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O novo, o incrível e o patético

              Em um livro de memórias familiares, narra-se a chegada da grande novidade: o chuveiro de balde. Uma a uma as pessoas começaram a aderir à novidade, com a típica resistência e desconfiança que enfrentam todas as mudanças de comportamento. Por fim, até o ‘nono’ aderiu à nova tecnologia. Hoje em dia é possível escolher entre 159 tipos diferentes de travesseiros e até, cúmulo da ousadia, há quem escolha dormir sem travesseiro - tudo muito longe da pedra que se usava na Mesopotâmia para elevar a cabeça e impedir que insetos e outros animais entrassem pela boca e ouvido. Os exemplos são inúmeros mas a lógica é sempre a mesma: a novidade aparece, causa impacto e burburinho, revoltas, teorias de que trará problemas para a humanidade e, por fim, são absorvidas como se tivessem existido sempre.
              Entretanto, quem acredita que tudo que é novo é ruim se engana tanto quanto quem acredita que tudo que é novo é bom. A dificuldade reside exatamente no fato de que a proximidade com a novidade nos impede de ter a perspectiva necessária para saber se, a longo prazo, ela é benéfica, neutra ou maléfica, para todos ou para um segmento da sociedade. Lembro de que quando eu era adolescente apareceram os fones de ouvido, ligados a gravadores de fita K7: “a novidade era o máximo”, como diria Gilberto Gil. Boné na cabeça (naquela época ainda não era de lado), óculos escuros BL e fones: uma versão colorida e chamativa do Unabomber. Imagino só os comentários dos mais velhos (que eu poderia ouvir se o volume não estivesse no máximo) ridicularizando meu modelito, prevendo a decadência da sociedade entregue nas mãos desta juventude, repetindo o mantra histórico que ‘os velhos e bons tempos já passaram’. A verdade é que a onda veio, durou algum tempo e foi embora, dando lugar à próxima tendência, novo motivo de chacota. E de onda em onda, vamos indo, coloca ombreira, tira ombreira, faz meditação, faz crochê, usa letra cursiva, faz cubo mágico, usa caneta ...
              Deveríamos então estar mais familiarizados com o processo e aprender a reconhecer que a humanidade avança através de mudanças, que não precisam ser repelidas à ferro e fogo para manter o status quo. O extremo inverso é igualmente danoso: veja como o tabagismo foi aceito de braços abertos, com pouco ou nenhum questionamento (embora, verdade seja dita, não havia ciência madura para responder as perguntas que fazia sobre o assunto, pelo menos no início). Parece haver um balanço ideal mas difícil de ser encontrado entre a aceitação e rejeição de novos costumes mas o que parece inequivocamente ineficaz é exercitar este direito em base em argumentos fracos como ‘sempre foi assim’, ‘nunca foi assim’, ‘o certo é como se faz agora’, ‘não está na Bíblia’, ‘preciso ser diferente dos meus pais’, etc. Olhar TV 14 horas por dia não é saudável, ser incapaz de ficar longe do celular por mais de 15 minutos é sintoma, não hábito, passar meses sem comer frutas e verduras leva a várias doenças e não pode ser confundido com preferência pessoal. Precisamos ter mais capacidade de distinguir o que é claramente nocivo e não nos escondermos atrás de convenções demagógicas que nos afastam de nossas responsabilidades. As novidades chegam cada vez mais rápido e não há sinal de reversão. Em breve, importantes mudanças de comportamento serão questão de meses ao invés de décadas e o exíguo tempo disponível para avaliá-las deve ser empregado com eficiência. Possivelmente ainda adotaremos soluções bem questionáveis e erros serão cometidos: bem vindo à história do homem na Terra.

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Atualizado em: Seg 7 Dez 2020

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