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CARTA PARA MEUS PAIS – 1ª SEMANA NO SEMINÁRIO

         Itaúna, 13 de fevereiro de 1961.

         Querida mamãe, querido papai!

         Primeiramente peço−lhes a bênção.

         Esta é a primeira carta que lhes escrevo depois que cheguei ao seminário. Já faz uma semana que estou aqui em Itaúna, em minha nova vida. Vou tentar contar um pouco do que aconteceu desde o dia em que cheguei até o de hoje.

         Relembrando, no dia 8 de fevereiro, chegamos ao seminário o Padre João e eu. Depois de despedir−me da senhora, mamãe, na Avenida Abílio Machado, pegamos o ônibus e fomos para a rodoviária. A mala azul que o padre João me deu é muito grande e estava pesada. Mas ele a carregou para mim o tempo todo. Já eram 11 e meia quando entramos no prédio do Seminário Nossa Senhora de Fátima. Meu coração estava apertadinho, batendo muito forte, parecia até que ia parar. Do lado de fora do refeitório, escutamos o tilintar dos talheres. Era o horário de almoço. O padre João abriu a porta e, de repente, uma salva de palmas. Todos se levantaram: padres e seminaristas. Foi uma festa. O padre João me olhou bem nos olhos, lembro−me muito bem. Sorridente, depois de receber muitos abraços, sentou−se à mesa de refeição dos demais padres. Fui encaminhado a uma mesa, onde almocei, e nela estava o meu primo José Teodoro, já seminarista há um ano.

         Mamãe, eu prestava atenção em tudo e vou lhe dizer uma coisa. Estava feliz porque, naquele momento, iniciava−se a realização de um sonho: o de ser padre. No entanto, já estou ciente das dificuldades que devo enfrentar. A mais pesada é ter que ficar longe, principalmente da senhora. Não queria lhe dizer, mas, caladinho, sem que o padre João percebesse, escondendo as lágrimas, chorei ao olhar para trás e vê−la sozinha na avenida. Mas, confio em Deus, e sei que vou vencer todas as dificuldades que, certamente, virão.

         Terminado o almoço, o José Teodoro, o Zezé, como nós o chamamos, pegou a minha mala e me levou até o 2° andar para que eu pudesse guardar as minhas coisas, arrumar minha cama, o lugarzinho reservado para mim. Junto, tem um armarinho. Tirei da mala as minhas roupas, olhando, pensativo, as camisas, calças, cuecas, toalhas, etc., que estavam dobradinhas, como a senhora colocou com cuidado na mala. Aos poucos arrumei tudo. Separei minha escova de dentes, junto com o copinho verde, de alumínio, que a senhora me deu. Em seguida, desci as escadas e fui apresentado a muitos colegas que aqui estudam, bem como a outros que estavam também chegando das cidades como: São Domingos do Prata, Dionísio, Itabira, Ibiá, Santo Antônio do Monte, Virginópolis, Manaus, etc. etc. Fui para um enorme salão, onde há mesas grandes, de ping−pong, futebol de mesa − o totó, além de ver também muitos conversando e se distraindo com outros brinquedos. Às 13 horas, mais ou menos, fomos para a sala de estudos. Ficamos por algum tempo. Peguei um livro de histórias no armário dos fundos da sala. O nome do livro, não me esqueço, é Dois Anos de Férias, de Júlio Verne. Li um pouco e vi que se tratava de uma história muito legal. Mamãe, estou ainda meio perdido aqui, mas tenho certeza de que vou me acostumar. Já eram duas e meia da tarde quando o padre Adriano, nosso diretor, avisou, dos fundos da sala, que estávamos liberados para o futebol. Imediatamente fui para o dormitório, vesti meu calção branco − aquele que a senhora fez para mim − com uma lista azul dos lados, vesti a camisa do Vasco da Gama, que a senhora também comprou na Casa Ranieri. A azul, do Cruzeiro, ficou guardadinha para outro dia. Deixei para calçar a chuteira do lado de fora. Senão poderia cair ao descer as escadas. Com as travas, é claro, eu poderia escorregar e cair. Sentei−me na escada, na entrada do seminário, que dá de frente para o campo de futebol. Na alameda, bem diante dos meus olhos, existem muitas mangueiras que estão carregadas de frutas, ainda verdes. Quando calçava a meia e ia colocar as chuteiras, o padre João apareceu e me disse que já estava voltando para Belo Horizonte. Ele me deu um abraço apertado, me abençoou e me desejou felicidades. Naquele momento, mamãe, senti que a responsabilidade estava ficando maior. O padre João foi embora. A senhora, o papai, meus irmãos, longe de mim... Não se preocupe, vou me acostumar. Afinal, tenho de me lembrar de que, a partir de agora, minha vida mudará. Quando me tornar padre terei que ir para outra cidade, longe, e dedicar−me aos fiéis da igreja onde serei o vigário. Eh, mamãe, estou longe disso ainda... Quero até dizer−lhe uma coisa: tenho certeza de que a senhora ficará muito feliz e muito orgulhosa, quando me vir celebrando a missa. Mas isso ainda está longe. Vamos dar tempo ao tempo.

         Mamãe, em seguida, depois de arrumadinho, fui para o campo de futebol. Ele não é gramado. Corri bastante, suei e quase fiz um gol. A senhora sabe que não sou bom jogador. Estava apenas brincando de jogar bola. Mas foi bom. Paramos por alguns instantes para beber água. Tem um bebedouro logo na entrada da portaria. Entrei devagarzinho. Segurei nas paredes porque, de chuteira, o tombo era certo. Brincamos até às 4 horas e meia. Em seguida, fui tomar banho. Calcei os chinelos, peguei a toalha branca, o sabonete Lux e a bucha vegetal que a senhora separou para mim. Adivinhe uma coisa: o chuveiro é de água fria. Molhei o corpo, ensaboei bastante, e rapidamente fechando os olhos, entrei debaixo da água gelada. Ah, isso não é nada, vou me acostumar.

         Às cinco e meia, dirigimo−nos ao refeitório para jantar. Arrumadinho, de roupa nova, cabelos bem penteados, sentei, e todos nós, seguindo a orientação do padre Adriano, fizemos a oração de agradecimento. Não comi muito bem, pois estava e ainda estou me acostumando com o novo tempero.

         Depois do jantar tivemos mais um horário de recreio. Até às seis e meia. Fomos de novo para a sala de estudos e peguei o livro Dois Anos de Férias e dei continuidade à leitura. Às 19 horas, o padre avisou que iríamos rezar o terço. Peguei o terço que a senhora me deu e, andando de um lado para o outro, na alameda, rezei. Pedi a Nossa Senhora que fortalecesse a minha vocação, e pedi a ela saúde e felicidade para todos de minha família, especialmente para a senhora e o papai. Depois do terço, uma surpresa boa. O padre Francisco nos levou para um salão a fim de exibir um filme para nós. O nome do filme: Marcados pelo Destino. Foi muito legal. Em seguida fomos para a sala de estudos para rezar a oração da noite. Muito emocionado, rezei e fui dormir. A primeira noite de minha vida sem a presença das pessoas que mais amo na vida: a senhora e o papai. Demorei a pegar no sono. Fiquei pensando... pensando... até dormir.

         Bom, esta é a primeira carta. Escrevi demais. Sei que seu tempo é precioso. Outro dia escrevo mais. Vou falar dos outros padres daqui do seminário: José, meu confessor; Luiz, meu xará; Francisco, Geraldo e Teodoro. São todos holandeses, a senhora sabe. Estava me esquecendo do padre Cáuper, um amazonense.

         Ah, queria perguntar: E o senhor, papai, continua trabalhando muito na Fábrica de Tecidos Renascença? Sabe, pai, fico com muita pena do senhor. Um dia olhei o seu cabelo, sua barba e as costas. Estavam cheios de fiapos de algodão. Coitado do papai! Pensei. Trabalhar à noite não é brinquedo. Pegar o bonde, descer na pracinha e ter que percorrer a Avenida Ivaí, enfrentando a cachorrada vadia... Não me esqueço daquele dia em que o senhor chegou com o guarda−chuva todo quebrado, uma vez que teve de sair fora de um cão bravo. Um dia, tenho certeza, o senhor vai arrumar um trabalho durante o dia e não terá que passar por tantas dificuldades, à noite. Sem contar que simplesmente ganha um salário mínimo. E a senhora, mamãe, fico pensando, sua vida também não é fácil. Dar conta de todos os afazeres diários, costurar para ganhar algum dinheirinho, cortar cabelo de alguns vizinhos e de todos da casa, sem contar que, de vez em quando, ainda lava algumas roupas para ajudar nas despesas. Puxa, mãe, a senhora é uma batalhadora!

         Espero que me escreva brevemente, pois quero saber das notícias daí de casa. Vou terminar, mamãe, enviando um forte abraço para a senhora e o papai. Dê lembranças à Aparecida, ao Marinho, Geraldo, Nini e ao Zezé. Fale com eles que estou morrendo de saudade.

         Mais uma vez, peço−lhes a bênção.

         Do filho que muito os ama.

         LUIZ

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Atualizado em: Seg 15 Fev 2021

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