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As consequências de martelar o mulherismo nos jovens

              Eis a situação encenada e repetida em qualquer propaganda ou pronunciamento nas midias atuais: “as mulheres conquistam lugares que sempre lhes foram negados (pelos homens)”. Sob qualquer métrica objetiva que se empregue, é inegável que uma afirmação tão inespecífica com esta será verdadeira em alguns contextos e não parece ser um problema emprestar credibilidade a esta perspectiva mas é necessário ter atenção com ideia cavalo de Troia que ela traz. O “patriarcado”, como amplamente divulgado pela intelectualidade pós-moderna, é um arranjo premeditado e perpetrado pelo gênero masculino visando simultaneamente manter uma supremacia hegemônica e sufocar quaisquer manifestações da ala feminina que visem combater ou mesmo questionar este status-quo. Neste contexto, impedir que as mulheres tenham acesso a determinadas áreas, posições, atividades ou recursos é um manifestação do patriarcado que objetiva esmagar insurgências antes mesmo que elas se materializem, similar às prisões que Putin comanda quando seus conterrâneos protestam em relação à invasão da Ucrânia.
              Adultos que somos, tendo estudado profundamente os clássicos da Filosofia e tendo acompanhado o desenrolar das maiores crises políticas e militares da nossa História, precisamos olhar com cuidado não só a primeira afirmação mas também as suas consequências diretas e indiretas. Em situação bem mais frágil estão as crianças e os jovens, que continuamente são submetidos a esta campanha de criminalização e menos valia da figura masculina. Com certeza, a primeira reação é a repetição da cantilena, sem questionamento, simplesmente para não projetar uma imagem misógina e preconceituosa mas mesmo para um adulto equilibrado não é fácil entender as regras não divulgadas deste jogo. A visão aparentemente acolhedora que este novo ethos digital preconiza que não há espaço para divergências e inclusive antecipa-se a elas, sentenciando os divergentes a vagar no ostracismo da cultura do cancelamento. A técnica é empregada também em outras áreas: tente, por exemplo, criticar uma pintura feita por um homossexual e você verá a velocidade com que as críticas chegarão, além do fato de que nenhuma delas será sobre os atributos da pintura mas exclusivamente sobre você e seu preconceito.
              Pedrinho tem 5 anos e sua irmã, Josi, 9. Algum tempo atrás eles até brincavam juntos - mesmo considerando as típicos atritos entre irmãos mas recentemente uma pequena muralha começou a formar-se, cujos tijolos eram feitos de manchetes de agências de notícias, blogs, TV, conteúdo de youtubers: tudo material que eles nem consumiam, diretamente. Para Josi, já estava claro que a presença masculina - naquele contexto representada pelo seu pequeno irmão - era danosa em essência, restringia a liberdade dela e era uma questão de tempo até que ele crescesse e ativamente começasse a agredi-la. Por isto, nada mais justificável do que começar a agredi-lo agora, destruir o seu moral e pavlovianamente ensiná-lo a se desculpar por ‘ser homem’. Ainda pior do que isto, Pedrinho, em seus insubstituíveis anos de iniciação como ser humano, introjetará de forma profunda a noção de culpa, um pecado original que maculará todas suas ações e até suas intenções futuras. O quanto isto influenciará a sua personalidade, a sua capacidade de apresentar-se para uma mulher, sua iniciativa e sobretudo sua visão de si mesmo, não se pode saber ao certo mas o que se pode antecipar é que ele receberá de forma passiva afirmações como aquela no início deste artigo, ele ouvirá em disciplinado e constrito silêncio quando disserem “o país só vai tomar jeito quando tiver uma mulher como presidente”, “em qualquer lugar e momento que as mulheres estão no comando, o resultado é sempre melhor”. Tenho esperança que um dia, Pedrinho, agora com 35 anos, primeiramente em autorreflexão, questione-se: ‘faria sentido um homem tentar projetar esta imagem de superioridade, sobretudo às custas da inferiorização das mulheres?’. Talvez ele não forme um partido político ou uma ONG mas mesmo sem saber poderá estar dando volume e qualidade ao necessário movimento de reação a esta visão retrógrada, pessimista e ranzinza que coloca em hemisférios distintos homens e mulheres, que não percebe que tudo o que conseguimos até agora foi obra desta união, desta parceria, desta confiança tácita no projeto humano e no palco que continuamente se transforma em torno do qual construímos nossas vidas.
              A melhor forma de responsabilizar-se sobre erros passados é compreendê-los e, quando aplicável, parar de repeti-los e desculpar-se. Quando, entretanto, ações foram cometidas por outras pessoas, centenas de anos atrás - como por exemplo a escravidão, a sua penitência é inútil e serve somente para que certos grupos vivam exclusivamente desta sua culpa, enquanto se travestem de paladinos da justiça, moralmente superiores e necessários para guiar a sociedade no caminho certo. A ética de hoje não justificaria o que era considerado bom senso alguns atrás? Definitivamente não mas fazer o inverso, além de inútil, é revanchismo (durante muito tempo as mulheres não podiam votar porque se entendia que elas não saberiam o que fazer com este direito mas nos dias de hoje assume-se que as mulheres são melhores que os os homens, na política, por exemplo). Isto não é razoável, construtivo, maduro e muito menos preciso e este é só um aspecto que atualmente repetimos ad nauseam, propagando desinformação, promovendo a separação ao invés da união e apoiando-se em premissas já amplamente rejeitadas. Não existe um complô que impede as mulheres de serem encanadoras, engenheiras, lixeiras, pilotos de avião, barbeiras, eletricistas ou açougueiras. Analogamente, o patriarcado não está sendo relapso quando permite a presença majoritariamente feminina em áreas como pedagogia, enfermagem, nutrição, psicologia e arquitetura. Não é mais novidade que estatisticamente homens e mulheres tem preferências distintas, como por exemplo a tendência feminina de privilegiar atividades que gerem envolvimento com outras pessoas ao passo que eles sentem-se mais à vontade do que elas no trato com objetos inanimados. Estas distinções probabilísticas não são provas de crimes passados mas configuram a distribuição natural das atividades que as pessoas escolhem assumir. Mas se você prefere dizer que isto é resultado de opressão institucionalizada, aproveite enquanto a ideia cola mas cedo ou tarde terá que enfrentar a verdadeira responsabilidade do seu fracasso.
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Atualizado em: Ter 15 Mar 2022

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