person_outline



search

APRENDIZADOS

COISAS QUE APRENDI COM O FALECIMENTO DO MEU PAI
 
1. A DOR DA PERDA É INSUPORTÁVEL, MAS É PASSAGEIRA. 
 
Eu achei que iria morrer. Não tinha dúvidas disso. Naquele domingo, dia 18/04, quando o médico me ligou e pediu para falar comigo pessoalmente, eu imaginei 1000 coisas, dentre elas notícias milagrosas de um homem (meu pai) que teria milagrosamente se recuperado e por isso eles estavam me chamando para presenciar esse fato. Mas no fundo eu sabia, no meio daquele turbilhão de sentimentos lembro de olhar para o céu e pedir para Deus receber o meu pai de braços abertos. 
Quando fui noticiada do ocorrido, que ele realmente havia partido, ás 14 horas daquele dia, meu coração partiu, mas não tive reação, não tinha lagrimas, palavras e nem sentimentos. Era vazio, solitário e escuro. Me senti desprotegida, e realmente estava. Posteriormente associei que perder um pai é isso, é ficar sem a proteção, sem o zelo, é realmente vazio. É solitário. É escuro. 
Depois disso, os dias que vieram me causaram os piores sentimentos já sentidos, dores emocionais tão fortes que se misturavam em uma coisa só, chegava a doer fisicamente. Teve momentos que realmente achei que morreria, não tinha dúvidas disso. Viver todos os dias com aquela dor que me rasgava o peito, de novo, e de novo. Que queimava e que fazia meu peito sangrar, eu não sabia que a saudade doía tanto. 
Passado um tempo, começou a doer cada dia menos, de forma leve e gradativa. Foi diminuindo, os sentimentos bons iam, enfim, se sobressaindo aquela dor insuportável.
 
2. BUSQUE AJUDA
 
Eu nunca havia procurado ajuda para lidar com meus sentimentos, sempre achei que não precisava. Eu mesma me consolava, cuidava de mim, quando estava nervosa ou ansiosa, assistia uma serie, ouvia uma música e resolvia. 
Mas nada na minha vida havia destruído o meu emocional como perder alguém que eu tanto amava, era desolador, me sentia em uma bolha de tristeza, raiva, saudade, frustação, impotência, solidão, era um caos. Ao longo dos dias percebi que tinha picos de ansiedade, o coração acelerava, as mãos suavam e o ar faltava. Já não dormia a noite, a comida não tinha mais gosto, a vontade de lidar com tudo aquilo sozinha me invadia. Mas eu sabia que não ia conseguir, por isso, busquei ajuda. A melhor coisa que fiz por mim. Meu pai ficaria orgulhoso. A psicóloga me ajudou a colocar tudo em ordem, a vivenciar de fato o luto, não fugir dele, lembro dela ter falado algo do tipo “o luto é o preço que se paga por amar alguém” e eu só pensava “se a dor for proporcional ao amor, eu realmente amava esse homem”. É o meu conselho para todas as pessoas que irão ler esse texto, busque ajuda, nós precisamos, definitivamente, não somos autossuficientes, ao menos não nesses momentos. 
 
3. CADA UM COM SEU TEMPO
 
Respeitar as pessoas e o tempo delas é importante, e é difícil. Na semana que se seguiu a perda do meu pai, eu sofri. Muito. Foi a pior de todas. E me incomodava muito a forma com que as pessoas lidavam com a perda dele. Lembro de pensar “como assim vocês já estão seguindo?” “Já estão postando fotos sorrindo?” Eram as frases que ficavam na minha mente todas as vezes em que eu via um familiar ou amigo que foi próximo a ele. Mas a vida segue, as pessoas lidam de forma diferentes. E é preciso respeitar isso, acredito que o luto de cada um vai ser influenciado pelas coisas que o indivíduo viveu com a pessoa que partiu, no meu caso, eu queria ter vivido mais, quando meu pai faleceu faltava cerca de menos de um mês para o meu casamento, não consegui lidar bem com aquilo, cancelei tudo. Não era algo que eu queria viver sem ele. Não dava. 
O fato é que, tudo havia mudado, a vida realmente estava seguindo, mas estava diferente.
 
4. A VIDA SEGUE, MAS SEGUE DIFERENTE.
 
Nenhuma experiência que passei em minha vida, mudou tanto a minha perspectiva de mundo como a perda do meu pai. Eu achava que sabia o que era confiar em Deus, até ouvir do médico “a medicina já fez tudo que podia, agora é só com o cara lá de cima”, eu achava que sabia o que era amar alguém, até pedir pro senhor me recolher porque não enxergava a possibilidade de mundo sem o meu velho aqui. Eu passei a valorizar as coisas pequenas da vida, o “eai princesa?” que meu pai falava quando chegava em casa do trabalho, o beijo na testa de presente de aniversário que ele me dava, o “vai da tudo certo” que ele me dizia no momento de angustia, o amparo, o afago, o amor, o cuidado, meu pai sempre foi mil e uma utilidades, ele era tudo, soldador, marceneiro, mecânico, eletricista, pintor, desenhista, matemático, amava uma gambiarra, tudo ele fez por mim, seja uma estante de livros (com literalmente, umas 5 tabuas de madeira do quintal), um baú para guardar minhas tralhas, um tabuleiro para jogar xadrez, uma lanterna acoplada ao meu óculos para ler os livros a noite, foram tantas coisas, realmente ele exerceu o papel de pai com excelência. Essas coisas me fizeram perceber que não posso aceitar o mínimo de ninguém, nem fazer o mínimo para ninguém, é preciso construir uma estante de livros para a pessoa que amo, me desdobrar pra realmente mostrar o quanto gosto de alguém, meu pai me mostrou, do jeito dele, todos os dias. Fazendo todo o possível pra mostrar o quanto me amava, com gestos. Não precisava dizer, ele mostrou todos os dias o quanto eu era importante pra ele. 
 
5. A RETOMADA DA VIDA APÓS O LUTO
 
Em meio a uma perda irreparável e dolorida, a vida segue. Aos poucos tudo vai se encaixando no lugar, enfrentar o luto ajuda muito, aceitar que a finitude da vida é algo natural e respeitar o tempo de cada um aqui na terra é o remédio, eu lembro de pensar no que meu pai falaria para mim nesse momento, e só vinha na minha cabeça “ah, lu. As pessoas morrem, para de ser mala e vai seguir sua vida”, e eu caia na risada com isso. Meu pai era assim, oito ou oitenta, não tinha tempo de sofrer, era “levantar a cabeça e seguir”, mas nesse ponto eu não fui tão firme, não consegui ser tão forte quanto ele, a minha vida segue. Mas segue com dor, com saudade, há coisas que não consegui retomar, e sinceramente? Tudo bem. Tudo bem sofrer por um cara que fez muito por mim, que me cuidou, que me zelou, que formou o ser humano que sou hoje. Agradeço ao senhor Jesus por esse privilegio, ter esse cara como meu pai foi uma das coisas mais extraordinárias que já aconteceu comigo, e assim a vida segue, aos poucos, com cautela, com sede de viver e não deixar para depois, com vontade de entregar orgulho para o meu pai, relembrando dele (e as vezes chorando) quando como uma castanha do pará, e tudo bem. É o luto, tem dias melhores e dias piores, mas sigo firme, sabendo que um dia vou reencontrar esse cara espetacular a quem tive a honra de ter como pai.
Pin It
Atualizado em: Seg 27 Set 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222