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[Desabafo] AMBIVALÊNCIA

Às vezes tenho a leve sensação de que estou à beira do delírio. Há uma linha tênue. Tenho imenso pavor só por cogitar o que me aconteceria e, principalmente, quem eu seria.
Tenho inúmeras manias. Mas uma delas muito me assusta. Converso comigo mesma. Em verdade, com as mulheres que habitam em mim. Sou muitas.
Vez ou outra dou gargalhada sozinha, respondo em voz alta ou meus questionamentos internos e até mesmo me repreendo. Este último porque sou muito boa de ideias, mas péssima com ações.
O meu mundo das ideias é exuberante enquanto o mundo dos fatos é um total desmazelo.
Reconheço com imensa facilidade todos os meus pontos frágeis, não só as minhas lamentações, mas também os seus motins.
Isso é fácil. Posso passar horas listando o porquê de cada uma das minhas quedas, falhas, procrastinações, raiva e decepções.
Mas não é só. Sei muito bem como cuidar, solucionar, evoluir ou aprimorar cada um desses pontos.
Sei quando estou errando, tanto que digo a mim mesma. Estou consciente quando quebro as minhas promessas. Eu não me isento.
Não são raras as vezes em que me encontro burlando algo e o meu inconsciente me diz “você deveria estar fazendo aquilo, não isso”.
E é péssimo e pesaroso quando esse sermão é meu. Eu dizendo a mim mesma. Não precisa qualquer pessoa me corrigir ou me instruir. E quando fazem, o impacto não é o mesmo.
Assim também ocorre quanto a comparações. Detesto ser comparada com qualquer outro alguém. Não bastasse sermos singular, a única coisa que identifico é a sublime e repugnante competição.
No entanto, isso é ainda mais devastador quando a comparação é comigo mesma. Não quando outro alguém o faz, mas sim quando parte de mim. O reconhecimento de retrocesso em qualquer pilar me mata.
Fico dividida se essa mulher, uma das minhas versões, sempre muito consciente sobre tudo, é a minha salvação ou a fonte das minhas frustrações comigo mesma. A balança nunca esteve equilibrada.
São com questionamentos como esse que me levam a um conflito interno que me faz questionar quem sou. Reconheço inúmeras versões e fico questionando se sou mesmo todas elas.
Outrora essa mesma mulher me diz que são apenas resultados de fúteis tentativas inconscientes de aprovação, o que justificaria as incontáveis versões. Ainda, me diz que deveria encontrar a mim mesma.
Fico imersa nisso. As minhas personalidades. Os desejos e medos. Às vezes uma dessas mulheres me incentiva e vibra com certas coisas, experiências e escolhas, ao mesmo tempo que outra menospreza e me faz questionar: “precisa mesmo disso?”, “o que você está fazendo aqui?” etc.
É o sufoco e o alívio numa mesma cena. O prazer e o desprezo. O apreço e a indiferença.
Quem sou afinal?
E essa busca não premeditada por mim mesma, sempre começa por algo aparentemente simples. A que recentemente me ocorreu foi por uma pergunta sutil: Quais os meus medos?
E a dualidade se faz presente em qualquer viés que se olhe.
Primeiro. Claro, a morte. Mas não por dor ou mesmo por quando.
A princípio, pelo fato de me ver longe de quem amo. A minha morte ou a deles me proporcionaria a ruptura. O fim. O desespero de não mais conviver com quem se ama.
Em segundo lugar, pelo questionamento sobre o que seria de mim. Não o meu corpo, esse suporte. Mas a minha essência, a minha alma. O meu eu. É por isso que a ideia de eternidade e de um templo em mim muito me agrada. Assim como a possibilidade de outras vidas, o que significaria uma continuidade do meu eu.
No entanto, ao mesmo tempo, já senti a morte de quem amava como libertação daquela alma. Como alívio e descanso. E é por esse ocorrido que vez outra fico deslumbrada por cogitar o que há depois dessa passagem.
O que é a morte, afinal? O fim? Eu não lembro o meu princípio e será que o fim é um limbo? O nada? O vazio? Sinto imenso pavor e ao mesmo tempo curiosidade em apenas saber o que é.
Não acredito que não há nada. Que seja o fim da nossa existência espiritual. A morte também da alma. Tem de haver um depois. Existem infindas suposições para explicar uma mesma coisa. Mas não sabemos qual delas é a exata. E por que não sabemos?
Temo a morte, por duas vertentes. Ao mesmo tempo que me é curiosa, pois me certificar de que há a continuidade do meu eu e do eu das pessoas que amo. Inclusive, me esclareceria o sentido da vida, da passagem e o porquê estou nessa época, com essas pessoas, sentindo e enfrentando tudo isso.
A ideia de muitas vidas me agrada. Confirmaria o sentido de evolução dessa parte imaterial que este meu corpo comporta. Principalmente, pela possibilidade de encontrar novamente e estar com as almas que felizmente conheço nessa vida e as amo imensamente.
Segundo. Altura. Estar num lugar alto me causa pavor. A possibilidade de um deslize e o consequente despencar do meu corpo, o impacto com a superfície.
No entanto, ao mesmo tempo fico questionando a sensação do despencar livre do meu corpo no ar. Os microssegundos. A gravidade. A visão. A sensação de leveza. O arrepiar do meu corpo, o esvoaçar dos meus cabelos. O frio na nuca.
Apesar desse medo, estar num lugar alto e observar o horizonte, apesar do medo, me traz uma enorme sensação de pertencimento e de imensidão. A exuberância do horizonte. Me faz sentir pequena, mas ainda assim parte. É bom.
É insano. Percebe? Há uma dualidade constante. O sim e o não. O quero e o talvez.
Isso me assombra.
E está presente em tudo.
Quem sou afinal? Quais os meus medos? Quais os meus desejos? Quais os meus sonhos? Quais os meus gostos? Quais as minhas crenças? Quais as minhas preferências?
É pavorosa a ambivalência.
Não posso afirmar nada a meu respeito que uma das minhas versões se encarrega de questionar.
Às vezes, sinto que me encontro. Porém, sem mais nem menos, de um instante a outro, os meus gostos, amores, prazeres são outros.
É uma mutação constante. Eu não tenho qualquer controle. E quando tento, a minha versão que sempre está consciente sobre tudo me diz que estou a dissimular.
Eu tenho mesmo medo disso.
Bom, está aí um dos medos que eu não falei.
Terceiro. A loucura. Às vezes afirmo para mim mesma, justamente por tudo o que ora expus, que estou à beira da loucura.
Não. Não digo isso irracionalmente, de forma costumeira como a maioria das pessoas. Falo com seriedade. Reconheço os delírios e o cogitar de que isso pode me levar à loucura é desesperador. A perda do meu eu. A bagunça e a perdição em si mesmo. O caos e não um templo em mim. Temo tanto isso.
Ao mesmo tempo, questiono se o que chamo de loucura não é em verdade a libertação e o encontro consigo mesmo. A parte mais pura de si mesmo. O fim das versões. Não sei.
Como eu seria? Quem eu seria?
Quero fugir desses pensamentos. Assoberbam a minha mente.
Aquela mulher diz com convicção. “Sabe que isso não é normal, né? O simples fato de cogitar a possibilidade de loucura, indica que realmente está mergulhando nela. Não é o encontro de si mesma, mas a real perda.”
Mas uma das mulheres tira sarro e curte toda essa parada, enquanto outra trata como algo ordieno e que vez ou outra acontece com todos.
Não consigo me dissociar delas.
Eu digo com veemência que sou imensa, que existem nove mulheres em mim, mas vocês persistem em não acreditar.
Essa é a minha maior loucura de viver.
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Atualizado em: Dom 11 Jul 2021

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