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A pandemia revelou o nosso grande inimigo comum: a ignorância.

              Dificilmente alguém passa genuinamente ileso com uma pandemia: todos são afetados, consciente ou inconscientemente. Alguns se instrumentalizam para tentar diminuir o tamanho da catástrofe simplesmente desqualificando o patógeno (reduzindo sua potencialidade, transmissibilidade, negando sua existência, etc) enquanto outros ajustam aspectos de suas vidas em torno de novas prioridades, buscando proteção pessoal mas sobretudo engajando-se em um esforço coletivo com um objetivo bem definido. Assim, teria sido necessário viver embaixo de uma pedra pelos últimos 2 anos para não ter sido influenciado pela pandemia.
              É relativamente consenso que uma das mais importantes características do gênero humano é a capacidade de colaboração, de forma flexível e em grandes números. Formigas e cupins colaboram de forma extremamente eficiente e em grande números, mas de forma inflexível e são praticamente incapazes de combater ameaças para as quais não estão preparados. Chimpanzés e gorilas também colaboram mas em números reduzidos - se o bando aumenta muito em número e um gorila esbarra no centro da vila em outro gorila que ele não conhece, que não sabe se pode confiar, muito provavelmente a tensão aumenta e eventualmente termina em punhos e dentes. Ou seja, o limite do tamanho do bando é o número de outros macacos que eles podem conhecer. O ser humano, entretanto, é único neste aspecto pois é capaz de colaborar com uma grande quantidade de outros humanos, mesmo tendo um nível mínimo ou até inexistente de relação e conhecimento entre si. Um dos motivos que permitem este milagre é a nossa capacidade de contar e acreditar em histórias, narrativas que coalescem e focam em objetivos, mecanismo que ironicamente funciona mesmo que a narrativa em si não seja verdadeira ou até cognoscível. Treine um macaco tanto quanto quiser mas dificilmente você o convencerá a não comer esta banana agora para ter acesso a infinitas bananas depois de morrer. Com um ser humano você consegue - sobretudo se o treinar desde filhote.
              A ferramenta, desta forma, não é nem boa nem ruim, nem útil nem inútil mas pode resultar em uma infinidade de desfechos. Imagine que alguém lança a ideia de que no centro da Terra está um tesouro em ouro tão grande que valeria à pena que cada pessoa fizesse a sua escavação no jardim de casa. Quando uma parcela importante da sociedade acredita nesta história e a coloca em operação, é fácil entender o tipo de produto que a experiência irá produzir. Em resumo, temos esta poderosa arma (nossa capacidade de orientar-se a objetivos específicos baseados simplesmente na nossa adesão a uma narrativa) ampliada pela colaboração em massa. Este recurso sempre foi fundamental para nosso progresso e sobrevivência como espécie, embora ele não ocorresse da forma uniforme e monolítica que o texto parece preconizar.
              Quando parte importante da sociedade simplesmente não acredita que a Teoria da Relatividade Geral tem mérito, isto não impede a outra parte de avançar na ciência e produzir aparelhos de GPS com erro na ordem de centímetros - que todos acabam usando. Neste caso, a ignorância (não necessariamente uma falha, mas um estágio da evolução do conhecimento) não é prejudicial a ponto de impedir o progresso. Similarmente, quando parte da população entende que cintos de segurança não precisam (ou nem devem) ser usados, o dano é quase totalmente autoinfligido e o problema novamente se limita. Vários outros exemplos podem ser mencionados mas parece mais interessante identificar situações onde a afirmação não se verifica e a saúde pública e doenças transmissíveis pelo ar são um ótimo exemplo. Supondo haver a necessidade de 70% de imunização para evitar uma propagação desenfreada e somente 50% acredita nesta narrativa, a saída teórica, a longo prazo, é esperar que estes 50% morram, de forma a atingir o objetivo. Infelizmente, a quantidade de mortes envolvidas no processo é bem maior do que a estamos preparados para admitir como razoáveis. Assim como todos os casos anteriores, o elemento de divisão é a ignorâncias mas neste caso, a dificuldade em aderir à narrativa causa problema a todos, impedindo que o objetivo da tese corrente seja atingido mas não se aproximando em nada a uma solução. Então, o que há de novo? Pouco. A maior diferença é que esta visão diferente restringe o âmbito da solução mais ampla e mais rápida.
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Atualizado em: Seg 16 Ago 2021

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