person_outline



search

[Desabafo] DESMAZELO

A adolescência é uma fase cafona. Ridícula. Sobretudo, quanto às falaciosas convicções e a falsa ideia do que é maturidade e de que se “atingiu” à ela.
Literalmente todos estão tentando se encaixar em algo e aquele questionamento sobre quem se é acaba sendo mansamente presente.
Identificamos um mundo cheio de rótulos e, para nos sentir pertencentes, quase que intuitivamente procuramos nos adaptar a qualquer deles.
Claro, os mesmos velhos rótulos. São padrões e se demonstra pelas coisas mais sutis. Na adolescência, pelo seu gosto musical, forma de se vestir e o tamanho do seu círculo de amigos, por exemplo.
Quando fui adolescente, me identifiquei a um desses padrões. Era cativante a inclusão. Afinal, sem me dar conta, havia escolhido uma personalidade. Sabia exatamente o que deveria gostar ou não, como agir, o que fazer. Afinal, aquela era a minha parada, o meu clã, e eu apenas deveria seguir o protocolo. Era um alívio o fim de tanta indecisão.
É ridículo, não é?
Confesso que gostaria de saber como e por qual razão estipularam que os jovens que enfrentavam problemas emocionais e psicológicos formavam um desses grupos.
Mais ridículo ainda é o fato de que, sinceramente, não sei como, mas até mesmo isso romantizaram.
Tratava-se de uma questão de estilo ou se lá o que. Óbvio que sem sentido algum. Estar “deprimido” (não sei qual palavra usar e posso estar me equivocando) era tratado como qualquer coisa ridícula que não um problema.
Não, não se tratava de um problema. Era apenas uma coisinha de adolescente. De “personalidade”. Acredita que até identificavam um padrão? Por coisas banais como as já ditas, facilmente identificavam e rotulavam um grupo, cuja característica era o isolamento e a indiferença.
Se você curtisse rock, usasse roupas escuras e fosse introspectivo. Tudo bem. Não havia qualquer problema nisso. Você fazia parte de um grupo em que estar “deprimido” era normal. Afinal, “fazia parte” e era só mais uma coisinha de adolescente. Frustração à toa.
Aliás, se você fosse um cara, isso era quesito pra mérito. Afinal, eram tidos como os mais atraentes. Um cara depressivo ou problemático era misterioso, até os filmes disseminavam isso. Afinal, o que faria ter tanto desdém pela vida e por si mesmo?
Se você fumasse ou tivesse qualquer tipo de vício, sobretudo precoce, tudo bem. Você estava apenas lidando com questões sérias e isso era a sua fuga para o alívio. Nada mais que um reflexo da “maturidade escancarada”, por evidentemente já suportar o peso do mundo.
Ridículo. Ridículo. Ridículo. Já me enojava só de pensar.
Sabe o que é ainda mais pesaroso. Sim, alguns jovens tinham só um estilo. Enquanto outros realmente precisavam de ajuda, mesmo. Aliás, jovens que sequer demonstravam isso por qualquer meio, inclusive, escondiam.
Cai uma tempestade em quem você menos espera.
Demorei alguns anos para reconhecer isso. A diferença entre tristeza, baixo astral e outras coisas. Coisas essas sobre as quais nem ouso falar pois tenho receio de fazer mal uso das palavras e acaba sendo mais alguém erra neste sentido.
Não gosto de ousar a respeito, tenho mesmo de me equivocar.
Mas também reconheço que um dos principais problemas da história, da minha adolescência, foi justamente o não questionar e o não falar.
Quer saber, por hora, também já não quero mais falar sobre, ainda que para mim mesma.
Pensar a respeito, questionar, questionar, questionar e não chegar à conclusão alguma. E, ainda que talvez chegue, não fazer absolutamente nenhuma mudança alguma ou mesmo não saber resolver, independente do quanto eu queira, me corrói.
No final das contas, de nada os minutos torturantes atordoando a minha mente.
De uns tempos pra cá isso tem ficado mais frequente. Ainda que apesar do silêncio do ambiente, a minha mente parece estar em um eterno zum zum zum. Constante. Um zunido que não para.
Às vezes dá vontade de falar para mim mesma “para de pensar. quieta. calada. chega”.
Vez ou outra me pegando semicerrando os olhos e enrugando a testa como se estivesse incomodada e tentando entender algo, quando na verdade estou eu comigo mesma, sozinha no meu quarto fazendo seja lá o que for.
Só eu e essa voz aqui que está sussurrando exatamente cada uma dessas palavras que ora subscrevo. Tem uma voz, aliás, qual sequer sei se é a minha.
Estive questionando. Às vezes, não é absolutamente nada. Não há zunido no meu entorno. Não há mistura de sons. Mas o ambiente está abarrotando a minha mente. O ambiente está comprimido e tenho vontade de fugir dele. Sair correndo. Mas, só a vontade, por que o meu corpo não arrisca nem mesmo se mexer.
E nesses momentos eu paro para prestar atenção. Realmente está tudo igual. Mesmo cômodo, os mesmos móveis, objetos. E surpreendentemente o ambiente está silencioso, mas me sufocando.
E é óbvio que questiono o que é que está me incomodando, afinal. Adivinha. Para a minha não surpresa, eu mesma.
Eu geralmente estou incomodada comigo.
Imagino o que está pensando. E o desconforto, o incômodo, de onde vem?
De mim mesma.
Tem instantes que simplesmente quero fugir de mim. Não ser eu. Só por algumas horas.
Convivo comigo 24 horas e ainda assim estou cada vez mais distante, ao mesmo tempo. Por favor, não me pergunte como.
O incômodo é por reconhecer que “essa não sou eu”.
É uma briga interna comigo mesma. Não raramente chamo a minha atenção e digo “você deveria estar fazendo isso ou aquilo, dizer isso, se posicionar quanto aquilo”.
Me vejo cada vez mais dissociada de mim mesma e ao mesmo compasso que isso me assusta, reconheço que só eu quem posso mudar. Mas não sei porquê as minhas tentativas são frustradas e, em suma, não faço absolutamente nada.
Começou com coisas simples. Eu sei. Fiquei mais distante das pessoas, apesar de estarem fisicamente próximas.
Entrei num contato mais intrínseco comigo mesma, me conhecendo de tal maneira. Me acomodei à minha companhia.
Vivi os meus dias. O mesmo café da manhã. Os mesmos afazeres. A mesma colcha de cama. As mesmas pessoas. O mesmo lugar.
Me conectei com o exterior fazendo qualquer coisa minha. Obrigações e etc. Me doando em fazeres apenas em prol e para mim mesma. Começou devagar, mesmo.
Comecei a perder a noção das horas. A semana passava e eu nem me dava conta. De repente, já era segunda-feira.
Até que eu me perdi.
Tudo se tornou tão automático e já não sentia mais vontade de fazer mais nada. E pensamentos como “por que?” ou “para que?” se tornaram cada vez mais presentes. Até mesmo diante daquilo que outrora gostava. A mesmice é tediosa.
Isso foi fácil de perceber.
O problema é que, agora, há a indiferença. E eu a detesto e gostaria que ela fosse embora, na mesma intensidade que eu não me importo. E sussurro sem qualquer emoção, com preguiça de falar, um “ah tá, quer saber, não ligo mesmo”.
E o fato desse segundo pensamento existir me mata.
Digo a mim mesma que isso é um problema. Que preciso de ajuda e quero ajuda, assim como sei que preciso agir para mudar a minha realidade.
Às vezes dá certo e prometo a mim mesma que vou fazer diferente. Que no dia seguinte vou mudar a rotina, fazer algo que não faço há muito tempo e que deveria fazer, pois em algum lugar no tempo supervaloriza tais coisas.
É quando prometo a mim mesma que vou abraçar e beijar a minha mãe, conversar com o meu pai, ensinar o meu irmão mais novo a ler, dizer para o meu irmão mais velho que tenho orgulho do homem que ele é, brincar com o meu cachorro. Que vou caminhar, cozinhar meus alimentos, me exercitar, estudar algo novo e etc.
Por um momento, tudo parece empolgante e eu estou mesmo disposta a fazer essas coisas.
Então vou dormir, pois esses pensamentos sempre me surgem no final do dia, especialmente, quando ele foi um daqueles que quantos ao meu estado vibracional, eu não quero que se repita nunca mais.
Odeio a indiferença. Odeio o vazio. Odeio o desdém e o descaso comigo e com todos.
As coisas que me faziam vibrar, não me causam nada e literalmente é um completo tanto faz. Enquanto o que deveria me causar pavor já não me suscita nada e tenho um pensamento que outrora repudiei, o conformismo e o reflexo da indiferença “fazer o que? É assim mesmo”.
É pesaroso e não me isento por isso. Chega o fim do dia, a minha família está bem, todos estamos saudáveis, fizemos boas refeições, o dia sem desavenças e ainda assim eu me sinto dessa forma. Dessa forma que não sei descrever, mas sei que não gosto e que é dissonante da vida em meu entorno.
Penso em inúmeras pessoas que desejariam ter um dia como o meu.
Penso nisso. E não é que eu não esteja agradecida por tudo isso. Reconheço a preciosidade. Sim. É imensuravelmente confortante ver que todos estão bem. Tranquiliza.
O peso na consciência acredito que é mais leve pelo fato de saber que não preciso agir e tudo bem a minha inércia para qualquer coisa.
São inúmeros motivos pelas quais antigamente eu estaria imensuravelmente grata pelo meu dia. Mas, já não vibro. Não há vontade.
É um nada.
Trabalho, estudo, escovo os dentes, tomo banho. Tudo isso no automático. Por que “deve ser feito”. Tudo isso faço distante de mim mesma. Às vezes faço uma brincadeira sem graça e digo “cadê você?”.
Para seja lá o que for que me surge, qualquer coisa que outrora teria condão para me desestabilizar, exalo sem vontade alguma um enorme e seco “tô nem aí”. E eu nunca disse isso com tanta sinceridade.
Às vezes forço a barra e lembro dos dias em que me descontrolei, berrei, gritei, enfrentei e até proferí palavras que não gostei para algo ou alguém. E o único pensamento que me vem é “sério que você se importou com isso?”.
Sei o quanto pode parecer ingrato, mas às vezes qualquer pessoa chega me contando qualquer coisa que antes me seria interessante ou mesmo me faria rir. Sei lá, qualquer coisa mesmo. E eu mal estou escutando. Respirando fundo e minha mente diz a mim mesma “hum. legal. realmente não tô afim. não quero saber”. E aí me toco que realmente não prestei atenção nas palavras proferidas.
Não se tornou incomum cumprir as minhas obrigações e quando chegam os instantes que “seriam só meus”, minutos pelos quais eu teria esperado o dia todo ansiosamente para poder fazer qualquer coisa prazerosa, como ver um filme, sair, conversar, descansar… eu já não sinto nem mesmo vontade de me mexer.
Sem deliberar, quando termino meu trabalho, desligo o computador e simplesmente desabo na minha cama. Fico no escuro do meu quarto. Não durmo, pois tenho insônia. E fico comigo mesma. Inerte. Em posição fetal. Como se fugisse da minha realidade, apagasse tudo.
E eu não descanso. Apago, levanto de madrugada e para matar o tempo ouço musicas tão vividas quanto eu. No dia seguinte, me levanto tarde, atrasada. E a manhã é como no dia seguinte a um porre, enfrento a ressaca. Passo o restante do dia como se estivesse torpe e com o meu corpo todo dolorido.
Apesar de horas parada, imóvel, nos exatos termos da palavra, eu sempre estou exausta. Cansada.
Não mais saio de casa. Não tenho vontade. Quase não me movo e eu juro que nunca fui tão sincera. E sinto que o meu corpo está atrofiando. Acredita que sinto sede, mas sequer me levanto para tomar água.
Ganhei muito peso e estou comendo compulsivamente, conscientemente. Enquanto como, penso somente naquilo e é o único momento que qualquer desses pensamentos não surgem. É um escape.
No verão passado isso era o completo oposto do meu eu. Antes, muito me importava como alimentação e o meu corpo, o meu suporte e o que estará comigo por toda a minha vida. Tinha apreço por me cuidar, ter-me com carinho. A minha casa. O meu templo.
Até mesmo isso se foi. O descaso é literal.
Hoje, tomei um banho quente e fiquei longos minutos com o rosto debaixo do chuveiro deixando a água escoar. E eu senti o peso do meu corpo. De cada um dos meus membros. Como se estivesse suportando ele e não sendo parte. A água escorria sob minha pele e imaginei como seria sufocar. Não parecia se tratar de mim. A sensação da água entrando nas minhas narinas e boca foi assustadora.
Saí do banho e ao pentear os meus cabelos, não houve qualquer sensação de apreço. Foi uma das coisas mais estranhas, eu me senti vazia. Um nada. Apesar de diante do espelho e penteando os meus cabelos, senti que qualquer outro alguém que eu desconhecia desembaraçava os fios, sem o menor resquício de cuidado.
Eu tô de saco cheio dessa parada toda.
E tem dias que tento me enganar. E às vezes dá certo. Por dois ou três dias, não mais que isso. Prometo tentar e realmente tento. Dou risada, faço novas coisas, me reaproximo dos meus amigos e tento dar a maior atenção aos meus pais e irmãos, mostrando o quanto são importantes. Sim, são dias aquecidos e aconchegantes.
Mas, sem mais nem menos, eu acordo novamente cansada. Irritada. Tarde, com a sensação de que os meus dias estão escorrendo. O tempo não é meu amigo e mais uma vez um falho e quebro a promessa que fiz a mim mesma.
O mesmo ciclo se repete.
E por perceber que é o fim do mundo novamente eu choro pela presença da minha ausência para quem eu amo e para mim mesma. Pela minha inércia. Pelo meu desmazelo comigo. Pelas pessoas que eu amo que mereciam o melhor de mim, enquanto eu me limito a ficar trancada no escuro do meu quarto sem me mexer ou falar.
É péssimo constatar a minha negligência e mais pesaroso ainda é que há o reconhecimento. Prometo mudar isso, me resgatar, mas os dias são todos iguais. As estações mudam e eu permaneço no mesmo lugar.
Não quero que seja assim. Eu já tive apreço e zelo por isso aqui e quero novamente os picos de desejo, felicidade desmedida e a sensação constante de estar no envolto de um abraço aconchegante.
Quero chorar de felicidade, quero chorar de amor. Até chorar de tristeza eu aceitaria, desde que não fosse pela perda, dor ou sofrimento meu ou de outrem. Estou cansada de chorar pela indiferença e pelo vazio.
Simplesmente cansada, tanto que já nem isso eu consigo mais. Chorar.
Tem minutos que digo para mim que preciso de ajuda. Que já tentei tanto sozinha e que realmente preciso de ajuda. Mas, outra parte de mim me diz que eu só não consigo porque eu não quero. Que sou acomodada. Que é drama. Que é a minha mente criando um escape e uma justificativa para atos concatenados de procrastinação. Que sou uma pessoa ruim.
Não sei qual desses pensamentos estão sabotando qual. E se eu realmente não tiver me esforçado? Como ser ajudada se não tenho vontade para nada?
A minha mente está matando o meu corpo.
Inclusive, agora estou com uma dor intensa e a ignorando. Antigamente neste instante eu estaria apavorada com medo de ser algo sério ou, inclusive, que pudesse me matar.
E se eu realmente precisar de ajuda e só estiver com medo de assumir, dizer em voz alta para mim mesma que há meses lido com o mal do século?
Tenho receio de que, assim como eu mesma faço, a minha família e amigos pensem que estou desistindo. Não me importo se pensem que estou desistindo de mim, mas sim desistindo deles. Meu Deus, eu jamais faria tal coisa. Os amo imensamente.
Outrossim, julgamentos como “você é fraca” ou “se vitimiza demais” são esperados. Sei que seguraria essa barra. Literalmente não tô nem aí para o que terceiros que não sabem nem mesmo o meu nome ou a minha idade vão pensar.
Mas, tenho medo de procurar ajuda e não poder ser ajudada. Ou descobrir que não há ajuda para isso. Afinal, quem está em mim sou eu mesma. Como outra pessoa poderia suportar entender e me ajudar com os meus próprios pensamentos, sensações, sentimentos e emoções? Ou pior, com a ausência deles?
Tenho convicção de que estou à beira do delírio. E não há nada de bonito nisso. Estou assustada. E cansada. Cansada.
Eu não sou assim.
Quero me encontrar.
Eu preciso me resgatar.
Eu não estou bem. Não é “assim mesmo” e não “está tudo bem”.
Sinceramente, se for “assim mesmo”, não sei o que fazer. Não é possível que a vida seja isso.
Não sei nem mesmo porque vomitei tais coisas.
Escrevendo me parece ridículo, acho que porque aquela falsa percepção social e os velhos rótulos estejam enraizados também em mim, em algum lugar por aqui.
Talvez tenha escrito porque espero que daqui uns anos possa ler e ser eternamente grata por esses dias estarem no passado, empoeirados e envelhecidos. Quem sabe, estarem tão distantes a ponto de gargalhar e dizer “se não me conhecesse, diria com convicção que estava chapadona”. Mas, não acredito que vá acontecer.
Um delírio. Efêmero. Passageiro. Queria tanto que se tratasse disso. Mas, já nem sei se tenho esperança. E tenho certeza que isso não é bom.
Se é verdade que, como todos falam, que o tempo sana tudo. Deus, como eu quero que ele passe.
Pin It
Atualizado em: Qua 21 Jul 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222