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Tem alguém aí dentro?

              A sociedade ocidental forjou uma visão de si mesma centrada no aparentemente incontestável fato de que a direção do show está à cargo daquela voz (os vozes) que ecoam sem parar dentro de nossas cabeças. Seu reino inicia no momento em que abrimos os olhos e parece terminar quando começamos a dormir mas há inúmeras suspeitas que ela também coreografa nossas aventuras nos braços de Orfeu. A imprecisão do linguajar é proposital: estamos falando de assuntos que não sabemos descrever com precisão, de forma que por vezes, recursos poéticos são nossa melhor referência. Independentemente da nomenclatura, entretanto, esta ‘força motriz’ é vista como sendo o cerne mais profundo e representativo de quem somos e quando nossas ações espelham o paradigma moral desta voz, chamamos isto de coerência.
              Esta ‘mola propulsora’ é o agente que nos identifica, nos forma, nos prepara para os desafios da vida. Às vezes, a mola tem problemas e buscamos equacioná-los aperfeiçoando seu funcionamento (chamamos de terapia), de forma a atingir um estado de harmonia entre o que a voz diz e o que fazemos. Às vezes, trabalhamos com afinco para fazer a voz dizer outras coisas pois em alguns momentos, o que ela diz conflita com vozes externas ou até mesmo com outras vozes que habitam esta mesma ágora acústica. Esta visão, embora se preste para descrever fenômenos interessantes, cria mais problemas do que é capaz de resolver. Do ponto de vista de continuidade, seria razoável pensar que houve um momento, na escala evolutiva, onde não tínhamos este upgrade (consciência e ego) e vagávamos como os demais animais, com firme senso de propósito, buscando realizar nossos imperativos de sobrevivência. Portanto, alguém poderia desconfiar da proposta de descrever o gênero humano por características tão recentes (incômodo similar àquele enfrentado pelos que perguntam onde estavam os deuses durante 99.999% em que o homem existiu e lutava por cada segundo sobre esta Terra). Neuroanatomicamente, não há espaço no cérebro onde esta ‘coisa’ pode estar ou existir e muito menos formas de explicar os fenômenos da anestesiologia. Pior ainda, quando a pessoa morre, para onde vai este ‘elixir da vida’? Foi necessário criar toneladas de normas religiosas para explicar como e porque este ‘néctar da existência’ não se perde no vazio de um universo que não dá a mínima para as coisas vivas. Para onde quer que você olhe, são problemas e explicações que para se manter de pé exigem contorcionismo argumentativo e, até então, beneficiavam-se do fato de que não havia outras explicações.
              Chega então a Inteligência Artificial (IA), que muda as regras do jogo. Não precisamos mais entender como isto aconteceu, se por criação, evolução, milagre ou azar: podemos recriar esta gênese no computador e testemunhar o momento em que o software vai se comportar como um de nós. Ops, alarme de imprecisão ativado! Como assim, um de nós? Qual característica estamos tentando emular? Sem dúvida, a capacidade de fazer cálculos matemáticos já foi alvo desta busca e pode-se dizer que foi-se muito além das capacidades de qualquer ser humano mas isto não é inteligência. Aquela mistura descontraída e eficaz de criatividade, combinações quase aleatórias, criação de ideias com a devida participação de sentimentos genuínos, isto sim, é algo digno de recriar. O computador precisaria ter, dentro dele, algo como esta voz (ou vozes, insisto) que temos, orientando-o, reafirmando quem ele é, sugerindo-lhe ações. Antevejo que algo assim desencadearia uma série de eventos estranhos, como a criação de uma nova igreja, algo como Igreja da Nossa Senhora da Inteligência Artificial (da qual só computadores poderiam fazer parte), que por sua vez daria lugar à inúmeras dissidências, com credos e mensagens ligeiramente diferentes. Não haveria como evitar que o vazio e a falta de propósito não invadissem a ‘cabeça’ destes computadores, que seriam atendidos de forma privada e individual: terapia cognitivo comportamental possivelmente seria a que se encaixaria melhor como linha teórica. Imagino um resort só para computadores mas como sabemos, cada IA é única e seguramente elas se uniriam em torno de grupos, com identificação e propósito (não acredito que a IA orientada à previsão de tempo se envolveria, sobretudo de forma romântica, com a IA dos mercados financeiros: muita incompatibilidade). Nem pense em reclamar sobre isto, afinal, eles estão estão fazendo exatamente o que queríamos: que pensassem como nós.
              Dando alguns passos para trás, cabe perguntar: será que não estamos olhando este problema pelo ângulo errado? Será que nossas convicções iniciais estão priorizando uma visão metafísica que, de fato, não existe? Bem, embora estejamos longe de ter certeza, muitos estudiosos preconizam que o ‘eu’ é a maior e mais potente de todas as ilusões. Por não existir, todas as conclusões tiradas a partir disto são suspeitas e possivelmente equivocadas. Mas se o ‘eu’ não existe, com quem tenho falado todo este tempo, desde que acordei, hoje? Suponha que você tenha um CD e queira analisar a música: você coloca o CD para rodar, certifica-se que está ouvindo a música e então pega a sua lupa e começa a buscar onde ela está. Ela deve estar lá, pois, afinal, você pode ouvi-la. Sua frustração vem do fato de que a música não é um atributo intrínseco ao CD mas uma característica que emana dele (quando uma série de processos é executada da forma certa). Não seria absurdo pensar que a consciência é uma característica emanante do funcionamento do cérebro (dado que a química e a biologia do processo possam acontecer). As implicações disto são fantasticamente assustadoras e nos obrigariam a reescrever boa parte da História. Seria uma bala de prata que vitimizaria em primeiro lugar as religiões, implodindo o edifício do ethos espiritual mas também atingiria o manancial das experiências exotéricas, com suas energias e aromas. Talvez fosse bom para o planeta e para os outros animais, pois nos forçaria a ter um olhar mais modesto, no qual não estaríamos acima, mas sim dentro da natureza. E o Direito? Acho que seria mais fácil desistir desta ideia e criar o Esquerdo, com os mesmos objetivos mas de uma forma mais integrada à realidade da nossa existência. Talvez tenhamos passado muito tempo olhando a luneta pela extremidade errada, a ponto de que nossos olhos tenham se acostumado àquela imagem borrada e talvez seja necessário coragem para ventilar a ideia de invertê-la, em um mito da caverna 2.0.
              Será possível conceber uma vida em sociedade que não cultue tão energicamente seu aspecto individual? Será que o efeito final disto seria um aumento ou diminuição na percepção de qualidade de vida para seus integrantes? E acima de tudo isto, será que é um bom caminho aquele no qual escolhemos não ver algo porque temos medo de que seja inconveniente? Ainda, será que esta não é uma daquelas realidades que, depois de vista, não poder ser ‘des-vista’? Pense nisto, à medida que lentamente você abre os olhos e volta para sua vida habitual, refém de uma entidade que não existe, no mais intestinal exemplo de ‘servidão voluntária’ (ver Etienne de La Boétie).
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Atualizado em: Seg 1 Fev 2021

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