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[Desabafo] ARROGÂNCIA

Ela literalmente não estava nem aí para a maioria das coisas cujo as quais eu me atentava. Ainda que eu dissesse, ela não se importava. Eram coisas que ela julgava banais e não via sentido na mudança. Aquilo me corria.
Detestava a sua falta de pontualidade. Deus, ela não era nem um pouco pontual. Detestava como sempre marcava coincidentemente encontros no mesmo dia ou eventos importantes. Ela tinha hora para ficar em cada lugar. Não sei como, mas em um mesmo sábado ela foi num evento escolar, em uma cerimônia de casamento e ainda terminou a noite no teatro comigo.
Detestava como ela tinha um “momento” e “clima” para tudo, assim como o quanto se programava e se preparava para qualquer coisa. Detestava a sua indisponibilidade.
Detestava o seu desleixo ao sentar-se, não prestava atenção na postura. Detestava o seu jeito largado de se jogar na grama e sujar o jeans, assim como o fato de não se importar em sentar no meio-fio de madrugada para conversar. Detestava o seu caminhar despreocupado.
Detestava o quanto era antiga. Gostava de músicas antigas, filmes antigos e me convidava para ver documentários. Era uma tortura.
Detestava o quanto era acumuladora de papel, coisas desnecessárias. Tinha um baú de recordações. Repleto de escritos, cartas, ingressos e fotografias reveladas as quais ela se doava na legenda no verso. Ela era antiga. Detestava que não me ouvia que um dia tudo ia correr, que deveria passar isso para o meu digital. Até seria mais prático. Mas ela persistia em falar que perdia a essência e sensibilidade com as memórias.
Detestava, sobretudo, o fato de guardar bilhetes e cartas também de “admiradores”. Acredito que até antigos amantes. Quando disse isso, ela me corrigiu imediatamente. E, como de costume, citando Clarice Lispector, disse friamente “não eram propriamente meus amantes porque eu não os amava”. Eu disse que ela era antiga.
Detestava o seu acúmulo de livros. Tenho certeza que mais comprava do que lia. Era um gasto, naquele momento, desnecessário. E ela ainda não gostava quando eu dizia: “Outro? Mas tem inúmeros livros no plástico na sua estante!”. Ela respirava fundo com o meu adendo.
Detestava ainda mais a sua falta de visionismo. Vivia em sebos e comprava muitos livros nesses lugares. Porém, tinha a mania estranha de rabiscar, grifar e colocar folhas secas em todos os seus. Tenho convicção que ela não os leria novamente e nem passava pela cabeça dela que poderia vendê-los aos sebos novamente se não os tivesse estragado.
Detestava o seu jeito quando eu a tirava do sério. Se limitava em me olhar, escancarado um “é sério isso?”, logo em seguida respirar profundamente e ignorar a minha atitude. Detestava tanto isso porque secretamente eu a queria ver perder a linha, o que nunca aconteceu.
Detestava como gastava o dinheiro dela com coisas banais. Não tinha o menor zelo.
Detestava o seu antagonismo em muitas coisas, sutis. Como o fato de odiar cigarros e achar sexy o meu tragar ou mesmo não beber refrigerante e facilmente tomar uma garrafa de vinho. Detestava eu facilmente me embriagar e ela não.
Detestava o quanto era indecisa, o quanto demorava para fazer a menor escolha que fosse. Detestava ela passar horas escolhendo entre um produto ou outro.
Detestava principalmente o seu uso de 53 mil palavras para dizer algo que eu diria em apenas cinco. Detestava como sempre se prolongava.
Detestava como não tinha papas na língua e falava sem receio algo que estava pensando para seja lá quem fosse.
Detestava o seu olhar julgador diante do que lhe incomodava. Não escondia isso. Não importa quem fosse, se pedisse a sua opinião, ela era sincera.
Detestava o quanto falava “não” para algumas coisas com muita naturalidade.
Detestava a sua falta de habilidade em disfarçar. Seu rosto sempre foi muito expressivo, escancarava com muita facilidade suas emoções.
Detestava a desorganização das suas bolsas. Havia um mundo ali. Ao sair, sempre entrava em desespero por achar que perdeu o dinheiro, as chaves, as passagens ou os ingressos. E não hesitava em levar as mãos sobre o rosto pensando “de novo não”.
Detestava o fato de ler três livros ao mesmo tempo e se debruçar para me contar o enredo, enquanto eu me perdia e sequer entendia de qual história se tratava.
Detestava a sua falta de equilíbrio. Deus, que mulher desequilibrada. As emoções a tomavam. Estava num pico de felicidade ou numa mansa e profunda tristeza, completamente dotada de apatia ou ardendo em desejo. Sempre no extremo.
Detestava como dançava muito bem sozinha e o quanto não tinha qualquer habilidade para seguir os meus passos.
Detestava ela não enjoar de ouvir “Engenheiros do Hawaii” toda manhã de domingo. Sabia as letras de cor. Eu já não aguentava mais. O repertório é bom, mas o repeteco dela era torturante.
Detestava o quanto falava pela manhã. Era muito falante. Não bastasse, mudava de assunto constantemente e sempre fazia adendos inesperados ao longo da conversa. Sem mais nem menos, fazia comentários sobre a paisagem ou algo que viu e eu me perdia no assunto.
Não bastasse, as conversas que sempre partiam dela quando estávamos a sós, apreciando a natureza ou na noite vazia, era sobre o sentido da vida, o universo, filhos, emoções, o amor e entre outras coisas subjetivas. Coisas sobre as quais eu não gostava de falar, que eu não entendia bulhufas ou não me importava. E muitas coisas das quais ela acreditava eu dizia que era uma completa besteira. Na verdade sou totalmente direto e tento ser o mais lógico possível, o meu olhar é concentrado no óbvio, enquanto ela pensa e está atenta a todas as raízes e reflexos de qualquer coisa.
Detestava o quanto era pressionada pelo tempo. Estava de saco cheio de ouvir as suas orações “jogando a minha vida no lixo” e “estou perdendo tempo fazendo isso aqui, sinto que estou jogando a minha vida fora”.
Detestava o quanto ela caminhava chamando atenção. Não que ela fizesse isso com intenção, muito pelo contrário, não gostava de provocar atenção nem de ser olhada, ficava de certo modo constrangida quando via que o olhar das pessoas estava sobre si. Vez ou outra, até me dizia que gostaria de não ser visível. Estranhamente ela cativava muito, ganhava a atenção das pessoas com muita facilidade, isto pela maneira de falar e de se locomover.
Detestava quando estávamos caminhando e via que os olhares ali estavam concentrados nela, não acredito que era por ser uma mulher atraente, de fato era, mas até mesmo nos seus dias mais banais e, como costumava dizer “de desleixo e descaso” consigo mesmo, ainda assim chamava atenção.
Detestava o seu falar alto e gesticulando. Não bastasse, no meio de uma conversa facilmente se empolgava e chegava até mesmo a saltitar porque não se continha. Apesar de se rotular tímida, era histérica. Detestava a sua gargalhada escandalosa.
Eu entendia que aquela sua maneira de ser, ela simplesmente sendo, atraia a atenção dos outros. Detestava que ela ganhava atenção até demais e de quem não deveria. Eu detestava aquilo por jurar que ela fazia de propósito.
Sempre imaginei que era só mais um dos seus antagonismos, assim como era o fato de ter convicção de algo e dizer que poderia estar equivocada. Não foram raras as vezes que questionei se ela em verdade adorava e alegava não gostar da atenção que recebia e fazia toda aquela desenvoltura para provocar, pois era uma mulher provocante, em muitos sentidos.
Detestava a sua simpatia exagerada e imensa facilidade de comunicação. Não tinha qualquer barreira neste sentido, inclusive acredito que falava até demais e compartilhava muito. Gostaria que fosse mais reservada ou privativa.
Alegava que não tinha receio em dizer seja lá o que fosse, desde que fosse a verdade, não tinha receio em assumir o que já fez, dizer coisas sobre si mesmo ou contar o que realmente houve, a ideia de mentira e dissimulação a matava. Enquanto eu questionava se ela não estava a dissimular constantemente.
Detestava o quanto ela conseguia conversar sobre qualquer assunto. Não havia exclusão. Detestava, sobretudo, quando ia lhe contar algo novo e ela já dizia conhecer ou que havia ouvido falar sobre. Era frustrante.
Não poupava os olhares, apesar de não gostar da presença dos de terceiros enquanto estava distraída. Inclusive, ao conversar olhava profundamente nos olhos de qualquer um. O seu olhar intimidava e a depender de quem, ela deixava o outro desconcertado. Eu detestava tanto isso. Com certeza fazia de propósito.
Detestava o seu caminhar, apesar de despreocupado, havia uma arrogância, soberba. De queixo erguido e olhares firmes.
Detestava. Detestava tanta coisa que eu nem sei porque detestava. Bem maior do que a minha lista de coisas que detestava nela é a lista das razões pelas quais eu a desejava. Atributos os quais não irei listar aqui, pois já fiz isso em outra oportunidade.
E talvez o fato dela ter hábitos e jeitos que me davam tremenda agonia ou até mesmo aversão, junto com o fato de ter muita coisa que me cativava, a tornava um alguém cuja qual desejava de uma forma desmedida, como se fosse proibido, pela evidente dissonância.
Era detestável até a forma dela comer. Ela comia sem preocupação, não se importava em ser delicada, não se importava mesmo, comia com fúria e prazer. Detestava o seu descontrole para comer doces. Tinha uma compulsão por chocolate, mas eu adorava a sua feição e quando eu lhe presenteava com uma barra e a sua forma de saborear cada pedacinho. Eu gostava do prazer do seu rosto.
Detestava o quanto adorava falar sobre si mesma. Sempre “eu”, “eu” e “eu”. Por outro lado, gostava muito do fato de terceiros nunca estar nas nossas conversas.
Detestava o fato de aparentemente conhecer todos os MPB ‘s. Não bastasse, cantava toda e qualquer música como se fosse a primeira vez. Por sua vez, confesso que adorava a intensidade com que ela cantava “Tempo Perdido — Legião Urbana” ao meu som, as palavras lhe saíam da alma.
Detestava como ela sem querer me levava a fazer coisas das quais eu jamais faria se não fosse por sua causa. Ela gostava de cartas escritas à mão e me remetia algumas. Eu, por vez, detesto escrever e sempre achei que uma mensagem virtual bastava. Certa madrugada me doei demoradamente e carinhosamente escrevendo cartas para ela, escolhi o tipo de papel, texturas e cores.
Detestava o seu não senso ao se vestir. Nos dias quentes, carregava um cardigã. Nos dias frios, nunca estava com agasalho e eu acabava entregando o meu para vê-la aquecida. Eu gostava do seu estilo muito próprio, imprevisível. No entanto, não foram raras as vezes que acreditei que a sua forma de se vestir não estava nem um pouco condizente com o contexto. Em alguns instantes elaborada demais, em outros, um completo desdém. Detestava que ela percebia e não se importava.
Eu reconhecia que independentemente do que eu pensasse ou do que os outros apontassem, ela estava completamente à vontade e isso bastava. Ela só fazia aquilo que tinha vontade. A única coisa que a incomodava profundamente era não estar à vontade.
Detestava o fato de sempre me chamar pelo meu nome. Não havia qualquer outra forma carinhosa. Não que ela pronunciasse exalando qualquer coisa diferente disso, mas era um vocativo quase que mandamental. “Olha pra mim!”. Por sua vez, adorava o prazer com o qual ela pronunciava cada sílaba do meu nome. Era com gosto. E em alguns momentos ela fazia isso com sussurro ou rindo olhando pra cima, fixamente nos meus olhos. Era bom. Nestes momentos, não me soava como um mando, mas uma súplica.
Detestava o quanto era uma mulher incrivelmente crítica. E seus olhos evidenciavam isso. Mas, eu amava quando me encarava com os seus pequenos olhos avelãs. Principalmente, quando evidenciaram desejo e outras coisas, ao mesmo tempo que me pareciam julgador e dotados de uma arrogância ou soberba, mesmo sem ela ser soberba ou arrogante. Seus olhos para mim sempre foram voltados por admiração. O olhar dela me causava coisas que eu nem sei explicar. Era bom, mas muito intimidador. E eu ficava nessa de tentar interpretar, a decifrar.
Detestava a sua mania de mexer no cabelo constantemente, prender e soltar. Fazia um coque que se desmanchava em minutos. Chamava atenção. Isto porque, aquele movimento que ela fazia de uma forma constante, apesar de ser reintegrado, era tão sensual. Ela é aquela mulher que não se esforça para ser sensual. Apenas é. Ponto final.
Não provoca isso de modo algum. E eu via isso nas coisas mais sutis, principalmente quando estava lendo ou escrevendo de forma concentrada. Deslumbrante. Quando fala com propriedade sobre algo também é incrivelmente sensual. O problema é que não apenas eu reconhecia.
Eu adorava quando jogava o cabelo e me encarava. Quando voltava toda aquela atenção para mim. Quando me contava caridosamente sobre coisas cujo as quais não queria ouvir, coisas às quais não estava nem um pouco interessado. Mas o fato de ver que ela estava concentrada e dotando toda sua atenção, o seu corpo e o seu inteiramente para mim me fascinava. Aquela mulher tinha tanta força, tinha tanta coisa, que o meu desejo era simplesmente tê-la. Aquela imensidão de mulher, que sabia saborear a vida, aquela perdição de curvaturas, aquela tentação de olhar, eu a desejava, eu a desejo muito.
Inclusive, acredito que ela estava até mesmo consciente do tanto de coisa que eu detestava nela. Tanto que, quando ela cantava, sem jeito algum, mas com uma presença marcante, “Me Adora — Pitty”, me soava intimidador e quase um insulto. Parecia que cantava para mim. Aliás, que se eu ousasse questionar ela caçoaria e me diria “claro que não" de uma forma sarcástica.
Não sei, havia uma rivalidade sublime entre a gente? Um jogo de detestar e desejar?
Porém, de todas as coisas, a que eu mais detestava eram as suas frases soltas e intimidadoras. Uma em especial. Ela tinha uma frase que muito me intrigava e com razão.
Às vezes sem mais nem menos, quando estávamos num silêncio manso, dizia: “eu estou sempre muito consciente sobre tudo”. E claro que aquilo me intrigava e me amedrontava. Isto porque, ela tinha total razão. Intuitivamente, quase sem querer, me via caçando maneiras de estar à frente dela neste sentido.
Retiro o que disse. O que eu mais detestava, o que mais me matava, era o fato de que ela sempre estava muito consciente sobre tudo, porém, ainda assim, vez ou outra, parecia e/ou dizia não reconhecer os problemas que eu identificava. Minha primeira afirmação é tão precisa que nos instantes em que ela mais me tirou do sério foram justamente nas ocasiões em que falou coisas como “não percebi”, “não vejo assim”, “não estou entendendo”, “não planejei isso”.
Nesses instantes, a raiva me consumia. Definitivamente aquilo parecia ridículo já que ela sempre estava um passo à minha frente. Via o que eu não via, percebia o que eu não percebia. Então, quando me dizia coisas nesse sentido, como se aquele contexto lhe tivesse escapado, acreditava com todas as forças que ela estava me enganando. Confesso, em pensamento questionava: “Mas como será possível ? Ela só pode estar se fazendo de sonsa!”.
A raiva me consumia tanto nesses instantes que ficava preso na ideia. A questão da percepção dela ou não sobre o imbróglio entre nós se tornava secundária. Naquele instante, só queria a ouvir dizer o contrário, retirar o que disse. Tinha uma gana doentia em a ouvir falar que mentiu. Voltar atrás. Mas, ela persistia. Eu, por vez, mentia com muita facilidade e era incapaz de acreditar que ela era terrivelmente “nua e crua” sempre, me fazia sentir-se sujo. Ela respeitava essa cláusula.
Ela estava tão convicta de algumas coisas que às vezes que o que eu mais desejava era estar na razão. Havia uma competição minha, que talvez fosse apenas comigo mesmo nesse sentido.
Literalmente me via competindo. Eu até questionava: “será que neste exato instante, por mais estranho que pareça, eu estou à sua frente?”, “preciso eu, dessa vez, desenhar os seus passos, mostrar a sua trajetória?”. No entanto, na mesma oportunidade, a velha desconfiança me atingia, junto com o velho pensamento: “ou será que estou caindo em mais um dos seus labirintos, em que lá na frente ela vai apontar coisas que eu não havia percebido agora?”, “será que ela não está a dissimular?”.
Ela exalava uma inteligência arrogante, apesar de não ser nem um pouco arrogante. Sim, ela estava sempre na razão e é horrível assumir isso por que a realidade é que ela via o que eu não era nem mesmo capaz de imaginar. Aquilo era dela. Quanto as coisas mais ínfimas, tudo tinha um “porque”, um “quando” e um “porém”. Não era uma mulher de pronunciar achismos. As suas falas e escolhas eram conscientes e essa consciência era o que a levava ao delírio.
Não sei como, mas nos diálogos mais simples e tão insignificantes ela mostrava o ponto de vista de uma forma que me parecia quase autoritária. Eu detestava. Ela mostrava sua visão, os seus porquês e fazia uma conclusão. Tudo sempre estava interligado, todo posicionamento era embasado, não possuía achismos. Tudo sempre tinha uma causa e uma consequência.
Mas não era só isso, ela sempre estava verdadeiramente consciente e sabia dos seus erros e acertos. Ele dizia com todas as letras, sem medo, que a pior coisa era estar muito consciente sobre tudo e ainda assim persistir nas áreas falhas, não desviar da estrada. Ela praticamente via os meus passos e os dela.
E era nessa coisa de causa e efeito que ela me fazia perguntas das quais já sabia a resposta. Detestava isso, pois tinha a leve sensação de que era para me encurralar. Nessas ocasiões, eu me limitava a ficar indignado em silêncio. E isto porque qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, que eu dissesse ela rebatia com: “mas você viu isso ou aquilo?”, “há coisas em que você não se atentou”, “você estava inconsciente de que..”, “veja isso aqui, faz sentido?”.
Por vez, quando ficava irritado eu quebrava o silêncio e dizia: “Vamos mudar de assunto, para de pensar nisso, não quero falar sobre”. Inclusive, nos extremos, cheguei a sair andando e a deixar falando sozinha. Ela se sentia insultada com a minha atitude e eu detestava o quanto me sentia sujo depois com o meu agir.
O que me deixava com uma mormente raiva era reconhecer que ela tinha razão. A questão não era ter razão ou apenas eu assumir para mim mesmo que ela estava certa. Mas sim o fato de que ela previa os problemas futuros diante do que acontecia no agora. Às vezes, dizia que eu ou ela faríamos coisas das quais no momento eu tinha plena convicção de que não. Nessas oportunidades eu era tomado por uma decepção ou raiva e dizia coisas como: “você está ficando louca”, “você está cogitando isso para nós e me decepciona”.
E era péssimo quando o transcurso do tempo confirmava o que ela havia me dito. E não que fosse de propósito, mas quando surgia a oportunidade, ela mansamente jogava na minha cara. Claro, mais uma vez me limitava a ficar em silêncio. Afinal, o que eu diria?
Outrossim, ao mesmo compasso, detestava o fato de que alguns desses pensamentos deveriam ficar apenas para ela. Ela definitivamente não era nem um pouco sucinta. Ela deveria fazer um filtro ao invés de vomitar tanta sensação, percepção e conclusão. Não era nem um pouco inteligente. Concordo que a conversa é a forma de resolver as coisas, mas, no nosso caso, a conversa era um monopólio dela. Eu não sabia o que fazer com tanta informação e não absorvia a maioria das coisas, ficava perdido.
Eu tinha muito medo porque ela sempre estava um passo à frente. Não havia nada que eu pudesse fazer que ela não tivesse premeditado. Até as minhas ações inconscientes ela sabia as raízes, quando eu a machucava ela entendia o porquê do meu agir, aliás, quando nem mesmo eu sabia. Inclusive, não tinha qualquer receio em me dizer. Isso aconteceu algumas vezes, mais vezes do que eu gostaria. Nas oportunidades em que eu ia me explicar ou me desculpar, em verdade ela me ajudava a entender. Talvez por isso fosse tão compreensiva e me desculpasse tanto.
Detestava a facilidade com a qual ela se desculpava, mais ainda em como aceitava verdadeiramente as minhas desculpas. Às vezes eu não merecia e fazia isso apenas para ficarmos bem, eu sempre tive uma relutância a respeito. Suspeito que ela também estava consciente disso.
Nessas ocasiões eu tinha grande admiração por ela. Porque literalmente, apesar dos pesares, apesar de ver tanta coisa, ela ainda estava ali. Ela não me agredia de qualquer forma, não me feria, ela não exalava raiva, ela estava muito consciente e até já chegou a me dizer que poderia ter reações bruscas se não estivesse consciente de tudo aquilo. Tudo aquilo.
Não vou mentir, fui muito sacana e não sei se o fato de reconhecer que ela provavelmente poderia estar muito consciente sobre aquilo alimentava a minha fome ou me fazia ter medo. Qualquer coisa que eu pensasse em fazer me vinha à mente um: “Será que ela sabe?”.
Vezes outra ficava pensando se ela tinha esses mesmos pensamentos que eu, como se a gente tivesse tentando uma hora tirar a máscara um do outro. Desmistificar. Eu não sabia o que aquilo ia fazer de nós, qual seria o desfecho de tudo aquilo ou se haveria um desfecho. Até dava risada pelos meus pensamentos e ria comigo mesmo pela forma como eu colocava aquilo, como se literalmente dormisse com o inimigo, o que de fato não se era.
Havia um jogo. Mas só eu estava jogando? Era apenas o jeito dela ou ela planejava tudo aquilo?
Nesses instantes em que ela tinha total certeza sobre tudo, quando exalava convicção, ou mesmo o seu posicionamento sobre um assunto, assim como o porquê dos seus erros, eu a via dotada de uma imensa sabedoria. Conhecimento sobre si mesma. Literalmente não se deixava levar pelas ideias dos outros. E nessas ocasiões eu pensava: “essa mulher é de outro mundo”.
Ela não era arrogante com as palavras, ao contrário, as manuseava muito bem. Até na sua consciência, apesar de expor todos os seus pensamentos e decisões de uma forma muito arrematada, tornava aquilo claro sem o maior receio. Não escondia e fazia questão de que fosse bem interpretada.
O problema é que normalmente eu não estava realmente disposto a ouvir, pois em verdade ficava pensando em como rebater tudo e mostrar que ela estava errada.
Ela não precisava gritar ou mesmo usar palavras impositivas para mostrar que estava magoada ou irritada. Eu detestava ao mesmo tempo que admirava.
Nas suas explicações e questionamentos fazia adendos como: “Mas é claro que eu posso estar completamente equivocada”. Às vezes, sentia que ela dizia isso de propósito justamente quando tinha a plena convicção de que estava certa. Era estranho porque ela sempre estava disposta a me escutar e fazia a promessa de que realmente iria se colocar no meu lugar.
A coisa que ela mais fazia era me deixar sem palavras. Detestava. Eu não tinha hora para falar, não adiantava. Não porque ela não me desse espaço, muito pelo contrário, dizia: “me conta a sua visão, quero te entender, se eu estiver errada pode me falar”. Não adiantava porque era como se ela lesse a minha mente. Não havia o que acrescentar. A questão é que eu não tinha o que falar e literalmente me limitava em confirmar ou concordar com toda a sua exposição.
Não bastasse, ela lembrava com fidúcia de cada uma das nossas conversas. Ela não gostava de ser repetitiva. Eu detestava constatar que ela tinha razão. Em nossos diálogos sobre o relacionamento ela não raramente dizia: “Vamos conversar sobre a mesma coisa. A raiz é a mesma. O problema é o mesmo, ainda não superamos.” E acrescentava: “Não gosto de conversas baldias”. E eu ficava pensando comigo mesmo: “Mas ela já tá premeditando que isso vai acontecer? Que a nossa conversa não nos levará a lugar algum?”, “De onde é que isso vem? Não é. Possível que passe horas matutando”.
Isso mesmo, a conversa era um monopólio dela. Sobre qualquer coisa que acontecesse. Não que fosse um problema, mas muito me assustava. Aquela mulher era um furacão e eu era incapaz de premeditá-la, tão menos imaginar o que o olho do tornado escondia e o caos que causaria. Claro, o caos era em mim.
Vez ou outra jurava que ela me conhecia mais do que eu mesmo. Sabia porque eu menti, porque fiquei irritado, porque fugi, porque toquei aquela música, porque eu estava naquele lugar e, principalmente, porque eu estava com ela.
Confesso que em muitos instantes admirava isso. A maleabilidade dela. A forma de se posicionar e a forma que escrevia. Ela realmente era muito boa com isso.
O problema em verdade é que ela parecia ser boa demais em muitas coisas e de algum modo aquilo me atingia, como se ela estivesse longe do meu alcance, por “n” fatores, como se eu não fosse digno de estar ao seu lado. ponto final.
É verdade que eu queria que ela visse coisas em mim que a deixasse fascinada, deslumbrada, admirada. Claro, ela reconhecia as minhas habilidades e as coisas que desenvolvi e adquiri. Mas eu queria que ela visse algo mais. Algo que está só em mim e que a deixasse com medo de me perder. Algo que ela mesma não tinha, algo que um outro alguém jamais tivesse. Algo que me tornasse único. Queria que ela escancarasse o que a fazia estar ao meu lado. Queria ter certeza exatamente do que se tratava. Afinal, qual o “algo a mais"?
Quando a olhava, via muitas coisas que me deixavam boquiaberto. É claro que eu não era o único. No entanto, ainda assim, apesar das inúmeras coisas que me cativam, ela tinha uma facilidade enorme de me deixar com raiva e de me tirar a paciência.
Ela era definitivamente um inferno de mulher. Deus, detestava tanta coisa nela, assim como a desejava. Ela era Perséfone. Ela não era nem um pouco parecida comigo.
Ela me desafiava a decifrá-la.
Eu simplesmente não a entendia. Em verdade era isso. Eu queria compreender e não fazia ideia do que se passava naquela mente extremamente criativa e meticulosa. Um sorriso inocente, um olhar provocante, uma voz autoritária, confesso, e um jeito de andar tão despreocupado, que eu não entendia como todas essas características dissonantes poderiam estar concentradas numa única mulher.
Sim, ela me intrigava, talvez, até soubesse. Ela me assustava tanto que me causava toda essa coisa. Era uma batalha minha comigo mesmo para tentar compreender aquela mulher, para estar por um mísero instante à sua frente.
Sobretudo, para que ela visse algo em mim que a cativasse. Algo que não havia nela. Pois, aos seus olhos eu sinceramente não sei o que a deixaria fascinada ou desejando um homem. Eu reconhecia que os outros também a desejavam, mas eu não entendia como ela por vez desejava a mim.
Eu tinha medo de que de um instante a outro, sem mais nem menos, ela me desse as costas. Isto porque, não sei o que ela via em mim para estar ao meu lado. Ela, por vez, tinha inúmeros atributos, características físicas e abstratas pelas quais qualquer um desejaria tê-la, possuí-la. Eu não entendi o que a fazia querer estar ao meu lado.
Ela estava comigo, eu a desejava e não só via, como a sentia me desejar, mas eu não a tinha. Não sei explicar.
Ela estava inteiramente voltada para ela mesma. Estava em um mundo que eu não podia entrar. Não estava perdida, ela gostava do labirinto. E o fato dela estar na maioria das vezes nesse universo me fazia sentir que ela era inalcançável e/ou intocável.
Muitas vezes fiquei questionando se essa minha percepção não era só fruto de mais uma de suas arrogâncias e incongruências. E quando pensava assim, que a apesar dos olhares, declarações e gestos de amor, ele não estava entregue a ele, queria deixá-la. Ela tinha um temor em dar-se e eu desejava tanto isso.
Talvez por isso eu a desejava fervorosamente e a minha ferocidade ao possuir o seu corpo fosse justificada pela minha vontade em torná-la minha. Qualquer toque à sua pele era dotado de uma intensidade em trazê-la pra mim. Eu a desejava pois sentia que não a possuía, apesar dela me amar. E eu a desejava possuir por aquilo significar que seria minha e estaria comigo até o fim dos nossos dias.
Detestava como ela, simplesmente sendo, a me fazia desejá-la. O problema é que o desejo a gente mata e se satisfaz. O amor não, o amor é outra coisa.
Eu a desejava tanto, mas em alguns instantes ela me tirava muito do sério. Principalmente quando me surpreendia negativamente. Na maioria das vezes, eu esperava um agir e ela fazia algo totalmente dissonante.
Eu não entendia muitas das suas atitudes, apesar dela muito me explicar, eu simplesmente não concordava. Ela não agia como eu gostaria e não raramente eu ficava frustrado. Isso me impulsionava a fazer algo que em muitas oportunidades me passava pela cabeça. “Se é para ser assim, eu prefiro estar distante”. Quando eu estava nervoso, cogitar ou efetivamente tomar aquela decisão era como se fosse um ato de libertação. Era um alívio dizer: “Estou caindo fora”. Apesar daquilo me cortar a garganta.
Passavam-se horas e eu voltava atrás. Eu pensava naquela mulher e só via as coisas que me cativaram e tudo o que me fazia desejá-la. O que eu detestava se tornava tão irrisório. Então imediatamente questionava a tolice que estava fazendo. Jogando fora o bilhete premiado da loteria. Vendo o bilhete dourado no chão sob a densa chuva e pisando sobre ele. Por isso dizia a mim mesmo: “você só pode estar ficando louco”.
E aí eu voltava atrás, para matar o meu desejo. Não podia deixar aquela mulher escapar, ocupar aquele posto na vida dela era um prêmio. Apesar dela estar consciente disso e me escancarar o significado daquela sequência de partidas e despedidas efêmeras oriundas de mim. Ela reconhecia o quanto eu a desejava, especialmente o que eu desejava quanto a nós.
Outra vez, a implorei: “Diz que sabe, diz que sabe que eu amo você”. E mais uma vez eu não ouvi o que eu queria. Eu ouvi a verdade, inclusive, não só a verdade dela, mas a nossa verdade, da qual eu fui perceber tempos depois. Jamais vou esquecer a sua triste confissão: “Eu não sinto e nem percebo isso, independente do quanto eu queira, você não faz ideia do quanto eu gostaria de estar completamente equivocada”.
O amor dela me fascinava. Eu o sentia, o via. Era muito evidente. Mas, eu não o tinha. Eu não podia pegá-lo. Eu não podia colocá-lo em mim. O amor que ela sentia por mim era exclusivamente dela. Morava nela. Na nossa coisa o amor era ímpar, apesar do desejo ser dois. Eu detestava tanto isso em mim.
Apesar de sempre falar tanto em razão e agir literalmente de acordo com apenas o que lhe fazia sentido, para fazer qualquer coisa ela precisava ver sentido, não era emocionalmente movida pela razão. Valorizava muito o que sentia e respeitava a si mesma neste sentido.
Às vezes estávamos a sós e eu ficava questionando comigo mesmo: “O que é que se passa na cabeça dela?’’.
Literalmente ela era imprevisível. Eu nunca fui capaz de prever os seus passos, as suas falas, vírgulas, as suas ações. Justamente por isso ela constantemente me surpreendia.
Claro as surpresas tanto positivas quanto negativas. Havia um universo nela. Universo de cores das quais eu não conheço. Como ela mesmo dizia, haviam muitas mulheres nela. Em instantes aos quais eu não podia imaginar, conheci algumas das suas versões.
Me deparei com a que mais me cativou numa tarde de domingo em frente a um imenso cinamomo. Naquele instante atemporal reconheci mesmo a mulher que eu mais desejava.
Naquela época as coisas não estavam indo bem e nessa inconstância feriamos reciprocamente um ao outro.
Foi a tarde quando ela, aos prantos, mostrando tristeza e vomitando seus sentimentos, com as emoções à flor da pele e, ainda assim, falando tudo com a serenidade e a convicção e lógica de costume, que eu achava autoritária e arrogante, apesar das postulações não serem com essa tonalidade, que ela me disse literalmente que eu não a amava. Me disse com todas as letras.
Ela ousou, sempre foi usada, em me dizer o porquê eu não a amava. Acredito que a arrogância que eu via nela era essa questão da ousadia de falar o que a maioria das pessoas não diriam.
Ela dizia coisas as quais a maioria das pessoas não falariam abertamente, até mesmo porque sequer seriam capazes de compreender tanto. Dizia com facilidade sobre coisas difíceis e que muitas vezes nós não ousamos falar, pois sempre levava consigo aquela ideia de que “as pessoas não leem mentes”. Me revelou que fazia isso para depois não se martirizar com pensamentos como: “à época eu achei que” ou “eu poderia ter dito”, pois isso a levaria a cogitar infindos “e se” quando já não mais poderia mudar o passado. Dizia sem pudor o que estava pensando.
Ela me disse que eu não a amava, que eu apenas a desejava e que eram coisas diferentes.
Que a desejava por reconhecer que ela era uma boa pessoa para se amar, pois era uma mulher que tinha muitas características das quais eu gostava, que haviam coisas que ela fazia que eu adorava.
Mas que, apesar de estar ao seu lado e de ver muitas coisas das quais me faziam estar ali, eu não a amava. E o meu maior desejo quanto a nós era verdadeiramente amá-la. Apenas desejava a amar, mas ainda não era o que ainda acontecia.
Confesso, quando ela sibilou com soluço “você não me ama”, de imediato, em silêncio, pois sempre respeitei a sua hora de fala, ri comigo: “Vamos ver como ela vai fundamentar esse absurdo”.
E quando olhei no fundo dos seus olhos, vi uma mulher serena que, apesar dos olhos com lágrimas escancarando a dor na alma, falava com seriedade. As palavras eram firmes, apesar de não arrogantes. Eram firmes exalando a certeza do que dizia.
Conjuntamente, os seus olhos contavam com tristeza como ela havia constatado tudo aquilo e quanto aquela situação a machucava. Elencou inúmeras coisas que a mostraram que, apesar de eu desejar amá-la, isso não acontecia porque eu amava outro alguém. Ela jamais exigiu o meu amor prematuro.
O fato de estar ao seu lado, a desejar mas ainda assim querer mudar coisas banais no seu jeito a qualquer custo, assim como a todo instante ela facilmente me irritar com as coisas mais sutis e, especialmente, o meu histórico de partidas, era porque eu estava projetando nela um outro alguém. Ela jamais supria as minhas expectativas.
O que me assustou foi que ela tinha razão. Foram segundos e eu assumi a mim mesmo. Até eu tentava esconder isso de mim.
Me disse que, apesar de me amar, não sabia apontar de forma direta porque me amava. Que esse sentimento não estava associado a coisas que eu tinha ou o que eu sabia fazer, mas sim em quem eu era. O conjunto de coisas que faziam eu ser eu. E que por isso seria incapaz de me substituir, pois as pessoas são feitas de inúmeros e pequenos detalhes.
Disse que eu estava querendo imprimir os detalhes de outra pessoa nela. E escancarou que não entendia porque eu estava com ela, querendo mudá-la a qualquer custo, e que se eu não gostava do jeito dela, que se a maneira dela ser me incomodava, era justamente porque os seus detalhes não me apeteciam. Eu não a amava.
Então, ela propôs algo que eu não faria, pois não tinha coragem. E disse que já que eu não tinha coragem, ela quem teria de fazer.
E foi diante das tonalidades daquela aurora que os meus olhos tocaram “Trouble — Coldplay”.
O pior de tudo foi que no princípio, justamente com essa mania de premeditar as coisas, disse de antemão que não aceitaria adentrar um relacionamento comigo porque acreditava que eu estava ligado emocionalmente a alguém. Inclusive, me disse um nome, falou com todas as letras.
Me disse que tinha receio de eu estar inconscientemente a usando não só para suprir o espaço, o posto, que outro alguém há pouco havia ocupado em mim, mas também na fútil e horrível tentativa de substituir esse alguém.
Naquela ocasião, destacou que as pessoas são únicas e que ninguém substitui ninguém, apesar de ocuparem o mesmo posto. Me disse que por amor faria tudo, que enfrentaria grandes coisas, mas que, jamais, jamais iria se submeter a ser uma mera coadjuvante na história de amor dos outros. Confessou que tinha receio de eu estar inconscientemente a colocando nesse papel.
Naquele instante, por óbvio, achei aquela confissão repugnante. Afinal, eu acreditava que a amava e era um escárnio ela me dizer uma coisa dessas. Eu tinha a ilusória certeza de que ela era a mulher da minha vida, afinal, eu a desejava fervorosamente e podia listar os motivos pelos quais queria estar ao seu lado.
E foi movida não só por isso, mas também, que no primeiro dia ela me propôs que fizéssemos um pacto. E é claro que ela escreveu as cláusulas. Aceitar aquelas cláusulas, que eram poucas, era a coisa mais simples, não havia o que se deliberar. Isto porque, diziam coisas óbvias, essenciais para o sustento do nosso tipo de vínculo.
A primeira cláusula era respeito, o que era fácil de lembrar. Mas, só depois do advento do cinamomo foi que me recordei com fiducia de mais uma delas. A sua inclusão na verdade foi um pedido diretamente para mim. Ela havia premeditado desde o início a ruptura.
Me pediu que se um dia eu reconhecesse que ela nunca ocupou ou já não mais ocupava o posto que eu acreditava, que não iria persistir nisso. Me pediu, me fez prometer, que eu não ficaria ao seu lado mesmo não a amando só pelo fato de saber que ela me amava.
No momento eu prometi apenas para deixá-la confortável. Mas fiz expressa ressalva de que acha desnecessário por ser um completo absurdo. Á época ela ter cogitado isso me matou, já que aquilo jamais aconteceria.
Fazer o pacto não foi um mero simbolismo. Aquilo para ela eram votos. Naquele pacto, compilou as coisas que ela mais valorizava. A burla de qualquer delas jamais seria tolerável, como mesma disse, “na hipótese, não haverá que se cogitar a mantença do nós”. Inclusive, na época, chegou a me explicar o porquê de cada uma delas.
Naquele dia quente, com os olhos cheios de lágrimas, ainda assim de queixo erguido e com uma postura de quem explica algo com a maior convicção e facilidade, querendo compreensão, como uma professora que ensina um aluno, narrou como desde o início as nossas cláusulas estavam sendo, por mim, inconscientemente descumpridas.
Asseverou que não iria permanecer naquilo porque quebrar as cláusulas era o que estava ferindo a nós dois. O nosso relacionamento não deveria ser mesquinho.
Naquela tarde, diante do imenso cinamomo, me senti ridículo pelas várias ocasiões em que eu achei um absurdo ela memorar as cláusulas e as invocá-las em nossas conversas. Assim como pelas vezes em que tratei como um imenso e desgastante “blá blá blá” os seus pedidos, choros, conversas demoradas e explicações.
Naquela ocasião, a existência deles fez todo o sentido do mundo. Reconheci que eram necessários. Nada, nenhuma conversa sequer, foi frívola. O agir dela naquela tarde não foi em vão. Não deveria ser uma surpresa. Uma sequência de coisas a levaram aquele agir.
Ela me mostrou com cada conversa, cena, olhar, promessa massacrada, ação e omissão, gritavam como aquele momento era necessário. Apesar de não ter escolhido data e ocasião, tomou aquela atitude de forma consciente, estava esperando a oportunidade correta e aquela tarde de domingo quente foi o estopim. Ela não iria prolongar ou esperar mais mágoas.
Disse com convicção e com choro, com o sentimento e emoções estampado nos olhos, de queixo erguido, o quanto amava. Me mostrou o quanto me amava e que jamais iria me substituir, que isso não era possível, ainda que viesse a amar outros homens. E que, ainda assim, não permaneceria naquele vínculo comigo, pois o meu amor era outro.
Afirmou que sabia que eu a admirava e a desejava, e que os momentos que compartilhamos foram sinceros. Mas, ela não nos submeteria mais àquilo. A tentar tratar as consequências ao invés de encarar o problema.
Me disse que apesar de ficar profundamente triste e magoada pelo que não se era, não poderia esperar para sempre ou tão menos cobrar de mim algo que não está sob nosso controle, o amor. Por isso que em nenhuma oportunidade o fez.
Pontuou que a escolha de ficar com quem amamos ou não, assim como cuidar ou magoar esse alguém, uma vez estando consciente sobre o contexto que machuca, é nossa.
Então, em razão disso, ela escolhia partir, porque era o que eu tinha medo de fazer. Destacou que estava consciente de que a minha inércia também era porque tinha medo de magoá-la. E eu realmente tinha.
Fez questão de destacar que, apesar dos pesares, sabe o quanto eu a desejava mas não a amava e não me culpava por isso, pois eu estava inconscientemente deixando isso dormindo e temia o seu acordar. E que enquanto os meus atos concatenados que elucidaram isso eram inconscientes, desde o início, ela estava muito consciente sobre tudo. Razão pela qual, não sentia raiva ou mesmo decepção para comigo.
Por fim, disse que apesar de ser de longe o que ela ansiava, tomava aquela decisão para cessar e evitar cicatrizes. Fiquei chocado e, como sempre, sem fala diante daquele espetáculo de mulher.
Ela colocava um ponto final, por amor. Isso pode ser muito estranho, mas não é. Talvez seja porque eu não tenho a maleabilidade com as palavras e nem consigo expor de forma tão precisa e coerente do modo como ela fez o porque apesar de aparentemente conflitante essas coisas conseguiram convergir e fez todo o sentido do mundo ação dela.
Foi naquela tarde, diante do imenso cinamomo, dentre o cair das pétalas, que aquela moça de vestido longo, cabelos ao vento, um rosto com traços fortes e um falar sereno estava com o coração na mão e que eu não matei o meu desejo de amá-la. Ao contrário, desejo que apenas ficou ainda mais aguçado.
Eu desejava amar aquela mulher e ela estava dizendo um adeus, com muitos motivos. E eu me limitei a ficar imóvel e aceitar a sua partida.
O meu depois confirmou exatamente tudo o que ela falou. Tudo o que ela premeditou, nos exatos termos. Eu desejava aquela mulher, ainda a desejo, mas eu não a amo. O meu amor é outro.
Eu a desejo e caço seus passos, mas ela é literalmente as duas primeiras estrofes de “Primeiros Erros — Capital Inicial”. Principalmente, aquele trecho: “Meu destino não é de ninguém e eu não deixo os meu passos no chão”.
Ele escreve, sem saber, acompanho cada um dos seus textos. Demoro caridosamente em cada um deles e reconheço que há muita verdade, vejo muito dos pensamentos dela, muito do que ela compartilhava.
Nessa coisa, tenho acesso a parte que mais me cativava e que eu tanto questionava: “o que é que ela está pensando?”. De forma tardia, descobri que para a desvendar e adentrar no seu mundo das ideias, eu deveria simplesmente ter dito o que ela fazia comigo. Acompanhar a arte. Nós dois temos uma caridosa doação para a arte, por me amar ela muito se atentava ao que eu produzia, por vez, se à época havia lido algum texto dela foi porque me senti obrigado a tanto.
Agora, reconheço muito sobre ela. Reconheço sim que a arrogância está presente até nesses textos, de uma forma sutil, os seus escritos em algum instante é um tapa na cara, um soco no estômago. É uma imposição, é tão profundo, tão verdadeiro, tão sincero que chega a ser intimidador.
Me tornei um leitor assíduo. Acompanho os seus textos, me divirto com alguns, me surpreendo com outros. Ela queima em intensidade. É literalmente ousada e tímida ao mesmo tempo.
Em alegações finais, não sei, posso estar delirando, mas às vezes tenho receio de que ela talvez esteja consciente sobre isso, que assisto os seus passos. Talvez, meu agir não seja tão em segredo, afinal eu nunca consegui esconder nada dela.

Janaina Couto ©
Publicado — 2021
@janacoutoj
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Atualizado em: Qui 9 Set 2021

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