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Racismo, mesmo?

              Recentes eventos (o espancamento de um homem em um supermercado em Porto Alegre, relato para referências futuras) cobrem de vergonha nossa sociedade, em toda sua extensão - embora de forma e motivações diferentes. A simples barbárie e selvageria necessária para perpetrar o crime já reflete um desequilíbrio emocional que deveria ter sido identificado muito antes que aqueles sujeitos fossem alçados às posições em que estavam. Por sorte dos demais, não portavam armas - caso contrário já teriam assassinado desafetos encontrados na fila do caixa ou teriam dado um tiro de advertência na testa de um cliente, embora tentando acertar em outro. Judicialmente, parece não haver dúvidas que este crime merece castigo, embora nenhum tipo de reparo possa trazer para casa o pai de família.
              A imprensa de manada, entretanto, foi rápida e também unânime ao afirmar tratar-se de um crime de racismo: assertiva por demais séria para ser proclamada à luz de um vídeo, trazendo como única evidência para suportar o pleito o fato de que a vítima era negra. Esta mesma imprensa, além do sagrado papel social que possui, é também um mecanismo regrado pelo mercado e sujeito a boicotes e campanhas de afastamento em massa de clientes, o que limita severamente o conteúdo do que pode dizer (e conflita com o primeiro papel). Por estas e por outras, prefiro não usar esta imprensa como bússola moral mas parece ser também verdade que o sociedade como um todo reuniu-se em torno desta ideia e a apoiou com seu peso paquidérmico. Nelson Rodrigues costumava dizer que toda a unanimidade é burra e mesmo com as devidas exceções, achei o caso interessante a ponto de mergulhar nas poucas informações disponíveis e validar as cores que estavam sendo usadas para pintar este quadro (não sou advogado, filósofo, defensor público, político - apenas um cidadão comum com direito a opinião e expressão).
              Há bastante tempo comecei a perceber um problema de rotulagem, perceptível quando um evento é descrito de certa forma embora não haja evidência visível para fazê-lo, além das convicções políticas e filosóficas de que faz o relato. Assim, o roubo de alimento passa de contravenção para “a única saída possível para um pai de família oprimido pela selvageria do capitalismo moderno que o aliena da sociedade pela restrição da sua capacitação profissional, sendo o resultado óbvio de um programa de desconstrução da educação pública gratuita e de qualidade que ...”. Na grande parte de vezes, tratam-se de crimes patrimoniais, perpetrado por pessoas e contra pessoas (que em geral se identificam com as raças presentes do extrato social). Mas em nenhum outro caso é tão visível quanto no racismo: hoje em dia praticamente qualquer delito cometido contra um cidadão não branco é crime de racismo. O erro conceitual é que só poderia ser considerado crime de racismo quando o ato em si é motivado pela cor da pele (embora este não seja o critério usado para definir a raça [vide autodeclaração]). O mais provável, contudo, é que atos como este tenham uma multiplicidade de causas, tornando-os bem mais complexos de serem analisado que uma manchete de jornal mas ainda, se dentro desta matriz de causas, uma delas, com a intensidade que for, incluir motivação racial, o crime de racismo (entre outros) é identificado. Mas como identificar isto? Como saber o que se passa na cabeça do indivíduo que perpetrou o ato? Como discernir suas reais motivações se, amiúde, nem ele é capaz de esclarecidamente fazê-lo?
              A tendência de lançar o crime na coluna ‘racismo’, entretanto, é forte demais e, em si, pode representar um sintoma. Faz parte deste desconforto corrente na nossa sociedade, este mal-estar por ser (ou existir), esta necessidade constante de pedir desculpas pelo passado, de reiteradas vezes fazer constrição frente a História. Tudo isto me lembra muito a posição cristã de homem e pecado: culpado eterna e inexoravelmente e mesmo assim, deve continuar se desculpando. Sim, a Europa enriqueceu com a escravidão, que favoreceu algumas classes e prejudicou muitas outras mas será que sempre que um branco mata um negro, este o fez por causa da cor da pele? Será que este não é um argumento non sequitur que mascara e tenta esconder uma outra vergonha? Será que, em memória e honra de uma ferida passada, não estamos criando outras que em nada contribuem para curar a primeira? Talvez não estejamos tão interessados assim que estas feridas cicatrizem de vez, talvez queiramos ‘curtir’ um pouco mais este sofrimento na vã expectativa que a dor nos libertará, que repetir esta penitência mais vezes nos absolverá de nós mesmos. Mas nestas corredeiras rápidas, é possível que nosso barco se espatife contra as pedras antes de chegar no seu destino. É preciso entender a situação de forma mais profunda, agir no sentido de superá-la (em oposição a perpetuá-la), assumir que injustiças aconteceram no passado e usar o mesmo recurso para mitigá-las é ineficiente: ninguém agita as águas de um lago para que se acalmem.
              Já imagino um justiceiro social lendo até este parágrafo e dizendo ‘mas mesmo que estas asneiras fossem verdades, mesmo que estejamos vendo racismo onde não existe, que mal pode haver nisto?’. Você já tomou remédio para dor de cabeça quanto estava com catarata? Remédio para queda de cabelo quando estava com coceira? Vacina para sarampo quando estava com AIDS? Com exceção de pequenas coincidências induzidas por efeito placebo, o resultado é uma frustrante ausência de resultados (quando o quadro não se agrava). Não vamos conseguir resolver o problema sem identificá-lo antes, não vamos avançar nestas questões se não conseguirmos ser sinceros e coerentes em relação a suas causas, continuaremos a retroceder enquanto não admitirmos que a forma com que estamos tratando o assunto é paternalista, envolve penitência no lugar de ação, é ineficaz e perpetua o problema. A História não começou com a chegada dos portugueses, o drama da homem é bem mais antigo que a escrita pode relatar, somos inteligentes o suficiente para não esperar colher batatas ao plantar cenouras. Crimes contra o patrimônio são crimes contra o patrimônio e se o fato de algumas pessoas terem mais do que outras o ofende, busque a causa real desta diferença e não use utopias para evitar ter que resolver as causas reais.
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Atualizado em: Dom 22 Nov 2020

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