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MEU CANARINHO BELGA E O MALVADO GAVIÃO

         A história que vou contar é verdadeira. Era o mês de maio de 2016. O dia certo, não me lembro. Eis que o Gustavo, meu filho, chega a casa com uma gaiola. Dentro dela, um canarinho belga. Bonitinho, meio marrom, meio amarelo, meio pardo. Só enquanto a gaiola foi pendurada na parede, o bichinho disparou a cantar. Sua melodia era longa, muito longa. Até parecia que ia perder o fôlego. Gostamos do passarinho. Todos da casa ficaram maravilhados com o recém-chegado morador que tomava posse do novo lar com sua melodia encantadora. Afinal, estava trazendo alegria para a casa. E isso foi muito bom. Minha esposa reclamou: “Não estou gostando nada disso. É mais um bichinho para me preocupar. Colocar comida, água e limpar a sujeira... O Gustavo bem que podia levá-lo para a casa dele.”
         Passaram-se muitos dias. O prisioneiro passarinho acabou ficando mesmo em minha casa. Cantava até de noite. Engraçado. Todos os passarinhos que já tive não cantavam à noite. Esse cantava. Em alto e bom tom.
         Já fazia três meses que aquele ser tão bonitinho, prisioneiro, morava conosco e não parava de cantar. Para ele não havia tristeza. Será que o fato de cantar significa que estamos alegres? Perguntei para mim mesmo. Há um provérbio que diz: “Quem canta seus males espanta.” Quem sabe o pobrezinho vivia triste e eu nem percebia? Na verdade, cativo, na gaiola, o jeito era arranjar uma forma de espantar a tristeza.
         Pois é. Apeguei-me “por demais” ao passarinho. Não somente eu, mas todos da casa. Não raro, mal o sol despontava, ainda deitado na minha cama, já estava ouvindo o canto longo e bonito do bichinho a quem todos passaram a amar e admirar. Um simples bichinho... Engraçadinho... Engraçadinho... Sabia tão bem sua melodia... Pensava até que poderia causar inveja a outros passarinhos, pela beleza e perfeição de sua música cotidiana.
         Agora chegou a parte sinistra desta história. Eram, aproximadamente, treze horas de uma quinta-feira, 11 de agosto de 2016. Como fazia costumeiramente, minha esposa saíra para fazer uma visita à mãe dela. Fiquei em casa “tirando um cochilo”. A fim de resolver um probleminha na rua, tive que sair. Antes, porém, liguei para ela e perguntei se demoraria a voltar. Tudo bem. Saí e retornei uma hora e meia depois. Mal estacionei o carro na garagem, minha esposa se aproximou de mim. O que estava havendo? Ela estava com semblante tão triste. Não deu outra. Ela me contou: “Você acredita que, quando cheguei, havia um gavião pendurado na gaiola do passarinho? Olhe aqui. Ele matou o passarinho.” “Ainda tentei salvá-lo, enxotando o desgraçado. Mas foi em vão. Havia pendurado a gaiola em um galho do abacateiro." O pobrezinho estava sem as perninhas e seu corpinho, tão frágil, dilacerado. Quase chorei. Na verdade, chorei por dentro. Minha alma chorou. Meu coração ficou desolado. Meu Deus, aquele bichinho, tão pequeninho, que cantava todos os dias, de manhã, de tarde e até de noite, se calara para sempre. Como podia ser? Puxa vida, ele acabara de morrer mesmo. Seu corpinho ainda estava morno. Até pensei: foi para o céu. Bobagem, como poderá haver céu para passarinhos?
         Em seguida, depois de viver aquele momento fúnebre, minha esposa me entregou o seu celular e me mostrou a foto do assassino. Um gavião malvado, amarelo. A foto mostrava o bandido pousado na antena de TV, no lote do meu vizinho. O que me intrigava, também, é o fato de gaviões estarem passeando, ou até mesmo, povoando as cidades grandes.
         Tomado pela emoção, passei o restante do dia pensando na partida daquela criaturinha que havia conquistado a mim e a todos os moradores da casa. Nunca mais poderia ouvir o seu canto. Pensei: Vou arrumar outro canarinho para ocupar a gaiola vazia. Não, melhor não, decidi. Prefiro não correr o risco de sofrer um novo desgosto.
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Atualizado em: Qui 14 Jan 2021

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