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O presidente perfeito

           Quem já passou por várias eleições no Brasil seguramente já teve aquela sensação de ‘agora vai’ e alguns meses depois decepcionou-se com o desenrolar dos acontecimentos. Entra eleição, sai eleição, o drama é sempre o mesmo, as esperanças renovadas dão lugar à frustração da tragédia repetida mas até na política vale o ditado teuto: ‘so jung wie heute nie mehr’. Antes de bovina e ingenuamente tomar seu assento no próximo pleito, convido o leitor a uma pequena jornada cujo objetivo é investigar se ter esperança é uma aspiração legítima ou somente um desejo desconectado da realidade.
           Tudo começa com o embaraçoso processo democrático, que coloca nas mãos incapazes de uma população desinformada a hercúlea tarefa de apontar o comandante em chefe que liderará a nação nos próximos anos. O erro inerente ao processo já deve estar claro: quais os critérios que os eleitores usarão para determinar o candidato vencedor? Que atributos ele deve ter para convencer a horda e ainda mais imponte, que atributos a escumalha valoriza e busca para ungir o príncipe das urnas? Embora toda propaganda política esteja montada sobre a premissa que o eleitor sabe identificar o candidato com as melhores habilidades, a tese é totalmente falsa e contrário tem bem mais chance de ser verdadeiro. São os candidatos que se moldam ao que imaginam ser as expectativas do eleitor e é por isto que praticamente todos se apresentam, em algum momento, em camisas com mangas dobradas - símbolo universal de trabalho duro e compenetrado. Acontece que não consta na lista de características obrigatórias para os candidatos a formação técnica na área, conhecimento formal de gestão, superlativas habilidades de diálogo e negociação, familiaridade com as estratégias mais atuais e eficientes de administração pública, sem falar na compreensão das várias escolas de pensamento moderno de economia, geopolítica, trabalho, etc. Estes são somente os requerimentos mínimos para uma atuação de sucesso mas sem eles o fracasso é um acidente tão imprevisível quando as enchentes no Rio e SP.
           A questão fundamental é o descompasso entre as habilidades necessárias para um bom trabalho e as características que o eleitor exige. Se o candidato tem o conhecimento, inteligência e pertinácia necessária para conduzir um bom mandato, possivelmente ele não terá a interlocução necessária com a maioria da população, que o acusará de elitista, distante e que possivelmente que aperta a pasta de dente na metade. Por outro lado, se ele tiver uma origem humilde, baixa escolaridade, um latente desafeto pelas regras mais básicas da gramática e a visão que gestão pública requer o mesmo bom senso que se usa para atravessar a rua, ele até pode estar fadado ao Planalto mas dificilmente terá êxito em outras áreas além de shows de variedades e programas de futebol. O dilema é similar àquele proferido pelo cientista que, estudando a complexidade do cérebro, sentenciou: “se nosso cérebro fosse simples a ponto que pudéssemos compreendê-lo, seríamos tão simples que não o compreenderíamos”.
           Talvez a expressão ‘presidente perfeito’ dentro do contexto brasileiro, seja uma contradição em termos, algo como, como inteligência militar ou quadrado redondo. Em geral, considero o pessimismo como a rota dos covardes mas neste caso não existem muitas opções. Há quem acredite (equivocadamente) que a probabilidade de que a inteligência humana tenha se desenvolvido de forma natural seja similar a de um vendaval transformar o pátio de um ferro velho em um 737 novo. Similarmente, é preciso reconhecer que há uma chance não nula de que toda esta situação se resolva sozinha - como o caso do 737 - mas se não quisermos esperar 250 mil anos talvez seja hora de analisar como podemos interagir com este processo para aumentar suas chances de processo, de forma incremental, lenta, colaborativa e contínua - mesmo que isto signifique deixar de ouvir funk.
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Atualizado em: Qui 24 Fev 2022

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