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Nervosos & Furiosos


              Segue uma proposta para um teste bem interessante: caso você tenha uma TV, coloque atenção nos próximos 10 minutos da sua programação recreativa (séries ou filmes relativamente recentes) e busque no protagonista traços de extrema agressividade, tácita ausência de empatia, óbvio egoísmo, visão da realidade limitada à esfera das suas necessidades imediatas, absoluta convicção sobre todos os assuntos e total ausência de dúvidas; tudo em meio a uma névoa apresentada como se fosse estoicismo, firmeza de caráter e esclarecimento. Ninguém tem dúvidas, ninguém para um minuto para ponderar, ninguém troca ideias para aprimorar seus pontos de vista, todos tem a mais concreta, ampla, incorruptível e absoluta verdade. Tudo bem, afinal, é só TV (tele-visão, fern-sehen ou mesmo le petit écran).

              Em algum momento, o gênio escapou da lâmpada, a caixa de Pandora foi aberta ou como aludia um elegante aforisma italiano: “Una volta aperta una scatola di vermi, l'unico modo di rimetterli in scatola è usarne una più grande” (uma vez aberta uma caixa de vermes, a única forma de recolocá-los na caixa é usando uma caixa maior). Cada geração, em intensidade crescente, encontra nos personagens da mídia (as tais celebridades) modelos de comportamento, de sabedoria, de usos e costumes, faróis de excelência dentro de uma sociedade de recalcitrante mediocridade, de forma que copiar este traquejo ‘nervosos & furiosos’ é ser fashion (ou faxion para os que não sabem escrever e jogam a culpa na ergonomia). Claro que, depois da cena em que o ator passa por cima de todos para ter o café da forma que gosta, no momento que prefere, o contrarregra bate a claquete para terminar a cena e, assim espero, o ator volta a ser um ser humano. Na vida da imitação, entretanto, a claquete não bate nunca, a cena não termina e como em um monólogo de antropologia, a agonia se arrasta para desgosto e dor dos que são obrigados a assistir. Em algum momento, a necessidade de pelo menos fazer sentido perdeu espaço para a tentativa de parecer convincente e uma das formas mais toscas de fazer isto é usando a estratégia do cachorro louco (ambas largamente usadas por trump e bolsonaro). Aqui a ideia é inundar o interlocutor com tanto material de forma a tentar atordoá-lo e, caso ele consiga reunir forças para esboçar uma reação, duas doses de agressividade e três de ofensa serão suficientes para esmagar a insurgência.

              Pessoalmente, já usei óculos rayban, walkman e boné (ao mesmo tempo), de forma que estou familiarizado com o conceito de ridículo; o que torna a situação mais complicada atualmente é que, no afã de ser inclusivo, compreensivo, tolerante e moderno, ninguém ousa criticar estes comportamentos pois isto seria visto como retrógrado, reacionário, velhaco (ou conservador, nas eufemistas e gentis palavras da minha filha). Todos sabemos o que acontece quando a criança testa os limites e não consegue encontrá-los: ela expande seu raio de atuação e testa os limites mais longe, até o momento em que se comportará como se os limites não existissem. A culpa não recai exclusivamente sobre as novas gerações: é preciso apontar sem piedade o dedo acusador às gerações anteriores, que falharam ao reconhecer estas usurpações, que se acovardaram pelo medo do shaming, que silenciaram (e silenciam) escondendo-se atrás de mantras como ‘esta geração é muito decidida’ ou ‘os jovens de hoje em dia sabem muito bem o que querem’. Não sabem, é claro que não sabem mas não há problema: irão descobrir (para isto serve a vida e os boletos) mas não estamos prestando serviço algum dando-lhes a impressão que ladrar e balir é a forma mais honrada de conseguir o que acreditam querer (embora infelizmente pareça ser a mais eficiente).
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Atualizado em: Qua 21 Jul 2021

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