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Só nós

              Tribalismo - conceito interessantíssimo, com exemplos em todas as esquinas. Como humanos que somos, evoluímos na base da contribuição, solidariedade, na base da troca social (foi assim desde que descemos daquela árvore nas savanas africanas). Somos seres grupais e solidários mas o paradoxo se revela no fato que de a identidade de grupo se consagra da diferenciação com quem não é do grupo. Insiders só são viáveis na existência de outsiders. Não somente nos vemos melhor refletidos nos outros mas precisamos dos outros para reafirmar quem somos (seja um time, um partido político ou uma denominação religiosa). Entender a existência de outro grupo e respeitar a sua idiossincrasia é tolerância. Negá-lo é tribalismo. E não há dúvida que, em nossos âmagos, somos tribais. Experimentos no século passado (hoje não seriam viáveis, eticamente) mostram a tendência que temos, inclusive na infância. Valorizar o grupo é valorizar a sua identidade pessoal e uma das formas de fazer isto é desvalorizar o outro grupo, do outro time. Desvalorizar é eufemismo para demonizar, que é estratégia para justificar como uma pessoa boa e razoável pode cometer atrocidades. Pois se torcer (seja lá o que isto signifique) para o outro time determina que a pessoa tem baixos padrões morais, atacar estes torcedores é justificável, na forma de limpeza social e também de autodefesa - pois seguramente foram eles que começaram. Petista, coxinha, mortadela, bolsominion: uma das formas de expressão do tribalismo são os rótulos, ajudam a criar a nuvem de fumaça que explica a impossibilidade de entendimento. ‘Eles são assim ou assado’, ‘nunca mudarão’. É possível encontrar estes fósseis no discurso de um tribalista: ao invés de mover-se em direção ao esclarecimento, aprendizado, elevando-se acima e além das contendas, ele julga triunfar exatamente abaixo delas, espalhando o caos, a confusão, as mentiras (quando necessárias e no formato que for - fake inclusive). No fundo, o tribalista não quer a evolução, não quer a resolução. Ele tão somente quer ler nas páginas do seu jornal preferido uma manchete que reafirme o que ele nunca teve dúvidas: que ele está certo e seus adversários, errados. Nesta incansável jornada (que pode nunca terminar), ele passará por lindos bosques - que entenderá como sendo simples lenha, afastar-se-á dos que lhe causarem dúvidas com o mesmo terror com que se afasta de seus inimigos declarados, emoldurando e justificando o uso da palavra ódio. Exemplos? Existem incontáveis seitas operando neste momento mas não há uma só pessoa que afirme participar de um culto (algumas confessam mas só depois que saem); 80% dos motoristas afirmam ser melhores que a média. Nosso senso de tribalismo ofusca nosso discernimento - fundamental para a autocrítica. Mas por fim, não determina nossa ações. Somos suficientemente evoluídos para operar como humanos mesmo com estes traços internos e antigos, pois temos outros recursos, como cultura e solidariedade para fazer as melhores escolhas.

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Atualizado em: Qui 12 Nov 2020

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