person_outline



search

[Desabafo] CULPA

Já passava das onze.
Apesar do meu corpo clamar por um banho e cama, estava tão exausto psicologicamente e o era tamanho que eu poderia ficar relaxando ali mesmo... largado no banco úmido de jatobá, durante a madrugada inteira.
Ficou tarde e o meu bairro ainda mais silencioso - se é que isso é possível. O casal, antes ao longe, lentamente se aproximava, caminhando em direção à mesma estrada de terra que usei para adentrar ao bosque.
Peguei meu celular e fiquei pulando as estações na tentativa de encontrar uma música que mantivesse a minha mente livre de pensamentos que prendessem a minha atenção à ela. Sem deliberar coloquei na 106 e me deparei com “a sad song about a girl i no longer know", frustando meus objetivos.
Ajustei os fones, peguei a mochila na grama molhada e me abaixei para pegar a biclicleta jogada na estrada de areia. Enquanto me preparava para abandonar não só as árvores, mas àqueles sentimentos, fui apunhalado.
Definitivamente aquela noite, nostálgica, não havia chegado ao fim. Mais que nostálgica, agora ela seria dura.
Ouvi uma conhecida gargalhada exagerada.
Senti a sua presença.
Ainda agachado me virei para confirmar. Intuição?
Ela estava bem ali, em meio a risos e à vontade com aquele cara. Foi a primeira vez que vi o sujeito. O tempo todo ela estava ali e por óbvio sequer cogitei a possibilidade. Se tivesse a avistado mais cedo, a hemorragia da cena teria me feito ir embora muito antes.
Mais uma vez a sacanagem do destino. Apenas coincidência ou sincronicidade?
Todo aquele delírio desde o princípio da noite veio para me sacanear. Não devia ter lido “Fuga — Parte I".
Quando finalmente desenterrei e encarei os meus conflitos, quando enxerguei o buraco, o Universo fez questão de me dar um tapa na cara. Tornando o que já era complicado, ainda mais difícil.
É péssimo quando a gente é quem passa na pele.
Nos segundos em que ela se aproximava fiquei tenso e paralisei.
Quando o casal finalmente caminhava ao meu lado, fisguei aqueles olhos penetrantes em mim.
Mas o seu olhar, intimidador, me disse muito. Pela primeira vez ela não desviou o caminho, como costumava. Sei que ela não suportava me olhar.
Naquela noite ela me olhou mesmo. Nos olhos. O olhar dela para mim foi voltado com a mesma narrativa da última noite. Decepção.
Não havia raiva, pena, soberba, acusação ou ira.
Apenas decepção. A mágoa estampada na cara.
Não me acusou de nada, mas senti culpa.
Uma culpa traiçoeira. Só não sei se para algo que ainda era ferida ou já cicatriz.
Havia algo a se resolver? Deus, eu tinha inúmeras interrogações e uma lista de pingos nos "i's".
Até quando essa necessidade por esclarecimento me corroeria?
Não bastasse, sinto que estou em débito. O meu débito é um sincero pedido de perdão por quebrar a nossa primeira cláusula, "respeito".
Isto, não só por um julgamento que fiz diretamente à ela, mas também por uma acusação suja e em conjunto com uma série de ofensas que, apesar dela apenas ter "ouvido falar", eu realmente fiz.
Recordo as últimas palavras que ela dirigiu a mim, vomitadas:
“Jamais esperaria isso de qualquer pessoa, muito menos de você. Nunca vou esquecer suas palavras. Tô tão decepcionada. Hoje foi a primeira vez que eu me arrependi por sentir o mundo. Joga fora que me você conheceu. Joga fora tudo o que viu em mim. Faz de mim um monstro. Faz o que você quiser. Sabe, depois do cara que eu amo apontar o dedo na minha cara e equivocadamente induzir uma série de absurdos… depois dele me fazer imunda, quando não sou digna de qualquer das ofensas que recebi… desse homem eu já não espero e nem quero mais nada, pois não é capaz do mínimo, me RESPEITAR."
Passou diante de mim com indiferença e ao me dar as costas compreendi a sua penúltima frase que antecedeu o fim: "morri naquela noite uma centena de vezes".
Dessa vez, eu quem morri na madrugada uma centena de vezes.
Pin It
Atualizado em: Seg 13 Dez 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222