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Conspirando contra os teóricos

              Em um brilhante livro de 1995 (O mundo assombrado por demônios), o renomado cientista, físico, biólogo, astrofísico e tantas outras coisas Carl Sagan mostra como a realidade descrita pela ciência nos permite vislumbrar um mundo que é muito distinto daquele onde os fenômenos são orquestrados por seres invisíveis, encantados e mágicos. Embora o pano de fundo seja o mesmo, estas duas visões levam a vivências totalmente distintas e, no entendimento do autor, vive-se com mais graça, harmonia, elegância e felicidade ao abdicar do misticismo, da pseudociência e da ritualística mágica. Mesmo ele, um quarto de século atrás, espantava-se ao constatar como as pessoas ativamente procuravam estas fantasias em detrimento ao que ele considerava o saber mais puro, útil, concreto.

              Atualmente vivemos na era da conspiração: um tempo que se pode qualificar como de extrema criatividade, marcado pela busca intensa por explicações alternativas, estapafúrdias, quando não simplesmente patéticas. Estes ‘posicionamentos’ foram elevados ao status de visão pessoal e, dentro do ethos corrente de respeitabilidade incondicional, não podem ser analisados, formalmente repudiados, desnudados de todo o engano e falácia em que se baseiam. Fazer isto seria descortês e possivelmente taxado de repressivo, anacrônico ou fascista. Ao contrário da lei do mercado (onde empresas ruins são naturalmente eliminadas da cena exclusivamente por via de suas vicissitudes), o mercado de teorias da conspiração há anos experimenta o seu bull market, ao ponto de que parece ser válida a proposta de analisar o que há por trás das palavras sensíveis dos entusiastas da área, que brincam com a genuína curiosidade das pessoas.

              Atrás de todo teórico da conspiração, há uma pessoa preguiçosa. Claro, este não deve ser seu único atributo mas me parece irrefutável que há sempre uma displicência intelectual que não o impede de fazer afirmações em áreas onde tem pouco ou nenhum conhecimento. Aqui, cabe uma observação que pode soar como atenuante: se for exigido conhecimento formal e profundo sobre um assunto para poder tratar dele, teremos que parar de usar celular (pois a expressa maioria das pessoas não entende como eles funcionam), mandar email, usar computador, geladeira e possivelmente até o toilette. Cada um destes itens, mesmo os espartanamente simples, estão envoltos em uma rede de logística, tecnologia e maquinário que é de total desconhecimento da grande maioria e este é o preço que pagamos por viver em uma sociedade e um tempo tão sofisticado: tudo é tão ‘á prova de burro’ que qualquer um faz o seu site, candidata-se a um cargo político ou até escreve uma crônica.

              Atrás de todo teórico da conspiração, há um covarde. No sentido de que estas pessoas não querem aquiescer ao senso comum, não querem se ver como tijolos anônimos em um muro mas não tem a coragem necessária para assumir este lado rebelde. “Então a NASA está dizendo que a minha SUV de 2000 kg polui muito o ambiente? Então vou questionar os feitos desta organização e convencer as pessoas que eles não tem razão. Desta forma, sigo a minha vida sem ter que alterar minhas preferências”. Et voilá: nasce a teoria de que o pouso na Lua jamais aconteceu.

              Atrás de todo teórico da conspiração, há um egocêntrico que acha que milênios de História, tentativa e erro, esforço, vidas perdidas, método e incontáveis horas de dedicação compulsiva de tantas pessoas tem menos valor que a sua leitura ‘da realidade’. Claro que a inconformidade é fundamental para o progresso e tudo pode ser questionado a qualquer tempo, por quem quer se seja mas este jogo tem regras e nele, a ignorância é uma falha, não uma virtude.

              Atrás de todo teórico da conspiração, há um espalhafatoso, que busca sua fama fácil através do olhar ‘diferenciado’ que tem, das ‘verdades’ que é capaz de ver - e que o resto da sociedade não consegue, da solução para os problemas que oferece. O objetivo não é prático, não está relacionado a ações no mundo real; ele se restringe a proclamar a superioridade sensorial do grupo.

              Atrás de todo teórico da conspiração, há uma pessoa impaciente, que não está disposta a esperar que as respostas aos questionamentos frequentemente válidos que apresentam sejam estudados, testados, validados, refutados e, por fim, formem um consenso dentro da comunidade. Ao invés disto, eles querem uma resposta rápida que dissolva o desconforto do não saber e dê uma resposta imediata, mesmo que falsa.

              Atrás de todo teórico da conspiração, há uma pessoa incapaz de ser um membro da equipe, não consegue contemplar que esta é uma das maiores virtudes humanas, uma pessoa que joga com o bem estar de tantos outros, unicamente para perseguir os seus objetivos pessoais de glória e fama, uma pessoa para a qual os atenienses inventaram o ostracismo (exílio ou banimento por 10 anos).

         Atrás de todo teórico da conspiração, há uma vítima de um sistema educacional que perdeu a noção das prioridades, que reconhece validade na memorização maçante mas não incentiva o pensamento crítico; um sistema que não é capaz de inspirar, encantar e fazer da busca crítica do saber sua inegociável missão, o que indiretamente fomenta a busca pelo mágico, místico, esdruxulamente alternativo,

              Hoje, não vejo estas teorias como inocentes excrecências, cornucópias de embaraço científico em enredos de ficção de quinta categoria. São armas e como tais, são poderosas e podem ferir, embora armas, pelo menos em tese, podem ser usadas tanto para o bem ou para o mal.


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Atualizado em: Sáb 5 Jun 2021

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