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[Desabafo] ESCRITO

Analiso as linhas fortes do meu rosto, prestando atenção em como de perfil ele é constituído de traços egípcios e o quanto minhas sobrancelhas quando erguidas exalam autoridade, soberba. O meu rosto demonstra uma mulher ríspida e que eu ofensivamente chamo de “passiva-agressiva”.

Torço para que na verdade isso seja completamente dissociado do meu eu.

Reparando cada um dos meus traços constato o quanto envelheci, em um curto espaço de tempo. Novamente é dezembro.

Não consigo apontar qualquer mudança na minha rotina desde o natal passado, são os mesmos meios. Estou de saco cheio da monotonia.

Inclusive, uma monotonia bela e traiçoeira. Isto porque, é nesta mansa monotonia que uma pilastra lentamente desabrocha uma rachadura e de um instante ao outro ela desaba, bem diante do meu nariz.

Desmorona na minha frente, quando sequer fui capaz de constatar o desgaste, a movimentação ou a caída de cada uma das pequenas partículas de poeira no chão. E aí indago a mim mesma: “como isso pode acontecer?”, diante do que não deveria ter me sido uma surpresa.

De pronto, em voz baixa, aponto minha insatisfação com mudanças físicas, pois agora diante do espelho do banheiro são muitos visíveis. A moldura em madeira e com detalhes em bronze torna o contexto melancólico. O meu rosto exala exatamente o que foram esses dias para mim. Dias que marcaram a minha pele, trouxeram muito mais que marcas de expressões e rugas.

Aqui, diante de uma luz quente, ao som de “Thunder — Lana Del Rey”, pelo espelho vislumbro o box ainda embaçado e continuo a fitar o meu rosto, questionando quando foi o exato instante em que me tornei amarga.

Ponto. É isso. A definição exata. Amarga. Uma mulher amargurada. Não sei se amargurada ou amarga. Seriam as duas palavras apropriadas?

A mulher que está amargurada tem olhos de serpente e é quente. Tem inúmeras características, mas a que sobressai aos olhos é a amargura. Meu olhar está voltado para os traços que demonstram isso.

Não sei se são os adjetivos corretos, mas de fato ainda assim a mulher séria é incrivelmente atraente.

Tateio e deslizo os meus dedos lentamente e com cuidado sob os meus traços. Como a amargura pode estampar o meu rosto e ainda assim eu me sentir incrivelmente aliciante?

É o exato instante que me olho nos olhos e não me vejo.

Torno aos alvoreceres adormecidos.

Tenho uma reprise do processo que me trouxe até esse agora, que me deram marcas quais não escolhi.

Os meus olhos evidenciam a caça pelo exato instante em que tudo aquilo começou.

Seria cômico se não fosse trágico. Rio comigo mesma por identificar o ciclo vicioso:

Cai uma pilastra.Passo dias consideráveis até processar que a pilastra de fato caiu.Entro em desespero por causa da queda da pilastra.Me martirizo cogitando as razões do desabamento.Derramo dias cogitando inúmeras hipóteses quanto a maneira mais eficaz para retirar toda aqueles troços (quando na verdade estou postergando o trabalho e me contentando com a inércia).Posteriormente acabo me conformando e aceitando aquela queda.Quando finalmente ultrapasso o enfrentamento ao luto e estou de fato iniciando os cuidados para limpar toda aquela bagunça, outra pilastra sede.

Mais uma pilastra sede e numa evidente ironia praguejo que está “tudo bem”, não mentindo nem um pouco ao afirmar que “agora a casa de fato está sem sustentação”.

Todavia, numa outra vertente, outra coisa muito evidente neste ciclo, creio que a parte doce da história, é o quanto escrevi. Especialmente neste último ano.

Inclusive, talvez por lidar com os estrondos e a consequente tempestade de poeira, o processo de escrita se tornou mais bruto se comparado com as outras estações.

Os textos ficaram mais longos. Arrisquei no estilo que não tenho. Inclusive, abandonaram o outro e passaram a contar muito do que eu vejo. Aliás, em alguns, confesso que escancarei muito de mim.

Apesar de praticamente a maioria deles possuírem narrador personagem, não compõem um diário, biografia. Não são relatos da minha vida. Chame como quiser e os interprete como quiser. Ponto.

São resultados de uma químera. Ainda que às vezes não seja evidente, uma coisa ou outra é fantasia. Coloco mais pesar, mais emoção, torno tudo mais intenso ou terrivelmente razoável. Minto.

Nem todo texto elucida algo sobre o próprio autor. Mas não descarto que talvez revelem muito sobre um pseudônimo, que pode ser uma de suas personalidades.

Raro são os excertos que me entrego.

O problema.

Sim, já ousei e me debrucei a escrever um texto sobre mim. Sobre o que vivi, quem sou.

Nessas ocasiões, durante aquele processo de escrita em específico, o ar me é intimidador. Quando estaria sendo sincera comigo mesma ou criando uma personagem inspirada em mim? Uma versão pirata de mim mesma…

O problema, digo, é ainda maior.

Até que ponto estaria realizando uma descrição fiel das tardes vividas? Seriam lembranças rasas, falhas ou mesmo com somente a minha hipócrita versão de verdade? Até que ponto o tempo teria apagado as memórias, envelhecido as falas?

Posso desenhar inúmeras razões visando justificar porque escrever sobre quem ora subscreve é um grande impasse.

Como já afirmei, durante os alvoreceres findos ousei neste sentido. Ousei algumas vezes com o intuito de gravá-los por todo o meu “pra sempre”, já em outras apenas para provar a mim mesma que uma hora aqueles dias e instantes finalmente chegariam ao fim.

Confesso que os mais encantadores foram com o objetivo de tornar uma memória sempre aquecida, de modo que, ao voltar aos meus escritos, pudesse vivenciar cada segundo daquelas noites com o mesmo prazer, alegria, êxtase, devoção. E foi justamente diante destes que morri de medo de ser vazia, rasa.

Tenho alguns rascunhos desses manuscritos guardados na gaveta. Inacabados e esdrúxulos diante da preciosidade do que eu vivi. E claro que também nisso há a velha dualidade.

Ao mesmo tempo me torturo pela ideia de que quando finalmente tenha coragem para me debruçar na tentativa de eternizar no mundo dos fatos o que hoje são apenas minhas memórias, que já as tenha esquecido ou perdido peças do quebra-cabeça.

Outros me pareceram ousados e questionei a mim mesma se eu queria deixar aquilo pormenorizado. Especialmente, aqueles em que relatei sobre a queda de algumas pilastras, extremamente longos e ricos em detalhes.

Mês passado me deparei com um deles, publicado. Não recordava o teor. Em voz alta o recitei a mim mesma, o interpretando quase que numa proposital encenação. Confesso que, não sei como, fiz esse exercício completamente dissociada do meu eu. Li como se outra pessoa quem o escreveu e fiquei extremamente enfurecida com o enredo. Respirei fundo ao terminar de ler e fui grata por tudo aquilo estar num passado distante.

Imaginem o meu choque ao cogitar que aquele texto, apesar de despretensioso para outras pessoas, mas um gatilho para mim, estava aberto aos palpites alheios. A minha narrativa escancarada para a crítica de quem não a viveu.

Uma exposição do meu eu, quase que sem querer, para todas as pessoas julgarem. Os leitores não sabem quando estou fazendo um relato meu ou alheio, tão menos quando estou criando. Todavia, eu sei cada um dos trechos em que me escancarei, recordo não só cada processo de escrita, mas os instantes de insight que me levaram à escrita.

Independente do teor da exposição de cada um deles, por versarem a meu respeito, parece quase que proibida a publicação. Uma exposição não só das minhas memórias e das minhas fragilidades de forma atrevida, mas também de momentos compartilhados com outras pessoas. E eu respeito tanto as memórias que não são apenas minhas e os segredos que não são apenas meus.

De alguma forma falar sobre aquilo abertamente seria usado. E não foram raras as vezes que escrevi um texto dotado de ira ou mesmo relatando um esplendor ousado demais. Numa última instância julgado como proibido. Proibido pelo meu ideal de censura. Proibido não pelo seu teor, mas justamente por ser revelador do meu gozo e do meu temor. O meu eu pormenorizado nas entrelinhas. Assustador.

Uma versão pirata de mim mesma é quem escreve. Tem uma parte da minha versão que escreve que não gosta da sua exposição, enquanto a outra metade não faz a menor questão. Ponto. Parece antagônico, eu sei.

É impossível estar completamente dissociada do texto quando do seu nascimento. Óbvio que tem algum pedaço de mim, eis que frutos dos meus delírios, das minhas sensações ou dos resultados dos meus encontros.

Como já disse, um trecho ou outro é uma versão mais colorida ou talvez mais amena do que vivi. Trechos até mesmo já narraram os meus desejos.

Não importa o quanto queira, não consigo me dissociar, ser imparcial. Não dá.

A amargura está evidente não só nos meus últimos escritos, mas nas minhas feições.

Nas últimas estações os meus textos ganharam um pesar e uma melancolia tremendamente assustadora.

Isso se tornou claro porque após ler aquele texto, outrora publicado, que justamente escancara o episódio de queda de uma pilastra, bem como suportar a estranha sensação de dissociação, passei toda a madrugada lendo e relendo os meus últimos escritos.

A experiência foi imensamente prazerosa por ter me permitido recordar cada um dos processos de escrita. Inclusive, descobri que sou capaz de afirmar com muita certeza os trechos em que fui fiel à minha história, até mesmo os parágrafos e adjetivos. E nada compra a minha aventura em recordá-los com fidúcia a ponto de experimentar os mesmos sentimentos e sensações percorrerem o meu corpo.

Mas se teve uma coisa que muito me assustou naquela noite, foi constatar que: nas ocasiões em que fiz suposições para o amanhã e também nas vezes em que fiz negativas (quando tinha total certeza do contrário, apenas para esconder o meu temor), as hipóteses se confirmaram.

Tudo isso para dizer que, em alguns textos às época fiz projeções, as escancarei após analisar aquela conjuntura, e justamente as suposições que fiz o tempo tratou de consumar.

Em linhas claras, quero dizer que escrevi e posteriormente vivi exatamente aquilo que outra hora “inventei’’. Falando de imediato parece ridículo, eu sei.

Eu também gargalhei e pensei que poderia estar simplesmente delirando e fazendo uma confusão. Cheguei a afirmar a mim mesma que: “talvez eu não tenha vivido isso, quem sabe pelo fato de ter escrito, de alguma forma que não sei explicar, as minhas memórias estão confusas” e “ou essas linhas às vezes nem são os meus anseios diante do que eu vivi, talvez tenha me envolvido demais no texto”. Juro que estava sóbria.

Será que fiz projeções de forma despretensiosa e ando constatando semelhança no que de fato não há? Talvez sejam simples coincidências…

Mas foram textos demais, com coincidências diante de coisas muito específicas, para ser apenas uma coincidência. Coincidência reiterada ainda é coincidência?

Juro que se hoje trombasse um estranho numa rua qualquer e ele sem mais nem menos me dissesse que de alguma forma eu pude dar uma bisbilhotada no futuro, acreditaria cegamente no primeiro maluco que me afirmasse isso.

Sabe o que é mais insano? A consumação foi propositalmente com relação àqueles parágrafos ou poucas linhas rasas em que retratei os meus desejos e anseios pensando em mim e não necessariamente no texto que se desenvolvia.

Inúmeras foram às vezes que com um medo do caramba usei expressões como: “mas isso não vai acontecer”, “o que certamente é impossível”, “não espero isso e desejo imensamente que não tenha de passar por isso”, “ficaria paralisada pelo evidente choque que seria”. Percebe? escrevia “não estou cogitando isso para mim, mas, suplico para que não tenha de enfrentar”, quando na verdade estava quase convicta de que enfrentaria.

Pelas orações que ora transcrevi, pode até mesmo parecer que tão somente previ a queda das pilastras. Previ. Acredito que “prever” pode ser o verbo utilizado nessa ocasião apenas para facilitar o que estou tentando compartilhar, já que não encontrei outra maneira de nomear.

Mas, como se tudo isso já não fosse embaraçoso, aparentemente, previ que me tornaria amarga e amargurada. É isso o que pretendia dizer desde o princípio.

Houveram textos específicos em que escrevi que a personagem se tornaria ou de fato era essa mulher. A projetei. E quando a fiz, idealizei uma mulher atraente em muitos sentidos e que suportava o peso dos seus sentimentos, por imensa devoção à eles a ponto de serem motivo de suas vidas e de suas mortes. Uma poesia que à época me agradava.

Talvez estivesse tão envolvida que sem querer estava em verdade desejando efetivamente ser e não somente idealizando a mulher amargurada. Eu falei muito sobre ela. Nas ocasiões que a retratei, aquilo soou como poesia… as marcas de expressões que agora vejo no meu rosto não me soam como a manifestação fática da poesia.

O contraste da minha pele fina e avermelhada com o bronze da moldura do espelho afugenta os meus pensamentos.

“O que eu estou fazendo? Fala sério”.

“Bastaram poucos minutos no banho questionando sobre sincronicidade para eu formular a ideia absurda de que, de alguma forma, naquelas madrugadas chuvosas e vazias, ouvindo seguir Cigarettes After Sex, tomando café quente, estava escrevendo as tortuosas linhas do meu destino”.

“Estou fantasiando como quando criança. Completamente maluca”.

Limpo o espelho embaçado e permaneço ali, imóvel, prestando atenção na letra de “In My Feelings — Lana Del Rey”.

“Será que também escrevi sobre a epifania?”.

Ainda diante do espelho.

Será que as minhas palavras, ainda que não pronunciadas, mas explícitas, consistiram numa manifestação energética minha para o Universo? Uma súplica? Será que de algum modo a intensidade com que escrevi, a intensidade com que me debrucei sobre cada um daqueles textos, foi o que enviou a mensagem? Estou trilhando o que escrevi?

Talvez alguns dos meus descontentamentos, assim como algumas das minhas euforias, tenham sido manifestados a ponto de reconduzir as tortuosas possíveis linhas do destino.

“Deus do céu. Misericórdia.”

Eu não deveria estar assustada já que tudo isso parece bobagem, mas estou. Simplesmente porque os meus últimos textos foram escritos na primeira pessoa e abordaram muita frustração, desilusão e entre outras coisas das quais estou farta e quero distância com urgência.

Escrever sobre o amanhã sem pretexto algum para isso, mas colocando muita energia. Foi esse o motim?

Quanto mais falo sobre isso, mais ridículo me parece.

Porém, não estaria me debruçando a respeito se de fato os meus escritos não tivessem me contado ou me dado uma prévia do que estaria por vir.

Passo as mãos sobre o meu rosto e afirmo à mim mesma, em voz alta:

“Se continuar a me debruçar sobre isso eu não vou escrever mais sobre nada”.

E se eu escrevesse um texto propositalmente cogitando a possibilidade de uma manifestação para o Universo? Em um contexto nada ocasional realizar um sussurro para o futuro, funcionaria?

Creio que não. Afinal, estaria fazendo com a intenção “de” e talvez justamente desejar mas não fazer o ato de escrita com a intenção de tanto, ou seja, sem pensar no retorno, possa ser o que tenha levado à isso. Levado a escrever de forma inconsciente a trilha do destino.

Calma. Ao escrever eu influenciei o destino ou previ o que já estava determinado?

Não sei e nem pretendo descobrir.

Já disse que quanto mais eu escrevo mais inusitado fica isso aqui?

Nem sei se ousaria escrever os meus desejos de forma literal…

Aliás, e qual seria a graça de saber o amanhã, se justamente a imprevisibilidade que nos causa a emoção, o desejo, a tristeza e até o arrependimento? Sabe, em algumas ocasiões é justamente o “eu não sei o que isso aqui vai dar” é que alimenta a gana, a euforia.

Eu gosto da imprevisão, apesar de ultimamente ter me assustado vezes consideráveis com o estrondo da queda dos pilares.

Já que iniciei, irei finalizar. Não foram apenas os devaneios quanto a queda das pilastras que relatei de forma precoce. Fiz afirmações escritas das quais gostei muito de reconhecer que elas chegaram. Quanto a este segundo não irei contar detalhes pois é grandioso demais para ser escrito.

Ali, demoradamente encarando a mim mesma no espelho do banheiro quente e, notadamente, delirando, tento afugentar os pensamentos. Me enrolo no roupão, abandono o calor do banheiro. Chego ao meu quarto e me deparo com o livro que estava lendo recentemente no ônibus, sobre o poder das palavras. O fisgo e afirmo em voz alta:

“Você é o causador desta insanidade, está alimentando-a”.

Ou seria mais uma coincidência me deparar com as coincidências já relatadas enquanto me doava na sua leitura?

Será que posso atribuir esse fatídico do banho ao livro? Afinal, não é porque li Peter Pan que acredito na terra do nunca.

O fato é que me deparar com as coincidências entre os meus dias e os meus textos me levaram ao episódio de delírio no banheiro.

Talvez essas coincidências reiteradas sejam sincronicidade….

E mais uma vez eu caio na história do destino, da projeção, do poder das palavras, do poder de agir no hoje como se estivesse vivenciando algo que evidentemente acredita que haverá de acontecer, mas sem intenção de tanto.

Sabe, em algum lugar no tempo fui daquelas pessoas que afirmavam, “nunca” e “jamais”. Depois disso aqui, vou me limitar a ficar no “e se”. Por isso não descarto a possibilidade de uma doideira dessas ser real.

Talvez eu só tenha uma mente criativa que às vezes me sabota.

Realmente escrevi a queda de cada uma daquelas pilastras. Quedas que me deixam. Quedas que sustentam a amargura. Quedas que exalam o aroma do gosto amargo.

Por cautela, registro que acredito que as estações seguintes irão esvaziar o peso que ela suporta. A amargura em algum momento se vai. O sabor amargo fica doce. Quando não sei, mas fica.

Seja com o vai e vêm das ondas quentes, quer seja com o florir ou o cair das flores… a mulher há de encontrar novamente o templo em si.

“Universo, por favor, escreve isso”.

Nina Couto ©
Publicado — 2021
@ninacoutoj

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Atualizado em: Qui 2 Dez 2021

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