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O ocaso de pensamento acadêmico

              A ‘vantagem’ de ser um pais em desenvolvimento (eufemismo para o mais antigo e preciso subdesenvolvido) é que as tendências aparecem antes em outros lugares, temos mais tempo para identificá-las, estudá-las, compreendê-las. Países como Estados Unidos hoje sofrem uma crise sem precedentes no pensamento acadêmico e nós, bovina e lentamente, caminhamos em direção a pastar do mesmo material, tropicalizando a crise e, eventualmente, acrescentando a ela novas matizes brazucas. A crise à qual me refiro não é a comercialização e até a gourmetização do ensino de terceiro grau, onde algumas universidades com renome e orçamentos de marketing enormes conseguiram cristalizar um pensamento monolítico e pasteurizado na população, onde só elas tem valor. Refiro-me a algo ainda mais perverso: a infiltração da ética dos justiceiros sociais, dos vingadores do coletivo. E como sói dizer-se: senta que lá vem a história.
              iGen (ou geração Z) é a geração que sucede os millennials e tem razão em ser uma categoria à parte. Crianças (americanas) que nasceram depois de 1996 tinham eletrônicos à disposição como nunca antes e, em função disso, ficaram em casa muito mais tempo e tiveram acesso a menos experiências importantes nas primeiras fases da vida. Em 2008 o Facebook vem para gentilmente empurrar a faca um pouco mais nas entranhas desta recalcitrante adolescência e as redes seguintes repetiram e multiplicaram o efeito, copiando e até aperfeiçoando o ‘modelo de engajamento’, cujo preço pode ser estimado no aumento vertiginoso de suicídios, sobretudo entre adolescentes do sexo feminino. Os ingredientes acima, juntamente com uma alta de criminalidade nos USA forjou também uma geração de pais neuroticamente preocupados com os filhos, super protetores, incansáveis: os chamados pais helicópteros (embora eles não façam a menor ideia do que seja uma bala perdida). Psicólogos como Jonathan Haidt afirmam que a falta de tempo livre não supervisionado cerceou a capacidade nestas crianças de desenvolver estratégias de negociação com seus pares e tornou a presença de um adulto uma necessidade constante, cuja autoridade serviria para resolver todos os conflitos. O resultado não poderia ser outro: todos são (aos olhos dos pais) perfeitos, transigentes, empáticos e generosos - até que algum problema aconteça e a estratégia de correr chorando para a mamãe traga o equilíbrio de novo aos seus pequenos mundos. Em suas individualidades, entretanto, são a epítome da fragilidade e para esconder esta natureza abusam da agressividade e da presunção de direitos universais e crescentes (que seus pais lhes fizeram acreditar que existiria além do círculo familiar).
              Pois bem, estes adolescentes entraram na universidade aproximadamente em 2010 e começaram o mudar o zeitgeist, forçando a reforma das estruturas (como sempre aconteceu, afinal, não há idade para ser mais idealista). Mas ao invés de engrossar o coro dos que suportam a liberdade de discurso, estes estudantes começaram a fazer das salas de aula extensões da sala de jantar da casa dos pais, onde eles tinham ‘direito’ a não ter suas convicções ameaçadas, onde podiam dizer que não queriam escutar outros pontos de vista. Assim, nascem os ‘safe spaces’ com o esmaecido pretexto de proteção à minorias, seus pontos de vista, seus medos e suas fragilidades. ‘Triggers warnings’ (avisos de gatilhos) viram a nova moda, onde todos devem prestar atenção para que nenhuma atividade crie em alguém a lembrança de algum evento desagradável (mesmo que não seja possível adivinhar isto). Por fim, estudantes se reúnem para protestar e até impedir que algumas pessoas (oradores, palestrantes, professores) tenham acesso ao campus ou a algum meio de comunicação para expressar ideias que eles discordam. Tudo devidamente escondido atrás de um manto virginal de idealizada proteção: todos estão seguros e felizes, enquanto que o pensamento acadêmico que se nutre da diversidade, do embate ativo e civilizado de ideias, definha entre linchamentos e agressões ideológicas. Sempre foi normal alunos de organizarem e demandarem ações que, em um primeiro momento, desagradavam o corpo docente (tradicionalmente mais conservador) mas agora o bastão do reacionarismo é empunhado pelos próprios estudantes e as universidades, envolvidas pelo esquema financeiro que permeia as instituições na América, cedem e de fato criam sites e números de telefone (whatsapp, claro) para receber denúncias anônimas de alunos que acreditam que professores foram insensíveis em algum aspecto. Antifrágil é um conceito genial cunhado por Nassim Taleb que afirma que alguns sistemas (como o imunológico) só se fortalecem em certo grau de adversidade e o afã dos neo-pais em proteger seus filhos até de rajadas de vento os impede de crescer e, em última análise, os sentencia a uma vida de amargura, solidão e quixotesca guerra vitimada contra o mundo.
              Gostaria de poder olhá-los escorregando para dentro do abismo da incivilidade mas me assusto quando vejo, na mídia, nos governos, na intelectualidade, a mesma possessão ideológica, a mesma métrica vitimista, o mesmo discurso pronto, vejo que o processo já começou aqui também, talvez até mais aceleradamente ainda. A nova moralidade separa o mundo em os que tem e os que não tem e vai além: considera maus os que tem e bons o que não tem. Assim, a complexa relação sino-palestina é resolvida de um só golpe, as divisões sociais são equacionadas com um risco, diferença entre remunerações de homens e mulheres? Fácil. Os discursos se formam e sua repetição, qual uma cantilena, asseverará não somente a verdade que deve ser copiada mas identificará os divergentes, os que não concordam e que, pela aplicação da própria regra, são os grandes beneficiários da injustiça que ‘nós combatemos’. É delirante, morbidamente repulsivo e, como não poderia deixar de ser, fruto de uma mente infantil, sem limites e sem apreço. Sem freios, esta horda pubescente vai continuar a marchar sobre nossas mais nobres instituições, fomentando o radicalismo travestido de inclusão. Se as universidades não agirem para reverter este tipo de assalto, cairão na vala comum da obsolescência e serão como as catedrais góticas: lindas de serem admiradas (por dois ou três minutos) mas vazias de significado prático e acelerarão o processo de criação de uma nova forma de ensino, menos estruturada, mais flexível, distribuída, moderna e alinhada às necessidades da sociedade.

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Atualizado em: Qui 21 Jan 2021

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