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50 tons de verdade

              A verdade é um conceito bem mais elusivo e fugidiço que nossa estética moral está propensa a aceitar. Imaginamos a verdade como um ente em si, um constructo independente com o qual interagimos exclusivamente via admiração. Por outro lado, a verdade pode ser vista como um resultado, um dos subprodutos de um processo cognitivo e de reflexão e este é um primeiro passo bastante útil para distinguir os vários tipos de verdade. Para os gregos, a verdade estava relacionada às coisas que se percebem, ao que é visto, evidenciado. Para os hebreus, a verdade estava relacionada à ideia de promessa, compromisso e para os romanos, verdade era depoimento, contribuição pessoal.
              Hoje, vários tipos de afirmações se autodescrevem como verdade, visando assim assumir um status maior de credibilidade mas na verdade, existem verdades e verdades. As mais fáceis de categorizar e reconhecer são as verdades científicas pois elas mantém seu valor (que, como toda verdade, não é infinito nem atemporal) independentemente de quem as proclama, trazem consigo evidências que ajudam o ouvinte a compreendê-las (e eventualmente aceitá-las) e por fim, não tiram nem colocam nada na cartola: usam e abusam da transparência e ousam se autodesafiar, emprestando-se sempre que possível ao escrutínio de qualquer um, sem exigência de autoridade.
              Outro tipo de verdade pode ser classificada como ideológica. Embora ela tenha sua própria força (que por vezes supera a das verdades científicas) ela não se baseia em fatos, ela não exige compreensão profunda nem evidências (até porque em muitos casos não é possível colher estas evidências). A política está repleta de verdades deste tipo e ela pode se mostrar de forma conceitual e impessoal (como na admissão de que o mercado é capaz de se autoregular) mas também pode se materializar focada em uma pessoa ou grupo de pessoas, identificando o indivíduo com capacidades e poderes incomuns - mesmo que desprovido do que seriam consideradas evidências mínimas. A característica fundamental das verdades ideológicas é o fato que a sua assimilação não é um processo controlado, pois ele não se dá através de argumentação ou exposição lógica de argumentos. Para ter sucesso na sua disseminação é necessária uma conexão emocional, em geral irracional e por vezes infantil entre a proposta e as experiências do ouvinte: o alvo da flecha ideológica não é o cérebro e sim o coração. E antes que você se ache superior a todo este mecanismo, reflita profundamente para tentar encontrar quais verdades lhe são tão caras mas pelas quais você não consegue justificativa plausível (não vale usar o coringa da autoevidência).
              Um subgrupo particularmente interessante das verdades ideológicas são as verdades religiosas. Como qualquer outra ideologia, ela não precisa argumentos sólidos para se sustentar (embora muito contorcionismo argumentativo já foi feito para tentar criar argumentos críveis, quando possível). Elas são apresentadas como tão autoevidentes que sua natureza se confunde com a própria natureza humana. Mais do que isto, aqueles que não são capazes de enxergar estas verdades são pessoas incompletas, vazias (em uma perspectiva positiva) ou ativamente malévolas (que repudiam a verdade por alguma inescondível falha de caráter). A razão de existência deste subgrupo (que o diferencia da crença em Papai Noel ou Fada do Dente) é que, embora haja espaço para que estas verdades sejam vividas no plano pessoal, há um movimento muito forte que tenta elevar estas proclamações a um nível de confiabilidade atribuível à verdades científicas. Os apologistas desta dialética se unem em grupos, obtém representatividade e poder político, constroem verdadeiros impérios e, como todos curadores de verdades, sentem a obrigação moral de difundi-las à maior quantidade de pessoas e não descansam enquanto suas afirmações não são aceitas e, preferencialmente, colocadas em papel através de leis. O conflito é tão inevitável quanto óbvio: a vida na sociedade contemporânea não é o lugar por excelência para que as tradições e retóricas de um determinado grupo se sobreponham aos anseios dos demais - embora seja inegável que muitas guerras já tenham sido travadas exatamente com este objetivo.
              Não descarto que a origem de toda esta balbúrdia seja semântica: usamos a mesma palavra (verdade) para descrever coisas muito distintas: gravitação, capitalismo e islamismo fazem afirmações fortes mas em sua essência, são coisas diferentes e talvez se fossem chamadas assim, a confusão seria menor.
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Atualizado em: Qui 1 Abr 2021

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