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A nau da correção

              Elas singram os mares da vida em trajetórias retilíneas e inabaláveis, conduzindo a humanidade por intermédio de seu olhar profundo e sábio: são os faróis da verdade. Você já deve ter conhecido uma pessoa assim: sempre certa, sempre segura, sempre com uma resposta pronta para avaliar, julgar, condenar e, por fim, colocar as coisas nos devidos eixos. Devido a sua visão aguçada e predicados pessoais, são capazes de ver o que muitos de nós não vemos, identificam corrupção de ações e de pensamentos com a mesma naturalidade que nossos pulmões trocam absorvem oxigênio, são céleres, inequívocas, inexoráveis.
              Como diria Platão: “Só que não ...”. Embora tudo isto de fato aconteça no mundo interno destas pessoas, elas são falhas (não só em julgamentos mas em suas próprias ações) e precisam lidar com o desconforto de reconhecer seus erros, da mesma forma que os demais. Talvez por representar um peso muito grande, elas não o fazem (por não conseguir ou realmente por não querer) e a estratégia usada para evitar reconhecer suas limitações é reconhecer as limitações dos outros. Assim, focando no outro elas não precisam encarar suas próprias verdades, seus próprios conflitos e seguem na infantilidade, na imaturidade e na incomplitude.
              Esta dinâmica tem vários aspectos e o pessoal é somente um deles - possivelmente o menos interessante. Do ponto de vista social, estas pessoas tem uma influência bem maior que seus dotes pessoais ensejariam e parte do motivo é exatamente a aceitação que o grupo dá para este padrão de comportamento. De tanto ver um político discorrendo sobre boa gestão e combate à corrupção, em um certo momento cedemos ao impulso de acreditar que aquela pessoa de fato personifica aqueles valores e passamos a tratá-la como ela quer ser tratada, como ela demanda ser tratada. Ela virou a referência de fato mas somente na medida que o poder lhe é concedido por seus pares. Tal qual um rei, que pode ser deposto por súditos e servos a qualquer momento, estes que navegam as naus da correção podem ser destituídos de suas embarcações sumariamente, inclusive sem julgamento e sem medo de erro. Independentemente de suas credenciais (capitão, almirante, padre, senador, cantor de pagode) não há uma pessoa que materialize a ideia da infalibilidade - embora possamos reconhecer que existem gradações dentro da falibilidade. O simples fato de apresentar-se (implicitamente ou não) como este luzeiro da perfeição já é suficiente para rejeitar o papel - senão a pessoa.
              O grande perigo é o erro de reconhecimento, que confunde uma pessoa hábil, sensível e sábia, por um brandão da justeza ou, au contraire, o discurso inflamado pelo archote da graciosidade. É fácil dizer que todo assassino deve ir para a cadeia: o que não é tão fácil é provar de forma irrefutável e contundente que aquela específica pessoa é um assassino. Mas se ela falar como um assassino, cheirar como uma assassino, caminhar como um e pensar como um, a probabilidade aumenta. Uma pseudo pira de encanto nunca reconhecerá suas falhas, nunca abrirá mão do papel de primazia nos julgamentos e nunca se submeterá a forças maiores que ela mesma, como o bom senso. E, como um peixe morrendo pela boca, ela acaba nos dando tudo o que precisamos para uma avaliação equilibrada, parcimoniosa e justa, abrindo caminho para o não menos importante passo seguinte, no qual podemos optar esclarecidamente entre abandonar a nau, conviver com ela reconhecendo seu limitado valor e toxicidade ou seguir aderindo à fantasia, comprando de novo e de novo as caras passagens para uma viagem que na verdade nunca nem sai do porto.


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Atualizado em: Dom 29 Nov 2020

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