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solidão Materna

Outro dia vi no Instagram uma reportagem da revista Crescer em que mostrava a noite de uma mãe com dois filhos pequenos, o filho menor ainda bebê dormia com a mãe na cama e o outro um pouco maior dormia no quarto ao lado. Durante a noite o bebê acordava várias vezes, se levantava, empurrava as costas da mãe, o filho mais velho acordava, ia para o quarto, a mãe o fazia dormir novamente e o colocava na cama.
Ao assistir o vídeo, me veio à mente o que passei com meus filhos quando eram pequenos e tinham uma diferença de idade de três anos. Senti uma angústia no peito que me fez refletir exaustivamente sobre a maternidade. Aquelas cenas em que a mãe era a todo instante privada de seu sono fez-me sentir uma vontade enorme de entrar pela tela do celular e ajudar aquela mulher, mesmo sabendo que se tratava de uma filmagem e que não era mais real.
Lembro-me bem da minha rotina diária quando os meus filhos tinham três e seis anos de idade, acordava cedo pra levar um pra escola e deixar o outro na babá, percorria um longo caminho até chegar no local de trabalho onde passava o dia inteiro e só retornava à noite. Ao chegar em casa já a noite ia buscar os meus filhos que ficavam na casa de uma pessoa a poucos minutos da minha, então ia fazer o café, desfazer as bolsas que retornavam, lavar pratos e tudo mais que surgia, até perceber que já era tarde da noite e era hora de colocar as crianças para dormir e conseguir descansar um pouco.
Fico pensando na rotina que eu tinha e ás vezes não consigo acreditar como eu conseguia fazer tudo aquilo, penso que naquela época como não havia opção de fazer ou não, eu simplesmente fazia tudo no automático sem pensar no mau que estava fazendo a mim mesma, o mais triste disso tudo é que nessa época eu não era separada, eu tinha uma pessoa vivendo debaixo do mesmo teto comigo, mas isso não fez a menor diferença no quanto eu tinha que dar conta de tudo em casa. Quando os filhos são pequenos ainda há o fato de que dormir não significa descansar, pode até ser bem mais estressante do que a rotina durante o dia.
Eu sempre tive vontade de ter muitos filhos, minha vontade era ter uma família grande e aproveitar longos anos criando meus filhos junto a uma estrutura familiar. Os meus planos foram por água abaixo antes mesmo de virem os filhos, nada foi como sonhava, outrossim foi extremamente frustrante quando me deparei com uma rotina fisicamente e psicologicamente desumana.
Além do mais, sei bem que minha experiência retrata a vida de muitas mulheres mães que se confrontaram com uma situação igual ou pelo menos bem parecida com a minha e a situação da mulher do vídeo que mencionei anteriormente. Muitas conseguem passar pela experiência da maternidade sem muitas cicatrizes, porém muitas as carregam consigo pelo resto da vida, outras acabam adquirindo mais problemas ao longo da vida em decorrência de não conseguirem lidar com a dor da exaustão materna. Posso relatar por experiência própria que até hoje sinto o cansaço físico e mental que parecem não passar nunca, os meus filhos hoje estão com dezesseis e treze anos e não tenho mais os problemas com noites mal dormidas, tenho outras preocupações, no entanto, não posso recuperar a juventude, o vigor, a disposição de antes, mesmo que o tempo passe, as cicatrizes e impacto psicológico não passam.
Enquanto reflito sobre esse assunto, não há como deixar de mencionar a reponsabilidade do companheiro, do pai, na criação dos filhos. A maternidade sempre será algo difícil e uma experiência única para cada um, mas no meu entendimento não precisa ser dolorosa nem tampouco responsabilidade de um só, deixar o peso de criar os filhos sobre a responsabilidade de uma pessoa, é a coisa mais desumana que se possa fazer com alguém. O peso de criar um filho sozinha é a experiência mais dolorida que alguém pode ter na vida, digo isso, porque além de todos os problemas físicos e financeiros, a solidão materna traz um dilema para quem passa por isso, que é o de ser obrigado a suportar toda a dor e fingir que não dói, isso mesmo, fingimos que não é tão dolorido assim, sabe por quê? Porque não queremos estragar a infância de nossos filhos, não queremos que de alguma forma eles sintam que está sendo difícil ser mãe.
Admitir ou mesmo sequer mencionar que ser mãe não é algo tão maravilhoso como dizem, é algo absolutamente inapropriado para algumas mulheres, a imagem da santa mulher maravilha nasce junto com o filho. Eu vejo como muitos se orgulham da mãe batalhadora e sofredora que sofreu a vida inteira para criar seus filhos, usa-se muito o termo “guerreira”, eu penso diferente, porque pra mim um guerreiro é aquela pessoa que é treinada para lutar, é aquela pessoa que quer lutar, sabe quem é seu oponente, tem armas para se defender. Uma pessoa que está numa situação que foi obrigada a estar e que não está preparada para lutar não é um guerreiro é um “sobrevivente”, quando sair da guerra sairá machucado, ferido e nuca esquecerá o quanto sofreu. Então, quando se cria um filho sozinha quando era para dividir essa responsabilidade com alguém, não estamos sendo guerreiras, estamos travando uma guerra sem preparo algum, sem condições físicas ou psicológicas, não é bonito, não glorioso, é desumano! Essa mãe será machucada, será ferida e ainda terá um sorriso no rosto, não porque sente orgulho do que está passando, mas porque não quer que seu filho saiba que está sofrendo. Se eu pudesse escolher, escolheria não ser a mãe guerreira gloriosa, escolheria ser fraca, frágil, receber ajuda, admitir que não posso, não consigo, escolheria passar as minhas responsabilidades para outra pessoa, escolheria dormir, escolheria ser um humano normal, não ter que lutar batalhas.
Enfim, filhos serão sempre uma benção, são provas da existência de algo divino. De minha experiência até agora como mãe posso dizer que os meus filhos são a razão de tudo que existe de bom em mim, inclusive, os meus filhos me proporcionaram algo mágico que é a possibilidade de tentar fazer ou ser o que eu sempre quis pra mim, mas não tive. Essa possibilidade que a vida ou filhos nos proporciona preenche uma lacuna de vazio que existe em nós e é incrivelmente maravilhoso.
Todo esse meu desabafo nada tem a ver com os meus filhos que amo mais que cada centímetro desse universo, esse desabafo é sobre a solidão materna, é sobre alguém que simplesmente escolheu não fazer a sua parte.

 

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Atualizado em: Sex 15 Out 2021

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