person_outline



search

[Retrato] BOÊMIA

Todo dia tem um show no céu e eu não assisto. O que certamente é antagônico já que fico deslumbrada com as cores, massas e profundidade.
Ridiculamente a minha rotina me priva de fazer uma das minhas coisas preferidas. Ir ao ponto alto da cidade e assistir o espetáculo do céu entre o fim de tarde e o cair da noite. A transição gradual das cores vibrantes até o negro profundo é incrível.
Nestes momentos, fico pensando no artista talentoso que faz tudo isso. Diante de tudo que é grandioso demais, questiono o sentido da vida, penso em destino, me sinto pequena, mas felizmente pertencente.
Recordo com fidúcia uma das noites em que fui ao meu ponto alto preferido. Como de costume, logo após uma caminhada no final do domingo para evitar aquela sensação pesarosa de estar a poucas horas do início da rotina.
O Recanto estava vazio. A noite fria. Me sentei no banco central e observei o céu. Negro. Azul. Luminoso. A lua estava iluminando aquela imensidão de tal forma que ao apreciar o horizonte fiquei boquiaberta em como o céu poderia ser facilmente confundido com o oceano.
Sou incapaz de descrever a pintura daquele dia. Se eu não estivesse no centro da selva de pedras, afirmaria com veemência que aquilo ao longe era o mar.
Desde então, fiz uma promessa para mim mesma. Todos os domingos iria caminhar no mesmo horário e apreciar o show de cores em cada um desses dias.
Desta forma, unindo duas coisas de que gosto muito.
Adoro caminhar pelo bairro nos domingos por ser um dia tranquilo. Pois, apesar da gostosa presença de luzes e da vida em movimento, o dia é sem agitação. Me tranquiliza, me ajuda a refletir a semana, os meus dias e literalmente por um momento fugir da rotina que há meses está sendo desgastante.
Nestes instantes, geralmente, identifico os meus erros, procrastinações, más escolhas e tento me entender, ao mesmo tempo que faço promessas, sonho e agradeço pela minha persistência. É um momento só meu.
No entanto, gosto muito mais quando os meus pensamentos não caem em qualquer dessas coisas. Gosto quando a minha atenção está no meu entorno. É certo que qualquer pessoa que me veja caminhando diga o quanto eu aparento andar distraída, quando certamente não estou.
A verdade é que o meu olhar e a admiração estão concentrados em coisas que passam despercebidas no cotidiano de suma maioria das pessoas com quem eu já tive qualquer contato.
Caminho pelo bairro respirando profundamente, ouvindo música boa, geralmente Charlie Brown Jr., observando o show no céu e as árvores ao meu entorno.
Também sou encantada pelas árvores. Não só pelos traços deslumbrantes que a sua copa desenha no céu, mas principalmente por representarem muito do que eu valorizo.
"Mude de opinião, mas mantenha os seus princípios. Troque suas folhas, mas mantenha suas raízes". É a frase estampada no apetrecho pendurado na maçaneta da porta do meu quarto. Comprei também num domingo, numa lojinha simples do meu bairro.
Não faço ideia de quem seja o autor, mas essa poesia é dotada de um imenso significado pessoal para mim. Isto porque, não só concordo e prezo pelo que está escancarado, mas também porque as raízes representam o meu berço, a minha família, o lugar de onde vim, a minha história, minha bagagem e trajetória.
Por sua vez, as folhas, são o meu agora. Significam quem sou hoje, ou seja, o que aprendi e fiz com toda essa trajetória. E particularmente, a copa é a parte mais exuberante da árvore, o que me remete ao meu desejo de mudar constantemente até me tornar uma pessoa cada vez melhor, dentro dos meus ideais de evolução.
Isto sem contar que, assim como nós, humanos, as árvores são únicas, absolutamente nenhuma é igual a outra. Não são réplicas idênticas. As árvores respiram, como nós. Envelhecem, adoecem e morrem. As árvores precisam da água e do sol, como nós. As árvores são dotadas de vida e estão em constante crescimento e mudança.
Acredito que deu para perceber o quanto fico deslumbrada. Razão pela qual, a minha tatuagem nas costas é a minha preferida. E apesar de muitos de imediato questionarem o que me levou a tatuar uma árvore, polpo os detalhes do meu significado pessoal, já que se é necessário uma sensibilidade para com a vida e existência para compreender.
Esse é mais um dos motivos pelos quais eu supervalorizo as minhas caminhadas e não ouso substituir esse meu compromisso de domingo comigo por nada.
Confesso, às vezes faço isso também no sábado a noite. Netas noites, agitadas, caminho com vigor. Com graça. E o clima é daquele trecho “Onde Anda Você?”: “hoje eu saio na noite vazia, numa boêmia, sem razão de ser”.
Dias atrás estava lendo no Recanto, o ponto alto de sempre, e casualmente convidei um cara para caminhar comigo. Ele achou a coisa mais inusitada do mundo eu parar embaixo de uma árvore e querer registrar o desenho dos seus galhos esparsos no céu.
Posteriormente, até disse que eu tinha umas ideias aleatórias, jeito de hippie e me perguntou rindo se estava chapada. Isto, só pelo fato de eu parado no meio da rua e o orientado a fazer o mesmo, para que pudéssemos observar o desenho do céu com a profundidade da rua repleta de árvores. "Vê isso aqui, não daria um quadro perfeito?".
O ocorrido confirmou a minha tese de que a maioria das pessoas não derramam atenção para as coisas mais bonitas que nos circundam. A natureza, o céu. Nada que pode ser reproduzido pelo homem. É por isso que sou apaixonada pela lua, pelo mar, pelas árvores. A beleza natural é certamente a mais deslumbrante. Não há manipulação, não há cópia. É tudo único.
No bairro há inúmeros carvalhos brancos. O meu preferido está justamente no Recanto. O desenho que ele faz protegendo o ponto alto que eu gosto é fascinante. Geralmente, costumo ler embaixo dele. Realmente sujando o meu jeans na grama e na areia úmida junto às pedras do acostamento. 
 
Gosto particularmente daquele canto. Pois, me vejo diante de uma beleza preciosa e ao mesmo tempo de um medo, que elucida a minha coragem. A altura. Ignorar a grade de proteção é algo que eu não deveria fazer. Também é bonita a visão do bairro pacato, lá de cima. As casas, as árvores, as luzes, os poucos carros a transitar.
É justamente nesse ponto que encerro a minha caminhada. Traço um percurso que sempre se encerra naquele ponto. E o meu prêmio é assistir o show no céu, no lugarzinho que me traz uma imensa calmaria, serenidade e tranquilidade.
De uns meses para cá, felizmente, quando possível, tenho divido as minhas caminhadas aos domingos com uma amiga de muito tempo. É com quem tenho de forma confortável as conversas sobre a natureza, a vida, a arte, a poesia, os meus medos, os meus desejos.
Aprendo muito com ela e serei eternamente agradecida ao Universo por ter alguém para dividir todas as minhas impressões sobre a vida. Ter próximo à mim alguém que compartilha da mesma sensibilidade com essa trajetória, dotada de sonhos e ambições, me resgatou de um descontentamento com a sociedade neste tocante.
Domingo passado fomos ao meu querido carvalho branco para conversar. Desabafei. Falei coisas dolorosas e profundas, especialmente, o quanto me sentia sufocada. E sem que eu esperasse, houve atenção caridosa para uma fala minha em meio a tantas palavras. "Seu você pudesse gritar uma frase, para pedir ao Universo, o que gritaria?" Eu já disse o quanto é bom ouvir e ser verdadeiramente ouvida?
Após responder, ouvir minha resposta e o porquê, de imediato, ela falou: “Faz isso! Vamos fazer isso, agora! Vai!”.
E é claro que sem nem mesmo entender a razão do meu receio, sentindo que cometeria um crime, questionei: “Mas como assim? Mas eu nem sei como gritar isso? Alívio? Tem muita pausa, não dá!”
E ela insistiu: "Vamos, vai, agora, bem alto! Um, dois". O receio que não sei donde vinha permanecia: “Eu acho que é melhor não...". E antes que eu arranjasse uma justificativa, ouvi ela pronunciar de forma imperativa: "Três!".
No mesmo instante, naquele ponto alto, eu gritei com muita força, fervorosamente, "alívio". Concentrando muita força e me prolongado nesta última sílaba.
Tenho certeza que quem estava lá embaixo pode ouvir a intensidade dos nossos timbres. Gritamos juntas.
O prazer que eu senti fazendo aquilo foi imenso. Eu gritei com alívio, alívio, realmente senti isso. Atraí. Foi como se a ventania daquela noite tivesse arrancado de mim e levado para o distante todo o sufoco que carregava e havia acabado de relatar. Foi algo simples, mas tão grandioso. Gritar. Expulsar. Pôr para fora. Me senti viva. Não só existindo, mas vivendo e pertencendo.
Logo depois, respiramos puxando o ar profundamente e caímos na gargalhada. E aquilo foi tão singelo e gostoso. Não sei como isso não me passou pela cabeça antes. Gritar com êxtase no meu ponto preferido do bairro.
Naquela noite de domingo, me senti alinhada ao meu destino. Não só pela sincronicidade, ante as coincidências, mas também porque uma cena posterior me mostrou a dissonância do passado e do agora.
Daquela maneira, confirmando que em algum instante o sufoco se esvai e você pode respirar aliviado, novamente.
Pin It
Atualizado em: Seg 23 Ago 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222