person_outline



search

literatura,

  • Concurso literário – Orixás, histórias dos nossos ancestrais

    A Cartola Editora lançará sua sétima antologia de contos através de um concurso literário exclusivo para autores da língua portuguesa. O objetivo é incentivar que mais escritores sejam inseridos no mercado brasileiro como autores.

    A antologia “Orixás, histórias dos nossos ancestrais” será composta por uma média de 30 (trinta) contos tendo como temática os doze Orixás representados no Dique do Tororó, em Salvador:

    Oxum, Xangô, Oxalá, Oxossi, Ogum, Nanã, Iansã, Iemanjá, Oxumaré, Ossain, Logun-Edé e Ewá.

    Inscrições:

    15/05/2019 a 31/05/2019

    Divulgação do resultado:

    10/06/2019

    Organização:

    Janaina Storfe

    Regulamento

    1 – Participantes

    1.1 – O concurso destina-se a escritores de língua portuguesa, sendo livre para escritores iniciantes ou para autores que já foram publicados anteriormente. Os escritores podem ser residentes de qualquer país, desde que maiores de 18 anos;

    1.2 – A inscrição é GRATUITA e NENHUM VALOR SERÁ COBRADO dos candidatos para participação no concurso, ou posteriormente, na publicação da antologia;

    1.3 – Todo participante deve ser OBRIGATORIAMENTE usuário do Whatsapp, pois a organização da obra será feita em conjunto com todos os autores através de um grupo específico. Não será possível participar da obra caso não utilize a ferramenta.

    2 – Orientações

    2.1 – Os contos possuem como temática os doze Orixás representados no Dique do Tororó, em Salvador:  Oxum, Xangô, Oxalá, Oxossi, Ogum, Nanã, Iansã, Iemanjá, Oxumaré, Ossain, Logun-Edé e Ewá.

    2.2 – Os contos não precisam ser inéditos, podendo estar online em qualquer plataforma, ou já terem sido publicados anteriormente em outras coletâneas, sempre respeitando os direitos autorais adquiridos por outras editoras previamente, ou seja, o direito autoral do texto para a participação no concurso, precisa estar 100% com o autor;

    2.3 – Os textos deverão ser encaminhados através do formulário presente ao final desde regulamento durante o período de inscrição, respeitando o seguinte formato:

    Arquivo Word (NÃO ACEITAREMOS PDF) no tamanho A4; espaçamento 1,5 entre linhas; fonte Bookman Old Style (11); margens: superior e esquerda com 3cm; margens: inferior e direita com 2cm. O arquivo precisa conter o nome do escritor (pode ser pseudônimo) e o título do conto em minúsculo, por exemplo: “rodrigo-barros-o-sobrado-da-rua-taylor.docx”;

    O conto precisa ter o TÍTULO e o  NOME DO AUTOR (pode ser o pseudônimo) no início do mesmo.

    O conto precisa ter um mínimo de 02 (duas) páginas e um máximo de 05 (cinco) páginas, no formato descrito anteriormente;

    Caso envie o conto em qualquer outro formato ou especificação este será AUTOMATICAMENTE DESCLASSIFICADO;

    2.4 – Cada escritor poderá participar do concurso com até 02 (dois) contos diferentes;

    2.5 – Não serão aceitos contos que sejam fanfics de livros, séries, filmes ou qualquer outra mídia. O conteúdo precisa ser 100% original;

    2.6 – Não serão aceitos contos que contenham conteúdo pejorativo, discriminatório ou que incitem ódio e preconceito;

    2.7 – Não serão aceitos contos em co-autoria.

    3 – Publicação

    3.1 – A antologia terá uma média de 30 (trinta) contos participantes. Dentre os quais, aqueles escritos pelos autores selecionados através deste concurso, podendo haver a participação de autores convidados pela Cartola Editora;

    3.2 – A antologia será publicada em formato digital (e-book) em todos os canais de distribuição da Editora

    3.3 – Caberá somente à Editora definir a arte de capa e o estilo de diagramação dos contos no miolo da antologia;

    3.4 – Será realizado um financiamento coletivo para que a obra seja publicada também em formato impresso;

    3.5 – Caso o financiamento coletivo atinja a meta necessária para publicação impressa (esse valor será determinado pela Cartola Editora após a divulgação dos vencedores), o livro estará presente não só em nosso catálogo, como também estará à venda em todas as lojas online que já comercializam as obras publicadas pela editora;

    3.6 – Os autores não são obrigados a participar do financiamento coletivo, mas é de suma importância sua divulgação para atingirmos a meta estabelecida;

    3.7 – Se o financiamento coletivo atingir 150% ou mais da meta, efetuaremos em São Paulo um evento de lançamento do livro;

    3.8 – Se o financiamento coletivo atingir 200% ou mais da meta, indicaremos a obra para livrarias físicas parceiras, cabendo a elas aceitar ou não o livro para venda;

    3.9 – Será realizado um único registro ISBN com todos os contos do livro;

    3.10 – A participação do autor só será confirmada após o recebimento dos contratos assinados.

    4 – Direitos autorais

    4.1- Todo autor receberá um exemplar do livro em formato digital (PDF) e posteriormente receberá direitos autorais sobre as vendas do e-book, conforme constará em contrato;

    4.2 – Caso o financiamento coletivo atinja a meta necessária para publicação impressa, cada autor receberá direitos autorais sobre as vendas do livro físico, conforme constará em contrato;

    4.3 – Todo participante da Antologia poderá adquirir exemplares com 50% de desconto (mínimo de 20 exemplares), custeando também o frete, e posteriormente comercializando a obra conforme sua conveniência.

    A arte que ilustra esse artigo é de Dalton Muniz.

    Acesse:

    http://www.cartolaeditora.com.br/concurso-literario-orixas-historias-dos-nossos-ancestrais/

  • Geração 20's : Não queremos acabar com tudo.

    Uma geração estranha de desasjustados. Os 20,ou 20 e tantos (que há uma margem entre si e uma diferenciação, mas que posta numa escala menor, estão, tanto os 20, quanto os 20 e tantos iguais a uma barata tonta após jatos fortes de SBP de eucalipto) não sabem como proceder, como agir, não param em um emprego sequer. A cada dia, mais amigos me contam que largaram a faculdade, ou que foram demitidos, ou que pediram demissão depois de tanto tempo na empresa, ''cansei, não dá'' ou ''ah amigo, está muito caro.'' e os que trabalham dizem, ''todo dia eu quero me matar'' ou ''diz que um terremoto desmoronou o shopping'' e aqueles felizes com seus trabalhos são Dj's ou fotógrafos e mesmo assim não ganham bem, ou são ricos, pois os ricos sempre estão felizes, se não passa na faculdade um intercâmbio resolve o problema, ou até mesmo uma analista bem cara e bem paga, por que na verdade a única coisa que queremos é estar bem com nós mesmos. 
    Estamos ferrando com tudo por muito pouco, pouca bebida (até mesmo bebidas bem baratas), pouco sexo, poucas drogas e pouco foco no que de fato importa. Conheço pessoas nos 20's que sabem exatamente o que querem e fazem exatamente o que é preciso para conseguir, sem erros, sem falhas, um dia de cada vez, do jeito que tem que ser. Pensando aqui só duas; o resto mais cedo ou mais tarde faz uma cagada específica que ferra com tudo. 
      Nos 20 já desistiram de nós. Já devíamos ter aprendido, já devíamos ter feito aquilo. Na verdade, estamos cansados demais dormindo até ao 12:00, pois na noite anterior juramos pela nossas vidas que 23:30 era o limite para estar na cama; e as 2:30 se dá conta que iniciou o segundo filme, a segunda pipoca ou brigadeiro, e não tem problema, eu acordo cedo assim mesmo para ir trabalhar, eu aguento, um geração de zumbi. Gosto de pôr a culpa na TV, a nossa geração na infância está acostumada a ficar deitada a manhã inteira vendo todos os desenhos possíveis, e nossa Mães (inclusive a minha) secretamente gostavam daquilo, ''pelo menos não está fazendo besteira'' elas pensavam. Na minha casa era um momento religioso, sou o mais novo de 3 meninas e um Poodle, assistir Tv consistia num intervalo de nossas brigas e latidos constantes. Neste cenário, os 20's jamais vai crescer e ter o interesse de pegar no batente as 6:00, ou sentir-se feliz e realizado num emprego de 9:00 ás 18:00 em um escritório que nem a luz do sol é vista; os 20 enfrentam sua primeira crise e divergência e o mundo não tem espaço para crises de identidade, ou depressão, ou ansiedade, apenas o trabalha que cura qualquer enfermidade.
     Um solução? De fato não tenho nenhuma; talvez a culpa seja toda nossa mesmo, ou talvez não. Talvez seja um processo de adaptação á vida adulta; ou muito provavelmente virá um moço com o mapa com as regras e atalhos. O que piora são as expectativas, esperam que sejamos um tipo muito especifico de ser; pacato, mais ou menos; e isso é exatamente a ultima coisa que os 20 que ser. Não queremos pouco, não queremos até o limite, nós queremos intensidade, verdade, paixão, acordar e pensar que tudo vale a pena, queremos viver numa castelo mesmo que seja num camping em ilha grande ou num kitnete no centro da cidade. Até queremos um bom emprego, mas que tenha horários flexíveis, que forme sua equipe de acordo com o mapa astral dos funcionários, uma empresa que entenda o ciclo menstrual feminino e que dê carona em dias de chuva, que leve em consideração a febre do filho de seu funcionário, e que o chame de sócio e não de empregado. Queremos arriscar tudo por uma chance de ser feliz, botar tudo a perder sem garantia nenhuma; entendemos que nossa passagem aqui é breve e que de fato a maior felicidade é viver.
  • ... alguem de cabeça para baixo ...

    ...último raio de sol, uma brisa longa e suave, ar puro, o silêncio causando maior barulho em meu exterior, e pensamentos transbordando em meu interior, em longa distância há um mar, mar de informações, onde acontece paralelo de imensidão, e o imensidão é o meu limite, e ainda assim procuro todas as digitais de Deus, e eu me pergunto perguntando a Ele, Onde Estás? E mesmo perdido em confusão, a sua graça traz uma esperança, faz meu coração palpitar mais forte, para logo encontrá-Lo no porto, onde poderei ancorar em paz...
  • ‘EU’, ‘ELES’ e ‘NÓS’

    Sabíamos que estávamos sendo vigiados por ‘ELES’. Muitos relatos de abduções, fotografias e filmagens de suas naves e tecnologias não paravam de ser publicados nas redes sociais. Porém, por esforços dos governos mundiais que negavam e ocultavam os fatos, e também, por uma certa mescla de realidade e fantasia nos filmes e seriados hollywoodianos, e, provedoras globais de fluxos de mídias via streaming, além da ignorância que era pregada nas diversas religiões de sermos o centro do universo, ignoramos os sinais por ‘ELES’ transmitidos.

    ‘ELES’ até que apelaram a partir da década de 1970, quando começaram a desenhar os agroglifos nas culturas de certas gramíneas, por meio do achatamento de culturas como: cereais, colza, cana, milho, trigo, cevada e capim. E era obvio que não tínhamos ainda tecnologias para realizar o feito desses complexos e grandes desenhos em apenas algumas horas. Mas, mesmo assim, ignoramos. E, criamos soluções para explicar o inexplicável, e tudo foi abordado como um feito fictício. Então, pagamos o preço por mesclar a realidade e a fantasia, não sabendo mais diferenciar uma da outra. Assim, preferimos viver o engodo, e fomos enganados por nós mesmos.

    Entretanto, ‘Nós’ criamos a S.U.P.E.R (Superintendência Universal Para Extraterrestres Relações), em que na verdade era uma organização oculta e privada, que se fantasiava de uma Ecovila Sustentável criada por uma rede mundial de cientistas alternativos ufólogos, e pequenos empreendedores startup nos ramos da cyber tecnologia e biogenética (biohacking).

    Éramos perfeitos na arte do engodo, pois utilizamos as técnicas alienantes do sistema contra ele mesmo, ao fundarmos nossa Ecovila na Patagônia, que cobria uma área como mais de 239 km², banhada pelos paramos das geleiras andinas, com terras hiper férteis. Abrigando uma população de mais ou menos cinquenta e cinco mil habitantes de várias nacionalidades do mundo. Em que nosso maior foco agrícola e produção eram cânhamo, cannabis medicinal, morangos, uvas, cerejas, cevada e lúpulo, além de muitas criações de animais. E assim, fabricávamos os melhores vinhos, cervejas de cannabis e espumante de morango do mundo. Tudo de origem orgânica e primeira qualidade, e sem a necessidade de máquinas elétricas, ou movidas a combustíveis fosseis, tudo manufaturado a moda antiga, em que o trabalho humano e animal era o nosso maior forte.

    Vivíamos como antigos povos, antes da revolução industrial, nossas roupas, casas e utensílios eram manufaturados naturalmente, e nossas tecnologias eram 100% artesanais, permanentes e renováveis. Também, focávamos em energias sustentáveis como eólicas e fotovoltaicas, em que criamos a maior usina sustentável do mundo, que fornecia energia para todas as vilas da Patagônia por um custo acessível e barato, além de doar energia de graça para todas as dependências e prédios governamentais dessas vilas. Estratégia nossa, para implementar esse projeto com apoio intergovernamental, tanto da Argentina como do Chile.

    Porém, tudo isso não passava de uma capa que cobria o livro. Pois, subterraneamente éramos outra coisa.

    A S.U.P.E.R era um segredo de um punhado de famílias dentro da Ecovila, punhado esse, que era formado pelas pessoas menos relevantes da nossa comunidade eco agrícola. Na verdade, ‘NÓS’ éramos os fundadores dessa comunidade, mas passamos o nosso poder para os antigos moradores da região, transformando-os de simples camponeses em grandes empreendedores. Alguns ganhadores de prêmios Nobel e outras condecorações internacionais. Porquanto, eles eram nossas máscaras, e nem eles, como também, os outros moradores da Ecovila sabiam disso. ‘NÓS’ éramos um mistério… um segredo bem guardado por pactos de vida e morte, em meio ao paraíso andino.

    No submundo dos nossos quartéis subterrâneos, situava o centro tecnológico e informativo de nossa inteligência. Tínhamos uma empresa operadora de satélites, a StarSky Corporation, que atuava em 52 países com sedes em Israel e na China, além de 32 empresas subsidiarias de telecomunicações espalhadas pelo mundo. O que facilitava nossa rede de comunicações e informação, dessa forma, tínhamos olhos e ouvidos em todo lugar.

    Contudo, estávamos também sendo vigiados, e de início não sabíamos. Aquele fato da coisa observada, observar o observador. Pois nossos servidores se utilizavam da surface web, ou deep web como era mais conhecida. E, ‘ELES’ é que eram os verdadeiros donos do iceberg como todo. E, assim, os nossos olhos e ouvidos eram, também, os olhos e ouvidos deles. Seus motores de busca construíram um banco de dados, pelos seus spiders, e através de hiperligações indexaram nossas informações aos seus servidores na deepnet. Quando descobrimos que estávamos sendo escaneados, toda nossa informação já eram deles.

    Quando nossos hackers investigaram quem são ‘ELES’, se depararam com uma parede de proteção inacessível, em uma (darknet) parte do espaço IP alocado e roteado que não está executando nenhum serviço. Até para as inteligências dos governos mais poderosos o acesso era fechado, pois se utilizavam da Dark Internet, a internet obscura. E de cara percebemos que ‘ELES’, os não-humanos, eram quem estavam nos vigiando.

    Contudo, resolvemos abrir o jogo e mandar mensagens para ‘ELES’, em um projeto apelidado como: חנוך (Chanoch). Durante meses enviamos várias mensagens, então, de repente, nossos servidores detectou uma mensagem oculta que dizia: “E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.”.

    Ao receber aquele texto, ficamos perplexos. De início, achamos ser uma brincadeira. Até recebermos outra mensagem, que dizia: “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Então, depois de longas horas de reflexão, intentamos que as mensagens vêm a nós na forma e maneira que podemos perceber. Sendo, que eles queriam escolher alguém entre nós para uma viagem. Não sabíamos como responder a tal pedido, e mandamos uma mensagem correspondente do que temos de fazer para realizar tal acontecimento. E, eles nos responderam com três sequencias binárias: 101.

    No dia seguinte a essa misteriosa resposta, para o nosso espanto, fomos notificados por um de nossos agricultores que se encontrava no campo de cevada, se deparando com um símbolo gigante desenhado ‘IOI’. Então, rapidamente percebemos que aquele campo seria o local de contato. E, ‘EU’ fui escolhido para a tal viagem com ‘ELES’. Então, todas as noites acampei no local marcado.

    Acho que propositalmente, na noite 101 em que me encontrava sozinho em minha barraca, e já desesperançado de algum contato, ‘ELES’ vieram! E de súbito só me lembro de ver uma forte luz branca.

    Quando acordei, me deparei em uma maca feita de uma solução gelosa, de um verde fosforecente, algo como se estivesse deitado sobre água, mas, era firme, e amaciava com o peso do meu corpo. Não tinha temperatura, nem frio e nem quente, e o mais louco é que meu corpo não sentia esse material, era como se eu estivesse deitado sobre o ar. O ambiente era de uma luz violeta neon, muito calmo aos olhos, e não tinha paredes, teto ou solo. O silencio era profundo, irritante e assustador. Para todo o lado que eu me voltava, via apenas um horizonte infinito, tanto para cima como para baixo. E tive medo de sair da maca, pensando cair nesse infinito abismo. E a sensação era por demais desconfortante, achei que estava morto.

    Nisso, me senti sendo vigiado, algo ou alguém me observava, e vi alguma espécie de vulto transparente se locomover ao meu redor. Então, pela primeira vez senti algo que me tocou!

    — Uai!

    — Calma!

    — Quem é você?

    — Então, provou.

    — Provei o quê?

    — A sensação de sentir nada.

    Ao ouvir isso, perplexo me calei. E pasmei! Vendo uma espécie humanoide alta e magra a minha frente. Com olhos extremamente azuis e findados como os asiáticos, cabelos brancos longos, e pele extremante branca, fria como a de um cadáver. E, diante do meu silêncio e espanto, ela continuou a dizer, falando sem mexer a boca, que mais parecia uma fenda em seu rosto magro:

    — Assim, somos ‘NÓS’. Não temos a capacidade de sentir como vocês, e os invejamos por isso. Essa forma que você vê a sua frente, não é nosso corpo. É apenas um traje, pois vocês não têm a capacidade de nos ver sem ele. Somos seres pertencentes a outra dimensão, que vai muito mais além de sua física e compreensão.

    — De onde são vocês?

    — Somos seres da Quarta-Vertical, um mundo mais além do que a matéria física. E, nesse momento você está diante de uma plateia de nós. Não pode vê-los, pois, estão sem seus trajes físicos. Porém, saiba que também você usa um traje, e ele que te faz sentir. Mas, nós, mesmo com nossos trajes, não podemos sentir como você sente, e perceber como você percebe. Apenas percebemos as coisas físicas, através de alguns impulsos elétricos de contato nos transmitidos por nossos trajes, que são mínimos, sem sentimentos e emoções.

    — Onde fica fisicamente a Quarta-Vertical?

    — No plano físico, conhecido por vocês como seu sistema solar. Em que nossa Morada é o Sol.

    — Então, estou no Sol?

    — Claro que não! Seu corpo físico não aguentaria.

    — Onde estou?

    — Em nosso ponto de contato. Na parte oculta da Lua. É daqui que o observamos, desde sua criação como seres existenciais. E, temos alguns de vocês aqui conosco. Na verdade, somos seus guardiões, mensageiros e protetores.

    — Protetores! Contra quem nos protegem?

    — ‘DELES’ e de vocês mesmos. Pois, se assim não fosse, vocês não mais existiriam como espécie.

    — ‘DELES’ quem?

    — Aqueles a quem vocês chamam de seres infernais. No início, ‘ELES’ eram como ‘NÓS’, e vieram de ‘NÓS’. Mas, se corromperam. Pois, desejaram sentir a emoção que vocês sentem. Por isso, eles lhes causam dores e prazeres, para sugar as energias de seus sentimentos. E, fazem isso agora, através da internet. Por isso, lhes deram esses pequenos dispositivos que vocês carregam em suas mãos. O próximo passo deles, é implementar esses dispositivos aos seus corpos físicos. Aí, então, drenarão suas energias vitais, como um canudo drena o líquido numa garrafa de refrigerante.

    — Onde eles vivem?

    — Antes viviam aqui na Lua, depois os expulsamos para Saturno e Plutão. Mas, quando fizeram o pacto com os muitos chefes e governantes de sua sociedade, precipitaram-se na terra. Quando teve uma grande chuva de meteoros. Então, agora vivem entre vocês.

    — E, como podemos reconhecê-los, se vivem entre nós?

    — São os seres lagartos, mas se disfarçam com trajes humanos. Por tanto, seus trajes se alimentam de sangue, e são sensíveis a luz do sol. Por isso, procuram andar mais a noite, e poucas vezes a luz do dia. E, para resistir a luz diurna, precisam beber inúmeros litros de sangue humano fresco e vital. Só assim, os trajes resistem por mais tempo. Porém, alguns deles se tornaram híbridos, cruzando com a sua espécie. E são metades humanos e ‘reptilianos’ como alguns de vocês qualificam. Mas, mesmo assim, precisam de sangue humano para viver. E, como vampiros modernos, eles criaram os bancos de sangue, espalhados por todo mundo. Onde vocês creem estar doando sangue para pacientes hospitalizados, mas apenas 2% desse sangue vai para esses pacientes que necessitam, o resto é comercializado entre eles.

    — E por que vocês não nos alertam sobre isso?

    — Não podemos interferir. Foram vocês que atraíram eles. Suas escolhas. Seus livres-arbítrios.

    — Como assim, nossas escolhas?

    — Por acaso, você não leu a parábola de Adão e Eva?

    — Mas, isso é apenas um mito!

    — Não é apenas um mito. É uma metáfora da realidade, representado em sua espécie dividida entre macho e fêmea. Um código, para os sábios decifrarem.

    — E, por que não nos contam a verdade diretamente, e só nos dão metáforas?

    — Veja o que vocês fizeram com a verdade… ridicularizaram. Enviamos muitos para lhes dizer a verdade. Muitos de nós nascemos como avatares para lhes falarem, e veja o que nos fizeram? Nos mataram, assassinaram, minimizaram. E, mesmo nascendo entre vocês como humanos, ao longo do tempo nos transformaram em engodo e mito.

    — Mas, isso foi em tempos de muita ignorância. Hoje temos tecnologias para registrar e comprovar.

    — Tempos de muita ignorância… saiba que não existe tempo onde a ignorância é mais forte e abrangente do que esse em que vocês vivem. Suas redes de informação, academias e filosofias são lotadas de teorias e não de práticas. Vocês não experimentam mais. Não observam mais… só emulam. E agora que mesclaram a realidade e a fantasia, você acha que nos ouviram? Seremos ridicularizados e banalizados mais uma vez… por isso, agora agimos em oculto sigilo. E falamos na linguagem que vocês não podem deturpar, que são as parábolas e metáforas. Poesias de mistérios místicos e ocultos, que lhes encantam, e fazem pensar. Até serem assimiladas por corações puros, lapidados e lavados que nascem entre vocês.

    Ao ouvir aquelas palavras, o mundo parou em mim. E, lágrimas rolaram do meu rosto.

    — Ernesto! Ernesto! ¡Despierta hombre!

    — Ahh! ¿Qué?

    — ¿Qué haces aquí acampado en el campo de cebada güevón?

    — No lo sé … De repente tuve un sueño confuso. No me acuerdo.

    — ¡Vamos! Es tiempo de cosecha. Creo que perdimos una buena cantidad de grano. Bueno, creo que hubo un torbellino esa noche que aplastó los tallos fértiles.­
  • "A Metamorfose" Franz Kafka

    A Metamorfose
    Autor:Franz Kafka - Áustria-Hungria
    Primeira publicação em língua Alemã 1915
    Edição portuguesa
    Tradução J. A. Teixeira
    Aguilar Editora - Europa
    Edição brasileira:
    Tradução Brenno Silveira
    Editora Civilização Brasileira Lançamento1956

     
               Apesar de haver milhares de resenhas sobre esta obra, gosto de fazer a dos livros que, para mim, são especiais e que, por isso, li mais de uma vez 
           Vamos, em primeiro lugar, fugir ao usual e derrubar essa lenda criada quando da tradução para o português desse clássico mundial da literatura que é a novela 'A Metamorfose"
                 Segundo os especialistas na língua Alemã, em momento algum Kafka escreveu que o personagem Gregor Samsa havia se transformado em uma barata como a maioria das pessoas afirma e sim num inseto gigante.
         Há estudiosos que dizem  que pelas características descritas no livro trata-se de um besouro gigante.
                  Prefiro ficar do lado dos que pensam que ele não definiu qual o inseto para poder deixar a cada leitor poder imaginar, qual o mais assustador e repugnante para si mesmo.
                    Gregor Samsa é um caixeiro viajante, arrimo de família, que tem sua história a partir de uma insuspeitável manhã, descrita  pela seguinte frase com a qual o livro inicia: 
          “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso...”.
                Gregor era quem sustentava a família, pai, mãe e irmã. Era a salvação dela, mas depois de transformado perdeu o status de salvador e passou a ser um problema até se tornar a vergonha dela. Além da vergonha, conformismo, humilhação e solidão são os principais temas no desenrolar dessa angustiante história.
               Kafka quis retratar a hipocrisia dos homens e da sociedade e conseguiu da forma mais sensacional possível em se tratando de uma novela.
                Um livro pequeno, em média com cem páginas, mas de uma grandeza literária de ​​​​tirar o fôlego.  Já há  cem anos entre os mais vendidos no mundo.
                    Se você chegar a uma universidade, provavelmente terá de o ler, ou nas aulas de literatura, ou para algum vestibular, mas se não tiver, leia-o mesmo assim. É extraordinário.

    Rudá Kayke
  • "O Apanhador no Campo de Centeio"

    Resenha literária
    Por Rudá Kayke

    “O Apanhador no Campo de Centeio”
    1951 – The Catcher in the Rye
    Autor: J.D.Salinger
    Tradução para o português: Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster
    Editora do autor 20.ª edição 2017
     

                Apesar dos quase setenta anos da sua primeira publicação o aclamado “O Apanhador no Campo de Centeio” continua vendendo cerca de 200 mil cópias por ano em todo o mundo.
             A história do jovem Holden Caulfield, um adolescente da década de 50 que resolve passar um fim de semana sozinho em Nova York, antes de voltar para casa e contar aos pais que havia sido expulso do internato, uma das mais renomadas escolas do país, por tirar notas baixas, continua sensibilizando leitores em todos os países aos quais chegou.
              Nada de surpreendente ocorre durante a história. Toda ela se passa em dois dias e unicamente na cidade de Nova York. O que cativa o leitor são as reflexões que o jovem Holden faz sobre toda sua vida passada, a aversão que foi criando pela maioria das pessoas que conheceu e a tentativa dele em reencontrar outras das quais gostava, neste curto espaço de tempo.
              Por outro lado, creio, o protagonista nos remete à nossa própria adolescência. Não é difícil nos identificarmos com uma idade em que, para nós, o mundo e as pessoas não prestavam, onde tudo estava errado e ao invés de tentarmos agir para mudar, nos tornávamos “rebeldes sem causa”, querendo mostrar nossa indignação com tatuagens, drogas e rock, como nos anos 50, por exemplo, segundo a história.
              Holden Caulfield não quer estudar, quer ficar no final do campo de centeio apanhando as crianças que chegaram lá e estão prestes a cair no precipício. Apesar de mal-humorado, altamente crítico e deprimido sonha em poder mudar os rumos da vida para os que vem atrás.
                  Embora de enredo simples o livro é de leitura agradável e nos leva a refletir e a tentar entender sob o aspecto psicológico, a personalidade e a ebulição de pensamentos e sentimentos nesse jovem peculiar Holden Caulfield.
    Recomendo como leitura atenta e reflexiva.
  • 10h15

    10h15

    (sob alfazemas)


    E sempre escrevi o mesmo poema…

    Em vozes diferentes e em esquemas

    dissidentes. Não raro muita emenda

    atrás da outra — um filme sem cena.


    No meio da manhã sinto a alfazema

    imensa deste vendaval e das nuvens

    que colorem os raios da cor que surge

    entre os pastéis e o fundo da ferrugem.


    Às onze e um os clarins da tarde executam

    as exéquias do que foi orvalhada e chuva;

    chilros e minuanos — e criador e criatura.

    Onze e quarenta e está pronta a sepultura


    rasa e sem mármore da fome desta tortura

    de cheirar o futuro antes da própria fissura.

                                                                          

                                                                                 

  • 10h48

    Vejo a pátina do castiçal das dez e vinte e cinco

    dessa manhã de zinco — que devolve o brilho

    lusco-fusco de suas luzes opacas e de cinzas

    múltiplos. E de lado a lado um colar perolado,


    feito se o sol — ao contrário — fosse prateado.

    Às dez — e quarenta cravado — o verso furta

    a trajetória do poema e segue outra arquitetura

    — muito distinta da qual o poeta havia pensado.


    Depois de quatro minutos, surge um azul na fresta

    no penúltimo quadrante da janela do quarto aberta.

    Dez e quarenta e cinco. Ainda dez e quarenta e cinco.

    A tortura das horas. E antes dos cinquenta eu termino

  • 12h15

    Ando por entre os assoalhos da alvorada.

    A manhã é Fellini. É terminal. E abafada.

    As horas são drágeas coloridas que matam

    este silêncio e a sua mentira de ser pausa.


    Há franjas de nuvens estendidas nas águas

    de um céu de fumaças distantes e rasas

    que exalam a erva defumada das almas

    quando transitam anônimas pela calçada.


    Doze e quinze — a garoa opaca se espalha.

    Estou sobre a marquise — eu e esse nada.

  • 23h40 (ao vivo)

    O cenário da noite desmaia na estopa gelada

    do céu monocolor antes de virar madrugada.

    Vinte e três e quarenta e três e o nó não desata

    quando tudo mora nesta fuligem que se acaba.


    Faltam quatorze para o rodopio do calendário.

    Faltam onze, agora. Sinto de dentro do quarto,

    a rajada silenciosa destes dez minutos do prazo.

    Escrevo sobre este instante do relógio que marca


    o pulso grave das horas. A agonia cronometrada,

    feito se o futuro fosse aquele pinga-pinga da água

    que surge da torneira e explode no círculo do ralo.

    Vinte e três e cinquenta e seis. Sete, na verdade…


    Da meia-noite o meu verso vaza quase adormecido.

    O poema não me salva… E não me livra do infinito.

  • 45°C DO SEGUNDO TEMPO

    Procuro um verso na noite azul e ametista.

    Tento baixar aquela estrela na minha lista

    e ouvir os lamentos de quem sozinha brilha

    no meio do nada ou em algo que não exista.


    Não quero do tipo qualquer um me serve;

    talvez algum que forme o contato elétrico

    entre dois polos aleatórios que se atrevem

    a roçar seus limites na sala cinza do cérebro.


    Folheio vários livros. Abro e fecho os arquivos.

    Corro o dedo no drive. Subo e desço e respiro

    quase ofegante enquanto os miolos são fritos

    nesta azia dos signos, no refluxo dos sentidos:


    quando escrevo toda a temperatura aumenta...

    A perna treme. A mão sua. E onde está o poema?

  • 5h38 (tangerina)

    Há sobre a aurora uma garoa teimosa...

    Molha o raio de todo o orvalho que brota

    do bebê do dia onde o rosa sem demora

    sumiu do amarelo do contorno da encosta.


    Pode o poema se tudo é uma saudade agora?

    Fazer o que se o meu verso voou e foi embora?

    Estou muito cheio desse vazio oco que implora

    a tangerina do seu beijo e os degraus do seu pódio.


    Projeto nas paredes as imagens que assolam

    a sua falta. Ouço aqueles ais dos ecos da copa.

    Sinto o dulçor do perfume do amor do seu colo.

    Puxo risos altos dos pés sob pés da nossa história.


    No meio da manhã e entre os lamentos da memória,

    não há nas dez e dezenove nem uma garoa teimosa.

  • 6B

    Grito um silêncio na manhã fria da segunda

    temperada nas ervas da ventania. Na agulha

    procuro na mudez da casa a melodia oculta

    do verso que flutua nas bordas da balbúrdia


    ainda feito a palavra aleatória desse sistema

    atrás dos tapumes. Dentro do porão do poema

    eu tento mexer com as sombras que conjuram,

    cada uma, as preces para outra nova arquitetura.


    A luz de mil imagens modifica o ângulo e a estrutura.

    A linha do horizonte é grafite 6B. Aqui. Ali. Profunda.

  • A ÁGUA E A CRIANÇA

    Plim, plim, plim
    - cai uma gotinha
    de água
    entre as folhas
    amarelecidas no chão.

    Logo mais,
    Vai se transformando
    Em fio d'água,
    Fazendo valeta
    Pelo meio do mato.

    Plim, plim, plim,
    - é a nascente
    de um rio,
    cantando, murmurando
    e insinuando
    sua forma líquida
    no chão da Terra.

    Plim, plim, plim,
    - os olhos de uma criança
    acompanham com encantamento,
    a Vida, que se faz
    feito Ternura ao seu redor.

    Lá dentro,
    - no espelho d'água,
    Ela vê o seu rostinho
    Devolvendo-lhe
    O olhar extasiado.

    Nesta água querida,
    Banha o seu corpo,
    Que sente o abraço
    Amoroso da Vida.
    Num Batismo de energia
    e de vitalidade.

    A criança sorri,
    A água murmura,
    Corre e canta...
    A criança é Luz:
    Brinca
    e se encanta.

    Água - criança -
    Luz - Sorriso - Vida - Alegria.

    É o Milagre da Mãe-Terra,
    Envolvendo
    duas Criaturas amadas
    Num abraço de Ternura
    E de eterno Agradecimento.

    Plim, plim, plim
    - cai uma gotinha
    de água
    entre as folhas
    amarelecidas no chão.

    Logo mais,
    Vai se transformando
    Em fio d'água,
    Fazendo valeta
    Pelo meio do mato.

    Plim, plim, plim,
    - é a nascente
    de um rio,
    cantando, murmurando
    e insinuando
    sua forma líquida
    no chão da Terra.

    Plim, plim, plim,
    - os olhos de uma criança
    acompanham com encantamento,
    a Vida, que se faz
    feito Ternura ao seu redor.

    Lá dentro,
    - no espelho d'água,
    Ela vê o seu rostinho
    Devolvendo-lhe
    O olhar extasiado.

    Nesta água querida,
    Banha o seu corpo,
    Que sente o abraço
    Amoroso da Vida.
    Num Batismo de energia
    e de vitalidade.

    A criança sorri,
    A água murmura,
    Corre e canta...
    A criança é Luz:
    Brinca
    e se encanta.

    Água - criança -
    Luz - Sorriso - Vida - Alegria.

    É o Milagre da Mãe-Terra,
    Envolvendo
    duas Criaturas amadas
    Num abraço de Ternura
    E de eterno Agradecimento.
  • A aluna e o professor

    Foi tudo muito rápido, mas foi o suficiente para deixar marcas, que naquele momento achei que não fosse superar e nem esquecer. Bobagem. Hoje, dificilmente lembro do seu nome. Maldito seja o dia que o conheci. Ele não era nada alto, apenas divergia alguns centímetros da minha estatura. Não era nada atraente (beleza era algo a ser discutido), porém era muito intimidador. Eu tinha 16 e ele... enfim. A troca de olhares era constante, contato e a conversa não passava de um simples "Bom-dia!" e um sorriso. Nem me lembro de como nos aproximamos tão de repente e de como nos afastamos. Apenas uma coisa me apetece... estou bem melhor sem ele. Para nos conhecermos melhor, ele se aproveitou da minha fragilidade e necessidade de um amigo que me confortasse. Usou das poucas artimanhas que ainda tinha e seu charme exótico, me pergunto como pude me deixar levar pela sua lábia instigante, intimidadora... muito intimidadora. Ninguém podia desconfiar desse seu outro lado, que tentei (eu juro) desvencilhar. Seu jeito discreto, não se comparava ao homem cara de pau que ele era fora da sala de aula. Nem os meus fetiches mais bobos se resumiam em paixão e sexo com o meu professor. Fetiche clichê ao extremo, não acha? E olha que eu adoro clichês. A paixão não se enquadrava nos meus planos, aliás, conhecê-lo foi uma contingência. Um erro. Ah, se eu tivesse dado ouvidos à uma colega que outrora me disse que me entregar seria um ultraje! Desculpe, minha querida amiga. Eu precisava beijá-lo. Sentir seu gosto vir de encontro ao meu. Porém, a decepção e a repulsa vieram antes do famigerado beijo. Costumo dizer que há males que vêm para o bem. Talvez, fosse realmente necessário eu me afundar nessa tão "doce e amarga" fantasia para que eu desse lugar para o melhor dos amores... o amor próprio.
  • A Anti-Musa

    A válvula da panela girava, a cozinha suava vapor de sopa quente. Cheiro de temperos no ar. O sol lá fora mal entrava pelas janelas veladas com cortinas grossas. O resultado era um cômodo abafado e entregue à penumbra. Uma mulher estava sentada à mesa, diante de um rádio antiquado que ressoava um samba triste. No entanto, não parecia estar atenta aos apelos do sambista, tão pouco à panela ao fogo. Na verdade, ela parecia nem estar presente mentalmente. Em uma espécie de despersonalização, seu olhos arregalados encaravam o azulejo encardido das paredes, mas seu espirito poderia muito bem estar vagando pelo plano astral.
                    “Catatonia: Perturbação do comportamento motor. Geralmente envolve uma posição rígida e imóvel que pode durar horas, dias ou semanas. (E...) A história nos conta que, nesses casos, um doente poderia ser enterrado ainda vivo (!), tamanho seu estado de inércia. (...xaus…) Dentre as condições médicas que podem causar o estado catatônico estão:  esquizofrenia; depressão; derrame cerebral; entre outras condições neurológicas e psiquiátricas. (...ta.)”
                    Alguns minutos ou algumas décadas se passaram...
                                                                                                              *****
    ...e então, subitamente, a mulher deu um pulo na cadeira em que estava. O acontecido pareceu ter impressionado a ela própria, piscou rapidamente repetidas vezes e olhou em volta, como para desvendar em que lugar se encontrava. Seus olhos vagavam pela cozinha, viu a janela encoberta; um armário empoeirado, com portas escancaradas; louças usadas, empilhadas sobre uma pia de mármore; seu velho rádio que ainda tocava alguma música qualquer; uma geladeira pequena, azul turquesa e na porta da geladeira estavam imãs em formato de frutas e legumes. Dois desses imãs mantinham presa uma fotografia, quando os olhos da mulher finalmente se encontraram com os olhos desta foto, o olhar se alterou – passou de apático à revoltado.
                    “(Eu sou um monstro!) Transtorno dismórfico corporal, historicamente conhecido pelo termo dismorfofobia. (Minha pele é seca, meu cabelo é crespo, meu nariz é comprido, meus lábios são muito finos...) Trata-se de um transtorno psicológico caracterizado pela preocupação obsessiva com defeitos mínimos ou imaginários na aparência física. (Eu devia ser colocada em uma jaula...)”
                    O surto perdurou por horas ou séculos.
                                                                                                              *****
    A mulher agora estava sorrindo. No chão, uma fotografia despedaçada coberta de cacos de vidro. Na porta da geladeira, uma mesma imagem encontrava-se intacta, presa pelos mesmos dois imãs. A mulher caminhou até o fogão, a panela chiava incansavelmente.
                    “(O trem! Por Deus, vou perder o trem....) Alucinações auditivas, sinal de esquizofrenia. (Tenho que apanhar o trem!)”
                    A mulher, de maneira impulsiva, agarrou a panela fervente, suas mãos arderam no mesmo instante e vacilaram. A panela despencou no fogão aceso.
                    “(Ai... Como está gelado...) Alucinações sinestésicas, sinal de esquizofrenia.”
                    O rádio sobre a mesa iniciou uma canção que pareceu alegrar a mulher. Uma bossa nova lenta a fez arriscar pequenos passos de uma dança confusa. Enquanto dançava, alguém tocou seu ombro.
                    - Oh, Tom! Como é bom te ver.
                    - Me concede a honra desta dança, madame?
                    Agora ela dançava abraçada com seu par.
                    “Alucinações visuais... Um sério sintoma de pessoas esquizofrênicas. (Sabe, algumas informações você deveria guardar para você...) Na verdade, não acho que seja possível. Quando eu penso você pensa. (Transtorno dissociativo de identidade: conhecido popularmente como dupla personalidade) é uma condição mental em que um único indivíduo demonstra características de duas ou mais identidades distintas, (cada uma com sua maneira de perceber e interagir com o meio.)”
                    A música terminou e levou consigo o lapso de felicidade. A canção que iniciou era alegre, porém a mulher não teve vontade de dançar. Ela se atentou a letra, o cantor falava de sua amada, sua musa. Após alguns instantes, a mulher desabou no chão e começou a chorar escandalosamente.
                    “(Eu nunca serei a musa de alguém. Nunca alguém irá se inspirar em mim.) Ao menos não de maneira positiva... Mas quem sabe quando forem falar sobre sociopatia. (Ah, mas é claro! Que agradável tema...) Bom, talvez você possa convencer alguém a escrever algo para você. (E eu lá tenho cara de Annie Wilkes?!) Na verdade... Tem sim.
                    A lamúria pareceu durar uma eternidade.
                                                                                                              *****
    A cozinha ainda suava vapor de sopa quente. O cheiro, porém, não era nem um pouco agradável. O válvula do bujão borbulhava espuma. O sol estava se pondo lá fora, mas a majestosa luz do crepúsculo mal entrava pelas janelas fechadas e veladas com cortinas grossas, impedindo que os malditos vizinhos xeretassem. “Transtorno de personalidade antissocial...” A mulher sabia que era alvo de comentários maliciosos e não demoraria muito para a vizinhança se reunir para atear fogo a sua casa. “Transtorno de personalidade paranoide...” Ela estava sentada à mesa, diante de um rádio antiquado que ressoava um chiado de estática. Um Marlboro ainda não aceso rolava entre seus dentes, ela refletia:
                    “(Não sou musa-inspiradora de ninguém...) Não é musa inspiradora de ninguém... (...Mas depois disso talvez eu seja.) ...Talvez seja. (Minha cabeça dói...) Tontura... (...Mas a dor vai passar.) A voz irá embora... (Tudo terá fim...) Tem certeza? (Você sabe o quanto é difícil danificar uma válvula de gás?) Você sabe que eu sei. (Sei...) Ideação suicida... (Fim.) ...Fim.
                    A mulher acendeu o cigarro e o cantor pensou nela finalmente.
                                                                                                              *****
    [Inspirado na canção A Anti-Musa de Romulo Fróes e Clima.]
  • A Bruxa da Arruda e o Sagrado de Tudo

    A manhã estava carinhosamente refrescante em um dia de verão calmo, que precedia o calor do seco e ensolarado tempo impermanente. Acordou às cinco horas da manhã como de costume, e já não tinha mais a necessidade do despertador do seu smartphone para tal feito. Simplesmente os olhos automaticamente em uma só expressão se abriram, o corpo em um só impulso na cama se sentou, e mergulhado nos seus pensamentos do que fazer com o novo dia de quarentena que auto se apresentava, meditava… claro! Aqueles dias eram por demais incomuns, de um lado tinha o dia todo pela frente sem a rotina acinzentada do levantar, correr e trabalhar, e, por outro lado, teria que ser criativo ao esforço máximo, em táticas incomuns e altruístas para não deixar que o tédio com toda sua improdutividade o arrebatasse, sequestrando a sua proposital impulsionada momentânea e intencionada alegria.
    Essa intencional alegria era a Poderosa Presença do Sagrado em sua vida. E apenas se baseava, por incrível que pareça, as coisas e recordações mais simples e singelas da sua tenra infância. Principalmente as lembranças delicadas e afetuosas de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Pelo qual, todas as manhãs, dedicava em um cantinho do seu oratório (em culto aos antepassados) uma vela sentada em um pires repleto de azeite de oliva misturado a sal grosso e mel, um pote de água que diariamente derramava seu líquido em uma específica planta de Arruda (Ruta graveolens), trocando a água do recipiente todas as manhãs, além de oferendas de flores silvestres, como: Cenoura-brava (Daucus carota subsp. Maximus); Centaurea Nigra (Centaurea nigra subsp. rivularis); flor Leopardo (Belamcanda chinensis); flor de Laranjeira (Citrus × sinensis); flores de Onze-horas (Portulaca grandiflora) e Calêndulas (Calendula officinalis). Tudo isso para se manter em conexão permanente com o espírito de sua querida bisavó. Sendo esta, em vida, sua sacerdotisa. E em morte carnal sua guia espiritual. Pelo que lhe prometera em vida terrena, que ao desencarnar nunca o abandonaria e o vigiaria de cima. Dando-lhe inúmeros conselhos e severas instruções ritualísticas de como manter o contato espiritual com sua alma e coração depois de sua partida.
    Para a Bruxa da Arruda, sua bisa, tudo era Sagrado…
    E do Sagrado… e unicamente, pertencendo ao Sagrado!
    Tudo era vivo! E tinha em si um grande e puro significado.
    Tudo era mágico!
    Tudo era místico!
    Tudo era encantado!
    Tudo era rico!
    Sua constante alegria não se baseava em emotivos momentos.
    Era como o constante balançar das árvores que bailavam se animando, apenas, com o tocar dos ventos.
    O seu grande sorriso em sua face iluminada, transmitia a qualquer um que olhava um manancial inesgotável de pleno contentamento.
    As pessoas que iam ao seu encontro de amor se preenchiam, automaticamente renovando esse sublime sentimento.
    Sua bisa lhe dizia que o Sagrado é um estado a ser sustentado constantemente. Um estado de bons hábitos e boas disciplinas que você mesmo se coloca a praticar. Um estado de Amor, de estar amando e de se sentir amado a toda hora e em todo momento, independente das circunstâncias, posses, pessoas, relacionamentos e virtudes materiais ou espirituais. Um estado de simplicidade e humildade, e cumplicidade no serviço devocional, na prática da caridade e solidariedade. Vivendo em perfeita gratidão e sendo gentil não só com as pessoas, mas a tudo em que os nossos sentidos intentar, aplicar e perceber. Lhe dizia que o segredo para vivenciar o Sagrado na prática, estava na gratidão e valorização da vida em todas as suas formas, não diferenciando uma pepita de ouro de uma simples pedra do rio, um ser-humano de uma formiga, a mais iluminada estrela do céu noturno de um singelo grão de areia das praias do mar. E essa valorização é ver a beleza oculta no amago de todas as coisas, sua Energia Divina e Intenção Criativa. Dizia-lhe que para realização de tal feito era preciso se livrar das amarras da má educação de si mesmo, que degenerou os nossos sentidos na elaboração de conceitos e preconceitos, a partir das inúmeras errôneas percepções externas a nossa Linhagem Sagrada, deteriorando e adulterando o nosso pensar, o nosso sentir, o nosso olhar, o nosso ouvir e o nosso falar. E explicou-lhe, que devido a tudo isso, o porquê das manifestações artísticas, arquitetônicas, filosóficas e religiosas de hoje estarem tão feias, rudes, cinzentas, frias, quadradas, embaraçadas e amontoadas, repetitivas e sem coração.
    D. Darluz dizia que por nos desconectarmos das sabedorias dos nossos ancestrais, o nosso sentido do novo e a capacidade do espanto e da novidade assombrosa de olhar tudo de maneira nova, no sublime estado de encantamento e percepção de alerta alegria, se perdeu no mundo. Dizia que o mal das futuras gerações estava na comparação e associação de capturar as impressões, sem a capacidade madura de traduzi-las, sendo essa maneira uma errônea tentativa de interpretar o novo sem a compreensão do velho, desassociando as consequências presentes e futuras das ações passadas. Daí, como ensinava a Bruxa da Arruda, eis a importância de se cultuar os antepassados, pois, uma árvore não pode florir e gerar bons frutos sem o bom cuidado para com suas raízes.
    Voltando ao momento presente, e na cama em que se encontrava sentado, vira como era difícil traduzir a vivência de infância que tivera com sua bisa para o moderno, virtual, tecnológico e competitivo dias de hoje. Sabia que as redes sociais virtuais, ao contrário do que se pensava, alimentava mais as más ações do ego do que o conhecimento (pelo qual era a sua proposta inicial). E que esse contato virtual se tornou uma máquina alimentadora dos nossos mais animalescos instintos, provocando mediante as imagens, sons, cores e palavras as mais variadas sensações emocionais para a satisfação dos nossos mais carnais e individuais desejos de ter ou ser. Não medindo as consequências de um super ego (‘eu’ pluralizado), que busca sempre aquelas ilusórias sensações que lhe possam dar a tão almejada satisfação momentânea, em uma falsa privacidade de no ato de estar solitário cometermos as maiores torpezas, em que julgamos erroneamente não impactar o nosso mundo externo. Vira que a internet, ao contrário do que fora a sua proposta de unir as pessoas, se tornou um luxurioso baile de máscaras, em que as redes sociais eram essas enfeitadas e coloridas máscaras.
    Assim, contudo, preferia estar no seu jardim. Na companhia das lembranças de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Que o lembrava que o mundo ainda era envolvido por uma aura de Novidade Mística, Alegria Mágica e Amor Divino. E que só poderia vivenciar o Sagrado da Vida observando, compactuando, comungando e se relacionando com o Mundo Natural em toda sua essência ecológica. O seu pequeno jardim era totalmente dedicado ao Sagrado e a memória de sua bisavó. Ali… dedicando-se a colocar as mãos e os joelhos na terra, se sentia uma Pessoa Superior em toda sua humildade, dividindo-se entre o observador e o observado, conhecendo a si mesmo na observação dos pequenos seres vegetais, minerais e animais. Se perdendo em um mundo desconhecido de encanto e nostalgia, que o elevava e fazia distante das miseráveis catastróficas vivências de traumas e barbaridades da bestialidade e ignorância humana.
    Ao regar suas plantas em pleno final de tarde, se via quando pequeno sentado no colo de sua bisa em uma balança pendurada a um tronco da árvore de Tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), em que juntos no crepúsculo vespertino se divertiam olhando as inúmeras nuvens no céu a tomar formas inusitadas de rostos, silhuetas, animais e objetos. E sua bisa, também, instigava a sua imaginação a ver essas formas nas plantas, flores, objetos e coisas. Dizendo que as mensagens dos seres naturais (Elementais) vêm a nós nas formas que a nossa consciência pode reconhecer, por eles falarem uma linguagem desconhecida aos nossos sentidos e dimensão.
    E, lembrou-se das manhãs ensolaradas ao correr pelo terreno da Chácara Celeste (que na verdade era um pedaço do céu na terra) logo ao acordar, indo de encontro a sua querida bisa nos campos abertos, vendo-a colher flores para o seu ritualístico culto matinal. E chegando ofegante até ela, gritava: “Bisaaaaa!”. E D. Darluz respondia com a mesma intensidade: “Meu Miúdo!”. E ela o carregando, abraçava forte e o cobria de beijos, até ele dizer basta. E, D. Darluz lhe dizia: “Olha meu Miúdo, não existe nada neste mundo que é mais adorável que uma flor, nem nada mais essencial que uma árvore e planta, sem elas não conheceríamos o belo, não poderíamos respirar e nem comer, nem nos curar. E, ocultamente a esses benefícios que elas nos trazem ao nosso corpo de carne e seus sentidos, tem ainda a sua função mística, que é a mais relevante, algo divino em que as pessoas comuns e materialistas não têm a capacidade de ver. Uma força mágica e espiritual, eterna e imutável.”
    A Bruxa da Arruda sempre o alertara a valorizar todas as coisas… de uma simples pedra a um pequeno objeto. Como um brinquedo, um utensílio ou algo do tipo. Dizia que tudo tem um propósito e que nada é obra do acaso. Alertara que todas as coisas por serem criações foram pensadas e intencionadas a se manifestarem. Tudo tinha um espírito, mesmo as coisas inanimadas. Pois, sempre afirmará: “O que tem corpo, tem espírito. Tudo é vivo! Toda criação é fragmento do seu Criador, contendo em si uma determinada energia que por mais pequena e singular que seja, é viva em si mesma, presa e magneticamente sustentada nesse corpo, é consciente especificamente para executar tal função, e depois de executada por si só se decompõe e desaparece”. E afirmava que a evolução desses corpos inanimados tinha a ver com a evolução humana, de acordo com seu grau evolutivo. Assim, o inorgânico Elemental podia se manifestar numa pedra, numa mesa, em um relógio de pulso, nos objetos que mais amamos e desejamos, e ainda mais nos brinquedos das crianças, por serem carregados de sentimentos. E que por isso, para seus Rituais da Magia Elemental necessitava dos objetos e minerais… das pedras… das cascas de árvores… dos restos de corpos dos seres vivos e seus derivados, onde se continha ainda preservada a energia Elemental necessária para tal e específica magia.
    Assim, Maria da Piedade…, moradora e proprietária da Chácara Celeste, que se localizava em algum lugar escondido na região nordeste do Brasil…, a Bruxa da Arruda: agricultora, queijeira, azeiteira, parteira, rezadeira, curandeira, e feiticeira portuguesa…, de origem dos antigos povos celtas das terras europeias mediterrâneas da Península Ibérica…, apelidada como D. Darluz…, afirmava que quando nos damos conta da existência do Poder Criativo em tudo que existe ao nosso redor e no nosso viver, quando descobrimos que tudo tem coração e inteligência, que tudo é intenção, e que a toda intenção foi aplicada uma específica atenção, e que a tudo que damos atenção doamos uma determinada fração de nossa energia vital, que se torna um fragmento de vida em si, independente por si próprio e evolutiva em si mesma… Tudo se torna Divino! Tudo se torna Sagrado! A ordem da Grande Espiral do Eterno e Permanente Contínuo.
  • A caçada

    Libertar-me de minhas inerentes subjetividades em se narrando as seguintes ocorrências - não acontecimentos excepcionais, tenuamente trançados sob exacerbada e descoesa composição, todavia uma singela e, quiçá, efêmera continuidade psicologicamente indeduzível - caracterizar-se-ia qual jactancioso transcender de meus carnais fronteiriços. Verbetes estes intermitentes em significação, decifrá-los-ei: inumeráveis autores, subentendendo-lhes a disposição criativa, semimpulso hipocondríaco diante da envolvente sociedade, iludem-se em uma estilística imparcial avassaladoramente neutra; facetas carnavalescas. Basta a suas obras análise gentilmente abissal para a revelação de resquícios humano-pessoais. Perdoem-me, não negligenciarei tão profanamente minhas nuâncias substanciais, ainda que se miscigene o lírico e o eu, literariamente onipresente.
    As brisas invernais chicoteavam as melancólicas folhagens bosquis, embora os ares por debaixo do céu lúgubre permanecessem pérfidos e insalubres. Não citarei seu nome, pois este acessório em nada altera, em nada influencia o decurso deste relato; ele trafegava pelos limos à mira do urso. Ah! magníficas eras de outrora! quando os camponeses se banqueteavam em festejos desvairados (desconhecedores da miséria dos nossos camaradas, pobres-diabos, a definhar nas estufas das isbás, pois o médico distrital distancia-se verstas imensuráveis). Aglomeravam-se ao entorno da criatura, em mãos suas rurais ferramentas, enquanto se finalizava o ato com disparos de mosquetes. Contrastantemente, petrificaram-se os mínimos restantes em vilarejos invisíveis no horizonte agora de anil. Emurece aos homens a solidão, como forte marítimo exposto ao lépido resvalar das marés.
    Retardatário, pesa-me a primitiva mochila de combatente, forçando o bruxulear entre contemplações e reflexões. De flamejos infernais camuflam aos limpídos céus as baterias antiaéreas, e projéteis ecoam suas trajetórias em rugidos de iníqua sonoridade. A típica vegetação celta sucumbe a campos negros de guerra total em que depravados sanguinários de espreitas tiranias extirpam a própria Natureza por motivos de inaceitável ofensa à povo meu!
    “I..., levanta-te, homem! As armas, empunhe-as!”
    Sangue, em dedilhares, emana do hematoma, decorrência de meus caóticos espasmos de elucubração traumática. A serenidade do riacho à lateral impõe-lhe a estabilização, por mais te... Rugidos reverberam de uma próxima clareira: arrepiam-lhe os grisalhos filamentos. Pouco há para o defronte dentre a Bestialidade e a Razão(?).
    Solilóquios derradeiros cessam quando me ponho em fugaz avanço. As árvores aparentavam curvarem-se por sobre a subsequente cena: o “Paladino” confrontou olhares de mútuo e mudo ódio para com o volumoso urso negro. Engatilhando a baioneta, direcionei a mira óptica, raridade à época, para o sórdido fronte do animal. Não obstante, em terrificante desmoronar de meu estado espiritual, a sua feminina imagética dela perscruta abruptamente meu ser. A bala ricocheteia em fraguedo aos confins da Taiga, bastião do iminente falecer...
    A aproximação imediata de tal demônio animalesco acarreta horrores tortuosos na mais tocante realidade; perfurações tão abismáticas quanto os poços de Tufão no Tártaro e as cósmicas ramificações da Yggdrasil! Uma póstuma calmaria recai, acentuando provável efígie. Quais insólitas objetivações culminaram nesta fatalidade?! Não prevenção de ameaças rondantes, heroísmo altivo de iniciativa admirável ou nobre comprovação das intuições rupestres; no entanto, atitude insana e leviana, desprovida de causa! Repassares desordenados tumultuaram sua (minha?) mente, analogamente a tempestuosos e relampejantes climas. E estes se deslocavam em tal impercepção, ocasionada pela interiorização severa e a alienação dos sentidos, a limite de, em observação terciária, deduzir-se um louco. Um alquebrado. Um guerreiro em ferrugens...
    “A morte cai por terra diante desta luminescência angelical, I...!”
    Moribundo cativo de tormentos, trancafiado em pensamentos palpáveis! Debilmente a tatear as bétulas e os carvalhos, a minha respiração ofegante, em arfadas discrepantes da recente mística neblina, explicitava clamores de socorro. Deformações humanas principiaram por negrejar aos feixes do luar e aos reluzentes astros celestes, como se o ambiente noturno capacitasse-os a tais tramitares. Rifles polidos e uniformes padronizados emergem desses mórbidos circundantes a fim de engolfar-me, embora meus ridículos pinotes, na mais acachapante experiência destas córneas já antigas...
    “Ouve, levanta-te, homem! As armas, empunhe-as!”, bradou o comandante do batalhão. Resguardávamos uma posição defensiva na terra-de-ninguém, com a disposição de um batalhão de infantaria e, por detrás da trincheira, complementar contingente de artilharia (aqui, de que se validam minúcias técnicas de estratégia, logística e topografia? Não condiz a um humilde servil a opulência intelectual quando se aspira a esta por arrogantes e vis pretensões). A hedionda horda, crente em quimeras pagãs, transpõe as longínquas amuradas nebulosas.
    - O combate urge; não ambicionamos terra alheia, mas não cederemos um único centímetro daquilo que nos pertence! Que se aflore o ufanismo, ao invés de pleonasmo tautológico, lamúrias de um milhão de almas por retidão auspiciosa! Pelos nossos Povo e Pátria, até o inferno marcharíamos para subjugarmos o próprio Satã! - discursou nosso superior, de sabre desembainhado, em meio ao conflito babélico e os “hurras!” das tropas. Resultaram-se uma conquista de Pirro e desventuras de quase dramaturgia trágica. “A morte cai por terra diante desta luminescência angelical, I...!”, proclamou o meu mais perseverante companheiro, meu irmão, em seu depauperamento inevitável e definitivo... Oh! dores titânicas de latência atemporal, que nem palavras inibem!
    Trôpego, adentro os subterrâneos cavernosos de misticismo absoluto. As vozes do passado repercutem-se contraditoriamente, amolando e desgastando a lâmina de minha adaga, qual o Teseu e o Minotauro! O inconsciente abalroamento, certeza incomprovável, implica o famigerado duelo... Ele ausenta-se da entrada escarpada com as glórias de um caçador hábil e auferir a si mesmo. As preocupações lacerantes abandonam-lhe a consciência argentária, enquanto se aparta do bosque em tão fascinante. Faces desfiguradas desfizeram-se em meio a remota névoa de feridas recém-cicatrizadas.
    E ainda que me amartelarem as angústias de sofrimentos valetudinários, boas venturanças suscitam-me a credulidade. “Ivan!”, sim, ela, amiúde, aguarda-mo incansavelmente. Apetece-me o peito inflamado e o desvanecimento subsequente: branca como a neve de invernadas natalinas, os cabelos castanhos mimoseiam-lhe suas feições delicadas, suas mãozinhas de seda e o desabrochar de um tímido sorriso.  Constatações em inexistência de contato considerá-la-iam comum e simplória. Outrossim, pressentem as filantropas paixões os charmes incontornáveis, testemunhados nas mais corriqueiras e fúteis ações. Oh! amor intraduzível e inefável! parto eternamente destas planícies de relva jovial para as imperiais convocações. Vou-me à guerra, estandarte da irracionalidade humana, malquistado entre a ficção e o regozijo nacionalista. Em dificílima delimitação conclusiva, por intrépido que seja, meu coração retumba pelos meus irmãos de sangue, minhas preciosidades naturais, e ela, minha pequena beija-flor, cujo nome, por éons imemoriais, relembrarei com inesgotável ternura...
  • À CAPELA

    Sou aquela sola a qual nunca se acaba,

    a que continua viva e jogada às traças

    dos escanteios empoeirados da casa.

    Me estico no varal das línguas afiadas,


    sob os pisantes dos donos das cocadas,

    na rabeira do pernil sem nem uma prata.

    Estou aqui no pátio desta selva armada

    encoberto pelo caráter aleatório que falha


    feito papel de bala chupada. A dose derramada

    de cachaça do poeta que não serve para nada.


    Escoro a draga do mundo sobre um verso tosco

    e blefo neste sonho vivo, mesmo já estando morto.

  • A casa de trás

    Estrada para a Praia da Solidão, onde os pais do Gabi têm uma casa de veraneio. É a minha primeira viagem com meu novo namorado e, pelo que dizem, a tal “casa de praia” está mais para “palácio real de verão”. Sim, o cara é de família rica, mas antes que me julguem uma interesseira ou algo assim, eu explico: nós mantivemos uma amizade virtual por mais de um ano, antes de nos conhecermos pessoalmente. Fui saber que a família dele era abastada só depois do nosso segundo encontro, afinal ele não é daquele tipo que gosta de ostentar. É rico, porém simples, porque sempre teve grana. Minha mãe diz que ostentação é coisa de “novo rico” e, nesse caso, ela tem razão.
    Então aqui estamos nós, dentro do carro, em direção à praia, onde meus novos sogros estão nos esperando para me conhecer. Como é de meu costume em longas viagens, no meio do caminho eu apaguei. Só acordei com o Gabi me chamando, dizendo que tínhamos chegado e reclamando de ter virado alguma coisa na mochila dele.
    Os pais do Gabi já estavam aguardando nossa chegada e, assim que descemos do carro, eles vieram nos cumprimentar:
    - Você então é a famosa Lisa, hein? Estávamos ansiosos para te conhecer. Eu sou Cecília, a mãe do Gabi, mas pode me chamar de Ceci.
    - E eu sou o Antônio, o pai dele. É um prazer conhecer você, querida!
    - O prazer é todo meu, e agradeço pelo convite.
    Dados os cumprimentos formais, fomos em direção a casa. Realmente, era incrível: à beira-mar, dois andares, janelas de vidro enormes, varanda maior ainda, com uma rede bem convidativa. A suíte dos meus sogros tem uma sacada com vista linda para o horizonte.
    Como se trata de um balneário afastado da cidade, a Praia da Solidão é um lugar tranquilo e vazio, fazendo jus ao nome. Contei apenas quatro casas ao redor: a que estávamos e mais três, duas a leste e uma a oeste; mas sei que existe outra, localizada no terreno de trás da casa deles, cujos proprietários são amigos da família. Parece que ninguém aparece por ali há dois anos, com exceção de um caseiro que vai a cada quinze dias. Depois da morte da Rafaela, filha caçula dos donos da casa, os parentes não colocaram mais os pés por lá. A pobre menina morreu afogada aos oito anos, naquela praia. Uma tragédia total, que desestabilizou a família toda.
    Eu e Gabi largamos nossas coisas e fomos dar uma volta antes da hora do almoço. Ele queria me mostrar a parte de trás da casa, onde fica a piscina e o pergolado. Deitamos nas espreguiçadeiras e deixamos a energia do sol tomar conta do momento. Era um lindo dia de primavera e estávamos muito felizes por aquele fim de semana juntos. De olhos fechados e mãos dadas, ficamos curtindo aquela brisa maravilhosa e o cheiro de maresia que invadia o ambiente. Foi quando escutamos um barulho e, agora de olhos abertos, percebemos uma movimentação na casa de trás.
    - Deve ser o Chico, o caseiro.
    - Não é não Gabi, parece uma mulher, está até com uniforme de empregada doméstica, olha...
    E era mesmo uma mulher. O Gabi a reconheceu: era a Rose, empregada da família dos vizinhos da casa abandonada. Ele levantou para cumprimenta-la, aproximando-se do muro que dividia as duas residências e, ao chamar por Rose, ela olhou rapidamente para nós e disse:
    - Se afastem. Pelo bem de vocês.
    O Gabi achou a reação da mulher muito estranha, afinal ele me contou que ela sempre foi um amor de pessoa, simpática e prestativa, mas, enfim, todo mundo tem seus dias difíceis, né? Logo nos esquecemos da situação, pois já estava na hora do almoço e voltamos para casa. Só lembramos um tempo depois, na conversa do fim da tarde, quando contamos para a Ceci sobre o ocorrido e ela, surpresa, respondeu:
    - Que estranho, porque ninguém está lá. Eu achei que, depois da morte da Rafinha, a Rose havia até se demitido. Era ela quem estava cuidando da menina quando tudo aconteceu e, pelo que os vizinhos me contaram, a coitada da empregada se culpou muito.
    A noite chegou. Depois de um lindo passeio pela praia, eu e Gabi decidimos ir novamente para as espreguiçadeiras. Era nosso primeiro momento realmente a sós desde a nossa chegada, visto que o passeio de antes do almoço foi curto... E um tanto quanto perturbador. Deitamos juntinhos em uma espreguiçadeira e começamos a nos beijar. Foi quando uma luz muito forte nos atingiu, tipo um holofote, vindo da casa de trás.
    - Mas então tem alguém ali! Disse o Gabi.
    - Não vai lá não, pois pelo jeito, nós não somos bem-vindos! Respondi.
    Não adiantou eu advertir. Terminei de falar e ele já estava pulando o muro. Fiquei preocupada e segui em sua direção. Ao invadir a casa vizinha, algo muito estranho aconteceu: o pátio da casa - que conseguíamos ver um bom pedaço da sacada do nosso quarto – parece que havia mudado: era mais estreito, de pedra cinza claro e levava a uma escadaria que, ao topo, tinha uma casinha pequena, tipo uma guarita, com uma cruz no telhado. Se não estivéssemos em uma casa de praia, até poderia definir aquilo como um jazigo, ou algo do tipo.
    Decidimos subir as escadas, pois, se algo incomum acontecia por ali, Rose podia estar correndo perigo. O estranho é que, quanto mais subíamos, mais longe da chegada parecia que estávamos. A escuridão tomava conta do local, depois que aquela luz forte se apagou, e contávamos somente com as luzes dos nossos celulares. Confesso que a partir desse momento, comecei a me assustar.
    Um pouco antes de chegarmos ao topo da escada, aquela luz misteriosa acendeu e apagou novamente, olhamos para trás e vimos Rose à distância, no pátio da misteriosa casa, olhando em nossa direção, séria e... Molhada? Sim, era o que parecia. Rose estava encharcada.
    - Quer descer? Perguntou Gabi.
    - Não, agora vamos até o fim. Respondi.
    Ao seguirmos para o fim da subida, percebemos um vulto na janelinha da casa-jazigo. Subimos os últimos lances mais rapidamente e foi nesse momento que escutamos uma voz de criança chorando, dizendo:
    - Foi ela, Rose me matou!
    Mesmo assustados – e ambos ouvindo aquele estranho apelo infantil – forçamos a porta da casinha, para verificar o que tinha ali. Estava emperrada, porém, juntos, fizemos força e conseguimos abrir.
    Se lá fora estava escuro, a escuridão era ainda maior no interior da casinha. O estranho é que, do lado de fora, conseguíamos ver pela janelinha onde o vulto apareceu. Agora no interior, parecia que não tinha mais janelas. Novamente, a voz falou:
    - Ela me matou.
    - Ela me afogou.
    - A minha hora chegou.
    - Agora é a hora de vocês.
    Assustados, nos direcionamos à porta para sair dali. A porta também havia sumido. Com a luz do celular, procuramos desesperadamente a saída. A voz ficou mais alta, porém menos infantil.
    - Ela me matou.
    - Ela me afogou.
    - A minha hora chegou.
    - Agora é a hora de vocês.
    Mesmo tateando todos os locais, não encontrávamos a saída.
    - Ela me matou.
    - Ela me afogou.
    - A minha hora chegou.
    - Agora é a hora de vocês.
    Sem sinal para ligar ou avisar alguém pelo celular, começamos a gritar por socorro. O pavor tomou conta de mim.
    - Socorro, alguém nos ajuda!
    - Não adianta gritar, desgraçados, vocês são meus agora!
    - SOCORROOOOOOOOO...
    - Acorda gata, chegamos! Essa é a casa de praia dos meus pais!
    - Gabi, GABI! Ah, meu Deus, eu tive um sonho tão horroroso...
    - Ah não, minha loção pós-barba virou toda dentro da mochila, olha!
    - Eh, Gabi...
    - Espera aí, amor, olha aqui, sujou até meu notebook!
    - Você então é a famosa Lisa, hein? Estávamos ansiosos para te conhecer. Eu sou...
    - Cecília, mas eu posso chamar a senhora de Ceci. E o senhor é o Antônio, não é?
    - É... Isso mesmo querida, mas...
    Olhei em volta, e a casa era a mesma do meu pesadelo: à beira-mar, dois andares, janelas grandes, varanda enorme, rede e a sacada da suíte com vista linda para o horizonte.
    - Gabi, amor, precisamos ir embora. AGORA!
    FIM
  • A conta

    Eu estou morrendo. Sei que todo mundo está, mas eu tenho enfisema pulmonar. Não consigo mais fumar e minha vida é um inferno por causa disso. Tenho que passar o dia na cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo. Nunca me importei muito com como seriam esses tempos, mas sabia que eles iam chegar. Você desenvolve uma certa consciência depois de passar 30 anos fumando dois maços de cigarro por dia. Sabia o que ia acontecer. Assim como quando aceitei ser governador, sabia no que estava me envolvendo. Quando disputei minha primeira eleição para vereador era porque eu queria me envolver. Não é só fazer política ou filantropia, é um estilo de vida. Tem haver com manter tudo como esta: bom para todo mundo. Nem de longe imaginei que as coisas poderiam se desenvolver desta forma. O que você tem que entender é que sempre fiz o que achei que era certo para manter o nosso estilo de vida. Eu tenho esposa, filhos, netas. Sempre achei que quando este dia chegasse seria o fim de um outro começo. Sei que isso não me absolve dos meus pecados, mas eu estou morrendo de enfisema pulmonar. E todo mundo que esta morrendo merece alguma compaixão. Porque todo mundo fez alguma coisa de bom para alguém um dia no vida, e quando se esta numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, é isso que tem que ser lembrado.

    Quando vi a Fernanda pela primeira vez ela estava começando o estágio na Assembleia Legislativa. Era uma jovem estudante de direito, linda. Os longos, e encaracolados, cabelos morenos, o olhar penetrante, as coxas grossas. O conjunto da obra era hipnotizador. Ninguém conseguia resistir aos seus encantos. Admito que quando convidei ela para assumir um cargo em meu gabinete eu já tinha tudo planejado. Sempre fui daqueles que não faz nada sem ter pensado em tudo. Ela não era a primeira, nem eu. Todo mundo faz assim. Acontece. Eu tenho esposa, filhos, netas. Quando ela aceitou o cargo ela sabia o que estava fazendo. Porque o cargo também incluía um apartamento no centro, com cartão de crédito e carro na garagem. Então, se você aceita tudo isso, você sabe que seu trabalho não será exatamente no escritório. E durante dois anos tudo foi uma maravilha. Nós nos víamos de duas a três vezes por semana. A vida pública exige que algumas coisas sejam realmente privadas. Eu não ia no apartamento dela para não ser visto. Nunca éramos vistos juntos. Se você usa uma aliança no dedo anelar esquerdo, e ocupa um cargo público, você não quer que as pessoas te vejam fazendo o que elas fazem. Elas votam em você exatamente porque elas acham que você não faz como elas fazem. Elas votam em você para poderem continuar fazendo o que elas acham que só elas fazem. Se todo mundo soubesse o que todo mundo fez e faz, o que seria desse mundo? E agora, que estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, agora isso vai ser importante?

    O que você tem que entender é que jamais imaginei que aquilo ia terminar como terminou. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não teria feito o que fiz se não julgasse que havia extrema necessidade. Era muita coisa que estava em jogo. Todos os meus grandes feitos não podem ser ignorados por um incidente. Eu também construí escolas, creches, hospitais. Toda uma história não pode ser questionada por causa de uma estagiária num momento de devaneio. Não é porque estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo, que estou contando tudo isso. É porque a imprensa vai fazer um escarcéu, vai supervalorizar tudo. Eu tenho esposa, filhos, netas. Não vão respeitar elas e elas não merecem isso. Não estou aqui pedindo absolvição, é só que vejam que fiz o que fiz porque precisava manter outras coisas, que eram boas para todos. Pode não ter sido a melhor escolha, mas era a única que eu tinha. Quando ela apareceu grávida, na casa da minha família, vociferando que eu era um monstro, ela mesmo não deu valor a tudo isso. Em tudo que eu representava, em tudo que eu era. Ela não me deu opções. A questão não é quem é a vítima, é como se reage as coisas. Ninguém é santo. O mundo é muito maior que uma pessoa só, e exitem os seus problemas e os do mundo, e perto dos do mundo, o seu sempre vai ser pequeno. Uma coisa que pode parecer pequena para você, pode ser grande para o mundo. Não era só a minha honra que ia ser atingida, era a honra de todo mundo.

    Quero deixar claro que antes de matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, tentei todos os outros meios ao meu alcance para evitar que as coisas terminassem dessa forma lastimável. Não foi fácil fazer o que fiz. Eu não queria. Eu chorei, pedi, implorei. Mas ela tinha vídeos, fotos, conversas. Eu poderia ter dado tudo que ela jamais imaginou ter. Hoje ela poderia estar vivendo bem em qualquer lugar que quisesse. Tentei garantir, com todas as palavras possíveis, que ela e a criança jamais passariam nenhum tipo de necessidade. Muito ao contrário, viveriam sem nunca terem que se preocupar com dinheiro. Teriam até direito a herança. Eu reconheceria o filho quando deixasse a vida pública. Mas ela queria causar um escândalo. Queria usar uma criança para acabar com tudo. O que ela queria era ver tudo que eu tinha construído destruído. Eu fiz o que qualquer um no meu lugar faria. Eu tive que matar ela asfixiada, e incinerar o corpo numa pilha de pneus, para garantir que tudo continuasse como estava, porque estava bom para todo mundo. Eu tenho esposa, filhos, netas, e estou numa cama, ligado à respiradores e monitores, morrendo.
  • A cusparada

    O fato abominável deu-se aproximadamente às três e quarenta de cinco da tarde, numa quarta-feira. Uma instituição de ensino tão distinta como era a Escola Municipal Casimiro de Abreu, no Mendanha, Rio de Janeiro, viu sua honra ameaçada quando, após o recreio, um aluno traquinas cuspiu num degrau da escadaria, enquanto subia para a sala de aula, no segundo andar. Eu tinha, então, onze anos, e, até hoje, aquele dia não me sai da lembrança, pois, nessa idade, fatos escabrosos assim criam marcas indeléveis na nossa mente.
    Passaram-se alguns minutos desde que nos assentamos em nossas carteiras, e o professor não apareceu. Esperamos por mais um bom tempo, e nada. De repente, desponta sala adentro, não o professor, mas o diretor da escola. Estacou-se, sério e mudo, diante da turma.
    - Alguém cuspiu na escadaria - disse ele, fazendo uma varredura com um olhar rasante por sobre as cabeças dos alunos.
    O silêncio era total nesse momento e, se não exagero, paramos também de respirar.
    - Vamos! Estou esperando! Qual foi o engraçadinho?
    A classe permaneceu tão interativa quanto um exército de cera.
    - Já sabemos que foi alguém desta sala. Não adianta esconder! - o diretor começou a andar de um extremo ao outro da sala a passos largos, as mãos às costas, e eu me lembrei de uma figura de Hitler que tinha visto há poucos dias numa Enciclopédia Juvenil.
    Era a penúltima aula do dia, e ficamos até o final desta sem olhar para outro lugar senão para o ir e vir do diretor. Tocou a sirene para iniciar-se a última aula. Atravessamos estoicamente mais cinquenta minutos, e o culpado manteve-se no firme propósito de não abrir o bico. Depois dos tediosos minutos de mutismo e indiferença de nossa parte, ouvimos a sirene soar pela última vez. Que alívio!
    - Ninguém sai! - vociferou o diretor, estendendo os braços, com as palmas postas à frente, frustrando, desse modo, o levantar precipitado das trinta e quatro nádegas que se desprendiam das cadeiras. - Sentados! Onde pensam que vão? Todos comigo para a minha sala lá embaixo, e já!
    A agonia continuou na sala do diretor. Ele assentado em sua cadeira majestosa, as unhas vergadas a capirotar no tampo oco de madeira da mesa, sem falar um “a”, e, nós, mumificados.
    - É muito simples pôr um fim a este martírio. Basta que o culpado apareça - apelou o diretor, a certo ponto da tortura, em que ele próprio parecia não mais aguentar.
    Passou-se o tempo equivalente a mais um período de aula quando, finalmente, assistimos à cena constrangedora de um menino levantar-se e confessar:
    - Foi eu... senhor diretor...
    E, assim, foi o fim do holocausto.
    “Esse cara tá morto”, pensei. E deve ter sido esse o pensamento de todos ali.
    Sem permitir que saíssemos ainda, o diretor chamou o réu confesso à sua mesa e o advertiu de uma forma surpreendente:
    - Cuspir na escadaria é contra as normas da casa. Você sabe disso, não sabe?
    O menino estava com a cabeça mergulhada entre as clavículas e a voz bloqueada na garganta.
    - Sabe ou não sabe?
    - Sim... eu... sim, senhor diretor.
    - Você cometeu um erro, certo? Reconhece, diante da turma, que cometeu um erro? Diga que reconhece!
    - Sim... eu reconheço, senhor diretor.
    - Pois bem, filho. Espero que nunca mais repita esse ato deplorável. Não quer passar por essa vergonha de novo, quer?
    O menino meneou a cabeça negativamente.
    - Aprenda: Daqui em diante você observará melhor sua conduta na escola. E é muito feio não assumir quando se comete um erro. Errar é natural do ser humano, mas não assumi-lo é covardia, é desonroso. E veja que prejuízo pode causar: se você tivesse se levantado e assumido a culpa na primeira vez que perguntei, todos os seus colegas já estariam em casa há muito tempo. Nunca mais faça isso de novo, nunca mais! Agora, podem sair.
    Anos se passaram e, não mais como aluno, mas como professor, e não mais no Rio de Janeiro, mas em Espera Feliz, Minas Gerais, entrava eu na sala dos professores do colégio em que lecionava, e deparei-me com uma professora, colega de trabalho, que acabava de chegar esbaforida, tensa, com uma cara vermelha de quem comeu meia dúzia de acarajés quentes. Perguntei-lhe o que havia acontecido, e ela me respondeu com os olhos arregalados de espanto:
    - Meu Deus do céu... aconteceu uma coisa absurda comigo agorinha mesmo na sala de aula onde eu estava. Sabe o Michael Jackson, aquele garoto de dezoito anos do 3º 2? Pois então, abaixei-me um pouco sobre a carteira dele para lhe chamar a atenção por ter xingado o colega ao lado de “filho da puta”, e ele cuspiu na minha cara! Você acredita que ele teve essa petulância?
    A professora, aviltada até os ossos, não conseguiu entrar naquela sala novamente naquele dia, tomou um Rivotril, passou o caso à Direção da escola e foi embora de ônibus, pois não estava em condição de dirigir. E o que fez a diretora? Aplicou um corretivo no cuspidor? Enquadrou-o no Artigo 331 do Código Penal, que prevê punição para quem ofende, humilha ou espezinha funcionário público no exercício da função? Chamou o meliante para uma lição de moral, assim como fizera o saudoso diretor da Casimiro de Abreu, nos idos de 1981? Dera-se pelo menos ao trabalho de conversar qualquer coisa com o rapaz, qualquer coisa mesmo: uma miudeza de duas ou três palavras de protesto, só para não deixar que ficasse tão evidente a verdade de que ela estava pouco se lixando para o caso? Não. Em vez disso, a professora recebeu uma intimação judicial 20 dias depois, para comparecer ao Fórum 30 dias depois, sendo condenada a três meses de prestação de serviços comunitários por 180 dias depois, e, porque o juiz julgou como bem grave a denúncia que Michael Jackson apresentou contra a professora, dizendo que ela havia sido preconceituosa e o constrangera muito ao dizer que a saliva dele era suja - ora, onde já se viu, só porque ele era “preto”? -, teve seu diploma cassado 181 dias depois
  • A Despedida

    Olha demoradamente para meu corpo,que já sem vida descansa neste gelado caixão.
    Perceba o angustiante silêncio desta fúnebre capela,totalmente vazia.
    Estás agora completamente sozinha,nem eu contigo mais estou.
    Mas onde estão aqueles que em momentos festivos brindavam e sorriam ao seu lado?
    Onde estão aqueles,aos quais tu defendia tão fervorosamente quando por mim
    eram criticados?
    Onde esta o ombro amigo para consolar-te neste momento de infortúnio?
    Todos se foram!
    Apenas meu cadáver,inerte,continua a teu lado.
    Se lágrimas caírem em tua face,certamente não será pela perda,
    mas pelo desolador sentimento de abandono.
    Nesta congelante noite de inverno,despede-te daquele
    que em sentimento já deixaste a muito tempo. 
    Parece-me que a vida imita a morte,
    pois estivemos sempre sós 
    mesmo quando rodeados por muitos.
    Nossa soturna solidão era de mágoa,dor.
    Se o ambiente lúgubre deste local causar-te arrepios,
    e sentir-te envolvida em um sufocante desespero...
    Acostume-se...
    Pois toda minha vida ao teu lado foi assim!
  • A escolha

    1
    Jeff morava sozinho, gostava de sua privacidade. Deixara seus pais no interior há muitos anos e fora para a cidade grande estudar e testar sua sorte. Era um belo rapaz de cabelos loiros, muito inteligente e dedicado, que encontrou o amor em Barbara, amiga de infância, cinco anos mais nova, com quem sempre dividiu todos os seus momentos preciosos e queridos.
    Barbara ainda morava com os pais, que se mudaram para a mesma cidade de Jeff, três anos depois dele. Foi uma benção para aquele rapaz perdido, pôde retomar seu romance com seu eterno amor. Seus pais foram vizinhos por mais de 30 anos.
    - Oi amor, estou indo para sua casa sim, vou só acabar de limpar as coisas por aqui e pego meu carro.
    - Tudo bem, te espero amor. Meus pais não estão hoje, só que chegam da praia de madrugada. Sabe que, infelizmente, é melhor ir embora antes deles voltarem, não?
    - Claro. Adoro a Suzy e o Neil, mas acho que poderiam ficar sem gasolina ou algo do tipo e dizer que vão ficar mais um dia na praia, eles precisam relaxar mais – Diz ele rindo.
    - Não seja ruim, amor, eles vão trabalhar amanhã. Praticamente direto da praia. Acho que voltam de madrugada para nos dar tempo, mesmo dizendo que não podemos nos ver sem eles.
    - Tudo bem. Vou acabar as coisas aqui e logo menos estou por ai. Beijos meu amor.
    - Beijos, paixão.
    Jeff olhou à sua volta e viu a desgraça que era sua casa. A pia lotada de louça da semana inteira. O colchão não via uma roupa de cama desde a última vez que Barbara esteve lá (talvez por isso ela preferisse que os encontros fossem na casa dela, afinal, ela que teve que colocar aquela roupa), as contas vencendo, pois ele estava “entre empregos” havia dois anos, conseguindo só alguns bicos pequenos. A internet era a única conta que pagava no vencimento, o cabo ele conseguiu puxar do vizinho com ajuda de seu pai. Para as roupas sujas ele aguardava, ansiosamente, a próxima visita de sua mãe, ou um final de semana prolongado para ir visitá-la com sacos de suas vestimentas.
    Apesar da sujeira, era um bom apartamento, não muito grande, do tamanho ideal. Tinha apenas um quarto, com sua cama, uma escrivaninha e um armário fixo na parede. Um banheiro entre o quarto e a sala, sendo que este cômodo era pequeno, apenas com um sofá-cama e a televisão, com uma cozinha acoplada. Ele não precisava de muito mais do que isso, só que via nos olhos de Barbara que ela queria. E tinha certeza de que ela merecia.
    “Hoje vou arrumar tudo isso”
    O pensamento contagiou Jeff, inflando-o de energia. Tirou uma camiseta do chão (havia completado uma semana naquela mesma posição) e imaginou que poderia arrumar toda aquela casa antes de sair. Esse pensamento durou até o primeiro prato lavado.
    “Não tenho tempo para isso. A Barbara está me esperando, se não fosse por isso eu arrumaria tudo.” – sempre havia uma desculpa...
    Pegou seu carro ligou o som no máximo, seu celular mostraria o caminho (usava o aplicativo do celular principalmente para ver as câmeras de trânsito), colocou o cinto de segurança e dirigiu freneticamente ao som de Bitting Elbows, Limp Bizkit, Three Days Grace e qualquer outra banda barulhenta que lhe fizesse esquecer que não tinha um emprego digno, nem nada em sua vida que valesse a pena, a não ser o amor daquela garota encantadora.
    A rua Heitor Penteado tinha um trânsito intenso, como sempre pra aquele horário, e ele só pensava em acelerar, sua pressa era mais importante do que a de todos os outros. Recebeu uma mensagem de sua namorada “Estou te esperando” e, anexo, uma foto nua. E outra. E outra. Agora Jeff tinha pressa e um pau duro. Com aquele sangue a menos no cérebro, começou a fazer manobras mais arriscadas e atravessou um farol vermelho. Por sorte ninguém passou junto com ele.
    Quinze minutos depois chegou à casa de Barbara. Tocou a campainha e a porta se abriu. Subiu as escadas para aquela bela casa rosa de quintal vasto, em que passou tantos finais de semana felizes com aquela garota. Ela abriu a porta, vestia apenas uma calcinha. Não teve um “oi”, apenas um “uau” e transaram ali no sofá.
    Depois foram para o quarto, transaram mais duas vezes e pararam para se hidratar. Jeff não havia almoçado ainda, foi só quando pararam que a fome apertara. Ele sabia cozinhar, ela não. Então preparou um almoço para ambos. Nada muito rebuscado, apenas um macarrão rápido à bolonhesa, era o que tinha na dispensa da casa. Ficou excelente. Ela dizia que ele deveria ser Chef ou algo do tipo, ele dizia que as longas horas não compensavam e que cozinhava só por prazer, não queria que virasse um estresse.
    Conversaram sobre o trabalho dela, como ele subia na carreira e já falavam em outra promoção. Jeff tinha muito orgulho daquela garota e, às vezes, achava que ela era boa demais para ele. Talvez se não fossem vizinhos, com tanto tempo pela frente e sonhos infantis, ela nunca tivesse gostado dele. Isto não era verdade, embora ele tenha sido o primeiro namorado dela, ninguém nunca a tratou tão bem. Ele a mimava de uma maneira boa e a apoiava em todos os seus planos. Mudou-se para a cidade grande quando brigaram e terminaram, ele sentiu que não haveria mais nada para ele naquela cidadezinha. A verdade é que ele passou anos deprimido até tê-la de volta.
    Ela também ficou arrasada com o término, não soube lidar com ele, assim como ele não soube lidar com ela. Hoje, isso mudou e já não se preocupava com o fato dele nunca ter um emprego fixo. Não se importava se precisasse sustentar aquele homem, pois sabia que seu coração era puro e que só tinha amor por ela.
    2
    - Já é tarde amor, melhor ir embora antes que seus pais cheguem.
    - Queria que ficasse mais.
    - Não podemos deixá-los bravos, já faz algum tempo que eles não gostam tanto de mim. Vou melhorar, você vai ver. Conseguirei um emprego decente. Serei tudo aquilo que você merece.
    - Você já é, amor.
    Eles sorriram e se beijaram. Fizeram amor uma última vez no chuveiro, Jeff nunca se sentiu tão bem. Então, pegou seu carro.
    Não tinha pressa, sua casa não era tão longe, vinte minutos no trânsito da madrugada, eram 3h da manhã, os pais de Barbara deveriam chegar em uma hora mais ou menos. Conseguiu sair com tempo de sobra e não tinha nenhum bico para o dia seguinte. Talvez arrumasse a casa, talvez cumprisse suas promessas de ser uma pessoa melhor e mais esforçada...
    Não Jeff, você não iria fazer nenhuma dessas coisas.
    Todas as ruas estavam vazias sob a escuridão daquela noite, de poucas estrelas e sem luar. Aqueles momentos agradavam o sonolento Jeff. Como sempre, seu som tocava alto, desta vez era Moves Like Jagger.  Uma eterna ironia que as últimas palavras que ouviu em vida foram "I got the moves like Jagger".
    Em seu retorno, percorreu a Heitor Penteado, parou em todos os faróis e respeitava, razoavelmente, os limites de velocidade. Foi então que na altura do 1700, ouviu um estrondo, algo parecido com um tiro.
    Não teve muito tempo para uma reação, apenas olhou para o lado, com cara de susto, e viu uma Fiorino desgovernada. Seu pneu havia estourado. Aquela moça que corria na faixa contrária perdeu completamente o controle, atravessou para a faixa de Jeff e colidiram de frente. Tudo ficou branco na mente daquele rapaz. No impacto seu carro se contorceu o suficiente para espremer todos os ossos de seu motorista, muito além de qualquer reconhecimento. Os dois carros se mesclaram em um obra de arte urbana caótica, com líquidos negros, dourados e vermelhos escorrendo livremente. Não sobrou nada de Jeff para contar a história. Pelo menos, todos acharam que ele não sofreu.
    3
    Jeff acordou em um lugar apertado e escuro, um pouco maior que o interior de um armário. Não enxergava nada além de um totem com tela touch que dizia “Por favor, retire sua senha aqui”. Ele não entendia o que acontecia, lembrava apenas do barulho daquela batida e da dor de morrer. Mesmo que sentida apenas por um segundo, a dor de ter seu corpo esmagado por toneladas de aço retorcido fora excruciante. Decidiu apertar o botão “senha” no console. Conseguiu “M-14”.
    Quando retirou aquele pequeno pedaço de papel da máquina, viu a parede atrás dela se abrir, dando acesso a uma ampla sala de espera. Suas paredes eram todas brancas, a pintura parecia recente, contudo não havia cheiro de tinta. Observou em volta e não via quadros, nem janelas, reparou que o chão também era branco. Embora o piso fosse de azulejo, muito bem encerado e brilhante, a aderência era boa. O teto seguia a cor de todo o cômodo, com a limpeza impecável. Não era possível ver lâmpadas (então de onde vinha toda aquela iluminação?). Não lembrava de como chegara até ali. Não havia porta de entrada, não havia porta de saída. Apenas quatro paredes instransponíveis e o pequeno “armário” de que saíra não existia mais. Viu um pequeno monitor à sua frente rodando números e escrito “agora atendendo as senhas C-38, D-19, M-11, I-158, R-35”.
    Olhando ao seu redor, reparou cerca de 40 cadeiras. Eram pequenas e verde florescente. Imaginou que alguma pessoa mais gorda não poderia sentar ali, deu uma risadinha e sentou. Olhou no painel novamente, parece que o atendimento do número 11 não acabara. Novamente, olhou para os lados e não viu ninguém. A senha mudou para 12. Preferiu esperar. Como não tinha relógio imaginou que se passara cerca de 40 minutos até aquela senha mudar para 13.
    (Que porra está aconteceu?)
    Uma hora depois seu número foi chamado. E na parede à sua frente surgiu um corredor. Seu piso era negro e pegajoso. Decidiu que era a única saída dali e seguiu seu caminho. Ao final do corredor havia uma abertura à esquerda. Fez menção de virar e a abertura se fechou.
    - Desculpe o equívoco. – disse uma voz que parecia ter vindo de um auto falante inexistente.
    - O que?
    -...
    Não houve respostas, mas agora havia uma abertura à sua direita. Ali incontáveis cubículos cinzas se espalhavam pelo horizonte. Um barulho ensurdecedor de “Tec, tec, tec” assombrava aquele lugar. Um painel à sua frente dizia “Por favor, siga a faixa iluminada no chão”. Então, surgiu uma faixa amarela brilhante à sua frente. Jeff a seguiu, achou mais sensato apenas seguir as ordens naquele lugar. Não conseguia espiar dentro de nenhum cubículo, eles não tinham entrada ou saída. Tentou pular para vê-los de cima, apenas para ver tetos cinzas e baixo. Uma pessoa não poderia ficar de pé ali. Andou por 15 minutos, até que a faixa virou a direita. 50 metros depois virou a esquerda e o cubículo à frente tinha uma entrada e não tinha teto.
    - Seja bem-vindo, Jeff. Por favor, sente-se. – disse seu interlocutor com um sorriso amigável.
    Naquele cubículo havia uma mesa onde repousava uma máquina de escrever negra, brilhante, de aparência antiga, contudo, sua conservação era primorosa. O papel dela começava em uma pequena fissura no piso, seguia para dentro da máquina e terminava em outra fissura ao lado da primeira. Não parecia ter fim. As paredes do cubículo cinza, eram adornadas com fotos de 12 garotas diferentes, só que se vestiam de uma maneira peculiar, antiga, como Jeff vira em filmes de época, antes da primeira guerra mundial, tinha certeza, poderiam ter sido cortesãs da época. Aquele homem escrevia freneticamente na máquina, não parava mesmo enquanto conversava com Jeff.
    - Quem é você? Que lugar é esse?
    - A sim, você é novo. É sua primeira vez aqui, imagino. Sou conhecido como Jack e vamos direto ao ponto. Jeff, você está morto.
    - Imaginei. Eu lembro de morrer e sei que não foi um sonho.
    - Que bom, você é mais inteligente do que os outros. Podemos prosseguir mais rápido.
    Jeff se concentrou naquela figura pálida à sua frente. Usava um bigode curioso, claramente pertencia a outra época. Seu sotaque parecia britânico, não reconhecia se natural ou de alguém que morou muito tempo por lá. O cabelo era bem arrumado e suas feições positivas acabavam por ai. Vestia um terno surrado e gravata, que não escondiam sua magreza, era um sujeito claramente subnutrido (se estamos mortos, por que ele é assim?), sua postura torta, quase como um gancho. E o que viu de mais tenebroso foram aqueles longos dedos tortos, de uma cor negra intensa como se necrosados, sangrando perenemente na máquina de escrever.
    - Eu digito nessa máquina há mais de 100 anos. Por isso meus dedos ficaram assim. E eles doem, cada vez que movimento eles a dor é intensa e incessante.
    - Desculpe, eu não queria encarar.
    - Não se preocupe, eu faria a mesma coisa se visse essas coisas nojentas pela primeira vez. – ele não conseguiu segurar uma risada – eu apertaria sua mão, mas como pode ver, elas estão bem ocupadas e não tenho permissão para tirá-las daqui.
    - Permissão de quem?
    - Eu não sei. Apenas não consigo parar de digitar, imagino que tenha algo como permissão aqui.
    - Mas você não parece sentir dor.
    - Bom, antes de explicar isso, acho que preciso responder sua outra pergunta. Onde estamos. Este lugar, para mim, é o inferno. Quando morri, vim parar aqui onde fui desprovido de todo livre arbítrio. O que me mandam fazer eu faço, mandaram eu nunca expressar minha dor aos outros, então sigo a ordem, ou gritaria sem parar, acho que todos aqui gritariam, ai seria o inferno de todos, não apenas nosso. – ele riu novamente, agora de uma forma um tanto maníaca - Os sentimentos que não tinha em vida, como empatia, voltaram de forma acentuada. Vê essas garotas na parede? Eu matei todas elas e há mais de 100 anos. Observo essas fotos na minha frente e choro constantemente. Lembro de cada instante e de tudo que fiz com elas. Pobres garotas, não mereciam, não importa a profissão delas ou o que elas fazia da vida. Mary foi a primeira, ainda sinto a vida dela se esvaindo por minhas mãos e todo o resto que fiz depois, para meu deleite. Eu até ria enquanto fazia, tinha esse vazio em mim, sabe? E nunca fui pego por esses crimes.
    - Entendo – responde Jeff com uma expressão se assemelhando ao pavor.
     - O meu arrependimento é profundo e sincero, também não consigo mentir aqui, fui ordenado a nunca mentir, então só posso obedecer. Sei que pedir desculpas não vai me livrar deste inferno, sei que sofrerei por toda a eternidade. Imagine, usar essa máquina de escrever pesada, com teclas duras que não funcionam direito, atendendo pessoas que estragaram suas vidas de alguma forma e escrevendo suas histórias para sempre, sem descanso algum. Eu também sinto fome e sede o tempo inteiro, mas algo me faz atender todos de bom humor, foi outra ordem que recebi. De tempos em tempos trazem comida, uma vez por mês eu acho, a noção de tempo é confusa aqui. Jogam a comida no chão como se fossemos animais enjaulados ou algo do tipo. Não consigo me controlar e ataco aquele prato. Como tudo rápido demais, meu corpo não consegue processar a quantidade de comida tão rápido, então vomito logo em seguida. O pior é que ainda tenho essa fome incontrolável, então como o vômito do chão. O processo se repete uma segunda vez. Então, mandam eu ficar parado contra a parede e obedeço, ai eles limpam a sujeira. Sabe, eu sei o que fiz e sei que durante toda minha vida não me arrependi e sai impune. Não posso reclamar de minha punição agora, acho que ainda pegaram leve comigo. Nada de fogo e tridente aqui – diz Jack c com um riso histérico entre lágrimas.
    - Quer dizer que eu vim parar no inferno? Minha vida não foi tão ruim assim, sempre tentei fazer o bem aos outros.
    - E aquelas formigas que matou? Aquela barata que pisou para ajudar Barbara, acha que elas não contam? Aquele alface que comeu, afinal, plantas são seres vivos também. Quanto churrascos você já não foi?
    - Meu Deus! Mas todo mundo faz isso, eu nunca parei para pensar sobre esses insetos....
    - Calma, Jeff, estou brincando. Não estou nem ai para esses insetos ou o que você come. E acho que o pessoal lá de cima, ou de onde quer que façam as regras, também não ligam.
    Jeff riu de maneira nervosa. Não se sentia confortável ali e não queria ficar tão próximo de uma assassino em série.
    - Não, Jeff. Como lhe disse, é o MEU inferno, não o seu. Para você é apenas um local de instrução. Pense na sala que entrou quando saiu do quarto escuro. Aquela sala estava cheia, você não vê as almas, nós vemos. Ela está cheia. Na sua cadeira, por exemplo, haviam 5 pessoas sentadas. É uma cena curiosa, talvez um dia veja, se morrer e lhe for escolhido esse inferno. Acho que existem outros, não tenho muitas informações, ninguém conversa comigo, só as almas que atendo, os outros só dão ordens que não posso discutir, apenas acatar. Muitos também reencarnam, deve ser bonito ter uma vida nova sem se lembrar de nada. Eu só lido com esses dois tipos, os que reencarnam e os que precisam fazer uma escolha. Você, e lamento dizer isso, é do tipo que fará uma escolha. Mesmo assim eu queria muito o que você vai ter. Uma segunda chance. Digamos que é um teste. Faça direito, só terá uma chance.
    - Então qual a instrução? O que eu devo fazer? Qual a escolha que devo tomar?
    - Eu não sei. Isso só você pode saber. Algo causou a sua morte e você tem que mudar isso. Voltará para o seu dia, assim que acordar. Só que não se lembrará de nada do que aconteceu aqui, a não, isso é proibido, completamente proibido, ninguém pode se lembrar daqui. Se um dia voltar para o cubículo de Jack lembrará, antes não, você foi indicado ao Jack, Jack sempre te atendera...
    - Jack, você está divagando.
    - Desculpe, às vezes isso acontece comigo. – ele diz chacoalhando a cabeça - Tente digitar em uma máquina de escrever vendo fotos de garotas mortas por 100 anos e veja se não solta alguns parafusos também! – ele dá uma gargalhada histérica.
    Jeff ficou com medo de interrompê-lo. Não sabia o que poderia acontecer, então esperou a risada de seu novo colega medonho acabar.
    - Onde eu estava? A sim, você não lembrará de nada. Mas no seu íntimo terá um pressentimento incontrolável, ao qual não poderá negar. Isso vai acontecer no momento em que poderá mudar a sua história... para sempre, Jeff. Vai mudar para sempre e vai salvar a sua vida! Isso, salvará sua vida! A vida que você tinha será salva! E você só terá uma chance nova. Se cometer um erro voltará para cá mais rápido do que a primeira transa de um adolescente e não acho que irá embora. Se acertar, poderá viver uma vida longa, eu acho. Não tenho muita certeza se as regras são assim, mas imagino que esteja certo. É, talvez esteja certo. Tem que estar certo. Acho que é isso mesmo. Sim, é isso, essas são as regras. Só que posso ter errado alguma parte.
    - E você já viu muitas pessoas voltando?
    - A maioria volta, pode demorar, mas voltam. A maioria toma a decisão errada. Alguns tomam a decisão certa. Já vi dois que chegaram a reencarnar como prêmio. Foi divertido vê-los após a morte da reencarnação, eles lembram de tudo, já me chamam pelo nome. Eu gostaria de reencarnar e tentar de novo. Talvez me livrasse desse inferno. Será que um dia terei essa chance? Será que nesse inferno eu posso me redimir de alguma forma? Seria interessante, eu iria adorar, não iria matar mais. Não senhor, não, Jack não mataria mais uma formiga se tivesse uma segunda chan...
    - Pare de divagar e apenas instrua, número 587.476 – disse o auto falante inexistente
    - Verdade, eu tenho um número também. Às vezes esqueço isso. É tudo muito organizado por aqui.
    - Jack, foco! Por favor. O que eu preciso fazer agora?
    - A sim, claro. Você não lembrará de nada. Eu já disse isso não? Então tudo o que precisa fazer agora, é fechar os olhos... e acordar.
    4
    Jeff acordou com uma sensação estranha. Levantou da cama meio zonzo e cambaleou até o banheiro para escovar os dentes, já eram 11h da manhã. Quando saiu dali seu telefone tocou. Era Barbara.
    - Oi amor... – ele teve a sensação estranha de novo - poderíamos ficar aqui em casa hoje? Não estou me sentindo muito bem, acho melhor não dirigir hoje.
    - Tudo bem, estou indo pra ai daqui a pouco, amor. Meus pais não estão hoje, só que chegam da praia de madrugada. Sabe que preciso voltar para minha casa antes deles voltarem, não?
    - Claro. Adoro a Suzy e o Neil, mas acho que poderiam ficar sem gasolina ou algo do tipo e dizer que vão ficar mais um dia na praia, eles precisam relaxar mais – Diz ele rindo.
    - Não seja ruim, amor, eles vão trabalhar amanhã. Praticamente direto da praia. Acho que voltam de madrugada para nos dar tempo, mesmo dizendo que não.
    - Tudo bem. Vou acabar as coisas aqui, deixar tudo arrumadinho pois sei que prefere minha casa assim. Beijos meu amor.
    - Beijos, paixão.
    Jeff se esforçou para arrumar a casa. Depois do primeiro prato lavado teve preguiça do segundo. Lutou bravamente contra isso e em 20 minutos toda a louça brilhava. Recolheu a roupa suja do chão e só não a lavou porque não sabia como usar a máquina de lavar. Procurou um pouco na internet, só que achou melhor arrumar a cama (a Barbara pode me ajudar com isso depois, espero). Ele levou 1h30 para arrumar toda a casa e foi tomar banho. Sua namorada tinha a chave do apartamento e foi entrando. Viu Jeff saindo do banheiro de toalha enrolada na cintura.
    - Não achei que estaria vestindo tudo isso quando eu chegasse. – ela diz com olhar libidinoso.
    - Eu já falei que te amo hoje? – ele diz deixando a toalha cair.
    - Não sei, mas pode repetir.
    - Eu te amo Barbara, você é o melhor ser humano que já conheci neste mundo.
    - Também te amo. O que deu no seu humor hoje? Está tão romântico.
    - Não sei. Tenho a sensação de fazer a coisa certa, sabe? Estou feliz.
    - Então fique feliz, dentro de mim – disse ela empurrando-o contra a parede.
    Transaram ali mesmo, depois foram para o quarto e depois na pia, que não tinha nenhuma louça suja, enquanto preparavam o almoço tardio. Passaram o resto do dia assistindo televisão, conversando e transaram mais uma vez na sala.
    5
    Já era madrugada quando lembraram que Barbara precisava ir para casa.
    - Já é tarde amor, melhor ir embora antes que seus pais cheguem.
    - Queria ficar mais.
    - Não podemos deixá-los bravos, já faz algum tempo que eles não gostam muito de mim. Vou melhorar, você vai ver, vou conseguir um emprego decente. Serei tudo aquilo que você merece.
    - Você já é, amor.
    Eles sorriram e se beijaram. Fizeram amor uma última vez no chuveiro, Jeff imaginou que se sentira tão bem apenas uma outra vez, mas talvez em outra vida. Barbara pegou seu carro e foi embora. Não tinham pressa, ela saiu de lá às 3h da manhã e seus pais chegariam em casa dali uma hora ainda.
    Jeff sentiu-se pleno por ter arrumado a casa e pela mulher maravilhosa que tinha em sua vida. Decidiu que iria se exercitar regularmente, buscar um emprego de verdade. Não começaria a ser mais esforçado amanhã. Começaria hoje, agora.
    Antes de dormir decidiu ouvir uma música para relaxar, a rádio passava “Moves like Jagger”, era uma boa música, bem divertida, mas lhe trouxe algum pesar, não entendeu o porquê, também não entendeu porque não conseguia mudar de música. Mesmo assim, foi dormir feliz.
    Por volta das 4h30 da manhã recebeu uma ligação que o acordou. Era Suzy.
    - Jeff. Bateram no carro da Barbara. Ela estava na Heitor Penteado, na altura do 1.700. Ela voltava da sua casa. Não era? Parece que uma Fiorino vinha no sentido contrário, o pneu estourou e o rapaz que dirigia em alta velocidade perdeu o controle. A Barbara não sobreviveu. – sua voz falhou nesse final e foi possível ouvi-la chorar.
    O telefone desligou. Jeff ficou paralisado, sentado em sua cama quente e confortável, com o cobertor em cima de si. Imaginou aqueles últimos momentos que passaram juntos, todo o amor que sentiam. Como ela merecia mais do que aquilo, muito mais. Ela não podia morrer daquele jeito. Seu estado era de choque, até que finalmente balbuciou algumas palavras.
    - Deus, se pudesse fazer algo para mudar isso, eu faria....
    Colocou as mãos nos rosto e deitou chorando. Quando as retirou estava naquela sala de espera, vazia, sua senha era R-39.
    6
    - Jack, que porra!? Ela morreu, que merda que aconteceu?
    - Como acho incrível já me conhecerem na segunda visita – disse Jack com um sorriso sincero no rosto - A sim, eu esqueci de te avisar esse pequeno detalhe. Onde uma vida é recuperada, outra é perdida, nas mesmas condições. Eu tive uma alma de um homem que morreu com o pênis arrancado por um cachorro. Nunca descobri se a contraparte dele era uma mulher e como ela morreu, seria curioso. Mas ele nunca mais voltou aqui, então acho que ainda está vivo. Não sei quanto anos fazem que isso aconteceu.
    - Mas que merda de escolha é essa? Ou eu morro ou ela?
    - Agora você sabe as duas opções. Cabe a você escolher, sem se lembrar. Deve tomar a decisão agora e irá voltar uma última vez. Você pediu por isso, chorando em sua cama, Jeff. Agora decida. Deveria ter falado “por favor, Jack”, não ajudaria em nada, só que seria engraçado por aqui. Enfim, ou sua vida acaba, ou a dela. De uma forma ou de outra um dos dois irá morrer. A escolha é sua. De novo não irá se lembrar, mas seu pressentimento lhe guiará para a resposta que escolher.
    7
    - Oi amor, estou indo para sua casa sim...
  • A esquina e o fim

    [blitz]
    - Boa noite. Documentos do Senhor e do veículo, por favor.
    - Sim Senhor, aqui estão.
    - Da onde o Senhor está vindo e para onde vai?
    - Estou voltando do trabalho para casa.
    - O Senhor pode descer do veículo, por favor.
    - Claro, algum problema policial?
    - Estamos verificando. São só procedimentos de rotina. O Senhor está de posse de algo ilegal?
    - Não Senhor.
    - Então, por favor, retire tudo dos bolso e coloque em cima do capô.
    - O que está acontecendo aqui? Sou suspeito do que?
    - Não sabemos ainda Senhor, estamos averiguando, são só procedimentos de rotina. Coloque as mãos na cabeça e abra as pernas por favor?
    - Porque estou sendo revistado? Eu tenho direito de saber porque estou sendo revistado.
    - Atitude suspeita, Senhor.
    - E qual foi a minha atitude suspeita? Eu estava no limite da via, usava cinto de segurança, estava com as duas mãos ao volante, o que eu estava fazendo de suspeito?
    - Sua atitude era suspeita, Senhor. O que há no porta-malas do veículo?
    - Não sei, umas caixas, panos, estepe, coisas assim.
    - O Senhor não sabe o que carrega no porta-malas, Senhor? O Senhor pode abrir para mim, por favor?
    - Posso, o que o Senhor está procurando?
    - Ainda não sei, Senhor. O que há naquela maleta.
    - Somente alguns papéis.
    - O Senhor pode, por favor, abrir para mim ver?
    - Claro. Está vendo, papéis.
    - Sobre o que são esses papéis?
    - Planilhas, contas. Sou comerciante, são algumas coisas da empresa.
    - Examine estes documentos Segundo Sargento. Agora nós podemos ver o interior do veículo?
    - Como assim examine estes documentos? O Senhor não pode mexer nas minhas coisas assim.
    - Estou analisando os documentos que o Senhor me mostrou e que foram encontrados numa pasta no porta-malas do seu veículo. Aconselho que o Senhor se acalme e me mostre o interior do veículo.
    - Como assim se acalmar? O que está acontecendo aqui?
    - Se o Senhor tem algo à esconder aconselho que me conte agora, pois nós vamos achar.
    - Do que o Senhor está falando? Quer saber, a atitude do Senhor é que é suspeita. Que procedimentos de rotina são esses? Mas eu não tenho nada para esconder. O que o Senhor quer ver?
    - Abra o veículo, por favor?
    - Estes CDs no porta trecos são do Senhor?
    - É isso, sou culpado por comprar produtos piratas? Pode me prender.
    - Acalme-se Senhor.
    - As MP3 do pen drive também são piratas. Eu me entrego.
    - Irei confiscar esses itens. O Senhor pode abrir o porta-luvas, por favor.
    - (click)
    - O que são esses papéis?
    - A nota fiscal do carro, umas contas, não sei.
    - Posso ver essa nota fiscal?
    - Por que? Eu posso perguntar por que?
    - A sua atitude suspeita, e irônica, diz, segundo o manual, que o Senhor está tentando ocultar algum crime. Já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direitos autorais, agora estamos procurando quais outras lei o Senhor não respeita.
    - Eu não tive nenhuma atitude suspeita não. Isso é abuso de autoridade. O Senhor já me revistou, revistou meu carro, e não achou nenhuma evidência de nada suspeito. O Senhor está procurando pelo em ovo, isso que o Senhor está fazendo. Eu tenho meus direitos, e não tenho que te entregar a nota fiscal do meu carro.
    - Por favor Senhor, me respeite. Estou fazendo meu trabalho, que é combater o crime. Sua atitude é sim suspeita, e eu posso prendê-lo por desacato.
    - Olha, eu sou um cidadão de bem. Eu respeito a polícia, acho que o trabalho da polícia é desvalorizado. Mas eu não sou bandido.
    - Então me mostre isso, Senhor. Me entregue esta nota fiscal e me deixe fazer meu trabalho que a verdade aparecerá.
    - Tudo bem, desculpe. Estou um pouco nervoso, é a primeira vez que passo por isso.
    - A loja do Senhor deve estar indo muito bem, este carro é bem caro. Com o que o Senhor trabalha?
    - Acabou, me desculpe. O Senhor é da Receita Federal? Eu não fiz nada de errado, nem tive nenhuma atitude suspeita. Ou o Senhor me leva preso e me deixa chamar meu advogado, ou me deixa ir embora.
    [delegacia]
    - Eu só falo quando o meu advogado chegar.
    - O Senhor que sabe, mas pode estar acabando com as suas chances de um acordo.
    - Um acordo sobre o que? Sou acusado do que? O Senhor não tem nada!
    - Bom, já sabemos que o Senhor não respeita as leis de direito autoral. Podemos provar isso. Também sabemos pelos papéis da sua pasta, e a nota fiscal do seu veículo, que a sua renda é incompatível com seu estilo de vida.
    - Não falo mais nada enquanto o meu advogado não chegar.
    - Viu, isso é uma atitude de quem quer esconder alguma coisa. Nós já sabemos que o Senhor comete algum crime. A sua renda é incompatível. Não preciso de uma evidência, isso é uma prova.
    - Prova do que?
    - De que o Senhor cometeu algum crime para comprar um carro que uma pessoa na sua posição não poderia comprar.
    - Isso é uma suposição, até o Senhor provar o contrário eu sou inocente. Eu comprei o carro com um dinheiro que eu tinha guardado há muito tempo. Trabalho desde os 12 anos e agora não posso ter um carro?
    - Quanto tempo?
    - Desde os 12 anos.
    - Não tem nada haver com sonegação de impostos? Venda sem nota fiscal? Compra de produtos sem origem declarada? Essas coisas.
    - Eu não sei do que o Senhor está falando. Se o Senhor não sabe do que me acusar, como eu vou me defender?
    - O Senhor tem filhos?
    - Tenho, três.
    - Eles estudam em escolas particulares?
    - Eu sei o que o Senhor está querendo dizer. Já disse que não respondo nada até meu advogado chegar.
    - O Senhor já disse isso três vezes, eu só estou querendo ajudar o Senhor a dizer a verdade.
    [conversa com o advogado]
    - Como assim eles podem me manter preso por até três meses?
    - Além de você ter violado as leis de direito autoral, existe um indício de que você cometeu algum crime para ter dinheiro e comprar o carro, por enquanto é só isso. Sei que eles solicitaram junto à Receita Federal sua declaração de imposto de renda, da sua empresa e da sua esposa. Se há algo de errado eu preciso saber agora.
    - Como assim? Eles não podem fazer isso. Era só uma blitz, o documento está em dia, minha carta também. Eu só quero ir para casa.

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222