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Australopithecus envergonhadus


              Centenas de milhares de anos de evolução deram lições valiosas ao ser humano e se fosse necessário fazer um hiper-mega resumo desta aula seria: “dedique-se à obtenção de alimento útil e à reprodução”. Não se deixe enganar pela brevidade do enunciado: isto é bem mais complexo e doloroso que possa parecer (se não acredita, tente passar uma semana sem usar o polegar opositor). Porém, estas lições não foram passadas em tábuas de conhecimento ou dicas em blogs: elas foram esculpidas diligente e demoradamente em nosso DNA (e de outros animais também, óbvio) de tal sorte que somente muito recentemente (em termos evolutivos) nos demos conta que esta configuração de fábrica podia ser alterada de alguma forma. É uma experiência de humildade dar-se conta que nesta longa jornada, o gênero humano passou por muita coisa, teve enormes desafios, passou muito frio e muita fome, morreu precocemente por problemas nos dentes e que somente aos 47’ do segundo tempo começou a usar talheres, lavar as mãos antes de comer (alguns) e criar aparatos tecnológicos. Na esteira desta incrível jornada, um vírus muito importante integrou-se à nossa linhagem e passou a ter uma importância quase maior que ‘nós mesmos’: desenvolvemos uma consciência (novamente, alguns). A partir dela, passamos a ter preferências, características únicas, não somos mais somente o bando, a tribo, o clã: somos a união gregária de indivíduos com distinções mais importantes que a altura, cor dos olhos ou a força muscular. Temos aquele que é mais calmo, mais paciente, o que divide mais a comida, o que passa mais tempo sozinho e à medida que o tempo passava nos demos conta que éramos mais que uma emanação da natureza: tínhamos a força vital como os outros mas aprendemos a olhar nos olhos do outro e intuir o que ele sente, aprendemos a nos comunicar de forma sofisticada e vimos que era necessário fazer algo com esta recém adquirida capacidade.

              Foi só depois que esta habilidade reflexiva se desenvolveu muito, passamos a aceitar a ideia de que as lições da Mãe Natureza, embora sempre válidas, poderiam ser adaptadas, contextualizadas e, em certos casos, relegadas a segundo plano - em prol de benefícios maiores. Esta é a razão pela qual hoje estamos confortáveis com a ideia de não procurar comida (caça ou coleta) ao longo do dia, como fomos ensinados enquanto humanos. Entretanto, estes são movimentos racionais e adaptativos, que buscam espaço entre instintos mais antigos e selvagens. E quando materializamos conceitos como Justiça, Estados, Empresas, ONU acabamos por esquecer nossas origens, enlevados pelo senso de superioridade típico da raça e ignoramos o caminho longo, árduo, cheio de morte e sofrimento que nos levou até às portas de onde estamos.

              Afinal, quem se importa se milhares de anos atrás, um hominídeo não teria segundos pensamentos (talvez esta seja uma escolhe infeliz de palavras) antes de matar e comer um filhote de foca? De fato, esta não é a questão: o que me impressiona é que tantas dificuldades que temos atualmente podem ser parcialmente explicadas por este passado tão conturbado. Observemos, por exemplo, a nossa sociabilidade, esta incrível característica que compartilhamos até hoje que nos permitiu reunir esforços para criar uma rede de relacionamentos complexa, eficiente e numerosa. Bem, ela tem uma irmã feia (espero não estar ofendendo ninguém) que, mesmo sem ser convidada para a festa, insiste em aparecer: a xenofobia. Privilegiar os membros da sua tribo exige reconhecer que outros não pertencem a este grupo e, desta forma, não merecem o mesmo tratamento. Dividir a caça rica em proteína com os membros do clã traz vantagens de médio e longo prazo que sobrepujam o óbvio fato que o caçador fica com menos mas compartilhar esta comida com um estanho, um xénos, seria óbvia perda de tempo e se há uma característica sempre presente na evolução é a economia. Assim, hoje tratamos preconceito, xenofobia, racismo e outras formas de discriminação (reprováveis que são, claro) como desvios de mentes perversas contaminadas pela selvageria da sociedade atual, o crescente egoísmo e outras novidades, enquanto que há pouco espaço para perceber estas expressões como manifestações inculcadas em nosso comportamento por um longuíssimo tempo e que agora nos causa desconforto e até vergonha. Imagino quantas pessoas afirmam para si mesmas, com a honestidade típica de um monólogo interno “eu sei que este preconceito não é adequado mas não consigo sentir de forma diferente”. Imagino a sensação de repúdio contra si mesmo, contra estes pensamentos, mais instintivos que racionais, que acabam sendo sufocados dentro de si e, em alguns casos, expressos abertamente. Como cada um trata estas sensações, como elas são administradas dentro de si, é um desafio para cada um de nós mas não aceitar a raiz mundana, evolutiva, eficaz e generalizada destes instintos é fazer um corte no filme da evolução e fazer uma emenda com uma propaganda ideológica.

              Por certo, este não é um caso isolado. Desde o tempo que éramos tímidos caçadores ou que nos abastecíamos com os restos deixamos por caçadores mais eficientes, comer rápido e o máximo possível (antes que outros cheguem) era uma necessidade. Quem comia muito devagar, talvez saboreando bem a carne ou mastigando vinte vezes, como se recomenda, ou comia pouco ou virava jantar de outro. Ao passar dos anos, estes slow-eaters viraram motivo de piada entre os hominídeos (a versão que chegou até nós é aquela dos dois tomates que estão atravessando a rua) e sistematicamente se reproduziram menos que os comiam como se a vida deles dependesse daquilo. Eras depois, a gula é vista como pecado capital. Somente para efeito de convencimento, pergunto: você já sentiu uma forte necessidade de deitar e até dormir depois de uma refeição, talvez aquecendo-se no sol ou mesmo comendo uma bergamota (ok, esta última parte não é fundamental)? Bem, a economia de energia sempre foi uma das regras mais importantes que definiam o que podia ou não ser feito ou ao menos tentado? Vale à pena? A quantidade de calorias empregada na obtenção deste alimento justifica o empenho e o risco de obtê-lo? Desprovidos de uma balança e dos valores energético de cada grupo alimentar, dificilmente nossos ancestrais faziam contas para concluir qual a melhor ação mas com certeza empregavam este princípio com eficiência. Assim, fazer exercícios, correr em volta da caverna ou levar o pássaro Dodô para passear seria flagrantes violações deste imperativo evolutivo. Já deve ter ficado óbvio aqui mas reafirmo por clareza: a preguiça também virou pecado capital.

              Por certo não afirmo que preconceito ou preguiça devem ser simplesmente aceitos por serem ‘naturais’. Pelo contrário: acho que devem ser combatidos e acredito que a melhor forma de combatê-los é reconhecer que estas iniciativas tem um sentido evolucionário que por acaso não se aplicam mais. Felizmente, acreditamos que podemos ser mais do que um punhado de instintos paleolíticos mas a questão é exatamente esta: somos mais e não menos do que isto. Isto está dentro de nós, é parte integrante de quem somos, não deveria trazer embaraço e nem vergonha. Reflexão final: hoje é lugar comum dizer que ‘o problema da sociedade atual é o sexo’ mas imagino como seriam nossas vidas hoje se a espécie de hominídeo que tivesse prosperado não tivesse este desejo de reproduzir-se e tivesse adotado, como tantos grupos atualmente, a posição de total abstenção, assexualidade ou desejo sexual orientado a objetos inanimados. Subitamente paro de digitar para imaginar um mundo assim. Sem dúvida, teria menos poluição.


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Atualizado em: Ter 10 Nov 2020

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