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[Desabafo] DESCASO

As vezes eu sinto que vou sufocar.
Vomitando assim, de imediato, parece ridículo e sem razão alguma.
Esses dias andei me ouvindo, com cuidado. Não foram poucas as vezes em que quis sair de mim.
Por um único dia, por uma semana, quem sabe, ser uma pessoa nova. Outra pessoa. Outros gostos, dissabores. Outra experiência. Outros gostos. Outra história.
Um novo lugar, uma outra rotina. Um outro bairro, outras árvores, casas com uma outra engenharia. Uma outra padaria. Outra calmaria.
Fiquei matutando a razão de tudo isso.
Estou cansada. Talvez, a palavra que caia melhor é "entediada".
Não, isso não é clichê.
Posso afirmar com convicção que vivo os mesmos dias todos dias. E como canta engenheiros, na mesma frequência, é o fim do mundo todo dia da semana.
Passo as feiras me doando incessantemente para o "amanhã". Me doando da forma que me disseram que era o caminho certo para vencer.
Me venderam a idéia de que é preciso "vencer na vidar" para atingir a "felicidade" e eu a comprei. Só de pensar na frase sinto um incomodo. É escrachadamente desconfortável.
Fiz o que me disseram para fazer. Aliás, continuo fazendo e a verdade é que eu não sei o porquê.
Tenho convicção de que a felicidade que eles buscam definitivamente foge completamente do que entendo por felicidade e o que eles almejam diverge do meu ideal de "viver".
Eu estou errando. Fiz tudo o que me disseram. É o quadragésimo mês que me doou integralmente para o mesmo fim.
Me vejo terrivelmente assassinando o tempo. E com muita razão ando me punindo por ver o correr das horas e estar exatamente no mesmo lugar.
Pensar nisso está me levando ao delírio.
Os dias são todos iguais. A mesma rotina. As segundas-feiras são como todas as outras. As 24 horas do dia são escassas e ainda assim a semana é longa. E cheia da velha afirmação de "falta de tempo" para fazer coisas que eu gostaria de fazer.
Em algum lugar no tempo ansiava o chegar do fim de semana para respirar aliviada. E esse pensamento era carregado de uma sensação tremenda de liberdade. Como se estivesse autorizada a fazer tudo o que tivesse vontade. Viver ao invés de sobreviver.
Isso porque, nas noites de sexta-feira, ao final do expediente, me vinha a sensação de missão cumprida. "Fiz o que me disseram para fazer, me sacrifiquei esses cinco dias. Não fiz outra coisa que não me dedicar."
Por uns anos, isso deu certo. Não havia nada mais prazeroso que respirar e acordar ainda certo na manhã de sábado. Nesses dias, eu vivia.
Há algumas semanas reconheci a catástrofe que me ocorreu.
Os dias passam. As horas correm sem começo nem fim. E eu estou assistindo a tudo isso com pesar.
Foram perguntas, ditas pela mesma pessoa, em ocasiões diferentes, que me despertaram.
A primeira foi corriqueira: "O que você fez hoje?" E naquela noite de sexta-feira eu reclamei que havia estudado massantemente um assunto que não gostava e que havia prorrogado as minhas horas de trabalho além da conta, não poupei os detalhes do quanto estava irritada.
Em ato continuo, fui surpreendida pela segunda pergunta, que não era retórica: "Se hoje fosse o seu último dia de vida, o que o fez valer a pena? Seria agradecida por viver esse mesmo dia pelo resto de sua vida?". A minha resposta foi a mais esperada, é óbvio, "claro que não".
Não bastassem as perguntas terem me desnorteado, a afirmação seguinte foi um soco no estômago: "O dia 28 de agosto de 2020. Esse dia é único. Esse dia não se repetirá, você viverá novos agostos, inúmeros dias 28, mas nenhum deles será a chance de viver esse dia. Esse oportunidade já nos foi dada. A grande questão é se ela foi aproveitada. Vivemos 28.08.2020 ou sobrevivemos à ele?”
Em outro episódio, a mesma pessoa me surpreendeu com um questionamento aleatório: "Qual foi o dia ou quais foram os dias em que você sentiu uma insana felicidade?".
A pergunta pareceu boba e eu sorri me preparando para listar e relatar com afetivas memórias alguns desses dias, os quais eu facilmente deveria me lembrar.
Mais uma vez um soco no estômago. Forte. Demorei alguns segundos me questionando e consegui recordar no máximo três dias, bem distantes.
Enquanto os outros relataram eventos na semana, mês ou ano anterior, eu fui incapaz. Não havia dia especial, não havia novidade alguma. Afinal, eu vivia os mesmos dias, a mesma rotina há meses… há anos, na verdade. Apontei três dias, num passado bem distante.
Relatei com saudade do aconchego e calor dos alvoreceres findos.
E aquela pessoa que me conhece bem afirmou sem eu ter feito uma vez sequer qualquer confissão nesse sentido: "Tenha mais cuidado com você. Presta atenção nos seus dias. Abre os olhos para a mesmice. São os mesmos afazeres. A mesma rotina. O seu olhar voltado para uma única cor. É por isso que ainda sofre com a mesma dor, com os mesmos temores e anseios".
Em silêncio consenti. Aquilo fez todo o sentindo do mundo.
Arrancou as palavras que eu tentava sibilar a mim mesma.
Fazia tanto tempo que havia deixado os meus gostos e prazeres para depois que já não mais os reconhecia.
Dias atrás entrei em pânico. Eu não me vi sem "motivação" para persistir naquela rotina que passou a ser desgastante, eu não me vi sem "foco". Eu estava sem vontade. Aquilo me assustou.
Literalmente, me vi uma máquina, que fazia tudo no automático. Pior, com aversão a tudo o que supostamente não me levaria a lugar nenhum.
Priorizei tão somente um pilar da minha vida. Em suma, deixando a mim mesma de lado por tanto tempo que estações depois já não mais me reconhecia.
Não é nem um pouco bonita essa ideia eterna de trabalhar e estudar apenas para e atingir determinado cargo, status, patamar. Assim como de usar a arte apenas como ofício.
Estudar determinado assunto, me engajar em determinada área, me doar a determinado projeto e entre outras coisas, são escolhas minhas. Escolhas que faço por vontade, interesse, prazer, desejo pelo conhecimento e não necessariamente pensando apenas em qualificação profissional ou aprovação.
Não bastasse, se tratando de seja lá o que for, gosto de ter autonomia e fazer, no meu tempo e da minha forma. Quando colocam qualquer requisito, prazo, padrão, de imediato algo me barra. "Não preencho nem os meus requisitos, quem dirá os dos outros". Não sei lidar.
Os requisitos do mercado, os perfis, as metas e outros estão fazendo com que a pessoas percam o prazer pelo que fazem. Isso é a origem de tamanha frustração.
É um ciclo sem fim. Sempre vai haver alguém supostamente "à frente''. Sempre vai haver uma nova meta. Sempre vai haver um novo perfil.
As pessoas não deveriam estar competindo. Não gosto de competir, tão menos que me pressionem com isso.
Assoberbada pela concorrência. Aterrorizada pelo questionamento de estar errando ou "fracassando". Atormentada pela falsa necessidade de constantemente aprimorar a minha rotina, desenvolver metodologias, elaborar cronogramas e afins.
Me desdobrando para me enquadrar a um perfil. Para me tornar quem ditam que eu "deveria ser".
Tenho horror a idéia de sacrificar os meus dias, deixando para depois e, muitas vezes me privando, dos pequenos e momentâneos prazeres, por estar pressionada com o pensamento de que "deveria estar fazendo isso ou aquilo", juntamente com a ideia de que estou ficando para trás.
Como a sociedade torna toda e qualquer coisa uma competição me é detestável. A concorrência é repugnante. Detesto competições. Não me agrada nem um pouco essa ideia de vencedor e perdedor, melhor ou pior.
Não bastasse isso, a sociedade valoriza o produto e o serviço, não o trabalhador.
Me submeter a isso me desconectou comigo mesma.
Nos dias que outrora rotulei como os "meus preferidos", os sábados, passei a estar pressionada pelo o que não havia conseguido fazer na semana ou mesmo finalizando as metas que não havia alcançado.
Nos poucos momentos de "alívio" me limito a dormir. O que é estranho para quem o atrelava o sono à morte e se satisfazia com o máximo de 4h de sono. Dormir passou a ser um analgésico. Um modo de matar o tempo e fugir dos pensamentos que assoberbavam minha mente.
Os domingos já não me causam alívio algum. Nessas tardes, por volta das 16h, algo pesa. E o fim de tarde e o restante da noite é depressivo pelo reconhecimento de que "amanhã começa tudo de novo".
Nos poucos instantes dos últimos finais de semana que me permiti "relaxar", ouvi "Poema - Ney Matogrosso" e não senti sequer vontade de me mexer.
Não raras foram as vezes que passei algumas horas assim. Imóvel.
Logo depois, acontece a crise. Então, é o fim do mundo. O caos. A perda de sentido.
Não bastasse, nos dias em que saí, na fútil tentativa de fugir desse dia a dia massacrante, independentemente do quanto cheio estava o ambiente, das pessoas que estavam ao meu redor e do quanto estivessem entusiasmada com o conjunto das cores, som ou com a nossa conversa, me senti ridícula.
Certamente, com olhar apático para o vazio, em cada uma dessas noites, disse a mim mesma pelo menos uma centena de vezes: “Que merda eu tô fazendo aqui?”. Óbvio, me recusei a revistar cada um desses lugares e desculpei a mim mesma por tomar o tempo dessas pessoas: “Essa não sou eu, estou escapando aos poucos".
Passei a reconhecer a minha apatia, o desdém e o fato de estar sem vontade para qualquer coisa.
Isso é assustador.
Numa noite de segunda-feira, sufocada, disse a mim mesma que mudaria essa realidade pesarosa.
Corri para o velho ponto alto do bairro, escondido pelo enorme carvalho branco, lugar silencioso onde costumava ler apreciando o negro do céu.
Chegando lá, até mesmo estando em um dos meus cantos preferidos, aquilo não me causou absolutamente nada.
Ainda ali, ouvi as músicas que em algum lugar no tempo me faziam sentir o mundo e elas não me suscitaram nada.
Não sei mais o que gosto de fazer. Quais são os meus prazeres.
Pensei nos meus poucos amigos e quando havia os encontrado e tido uma última conversa com cada um deles. Fazia tanto tempo… Eu sequer havia percebido o distanciamento.
Eu já não lia ou mesmo escrevia. Eu não tocava mais violão, não dançava sozinha, não gargalhava e nem mesmo corria há muito tempo.
Não recordei a última peça que assisti, a última vez que andei na noite vazia. A última vez que ouvi com ternura "Onde anda você?".
Estava presencialmente todos os dias em casa, mas não recordei a última conversa sincera e profunda com qualquer dos meus irmãos, nem mesmo com os meus pais.
Não soube apontar a mim mesma o último arrepio, riso, beijo, abraço.
Reconheci estar distante, não só de todos, mas também de mim.
Naquele instante, tudo isso gritava. Eu chorei, mas não de tristeza. Fui incapaz de sentir até mesmo tristeza. Eu chorei por estar vazia.
Me ouvi com atenção. Olhei atentamente os dias findos e os anos distantes. Não era um buraco, nem mesmo um espaço. Era um vazio. A indiferença e o descaso, comigo.
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Atualizado em: Qua 30 Jun 2021

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