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A vida psíquica de um ermitão genial

A vida psíquica de um ermitão genial
Introdução                                                           
                Este trabalho se propõe a pensar algumas facetas da constituição psíquica de um ‘ermitão’ contemporâneo – segundo a psicanálise, fundamentalmente. A princípio, apresentam-se a definição conceitual de ermitão e informações históricas sobre essa condição. A seguir, elementos da psiquiatria, da matemática e da neurociência são acrescentados àquelas. A próxima seção centra-se na biografia de um gênio da matemática, que se afastou do mundo, em geral, e do mundo acadêmico, em específico. Em seguida, hipóteses de trabalho acerca do desejo e do sistema representacional permitem pensar sua retirada do mundo.
                 Conceitualmente, o ermitão ou eremita é o indivíduo que, por penitência, religiosidade, misantropia ou amor à natureza, vive em lugar deserto e isolado.                       O estereótipo do ermitão é um velho barbudo escondido em bosques ou grutas, que deixou a vida em sociedade em busca de experiências místicas, comendo folhas e raízes. Historicamente, o cristianismo abrigou dois momentos de grande expansão do eremitismo: o primeiro na Antiguidade, nos séculos III e IV e o segundo na Idade Média, nos séculos XII e XIII. Nos desertos da África, sobretudo no Egito, vários religiosos viveram uma vida de penitência, oração e ascese de forma solitária, afastando-se dos elementos que levavam ao pecado. Por sua vez, o eremita digital da atualidade vive uma reclusão voluntária em meio às grandes cidades (Brown, 1999). Portanto, a história da humanidade comporta a figura do eremita e, em face disso, cabe estudá-lo no âmbito científico.
                 Do ponto de vista psiquiátrico, o ermitão parece ilustrar o transtorno de personalidade esquizoide.  Quanto a isso, Kretschmer (1974)  catalogou os traços do comportamento esquizoide: falta de sociabilidade, tranquilidade, reserva, seriedade e excentricidade, timidez, sensibilidade, excitabilidade, gosto pela natureza e pelos livros, docilidade, amabilidade, honestidade, indiferença e atitudes emocionais frias.        Conforme Dalgalarrondo (2008), esse transtorno é caracterizado por falta de interesse em relações sociais, estilo de vida solitário, distanciamento afetivo, afeto embotado, frieza emocional e apatia. Seus portadores podem ter uma elaborada atividade imaginária ou uma criatividade significativa. Skodol (2018) informa que – junto com suas bases genéticas – cuidadores emocionalmente insensíveis, negligentes, bastante perfeccionistas e distantes durante a infância podem contribuir para o desenvolvimento desse transtorno, favorecendo o sentimento da criança de que os relacionamentos interpessoais são frustrantes.
             No domínio psicanalítico, Fairbairn (2000) refere quatro temas esquizoides: distância interpessoal como foco central de preocupação, defesas como autopreservação e autoconfiança, tensão entre a ansiedade de ligação e a distância defensiva – manifesta como indiferença – e a super-valorização do mundo interior face ao mundo exterior. Ainda nesse domínio do saber, Balint (1993) diz que na falha básica há discrepância entre as necessidades biopsicológicas do sujeito e o cuidado psicológico-material e a afeição disponíveis no objeto. Quando sua relação com o objeto está em desarmonia, a libido retorna ao ego. Com isso, pode ocorrer o filobatismo, no qual as expansões do eu sem ligação com o objeto retêm o investimento libidinal. Elas são consideradas seguras e amistosas, enquanto os objetos são vistos como perigosos e traiçoeiros. O filóbata superinveste as funções do ego, cujas habilidades mantêm-no com pouco auxílio dos objetos. O ódio perpetua sua dependência do amor primário, sendo que para liberá-lo de sua fixação no ódio é indispensável a cooperação do objeto primário.
            Faz-se mister ampliar essas perspectivas patológicas sobre o ermitão, a partir dos estudos de um matemático sobre os matemáticos e das reflexões de uma pesquisadora sobre as crianças superdotadas e seu desenvolvimento até a vida adulta.
            De acordo com Stewart (2017), os matemáticos estudam duramente, porque o talento natural exige muito exercício para se manter saudável. São obcecados por matemática e não sabem fazer outra coisa. Desistem de profissões mais lucrativas, desafiam o conselho da família, insistem mesmo quando são considerados loucos, estão dispostos a morrer sem reconhecimento nem recompensa. São figuras significativas porque têm grande motivação quanto a seu estudo.
            Freeman (2010) constatou que apenas uma ínfima minoria das crianças superdotadas realiza seu potencial inicial, depois de pressionadas numa idade precoce. Elas falharam em atender às altas expectativas iniciais por sofrerem pressão excessiva dos pais e dos educadores, sendo separadas do grupo de pares e tendo dificuldades de fazer amigos. Dentre elas, muitas desistem da educação na adolescência. Essa forma de rebelião faz parte do desenvolvimento saudável da identidade adolescente, mas algumas fazem coisas completamente diferentes para se diferenciarem de seus pais.  Isso pode levá-las a diversos problemas de saúde mental. Logo, crianças superdotadas precisam de aconselhamento e suporte profissional especializado.
            A seguir, três pesquisas da neurociência sobre o cérebro, a introversão e a extroversão, igualmente, são fundamentais para se pensar o chamado ermitão.
             Fishman (2010) relata que os extrovertidos, ao verem fotos de pessoas, apresentaram um aumento da atividade cerebral, enquanto que para os introvertidos era a mesma coisa olhar para uma foto de flor, de carro ou de gente.
             Holmes (2012) revela que os introvertidos tem a matéria cinzenta maior e mais espessa no córtex pré-frontal, associado com o pensamento abstrato e a tomada de decisões. Os extrovertidos tem matéria cinzenta mais fina naquela área, o que sugere que eles tendem a viver o momento. Holmes (2016) explica que o cérebro dos introvertidos costuma usar acetilcolina – neurotransmissor ligado a relaxamento e contentamento, mas estando atento. Em seus cérebros, há um trajeto mais longo da informação, passando por áreas relacionadas com empatia, reflexão, significados emocionais, checagem de erros, planejamento, expectativas e memória de longo prazo. Os extrovertidos são mais sensíveis à dopamina – neurotransmissor associado à recompensa e prazer. Doses maiores de dopamina são produzidas quando eles conversam, veem gente e coisas novas. Neles, a informação faz um caminho curto, passando por uma área do cérebro relacionada com os sentidos – paladar, olfato, visão.
             Esse conjunto de informações permite situar o gênio matemático dentro de uma visão mais ampla, mais profunda e mais humanizada. Para ampliá-la, algumas formulações psicanalíticas pertinentes sobre ele são relatadas a seguir.
Contribuições psicanalíticas acerca da formação psíquica do ermitão
              Ainda que Leonardo da Vinci não se configure como um ermitão, o trabalho de Freud (1910) sobre ele revela alguns pontos de similaridade com Simon Norton/brilhante matemático. Ambos foram gênios em seus campos do conhecimento e grandes investigadores científicos. A despeito de serem fortemente regidos pelo instinto epistemofílico/paixão pelo conhecimento, apresentaram inibições psíquicas em seus trabalhos. Sendo celibatários, foram pouco afeitos às relações amorosas e sexuais.
             Nesse plano, Freud (1910) propala que o instinto sexual é dotado da capacidade de sublimação: substitui seu objetivo imediato por outros desprovidos de caráter sexual e altamente valorizados na cultura. Nesse caso, há uma atrofia na vida sexual adulta, pois uma parcela da atividade sexual foi substituída pelo impulso dominante. Em específico, o impulso de pesquisa sofre diferentes vicissitudes, resultantes de sua relação com interesses sexuais. O tipo mais perfeito de vicissitude escapa à inibição do pensamento e ao pensamento neurótico compulsivo. Nele, a repressão não torna inconsciente o desejo sexual, a libido é sublimada em curiosidade e se liga ao instinto de pesquisa. Logo, a pesquisa substitui a atividade sexual, a qualidade neurótica está ausente e o instinto sexual atua a serviço do interesse intelectual. Freud (1910) diz que essa vicissitude do instinto sexual é notória em Leonardo da Vinci. Pode ser observada em Simon e seu funcionamento mental pode ser considerado saudável quanto a esse aspecto.
              Para pensar a constituição psíquica de Simon sob outro prisma, recorre-se a dois constructos hipotéticos relevantes ad hoc: o desejo e o sistema das representações.
               O desejo consiste em um amplo espectro de representações e de afetos, que organiza o conjunto de forças psíquicas. A princípio, ele promove movimentos psíquicos em direção aos seus objetos até se realizar no mundo. Os bloqueios na satisfação do desejo decorrem de sua fixação em certas representações e afetos, que limitam sua realização no mundo. Nesse caso, vivências parentais e ancestrais reprimem o desejo do sujeito. As representações e os afetos ligados às suas vivências junto às figuras primárias, que atendem seu desejo, compõem seu sistema representacional (Almeida, 2003; Almeida, 2010).
               O sistema das representações constitui um dispositivo psíquico do sujeito virtualmente capaz de representar seus impulsos, relações de objeto e estados mentais. Sua função de representar as vivências do sujeito é bastante alterada pelos traumas. Além do mais, esse sistema não se desenvolve de per si, mas liga-se aos sistemas representacionais de seus objetos primários e, assim, se submete ao seu desejo. A partir disso, a criança pode ser designada conscientemente por seus pais como: inteligente ou burra, fofa ou chata, linda ou monstrenga. Estas representações se juntam às projeções inconscientes de seus pais sobre ela. Desse modo, conquanto ela possa ser inteligente e arguta – na esfera das habilidades intelectuais – ela pode se sentir, se representar e se comportar aquém de sua capacidade, devido às representações introjetadas por ela – burra e incapaz – com sua carga de ódio. Essa cadeia de sentidos se deve à identificação, que permeia as gerações da família – visto que o Édipo parental conforma o Édipo da criança (Almeida, 2003; Almeida, 2010).
                Quanto a isso, Freud (1900/2006) aponta a transmissão inconsciente por identificação com o objeto ou com a fantasia do desejo do outro. A transmissão psíquica abarca a relação do sujeito com sua herança psíquica e cultural, além de com seu Édipo.
               No sistema das representações, o sujeito, seus objetos primários e seus objetos secundários estão profundamente interligados em termos de representações e afetos.      Seus objetos secundários são aqueles eleitos pelo adulto: humanos – idealizado ou não – e (i)materais-simbólicos – ciência,  música, literatura, cinema, escultura, matemática, entre outros. De modo geral, os objetos secundários podem ser investidos por amor e ódio. Porém, o objeto humano idealizado é investido por intensa carga de amor, inibindo a capacidade produtiva do sujeito (Almeida, 2010; Almeida, 2016).
                Nesse sistema, os traumas do sujeito com os objetos primários fazem com que seus conteúdos infantis sejam projetados em seus objetos secundários. Mais especificamente, as representações e afetos valorizados por ele são projetados em seu objeto idealizado. Este pode ser representado como: magnífico, brilhante, grandioso, perfeito, bem-sucedido sobrecarregadas por amor. Em contrapartida, as representações do sujeito são sobrecarregadas por ódio: insignificante, horrível, ordinário, imperfeito, fracassado. Nessa medida, os traumas dificultam a realização do desejo do adulto e a integração das representações de seu valor ao sistema (Almeida, 2010; Almeida, 2016).
                 E, mais, no sistema representacional há as representações de ganho, de perda e dos paradoxos lógicos. A vivência de perda associa-se aos traumas do sujeito envolvendo catástrofes naturais e relacionais. Impactando um nível psíquico muito primitivo, o trauma gerado pela ameaça à vida pode ser induzido por catástrofes naturais – furacões, terremotos, entre outros – e por fome prolongada, assaltos brutais, guerras. Traumas relacionais-familiares também podem atingir sua vida psíquica: uma gravidez ilegítima, a rejeição de uma criança pelo pai, entre outras. Igualmente, as perdas sofridas pelos pais em sua infância e aquelas vividas em seu casamento podem ser transmitidas como dívidas ao filho. Nesse âmbito, sua catástrofe psíquica se deve à violência imposta a ele por pessoas significativas e às suas reações violentas a elas (Almeida, 2015). Além do mais, os traumas favorecem a formação do paradoxo mental que conjuga representações contraditórias no sistema: tudo e nada, ganho e perda, cheio e vazio, exclusão e inclusão. O paradoxo mantém o sujeito preso à compreensão de uma experiência, que o deixa ‘sem saída’ (Almeida, 2010; Almeida, 2016).
                  Ainda nesse âmbito, Kaës (2001) aponta a identificação como o processo maior de transmissão da vida psíquica na família – inclusive os traumas.
                  Os traumas são disseminados, além disso, por meio da contra-identificação. Junto com a identificação, a contra-identificação consiste em um processo de formação do eu e um mecanismo de defesa: facetas do mesmo movimento psíquico no sistema das representações. A criança pode se contra-identificar com características odiadas de seus pais, aos quais atribui seu sofrimento. Contudo, elas favorecem a satisfação de seu desejo em sua vida adulta. Sendo assim, certo filho pode se contra-identificar com a determinação, o empreendedorismo e o sucesso de seu sádico e odiado pai, traços aos quais atribui seu abandono e seu desamparo. Ao sobre-investir de ódio as representações de ser abandonado e ser desamparado, ele não investe de amor ser empreendedor, ser determinado e ser bem-sucedido como seu pai. Apenas essas representações e afeto permitem efetivar seu desejo no presente, atingido por traumas em seu passado (Almeida, 2010; Almeida, 2016).
                 Para efetivá-lo, é preciso trabalhar as representações de si, dos objetos primários e dos objetos secundários, seus afetos, suas identificações, suas contra-identificações e seus paradoxos mentais. Assim, seu desejo – em seus fundamentos mais essenciais – pode ser realizado no mundo das relações.
Um ermitão em nossos dias
                 Nesse estudo biográfico, apresenta-se a história de vida de um ermitão contemporâneo, entremeada por frases do próprio biografado – citadas entre aspas.              Essas referências são encontradas em Masters (2011).
                  Simon Norton é um gênio matemático, cujo QI já era 178 aos três anos de idade.                   Na escala da inteligência humana, a média do QI é 100, sendo que 140 é considerado excepcional.  Portanto, o escore de Simon vai muito além do excepcional. Todavia, a outrora famosa criança prodígio retirou-se do mundo. Ele vive rodeado por livros e revela-se descuidado quanto a muitos aspectos da vida cotidiana, inclusive no tocante a cuidados pessoais. 
                  Nascido numa família próspera, seu pai foi uma figura distante e solitária, que administrava a loja de joias da família. Atualmente, seu irmão lhe garante uma renda, que ele mal usa. Ainda que ele seja o dono de uma casa, ele vive no porão. Simon chama-se de esquivo. Entretanto, segundo o jornalista e biógrafo A. Masters, ‘meu senhorio é um homem generoso e suave, tão brilhante quanto o sol’. Para o jornalista F. Hubbard, Simon é uma companhia afável e tem um senso de humor maroto. Conforme o jornalista A. Linklater, ele é profundamente cativante.
                  Sua mãe ensinou-lhe equações quadráticas, quando criança. Na escola, foi reconhecido por seu talento extraordinário e alcançou as notas máximas como membro do time inglês na Olimpíada Internacional da Matemática. Nesse campo, a teoria dos grupos é a área que o apaixonou, de modo que premiações, aplausos e glória acadêmica deveriam ter se seguido a seus estudos. Isso ocorreu com o professor Conway – figura paterna gregária e reverenciada por ele, sendo que Simon o admirava ‘quase como pai’. Em meio a isso, suas personalidades eram opostas. Conway era entusiasmado, brincalhão, tagarela, eloquente, com fina sensibilidade poética e ardente com as mulheres. Em muitas ocasiões, ele admitiu: ‘Eu tenho um grande ego! Como eu sempre digo, a modéstia é meu único vício. Se eu não fosse tão modesto, eu seria perfeito’. Em contrapartida, Simon era modesto e dotado de delicadeza intelectual; ele não fazia a outra pessoa se sentir estúpida e consciente de que ela estava errada, segundo a esposa de Conway.
                   Perguntado sobre o que deu errado em sua vida, Simon retrucou: ‘Tudo e nada’. ‘Conway abandonou Cambridge por Princeton’. ‘Eu tinha acabado de descobrí-lo e estava encantado com o mundo matemático, no qual ele estava me introduzindo.                Foi um caso de amor mental. Eu nunca mais trabalhei tão eficientemente como com ele. Fui vê-lo algumas vezes nos Estados Unidos, mas a velha mágica não mais existia. Não era mais intensa o suficiente’(p.18). De repente, seu companheiro intelectual mais próximo se afastou, causando nele ‘um tipo de luto’. Além disso, Simon tinha um estilo expositivo que pouco atraía os alunos e ele foi banido de Cambridge. Negado a ele esse ambiente estimulante que ele amava, ele se sentiu como uma mera ‘ponta solta’. Nessa medida, Simon foi uma criança brilhante que falhou em viver de acordo com as enormes expectativas depositadas nele. Porém, ainda publica artigos de matemática, tem contato com alguns colegas e trabalha em problemas matemáticos por puro entretenimento.
                   Ainda no que tange ao declínio de sua vida, em vista de sua carreira meteórica inicial, ele diz: ‘Não é que os matemáticos se esgotem, mas eles exploraram suas áreas de competência bastante cedo, como no meu caso. É um cliché que matemáticos estejam decaindo em meados dos trinta anos, mas não é a perda da inteligência matemática que enfraquece sua habilidade, mas a perda do foco. No meu caso, foi perda e dor’ (p.19).
                   Perda e dor com relação ao Professor Conway – que teria precipitado seu catastrófico colapso intelectual – e à desregulamentação dos ônibus. Essa lei mundana lhe causou profundo sofrimento: ‘um trauma adicional’. Com relação a isso, ele associa: ‘Conway perdia frequentemente o ônibus, negligenciava sua esposa e se envolveu com outra mulher. Teve que ir pra Princeton para pagar o divórcio. Se houvesse uma boa linha de ônibus naquela época...’. Com isso, Simon desistiu do mundo acadêmico. Por outro lado, a destruição daquele serviço gerou um novo foco para sua paixão intelectual: campanhas de conscientização sobre isso. Segundo ele: ‘O grande amor da minha vida estava sendo assassinado, eu estava dilacerado pelo meu desejo de salvá-lo e de passar tanto tempo com ele quanto possível’. Seu fascínio pelo transporte público estaria ainda relacionado com sua aversão a carros. Ele se sentia nauseado nos trajetos com sua mãe devido ao cheiro de seu cigarro e da gasolina.  De acordo com ele: ‘Há um tipo de ligação entre esses eventos em minha vida’(p.20).
                    No plano das relações humanas, ele também experimenta sofrimento psíquico. Ele leva uma vida solitária e tem pouco interesse no sexo oposto. Quanto a isso: ‘Li um artigo sobre pessoas assexuadas e pensei: ‘Ah! Sou eu’. ‘Sinto que me assentar com alguém poderia ser uma boa ideia, mas eu nunca tive esse desejo na prática. Houve uma ou duas pessoas com quem fantasiei ter um relacionamento, mas nunca dei passos em direção a isso.’ Apesar de ele se sentir sozinho, coisas relacionadas com a sociabilidade não o interessam – fofoca ou roupas. A respeito disso, ele diz: ‘Comprar é um aborrecimento completo e tedioso’(p.24).
                     Suas raízes podem ser antigas e envoltas nos desvãos do inconsciente. Muito embora ‘encanto’ – loveliness – seja a palavra utilizada por Simon para se referir à sua genitora, ela o fazia tomar banho e trocar de roupa – mantida especialmente para suas visitas – antes de beijá-lo e lhe dizer olá. Segundo ele, ‘se não era uma coisa, era outra; eu sentia que eu nunca conseguia satisfazê-la’. Nessa via, ainda no âmbito psicológico: ‘Sou feliz no sentido de ter me reconciliado com meu caráter. Sou exclusivamente feliz? Não’.
                    De modo geral, trata-se de um matemático outrora apaixonado por matemática, superdotado e introvertido, características que lhe conferem uma singularidade ímpar.   A despeito disso, sua história de vida foi marcada por pressões precoces, perdas e traumas, que podem ser pensados a partir da psicanálise.
Discussão
                    A descrição de Simon como uma companhia afável, suave, generosa, com um senso de humor maroto e profundamente cativante – além de outras características apontadas – tem ressonância com as ideias  de Kretschmer (1974)  acerca dos traços esquizoides: sensibilidade, gosto pelos livros, docilidade, amabilidade. Conforme Dalgalarrondo (2008), esse transtorno é caracterizado por falta de interesse em relações sociais, estilo de vida solitário e distanciamento afetivo.  Com relação a sua etiologia, Skodol (2018) aponta que – além de suas bases genéticas – cuidadores insensíveis, negligentes, bastante perfeccionistas e distantes podem contribuir para o desenvolvimento desse transtorno.
                    Mais especificamente, os atributos esquizoides de Simon podem ser articulados à sua relação com sua mãe. Quanto à sua náusea com o cheiro do cigarro dela parece que ela não prestava atenção ao desconforto do filho – dada a repetição desse evento. Evoca-se, ainda, a questão de suas exigências quando das visitas do filho a ela. Diante de sua mobilização e aproximação afetiva em direção a ela, sua mãe o submetia a seus parâmetros de higiene, roupas e apresentação social. Muito provavelmente este padrão deve ter se repetido ao longo da relação entre eles. Regras e convenções sociais parecem ter prevalecido nesse intercâmbio, faltando espaço para a espontaneidade e a naturalidade entre eles. Daí, quiçá, advenha seu descuido e seu desdém por cuidados pessoais, roupas e aspectos triviais da vida cotidiana. Parece tratar-se de uma franca oposição à sua mãe, em busca de sua própria identidade.
                   Esta questão lembra as ideias de Freeman (2010) quanto à rebelião fazer parte do desenvolvimento saudável da identidade adolescente. Em específico, Simon parece exemplificar o filho que faz coisas completamente diferentes de sua mãe, para se diferenciar dela. Isso poderia levá-lo a diversos problemas de saúde mental.
                   Ainda enfocando a relação de Simon com sua mãe, fazem sentido os conceitos de Balint (1993) acerca da discrepância entre as necessidades biopsicológicas do sujeito e o cuidado psicológico-material e a afeição – disponíveis no objeto primário. Simon exemplifica o filobatismo, no qual as expansões do eu desligadas do objeto retêm o investimento libidinal. Elas são consideradas seguras e amistosas, enquanto os objetos são perigosos e traiçoeiros. Assim, ele superinveste as funções do ego, cujas habilidades mantêm-no com pouco auxílio dos objetos. O ódio perpetua sua dependência do amor primário. Quanto ao seu ódio e à sua dependência do objeto primário, ele diz que nunca conseguia satisfazer sua mãe.
                 Seu objeto primário/pai solitário e distante foi o modelo – por oposição – para seu fascínio por Conway – figura paterna gregária e reverenciada por ele – configurando a idealização desse objeto secundário (Almeida, 2010). Desse modo, o trauma pela perda de Conway se somou à desregulação dos ônibus – ‘um trauma adicional’. Sua ruptura com o meio acadêmico demarcou outra perda/ruptura de vínculo importante para ele. Nessa sequência, Conway parece ser representado pelo serviço de ônibus – por deslocamento.       O desmantelamento desse serviço configurou uma nova perda para ele. Em suas palavras: ‘O grande amor da minha vida estava sendo assassinado, eu estava dilacerado entre meu desejo de salvá-lo e meu desejo de passar tanto tempo com ele quanto possível’. Logo, sua militância atual quanto aos ônibus serviria para reparar o anterior problema com eles, que favoreceu a partida de Conway. Configuraram-se, desse modo, suas sucessivas perdas traumáticas ao longo da vida, que muito alteraram a potência de realização de seu desejo e o funcionamento de seu sistema representacional (Almeida, 2015).
                 De modo geral, suas figuras paterna e materna parecem ter favorecido o desenvolvimento de sua identidade por oposição a eles. Sua oposição a eles remete ao processo de formação do eu por contra-identificação com seus pais (Almeida, 2016). Nesse contexto, evidencia-se o fato de os temperamentos de Simon e Conway serem opostos – favorecendo sua atração por esse objeto oposto a ele. Conforme Fishman (2010) e Holmes (2016), a introversão e a extroversão associam-se às estruturas cerebrais e a seus neurotransmissores – fato que se aplica a Simon. Nesse aspecto, em parte, seu distanciamento do mundo não é patológico, mas fundamentalmente inato e estrutural.                A despeito disso, grande parte de seu distanciamento pode ser atribuída a bloqueios de seu desejo – devido a seus traumas. Estes alteraram a eficácia representativa do sistema quanto a representar seus impulsos, relações de objeto e estados mentais (Almeida, 2003; Almeida, 2010; Almeida, 2016).
               Adentrando-se na especificidade do sistema representacional de Simon, outros pontos precisam ser retomados. De início, destacam-se as contraposições de representações: pai distante e solitário versus ídolo afetivo e gregário, bem como ser o senhorio versus ser o morador do porão de sua casa. Além disso, ele se representa como esquivo, mas é representado pelos jornalistas como afável, agradável, generoso e cativante. E, ainda, ele é solitário, mas sua paixão intelectual se centrou na teoria dos grupos e, atualmente, ele participa de grupos de campanha em prol dos ônibus.
               No tocante ao seu declínio pessoal e profissional, sua perda de foco envolveu perda e dor – dada a ruptura do vínculo com o professor Conway. Isso se confirma em sua resposta acerca do que deu errado: ‘Tudo e nada’ referidos a ele. Nesse ponto, a contraposição de ideias se revela ainda mais grave: marcante paradoxo mental. Numa reedição de seu ‘encanto’ com sua mãe, ele viveu junto a Conway ‘o encanto pela matemática’ ‘uma velha mágica’ e ‘um caso de amor mental’. Sua idealização possivelmente foi representada como ‘tudo’ em seu sistema representacional. Já sua perda constituiu ‘um tipo de luto’ e a perda do ‘trabalho eficiente’ – possivelmente representada como ‘nada’ no sistema. A junção dessas representações antagônicas que formaram seu paradoxo mental o deixou sem saída psíquica. Além disso, com a partida de Conway, ele deve ter se sentido novamente abandonado – tal como possivelmente se sentia com seu distante genitor (Almeida, 2010; Almeida, 2016).
              Ainda quanto ao declínio de sua vida, suas áreas de sua competência foram exploradas precocemente. Ele descreve, assim, as enormes expectativas depositadas sobre ele muito cedo e sem acompanhamento psicológico especializado (Freeman, 2010).
               Seu sofrimento psíquico envolve seus objetos primários e secundários – humano idealizado/grande matemático e (i)material-simbólico/ matemática. De modo geral, esses objetos secundários foram investidos por amor e ódio. Contudo, o objeto humano idealizado/Conway foi investido por intensa carga de amor. Mais especificamente, as representações e os afetos valorizados por Simon foram projetados nele. Ao projetar seu valor nele de forma maciça, esse objeto seria representado possivelmente como extremamente competente, extremamente eficiente, brilhante e bem-sucedido no mundo – ‘eu nunca mais trabalhei tão eficientemente como com ele’. A partir disso, restaria a Simon se representar como extremamente incompetente, extremamente ineficiente, ordinário e fracassado no mundo. Além disso, com a ruptura desse vínculo fundamental para seu eu, a matemática parece ter sido investida por forte carga de ódio por ele. Esse processo propiciou a inibição da capacidade produtiva de Simon, a despeito de seu brilhantismo intelectual (Almeida, 2010; Almeida, 2016).
                A forma paradoxal de seu desejo no plano do tudo ou nada ilustra a destrutividade, que concerne à vida psíquica. Denuncia a confusão quanto aos limites de seu eu, dada a indiferenciação eu-objetos/mãe, pai, ídolo. Nesse caso, ao perder sua parceria com Conway, ele deixou de ser competente, eficiente e bem-sucedido – como se estas características não fossem suas e independentes do objeto idealizado. Nesse contexto mental, suas reações a essa vivência paradoxal parecem incluir: incapacidade de pensar; agressividade dirigida a si mesmo e passividade diante de seu sofrimento.
                Sendo assim, a ruptura de seu eu com relação ao seu brilhantismo intelectual e ao mundo revela as falhas na capacidade de representar do sistema das representações, em virtude do impacto dos sucessivos traumas vividos por Simon.
Considerações finais
                 Dadas suas bases genéticas e ambientais, o transtorno esquizoide de Simon testemunha sua intensa ruptura de vínculo consigo mesmo e com o mundo – acadêmico e geral. Sob o enfoque psicanalítico, os limites de seu poderio intelectual se devem aos sucessivos traumas, às perdas e aos paradoxos mentais que atingiram seu sistema representacional. Contudo, seus traumas, perdas e paradoxos com os objetos primários não são descritos de forma clara e definida em sua biografia, apesar de serem a base para sua repetição junto aos objetos secundários. Faltam informações para entender melhor seu sofrimento psíquico e a paralisia de seu desejo quanto ao universo da matemática.
                 Contudo, a construção de boa parte de seu desejo em oposição a seus pais e seu consequente fascínio pelo objeto idealizado – oposto e semelhante a ele – comporta elementos narcísicos e objetais. A faceta narcísica de seu fascínio por Conway envolve as semelhanças entre eles – gênios matemáticos apaixonados por matemática – e sua faceta objetal remete à oposição entre ele e Conway – em termos de personalidade e da relação com seu desejo e o mundo. Nesse aspecto, igualmente, seu encanto parcial com sua mãe e seu provável desencanto com seu pai se desdobraram em intenso encanto com Conway. Portanto, o maciço investimento de amor e valor de Simon em Conway sequestrou dele o necessário investimento de amor e valor para realizar seu desejo. Nessa medida, seu desejo – em seus fundamentos mais essenciais – não pôde ser realizado no mundo das relações adultas. Quiçá, uma análise pudesse ajudá-lo nesse sentido.
Referências
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Almeida, M. E. S. O ganho, a perda e os paradoxos no enfoque transgeracional. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, v.8, n.1, 2015, p. 37-50. 
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Balint, M. A Falha Básica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
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Olá    Se vc quiser conversar sb esse ou outro texto, vou adorar. Bj     Maria Emilia
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Atualizado em: Sex 20 Nov 2020

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