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Impaciência e intolerância

              Cada vez mais estas duas palavras descrevem bem não só um padrão de comportamento mas também uma postura frente à vida e seus inerentes desafios. Certa vez o filósofo e historiador Leandro Karnal comentou que ao dar um farto e extenso material sobre Michel Foucault para um aluno, este interrompeu a leitura 10 minutos depois, com uma frase que poderia ser tornar um hino: “não concordo”. Óbvio que ele não conseguiu mergulhar na complexidade do tema e, armado da impaciência que os gênios coincidentemente tem, saiu pela primeira porta entreaberta que viu.
              Para facilitar meu entendimento, gosto de entender estes dois aspectos como um só: impaciência é intolerância frente à passagem do tempo, frente seu ritmo, inflexibilidade ou pelo menos na diferença entre a forma que eu gostaria que ele passasse. Desta forma, a intolerância está na raiz deste mal. Classificação é uma ferramenta muita útil, como nos dizia Pitágoras e ordenar os itens de uma coleção por algum critério nos ajuda a entender as forças motrizes por trás de fenômenos aparentemente aleatórios. Certa vez vi um filme iraniano (cujo nome não consigo lembrar) no qual o protagonista afirmava que só existia um único pecado (ou tipo de pecado): o roubo. Matar era roubar a vida, mentir era roubar a verdade - para não falar do mais óbvio: o roubo de itens materiais. Isto reforça a visão que a intolerância é o estopim que dá origem à explosão e ela, acima de qualquer outra coisa, merece nossa especial atenção.
              Em algum outro lugar já escrevi que a xenofobia é a prima feia da sociabilidade, ambas características tão humanas quanto primitivas, tão essenciais quanto poderosas. De forma simples, repartir a caça com membros da família ou até da tribo fazia sentido e ajudava a não perecer de fome em épocas mais difíceis - o que também fomentou a empatia. Entretanto, temer, afrontar e até violentar membros que não pertencem ao nosso grupo sempre foi útil, adequado e seguro (como qualquer Homo Erectus ‘diria’). Corta para o século XXI: empatia é legal, xenofobia é ruim. Ponto. Felizmente não precisamos cair na teia dicotômica de ser 100% receptivo ao estrangeiro ou ser 100% hostil a ele; podemos moldar nosso comportamento e forma de pensar de uma maneira mas agradável e coerente com nosso zeitgeist mas cortar relações com a origem central destas emoções, evadindo-se de reconhecer a sua eficácia dentro de um contexto evolutivo é como sentir pena ou vergonha de ter polegar opositor, enquanto tantos outros animais não tem (ou au contraire, sentir-se perseguido por não conseguir fazer fotossíntese). Em Star Wars dir-se-ia: ‘embrace your dark side’.
              Felizmente para nós, aquelas centenas de milhares de anos de desenvolvimento foram o palco onde adquirimos a capacidade de um pensamento reflexivo vastamente complexo, a ponto de questionar nossos próprios pensamentos, a ponto mesmo de questionar os métodos usados para questionar estes pensamentos. E mesmo considerando que alguns de nós se afogaram nesta espiral de contemplação umbilical, enquanto espécie triunfamos e somos capazes de conjecturar: podemos ser melhores que nossos genes? Rapidamente, algum pós modernista vai dizer: ‘mas o que você quer dizer com melhores’? Francamente não sei e assim mudo a pergunta para ‘podemos ser diferentes que nossos genes’? E se ele voltar a questionar ‘o que é diferente’, então teremos a prova que a xenofobia tem as suas vantagens.
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Atualizado em: Dom 13 Dez 2020

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