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Minotauro, Teseu e Bolsonaro

              Minos, aspirante a usurpador do governo de Creta, pediu a Posseidon que lhe enviasse um touro branco, simbolizando Sua aprovação ao seu reinado, que seria sacrificado em homenagem ao Deus. Entretanto, Minos é cativado pela beleza do touro e acaba sacrificando outro touro em seu lugar, fato que não passa despercebido por Posseidon que, como se poderia imaginar, é tomado de cólera e encarrega Afrodite de fazer com que Pasífae (esposa de Minos) apaixone-se perdidamente pelo touro. De forma a poder consumar seu amor pelo touro, Pasífae encomenda ao artesão Dédalo que faça uma vaca de madeira onde ela pudesse entrar e deste relacionamento atípico nasce o Minotauro, metade homem, metade touro (de acordo com as leis da genética vigentes naquela época). Minos consegue ser rei, Creta vira uma potência regional e o Minotauro cresce e fica agressivo (adolescentes...), tendo de ser colocado em um labirinto de onde ninguém consegue escapar. Todos os anos, Creta exigia que Atenas enviasse 7 jovens homens e mulheres, virgens, para o sacrifício de acalmar a fúria juvenil do Minotauro até que Teseu se candidata a ir, não somente mata o Minotauro mas também encontra a saída e é final feliz (para Atenas, claro). Antes de ir para o que importa, cabe dizer que Ariadne, por quem Teseu se apaixona, antes de entrar no labirinto, lhe dá um novelo, que ele desenrola à medida que entra e, desta forma, consegue sair ao final (que imaginação).
              Bem, esta é a história que todos conhecem mas tenho que admitir que ela é um pouco frustrante. Todos mitos gregos tem, além de complexidade, motivações e objetivos bem definidos e este perece ser uma exceção. Quando Faetonte, filho de Helios, pediu para dirigir a carruagem que levava o sol de leste a oeste, seu pai até permitiu mas advertiu-o que a empreitada era por demais difícil. De fato, quando ele não conseguiu mais manter o curso da carruagem, Zeus interveio e fulminou-o com um raio, impedindo que ele colidisse o Sol com a Terra. Moral da História: cuidado com os seus desejos pois eles podem ser fatais (mais uma voltinha com o carro do pai que termina em tragédia). Voltando a Teseu e o Minotauro, qual sentimento este mito traduz?
              Um revisionismo criativo relembra que o poderio militar e político de Creta era emblemático e por vezes subjugava cidades próximas: o pagamento de tributos era uma das formas de exercitar este poder. Naquele tempo Creta tinha prédios de vários andares, com sistema de esgoto enquanto na Europa, os vilarejos dispunham de casebres com esterco em todos os cômodos. O governo era forte, presente e numeroso: a burocracia cretense era pujante. Agora começa: talvez o labirinto do Minotauro fosse, na verdade, uma representação do intrincado sistema organizacional do governo cretense (impossível de ser compreendido em Atenas), os 14 jovens seriam, de fato, impostos e a própria ideia do Minotauro não seria nada além de uma metáfora para a sandice arrecadatória de Creta. O evento da morte do Minotauro por Teseu ilustraria o rompimento dos grilhões políticos que constringiam Atenas. Acredito na perspectiva de que é mais fácil convencer uma sociedade a se sacrificar com uma narrativa emocionante como a do Minotauro do que explicar as ramificações geopolíticas do expansionismo cretense. Transportando a lógica para o momento (e me permitindo abrir uma honrosa exceção para a minha prática de não fabricar fake news), informo que: ‘o presidente Bolsonaro é um reptiliano, de um outro planeta, cujo objetivo é destruir a Terra para construir um condomínio de alta classe para seus parentes. Seu ponto fraco é o voto inteligente’. O erro é fácil de identificar: os gregos tiveram milhares de anos para sofisticar e aperfeiçoar sua lógica, seu estilo literário e sua prosa; fazer isto à toque de caixa (e com pouco talento) não iria mesmo funcionar (mas eu tinha que tentar...).
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Atualizado em: Seg 21 Jun 2021

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