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CAPÍTULO I – JOGOS DE CRIANÇA.

Meu nome é Vaniel, tenho trinta e um anos no momento em que escrevo isso, e já posso antecipar que, sua maior dúvida até aqui, é: que tipo de nome é esse?
Meu nome não tem nenhum significado em particular, o recebi por capricho de meu pai, que era um assíduo estudante de angeologia, por isso, quis para seu filho, um nome que fosse parecido com o de um anjo; assim ele adicionou El (Deus)1 ao final do nome de sua esposa, minha mãe, Vanessa, e esse foi o resultado. Claro que esse livro não está sendo escrito apenas para tratar de um assunto tão banal como o significado de meu nome, a verdade, aquilo que desejo lhe contar, é sobre a incrível jornada que fiz, quando fui levado até o Mundo Acima das Estrelas da Terra, um mundo inteiro, pairando bem em cima de nós; eu simplesmente, preciso lhe contar minha história: vi coisas extraordinárias, criaturas tão absurdas quanto os dragões, seres humanos, ou quase, mais antigos que toda nossa história e até salvei nosso “planeta” de uma possível destruição, mesmo que ninguém, sejam amigos ou não, tenham o menor conhecimento desse feito!
Por tudo isso, fui chamado de louco por minha própria família e estou onde estou: um prisioneiro a quase dois anos num hospital psiquiátrico, trancado em meu quarto (minha cela) na maior parte do tempo; ironicamente, as vezes ainda me pergunto se realmente fiz essa viagem, ou se minha estada neste lugar é justificada. Mas, me diga, como é que está escrevendo suas memórias se está confinado num quarto de hospital?
É o que me perguntaria em seguida, se pudesse?
Por sorte, tenho uma amiga de verdade dentre os funcionários daqui, que após ter ouvido minha história, me deu a ideia de escrevê-las em formato de livro, e, quem sabe, publicá-lo. Dessa forma, ela me arranjou um velho notebook, embora, mesmo com este aparelho, ainda não houvesse maneira de acessar a internet e o mundo exterior. Na verdade, tenho sérias suspeitas de que o homem que finalmente o trouxe a mim, publicará esta obra como sendo da própria autoria enquanto estou preso, talvez até o fim de minha vida, e assim venha a ganhar dinheiro as custas de meu trabalho, mas que seja assim. De um jeito ou de outro, o conhecimento que tenho sobre as leis de nosso universo, e que foi necessário obter antes de viajar por ele, virá a luz, e isso é bom, pois quero passá-lo adiante, de outra forma, tudo isso se perderia estando apenas comigo, portanto, decidi que, mesmo assim, irei em frente e escreverei toda a minha história!
Comecemos então do início, ou quase isso: meu pai nasceu numa pequena cidade do interior chamada Ituverava, de onde saiu mais tarde para estudar teologia, permanecendo fora por quatro anos. E foi na faculdade, que conheceu aquela que viria a ser minha mãe. Na verdade não os conheci pessoalmente, mas os vi naquela época, no mesmo momento em que os dragões, antes presentes apenas em minha imaginação de criança, se tornaram muito mais do que reais!
Vanessa, minha mãe, tinha pele extremamente clara (traço que acabei herdando de forma exagerada), seus cabelos quando iluminados pelo Sol reluziam quase dourados, o que contrastava com seus olhos castanhos escuros e sua bela silhueta, sem dúvida, era uma linda mulher, e, dois anos depois de se casarem, eu nasci, mas para minha tristeza, o que vi de seus destinos, foram apenas as manchetes dos jornais da região: “DESAPARECIMENTOS INEXPLICÁVEIS EM CIDADE DO INTERIOR.”
Ituverava era uma cidade pacata e quase no meio do nada, para notar o quão calma era, basta prestar atenção em seu nome, e o que significa: algo como “salto das águas brilhantes”, na língua dos índios que habitavam o lugar há dois ou três séculos, esse nome se refere a cachoeira do rio que passa por ela, onde a mesma se iniciou. Tanta calma no lugar contrastou muito com os desaparecimentos que ocorreram. Após tal tragédia, fui morar com minha tia, irmã de meu pai, pois minha mãe verdadeira não tinha família. Mas, cresci sem saber da sua existência e acreditando que minha tia era minha verdadeira mãe. Quanto a meu pai, ninguém se dispusera a me contar nada sobre o assunto e, embora eu soubesse dos sumiços que ocorreram, que duas pessoas haviam simplesmente desaparecido durante a noite, numa casa totalmente trancada e com outros familiares que nada ouviram, não havia nenhuma evidencia de que fossem meus parentes, ainda que, meu avô costumasse dizer que, “a dor era grande demais”, sempre que alguém falava sobre o caso, o que, certamente, me parecia muito estranho. Posso supor como seja essa dor, baseado nos próprios abandonos que sofri, mas não creio que isso seja motivo suficiente para ocultar que, aquela que chamei de mãe por tanto tempo, não tenha, de fato, me trazido ao mundo!
Já minha tia, a qual chamava de mãe, tem um metro e sessenta de altura, cabelos negros, cacheados e também muito rebeldes, estando sempre emaranhados, o que dava a ela uma aparência de falta de zelo; e se “os olhos são a janela da alma”, acho que a cor negra que predomina nos dela, não seriam por nada mais, além do reflexo do que havia dentro dela!
Minha mãe (adotiva) também era muito… digamos: esbelta, na verdade, ela ocupava grande parte do espaço por onde passava, mesmo que lhe pareça errado que eu diga isso, mas, acredito que, em algum momento, você que está me lendo, irá me entender, e compreenderá também, o motivo de minha indiferença; mas, e quanto a sua personalidade?
Bem, ela possuí um certo desdém pelos outros, e é o que muitos chamariam de “uma fofoqueira nata”, embora eu deva dizer que, ela é muito mais do que isso, mas, infelizmente, estou me referindo ao sentido ruim da coisa… Lembro-me dela lendo sua Bíblia para mim todas as noites antes de dormir e, na manhã seguinte, zombando de meus avós por frequentarem uma igreja, dizendo coisas sobre sua fé que não me atrevo a repetir aqui. Lembro-me ainda, de quando me ensinava a não mentir e a não roubar, mas no minuto seguinte, estava pegando alguns trocados de meus avós escondida; futuramente, no momento em que esse fato finalmente veio a ser revelado, a culpa foi atribuída a mim; dinheiro este, que era usado para comprar refrigerante… sim, existem pessoas que são viciadas em drogas ou em jogos de azar, por exemplo, mas ela é viciada em refrigerante de cola. É muito curioso ver como foi, tanto um bom, como também, o pior exemplo possível de pessoa. Mas tento pensar que, em algum momento, ela realmente me amou e fez o seu melhor…
Meus avós, eram o Senhor e Senhora Neto, e preciso confessar que, sempre achei algo bem engraçado que possuíssem o sobrenome Neto. Eram boas pessoas, mas, provavelmente minha tia tivesse a quem puxar… Meu avô, possuía a qualidade da compaixão, mas também sei que cometeu seus erros ao longo da vida, afinal ninguém é perfeito; tinha a idade de cinquenta e seis anos quando meus pais verdadeiros desapareceram. A senhora Neto, era da idade de cinquenta e nove anos na mesma ocasião, e desde que a conheço, já possuía seus cabelos totalmente embranquecidos pela idade, talvez pelo sofrimento que vivera.
O casal, junto com sua filha (minha tia), passavam boa parte de seu tempo, sentados naquela varanda vistosa, a qual tinham gasto uma boa quantidade de dinheiro (justamente por ser a parte da casa que mais aparecia para quem viesse da rua) observando o movimento da vizinhança e tecendo comentários maldosos aqui e acolá, sobre todos que passavam na frente do trio.
Mas, e quanto a você?
Seria essa a sua próxima pergunta?
Muito bem, tomemos como base minha descrição no momento que me tornei adulto, por volta dos vinte anos, para facilitar as coisas, e, dessa forma, busque você mesmo me imaginar com mais ou menos idade conforme for lhe contando a história: tenho um metro e setenta e dois de altura, sou magro, tenho olhos negros e pele ainda mais clara que a de minha mãe, sendo quase totalmente branca, na verdade, não foi possível caminhar no Sol, por muito tempo, sem me queimar ao menos um pouco, mas, com o passar dos anos, aparentemente fui ganhando alguma resistência a sua luz, a medida que ficava sob ela. Este traço que herdei de minha mãe de maneira exagerada beirava a poder chamar de um problema, mesmo que nunca houvera recebido a devida atenção médica, mas minha mãe dizia que se tratava de uma forma de albinismo. De todo modo, isso, se realmente fosse o que se dizia, inegavelmente afetou muito mais meus cabelos, tornando-os totalmente brancos desde a infância, e, durante grande parte dela, precisei tingi-los de preto, pois, como todos sabemos, as crianças podem ser muito cruéis e isso me ajudava a não ser alvo de comentários maldosos. Já na adolescência, foi quando comecei a deixar de pintá-los, aos poucos, embora o simples ato de entrar em uma lanchonete fosse bastante desconfortável, as pessoas ao redor, paravam instantaneamente o que faziam e colocavam seus olhos sobre mim sem cerimonia alguma e cochichavam as minhas costas, provavelmente supondo que eu os embranquecia por algum gosto ridículo de jovens que me atribuíam. Os atendentes eram ainda piores, sempre soltavam uma gargalhada de deboche, fosse ela disfarçada ou bastante visível, com intuito de realmente me fazer perceber que riam de mim, em seguida comentavam uns com os outros, como se a pessoa que estava a sua frente fosse um boneco defeituoso e totalmente sem sentimentos, ao qual poderiam dirigir suas ofensas e piadas sem a menor preocupação em magoá-lo, tudo isso, era simplesmente um ritual que precedia a seguinte pergunta:
– Vai querê o quê, tiozinho?
Atualmente não preciso mais me preocupar com isso, é claro, pois estou confinado do convívio social, mas, mesmo antes, já havia percebido que são uma espécie de dom, com o qual sou capaz de ver o caráter baixo das pessoas em poucos segundos, antes que tenham a chance de se aproximar, para só então, me mostrarem como são na realidade. Eles também me renderam o apelido de Snow entre os poucos amigos e colegas que tive durante a vida, apelido que apenas ganhou mais e mais força, quando ficou famoso num seriado de TV a cabo… mas, esqueçamos isso por hora, prefiro mudar de assunto e lhe contar sobre alguma lembrança melhor, para que conheça, antes de minhas tristezas, algumas de minhas alegrias, obtidas em simples brincadeiras com meus melhores amigos quando criança, e que, certamente, foram também um tipo de profecia para o que viria a seguir.
Cresci durante os anos noventa, ou seja, a melhor época para ser criança, pois se ainda saímos para a rua para brincar, como as gerações anteriores, também tínhamos a mais recente tecnologia, pois este foi o tempo em que os videogames de cartuchos eram reis, fui apresentado a eles por meu primo, que me levava a locadora para jogar principalmente games de luta e, foi provavelmente por isso, que desenvolvi o gosto por artes marciais, embora ele tenha aparecido depois de muitos anos. Íamos sempre após a escola e, depois da jogatina, meu primo se ocupava testando os golpes que via nos jogos, em mim… Foi também nessa época que os consoles com CDs apareceram, mas não me lembro de ter jogado neles mais do que duas ou três vezes enquanto ainda frequentávamos estes extintos estabelecimentos, pois a hora nos parecia muito cara, mesmo sendo apenas alguns centavos a mais que nos velhos aparelhos de cartuchos, num tempo em que um salário-mínimo era de R$ 130,00, jogar na mídia redonda e não nas fitas, que vez ou outra precisavam ser assopradas, foi um luxo pra poucas ocasiões. O que viria a mudar alguns anos depois, quando meus avós me presentearam com um desses consoles, que facilmente, custavam dois ou três meses de salário, lembro-me muito bem daquele dia!
Desde a infância, tinha dois amigos inseparáveis: Ana, minha vizinha, uma garota de cabelos compridos e negros, e com um jeito de gótica, o que acabava sendo uma tendência compartilhada entre nós, pelo menos, com relação aos gostos musicais; e também o Batata, um garoto baixinho e um pouco acima do peso, meu melhor amigo e grande rival em nossos campeonatos de videogame que ainda viriam a ser realizados; seu nome de verdade é Augusto, já este apelido, vem da escola, surgiu logo na primeira série pois, ali já existia o Mandioca, um outro garoto baixinho e atarracado, o chamávamos assim porque em sua casa, havia uma pequena plantação de mandiocas, então, num belo dia, quase no final das aulas, um de nossos outros colegas teve a brilhante ideia de dar apelidos de vegetais e frutas para todos da sala, assim nasceram também o Tomate, o Banana, o Abóbora, entre outros, ou seja, personagens que não tomarão parte alguma em meu relato, e, por fim, o Batata, devido à semelhança física com o Mandioca; Até mesmo eu, recebi um destes títulos, mas não há sentido algum em revelar mais um apelido pejorativo que me foi atribuído.
Claro que, Augusto sempre odiou, e ainda odeia o apelido recebido, e como sou um ótimo amigo, acabei esquecendo por muitos anos o nome verdadeiro do Batata… E juntos, Ana, Batata e eu, vivemos muitas aventuras que, mais tarde, vieram a ser documentadas pelos sábios, como em certa vez, em que corríamos desesperados por túneis, seguidos por um… ou melhor: dois bravos cavaleiros, conhecidos como, Vaniel, o Branco, e O Cavaleiro das Batatas, corriam velozmente, apesar de estarem carregando o peso das armaduras de metal prateado que vestiam, a procura de sua companheira, a Maga Sombria, ao longo de tuneis escuros, vários metros abaixo do solo. Aqueles eram, corredores revestidos com vistosos blocos de pedra tão negra e resistente, que aparentavam estarem ali desde antes das bases do mundo serem erguidas. Os três haviam adentrado a antiga tumba do Rei Sangue de Dragão, em busca de uma poderosa espada que, segundo diz a lenda, poderia cortar qualquer coisa. Não se via mais que meio metro a frente, e a cada passo, todos se perguntavam o que haveria de saltar para fora da escuridão penetrando o círculo formado pela fraca luz das tochas. Pouco tempo de caminhada havia se passado e, sem perceber, os dois cavaleiros e a Maga vestida de negro, se separaram, provavelmente tenham se perdido devido a tantas paradas que a exploradora fazia ao longo do caminho para observar os intrigantes adornos de pedras preciosas que saltavam dos blocos ao longo do túnel; poderiam ser um tipo de marcação para os construtores ou para o povo ao qual o antigo rei pertencia, era o que pensava ela a cada vez que fazia uma pausa para os observar, mas, Batata e Vaniel, os ignoravam completamente, acreditando serem simples adornos sem importância, afinal de contas, aquela era a tumba de um poderoso rei e nada haveria de estranho em que se esbanjasse pedras e metais preciosos por todo o lugar. Porém, no instante em que se deram conta de que sua Maga havia sido tragada pelo escuro, foi também o mesmo momento que um enorme dragão rasgou o silêncio da tumba, antes perturbado apenas pelos passos do trio, ele urrou como um trovão vindo do fim do corredor distante, e se pôde ver a luz de suas chamas quilômetros a frente. Seus olhos malignos divisaram os cavaleiros a distância, sem interferência alguma da escuridão e, imediatamente, o dragão se colocou em seu encalço batendo às asas semifechadas como se quisesse alçar voo no túnel que, na verdade, era grande o bastante para acomodar várias pessoas, mas pequeno para um dragão daqueles.
– Corra, corra por sua vida Cavaleiro das Batatas!!!
Gritou Vaniel a plenos pulmões, e disparou tão rápido como pôde com o companheiro em seus calcanhares. Correram pelo que lhes pareceram horas, passando várias e várias vezes por grandes pedras brilhantes que, com certeza, teriam detido a atenção da maga perdida. Na corrida desenfreada, receavam o tempo todo, dar de cara com alguma parede que surgisse inesperadamente, transformando-os em um alvo fácil para o grande lagarto alado, pois a pedra negra não era tão visível a fraca luz das tochas, a não ser que se estivesse a centímetros dela, e poderia facilmente ser confundida com a escuridão que preenchia o caminho.
Depois de virarem algumas vezes, Vaniel concluiu, inconscientemente, pois se concentrava em correr por sua vida, que as belas gemas preciosas estavam realmente encrustadas sempre a determinada distância, e em todas as vezes que uma aparecia, era o indicativo de uma parede maciça no caminho, ou uma bifurcação do mesmo.
– Ana estava certa… – exclamou finalmente Vaniel, ofegante enquanto corriam – eram realmente… um tipo… um tipo de marcação!
Mas Batata, apenas respondeu energicamente:
– Estou mais preocupado com este que vem atrás de nós do que com tais pedrinhas!
As belas pedras verdes refletiam o fogo das tochas a distância, mas, de repente, os dois notaram que elas brilhavam ainda mais forte do que antes, um sinal claro de que o dragão expirava suas chamas mais próximo da dupla. As pedras então pararam de aparecer e o temor de ambos se tornou maior:
– Devemos estar agora em um longo corredor sem curvas, Cavaleiro das Batatas!
– Mas o que estará ao final deste? – perguntou Batata – Espero que não seja nenhum beco sem saída, está vendo alguma placa por aí, indicando isso?
Mas, graças ao terreno mais reto, conseguiram colocar uma grande distância entre eles e o dragão, continuaram a correr por um longo tempo sem ver pedra brilhante alguma, nem mesmo o brilho vermelho das chamas monstruosas atrás, havia apenas escuridão e paredes que precisavam ser divisadas mais pelo tato do que pelas luzes dos archotes. O chão parecia agora estranhamente irregular, como se houvesse sido abalado por um tremor e estivesse cheio de pedras quebradas, inclusive lascas visíveis de gemas brilhantes verdes, havia sido o dragão a causar aquela destruição pelo caminho?
Subitamente o avanço dos dois se tornou impossível, pois o teto havia desabado completamente a frente, e as rochas que bloqueavam a passagem eram tão grandes que não havia como movê-las rapidamente, mesmo que não existisse um dragão a farejar cheiro de humanos caminho a dentro. Temerosos, os dois levaram ainda algum tempo para notar que havia algo visível através das frestas que haviam por entre a pilha de grandes pedras, e foi o Cabaleiro das Batatas a chamar atenção para a fraca luz que tremeluzia atrás da mesma:
– Ana! – gritaram sincronizados, ao reconhecer a silhueta atrás das frestas.
– Vaniel, Batata, estou aqui! – disse ela quase em tom de choro, e sem poder alcançá-la, o Cavaleiro Branco apenas pôde questioná-la se se encontrava bem, no que a garota respondeu:
– Sim, estou bem, mas fiquei com medo, achei que não fosse mais vê-los.
Batata então perguntou:
– Mas, se nos perdemos lá atrás, depois de termos corrido tanto, como ela pode estar agora na nossa frente?
– Sempre achei que esta história de Maga fosse uma mentira…
– Enquanto corremos passamos por várias curvas – respondeu o Cavaleiro Branco – algumas vezes tive a impressão de ver corredores laterais, mas estávamos com muita pressa e pouca visão para que pudesse parar e comprovar. Devemos ter andado em círculos…
E interrompendo Vaniel, Ana disse:
– É-é isso mesmo… era o que as pedras queriam dizer. Há um grande corredor principal que contorna todo o templo, e também alguns menores, que levam as dependências que se precisa no lugar.
A Maga havia se esforçado muito para dizer aquelas palavras e parecia bastante abalada por ter caminhado no escuro sozinha por tanto tempo. Mas, o momento de alívio foi novamente interrompido, quando uma luz vermelha brilhou ao longe e se aproximou vagarosamente, Vaniel voltou a falar:
– Ana, Maga Sombria, preste atenção: um dragão está vindo e não há tempo para mover as pedras, temos que fugir para longe dele.
A garota pareceu soluçar brevemente, como se fosse desabar, mas então, assumiu, durante um segundo, a liderança do grupo quando percebeu que o Cavaleiro das Batatas dava sinais de que iria se desesperar ainda mais do que ela, e disse por entre os espaços dos escombros:
– Acalmem-se, vai dar tudo certo, apenas acalmem-se e continuem até o fim do corredor atrás de vocês, depois virem a esquerda e sigam caminhos que pareçam descer, até chegarem a uma caverna. La encontrarão a espada do rei, apenas ela tem o poder para matar um dragão!
Ouvindo essas palavras, Batata pareceu despertar para a situação e lembrou-se que também carregava uma arma consigo, lentamente ele guiou as mãos até ela, e a sacou, a segurando ameaçadoramente, mas foi advertido por Vaniel:
– Não adianta; armas comuns não penetram a pele de dragões, exceto em seu ventre, local que não temos condições de atingir neste túnel estreito, temos que procurar a espada que a Maga nos disse!
O que dissera, deveria estar embasada em suas “percepções mágicas”, as quais nenhum dos cavaleiros entendia plenamente. Por entre as frestas, os olhares da Maga e do Cavaleiro Branco se cruzaram, então ela disse:
– Não se preocupe comigo, com certeza, nos encontraremos mais tarde se conseguirem a espada, eu sinto isso!
As chamas brilharam ainda mais fortes ao fundo, de modo que pareciam se aproximar muito rápido, Batata e Vaniel então se apressaram e entraram no corredor lateral, mas, mesmo saindo da vista do monstro, uma onda de calor os acometeu, a fera estava furiosa com a fuga das presas, e se os alcançasse, seria preferível um desabamento a enfrentá-la com espadas comuns. Felizmente, no momento em que o hálito fétido do monstro se tornou perceptível, Batata gritou com uma voz tão esganiçada que mais parecia um grunhido:
– Por aqui, encontrei!
O corredor parecia realmente descer as profundezas da Terra, o que favoreceu para que a corrida fosse ainda mais veloz, mas havia agora também, o temor de tropeçar e cair rolando com o peso das armaduras que, de nada serviriam diante do fogo maligno. Embora o corredor tenha parecido interminável a princípio, a corrida foi menor e logo, se viram adentrando uma grande caverna rústica, como se houvesse sido recém-escavada; os dois viram mais alguns brilhos quadrados e verdes ao fundo que se assemelhavam a janelas em miniatura. Os cavaleiros correram os olhos por entre a caverna e então a avistaram, tão visível e clara como se não houvesse trevas ao seu redor, então Vaniel exclamou, absolutamente assombrado:
– V-vovó… o que faz aqui?
E todos despertamos da aventura pelo labirinto, para ouvir o que ela tinha a me dizer:
– Tenho um presente pro cê.
Em seguida, me entregou uma grande caixa embrulhada em papel vermelho, a qual fui logo abrindo com desespero e atirando o papel para longe, enquanto Batata se aproximava para olhar e Ana espiava por trás dos escombros. E quem poderia imaginar?
– É pro cê não precisá ficá ino lá naquele bar jogá com seu primo que só te bate.
Disse a voz de meu avô com certo ar de autoridade, ele estava mais atrás, na porta da casa. Fizemos um grande escândalo, tal qual qualquer criança faria quando recebe o brinquedo de seus sonhos, rapidamente chamei pela maga, para que desse a volta e viesse nos encontrar. A gritaria foi tanta que acabei sendo reprendido por meu avô, tanto por isso, quanto pelo papel atirado ao chão anteriormente e, depois de recolhê-lo, entramos em casa aos tropeços e instalamos meu presente tão rápido como possível na antiga TV de tubo, tão rápido que quando meus avós exclamaram, já era tarde:
– Olha o manual antes, não saí montando sem sabê não!
O videogame já havia, inclusive, sido ligado quando ela finalmente nos alcançou para falar novamente da importância de se ler o manual, em seguida nos fez acalmar os ânimos e nos sentarmos no sofá meio rasgado da sala. Apanhamos o único game que viera junto do console, com uma capa bem chamativa exibindo dois guerreiros com espadas nas mãos, e em poucos segundos, estávamos travando duelos, na pele de Samurais e Ninjas. O game retratava um conflito entre dois clãs rivais que lutavam pela posse de uma lâmina que remetia a seus ancestrais, mas, o mais interessante era o “realismo” (para a época) aplicado aos danos do combate, muito a frente de seu tempo, pois dependendo da área atingida o guerreiro poderia morrer instantaneamente como se fosse um golpe de verdade2.
E aconteceu que, Batata sacou sua arma e avançou para cima de meu personagem com o seu próprio lutador, mas em instantes jazia no chão sangrando. Em seguida foi a vez de Ana provar de minha técnica superior!
Logo de cara, venci a maioria dos combates daquela tarde, e em todas as vezes que ganhava, meus amigos exclamavam:
– Não vale, você já sabe jogar, passou dias jogando lá no fliperama com seu primo!
Como se quisessem justificar suas derrotas.
E mais uma vez, Ana foi abatida, e disse cruzando os braços após passar o controle para Batata:
– Não pode tratar uma garota assim Vaniel, ainda mais uma que cuida tanto de você!
Uma premonição, vinda de sua magia?
Sem saber, Ana não se referia unicamente ao dragão que houvera nos perseguido em nossas imaginações mais cedo, pois agora, um outro mal, e dessa vez real, se aproximava de nosso campeonato: meu primo, que morava próximo de minha casa, soube da novidade através de minha mãe (tia), quando veio mais uma vez me convidar para ir a locadora, e diante da possibilidade de não ter mais que pagar, resolveu ficar ali mesmo para jogar, ele veio caminhando rapidamente sala a dentro, e sem respeitar regra alguma, agarrou o controle de minhas mãos, ou seja, nada mais de: aquele que perde passa o controle!
Ao se sentar, ele empurrou Batata bruscamente para um canto e tomou seu lugar. Era um destes valentões que vemos nos clichês de filmes, que sempre atormentam garotos mais jovens. Ele acreditou (erroneamente) que reinaria naquela sala ao massacrar virtualmente, três crianças no videogame!
Mas não levou nem dois minutos, para que a cena se tornasse cômica quando sofreu três derrotas seguidas e velozes, uma para cada um de nós e,com certeza, o rapaz pensou que teria sido sorte até sua segunda derrota, mas a terceira havia excedido os limites de sua paciência; assim que o derrotei com uma bela estocada no peito do ninja que meu primo estava usando, ele se levantou ameaçadoramente, ergueu os punhos de umaforma muito estranha, sacudiu-os e gritou vindo em minha direção:
– Vamo vê o que cê faz de verdade!
De um pulo me afastei, mas o rapaz veio atrás de mim também aos saltos, como se fosse um sapo motivado pela raiva de perder para uma criança, contudo, ao assistir a cena, Ana ficou profundamente indignada e simplesmente se colocou a minha frente como se quisesse me proteger. Qualquer um que olhasse para aquilo, veria apenas uma garotinha tentando proteger um menino de possivelmente levar uns cascudos de um adolescente que acabara de perder no videogame, e provavelmente cairia na risada por tão patética que era; mas diante dela, meu primo parou, fez uma cara ainda mais estranha e disse:
– Num adianta escondê atrás da sua namorada!
E fez menção de tentar dar a volta, mas seu olhar encontrou o de Ana, que imediatamente pareceu fulminá-lo de tal maneira, que este apenas se virou e se afastou, dizendo com voz desanimada:
– Cês são crianças…
Em seguida ouvimos mais palavras de protestos e palavrões atropelados como um sapo coaxando, de tal forma, que conseguimos entender apenas duas palavras que reforçavam o comentário anterior:
– …jogos de criança…
Batata comentou em seguida:
– Parece um sapo, não sabe jogar videogame, nem falar como gente!
Em seguida nos voltamos para a Maga e a saldamos por ter-nos salvo, não de um dragão escamoso, mas de um adolescente interessado em nosso videogame e, sem ele, pudemos fazer nossos campeonatos e declarar o campeão de cada tarde todos os fins de semana seguintes. Triunfantes, continuamos jogando até a noite, que foi quando Batata teve de ir embora, mas Ana permaneceu ainda por algum tempo, até que escutou sua mãe chamar da casa ao lado, e antes de ir, ela me disse:
– Até amanha Vaniel.
Me deu um beijo na bochecha e também foi embora aos saltos, deixando-me sozinho para encarar a máquina por mais algum tempo. O computador se mostrou um oponente a minha altura e as batalhas foram duras, mas, depois de agitar espadas por poucas vezes, foi a vez de ouvir minha avó dizer:
– Já tá tarde, desliga isso e vem comê, daqui a pouco é hora de dormi.
Insatisfeito com o pouco tempo que tive sozinho (pois para minha avó sempre era muito tarde), mas também já bastante cansado, atendi o chamado, apertei o botão “Power” no console e saí. Algumas horas depois do jantar, horas estas que passei ainda no sofá, ao lado de minha mãe que via sua novela na TV, novamente vinha minha avó alertando como já se fazia tarde e que era hora de dormir. Levantei-me mais uma vez e fui para a cama, para encerrar um grande dia, em que havia caçado, ou melhor dizendo, sido caçado por um dragão ameaçador, travado duelos de espadas com honrados guerreiros antigos, e o mais importante, havia visto meu primo perder o interesse em me atormentar por um longo tempo, mas, se o dia havia sido encerrado, a noite estava apenas começando…
 
Durante o sono, em meio a escuridão de um quarto solitário, tive um sonho, nele passei das trevas do quarto paras a escuridão de túneis, túneis forrados no chão, teto e paredes, com pedras negras, e lá caminhei no silêncio da noite, ou assim me parecia, embora fosse impossível afirmar se era dia ou não em total breu; o caminho era levemente inclinado, como se descesse, então imaginei que seguia para o fim da jornada que havia iniciado quando acordado, onde encontraria a poderosa espada do Rei. Na caminhada, um grande temor me sobreveio e percebi que algo se interessava por mim, ao longe, seria ele, o dragão vermelho de nossa brincadeira?
Sozinho, corri o quanto pude, mas, as forças logo me faltaram e meus passos se tornaram lentos e pesados enquanto o temor aumentava atrás de mim. Meus pés atordoados me levaram à aquela grande caverna no fim do corredor, mas espere!
Não havia caverna alguma, apenas um céu escuro sobre minha própria casa, que se erguia na noite como um castelo impenetrável, sem dúvida, era um sonho, nada mais do que isso, muito embora, não deixasse de ser perturbador ouvir um dragão serpentear e… grasnar?
Parecia que havia uma grande ave dentro do túnel, então corri para dentro da casa, mas não havia ninguém lá para me ajudar, só um silêncio perturbador. O dragão finalmente irrompeu de dentro do túnel, bateu asas e voou por sobre a casa, eu o vi pela janela descendo a minha porta, e notei sua estranheza, parecia coberto de penas de cor escarlate, era muito mais o misto de uma serpente com uma ave, do que um dragão destes que vemos nos filmes; e lá, a minha porta, ele se deteve, caminhou de um lado para outro sem poder entrar, como se não tivesse permissão para isso. Busquei dentro da casa por alguém ou alguma coisa, que pudesse me ajudar, e por mais improvável que pareça, fui atendido em minha súplica, quando um objeto dourado brilhou em minha mão, seria ela, a Espada do Rei?
O monstro saltou sobre a janela e fez muito barulho quando os vidros se quebraram e cacos voaram, mas estes não chegaram a cair no chão, afinal, se tratava de um sonho e portanto, não havia total realidade nos acontecimentos. A cabeça do réptil semelhante a uma ave quase preencheu todo o rombo aberto pela investida, mas foi prontamente recebido por um golpe de minha arma; pude sentir e ver a perfuração que fiz com uma precisão e realidade que não coincidia com o resto do sonho, que era efêmero e impreciso. Então, o dragão olhou diretamente em meus olhos, parecia um ser realmente vivo, ele estava ali, tão real quanto eu, era possível até perceber as penas escarlates que recobriam seu corpo esvoaçando com um vento gélido, estar em sua presença era angustiante; tinha um olhar frio e paralisante; o réptil começou a grasnar sinistramente. Foi então que tentei brandir a espada novamente, mas não a pude encontrar, agora, havia uma única forma de escapar!
Tentando fugir em desespero, me vi novamente nos corredores de pedra que pressagiavam o mal. Depois de correr por alguns momentos ouvi som de passos além dos meus e acreditei que a Maga Sombria e o Cavaleiro das Batatas vinham em meu auxílio, mas, subitamente, seus gritos se sobrepuseram aos passos então, entendi que a criatura os havia pego. Com aqueles gritos, minha própria voz se ergueu também num grito abafado, pondo fim a aventura de uma vez por todas, quando acordei sozinho no escuro de meu quarto…
Seria muito engraçado se não tivesse sito uma experiência tão horrível; como o dragão que uma criança imaginara em suas brincadeiras com os amigos, pudera adentrar também meus sonhos para continuar sua caçada?
Pelo resto da noite não consegui mais adormecer…
 
– Minha mãe diz que, quando estamos enfrentando uma criatura estranha nos sonhos, podem ser os espíritos de luz nos ensinando alguma coisa.
Foi o que me disse Ana, quando contei sobre meu sonho por entre os escombros que a impediu, na tarde anterior:
– E se, somos dominados por eles, é porque ainda não estamos preparados para falar com os mesmos!
– Esses, espíritos de luz – perguntei – são como os Anjos da Guarda então!?
– Não sei Vaniel, minha mãe diz que não existem Anjos de verdade…
O silêncio que se formou após suas palavras, apenas foi perturbado com o anúncio da chegada de Batata por minha avó, estava então aberto o segundo torneio de videogame do fim de semana!
 
Eram bons tempos aqueles, uma época em que podíamos nos dar ao luxo de praticar videogame por horas, pois não existiam outras preocupações, ou melhor, não sabíamos que existia um mundo além daquele que imaginávamos. Bons tempos de jogos de crianças que nunca mais voltarão…

1 EL – Na verdade, é preciso uma certa atenção ao assunto, já que, mesmo dentro do hebraico, há “diferentes Els”, com significados também distintos, como, por exemplo: há uma linha de pensamento que atribui El a uma origem Midianita, tendo sido a forma com que Adão se dirigia a Deus; outras linhas, afirmam que teria sido este termo, a dar origem ao nome Elohim, que aparecem na Torá hebraica; de modo que, o El, presente nos nomes dos anjos, como em MiguEL ou GabriEL, seria um diminutivo de Elohim, porém, não seria o mesmo El que aparece em IsraEL ou EmanuEL, por exemplo, sendo este, vindo do mesmo nome próprio usado por Adão; entretanto, outras linhas de pensamento, também atribuem que o nome, teria se originado do povo Cananeu, atribuído ao deus supremo, criador da humanidade e marido de Aserá.
2 BUSHIDO BLADE 2 – Game de luta publicado pela Square, lançado no Japão e na América do Norte em 1.998.
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Atualizado em: Sex 25 Mar 2022

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