo toquei seus lábios ou por quanto tempo tentei harmonizar aquela complicação que impunha sobre meus sentimentos, pela primeira vez na vida presenciei o dualismo presente no cérebro humano.
    O nariz dela era comprido e esguio, o que tornava o processo extremamente inconstante quando comparado ao de costume com minha namorada, a qual este momento deveria estar agonizando de saudades do seu amado e fiel namorado, este que julgava o beijo e a aparência de sua mais fiel concorrente, de perto, quase dentro.
  • Beleza se põe à mesa?

    Lembro- me de quando eu estava no pré vestibular, na primeira aula de redação e a professora nos propôs o seguinte tema: Beleza, se põe ou não à mesa? Ali, eu com uma intelectualidade mínima, preso a paradigmas religiosos que me impossibilitava pensar em frases pornográficas e ainda com a vergonha de expor minhas ideias, características educacionais que me foram impostas, como agressões físicas (palmadas), tratamentos para reeducação com berros dos meus pais e uma exclusão informativa que me foi atingida durante toda minha miserável vida acadêmica. Fiquei repleto de duvidas e sem o que dizer. Mas agora, antes tarde do que nunca (frase que ouvia de um amigo de infância, espero que ele se manifeste aqui), tenho minha opinião. Beleza, se põe sentada na cadeira. Com postura, com educação e habilidades sofisticada para utilizar de forma correta os talheres. Além dessas características, deves ser alguém que agradeça de forma humilde os serviços prestados pelo garçom. Que se vista com elegância suficiente para atrair olhados, mas deixa claro em suas ações que se respeita acima de qualquer opinião alheia. Que se orgulha da pessoa que é, e que não satisfeita busca uma nova melhoraria todos os dias. Que sabe sorrir diante a uma problemática, não por maluques, mas por total lucides de conseguir enxergar uma possível solução. Que valorize as relações sociais que foram estabelecidas por si, e que tenha empatia para respeitar ainda mais as que não foram. Que entenda que as diferenças sempre existirão e que o príncipe perfeito, sempre dependerá de quão princesa tu és. Que ame os animais, bem mais que os humanos. Que seja uma pessoa que encante com suas ideias inovadoras. E que utilize a mesa para escrever seus mais belos textos.
  • Cachorro no mato

    Era uma multidão. Um fluxo aleatório de gente indo para cá e para lá. Bruna vinha andando como quem não quer nada, mas com o ritmo de quem sabe onde quer chegar. Só seguindo o fluxo da sua linha. Quando viu o pato vindo concentrado na tela do celular ela deu o bote. Rápida como uma naja atacando um ratinho branco especialmente para as câmeras da Discovery. A super-câmera ia mostrar em detalhes como o punho dela se dobrava num ângulo perfeito para baixo e depois para cima, retirando com suavidade e segurança o celular da mão do duck. Ela não mudou o ritmo da caminhada, não fez nenhum movimento brusco. Só os músculos do braço se moveram como um chicote. Do bolso e de volta para o bolso, carregada, em milésimos de segundos. Quando o pato atordoado acusou o golpe Bruna já estava pelo menos dez passos longe da confusão. Daí para frente era só não olhar para trás.

    Ela entrou num shopping shing-ling e esvaziou os bolsos num balcão. “Quanto tempo faz você roubar isso?” “Foi tudo agora, se você correr para mudar o PIN não vão nem conseguir travar.” “Você boa.” “Me paga.” O chinês, que na verdade é coreano, deu o dinheiro e Bruna colocou as notas no sutiã. Como uma estudante de uma faculdade tradicional qualquer ela caminhava desapercebida pelo formigueiro do centro da cidade.

    De repente Bruna sabia que estava sendo observada. Manteve as mãos quietas nos bolsos e continuou a tocada firme. Girou só um pouco a cabeça, como quem quer ver o que esta acontecendo em volta de si, e percebeu que ele estava três passo atrás, do seu lado esquerdo, falando num celular. Quando ela se virou para frente de novo ele tocou seu ombro e se aproximou. Num terceiro movimento um cano frio tocou a sua cintura. “Só vem comigo. É só uma conversa.” Avessa a chamar atenção ela só seguia a direção que o cano apontava.

    Os dois entraram num prédio com aspecto de velho, depois numa das salas do sétimo andar. Ele pediu para que Bruna encostasse na parede para ser revistada. “Cuidado com essa mão aí!” Ela falou só por implicância. “É estranho quando é o seu bolso com uma mão que não é a sua?” O capanga abriu a porta de outra sala e mandou ela entrar. Um velho carcamano meio chinês (ou coreano?) estava sentado do outro lado de uma mesa. “Entrar cara Bonnie. Você saber quem ser eu?” “Não.” “Eu ser quem todo mundo que fazer coisa errada alguma aqui ter que pagar. Me entender?” “Não vou mais fazer nada de errado aqui então.” “Vai sim. Vai porque você boa. Vai porque Sr. Antônio ganhando muito dinheiro vendendo o que você entregar ele, e eu ganhar muito dinheiro também. Vai porque eu querer que você vai.” Ela ficou olhando sem saber o que falar. Não precisava ter assistido um filme do Scorsese para entender o que estava acontecendo. “Agora o Sr. Antônio me pagar 20% do que você ganhar, porque ele pagar sua parte mim. Assim nunca precisar nós ver. Entender?” Bruna acenou que sim com a cabeça sem conseguir mais esconder o medo. “Agora poder voltar ao trabalho.” Ela se levantou e saiu.

    Indignada ela foi em direção ao cubículo do Sr. Antônio no shopping shing-ling. “No que você me enfiou seu chinês desgraçado?” “Calma. Não nervosa.” “O que você falou para ele seu cretino?” “Que você ser boa. Ele proteção. Você não cadeia.” “Proteção o escambau! Não tenho dono!” “Calma. Não nervosa. Eu paga metade sua parte. Pronto.” “Chinês burro!” Ela voltou para o mundo sem muito destino. Tinha o trabalho do dia no peito e percebia o tempo todo que estava sendo vigiada. Irritada com toda aquela situação ela entrou repentinamente num ônibus sem nem ver a bandeira e saiu dali.

    Conseguiu se virar por três dias com o dinheiro que tinha até se entregar a loucura orgânica do calçadão do centro da cidade. No momento em que desceu a ladeira, e avistou a massa desordenada de carne humana atravessando o viaduto, já sabia que estava sendo vigiada. Fez uma primeira coleta de aparelhos e voltou para o box chinês-coreano. “Você não aparecer. Eu ficar preocupado.” “Preocupado porra nenhuma. Quem mais vai querer me extorquir dessa vez?” “Que? Eu não entender você querer dizer. Istoiqui?” “Tá bom, tá bom. Só me dá meu dinheiro. Entender me-dá-dinheiro?” “Sim, sim.”

    Ela pegou a grana e voltou para as ruas. Não procurava mais quem há estava seguindo, apenas sabia que eles estavam lá. Então começou a se exibir. Primeiro roubou a carteira de um executivo depois de um encontrão 'acidental'. “Desculpa” foi tudo que o palerma disse para ela, que respondeu com um sexy “tudo bem” enquanto enfiava a carteira dele no bolso da calça. Mas não conseguia fugir de sua especialidade, as chicotadas. Viu o cordeirinho vindo de longe. Digitando compulsivamente. Levantava a cabeça sem o menor foco. Ajustou a direção para passar ao lado dele. Calculou a rota de fuga por detrás da presa. Colocou as mãos no bolso do moletom e foi para cima com a confiança de uma leoa que ataca um cervo em campo aberto. Quando ela estalou o braço de volta com o celular na mão sentiu um empurrão por trás. “Sua larapia maldita!” Não conseguiu distinguir as palavras enquanto caia esbarrando nas pessoas e abrindo um círculo no meio do povo. O dono do celular virou lobo e foi para cima dela uivando. Socos, chutes e pontapés aos gritos de “mata! mata! mata!” da torcida. Toda encolhida no chão ela foi resgatada por duas mãos e arrastada para dentro de um carro. Bruna tremia e chorava descontroladamente. Só começou a se sentir mais segura quando percebeu que era o capanga do velho carcamano meio chinês que dirigia o carro.
  • Cão Morto

    Muito morto, tanto quanto pode ser. Sim. E mais: Contente.
    Senti uma bofetada no rosto. Ele não, estava morto. Um morto não se assusta com um vivo, muito menos aquele desvivido, bravo. Negaram, abandonaram, maltrataram e por fim, mataram-no. E mesmo assim, permanecia como um monumento anônimo numa rua perdida de uma Curitiba estranha. Olhos escancarados em desafio inconveniente à vida que lhe foi tão custosa, a língua para fora estancando um sorriso macabro.
    Voltando ao golpe. Fui pego de surpresa, mas é redundante, golpes são assim. Eu que, arrogantemente, andava em plena vida nesse mundo de imortais, me virei, dei de cara com a morte. E ela me esbofeteou. Justo. Sem aviso ou mensagem, interrompi sua peça póstuma em ousadia digna de gente. Como quem não quer nada adentrei em sua morada e chutei o trabalho de sua, ironicamente, vida.
    Mas foi ela (a vida) quem primeiro me bateu, a fragrância de milhões e milhões de seres vivos lutando uma batalha infinda pelos restos do cão, excretando compostos dos mais variados e malcheirosos. Desculpa, menti, afinal a vida e a morte são a mesma donzela, e seu tapa era igual. E ele ria, em deboche. Ele? Sim, o cão.
    Porque, fruto do desprezo de milhares de pessoas estava ali, morto mas nunca tão cheio de vida, contra a vontade de todos que empinaram o nariz a ele. Havia vencido. Pela ação de milhões de decompositores cada pedaço de matéria em sua carcaça renasceria, era imortal e isso lhe dava certo contentamento a morte e a vida que teve.
    Um dia, pensei eu afagando o rosto moralmente doído, ele será gente, e empinará o nariz para aqueles que um dia lhe foram irmãos no abandono. Ai eu entendi. Tempos atrás, havia sido cão e, algum dia, amaldiçoei essa raça esnobe e estranha que me negava. Ironicamente, em uso do ciclo interminável da matéria, eu renasci gente e tive a chance também de negar meu passado oculto. Devo tê-la tomado, não lembro, o que torna o pecado ainda pior.
    Ele ria entre moscas e tive pena, por fim. Meu rosto já esfriava, o dele era o próximo. As mil próximas vidas lhe custariam muito mais que essa, ele ria, morto, contente, inocente.
  • Carbono

    A lembrança instintiva de quando tu apertava minha garganta com teus nós, ainda amarga minha boca
    Me faz vomitar e transpirar de pavor
    Toda noite.

    Quando ameaçava rasgar minha pele, da forma mais deplorável possível, 
    Eu tremia, as paredes tremiam
    Tu, solidificava

    Prendeu meus pulsos sob o tampo da mesa, minha cintura junto à cadeira. Escancarou minha boca e descia longas e cheias colheres de medo,
    Embebedou-me de pavor,
    Tornando-me satisfeita da intoxicação.

    Acolhia-me na cama com um abraço. Onde eu era imóvel, 
    Onde tu expandia,
    Onde eu era invadia.
    Teus dedos longos arrancaram todas as portas, apedrejaram todas as vidraças
    Eu sangrava, 
    Enquanto ninava-me ao som de meus gritos abafados.

    Surpreendente ficara o brilho do terror em teus olhos naquela madrugada onde levantei para beber água. 
    Tu intacto nos lençóis sujos, 
    Indefeso 
    Caótico 
    Fragmentado

    Há em mim, todas 
    Os abates teus e dos outros
    Há em mim a morte,
    Há em mim a vida.

    A voz que não é mais coberta pela tua, 
    As amarras que não esmagam meus pulsos. 
    Tudo fede a gasolina,
    Suor,
    Covardia.

    Trago o cigarro. Te dou uma prova. 
    Tu inflama.
    Espalha,
    Desespera.

    Agridoce é o gosto de mulheres-oxigênio. 
    Tenho meus próprios pulmões
    Espero que os teus, 
    Derretam no carbono.
  • CARMOND - CAPÍTULO II

    O convite para ir à Carmond chegou um ano após Augusto ter retornado da Europa, onde havia se formando em medicina. E talvez tenha sido isso a causa de seus amigos colocarem tantos empecilhos na sua decisão de aceitar a proposta. Na certa, queriam aproveitar mais a convivência, uma vez que haviam passado tanto tempo distantes.
    _ Você não pode está falando sério que aceitou ir para aquele fim de mundo. Só pode ser uma brincadeira e, convenhamos, de muito mau gosto. O Silva falou enquanto eles dividiam uma cerveja num bar qualquer no centro da cidade.
    _ Porque todo esse espanto, Silva? Serão só alguns meses. É só o tempo do velho ficar bom ou...
    O Silva acabava de virar o último gole do copo e enquanto falava, voltou a enchê-lo.
    _ Você sabe muito bem da fama daquele vilarejo, Augusto. As histórias que chegam de lá são horripilantes.
    _ Como assim? Eu não sei do que está falando?
    _ Não se faça de desentendido, meu amigo. Sabes tão bem quanto eu que pouquíssimas pessoas viajam para aquele lugar e é ainda menor o número que retorna de lá.
    Nesse momento, Augusto não conseguiu conter o riso e isso pareceu deixar o Silva um pouco irritado.
    _ Vais rindo, doutor Augusto, depois não adiantará dizer que não o avisei. Como já diz o bom e velho ditado: Quem avisa amigo é.
    _ Não podemos acreditar em tudo que essa gente diz, meu amigo. Essas histórias são tão verdadeiras quanto o coelho da páscoa ou o papai Noel.
    _ Bom, eu como acredito que tudo é possível nesse mundão de meu Deus, se estivesse no seu lugar, não iria.
    No instante em que Augusto iria dar continuidade à conversa, os dois foram surpreendidos com a chegada de César e Rafael, ambos, amigos de longa data.
    _ Que maravilhosa coincidência! Veja que sortudos que somos! Quatro amigos se encontrando casualmente para tomarem cerveja e jogar conversa fora.
    O Silva, ouvindo as palavras de César, foi logo adiantando:
    _ É bom aproveitar mesmo este momento. Pode ser um dos últimos que passamos assim: os quatro juntos.
    _ Não entendi, alguém aqui irá morrer?
    _ Não leve a sério as palavras do Silva, meus caros. Ele já bebeu um pouco além da conta.
    Todos já estavam acomodados ao redor da mesa e o garçom, com uma competência invejável, servia cerveja aos recém chegados.
    _ Não estou bêbedo coisa nenhuma, rapazes. A verdade é que nosso amigo doutor acabou de fazer uma das maiores burradas da sua vida.
    _ Não seja exagerado, Silva. Desse jeito eles irão achar que eu engravidei alguma daquelas donzelas que visitam meu consultório semanalmente.
    Enquanto César e Rafael sorriam curiosos, Silva continuou com uma expressão de desaprovação e retomou a conversa:
    _ Antes fosse isso. Um filho com uma daquelas donzelas seria muito melhor que se enterrar naquele maldito vilarejo.
    A última palavra proferida por Silva ficou vagando no ar entre os quatro rapazes por um breve instante, enquanto os dois últimos a chegarem encaravam Augusto, espantados.
    _ Vilarejo? Isso quer dizer...
    Antes que completasse a pergunta, Silva adiantou-se:
    _ Isso mesmo: VI-LA-RE-JO, disse pausadamente, enfatizando cada sílaba. _ Augusto acaba de aceitar a proposta de ir para Carmond, tratar de um velho, que segundo informações, já deveria ter partido dessa pra melhor há muito tempo.
    César e Augusto, que até então estavam acreditando que tudo não passava dos dramas habituais do Silva, agora pareciam estar totalmente de acordo com ele.
    _ Sou obrigado a concordar com o Silva. Você só pode estar louco para aceitar ir para aquele lugar. Um vilarejo que fica a não sei quantos mil quilômetros, que só passa trem a cada quinze dias... Não! Você só pode estar de brincadeira.
    _ Calma, meus caros! Vocês estão fazendo confusão num mísero copo d’água, ou melhor, de cerveja. Sorriu e continuou. _ É verdade sim que eu irei até Carmond tratar da saúde de um velho que está a padecer. Ponto. É só isso. É o tempo de ir, tratar do enfermo e estarei de volta ao meu consultório, as minhas fiéis pacientes e aos meus amigos medrosos e queridos.
    Os três ainda continuaram questionando e listando o quanto ele perderia se afastando da cidade naquele momento. César apressou em dizer que ele mal havia aberto as portas do consultório que o pai, com tanto zelo, havia o dado de presente assim que Augusto retornou da Europa.
    Rafael alertou que as donzelas procurariam outros consultórios, e aí quando ele retornasse, se retornasse, não teria mais pacientes lindas e calientes implorando para serem consultadas.
    E por fim, o Silva, que já não encontrava mais argumentos, continuou insistindo na história de que o vilarejo era mal assombrado e que quem viajava até lá, dificilmente retornava.
    Porém, mesmo com todos esses argumentos, Augusto não se deixou persuadir, e dois dias após aquele encontro no bar, despedia-se dos amigos e da família, e embarcava no trem com destino à longínqua e misteriosa Carmond.
    Passadas algumas horas do embarque, uma chuva torrencial começara a cair, e quando o trem parou num lugar qualquer da estrada deixando Augusto, sozinho, esperando pelo motorista que lhe fora prometido na carta, o jovem médico começou a refletir se os amigos não estavam, de fato, com razão.
  • cicatrizes

    vida,eu já sinto tanto a tua falta,minha vida está muito vazia,o meu coração está vazio. será que tu sente a minha falta como eu sinto a sua? será que tu pensa em mim como eu penso em ti?nós quebramos as nossas promessas,nós erramos,eu errei,você errou,eu errei comigo mesma ao achar que nosso amor devia acabar,minha vida tava um caos,eu tomei várias decisões erradas,ter te deixado foi a maior delas,e agora eu não posso mais voltar atrás.
    acho que sempre estarei esperando a tua volta,me culpo todos os dias por não ter coragem e força o suficiente para ir atrás de você. você aconteceu na minha vida. e meu corpo e a minha alma ainda estão conectadas a ti.
  • DECEPÇÃO

    Seja uma decepção para os outros
    Mas não seja uma
    Pra si mesmo

    Todos querem te julgar
    Mas o que diria
    Sobre você nesse momento?

    Nunca tive tanta certeza
    De que sou
    O melhor que posso ser

    Nunca tive tanta certeza
    De que tenho o melhor que posso ter

    Tanta falta de ambição
    Não seria um pecado
    Se eu me contento com pouco
    Melhor do que com nada

    Eu finjo que tá tudo certo
    Mesmo quando não está
    Eu finjo que tá bem
    Até ficar

    Seja uma decepção para todo mundo
    Mas nunca uma pra si mesmo

    Não importa o que pensem os outros
    E sim o que pensa de você mesmo

    E eu sou aquilo que sempre quis ser
    E eu sou aquilo que vocês nunca vão compreender
    E eu sou aquilo que sempre quis ser
    E eu sou aquilo que vocês nunca vão compreender

    Eu finjo que tá tudo bem
    Mesmo quando não está
    Eu finjo que tá tudo bem
    Até ficar

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