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A desgastada história do fim do mundo

              Enquanto a Europa usava os fatídicos números romanos (e demorava um tempo absurdo para fazer uma simples multiplicação), os hindus e árabes já tinham um sistema posicional de numeração, superior em todos os aspectos mas, como se pode imaginar, a introdução de um sistema novo (e sobretudo de nova simbologia) não foi simples, rápida ou tranquila na terra da Napoleão. Uma das alegações era que os algarismos arábicos eram muito fáceis de serem adulterados mas obviamente não passava de uma desculpa: aderir ao novo sistema mexia com os brios de uma sociedade que cultuava sua própria supremacia, além de que a incorporação poderia ser vista como assimilação (que era muito bem vista e compreendida - mas só no sentido contrário).
              Mas o arrimo efetivamente colapsou (a casa caiu) quando apareceu o conceito do zero: um símbolo para representar a noção de algo que não existe, não está lá e ainda assim, precisa ser descrito. Novamente, alegações de bruxaria, heresia e atentado aos bons costumes forjavam a couraça protetiva que blindava a forte oposição à introdução da novidade. Com o zero, um camponês poderia fazer contas mais avançadas que as simples associações às quais estavam até então limitados mas o que poderia ser considerado uma vantagem era, de fato, um ameaça capaz de ‘destruir a sociedade moderna’. Talvez este medo viesse dos próprios gregos que repudiavam a ideia por achá-la antiestética (um fator de caos e desordem dentro de um mundo perfeito) de forma que a luta foi longa, desgastante e, em retrospectiva, dolorosamente mais longa que o razoável.
              A menos que você tenha inclinação pelas matemáticas, história ou fatos abstratos de pequena relevância, a nota dada ao texto até aqui seria, ironicamente, ZERO. Cabe ponderar, entretanto, se este foi o único evento conhecido de uma novidade que trouxe enorme perturbação à ‘ordem pública’ mas seguiu seu inexorável caminho rumo à incorporação. Chuveiro de balde, alguém poderia arriscar, seguiu esta mesma cantilena mas também o celular, computador, dispositivos terrestres de deslocamento superficial com propulsão via motor de combustão interna (os chamados carros), TV, rádio, redes sociais, geladeira, travesseiro, energia elétrica e incontáveis outras novidades que apareceram nas praias da nossa sociedade de forma desruptiva e se tornaram parte de nós. Então, já que estes são eventos que se repetem, qual a importância em dar voz a estas divagações?
              A forma com a qual lidamos com estas novidades é central para prever, antecipar e referendar como elas serão recebidas pela sociedade e o tabagismo é um caso clássico de um novo padrão de comportamento que foi (infelizmente) aceito sem o devido escrutínio (em parte porque não havia ciência madura para rechaçá-lo de forma indiscutível, à época). Sem o debate, sem a exposição aberta de ideias, sem o inerente conflito que este diálogo trará, ficaremos isolados em nossas convicções, aprisionados por opiniões próprias, asfixiadas de argumentos atrás de uma grossa parede de pretensa convicção, ouvindo de forma seletiva o que confirma o que já sabemos estar ‘certo’. Conclusivamente, abraçar todas as novidades como intrinsecamente positivas é tão perigoso quando obstaculizar todas: é preciso dialogar, estudar, experimentar, compartilhar resultados e, se feto da forma séria e constante, nos permitirá separar o joio do trigo e ajudará a nos proteger de ameaças que inevitavelmente enfrentaremos.
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Atualizado em: Dom 3 Jan 2021

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