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[Desabafo] ESPELHO

A crise de não identificação me dava urticária.
Aquilo estava me levando ao delírio.
Não se tratava de uma mera mudança de preferências ou de hábitos. Não se trata de algo que posso limitar.
Estou cansada de ser quem “sou” e também de quem costumava ser.
Literalmente pressionada pela minha efígie antecessora e suas versões.
As pessoas ao redor ainda a imprimem sobre mim, mas estou muito longe de ser aquela mulher.
Mudei e não posso afirmar se para melhor ou para pior. Ainda é muito cedo e não quero me precipitar dessa forma. O fato é que simplesmente mudei e isso não foi deliberado.
Cogitar em voltar a ser verdadeiramente aquela efígie não me causa qualquer aversão. Ela parecia boa demais se comparada à essa mulher do espelho… Ao menos, a viam assim.
Hoje, não me sinto digna de quaisquer dos elogios e rótulos que ainda recebo, quando em verdade são direcionados à mulher do alvorecer findo.
Não posso resgatar uma efígie que pertence a outro lugar no tempo.
Eu fito e encaro a mulher nos olhos, mas eles não a vêem. Não adianta.
Minha realidade e perspectiva de vida é outra. Minhas dores e temores são outros. Por óbvio, os meus desejos e ambições também.
Será que eu realmente quem desenvolvi aquela efígie e suas versões, caridosamente de forma despretensiosa?
Será que nos dias findos eu fui aquela mulher verdadeiramente?
Será que dissimulei sua imagem e eles a compraram ou será que eles quem a esculpiram e, pela boa lábia, eu a comprei?
Será que justamente por reconhecer que aquela mulher não era eu é que a mudança foi assim, tão abrupta?
Do encanto ao desprezo.
Será que aquela também não era uma pintura pirata de mim mesma?
Me sinto uma impostora.
Sempre me senti. Quase sem querer, dissimulando.
Pior, quando tentava não me sentir assim e agia de maneira a fugir da teatralidade, era que a minha tese se consumava. Consistia no exato instante em que exercia com esplendor o papel.
Às vezes já cheguei a pensar com mais afinco nisso. Quando estaria eu diante de uma das minhas verdadeiras versões, diante de uma verdadeira efígie, ou de uma personagem?
Tenho horror à ideia de não ser autêntica.
Isto porque sei que sou muitas mulheres. Reconheço todas as efígies e cada uma de suas versões. E reconheço que a maioria verdadeiramente fui. Poderia afirmar que todas elas se a mulher antecessora não me causasse intriga.
Como pode?
Recordo bem quando todos esses pensamentos me assolaram.
Cantarolava um trecho de “3º do Plural — Engenheiros do Hawaii” quando me assustei com quem estava me tornando, ou em quem havia me tornado, melhor, com a mulher do espelho.
Essa mulher não foi a que eu idealizei quando criança e nem de soslaio se parece com as meninas, adolescentes, jovens e mulheres que fui nos dias que já encontraram a noite.
Essa percepção sobre mim mesma me veio aos poucos, mas ganharam intensidade nas últimas semanas.
Todas as efígies anteriores tinham traços em comum, razão pela qual afirmo que fui e sou uma mulher antiga, me apego muito aos meus pertences.
Nos últimos dias, ao precisar realmente deles, me dei conta que não me identifico mais com as mesmas coisas.
Derramei caridosa atenção sobre os meus objetos antigos e os atuais. São conjuntos completamente opostos e que ninguém ousaria apontar que são da mesma pessoa.
Não é só uma questão de gosto ou estilo ou mesmo personalidade. Vi a mulher que eu jamais imaginava me tornar. Um alguém totalmente dissonante das efígies findas.
O meu gosto literário, o meu gosto musical e os meus hábitos são outros. Assim como os erros e principalmente os vícios. Até os meus vícios mudaram. Ao menos, posso usar “felizmente” para afirmar que os meus erros são outros.
Mas também já estava cheia deles. Isso me contava algo…
Olhei ao meu redor e constatei outra preferência por uma infinidade de coisas.
Uma paleta de cores específica. Reconheci que a maioria das minhas roupas e acessórios recém comprados são na mesma tonalidade, que os tecidos são similares, que as bolsas são todas de tecido branco, que os livros são dos mesmos autores e seguem a mesma linha de escrita.
Reparei que deixei de me preocupar com coisas as quais muito me doava. Uso esmaltes com menos frequência. Abandonei a maquiagem. Me conformei com as olheiras profundas e amarronzadas. Suporto o cabelo volumoso e emaranhado.
A primeira coisa que me despertou os sinais de não identificação com a mulher do espelho foi uma coisa banal. As minhas vestes.
As araras do meu armário são repletas em razão do meu zelo, nesse sentido, tenho jeans e camisetas que residem há mais de cinco anos na gaveta. Até então, não possuía motivo algum para me desfazer delas e jamais havia cogitado algo assim.
Até que naquela sexta-feira, em que pretendia ir ao cinema, entrei em pânico por me vestir de inúmeras formas e não me identificar com quaisquer das mulheres que estava transparecendo.
Acabei por me vestir de forma elegante, com roupas que costumava gostar. Mas não parecia nem mesmo um pouco com a mulher do espelho. Exibia uma mulher que transparecia requinte. Transpareci ter gostos refinados e incluída em uma classe social da qual eu não pertencia.
Inclusive, na verdade me sinto à vontade e abraçada pelo o que eles chamariam ofensivamente por “laia”.
De algum modo, senti que aquilo, apesar de banal, burlava a minha identidade.
Isso ficou ainda mais evidente quando reparei que o meu cabelo, naquela noite específica, havia perdido o volume e cachos de costume. Não me senti menos atraente, mas exteriorizei quem eu certamente não era.
Não bastasse, a mesma sensação corroeu o meu corpo quando me doei na maquiagem e apesar de estar atraente, me senti desconfortável por ter abarrotado o meu rosto. A maquiagem que o transformou, ao invés de somente o ressaltar, fez eu me sentir uma tremenda falsa.
Sim, saí. E a primeira coisa que afirmei para mim diante do espelho do banheiro foi: “você não se parece comigo”.
O susto maior foi na madrugada daquela mesma sexta-feira, ao me deparar, quase sem querer, com o reflexo do corpo nú dela. Ele também havia mudado de uma forma radical.
Dei as costas para aquela mulher e fechei os olhos, querendo fugir dela.
Desde então passei a evitar o imenso espelho. Mas não foram poucas as vezes em que de soslaio a fisguei, me encarando.
E sou incapaz de explicar o que sinto nos instantes de tensão em que quase tenho de encará-la.
Estaria ela verdadeiramente nua e crua?
Já não suporto olhá-la.
Me mostra muito do que eu não gosto e me remete ao extremo oposto da mulher anterior… aquela boa demais para que não tenha sido fruto de dissimulação.
A mulher do espelho é ousada e o seu olhar é julgador. Ela me julga. Realmente me condena e o meu rosto escancara a culpa.
Já não me comporta. Me olho e não me vejo.
Tenho urgência pela efetiva metamorfose da mulher do espelho. Tenho urgência pelo seu desabrochar.
O que é estranho, posto que jamais me ocorreu qualquer coisa similar antes. Me refiro tanto a constatação da não identificação e a urgência pela completa metamorfose, assim como ao desejo de abandonar no tempo a mulher do espelho.
Tenho a leve sensação de que a mulher prestes a se instalar, pela evidente demora, não é mutável como as demais.
Claro que posso estar completamente equivocada uma vez que, quando das demais efígies com suas versões, em cada uma das oportunidades também acreditei que havia me deparado com a “revelação fiel de mim mesma” e justamente pela explicação oposta: não tinha sequer percebido a chegada delas.
A questão é que essa coisa de identificação me atormenta. Principalmente, pelas mulheres que habitam em mim, digo isso quanto às versões fidedignas da mulher do espelho.
Quem sabe, essa minha onda de abandonar coisas superficiais e tentar apreciar e valorizar o meu estado natural, consista num reflexo dessa minha busca em encontrar a mim mesma.
A existência de traços comuns entre todas as minhas efígies, que estão em algum lugar no passado, é que me levam a cogitar que há sim um “verdadeiro eu”.
E encontrar a mim mesma significa saber quem sou.
O que jamais havia me causado desconforto passou a me deixar desesperada. Nos últimos dias, não foram raras as vezes em que desejei sair de mim.
Não só abandonar o casulo, mas não ser esta ou aquela. Não ser alvo de rótulos, alheios ou próprios. Ou melhor, não ser ela… não ser a mulher do espelho.
Tive vontade de me descascar, tirar a fantasia, abandonar a máscara. Tirar essa roupa que me vestiram. Trocar de pele.
Ansiei, quase que como um ato de libertação, abrir lentamente o zíper, deslizar os dedos a acompanhar minha coluna e finalmente me despir.
Caminhar nua. Mostrando quem realmente sou. Tendo convicção que revelava o meu verdadeiro eu. Conhecendo fielmente a mim mesma. Caminhar tendo certeza de que aquele é o meu eu cru.
Estou atormentada pela mulher antecessora e assombrada pela mulher do espelho.
E é por isso que gostaria imensamente de me desprender da mulher que fisgo o reflexo me bisbilhotar.
Por um instante, fugir de tudo associado a ela. Não apagar a minha história, pois jamais faria tal coisa. Apesar de querer deixar o passado realmente para trás e desejar que tudo se tornasse lembrança e não memória.
Sou grata e tenho imenso respeito pelas efígies e versões que fui, dou um beijo na testa de cada uma delas e sinto que ainda existem em algum lugar no passado. Todavia, não posso dizer o mesmo da mulher do espelho. Esta me apavora.
Na verdade, a coisa é ainda mais profunda. O que eu quero mesmo ainda não tem nome.
Me banhar e ser uma nova mulher, qual sequer sou capaz de prever, apesar de premeditá-la.
Mulher essa não só com outro trabalho, cursando uma outra coisa ou abandonando o centro da cidade. Mas também com outros gostos, hábitos, fragilidades e paixões.
Aliás, estou enjoada da mesmice desses últimos meses, pois sem qualquer imprevisão. É fácil para qualquer um ao seu entorno prever os passos e falas da mulher do espelho.
A mesmice me corrói. Não bastasse, no mundo dos algoritmos eu não me deparo com o dissonante, mas sim com o espelho.
O espelho em que vejo o reflexo da mulher amarga.
O reflexo que já não mais tolero. Estou cheia dela.
Eu não mais me suporto.
Não suporto os rótulos, as expectativas e as afirmações equivocadas.
Nestes instantes de profundo incômodo, em segredo desejo ser uma pessoa nova.
Ninguém poderia ousar dizer que a conheceria. Não saberiam os meus pecados. Não saberiam as minhas cicatrizes. Não saberiam a minha história. Não saberiam as minhas virtudes.
Nem mesmo os meus antigos amores me reconheceriam. Não saberiam o meu ofício ou as aulas que faria. Não veriam a minha dança.
Ainda que para minha frustração em algum momento vinhessem a reconhecer o meu timbre ou mesmo descobrir o meu ofício ou o meu endereço, seriam incapazes de prever ou meus passos. Seriam incapazes de me rotular e não saberiam o que esperar de mim, quando em verdade sequer deveriam esperar coisa alguma.
E há instantes que esse desejo fica tão sutil e profundo…
Eu seria uma mulher séria. Direta. Dona de uma dicção invejável…
Eu seria imensa e cheia de mim, por saber realmente quem sou. Pelo encontro com a mulher selvagem. Uma mulher quente como dança do ventre…
Eu, certamente, caminharia com graça e com uma soberba que não seria minha.
Daquele instante em diante, eu me chamaria Ligia.
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Atualizado em: Qui 28 Out 2021

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