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Para: Sr. Decisivo

-Um café, por favor. Sem açúcar. 
O balconista se vira para pegar um copo ainda molhado no escorredor.  
-Vai comer alguma coisa? – o antiquado atendente fala colocando  com uma das mãos o copo próximo a mim, despeja por alguns segundos o líquido quente empretecido no recipiente de vidro.  
A fumaça repentina e o aroma inconfundível daquela reação química me indicam que o café tinha sido feito à alguns minutos. 
-Obrigado. - falei antes de degustar um pouco da poção amarga. – É só o café. 
O velho relógio da parede de trás do balcão mostrava 17:26, as pessoas passavam a todo momento de um lado para o outro pela janela, alguns muito provavelmente regressavam para suas casas depois de mais um dia de trabalho completo, os que estavam apressados para começar seu expediente noturno, muitos caminhando em grupos para seu justo happy hour, afinal, era o inicio do fim de semana e os bares e shoppings ficavam ainda mais cheios, como de costume no centro de São Paulo.  
Engoli em seco quando escutei uma campainha apitando, sinalizando que um cliente entrava no estabelecimento, me senti gelado, ofegante, com suor nas mãos, por um milésimo de segundo o copo me escorregou, quando o firmei em minha mão por um reflexo, senti um aroma novo, uma essência que me acertou como se fosse um caminhão, o cheiro amadeirado imediatamente se misturou com o aroma do café, senti um tremor na espinha, assim, o recipiente tomba no balcão e imediatamente derrama daquela bebida quente em meu colo. Calças jeans agora machadas, dei um grito inconsciente pelo ardor do acidente, o velho balconista já estava limpando a bagunça rapidamente para que pudesse atender o recém cliente. Sem se importar muito comigo. 
17:33. 
Olho para o lado, fitando a parte dos fundos, em uma das mesas surradas de madeira, com seus assentos em couro  avermelhado também gastos. O restaurante fora outrora um dos primeiros comércios erguidos da região, e ainda pertencia à família em que o inaugurou, “Silva", fora nomeado a mais de 60 anos, Tiago Lucas Silva, foi o primeiro dono. Tiago acabou sendo vítima de uma troca de tiros entre ladrões de bancos e a polícia, sendo baleado 4 vezes nas costas. Essas informações estavam estampadas em um pedaço da capa de jornal meio manchada pelo o tempo em um canto do lado de dentro do balcão perto da caixa registradora.  
O velho garçom de cabelos grisalhos agora levava em uma bandeja de metal, três copos, um cheio com cubos de gelo e os outros vazios, havia também uma garrafa de refrigerante de cola. Na mesa de destino aguardando seu pedido, uma bela jovem fitava com o olhar o cardápio, usava roupas discretas, um sobretudo acinzentado, longas botas pretas, cabelos escuros presos em coque.  
-A senhorita deseja mais alguma coisa? – o velho homem perguntava à admirando, a olhando como se servisse sua filha. 
-Apenas, obrigada. – ela falou gentilmente e olhou direto para mim. 
17:37 
Bebi o ultimo gole do café, respirei fundo, tentando me acalmar... Ainda inquieto me levantei e mirei aquela mulher, engoli em seco, andei em direção da mesa dela. 
 - Com sua licença. – falei com a voz meio trêmula, puxei a cadeira para me sentar. 
 - Bom fim de tarde... fique a vontade. – sua voz soava tranquila, segura, suave... 
17:43 
Momentos depois de bebermos todo o refrigerante, mudamos o tom da conversa, uma conversa que começou tímida da minha parte. Logo jogamos conversa fora, falando do tempo, um pouco de política e também sobre bebidas. Quando o velho garçom estava totalmente distraído assistindo as noticias do dia numa pequena televisão que ficava por dentro do balcão. 
 - Podemos começar agora. – a voz da mulher se empoderou, seu timbre mudara e agora era autoritária, séria e um pouco sinistra, seu perfume me sufocava a cada inspirada no ar o amadeirado entrava pelas narinas e cala frios surgiam, me sufocavam. 
Minhas pernas tremeram ao ouvir aquela potência, tentei disfarçar meu nervosismo pegando o copo onde havia o ultimo cubo de gelo e o coloquei na boca. Com uma das mãos a jovem procurava algo por dentro do sobretudo, com seus olhos ferozes ainda vigiando todos os meus movimentos, era como se ela fosse pular pra cima de mim, uma predadora, a expressão calma, mas seu olhar era  de horripilantemente dominante.  
 - Agora não tem mais volta... – cochichei assoprando ar gelado. 
Um envelope marrom foi posto na mesa, a mulher empurrou ele devagar até perto de mim. Observei as grandes garras, unhas pintadas com um preto fosco. 
18:01 
 Segundos depois observava um selo, em alto relevo, se mostrava dois tacos de golf cruzados, os tons em um degrade do preto ao branco. 
“Sr. Decisivo.” 
Fora escrito de caneta. Antes mesmo de eu ter o papel em mãos , a mulher se levantou, deixou algum dinheiro na mesa e foi embora. Rapidamente coloquei o documento escondido por dentro da jaqueta de couro em um bolso discreto. Virei o pescoço e antes mesmo dela deixar a antiga conveniência notei algo bizarro, arrepiante, extremamente repulsivo. A mulher acabara de sair pela porta, o balconista se dirigia a mim para limpar a mesa, ainda com meus olhos arregalados, desmoralizado. Aquilo era um delírio? Era real? Mesmo com a sanidade abalada e sem conseguir parar de tremer os joelhos olhei no relógio atrás do balcão. 18:04.  
- Vou buscar seu troco. – o velho falou recolhendo a quantia da mesa. 
- Pode ficar com o troco, boa noite senhor. – gaguejei enquanto me levantava e caminhei ligeiramente mesmo com as pernas tremulas, aos tropeços até a janela perto da saída, olhei atentamente para o máximo de pessoas possível rentando rastrear aquela mulher. – O que foi isso? 
18:07 
Em meio a todas aquelas pessoas transitando pela calçada, aquela jovem não saia dos meus pensamentos, meu coração estava acelerado, e minha respiração ofegante, parei de caminhar quando um calafrio fez tremer minha espinha, o que era aquela mulher? Era horripilante lembrar dela deixando o restaurante, aquilo precisava ser uma alucinação, ou então eu estaria completamente louco. Antes dela sair, na parede, sua sombra estava distorcida, no lugar dos seus braços, eu enxerguei oito membros que saiam de seu tronco, quatro pares de braços ou patas semelhante com a anatomia de uma grande caranguejeira, aquela sombra, aquele maldito formato na parede me enlouquecera. 
18:09  
Procurei algum lugar mais reservado, e sentei em um banco numa pequena pracinha a alguns metros da grande avenida, a iluminação era precária e apenas um poste de luz funcionava, e foi embaixo daquela claridade que eu abria o envelope, sem muitos cuidados, rasguei o papel para ver o que tinha dentro. Uma carta. Havia também um envelope menor que carregava um grande volume de notas de cem reais. Olhei em volta assustado com todo aquele dinheiro em minha mão, guardei no bolso de dentro da jaqueta. 
“ Caro Sr. Decisivo: 
Parabéns! Você passou na entrevista. Está contratado. 
Bem vindo a nossa pequena empreitada, você  está recebendo seu pagamento adiantado, quatrocentas notas pelo seu primeiro trabalho. À essa altura você já conheceu minha assistente, caso tenha alguma dúvida ela irá ajudá-lo, não se preocupe, ela o encontrara. Abaixo temos as principais regras para que se mantenha a ordem em nosso projeto. 
É proibido sair da cidade. É proibido dialogar com oficiais. É proibido se relacionar amorosamente. É estritamente proibido comentar sobre o trabalho. 
Caso alguma dessas regras sejam violadas infelizmente precisaremos inativar seus serviços. 
Como sua primeira tarefa, você precisará levar seis cobaias saudáveis para a conveniência de sua entrevista. As cobaias precisam ter entre 18 a 20 anos, o sexo indiferente, sem tatuagens ou piercings, desejável que não tenham vícios em qualquer tipo de droga, cabelos finos, uma genética sem muitos pelos, peso até 83kgs. Seu prazo é de 3 dias. 
Cordialmente.” 
18:15 
Paralisado, fiquei alguns minutos ao ler aquela horrenda carta, o suor não parava de escorrer pelo meu corpo, meus olhos arregalados não acreditavam naquele inacreditável documento, era um baque, meu corpo começava a tremer, as palavras na carta começavam a se desfazer com o contato do meu suor no papel, era preciso forçar bastante para inspirar oxigênio, meu cérebro não raciocinava. 
O que significava aquilo tudo? Eu apenas precisava de dinheiro para pagar as contas atrasadas antes de ser despejado, mas que trabalho era esse? Ao que me submeti para ganhar dinheiro rápido? Ao encontrar o anúncio do trabalho em uma página da internet, eu pensei que poderia mesmo ser um trabalho sujo, mas nunca pensara que eu estaria diante dessa pavorosa situação. Como eu poderia me livrar disso? Minha mente não parava de tentar achar alguma abertura nesse inferno de situação. 
- Vejo que está com alguma dúvida... – era ela, a jovem assistente, sua voz surgia da escuridão, ela falava mas eu não a enxergava, ela permanecia além do limite da luz amarelada do poste. 
Imediatamente eu amassei a carta e a procurei, mas meus olhos acostumados com a claridade não conseguiam penetrar pela penumbra, a voz dela surgira em minha frente, meu coração disparava e uma grande dificuldade de inspirar o ar ocorria em meu corpo, meu sangue fervia, eu a procurava com toda a minha atenção, mais uma falha tentativa. 
- Dúvidas no início são normais. – sua voz agora surgia pela direita. - Conte-me, o que deseja saber? – era o mesmo timbre calmo e suave de quando a conheci. 
- Quem são vocês? – gaguejei, olhando para direita. 
- Nós? – ironia. – É mesmo confuso, meu lindo... – o timbre sinistro autoritário aparecera, e agora vinha de trás de mim. – Geralmente eu não respondo essa pergunta... – ela parou por alguns segundos. Meus olhos a procuravam desesperadamente, aos poucos eu conseguia me acalmar. – Não somos daqui... – sua voz mudara novamente de direção. 
- Não estou perguntando de onde vocês são. – falei desaforado, nervoso com a rapidez de locomoção da mulher, obviamente aquilo não era natural. – Apareça!  
Por um instante eu apenas ouvia o barulho da cidade, dos carros e ônibus, das gargalhadas e gritos das pessoas nos bares ao redor. Já no ápice da agonia, guardei uma das mãos por dentro da jaqueta, procurava por um objeto que não tinha intenção de usar, e que me apossei daquilo por precaução, por achar que aquele anúncio de emprego era uma cilada, eu carregava comigo um revolver calibre 38 totalmente carregado. 
18:25 
“Geralmente eu não respondo essa pergunta...”  
Eu não era o primeiro que fora contratado por eles, provavelmente alguns antes de mim já tinham suas atividades inativadas. Minha mente estava uma bagunça, meus pensamentos desordenados, o medo dominava todo o alvoroço em minha mente, eu precisava de uma chance, uma única brecha e tinha certeza que viraria aquela situação. 
- O que vocês pretendem fazer com todas essas pessoas? – falei firme, com o dedão no cão do revolver. 
Um silêncio doloroso e agonizante tomava conta da pracinha, nem um suspiro da mulher, o vento balançava e derrubara algumas folhas das árvores ao redor... Possivelmente ela percebera que eu estava armado, que eu trazia perigo à ela, isso me dava confiança, e finalmente eu conseguia acalmar meu corpo, minha mente se esvaziava deixando espaço para meu raciocínio lógico, tinha uma grande possibilidade dela já ter fugido. Puxei o cão e saquei o 38 para fora da jaqueta, mantendo minhas mãos baixas, olhei em volta, caminhei lentamente para a escuridão me afastando do banco de concreto, voltando meus passos, retornando para a avenida, mas antes mesmo de deixar a obscuridade daquele lugar, um repentino e grotesco barulho surgiu-se do lado oposto ao meu caminho, e sem nenhuma dúvida ou medo, apontei o revolver para tal direção, por muito pouco não puxei o gatilho, mas suspendi no último segundo, ao ver que a origem daquele barulho foi causado por uma matilha de cães de rua mexendo no latão de lixo, eles derrubaram a grande tampa para que possam procurar por comida.  
18:39 
Momentos depois de esconder o 38 na jaqueta, consegui respirar fundo, aliviado por ter saído daquela situação pavorosa, agora eu estava calmo, relaxei os ombros que estavam rígidos de tanta tensão, em minha caminhada até a rua do lado da praça, ainda no escuro, onde podia apenas enxergar a saída da pequena trilha, fui surpreendido silenciosamente e suspendido por garras negras que adentraram minhas costelas e entranhas, me puxaram para cima, meus pés não sentiam o chão, meu corpo explodia de adrenalina, logo senti a queimação do golpe, do bote, minhas costelas ardiam, meus órgãos queimavam, a força surreal que me elevava era monstruosa, para tentar aliviar o máximo aquela aflição, segurei nos membros e para minha surpresa, era pele humana, braços longos, mas era tudo em vão, quando olhei para cima, mesmo nas trevas inacreditável daquele começo de noite, identifiquei meu algoz, já sem sentir os batimentos do meu coração, com o sangue fervendo em meu corpo, enxerguei uma enorme caranguejeira com dois braços humanos no lugar das quelíceras, enquanto com as outras patas ela escalava freneticamente um fio de teia que penetrava pelo meio dos galhos das árvores, oito olhos estavam travados em mim, o gigante aracnídeo esfregou seu abdômen com um par de patas e jogou uma rajada de seus pelos que mas pareciam pequenas lanças negras, fui atingido por varias delas, faltou fôlego para um grito de pânico, era impossível respirar, provável que meus pulmões estavam dilacerados, e quando a grotesca criatura parou de subir, suas pinças abriam. Ainda que por um instante pude ver a lua cheia no céu, momentos depois somente as trevas, a gigante com uma única mordida separou minha cabeça do corpo, com uma das patas ela empalou meu crânio e imediatamente o arremessou para boca, que devorou até os ossos, em seguida meu corpo, sem deixar nenhuma gota de sangue escapar, aquela potente criatura me destruiu sem nenhum esforço. 
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Atualizado em: Seg 22 Fev 2021

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