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[Desabafo] FOGO

Não conseguia me mexer. Estava fora de mim. Permaneci inerte, tentando processar tudo aquilo.
O choque por constatar um erro do qual não estava nem um pouco consciente. Um erro que desconhecia ser um erro até que ele foi escancarado, gritado na minha cara, ou melhor, enfiado goela abaixo.
As palavras são a minha arma e pela primeira vez eu estava desarmada. O medo dos reflexos daquela noite me desarmou.
As minhas palavras eram cacos de vidro. Descobri isso da pior forma.
Essas palavras foram socadas novamente à minha garganta. Dolorosamente mastiguei cada uma delas.
Cortantemente mastigando e engolindo os cacos de vidro.
Passei ligeiramente os dedos sobre os meus lábios e constatei uma boca cheia de sangue.
Isso não foi o pior. Depois me assustei com o fogo.
Não importava para qual direção eu tentasse correr, estava pegando fogo.
Havia um círculo de fogo e eu estava bem no centro.
Naquela hora eu podia jurar que tramaram para mim. A questão é: quando e por quê?
Absurdamente inconsciente.
A trama era boa. Me imputaram um dolo específico, quando o real contexto fático, na pior das hipóteses, poderia atrair uma culpa consciente.
Aquilo tudo era tão absurdo que eu não sabia como agir.
Foi a primeira vez que me vi rodeada de pessoas que ferozmente me gritavam esperando o meu agir.
O que eles queriam, afinal? Ajudar? Resolver a situação?
Não bastasse, havia um mentiroso, um traidor. Alguém desvirtuava os fatos enquanto outros gritavam e silenciavam a minha voz. Outros ridiculamente gritavam corre enquanto me seguravam.
Por óbvio aquilo tudo me paralisou.
Eu odeio mentira, odeio ainda mais quando a minha voz é silenciada.
Detesto quando tomam decisões por mim. Detesto ainda mais quando escancaro meu descontentamento e raiva com a intromissão e isso é ignorado.
Detesto a invasão para com as minhas responsabilidades e escolhas.
Destetos quando, de alguma forma que não se explicar, os meus problemas se tornam os problemas de todos.
Odeio a sensação de impotência. É péssima a sensação de incapacidade.
Ao menos que eu peça ajuda, não gosto e não quero que tomem as minhas dores, são minhas.
Sim. Definitivamente havia um problema, que era meu. E uma série de gente estava tomando a minha dor e tentando apagar o fogo de uma forma que eu jamais faria, jogando gasolina.
Para piorar, ouvia murmúrios de comparações e apontamentos do que eu deveria fazer porque fulano tinha feito. Já disse o quanto detesto comparações?
São as minhas experiências. Os meus valores. Os meus princípios. As minhas dores. O meu significado do que é respeito.
Naquele triz, permanecer no círculo parecia ser o mais seguro.
O círculo me condenava ou me protegia?
Até hoje não sei.
Tomei a atitude nem um pouco racional, mas a que à época me pareceu a melhor das escolhas.
Nada. Não fiz absolutamente nada.
Ignorei a todos e deixei o circulo pegar fogo. E pegou.
O calor me fez delirar.
Assisti tudo incendiar cantarolando “Yellow Days — A Little While”.
Morri uma centena de vezes por coisas distintas.
Os meus pés descalços foram queimados pelas brasas ainda acesas.
Sofri dias consideráveis, sozinha, com a fumaça no meu pulmão.
Reconheço que uma série de pequenas coisas derramaram gasolina à minha volta. Quando atearam fogo, tudo queimou.
As acusações, descabidas.
As minhas palavras.
A minha confiança.
O valor do respeito.
Mas só as cinzas levaram o meu amor.
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Atualizado em: Seg 20 Dez 2021

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