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Sou a protagonista preferida da minha história

Desde criança sou criadora de história. Porém, nunca fui estimulada ou incentivada a escrevê-la desde cedo. Meu pai era um nato contador de histórias. Ele era do mundo das artes. Sabia tocar, cantar, recitar. Uma mente fantástica. Nas madrugadas serena do semiárido pernambucano, passava horas à beira do fogão de lenha, traçando os roteiros, criando enredos e personagens. Às vezes eu percebia uma particularidade e universalidade de ser humano. Diferente de outros homens que eu conhecia. Pensava: por que ele é essa figura lendária?
            As histórias dele eram a maioria baseadas em fatos reais. Os diálogos aconteciam com as pessoas reais. Até pessoas que eu conhecia. Não sei se ele viveu tudo que contava. Ou era apenas aquilo que ele queria que fosse. Ele tinha um mundo de coisas, lugares e personagens na mente. Descrevia os lugares de forma detalhista. Eu lembro que a família. A nossa família aparecia no romance criado por ele. Como ele não sabia escrever, narrar/contando em voz alta era a melhor forma de expressar aquela habilidade de romancista.

             Eu tenho muito orgulho de ser filha dele. De ter sido educada por uma mente tão criativa. Descrevê-lo é como descrever um pouquinho de quem eu sou. Ele conseguia suspender o mundo concreto e ir para o mundo imaginário. Às vezes eu tentava interrompê-lo para ir junto dele para o mundo feliz que apresentava. Meu pai dava gargalhadas – “sozinho”. Simplesmente fantástico. Ele não deixava. No fundo ele apenas queria que eu me descobrisse sozinha.
    
             Tenho espírito independente e uma mente criativa. Fui influenciada por ele em todos os sentidos. A cada dia que passo eu fico mais parecida com ele. E hoje talvez eu seja ele na minha versão. Não sei tocar e cantar. No entanto, a habilidade de contar histórias é a minha arte. Eu sou a protagonista da minha história de criança. A adulta que eu me tornei é o que eu sempre sonhei quando criança.

               Desde pequena. Apesar de não ter crescido muito. Conto histórias. Alguém já disse: sai de teu mundo. Só imagino. Vou nada. Então, tenho um mundo fabuloso na minha mente. Meu pai entenderia. Como ele não está mais aqui comigo fisicamente. Sou forçada a escrever a trama dele e minha. Pra dizer o que penso. Não se preocupe com erros de escrita. Falam que aprendemos com o treinamento.

             Quando eu morava lá em São Caetano, era o meu pai de um lado e eu de outro, contando histórias. Ele já era mestre. Eu aprendiz. Ele viajava o mundo. Às vezes percebo que ele poderia ser um personagem do Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, ou de Os Sertões de Euclides da Cunha. Na minha história de criança a protagonista principal era sempre uma mulher. Todo o enredo e os personagens secundários giravam ao entorno dela.

              A protagonista da história sou eu. Imagina. Uma criança que mora no interior de Pernambuco, naquela época com pouco contato com TV, ou essas coisas de cidade grande que sufoca a imaginação e curiosidade das crianças. Ali era o lugar ideal para me tornar escritora nem que seja desenvolvendo a própria mente. Coisas acontecem e muda tudo. Vim morar na cidade grande e logo depois entrei na universidade. O mundo foi aberto. Fui jogada dentro da história que tenho mentalizado desde criança. Então, comecei a escrever os relatos das minhas experiências. Dei um salto. Agora a meta é torná-los parte do enredo.
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Atualizado em: Seg 27 Set 2021

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