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Você tem uma dívida comigo. Uma dívida moral, da atenção e do amor que me negou. Digo que te perdoei mas me irrito quando penso em você, então não perdoei nada, só guardei numa gaveta da minha alma o boleto com sua dívida com juros e juros crescentes. Sempre que abro a gaveta do ressentimento vejo o papel com o seu nome. E toda vez que olho para o boleto os juros aumentam e assim você jamais conseguirá  pagar o que me deve, pois o valor é exorbitante. O tempo está passando, vou envelhecendo e você também, nada importa, você ainda me deve e me lembro de tudo, da conta inteira.É assim quando não perdoamos, sentimos rancor, mágoa e dificilmente admitimos que temos esses sentimentos negativos. Preferimos achar que estamos certos, que nossa postura é correta, afinal foi o outro quem feriu, o outro quem deu golpes em nosso coração. É certo sentir-se assim, segundo nosso raciocínio completamente afetado pela falta de uma clara percepção.O rancor é um sentimento amargo. Enxofrado. Dificilmente reconhecido por quem o sente. Por isso mesmo difícil de nos livramos dele. Temos nossa razão e não queremos abrir mão dela.
O orgulho nos deixa com uma visão turva da nossa própria realidade interna.Quando enfim compreendemos que o mal que alguém provocou resultou num mal maior, contaminando nossos sentimentos com uma alta voltagem de negatividade, então estamos mais perto de jogarmos fora o peso de uma vida sem perdão.Perdoar com palavras é muito fácil. Talvez para mostrar uma grandeza interior, um espírito superior... eu sei lá! Porém se apenas lembrar do fato ainda dói, então o perdão ficou só nas palavras mesmo.É óbvio que a iniciativa em querer perdoar e se livrar do amargor e da raiva que nos arranha por dentro é de uma grandiosidade sem medida. Às vezes doeu muito fundo e a gente não consegue se livrar daquela dor sem um grande esforço, uma forte vontade de libertação. Dias, meses, anos... não dá para determinar quando o perdão será liberado. Ou o quanto estragou dentro de nós e precisa ser consertado. Mas uma coisa é certa, quanto mais tempo passamos guardando porcaria dentro da gente, mais vamos apodrecendo até a porcaria toda tomar conta de nós.Perdoar não é fácil. Mas é um antídoto contra a amargura. Acontece um milagre dentro de nós, quando nos dispomos a desfazer as malas cheias desse sentimento tão destruidor, bagagem inútil que só pesa na alma.Essa semana vi uma reportagem de uma mulher que há 21 anos atrás tomou um tiro na mandíbula enquanto trabalhava numa loja, isso lá nos EUA. Ela tinha 17 anos e a menina que atirou tinha 14. Um programa de tv colocou as duas cara a cara e o diálogo foi muito difícil. Ela já sofreu dezenas de cirurgias mas ainda está com o rosto muito deformado. Mas o que a gente percebe logo é que não é so o rosto que está assim. Infelizmente o estrago foi além da dor física. Por sua vez a agressora  pediu perdão várias vezes. Disse que pagou a pena e teve que aprender a se perdoar também pelo mal que fez. No entanto a postura tanto da mulher ferida e de sua mãe é de um tom de amargor que me fez pensar: " e agora?". Despejar esse fel todo vai adiantar o que? Perdoar não vai fazer o tempo voltar ou mudar a situação externa, mas por dentro muita coisa pode acontecer. Grandes transformações começam desde o momento em que você se livra daquilo que te consome.Imediatamente me lembrei do pai do Ives Ota, que teve seu filhinho de apenas 8 anos sequestrado de sua casa e assassinado com 2 tiros no rosto, por ter reconhecido um dos sequestradores. A história é terrivelmente triste, porém esse pai-herói , escolheu não se deixar consumir pelo ódio e amargura. Assim ele fundou o Instituto Ives Ota, apenas um mês depois do crime (Movimento Paz e Justiça Ives Ota). De uma tragédia brotou uma semente do bem, do coração em pedaços de um pai em luto para muitos que precisam de uma segunda chance. Esse instituto segue orientando, dando assistência social, levando esperança e proporcionando oportunidades de uma vida com dignidade, inclusive aos assassinos de seu filho, pois no presídio em que eles estão presos o sr Masataka Ota desenvolve um projeto de ressocialização de presos.Ele não é um super-humano. É alguém que escolheu viver e não apenas sobreviver. Ele diz: "Perdoar é tirar o ódio de dentro de você".Não importa se você tem motivos para odiar, mas viver com sentimentos ruins em maior ou menor escala te manterão preso na pior prisão que alguém pode ter, nas masmorras do caos interior.Você pode escolher ser o seu próprio algoz ou livrar-se de uma existência triste assim.No fundo só você mesmo pode decidir o que fazer.
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Atualizado em: Qui 25 Jan 2018

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