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Tempestade

Abro os olhos, vejo tudo, e ao mesmo tempo nada. Por um momento me sinto bem, instável, em harmonia comigo mesma. Logo passa. Sinto-me presa, imóvel, paralisada sob a cama que me agarra e me afunda. Olho o relógio, é três da madrugada. Quero voltar a dormir, mas meus pensamentos já trabalham a tempo, não deixam. Sinto algo ao meu lado, olho, está escuro, não vejo nada. Deve ser só mais um dos meus imaginários querendo escapar da minha mente.
Lembro-me da noite passada, a dor que senti, a angústia e o nervosismo, tudo vem de uma vez, não pede, não bate, não espera. Algo me atrai para minha gaveta, sai de lá uma sensação estranha, mas não nova, reluto, não quero olhar, eu sei o que está lá e não é bom. Ou é?
A cama já não me segura mais, minhas pernas e minhas mãos parecem me forçar a fazer o que eu não quero. Respiro. De nada adianta. Levanto-me, caminho, abro a gaveta, e lá está ela, embrulhada, minha melhor companhia. Balanço o veludo, o barulho excitante ecoa pelo quarto, a prata reflete. Dou a atenção necessária e vejo que o “Storm” tatuada nela, percebo a caneta já desgastada. Nesse momento me lembro do tempo que a uso para aliviar meus defeitos.
No primeiro momento eu reluto, sei que não devo, sei que depois daquela marca irei me arrepender. A dor some, por segundos, e logo volta, ainda pior. No final eu penso: “é bom, só a última vez”.  A quem eu quero enganar? Não será a última vez, nunca é.
Arregaço as mangas, me deparo com dezenas de outros cortes, posso me lembrar de cada um, do momento em que eu estava passando quando marquei-os em minha pele, porque afinal, estão todos ali pela mesma razão. Ajeito com cuidado a lâmina em meus dedos, aperto a mão para o sangue circular com mais intensidade, encosto-a, gelada, a lâmina entra e meu corpo grita, mas logo as vozes abafam a dor, arrasto-a lentamente e, enquanto aquilo acaba com meu corpo, observo, com prazer, o sangue escorrendo sobre minha pele. A adrenalina toma conta e aquilo passa a ser tudo que eu consigo sentir. Já não sou mais eu, os demônios me substituem e, inapropriadamente, fico feliz.
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Atualizado em: Ter 5 Jun 2018
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