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[Conto] Obsessão — Parte I

Aquele parecia ser mais um dia como todos os outros. Todos aspirando suas monótonas rotinas matinais. Era um dia nublado, a janela do meu quarto ainda estava suada da chuva na madrugada. A vegetação molhada me era deslumbrante. O clima frio era gostoso. Mas, se tratando daquele lugarzinho esquecido, a sexta-feira exalava preguiça. Hesitei ao imaginar que teria de levantar e ir à aula. Eu estava de saco cheio.
Essa cidade é o completo oposto da minha selva de pedras. Faz duas semanas que terminei a mudança e tenho plena convicção de que irei à loucura se não acrescentar algo novo na minha rotina. Anseio por transformação e acreditei que me libertar do comodismo e da velha rotina me proporcionaria isso.
Confesso, nos primeiros dias, fui consumida por uma euforia desmedida. Principalmente, com a casa nova. A presença de árvores, uma cidade limpa. Um novo lugar. Morar sozinha. Me vi com a “estrada limpa”, linhas a serem traçadas, páginas em branco e uma vida a ser escrita. Aliás, foi o que interpretei do que disse o cigano que leu a minha mão na última noite que passei no Porto, na praia, quando se despedia dos amigos.
Isso durou pouco. Especificamente até eu precisar de infindas coisas para reforma e reconhecer as desvantagens de uma cidade pequena. Ela não tem tudo. Precisar ir à Capital toda vez que necessitar de algo que não vende no único hipermercado local é um absurdo, já que não tenho prazer em dirigir.
Em compensação, por aqui há muitas lojinhas de artesanato, cafés e biblioteca. Tem uma exuberante praia acinzenta de águas gélidas que atraem turistas.
Já conheci de carro cada trecho da cidade, que é minúscula. Muitas vezes profanei o lugar que outrora me cativou. Eu pretendia morar numa cidade que proporcionasse uma semana tranquila e um final de semana agitado na sua simplicidade. Porém, não há absolutamente nada interessante. Não vislumbrei lugares para se divertir. Não localizei nenhum barzinho, nenhum karaokê, nenhum lugar com música ao vivo. Sinceramente, questionei o que as pessoas da minha idade faziam por aqui.
Não bastasse, não tem um clima gloriosamente agradável. Jamais poderia imaginar uma coisa dessas, mas, como eu poderei viver num lugar em que apenas três meses do ano são ensolarados? Não que eu fosse apaixonada por um dia extremamente quente, abafado e com mosquitos, mas sempre fiquei boquiaberta com as tonalidades do céu ao amanhecer e entardecer, bem como por sentir o sol queimar a minha pele. Sempre gostei dos sábados quentes ao som de “Feel So Close - Calvin Harris”.
Não fosse apenas esta surpresa comigo mesma, reconheci que eu gostava bem mais de socializar do que imaginava. Reconheci que apesar de preferir fazer as minhas coisas sozinhas, escrever, tocar, dançar, ler, sair e fazer compras, quando queria, tinha um amigo para contar com cada coisa diferente e vira e mexe, apesar de não ser sempre, estávamos fazendo seja lá o que fosse juntos. Vou delirar se passar mais uma semana sem conversar ou ter uma conversa digna pessoalmente com alguém.
Nas minhas poucas visitas aos estabelecimentos, percebi que essa cidade é tão pequena que todos se conhecem. Todos. Na cidade grande, sempre me incomodei com o fato de, apesar de não conhecer todo mundo do meu bairro, “saber quem eram” e acredito que o mesmo ocorria para comigo. Detestava. A ideia de anonimato, de poucas pessoas sabendo quem eu sou e, por esta razão, sem ter o que falar ou fazer presunções sobre o que eu faço, quando e como, me agrada. Razão pela qual, até o mês passado, a ideia de mudança estava me deixando empolgadíssima. Porém, por aqui isto é ainda mais embaraçoso. Também há os vulgos “grupinhos”, mas diferentemente do centro, eles realmente se conhecem.
Claro, dois pensamentos distintos me atacaram e fiquei assustada: i) logo mais eu iria me familiarizar e todos me conheceriam ou ii) eu seria a isolada e passaria o resto dos meus dias falando comigo mesma.
No entanto, nada do que mencionei foi a pior parte. Mais uma ilusão minha cedeu. Algumas coisas simplesmente são comuns, não normais, e estão associadas às pessoas e não aos lugares. Na noite anterior, havia ido à padaria e logo à frente trombei com um grupo de caras em uma espécie de reuniãozinha. Na primeira oportunidade, os vi intimidarem e desrespeitarem duas garotas, as objetificando escrachadamente. Eles agiam com uma espécie de superioridade, como algo que é inviolável. Aspiravam arrogância e eram novos o suficiente para constatar a imaturidade com facilidade. Senti o peso dos seus olhares sobre mim e disse a mim mesma: “na primeira frase de merda, dou um soco na boca”. Claro, a frustração me consumiu, por acreditar que por aqui o “comum” dos caras seria outro que não o que eu já conhecia e muito bem.
Quanto às aulas, sou a única que não tem companhia alguma no intervalo, mas isso não é algo que me incomoda, pois sempre estive acostumada em usar esse tempo para ler ouvindo música. Algumas pessoas até se prontificaram a conversar comigo para se apresentar, mas percebi uma aversão ou estranheza com quem não nasceu na cidade e não ousaram um segundo contato.
Estão acostumados com a mesma forma de se portar, andar e falar. Até mesmo os carros, as casas e as vestes possuem uma espécie de sintonia. Não bastasse, reconheci o mesmo estilo musical em todos os estabelecimentos, já até sei de cor “Home — Edward Sharpe e The Magnetic Zeros”. Óbvio, eu destoou completamente do meu entorno. Aliás, já ouvi me apontarem por turista esquisita.
O modo de viver neste lugarzinho é completamente diferente, mas acredito que posso usufruir a meu favor. Tornaria os meus dias incríveis. Compete a mim mesma incrementar coisas novas à minha vida, fui tola ao acreditar que fugir da mesma ruas, da mesma casa, da mesma praça, das mesmas pessoas e do mesmo bairro iria radicalizar no extremo máximo positivo a minha vida. Bom, ao menos, supriu todas as minhas expectativas no quesito casa, inspiração para escrever, tranquilidade para estudar e natureza para desfrutar.
Prometi a mim mesma que aquele dia seria diferente, eu faria algo que me agradasse. Sairia por aí e arranjaria algo novo para fazer. Naquela manhã gris, tomei a decisão de não ir para aquela droga de aula, já que o ambiente seria torturante para o meu estado de espírito.
De uma coisa eu tinha certeza para qual aquela cidadezinha serviria. Correr. Dotada de um mau-humor, o meu subterfúgio seria tirar o meu dia tranquilo para relaxar, já que extravasar não havia como se cogitar.

Depois daquele dia eu não saberia concluir se o meu ter me arrastado pra essa cidade foi a pior ou a melhor coisa que já me aconteceu.
Tomei o café da manhã de costume, vesti o meu velho moletom e fui correr. Decidi seguir a trilha por entre as árvores da vegetação que circundava a maior parte da cidade. As minhas expectativas foram, felizmente, frustradas e me vi caminhando ao invés de correr, já que estava deslumbrada com a paisagem, o som da natureza e o cheiro que era incrivelmente relaxante. Apreciei cada detalhe, as diferentes tonalidades de rochas, as diversas copas, o musgo nos troncos… então fui surpreendida com um clique.
Acreditava estar sozinha, mas poderia jurar que ouvi alguém tirar uma fotografia. Mas, quem? Onde? Do que? Aquilo havia tirado a minha atenção, mas resolvi prosseguir. Ouvi o mesmo som mais duas ou três vezes. Foi quando senti a presença de alguém atrás de mim, antes mesmo que eu pudesse me virar para procurar, foi surpreendida com um “tudo bem, moça? Tá pedida?”. Com certeza a pergunta foi retórica, eis que evidentemente eu não estava perdida. Sem mais nem menos, de imediato questionei:
— Estava me fotografando?.
Ele sorriu, com um ar amigável e ainda assim misterioso, confirmou.
— Sim, eu estava. Se importa? Posso apagá-las.
Me prestando a conversa, continuei:
— E por qual razão fotografar a mim?
— Francamente, não sei. A vi e acreditei que pelo ângulo, luz e cores, ficaria boa. Aliás, ficaram, quer ver?
Havia algo de intimidador nele. Não necessariamente ruim, mas havia lago e eu não sabia explicar. Não sabia nem mesmo se deveria sentir medo ou ter alguma espécie de cautela pelo lugar em que estávamos. Ainda assim, cogitei estar sendo paranoica.
— Não sou fotogênica e costumo não gostar de me ver dessa maneira, principalmente distraída.
— Peculiar. Se é assim, irei apagá-las.
— Agradecida.
— Que desperdício, hem.
— O que quer dizer com isso?
— Uma mulher atraente que não gosta da sua imagem a ponto de descartar um retrato.
— Então essa é a sua cantada? Saquei a sua.
— Foi um elogio sincero e não premeditado.
— Me achou fisicamente atraente e tirou fotos minhas. O que pretende fazer com elas? Já aviso que estudei o suficiente para reclamar os meus direitos da personalidade. É bom ter grana para me indenizar.
— Não vou precisar e você não vai ter o que reclamar.
— Eu espero.
— Que impressão equivocada você teve de mim. Não sou assim, não me autorizou usá-las e irei pagá-las.
— Hum. Se eu autorizasse, usaria para o que?
— Para um projeto.
— Projeto?
— Sim. Um projeto de fotografia. Trabalho com isso, de forma autônoma.
Interessante. E que projeto é esse?
— Uma exposição. As minhas fotos serão expostas, integrando o design de um metrô no centro. Serão transpostas num túnel de vidro, com poemas.
— Uau. E qual o contexto para isso me incluir?
— Ficou curiosa, né?
— Confesso, fiquei.
— Fica tranquila, te convido para ir visitar.
— Lisonjeada.
— Reconheci o sarcasmo.
— Não sei se está me dizendo a verdade e abusando da minha ingenuidade.
— Não estou.
— Não o conheço.
— Também não a conheço.
— Então costuma fotografar desconhecidos?
— Não. Foi a primeira vez que fiz isso. Não costumo fotografar pessoas.
— Um fotógrafo que não fotografa pessoas. Intrigante.
— Afiada. Você certamente não é daqui.
— Bom palpite.
— A fotografia não se resume a isso. A sua visão é restritiva.
— Sou completamente leiga no assunto, não vou discutir.
— E você, o que faz?
— Eu escrevo. Público umas coisas.
— Olha, temos algo em comum. A arte.
— É, pode ser. Se realmente for quem diz ser.
— Não acredita em mim, não é?
— Quem é você, afinal?
— Um cara que fotografou uma mulher atraente que se destaca nessa cidadezinha.
— Estava mentindo, né?
— Não, não estava.
— Duvido.
— E se eu estiver falando a verdade, o que eu ganharei com isso?
— Se provar, deixo usar aquelas fotos para a tal exposição. Mas, sem chances de outras. Uma oportunidade única.
— É um trato. Deu à sua palavra.
— Como fará isso?
— Três quarteirões depois do seu, a propriedade ao fundo, com chalé. Apareça por lá, ainda antes do início das férias de verão.
— O que?
— Te mostrarei meus trabalhos.
— Como sabe onde eu moro?
— Como não sabe quem eu sou?
Logo em seguida, ele sorriu cheio de convicção como quem se despedia, me deu as costas e voltou à trilha.
Processando o ocorrido, comecei a correr. Corri cerca de 1 hora, até que nuvens pesadas cobriam o céu e começou a garoar. Com pressa, voltei para casa.
Fiquei cogitando comigo mesma quem seria aquele cara. Por qual razão me abordar daquela maneira? Ele não se parecia nem um pouco com os caras daqui. Acredito que deva ter a minha idade ou ser mais novo. Fora o seu ar intimidador, se destacava pela aparência.
As férias de verão iniciavam-se na semana seguinte. A chuva havia cessado os meus planos para aquele dia. Voltei para casa e me debrucei sobre “House of Night”.
Na manhã de sábado eu também não tinha plano algum. Cogitei ir visitar o meu irmão, cheguei a ligar, mas ele não passaria o fim de semana em casa. Resolvi finalizar a limpeza e organização do escritório.
No final da tarde, previa o tédio da minha noite quando recordei aquele estranho convite. Sem parar para deliberar, coloquei as botas e casaco e fui caminhando à procura do chalé. O encontrei com facilidade, era bonito. Havia a presença de alvenaria e muito vidro. Chamava atenção. Aquele lugar era lindo.
Antes mesmo de adentrar à propriedade, me dei conta de que o acesso era livre. Antes mesmo que eu parasse para questionar como e por quem deveria chamar, ele me fisgou. A frente do chalé era majoritariamente de vidro. No mesmo instante, o vi descer as escadas em minha direção.
Não sei a razão, mas eu estava empolgada. Aquilo parecia precipitado, mas eu estava gostando de assumir o risco.
— Você veio.
— Eu disse que viria.
— Cumpre sua palavra.
— Claro.
— Gostei que tenha vindo. Vem conhecer o meu espaço.
O ambiente era moderno e aconchegante. Haviam inúmeras fotografias por todos os lugares, maquinas, filmes e outros. Estava tocando “Arctic Monkeys — One For the Road” e reparei que ele apreciava um bom vinho.
— Então, você realmente é um fotógrafo.
— Exato.
— As fotos são suas.
— Foi um prazer apostar com você.
— Há coisas melhores que causam prazer.
— Por que diz isso?
— Você tem bom gosto musical, “505” é uma das minhas favoritas. São intensas, eu gosto.
— Você parece ser uma mulher intensa.
— Talvez.
— Posso descobrir…
O clima ficou quente. Por alguma razão, me arrepiei. Visando elidir o sufoco e esconder meu embaraço, pedi para ver seus trabalhos.
Fiquei maravilhada. Ele elaborava projetos com temas subjetivos e as fotos, como uma narrativa, esmiuçavam emoções. Jamais havia visto a fotografia por aquela perspectiva. Os temas eram infindos. Em suma, as maiorias de suas fotos elucidavam movimento.
Ele explicava maravilhosamente bem, de modo que eu compreendia e percebia tudo. Esmiuçava o seu olhar específico e cuidadoso. Não bastasse, atencioso quanto aos meus questionamentos.
No entanto, era tecnicamente impossível olhar para ele quando explicava e não pensar em quanto ele era sensual. Sensual explicando, atento. Ao apresentar uma dúvida quase nem conseguia manter contato visual, me desconcentrava. Aliás, a questão é: quem não ficaria? Acredito que ele tenha percebido uma vez ou outra.
Passamos algumas horas conversando. Me contou o que fazia, as razões e outros. Acompanhados de uma boa música, a chuva ficou intensa e ele me ofereceu uma taça de vinho para esquentar. Aceitei.
Além de bonitão e inteligente, ele parecia gentil. Jovem, devia ter uns 27 anos, não perguntei.
Inesperadamente, sem mais nem menos, ele me surpreendeu.
— Eu a conheço.
— Conhece a mim?
— Sim. A você.
— Você sabia onde eu moro e, considerando que me mudei recentemente, isso é realmente assustador. Planeja me matar ou algo assim?
— Se acreditasse que eu faria isso, jamais me questionaria.
— Concordo, não seria precipitada dessa forma.
— Talvez.
— Talvez o que?
— Talvez eu a conheça.
— Por que diz isso?
— Eu conheço a sua versão escritora.
— Tá falando sério?
— Sim. Estou, já li todos os seus textos. Tenho um exemplar do seu primeiro — livro naquela estante. A acompanho desde os “autores”.
— Cara, estou perplexa.
— Naquele instante, trezentas coisas permearam a minha mente. Apesar da situação estranha, fiquei incrivelmente radiante por perceber que naquela cidadezinha pacata, alguém conhecia o meu trabalho.
— Então, você é um leitor assíduo meu.
— Sou.
— Uau. Isso foi inesperado.
— A havia visto aqui na cidade, de carro, vezes consideráveis. Achei aquele momento oportuno.
— Oportuno para?
— Conhecê-la.
— Quer me conhecer? Mais?
— Eu conheço o seu trabalho e uma das suas versões. Apenas.
— Eu, agora, conheço o seu trabalho. É realmente encantador. Vou à sua exposição.
— Te esperarei na inauguração.
Logo em seguida, ele abriu outra garrafa de vinho. Completou a minha taça. Ao se aproximar, senti o seu perfume. Que homem cheiroso. Definitivamente, aquele cara misterioso estava me tentando. Estava ligeiramente atraída e sequer o conhecia.
Havia escurecido, era noite e ao som de Cigarettes After Sex, o assunto estava em mim. Comentou suas impressões sobre os meus textos e apontou os seus preferidos. Ele realmente havia lido os meus livros. Claro, fiquei imersa na conversa. Contei as coisas que me levaram a escrever alguns deles e até mesmo a história por trás.
Por um triz, eu perdi a concentração. Enquanto ele falava, a minha mente se encontrava no quanto ele exalava mistério. A ideia de um homem talentoso que me via como referência me deixou fascinada. Algo nele me cativava. Não posso negar, a aparência principalmente. Cabelo ondulado castanho na altura dos ombros, rosto anguloso, cavanhaque e a camiseta azul marinho com algumas casas de botões aberta estava chamando a minha atenção até demais.
Definitivamente ele havia percebido os meus olhares. Assim que caí em mim, ele me encarava com profundidade. Os seus olhos escancararam não somente admiração, mas desejo. Mordi os lábios.
Na fútil tentativa de ajudar a amenizar a minha tensão, ele sorriu e contou que tinha algo para me dá e me pediu para aguardar que iria buscar.
Aproveitei a oportunidade e questionei onde era o banheiro. Ele me guiou. Fitei o meu rosto no espelho. Eu estava bonita, sem grandes produções eu estava apresentável. Não sei por qual motivo, mas me preocupei com isto. Com toda a certeza, eu queria muito mais daquele contato. Para amenizar a tensão, lavei as mãos e o rosto. Assim que retornei, tomei toda a taça de vinho numa única vez.
De forma repentina, algo me dizia que eu já o conhecia, mas apesar de ter me esforçado, não consegui lembrar. Depois, cheguei até mesmo a duvidar se já não estaria alta por causa do vinho.
Ele voltou com um exemplar do meu livro e simplesmente me pediu para abrir. Assim o fiz e me deparei com as minhas fotografias.
— Eu acabei de revelar, desculpe se demorei.
— Ficaram boas, realmente gostei e são raras as vezes que isso acontece.
— Eu avisei que seria desperdício.
— Avisou sim.
— Confia em mim agora?
— Eu acredito. E a diferença entre acreditar e confiar é que essa segunda não é depositada sem mais nem menos, sobretudo, em alguém que não conheço.
E se eu te pedisse, para confiar, só por uma noite. Faria?
— Fari…
— Shii.
Antes que eu finalizasse a palavra, ele me beijou. Calorosamente. Eu senti algo inexplicável, como se estivesse alinhada àquilo. Eu senti proteção, com um estranho. E ele sussurrou ao meu ouvido uma frase específica, a qual eu conhecia muito bem e jamais havia escrito.
Sim, eu o conheci nos alvoreceres findos.
Estávamos na praia numa noite nublada.
Entre poucos amigos, arranjamos uma fogueira e jogávamos conversa fora ao som de “Foster The People — Pumped Up Kick”.
Recordo com fidúcia cada detalhe daquela noite.
Estava de frente para o mar, sentindo a brisa esvoaçar o meu cabelo emaranhado, como de costume, imersa em questionamentos quanto ao sentido da vida.
Ouvia gargalhadas, mas foi quando pronunciou o meu nome que me libertei dos devaneios.
Num ímpeto, ele correu até mim, pegou a minha cintura e me puxou, virando-me para si. Assim que o fitei, aquele mesmo olhar misterioso me aquietou. De mansinho, perguntou: “posso te contar um segredo?”. Eu assenti. Então ele colocou o meu cabelo atrás da orelha e me disse, num sussurro: “você é a mulher da minha vida, eis a minha única certeza”.
Sorrindo de canto, desejando fortemente que o destino acolhesse aquelas palavras, o abracei, de alma. Logo depois, me fitou com um sorriso largo, me debrucei sobre o seu corpo e nos beijamos.
“Hei de te amar, deusa do amor, e não sei se isso será o meu céu ou o meu inferno”.
Não sabíamos que aquilo era uma despedida.
— Eu sou seu fã, cacei você.
— E mais uma vez o destino me surpreende.
— Não faz ideia do quanto sou grato ao universo por ser você, aqui e nesse agora.
— Grato por estar diante da incógnita? Afinal, estamos no céu ou no inferno?

Janaina Couto ©
[Publicado — 2021]
@janacoutoj
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Atualizado em: Ter 29 Jun 2021

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