person_outline



search

Agonia

CAPITULO
 
Max abre os olhos em sua cama de casal, espreguiça e vira em direção a porta, espera mais um pouco, coça os olhos e senta na beirada. O sol entra pela  janela incomodando sua retina, som do dia que desperta, provoca desconforto aos ouvidos. O cachorro late, as vozes agudas e inaudíveis das senhoras, o fazem tapar os tímpanos com os dedos.
-Eu não acordei!
Max grita a todos os pulmões. Na mesma hora alguém bate na porta, batida e seca e constante.
-O que aconteceu, ta tudo bem ai dentro?
Do outro lado da porta Marlene, mulher branca e gorda, de aspecto carrancudo. Ela usa um avental com marcar de cinza em forma de mãos.
-Ta acordado?
Ela passa freneticamente as pontas dos dedos na barriga, como se estivesse tentando se livrar de um pecado. Max levanta, arrasta ate a porta apoiando a testa nela, grita.
-Eu estou bem!
-Nossa não precisa gritar. E fiquei preocupada com você seu grosso, fez um barulho danado ai dentro. O café vai ficar pronto daqui a pouquinho, certo?
-Você que ta dizendo, eu não sei não.
-Há que humor em? Quando estiver pronto eu te chamo, ouviu?
-Sim.
Ele respira fundo e senta no chão. Minutos depois ele desce as escadas que dão acesso à pequena sala, vira a direita e depara com a cozinha, nela duas mulheres trabalhão incessantemente no preparo do de jejum. Marlene prepara os pães em um forno primitivo a lenha, a outra de nome Silvia e mais velha, cinqüenta anos, branca, rechonchuda de cabelos encaracolados. Uma característica comum a elas, e o busto saliente, inevitavelmente chama atenção de todos. Toda casa parece sair de um filme da idade media, todos os detalhes também, desde os pequenos quadros nas paredes, como a mobília, as janelas grossas de vinte centímetros, as portas pesadas sem maçaneta. 
-Bom dia!
Elas olham ao mesmo tempo para ele.
-Não vão responder?
Max senta na cadeira, mas antes enxota um gato preto que descansa despreocupadamente. Marlene para por um segundo seu trabalho, pega um copo e põem em sua frente, logo em seguida despeja uma grande quantidade de café fumegante.
-Dormiu bem? Ela pergunta.
Ele ajeita o corpo na cadeira desconfortável, cruza as pernas, e fala lentamente.
-Eu nunca vou dormir bem nessa casa, eu odeio isso aqui. 
Silvia balança a cabeça e sorrir, arruma o cabelo prendendo o com uma fita azul.
-Quanto drama. Fala Silvia
-Drama? Eu estou morrendo aqui, você não?
Silvia pega um pedaço de queijo e coloca na mesa, senta do outro lado de frente para Max, ascende um cigarro de palha e aproveita a sensação. Ele por sua vez abana freneticamente a fumaça teimosa que insiste fluir em sua direção.
-Da pra fumar lá fora, por favor?
-Aproveita o queijo querido, está fresquinho, como você.
Silvia levanta e continuam as suas tarefas, Marlene encosta a barriga na pia, e escova as panelas, com o escovão lambuzado de sabão caseiro. Max pega um bom pedaço e mordica, olha em sua volta como buscasse uma saída. Silvia aproxima dele por de trás, apóia as mãos em seus ombros, encosta o rosto em sua cabeça, e fala carinhosamente.
-Desculpe pela brincadeira, você não e fresco só está em um dia ruim.
-O fresco era comigo? Ele olha para ela com cara de bobo.
-Claro que era, tem algum outro aqui?
-Agora eu sei que e comigo.
Eles se abraçam e se beijam, ecoando por toda a casa, estalos de carinho. Marlene larga as panelas, e se junta aos pombinhos, mas sem abraços ou beijos, senta a mesa, relaxa o corpanzil de noventa quilos, pega um naco de queijo e joga dentro da boca com destreza, mastiga pausadamente e toma um pouco do café, direto do copo do Max. Ele por sua vez a encara, ainda com Silvia agarrada ao pescoço.
-Também quer um aconchego?
Ela não responde nada, somente sorrir com os dentes envoltos em uma nata branca. Ao ver o estado deles, ele demonstra asco e trava os olhos, em seguida os cobre com as mãos de Silvia. 
- O que vai fazer hoje?  Fala Marlene apoiando os cotovelos na mesa.
-Ainda não sei, talvez passear pelos pontos turístico de nossa incrível cidade.
Silvia o larga e senta também, ajusta outra vez o laço azul que teima em se soltar,  fala com ironia.
-Não e cidade e vila, tem setecentos anos.?
Marlene interrompe a aula de historia, batendo palma.
-E claro que ele sabe que uma vila, não foi o que perguntei, eu disse o que ele vai fazer com a vida dele.
-Minha vida, que pergunta e essa? Eu prefiro a aula de historia agora.
-Sem aula Máximo, quero saber se vai dar um jeito...
-Para, eu não vou tomar ou discutir minha vida, ainda mais com minhas irmãs. Hoje e segunda-feira, em plena segunda de manha. Eu voto em tomar meu café, e visitar as mil seiscentas e quarenta e três construções da minha cidadela.
-Vila.
-Já chega com esse negócio Silvia, o deixa falar.
-Já acabei, vou tomar meu café, lavar meu corpinho com água quente, sair para comprar um jornal e depois amarra uma corda no despenhadeiro, perto do beco dos choros, e o resto vocês sabem.
Marlene levanta emburrada, tira os pães do forno e o serve, enquanto Silvia toca o gato teimoso que esfrega em suas pernas. Por alguns minutos o silencio constrangedor impera no ambiente, que só e quebrado pelo miado do gato preto que persiste em se esfregar em qualquer um. 
-Estava pensando em dar uma passadinha na casa do Manuel Bandoleiro, queria saber com anda a barbearia do papai.
Silvia olha confusa para Marlene, as duas demonstram estranheza. Silvia toma a frente e pergunta.
-Desde quando interessa pela barbearia?
-Eu não dou a mínima para ela.
Marlene assusta, e fecha o semblante.
-Como pode falar assim, lava sua boca quando falar daquele lugar.
Silvia tenta apaziguar.
-Ele não falou por mau.
-Falou sim. Eu tolero muita coisa, jamais desrespeito a memória do papai.
-Eu não desrespeitei...
-Nunca mais fale uma coisa assim de novo. Tem idéia como papai ralou para sustentar a gente, enfurnado naquela loja. 
Silvia nota a direção da conversa, e interrompe novamente.
-Calma, vamos manter a conversa equilibrada.
-Quero saber a quantas anda Manoel.  Ele e amigo da família, e era do papai a anos, tem algo de errado? Todos sabem que eu não tenho boa lembrança.
Marlene percebendo que exagerou, módula a voz, desfaz o fisionomia fechado e desconversa.
-Eu só quero que respeite a memória dele, ok? Não vamos brigar, somente controle o que fala, sei muito bem como e bom com as palavras. Vai, sai um pouco, mande lembranças minhas.
Silvia pega o gato teimoso no colo, abre a porta.
-Vai ficar ai fora, não adianta mia, sai logo.
Ela fecha a porta deixando o bichano no exterior da casa, vira para Max cruza os braços, e com ironia fala.
- Seria bom aproveitar a sua ida lá, e fazer a sua barba, ta parecendo homem das cavernas. 
-É voga, eu fico pulcro com minha faceta lanzudo.
-O que você mim xingou?
-Deixa, vou tomar um banho e desfilar pelas alamedas da mais antiga cidade de nosso país milenar.
Silvia agora sorrindo toca o ombro de Marlene, fala com a voz aguda.
-É vila, e também a quarta cidade mais antiga do nosso país.
Max se levanta confuso exclama.
-Deveria ser professora, ou guia turístico.
-Bem que eu queria.
-O que te impediu?
-Você.
-Eu?
Não vamos começar agora. Max, como pretende tomar banho?
-Não entendi a pergunta.
Marlene olha para as unhas de sua mão, leva o polegar até a boca e morde.
-Como a água vai molhar em seu corpo lá no banheiro?
-Que droga, esqueci, não tem chuveiro. Agora percebe porque sai, fui longe, não olhei para traz? Em pleno século vinte e um, não tem chuveiro.
A dor da frustração de Max a comove.
-Deixa que eu vá esquentar água pra você, sobe que eu vou preparar.
-Sabe que é a minha irmã favorita.
-E pensei que fosse a Silvia?
-Que Silva que nada, e você Maga, minha flor do campo, apenas as sua presença faz festejar meu coração.
Todos caem no riso.
-Guarda todo o galanteio para alguém que acredita nele.
Max sobe as escadas segurando um pedaço de pão, mas antes de sumir por completo se vira e proferi outra preciosidade.
-Minhas ovelhinhas! Gostaria que passassem minha camisa de seda, sei que não temos ferro elétrico, mas sei que o ferro a brasa da mamãe funciona que e uma beleza. 
Eles se olham, logo em seguida Marlene toma a palavra.
-Pode ficar tranqüilo meu pastor, vamos deixá-la perfeita. Não há forma melhor de deixar camisa de seda mais esticada do que um rústico ferro do século passado.
Max volta à base da escada e grita.
-Pode deixar vou com outra.
 

 

Pin It
Atualizado em: Qui 18 Fev 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222