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Assim (para trás) caminha a humanidade

              Há cerca de 100 anos, não seria impensável que o final da adolescência o sujeito fosse convocado para o serviço militar para lutar na Primeira Guerra Mundial (mesmo sem entender a dinâmica geopolítica que culminou no conflito). Duzentos anos atrás, a “moda” era sair da Europa e desbravar o tal do novo mundo, em uma aventura cuja coragem requerida só pode fazer par à colonização de Marte. Por certo, muitos entravam nestes projetos mais por força de necessidade (fome ou ausência de alternativas) do que propósito próprio mas isto fica eclipsado quando se avalia as consequência deste tipo de comprometimento. Os adultos que emergiram (entre os sobreviventes, claro) do outro lado pavimentaram a estrada da vida com suas próprias vísceras e o nível de comprometimento com a causa (independentemente da sua natureza ética) balizaria não somente o desenvolvimento de seu caráter mas ajudaria a formar um espírito de luta e garra de uma sociedade inteira. Sobreviver a provações desta natureza forja pessoas de invejável força, tenacidade e resiliência (e uma série de nefastas cicatrizes).

              Dificuldades sempre existiram e sempre existirão, tão certo quanto o sol nascerá amanhã. A reação de tentar evitar as dificuldades, da mesma forma, é tão antiga quanto nós mesmos, envolve senso de preservação e autodefesa. O que é novo, entretanto, é o hábito que se desenvolveu nos últimas gerações de evitar qualquer dificuldade, a qualquer custo. Ir para a guerra? Opcional. Arranjar um emprego? Quando você estiver pronto. Sair de casa antes dos 30 anos? Só se aparecer uma ótima oportunidade. Tirar a carteira de motorista? Papai, mamãe e Uber tornaram este desejo ubíquoto em uma cornucópia de procrastinação. Grande parte dos desafios, das dificuldades, enfim das atribulações típicas de quem inicia a vida em sociedade agora pode ter o carimbo “procrastinável” e, com ele, todos os ensinamentos, lições e aprendizados que ajudam a formar a psiqué do homem moderno (ok, da pessoa moderna). Um sentimento muito difundido (que não esposo) é que “se eu tive dificuldades, meu filho terá também!”. Isto é simples vingança, contra a vida, contra os costumes, contra a sociedade. O foco da privação pela privação é empobrecido de significado: a miséria gratuita e sem esperança não é uma mestra eficaz. São exatamente os arranjos necessários para desviar dos problemas, ou corrigi-los quando possível, que trarão o benefício do crescimento pessoal - não os problemas em si. No extremo oposto do espectro: “eu tive dificuldades, então meu filho não ter-las-á (embora o vício em mesóclise possa custar caro)” e este parece ser o consenso da modernidade. Os pais-helicóptero acreditam que isolando seus pimpolhos em uma redoma de vidro (com proteção UVA e UVB, claro) não somente os protegerão de toda e qualquer adversidade que o mundo cão possa lhes apresentar mas também criarão um ambiente limpo, “seguro” (arghs!) e acolhedor para seus querubins. De fato, esta experiência pode durar bastante tempo e até ‘funcionar’ - se o objetivo for dar espaço à arrogância, incapacidade de diálogo e formas anacrônicas de feudalismo doutrinário. Em outras palavras: se o objetivo for criar um pequeno reizinho, como aquele personagem de Jô Soares.

              Atualmente, a demanda por reis (sobretudo os pequenos) anda em baixa, de forma que mais cedo ou mais tarde, o choque entre a bolha que os pais criaram e o mundo externo irá acontecer e este será um momento emblemático, simbólico e catártico. A saída positiva e feliz desta hecatombe é um susto enorme, que deve causar um amadurecimento do tipo “50 anos em 5”, com dor, amargura e até rancor por causa desta encenação involuntária do Mundo de Truman. Preocupante mesmo é o desenrolar negativo desta gazopa: o reizinho entra em seu primeiro emprego e antes de terminar o mês, coleciona desafetos em vários níveis da empresa e percebe, com irônica razão, que aquelas pessoas não valorizam incondicionalmente as suas contribuições (possivelmente porque, desprovido da genialidade que seus pais lhe atribuem, suas ponderações são simplórias, não se encaixam na realidade e não levam em conta uma miríade de aspectos práticos que eles desconhecem) mas o pequeno monarca recusa-se a ver a verdade (isto seria muito doloroso e ele nunca fez isto antes) e prefere a narrativa da perseguição como pano de fundo para novos atos da farsa que ele encena, culminando em um final apoteótico onde, diferente da tragédia clássica, não há morte, mas um tépido perambular caricato de que revisita Peter Pan. O reizinho será demitido ou, mais frequentemente, pedirá demissão - ou simplesmente abandonará o emprego e à noite, durante o jantar, em casa com os pais, narrará com especificidade anatômica as mazelas que passou, injustiças que sofreu e o preconceito de que foi alvo, nesta jornada periclitante de sangue, suor e lágrimas, chamada trabalho (ao senhor Churchill, minhas sinceras desculpas).

              Discordo de qualquer um que disser que “se aquele rapaz tivesse ido para a guerra, nada disto teria acontecido”: isto seria exagerado (embora incisivo como um florete). Mas a versão mais moderada “se aquele rapaz tivesse vivido experiências formativas de maior amplitude que explorassem a comportamento e a responsabilidade, ainda que em certa dose de arrelia, nada disto teria acontecido” parece algo difícil de contestar. Embora não haja um entendimento formalizado que esta é a origem do problema, já é consenso entre pesquisadores que um jovem americano de 18 anos, hoje, tem a maturidade de um jovem de 15 anos, 30 anos atrás. Não porque o celular fritou seus neurônios ou porque os videogames limitaram sua capacidade cognitiva (muito antes pelo contrário) mas porque as experiências que ele viveu não permitiram que ele chegasse àquele nível de maturidade, de responsabilidade, de iniciativa.

              Sim, estou falando com vocês: pais e mães com filhos com menos de 15 anos. Não subestime o poder de suas ações (e omissões): muito do futuro está sendo plantado agora. Não esperem até o momento em que eles começarem a morder vocês, subverter a ordem da casa, fazer crescentes exigências. A parte de vocês é fácil: suportar isto por mais 10 ou 20 anos mas ele levarão estas marcas consigo, para sempre. E mesmo nos dias de hoje, para sempre parece muito tempo.
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Atualizado em: Dom 21 Fev 2021

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