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O lado saudável e o lado patológico do ser humano nas crises e catástrofes: o coronavírus

I- Introdução
- Examinando os termos do título
                 Ao se pensar o termo saudável, este remete à saúde mental tal como definida pela OMS (2014): consciência de suas habilidades, capacidade de lidar com os problemas do dia a dia, capacidade de trabalhar de forma produtiva e capacidade de contribuir para a própria comunidade.
                 Por sua vez, o termo patológico remete, a princípio, à doença. Contudo, a etimologia de pathos - do grego - se refere a sofrimento, paixão, afeto. Pode-se, então, entendê-lo como passagem e transformação por meio da palavra, associadas às mudanças psíquicas geradas por uma análise (Dicionário etimológico online, 2020).                         E, mais, a etimologia de crise - do latim - designa o momento de mudança súbita, o momento de decisão. Mais especificamente, em medicina designa o momento decisivo ou difícil em termos de doença, no tocante à sua evolução para a cura ou para a morte. Popularmente, a palavra crise é entendida como perigo e oportunidade com base numa pretensa tradução oriental do termo. Não obstante, segundo tradutores abalizados do mandarim, seu significado mais fidedigno é ponto crucial e crítico - não exatamente oportunidade (Mair, 2005).  A etimologia de catástrofe - do grego - envolve cata que significa para baixo e strophein que significa virar, tendo o sentido de reviravolta nas expectativas e fim trágico. Logo, catástrofe designa qualquer acontecimento que se torna grande desgraça com consequências graves (Dicionário etimológico online, 2020).
                Em se pensando um exemplo atual do comportamento humano frente às crises e catástrofes, entra em questão a catástrofe do coronavírus. Dentre as iniciativas saudáveis ao se lidar com ele no Brasil e no mundo, encontram-se: doação de dinheiro por anônimos, artistas e milionários, realização de shows de artistas apresentados em lives, ofertas de almoço para pessoas carentes, arrecadação de dinheiro por atletas, liberação de livros por parte das editoras, criação de museus virtuais, disponibilização de hotéis de luxo na Europa para médicos e pacientes atingidos pela covid e, ainda, realização de campanha de empresários brasileiros propondo ‘não demita’, dentre outros. Um exemplo marcante de iniciativa saudável quanto ao coronavírus ocorreu na Estônia, recentemente. Neste país, o hackathon virtual envolveu pessoas com formações diferentes buscando soluções para problemas em comum: a crise do corona. O termo hackathon deriva de hackear a crise e de maratona, sendo que to hack, em seu aspecto positivo, significa explorar soluções e criar programas de ação.  Por outro lado, as iniciativas patológicas em diversos países abarcam: depredação de casas, saques de estabelecimentos comerciais, golpes via whatsapp, fraudes na compra de respiradores e outros equipamentos hospitalares, guerras ideológicas frente às diferenças de ideias, proposta de sexo em troca do aluguel do imóvel, no caso de pessoas inadimplentes nos Estados Unidos (Uol, 2020).
                 De modo geral, o lado saudável do ser humano compreende ações embasadas em virtudes como: bondade, empatia, compaixão, solidariedade e altruísmo.                   Em contrapartida, seu lado patológico abarca ações movidas por cobiça e inveja do bem alheio, que suscitam o desejo de destruí-lo; pelo pavor de passar fome e pelo pavor diante da violência psicológica e física do outro. Essas ações se alimentam, ainda, do horror subjacente à atração humana pelo mórbido, no caso de cenas mórbidas que passam repetidamente em alguns canais da tv e, por fim, do desespero, quando a pessoa se percebe sem saída diante da catástrofe gerada pelo corona.
                   Dadas as diferenças socioeconômicas ressaltadas no enfrentamento dessa catástrofe, pode se apresentar forte inveja de alguns diante das melhores condições experimentadas por outros. Sendo assim, para se pensar a inveja humana – presente ao longo da historia da humanidade – recorre-se a dois importantes pensadores.                                         Importante teórico de extração filosófica, Spinoza (1613) conceituou a inveja como o ódio do homem que se entristece com a felicidade de outrem e que se alegra com seu mal. Três séculos depois, uma grande expoente da psicanálise, Klein (1998) conceitua a inveja como o sentimento inconsciente de avidez e ódio do objeto bom que se quer destruir ou danificar. Desse modo, delineia-se o desejo de destruição do outro e de algo que lhe é próprio inerente à inveja.
II - Psicologia e as emoções em relação às crises e catástrofes
- Ideias iniciais
 Ao se examinar o impacto psíquico gerado pelo coronavírus nas pessoas, cabe recorrer à psicologia e à psicanálise, posteriormente, para pensar as emoções básicas e secundárias que ele pode deflagrar.
No campo da psicologia, as emoções básicas compreendem: surpresa, nojo, medo, alegria, tristeza e raiva, ao passo que as emoções secundárias – sociais ou adquiridas – incluem: amor, ciúme, inveja, orgulho, vaidade e culpa, entre outras.
- Psicologia, emoções e coronavírus
                    No caso específico do coronavírus, as emoções básicas que ele tende a deflagrar são: medo coletivo, tristeza pelas perdas geradas por ele, nojo diante da deterioração dos corpos e raiva diante das frustrações impostas por ele. As emoções secundárias conflagradas por ele podem ser: amor e compaixão para com o próximo; ódio e inveja das pessoas mais favorecidas do ponto de vista socioeconômico; orgulho em seu aspecto de autoestima em virtude de ações de ajuda ao outro e, ainda, orgulho em seu aspecto de arrogância (Bion, 1958) no sentido de se sentir superior ao outro; vaidade de muitos governantes imperando sobre as necessidades da população e, inclusive, pavor, horror e desespero diante da fome e da violência vividas por muitos.
III- Conceitos psicanalíticos quanto às crises e catástrofes
- Paralelo entre psicanálise e psicologia quanto às emoções
              Tendo-se discutido as emoções básicas e secundárias em psicologia, cumpre fazer um paralelo entre esses dois campos do saber no tocante a elas.
Freud (1915) aponta que o ódio, na relação de objeto, é mais antigo que o amor. Em seus primórdios, tem sua fonte na recusa do eu narcísico ao mundo exterior. Freud (1923) propõe que as pulsões de vida e de morte estão misturadas, em proporções variadas nas pessoas. Porém, em determinadas influências, ocorre a defusão das pulsões, de modo que, nesse caso, se instala a patologia. No âmbito das pulsões, a pulsão de vida - pulsão sexual e de autoconservação - remete ao amor e a pulsão de agressão e destruição envolve o ódio na psique. Portanto, psicologia e psicanálise trabalham com emoções em comum, destacando-se a força do amor e do ódio na psique segundo a psicanálise.
- A importância do amor na saúde mental em diferentes abordagens da psicologia
               Dentre as diferentes abordagens da psicologia que abordam a saúde mental, a psicanálise considera que o predomínio da pulsão de vida/amor sobre a pulsão de morte/ódio favorece a saúde mental, enquanto o predomínio da pulsão de morte/ódio sobre a de vida/amor demarca a patologia. Cabe retomar a enunciação de Freud (1911) de que a psicanálise é a cura pelo amor. Prógono da psicologia analítica, Jung (2011) propõe que onde o amor impera, não há desejo de poder e onde o poder predomina, há falta de amor: um é a sombra do outro. Iniciador da abordagem corporal, Reich (1998) aponta que o amor, o trabalho e o conhecimento são fontes de nossas vidas e que deviam também governá-las. Psicanalista da vertente culturalista, Fromm (1956) considera que o amor é a única resposta sensata e satisfatória para o problema da existência humana.  Em síntese, autores de diferentes linhas da psicologia apontam que o amor é a emoção mais fortemente interligada à saúde mental. 
- Crises e catástrofes e seu efeitos na psique     
               No campo da psicologia, as crises e catástrofes podem produzir depressão,  ansiedade,  suicídio,  luto e stress pós-traumático, entre outros transtornos (Dalgalarrondo, 2000).
               No domínio da psicanálise, faz-se necessário enfocar os traumas, as perdas e o desamparo - intrínsecamente associados ao sofrimento psíquico - produzido pelas crises e catástrofes. Nesse caso, a pulsão de morte/ódio e a patologia podem predominar na psique a partir da relação com o outro. Como defesas do ego ao sofrimento psíquico, podem surgir a identificação com as pessoas mais desfavorecidas levando à ajuda humanitária, bem como pode se apresentar a negação da realidade e a recusa de parte da realidade associada à consciência de outra parte da realidade - claramente observadas em pessoas que defendem a volta imperiosa ao trabalho e circulam sem a proteção das máscaras em meio ao aumento dos casos de coronavírus.  
- Freud e o desamparo no bebê e no adulto
              Para se pensar a questão do desamparo gerado pelas crises e catástrofes, lança-se mão de alguns conceitos psicanalíticos.
              Freud (1914) diz que os primeiros objetos do bebê são aqueles que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção: sua mãe ou substituta. Sendo assim, em sua estruturação inicial, o eu do bebê se apoia e depende dos cuidados dos objetos. Freud (1927) defende que o bebê depende completamente de outrem para a satisfação de suas necessidades e que a relação com ele tem forte influência na formação do seu psiquismo. Já no adulto, o desamparo constitui o paradigma das situações traumáticas. As situações de perda e separação aumentam a excitação psíquica, podendo levar o sujeito a ficar engolfado por elas.
- Freud e os traumas
              Faz-se necessário apresentar, a seguir, as contribuições de Freud quanto aos traumas. Como esse conceito foi sendo modificado por ele com o passar do tempo, recorre-se a dois compiladores da obra de Freud acerca da mente.
               Laplanche e Pontalis (2006) apresentam uma síntese das concepções de Freud sobre o trauma ao longo de sua obra. Para ele, o trauma é um acontecimento cuja intensidade provoca transtornos e efeitos patogênicos duradouros na organização psíquica do indivíduo. Ele gera uma quantidade excessiva de excitações na psique, incapaz de elaborá-las, levando à fixação da libido.
- Almeida (2003) e o trauma do absoluto
                Em se pensando a questão do desamparo e dos traumas produzidos pelas crises e catástrofes, recorre-se a alguns constructos psicanalíticos. Dessa vez, apresentam-se ideias da autora sobre eles oriundas de seu doutorado.
                O trauma do absoluto inclui as representações: ser abandonado, desamparado, rejeitado, não-amado, excluído, um nada, um desastre, para sempre, sem lugar no mundo, dentre outras. Elas são investidas por forte carga de ódio e horror, contrária à realização do desejo do adulto na realidade e no mundo das relações. Fruto do trabalho analítico com o trauma do absoluto, as representações coerentes com o desejo do sujeito incluem: ser amado, competente, dedicado, persistente, bem-sucedido, vencedor, que investidas por amor, favorecem a realização do desejo do adulto.
- Almeida (2015) e os ganhos, as perdas e os paradoxos na vida psíquica
             Mais um conjunto de ideias da autora se presta a discutir as consequências psíquicas das crises e catástrofes na psique, enfocando-se, em específico, o coronavírus.
             Almeida (2015) trabalha com os ganhos, as perdas e os paradoxos na vida psíquica. As vivências mentais de ganho, perda e paradoxos sobre eles fazem parte da transmissão do sofrimento psíquico na família. De modo geral, a perda impera sobre o ganho como vivência humana mais marcante e mais impactante na psique.
             Encontram-se inúmeras expressões linguísticas de ganho e perda no cotidiano. Dentre as primeiras, há ganhos consideráveis em ‘subir na vida’ significando enriquecer,  em ‘subir aos céus’ ao ser alçado à condição de santo e, inclusive, em ‘dar a volta por cima’ ao superar uma situação adversa. Por outro lado, há perdas em: ‘a casa caiu’, ‘fiquei sem chão’ - utilizadas frente à perda causada por uma traição, que se transforma em um relacionamento sério. E, ainda, ‘caí de quatro’ no sentido de deslocamento para baixo no espaço, como animal, no caso do abandono e desprezo pelo objeto de amor. Ademais, a expressão ‘meu mundo caiu’ é usada por um bilionário frente à possível perda do filho muito amado, num acidente. Nesse caso, suas representações de identidade perdem sua força: ser bilionário, poderoso, dono de um império construído por ele. Ele se depara com a incapacidade de representar a possível perda. Ao encontrar seu filho vivo, empreende uma busca intensa e extensa dos amigos do filho, como forma de agradecimento por sua vida. E, mais, meu mundo virou de cabeça para baixo’ se refere a deslocamento no espaço em virtude de uma mudança abrupta na vida, enunciada por um rapaz que vive a morte/perda da mãe, incentivadora de seu crescimento, pouco antes de sua formatura.
              Muito provavelmente, as incontáveis pessoas atingidas pela crise atual do corona devem utilizar essas expressões relativas a perdas em seu cotidiano. Outras tantas – felizmente – que se recuperaram e tiveram pessoas significativas recuperadas devem estar utilizando expressões de ganho para retratar o que estão vivenciando.
IV- Considerações finais
             Tanto a psicologia quanto a psicanálise permitiram pensar a atual catástrofe do coronavírus, inclusive ao se traçar um paralelo entre suas contribuições sobre as emoções e a saúde mental.
              Em se trabalhando com a psicanálise para se pensar as crises e catástrofes e, mais especificamente, os efeitos psíquicos do coronavírus, foram examinados os traumas, as perdas e o desamparo - imbricados a intenso sofrimento psíquico. Dentre os traumas, destacou-se o trauma do absoluto com suas representações mentais - ser abandonado, desamparado, rejeitado, nada, para sempre, entre outras - associado a incomensurável sofrimento, ódio e patologia. Ao lado disso, ressaltou-se que a vivência de perda/queda impera sobre a de ganho nas crises e catástrofes. O paradoxo do ganho e da perda se apresenta nas tragédias pessoais ligadas ao corona, pois aquele que sobrevive e vivencia ganhos psíquicos com isso talvez precise lidar com sofrimento psíquico intenso, devido à  perda das pessoas amadas.
               Em face disso, a ajuda humanitária, a união internacional e as redes de apoio social envolvendo bondade, empatia, compaixão, solidariedade e altruísmo - diminuem o sofrimento causado pelos traumas, pelas perdas, pelo desamparo e, consequentemente, amenizam o ódio na psique. As pessoas podem, espera-se, elaborar as perdas pessoais e ressignificar as perdas de vínculos significativos com os objetos de amor. Talvez, assim, possa se experimentar possíveis ganhos em vínculos inéditos, que amenizem o desamparo, as perdas, os traumas, em geral, e o trauma do absoluto, em específico.
              Quiçá, desse modo, a humanidade possa trilhar caminhos mais saudáveis...
Referências    
Almeida, M. E. S. (2003). A clínica do absoluto: representações sobre-investidas que tendem a deter o encadeamento associativo. Tese doutorado em Psicologia Clínica, PUC-SP.
Almeida, M. E. S. (2010). Uma proposta sobre a transgeracionalidade: O absoluto. Rio de Janeiro: Ágora, 13 (1). 
Almeida, M. E. S. (2015). O ganho, a perda e os paradoxos no enfoque transgeracional.  Gerais, Revista Interinstitucional de Psicologia, 8 (1 ).
Bion, W. (1958). On arrogance. Second thoughts. London: Karnac.
Dalgalarrondo, P. (2000). Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed.
Dicionário Etimológico online.                                                                                 Disponível em: www.dicionarioetimologico.com.br                                                            Acesso em: 13-08-2020.                                                                                              
Freud, S. (2006). Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud . Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1911). v. 12. pp 136-140 rev
Freud, S. (2006). Sobre o narcisismo. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud  Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1914). v. 14. pp 46-64 rev
Freud, S. (2006). Observações sobre o amor transferencial. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 12, pp. 99-107) Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1915). rev
Freud, S. (2006). O futuro de uma ilusão e outros trabalhos. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 21, pp. 4-37) Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1927). rev
Fromm, E. (1956).  A Arte de Amar. São Paulo: Nova Fronteira.
Jung, C. G. (2011). Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. São Paulo: Vozes.
Klein, M. (1998). Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago.
Laplanche, J. & Pontalis, J-B. (2006). Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes.
air, V. (2005). Danger + opportunity ≠ crisis: How a misunderstanding about Chinese characters has led many astray. PinyinInfo.com.
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Atualizado em: Dom 15 Nov 2020

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