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O que fazer com o tempo de vida

A princípio, essa pergunta parece banal e as respostas a ela parecem simples. No entanto, apesar de sermos a única espécie que tem consciência de sua finitude, de sermos inteligentes e de vivermos numa época em que se discute o que é ser feliz e ter qualidade de vida, muitas pessoas não estão atentas ao que fazem com o tempo de vida.
Prestar muita atenção à vida dos outros, vigiando-os e criticando-os, impede que a pessoa se atenha ao que está fazendo com a própria vida. Focar a vida das celebridades, de modo constante e intenso, também tira o foco da própria vida. Por vezes, as redes sociais revelam que a pessoa não cuida bem de seu tempo de vida. Certa pessoa coloca no Facebook suas viagens para lugares bonitos; contudo, tem dívidas em sua cidade e foge dos credores. Contraditoriamente, ao postar essas informações, suas mentiras sobre não estar na cidade são denunciadas por ela mesma. Assim, o tempo que ela utiliza para postar aspectos fantasiosos de uma vida ‘maravilhosa’ de viagens implica descuidar da parte mais ampla de realidade, que inclui suas dívidas. Estas a impedem de receber uma herança, que a ajudaria a viver bem. Uma funcionária tem um cargo de confiança numa empresa, sendo responsável por lidar com o dinheiro dos clientes. Muito calada e aparentemente muito honesta no trabalho, posta no Instagram fotos de uma piscina maravilhosa com cascata em sua casa. Quando os patrões percebem que ela desvia o dinheiro dos clientes, eles encontram lá evidências sobre isso. Ao querer mostrar para os outros seu sucesso, fornece pistas para ser incriminada e punida. Essa pessoa, que quer coisas ótimas da vida, poderia estar atenta a ganhar mais dinheiro, mudando de emprego ou fazendo algo que lhe permitisse ganhar mais. Nesses casos, as redes sociais servem para elas postarem suas fantasias – que, em parte, se ligam à realidade de que desfrutam – mas lhes falta o contato mais consciente e profundo com a realidade. Seu descolamento da realidade faz com que percam muito mais do que ganham com o uso de seu tempo de vida.
A partir disso, cabe pensar a questão da divisão do ego na mente humana. No tocante a isso, Freud aponta nas neuroses o conflito entre uma exigência instintiva e a proibição da realidade. Por um lado, o ego rejeita a realidade; por outro, ele reconhece seu perigo. A isso, junta-se o superego que exerce funções antes desempenhadas pelos pais: ele observa o ego, dá-lhe ordens, julga-o e ameaça-o com punições, como eles. Com isso, as autopunições ocorrem quando ela quebra regras e princípios do superego.
Explicando: na infância, a criança experimenta conflitos entre seus instintos – envolvendo amor, sexualidade, agressividade e autopreservação – e proibições da realidade – estabelecidas pelos pais. As regras, os valores, os princípios dos pais constituem seu superego. Nesse contexto, seus instintos exigem ser satisfeitos, mas ela também quer ser amada, valorizada e reconhecida como importante por eles. Para tanto, precisa acatar suas proibições. Portanto, o ego precisa mediar o conflito entre essas forças mentais opostas. No adulto, essa trama tem consequências.
Outras ideias ajudam a pensar os exemplos citados.
As experiências de ganho e perda fazem parte da vida humana, sendo que as perdas são mais amplamente representadas na mente. Aparecem como representações de ser ganhador, ser perdedor e como paradoxos. O paradoxo designa uma profunda contradição mental, na qual duas representações recebem uma carga de ódio. Dentre eles há: ser ganhador ou ser perdedor, estar cheio ou estar vazio. No paradoxo, mesmo após fazer conquistas e obter sucesso na vida, a pessoa não consegue se representar como ganhador e ‘cheio’ de sucesso. Em sua mente, ser perdedor e estar vazio imperam sobre ser ganhador e estar cheio de conquistas, associados à divisão do ego e a grande sofrimento mental (Almeida, 2015).
Como hipóteses para entender os exemplos, as pessoas parecem ter seu ego dividido entre ser ganhadoras e ser perdedoras, ser bem-sucedidas e ser fracassadas. Por um lado, desejam ser ganhadoras e bem-sucedidas, tendo comportamentos para alcançar isso; por outro, comportamentos opostos aos primeiros parecem visar autopunição e sofrimento psíquico, imperando ser perdedoras e fracassadas. Seu uso do tempo de vida revela essa divisão do eu, seus paradoxos e seus traumas.
A psicanálise aborda a atemporalidade do inconsciente, de modo que vivências infantis traumáticas continuam ativas nele – se não forem trabalhadas. Assim, uma análise pode elaborar essas questões e uma nova consciência acerca do que fazer com o tempo de vida pode ser conquistada.
Referências
Almeida, M. E.S. O ganho, a perda e os paradoxos no enfoque transgeracional. Gerais,Revista Interinstitucional de Psicologia, 8 (1), 2015.
Freud, S. (1923/2006). A divisão do ego nos processos de defesa. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

 

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Atualizado em: Dom 8 Nov 2020

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