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Em sã consciência


              Há algo em comum na narrativa de quase todos os povos: a existência do ser humano é o que dá sentido ao mundo e até à sua criação e o que torna o ser humano tão relevante e único entre as espécies é sua capacidade de entendimento tanto do mundo quanto de si mesmo. De fato, isto não é pouca coisa: somos capazes de um raciocínio abstrato, reflexivo e de crescente complexidade mas uma de nossas faculdades mais interessantes é nossa autopercepção. Além de saber onde estamos e ter uma ideia de quem somos enquanto espécie, temos a extraordinária capacidade de nos diferenciar e distinguir pois, como nos ensinaram, cada pessoa é única, em seus gostos, necessidades, opiniões. Enfim, um universo dentro de cada um de nós.

              É esta consciência que nos torna únicos, nos identifica, nos define. No fundo de nossas mentes, ‘dirigimos’ cada detalhe de todo o processo: ‘somos’ uma mente e ‘temos’ um corpo. É fácil deixar a metafísica tomar conta da narrativa mas parece inconteste que há muito introjetamos este conceito que, de tão profundo, parece difícil até de ser reconhecido: nossa consciência permite dirigir nossos rumos de forma esclarecida (de acordo com nossos desejos). Até que alguém perguntou: ‘e de onde vem os desejos?’ Nosso cérebro mais primitivo (no sentido de formado há mais tempo) faz muita coisa além de permitir que nos assustemos ou que regulemos a temperatura interna. Já parte nova, embora muito ativa, poderia sem exageros ser chamada de usurpadora, pois se apropria, silenciosa e recorrentemente, das criações e contribuições do velho cérebro. Assim, nas profundezas bulbosas da parte inconsciente de sua mente, nasce um pensamento: “quero comer”. Rapidamente, a parte moderna e consciente do cérebro nota aquele impulso e não somente diz “ei, EU estou com fome” mas reforça a narrativa de que habitualmente eu tenho fome a esta hora, porque gosto de acordar cedo, pois sou uma pessoa esforçada no trabalho, porque sou uma pessoa com características X, Y e Z. De alguma forma, o desequilíbrio químico resultante da falta de nutrientes sinalizou ao velho cabeção (através de um processo refinado por milhões de anos) que é necessário abastecer o tanque e, da mesma forma como um cavalo, hipopótamo ou beija-flor, isto deveria colocar em movimento o resto da máquina, desde as patas até os dentes. Já o ser humano tem uma etapa a mais neste processo, a etapa consciente, que se arvora a autoria da sensação, permite-se modular e até suprimir o impulso, se achar apropriado e por fim o envolve em uma deliciosa narrativa: tudo para esconder seu furto.

              Experiências com indução magnética transcraniana causam risadas em algumas pessoas (não compreendemos totalmente a natureza do processo) de forma consistente e repetitiva mas ao serem questionadas sobre o motivo da risada, as pessoas rapidamente explicam: ‘lembrei de algo engraçado’. A explicação mais realista seria que a indução causou alguma atividade em áreas relacionadas no cérebro e a parte consciente (sempre tão rápida, útil e solícita) fez o possível para criar uma história e acomodar o impulso, assim não sentimos que estamos ficando loucos. À parte das histórias que podemos contar para divertir o grupo durante o jantar, experiências como esta nos fazem questionar: será que somos quem achamos que somos? ‘Eu’ acho que sou aquela coisa que ‘lembrou’ de um assunto engraçado mas fico embaraçado ao constatar que isto não é verdadeiro e que talvez ‘eu’ não passe de uma sensação que tem por hábito inventar histórias que aumentem artificialmente seu valor próprio. E, francamente, se ‘eu’ sou isto, acho que devo questionar algumas das ‘verdades’ que este ‘eu’ consciente preconiza, como o uso exagerado de apóstrofos, por exemplo.

              Já há algum tempo estuda-se a possibilidade que nenhum pensamento que temos, em sua raiz, seja consciente. As implicações que isto traz são devastadoras (se pudermos verificar e comprovar a ideia) e demandarão uma nova ética para explicar de forma mais equilibrada nossos comportamentos e isto envolverá justiça, leis e punições. Do ponto de vista filosófico, teremos que criar uma narrativa ‘pós-consciência’ na qual talvez tenhamos que reconhecer que estaremos para sempre encarcerados em uma matrix, com o requinte de crueldade de que sabemos que nunca conseguiremos sair dela. Talvez você esteja pensando como isto afeta o seu ‘livre-arbítrio’ e, seguindo por estas linhas, concluirá que ele não somente não existe como nunca existiu. Eu poderia dizer que ‘você não está no comando’ mas isto não seria acurado. Prefiro dizer ‘você está no comando mas ‘você’ não é quem ‘você’ pensa ser. Fomos treinados a perceber esta realidade de uma forma bem específica mas não seria a primeira vez que verdades aparentemente contra intuitivas acabam se tornando ótimos descritores da realidade - embora divorciar-se de pensamentos tão enraizados seja muito difícil. Teoria da relatividade não faz sentido (na visão leiga de mundo que desenvolvemos neste planeta) mas tente usar o seu GPS sem ela e rapidamente vai perceber que é na sua visão onde reside a falha. Claro que isto não pode ser estendido a qualquer tópico, não podemos argumentar a favor de sempre ignorar nossas visões - da mesma forma como não podemos confiar cegamente nelas, só porque tudo o que conhecemos (inclusive e sobretudo nós mesmos) se baseia nela. Felizmente, para chegar ao fundo desta questão (se for realmente possível) não precisaremos de fé mas de ciência e trabalho para um dia conhecer de forma mais íntima e verdadeira quem realmente somos (se a parte consciente deixar, claro).


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Atualizado em: Qua 20 Jan 2021

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