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Homem x Mulher: a longa batalha que nunca houve

              A sequencia de eventos é fundamental mas a lembrança e o significado dado e a narrativa montada, por vezes é ainda mais relevante. Podemos contar a história da humanidade através de um relato de cooperação, crescente inteligência, desafios enormes e até um pouco de sorte. Alternativamente, podemos dizer que tudo o que aconteceu serviu para criar o patriarcado que até hoje explora e oprime o sexo feminino (ou o sexo não masculino, para ser mais abrangente). O homem, dotado de um pouco mais de força física nos membros superiores, usou este recurso para subjugar a mulher, confinando-a a aproveitando-se dela para seus cavernosos desejos. Assim foi e assim é (não arrisco que assim será para sempre), para tantos que realmente pensam desta forma. Este estado de ‘injustiça’ (conceito muito mais contemporâneo que as práticas acima) é ao mesmo tempo flagrante e ubíquo, presente em quase todos grupos de animais sociáveis (os sistemas matriarcais são dignas exceções). Que pena que o mundo tenha sido e ainda seja assim mas nem tudo está perdido: eu tenho a minha ONG que preserva os direitos das minorias e vai criar uma nova ordem mundial (se meu contrato com o governo for revalidado, claro).
              Há algo de megalomaníaco em pensar que centenas de milhares de anos de dor, fome, predadores e doenças forjaram algo que eu e meus colegas marxistas podemos reconstruir, aperfeiçoar. Sim, sou fã incondicional da evolução e estou para descobrir ainda um caso em que esta teoria não dê uma ótima e convincente explicação para os eventos mais aparentemente disparatantes. Baratas que paralisam sua vítima com um coquetel de neurotransmissores e depositam ovos em seu abdômen - que lentamente a devorarão, formigas cujo cérebro é tomado por um parasita que as faz subir no alto de folhagens, onde são invariavelmente comidas por outros predadores, tão somente para concluir o ciclo de desenvolvimento do parasita, ratos portadores de um plasmídeo que perdem o medo de gatos e são devorados (porque o plasmídio precisa de um certo tipo de ácido graxo que só se encontra no sistema digestórios dos felinos), todos estes esquemas (e incontáveis outros) são provas contundentes e irrefutáveis de que, embora desprovida de inteligência ou intenção, os sistemas biológicos se desenvolvem visando maximizar suas chances de perpetuação. Ou seja, as coisas não acontecem ‘por acaso’, ou melhor, elas acontecem por acaso mas se o  resultado for desfavorável e o indivíduo morrer (ou perder os dentes), isto o colocará em desvantagem em relação a outro que não morreu (difícil escapar desta lógica). Dimorfismo sexual é definido pelas distinções marcantes entre machos e fêmeas da mesma espécie e provavelmente encontra seu ápice no elefante marinho (onde o macho tem cerca do dobro do tamanho e peso que a fêmea). Segundo nossa cantilena fatalista, isto é assim porque o elefante marinho macho (vou chamá-lo de Rodisclayson, para facilitar) não se importa com a felicidade e os sentimentos de sua parceira (Olívia), embora esteja de olho no fato de que, se ele a esmagar ou asfixiar, o resultado da interação vai ser prejudicado. Novamente, com raras exceções, o macho é maior que a fêmea e ao que tudo indica, tudo tem a ver com o ritual de acasalamento no qual o papel do macho é de, primeiramente, derrotar a concorrência e posteriormente, convencer a fêmea, enquanto o papel da fêmea é de analisar se o macho tem ‘qualidade’. Claro, nem sempre este Tinder da selva termina bem, como o louva-deus nos recorda. Tudo isto poderia ser esquecido ou deixado para os textos técnicos de botânicos sem vida social se não fosse algo presente nos dias de hoje, com longas e intrincadas ramificações no comportamento humano.
              Óbvio que não endosso o uso de violência física como coação de qualquer natureza mas nossos ancestrais desenvolveram um padrão de comportamento útil, que garantiu a sobrevivência da espécie (incluindo todos os sexos que já haviam sido inventados naquela época), cujo beneficiário último é a própria linhagem humana mas isto não vem sem custos. Atualmente queremos o benefício de ter GPS, ABS, controle de tração, conectividade total mas sem usar uma bateria com maior capacidade, queremos ter tudo, dando o mínimo e sem se importar de onde tudo aquilo veio mas a natureza e as montadoras sabem que isto não é possível. A agressividade da testosterona não é aleatória: é o resultado de infinitas experiências bem e mal sucedidas, assim como a maternagem e quem se importa se o pinguim imperador, depois de ajudar a chocar o ovo, cuida do filhote sozinho para que ela possa se dedicar a sua carreira? Se funciona para eles ...
              Em geral, não somos mais estes ogros remelentos que aparecem nos filmes e não precisamos mais repetir cegamente padrões de comportamentos de milênios atrás, por certo. Também precisamos entender que esta é uma transição cultural, recente, moderna, artificial, não baseada em sobrevivência mas em conceitos de justiça que ainda engatinham - se comparados a quem somos como espécie. Reconheça isto, abrace seu lado neanderthal, aceite-o como parte integrante de você mesmo (seja lá o que isto signifique, posto que temos cerca de 8% de DNA que não é nosso). Tirando do discurso a parte persecutória e vitimizadora, teremos um caminho com menos obstáculos para continuar evoluindo de forma com menos atrito e mais sucesso.


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Atualizado em: Ter 5 Jan 2021

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