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Fitas antigas

Cá estou eu, a beira do esquecimento em sua memória, mas ainda a recordar nitidamente os poros quase invisíveis que constituem tua face. Mais uma vez escrevo com um destinatário claro, certo e amado, mas que sequer imagina ser o motivo de tantas cartas escritas e papéis amassados. Enquanto nossas memórias desvaneiam-se em sua mente, sem um mas, sem exceção, sem qualquer remorso, as suas permanecem intactas e relembradas como um hábito diário em minha cabeça. Ainda não me conformo pela tua partida, pela tua escolha em não ter permanecido ao meu lado, talvez por que de fato nunca ficou. Fora uma despedida não breve, tampouco dolorosa, simplesmente não fora uma despedida. Em minhas memórias não me recordo do adeus, não me recordo da dor da perda, simplesmente, lembro de um dia normal em que foi sem deixar recado e talvez por isso ainda doa tanto. Se passou alguns dias desde que te vi tão próximo de mim, talvez meses, e estou começando a duvidar ser uma questão de anos. Um tanto exagerado esse meu desabafo, mas raso quando comparado com meus reais sentimentos, sentimentos esses que não sei como descrevê-los. Já me perdi no primeiro verso desse lamento por escrito e talvez não vá me encontrar tão cedo.

Agora, dias depois de ter escrito aquela breve lamentação exagerada, cá estou a continuá-la de modo mais racional. Caro ex ser-amado, ainda não o esqueci. Contudo, nossas lembranças estão começando a virar poeira em minha memória; tua voz e tua face estão começando a ficar difíceis de recriar em minha imaginação. Estou em um dilema grave com essa situação. Devo eu estar feliz por finalmente estar te esquecendo, ou devo eu lamentar por tudo que construímos e deixamos por incompleto estar definhando-se da mesma maneira que nós nos destruímos? Fazendo uma breve análise, tudo o que construímos fora tão pouco, fora tão raso, tão frágil e delicado, e talvez por isso fosse tão precioso para mim. Veja agora o que tornou-se todo aquele cuidado e respaldo com o que tínhamos, com o que éramos, algo que agora reflete um descuido e desamparo em que ambos os lados foram cúmplices desse ato. 

Apertar o gatilho só é fácil para quem já pretendia dar o primeiro tiro, isso é fato. Não fiquei surpresa por ter sido você o primeiro a apertá-lo, entretanto, queria que ambos tivéssemos desistido desse duelo, e assim como na guerra fria, sem o conflito armado e direto que eu tanto temia. O conflito entre nós dois não houve toque, tampouco olhar, mas envolveu sentimentos confusos e incertos, e com isso, a guerra já estava ganha e determinado o perdedor. Será que ainda estamos em um conflito silencioso e mortal? Não consigo decifrar se ainda tenta me atingir, ou sequer lembra de sua adversária. Ainda não consigo sair desse campo de batalha sem a certeza de que meu adversário ainda está de pé ou se conseguira escapar. Tenho a impressão que não estamos mais lutando por nada, nem por ninguém, tampouco com alguém, mas estamos lutando cada um contra si. Prefiro acreditar que tu ainda enfrenta algo, assim como eu, mas no fundo sei, tu nunca esteve presente nesse conflito onde apenas eu lutei por algo.

Felizmente, não posso mais contar com a ilusão de que ainda vai voltar e dizer o que sempre dizia após uma breve partida, que sequer lembrava o motivo de tua ida, pois o motivo para ficar era muito maior. Encerro aqui essa breve lamentação e te recordo que espero contar não com seu amor, tampouco com sua pessoa, mas sim com nossas memórias, e talvez por isso ainda as guardo todas comigo, ainda que como fitas antigas, estejam velhas e desaparecendo.

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Atualizado em: Qui 28 Out 2021

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