person_outline



search

Coletivos

              Ninguém com mais de 40 anos sobreviveu ao primeiro grau sem estudar os coletivos em língua portuguesa. Coletivo de cebola? Réstia. Porcos? Vara (talvez o termo que descreve a unidade de jurisdição civil tenha outra origem) mas a importância dada ao assunto amplamente excede seu aplicabilidade, com eventual exceção de ser atacado por um grupo de lobos e chamar socorro da forma adequada: alcateia e não matilha.
              Para além dos bancos escolares, a ideia de coletivos esgueirou-se na escuridão da formação dos costumes e encontrou seu lugar da dinâmica da sociedade, similar ao gerundismo. Um dos mais emblemáticos, na minha opinião, é o mercado. Em tese, mercado deveria ser o simples coletivo de compradores e vendedores, não tendo natureza diferente dos seus componentes, da mesma forma como não se encontra baleias orca em ninhos de águia. Para espanto geral, entretanto, o mercado tem razões que os indivíduos que o compõe desconhecem, tem uma dinâmica que não segue a lógica de seus constituintes, tem uma personalidade que não coaduna com aquela dos presentes na sua base e, porque não dizer, causa medo e surpresa nos indivíduos que o formam. De coletivo abstrato, o mercado passou a ser um sujeito, dotado de características próprias e paradoxalmente destacado da sua origem, incontrolável e incognoscível. O coletivo foi promovido e não só passou a valer mais do que a soma de seus termos, passou a ter desejos eventualmente contrários a eles. Como uma pessoa, passou a ser responsabilizado por eventos, passou a ser respeitado e até temido, em seu nome cuidados foram tomados e visando sua calma e estabilidade, rituais foram realizados. Sua importância só cresce mas seu rosto jamais foi visto, milhões trabalham com ele e até para ele, políticas globais são feitas considerando seu papel central e o culto parece estar em franca expansão. Será que não fomos muito longe nesta licença poética? Será que o termo ainda descreve seu antigo sentido?
              Por falar em costumes, a sociedade é o coletivo que agrupa os indivíduos, suas idiossincrasias e seu comportamento estatístico. Entretanto, o sociedade é atacada (ou mesmo louvada) como entidade distinta da população, suas culpas e méritos são próprios e sua existência virou o bode expiatório definitivo (nota do editor: os hebreus, em uma cerimônia de purificação, escolhiam 2 bodes para um ritual no qual o primeiro era sacrificado e seu sangue era usado para marcar as paredes do tempo enquanto o segundo tinha menos sorte: teria a função ritual de carregar consigo os pecados da comunidade, sendo abandonado no deserto: o bode expiatório). Assim, o problema não sou eu que estacionei meu carro na vaga de idosos mas sim a sociedade, que não respeita os mais velhos. A corrupção não é a soma de negócios espúrios: é um traço de personalidade da sociedade. Novamente, temos um coletivo ofuscando o entendimento da realidade e tornando as soluções mais distantes, inacessíveis.
              Internet não é mais somente um grupo de computadores operando protocolos padronizados: é uma fonte de padrões de comportamento. A ligação entre a incontável quantidade de usuários e o efeito global da sua interação perdeu-se completamente, está ausente até do debate mais profundo. A frase ‘a internet deixa as pessoas idiotas’ não é precisa pois a internet é composta de pessoas e o gene da idiotice a precede. Governo: outro termo cujo sentido foi desfigurado. O governo não é uma entidade etérea, adimensional e omnipresente: é a reunião de pessoas (com nome e CPF) em torno de uma agenda específica. Quando o governo erra ou acerta é porque uma ou mais pessoas acertaram e erraram mas a visão míope deste coletivo exacerbado cria o distanciamento necessário para dificultar a responsabilização. Ninguém aguenta mais ouvir “sou um ótimo motorista mas o trânsito estava terrível hoje”.
              Inventamos os coletivos e agora as criaturas se viraram contra seus criadores mas assim como concedemos espaço e poder para estes conceitos (úteis, até certo ponto), podemos revogar estes direitos e perceber o panorama de forma mais sóbria. Descoletivize-se!
Pin It
Atualizado em: Seg 21 Jun 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222